segunda-feira, 12 de junho de 2023

AS JORNADAS DE JUNHO ERAM PREVISÍVEIS E AS CONSEQUENCIAS PODERIAM TER SIDO OUTRAS

ESTAVA ESCRITO NAS ESTRELAS

A mudança radical na política brasileira, que nos jogou em uma crise profunda, com a ascensão de personagens políticos que imaginávamos sepultados com o fim da ditadura militar e pela “Nova República”, não se deu repentinamente. Ela se seguiu a uma série de mudanças que já vinham acontecendo por diversas partes do mundo. Os movimentos dos “Indignados”, “Occupy”, e aqui no Brasil com as “Não é por 20 Cents” e “Não vai ter copa” refletiam os rumos de uma crise que já acontecia desde a virada do século XX para o XXI, atingindo o seu ápice com a chamada crise econômica em 2008, que se prolonga até os dias atuais, entre altos e baixos da economia mundial.

A mudança de estratégia dos EUA, para combater seus desafetos, com a eliminação seletiva via uso de drones para assassinar suspeitos de serem terroristas; e o advento das “guerras híbridas”, como táticas desconcertantes de desequilíbrios geopolíticos e intervenção indireta nas políticas de determinados países, a fim de derrubar governos que fossem considerados ameaças aos interesses do império, mantiveram o mundo sob tensão, até explodir em guerras como na Síria e na Ucrânia.

Resgato aqui, com links para acesso a artigos publicados no Blog Gramática do Mundo, os vários momentos em que, acompanhando pela geopolítica todas essas transformações, procurei indicar as crises que nos cercavam, e até mesmo arriscar em projeções sobre os rumos que estavam tomando o mundo, e, em especial, no nosso país. Posso dizer, com tranquilidade, que acertei no vaticínio sobre algumas das consequências que estavam por vir.

É dessa maneira que me manifesto nesse 13 de junho de 2023, quando se completam dez anos das JORNADAS DE JUNHO. Acrescento que a ascensão da extrema-direita se deu muito mais por negligência e extremo sectarismo e esquerdismo da esquerda e da chamada esquerda radical, do que pela competência de personagens e grupos até aquele momento invisibilizados.

A onda que se seguiu às manifestações de junho de 2023, foi também impulsionada pela cobertura midiática não meramente contemplativa, mas bastante ativa e a partir de 2014 praticamente protagonista na frente de propaganda, a fim de ampliar o poder da multidão com o intuito de derrubar o governo de Dilma Rousseff, alçando a condição de lideranças personagens saídos dos subterrâneos da política, outsiders, ou políticos inexpressivos, mas porta-vozes dos indignados, ressentidos, frustrados e alienados, cuja cultura política se expressa pelo seguidismo expresso nos votos de currais e na influência de púlpitos de igrejas que os transformam em rebanhos servis e ignorantes da realidade e do mundo objetivo.

Mas o resultado não foi como o planejado. A tentativa de impor um derrotado na condução do país, a partir de 2015, que culminou no impeachment de uma presidenta legitimamente eleita e sem culpa grave que a condenasse, no que se constituiu em um golpe institucional, falhou. E, após um governo desastrado de um vice golpista, a ascensão da extrema-direita fugiu de todos os roteiros planejados pela centro-direita com forte apoio midiático: o tiro saiu pela culatra. Mas os derrotados fomos todos nós, brasileiros e brasileiras, que amargamos dez anos de uma crise fabricada a fim de retirar o Brasil de uma rota que era diferente daquela que tradicionalmente o país vinha seguindo desde os seus primórdios. Embora tendo retornado Lula á presidência, depois de situações inusitadas e de idas e vindas, perdemos um tempo considerável em meio a destruição de toda uma estrutura de estado que favorecia às camadas mais fragilizadas da sociedade. Reconstruir tudo isso não será fácil, porque se criou uma polarização política nefasta, e os embates se dão com base em mentiras e ataques mesquinhos e perversos, dividindo de forma sectária a sociedade brasileira.

Mas a história está aí, para não deixar esquecer por quais caminhos trilhamos e por quais erros nos guiamos até chegarmos aos dias atuais. Precisamos lembrar, sempre, do nosso passado, para evitar repetir erros que são cruciais para nossas vidas.

 

INDIGNADOS! PARA QUAL DIREÇÃO SEGUEM AS MUDANÇAS?

Novembro de 2011

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2011/11/indignados-para-qual-direcao-seguem-as.html

Infelizmente, a revolta das pessoas decorrente de situações reais, de dificuldades que lhes afetam diretamente, ao não se traduzir em transformações imediatas (o que é praticamente impossível), criam desesperanças e jogam nas ruas milhares de pessoas sem a verdadeira percepção de como as estruturas do Estado funcionam. (...)

Mas há um reverso nessa história, e talvez seja o pior resultado. A possibilidade de esse descontentamento ser absorvido por grupos e partidos conservadores, à espreita do crescimento da desesperança que se seguirá à frustração inevitável daqueles que se entregam aos protestos, ao não verem resultados concretos nas suas revoltas.

 

INFORMAÇÕES ABSTRATAS CONSTROEM REALIDADES VIRTUAIS

Novembro de 2011

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2011/11/informacoes-abstratas-constroem.html

Tenho repetido sempre, seguindo o mestre Milton Santos, que a informação é carregada de ideologia e nos tempos atuais cumprem mais o objetivo de desinformar, do que propriamente criar uma consciência a respeito de sua complexidade, de forma a levar o indivíduo a refletir e a pensar, construindo hipóteses, dúvidas, que o levem a um questionamento capaz de construir novas ideias que possam mudar o mundo positivamente.

Infelizmente, a Universidade nos últimos anos somente replicou a lógica demandada pela dita globalização, ou mundialização como querem os franceses. Seguindo-se aos interesses do mercado, numa pressa espetacular para garantir mão de obra nas novas conformações do trabalho criadas mundo adentro, fragmentou-se em uma infinidade de especializações, reduzindo a capacidade da juventude (já representada nos dias de hoje nos profissionais que assumiram seus postos, em muitos casos inexistentes há pouco mais de uma década) de pensar, criar, que não fosse dentro da lógica capitalista da ampliação de seus ganhos.

Empobrecido nessa capacidade inventiva, não de construir novos caminhos da lógica capitalista, mas de novas ideias que possam tornar o mundo mais racional e humano, cede-se o espaço para uma perigosa situação. Num mundo de acesso fácil à informação, pouco assimilada, mas imediatamente incorporada à sua visão de mundo, cada indivíduo julga-se, ou melhor julga pelo que recebe de informações, capaz de opinar sobre tudo e a estabelecer juízos de valores sobre fatos que se apresentam de maneira abstrata, ou que são construídos para tornarem-se instrumentais ideológicos capazes de tornar-se uma verdade absoluta. Nada de mais, pelo contrário, se esse conhecimento não fosse construído de maneira superficial.

As redes sociais potencializam isso e transformam-se, elas também, em instrumentos que aceleram o processo, devido à rapidez com que essas informações circulam para milhares de pessoas em um curto espaço de tempo. Mal recebe a informação e ela é imediatamente repassada, sem processá-la e analisá-la, mas por envolver muitas vezes temas que são facilmente aceitos, ou pela polêmica que carregam, ou por situar-se no âmbito dos agrados ou desagrados que marcam o cotidiano daquela pessoa.

E assim, num mundo de verdades virtuais e de informações abstratas, muitas vezes falsas, ou construídas em uma versão ideológica, do interesse de quem as produz e as difunde nos submetemos a uma espécie de tribunal tridimensional, onde fato, verdade e versão, se confundem e transformam nossas vidas em uma mera ficção hollywoodiana.

Abre-se dessa forma, no vazio de ideias consistentes e inovadoras, um largo caminho para a fascistização da sociedade, com a ampliação de situações que demonstram acentuado grau de intolerância com o outro, com as diferenças, com os limites que existem nas relações em sociedade, de respeito mútuo e de aceitação das contradições como elementos que são somatórios na diversidade que constituem nossa humanidade.

 

AS ORIGENS DA INTOLERÂNCIA E O FASCISMO MODERNO

Março de 2012

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2012/03/as-origens-da-intolerancia-e-o-fascismo.html

O fascismo moderno, enfim, não aparece espontaneamente na cabeça de jovens. É fruto de teorias preconceituosas e de instrumentos sociais que criam e reforçam valores que se baseiam na intolerância, na não aceitação das diferenças, e na liberdade de as pessoas definirem suas opções sexuais. Como na atitude bizonha e estúpida de um deputado pastor que pretende criar medidas que desfaçam a opção sexual de gays.

Tudo isso faz parte de dogmas que permanecem sendo instigados de forma instrumental em templos, tabernáculos, igrejas e mesquitas de todo o mundo, muito embora não se constitua em regra geral nem tenha relação com a fé individual, de cada pessoa, com sua legítima crença e liberdade de acreditar no que lhe convier.

São teorias também que fundamentam programas partidários que representam setores econômicos dominantes e a classe média alta, mas que pelo reforço ideológico religioso dissemina-se indistintamente por todas as demais classes sociais, apontam para perigosos caminhos, e se refletem de forma mais agressivas em alguns países, mas tendem a se expandir na medida do crescimento da crise econômica.

 

AS CRISES E A DESCONSTRUÇÃO DA POLÍTICA

Maio de 2012

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2012/05/as-crises-e-desconstrucao-da-politica.html

Vivemos, assim, um momento de profundas contradições. Crise econômica nos Estados Unidos e Europa que potencializa situações em que a intolerância desperta as frustrações e o desespero pela falta de emprego e de perspectivas futuras, e aqui no Brasil, onde economicamente passamos por um período de expansão e crescimento, mas cujas delinquências políticas, tradicionalmente ainda vigorando, nos mantém tensos e incertos quanto ao nosso futuro. Ou a dúvida sobre quem será beneficiado com todo esse crescimento.

E, no meio de tudo isso, a necessidade de estarmos vigilante, principalmente aqueles que conhecem o processo histórico e os exemplos de situações parecidas que levaram a humanidade para rumos indigestos, e buscarmos o convencimento das pessoas de que não é banindo a política que esses problemas serão corrigidos.

Só haverá saída no âmbito da própria política. E é sempre assim, mesmo que no advento de um processo revolucionário. Sair dele será também um exercício de apaziguamento das diferenças e de acordos selados pela política. O que as pessoas não podem abdicar é da capacidade de discernir o joio do trigo na escolha de quem irá lhe representar nos parlamentos ou na condução das administrações públicas.

Recusar-se a essas escolhas, motivado pela desesperança e incentivados por quem queira se aproveitar desse momento em aventuras abstratas, só irá beneficiar quem tem a riqueza, afasta mais ainda os trabalhadores da vida política e nos mantém reféns de nossos próprios vícios.

Ao mesmo tempo, é essencial compreender que a solução definitiva para esses males passa necessariamente pelo combate a um sistema que tem na ganância e na usura a base de suas transformações. Enquanto a cultura que prevalecer na sociedade for aquela onde o consumismo é o motor a motivar as pessoas, a individualmente buscarem formas de serem felizes tentando alcançar um estilo de vida individualista, egoísta e que sempre exige o esforço em busca de cada vez mais dinheiro, dificilmente poderemos acreditar que as gerações futuras terão um ambiente mais saudável e honesto para viverem.

 

O OVO DA SERPENTE – A pós-política e o perigo dos três efes: fakes, farsantes e fascistas

Julho de 2012

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2012/07/o-ovo-da-serpente.html

Mas o que me viria a me surpreender, por todo esse tempo de virtualidade digital seria a virulência dos embates, oriundos principalmente de pessoas identificadas com grupos aparentemente de esquerda. Além dos inconformados conservadores, contrariados com as recentes mudanças políticas no Brasil.

Passei a observar tais comportamentos, e até mesmo em algumas situações o grau de agressividade e de ofensas destiladas atingiu níveis preocupantes, me alertando para buscar explicações em uma nova realidade que teve início em conflitos que marcaram um novo estilo de luta da juventude por vários países, denominado “indignai-vos”. Na esteira da crise capitalista que se estende desde quando as torres gêmeas foram postas ao chão, em 2001, cujo epicentro se deu em 2008 com a quebra de inúmeras instituições financeiras na sequência de uma grave crise no mercado imobiliário estadunidense, até o momento atual, com uma crise imprevisível na Europa e do capitalismo de uma maneira geral.

A partir de uma situação concreta, particular, e as observações que as minhas aulas de geopolítica me impunham, fui construindo algumas ideias a respeito dos tempos atuais. Na junção das lembranças das elaborações de Milton Santos, das leituras dos últimos textos de Eric Hobsbawm, e, obviamente, da dialética marxista, fui me convencendo que vivemos uma época de transição, de um possível esgotamento do sistema capitalista. Mas, como já alertava Gramsci, o perigo está quando o novo demora em chegar e o velho resiste em desaparecer. Se não há a perspectiva de saídas revolucionárias, que possam dar um novo rumo à sociedade mediante a existência de uma vanguarda devidamente organizada, outros mecanismos certamente despontarão, a exemplo de como se deu o surgimento do nazi-fascismo, nas décadas de 1930-40, e prolongarão a agonia sistêmica.

***

Além disso, por não possuírem elementos ideológicos que lhes garanta organicidade, alguns desses movimentos não somente atacam os partidos políticos, mas escolhem aqueles que são forjados ideologicamente, e destilam injustos ódios que com o tempo transformam-se em comportamentos intolerantes. Parece haver uma necessidade de se destruir as ideologias dos que as têm. Mas como não há espaços para discussões, pela ausência delas diante de um pragmatismo imediatista, a agressividade passa a se constituir na arma aparentemente eficaz para fazer valer seus objetivos.

Ocorre que na sequência de comportamentos que vão se tornando cada vez mais intolerantes, amplia-se a virulência das agressões, e o que se vê é a repetição de atos que nos fazem lembrar a maneira como o nazismo e o fascismo despontaram logo na sequência da crise econômica da terceira década do século passado.

A alienação de uma juventude forjada em tempos de uma globalização neoliberal, a destruição dos laços familiares, a individualidade crescente, a busca egoística pelo sucesso a qualquer custo, e a ampliação de valores teológicos que substanciam tudo isso, denominada teoria da prosperidade, compõem um conjunto de circunstâncias que explicam os tempos de negação da ideologia. Mas não somente isso. Agregue-se, contraditoriamente, a falta de informação em um tempo em que as ferramentas tecnológicas facilitam a aproximação com o que acontece em todas as partes do mundo. Mas são essas mesmas ferramentas, que explicam, para o bem e para o mal, o distanciamento de leituras mais complexas, filosóficas, optando-se por um cartesianismo vulgar, porque fruto de toda a confusão gerada pela sociedade midiática neoliberal, e pela informação deformada, apolítica e baseada na espetacularização do medo. O que os empurram para leituras alienantes, bizarras e de auto-ajuda.

A radicalidade de alguns desses comportamentos foram potencializados pelas redes sociais, criando uma coragem peculiar a alguns jovens, situação que não aconteceria em plano real, pela absoluta falta de backgrounds, consequência do distanciamento teórico e da ausência de fundamentos a lhes garantir segurança para um embate ideológico.

O que se vê, então, é o destilar de ódios a todos aqueles que porventura pensem diferentes, discordem e confrontem seus pensamentos e práticas. Semelhante ao que aconteceu na ascensão do fascismo tradicional, aquele que no período de crise sistêmica parecida com a que vivemos nos dias atuais, despontou a partir de comportamentos críticos, de suportes garantidos pelas insatisfações e indignação de populações que viviam momentos de dificuldades econômicas graves. Também naquele momento, os jovens tornaram-se alvos potenciais de lideranças emergentes, pela insatisfação com uma época que não lhes ofereciam perspectivas. E alimentados pela intolerância, visaram também os comunistas, que ameaçavam ideologicamente a elite dominante, fracassada desde o final da primeira guerra mundial. A negação da política instrumentalizou uma reação conservadora.

Alguns daqueles que usam das redes sociais para agirem de maneira desrespeitosa não o fazem de maneira explícita, mas escondem-se em perfis falsos, prática criminosa que tem se tornado comum, principalmente no Facebook. Ou senão, omitem de seus perfis informações que possam identificá-los e apresentam desenhos, ou charges, em lugares de fotos que os reconheçam.

Não é essa uma prática somente desses grupos, mas pude identificá-las também sendo utilizada por jornalistas de blogs conservadores, de jornais, tabloides e revistas, que postam suas matérias para serem repercutidas, e que, ao serem criticados acionam seus fakes, que agem agressivamente, ofendem o interlocutor e tentam desqualificá-lo. Assim como fazem alguns desses farsantes, anonimamente, em comentários agressivos nos blogs que tem defendidos os últimos governos no Brasil e teçam criticas aos partidos conservadores.

Ao fim de tudo, esses comportamentos tornaram-se bem visíveis no desencadear da greve na universidade. Comportamentos sectários, violentos e intolerantes, traduzem um sentimento comum à época do fascismo, de não aceitação das diferenças, de negação do pensamento oposto e da reação intempestiva e agressiva na imposição de um pensamento ou de uma determinada prática. Não sei se surpreende, mas é lamentável, o fato de juntarem-se a esse coro intolerante alguns professores, que obviamente se desqualificam enquanto educadores. Mas suas posturas indicam que eles pouco se importam com isso, a inconsequência é uma marca que lhes acompanham e a intolerância um traço de caráter.

E, não surpreendente, grupelhos de extrema-esquerda, setores anárquicos despolitizados e contumazes direitistas, se irmanaram no mesmo comportamento. Mas tudo isso deve servir de alerta aos que defendem uma sociedade baseada na tolerância, no respeito às diversidades e na aceitação de ideias que se contraponham. Considerando-se o momento de crise econômica mundial, do xenofobismo e da intolerância religiosa, vivemos circunstâncias bastante parecidas com o que ocorreu no século XX. O fascismo e o nazismo ascenderam mediante a insatisfação popular, e se consolidaram com um discurso baseado no moralismo hipócrita, no anticomunismo e na descrença com as organizações políticas.

 

A FÚRIA: O DESPERTAR DA MULTIDÃO, OU A REVOLTA DE UM INCONSCIENTE COLETIVO?

FRAGMENTOS DE UM OLHAR SOBRE A MULTIDÃO

Junho de 2013

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2013/06/fragmentosde-um-olhar-sobre-multidao-eu_22.html

Eu acompanho essas manifestações há mais de dez anos. Claro, ao longe, como estudioso de geopolítica. A maior delas, ou uma das mais importantes, foi em 1999, durante uma reunião da OMC e gerou um filme chamado "A batalha de Seattle". Já escrevi sobre isso no meu blog (http://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2011/11/indignados-para-qual-direcao-seguem-as.html). Há diversas demandas, revoltas represadas, reivindicações justas. Mas nada disso será possível de ser mudado sem organização. As vozes das ruas, da multidão, criam motivações, e até mesmo uma empolgação exagerada, principalmente na juventude, cuja adrenalina explode e os empurra com força para o embate. É natural e importante que isso aconteça. Mas o que virá depois disso depende da política (ou da guerra, quando fracassa a política, mas aí sabemos as consequências). A multidão tem sido protagonista desde o final do século XX, com grandes protestos antiglobalização, e depois, com a intensificação da crise, na chamada “primavera Árabe”. Os resultados de tudo isso ainda está por vir, mas nos países onde ocorreram houve retrocesso na condução política.

 

 

SOBRE MÁSCARAS, VIOLÊNCIAS E O DIREITO DE SE MANIFESTAR

Fevereiro de 2014

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2014/02/nihil-humani-me-alienum-puto.html

Ao não desejarem participar de organizações de caráter político, e abominarem os partidos políticos, mesmo os que se intitulam revolucionários e socialistas ou comunistas, esses manifestantes deixam de analisar a conjuntura política com base em fatos concretos e na realidade objetiva. Novas "realidades" são perversamente construídas por outros setores da política, que se beneficiam com esses comportamentos, o que leva a fortalecer a indústria do medo, e a exigência de governos fortes, militarizados e com uma base de parlamentares mais conservadores.

Não há dúvidas de que há infiltração nessas manifestações. Tanto por organizações políticas, que temem se apresentar abertamente por medo das reações dos “Black blocs” e visam também “recrutar” novos militantes entre aquela juventude, como por setores fascistas, tipos provocadores que desde aquele momento por mim citado anteriormente, na década de 1980, já se infiltravam em nosso meio. Policiais ou não. Por motivos diferentes esses setores objetivam criar os confrontos para gerar desgaste nos governos, de tal forma que os possam debilitar. O uso da violência, no caso, como mecanismo de se contrapor à repressão policial assume um verniz diferente nos dois casos, mas o resultado é desastroso de qualquer jeito. Principalmente quando o personagem culpado desse tipo de ato não é um indivíduo vinculado às forças repressoras, porventura infiltrado. O que dá margem para a mídia conservadora enfatizar no seu discurso de um ambiente dominado pela insegurança e anarquia.

Não tenham dúvidas de que o principal discurso nas próximas campanhas eleitorais será esse. Dominados pelo medo, que cotidianamente entra em suas casas pelos canais de TV, ou pela própria realidade que as cercam, as pessoas tendem a sucumbir à repetição constante desse discurso, e corremos o risco de ver a eleição de um parlamento muito mais conservador do que o atual.

Esse poderá ser o resultado de atos inconsequentes e irresponsáveis, movidos por um voluntarismo tolo, e a demonstração de atos de estupidez como se fossem atitudes libertárias e revolucionárias. Em um novo tipo de ludismo pós-moderno que está mais para os atos de cegueira atestado por José Saramago.

As máscaras que assumem as frentes dessas manifestações escondem jovens desprovidos de capacidade política para entender os mecanismos que movem a sociedade. Ou meros provocadores desejosos de reeditar aqui no Brasil os mesmos gestos fascistas de 50 anos atrás, quando um golpe militar foi dado com o argumento de pôr fim à baderna, à desordem e a comunização do país

 

FAKES, FALSÁRIOS E FASCISTAS: COMO DESPERTAR O LADO SOMBRIO DAS PESSOAS

Maio de 2014

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2014/05/fakes-falsarios-e-fascistas-como.html

A desinformação, a preguiça de ir atrás da veracidade daquilo que está sendo divulgado, aliado à alienação peculiar, facilita a adoção desses mecanismos manipuladores, que repetidos à exaustão assume ares de verdades insofismáveis. Quando, em verdade, e realmente, são situações determinadas e localizadas, sem representar, como se apregoa, o declínio da civilização contemporânea, ou algo que o valha. Prato cheio para oportunistas, fascistas e para aqueles que desejam convencer as pessoas a ingressarem no mundo da ficção religiosa, de seitas que se deleitam com a desesperança e com o medo das pessoas.

Repercuti em minha página pessoal no Facebook essa percepção, e aqui a reproduzo.

Estou impressionado com a quantidade de pessoas que estão compartilhando postagens produzidas por páginas organizadas por "fakes". Matérias falsas, ou propagandas subliminares, são repercutidas sem que haja um mínimo de averiguação sobre a origem das notícias, em sua maioria, falsas. Algumas são boatos, e boa parte deturpações de notícias antigas. E o que é pior, muitos que repercutem isso estão na universidade ou tem curso superior. Por causa desse comportamento uma dona de casa foi linchada e assassinada em Guarujá, SP. Fico em dúvida se é desinformação, alienação, oportunismo ou má fé mesmo.

Vivemos, um tempo, de potencialidades de práticas antigas, mescladas com ares de modernidade tecnológica. O boato se dissemina virtualmente, e organiza em júbilo antros de acusadores odiosos, mas seu prólogo acontece nas formas tradicionais, da violência estúpida em grupo, nos justiceiros que assumem o papel de juízes, júri e carrascos. Sob os argumentos de ausências de autoridades, mas diante de situações que são reais, como o descontrole do aparato repressivo e a agressividade de um setor cada vez mais sob pressão: as polícias militares. Sob o medo, seduzido por ele e manipulado por outros, a multidão torna-se instrumento daqueles interesses que não se apresentam perceptivelmente.

Nas sombras, escondem-se os reais interesses, de grupos que disputam avidamente o poder político e desejam concentrar cada vez mais o poder econômico. Instigam e aproveitam-se dessas situações, para afinal dar o bote sobre as carcaças de uma sociedade onde as pessoas não se veem nela, mas apenas os outros. Nesse momento surgem os reformadores do caos, os mesmos, aqueles que por décadas e séculos controlam as riquezas, concentram rendas e constroem mundos partidos, sectarizados, mas que vivem protegidos em muralhas repetindo-se, sob novas conformações, mundos antigos e medievais. E as massas, como sempre, cumprem bem o papel de massa de manobra. Com o perdão da redundância.

 

DEPOIS DE UMA TRAGÉDIA COMO CONTER A DESTEMPERANÇA E O MESSIANISMO?

Agosto de 2014

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2014/08/depois-de-uma-tragedia-como-conter.html

O que faltou, portanto, ao governo brasileiro foi apresentar para a população, e à juventude, durante todos esses anos, principalmente depois das jornadas populares de junho de 2013, as distinções entre os projetos políticos que estão em disputa. E encarar com mais determinação as contradições que lhes cercam. Temo que isso sendo feito agora possa dar a impressão de que é devido à disputa eleitoral.

Ademais, como já tenho inserido em alguns artigos, mesmo com um ímpeto oposicionista, tentando algo mais à esquerda do que o governo atual, essa juventude se encaminha para uma armadilha, na escolha de uma, ou duas, candidaturas que escondem seus objetivos, definidos seja pelas opções liberais, ou pelo fundamentalismo religioso conservador. A ilusão do discurso eleitoral, a ânsia de transformação por não conseguir enxergar a continuidade das mudanças, ou porque ficaram refratários a elas pela massificação ideológica midiática, fará com que essa juventude, e aqueles que se encontravam na posição de indefinição, seja levado pela comoção de um trágico acidente, pela ineficiência da propaganda governamental e pelo discurso messiânico. Situação que seja aqui no Brasil, seja em qualquer parte do mundo, sempre trás futuros dissabores quando da descoberta da fraude eleitoral (como foi no caso Collor; ou no Egito recente), causando crises de proporções desconhecidas, levando o país ao caos e ao retrocesso econômico. Nessas condições, as camadas mais pobres, percentual maior da população, e principal beneficiada pelas conquistas dos últimos 12 anos, será a mais afetada, retroagindo aos tempos em que a política brasileira privilegiava somente medidas do agrado das elites econômicas das camadas sociais abastadas.

segunda-feira, 8 de maio de 2023

A TROPICÁLIA, A MARGINÁLIA E O ESTÚPIDO PARLAMENTAR – HELIO OITICICA REDIVIVO

A marginália, ou cultura marginal, volta à evidência, sem que ninguém saiba o que seja, ou melhor, poucas pessoas sabem, porque a maioria conhece pouco de nossa história. Mais uma vez um trôpego parlamentar, em outra estultice de sua curta e estúpida carreira, e evidentemente não irei nominá-lo para que seu nome não ganhe destaque por aqui, um ambiente que difere daquele em que ele transpira toxidade e ódio, expõe uma obra de arte como se fosse uma apologia ao crime. Não sei se ele conhece a obra, creio que não, dado ao nível baixo de seus neurônios, mas independente disso, o que o próprio deseja é despejar ódio por meio de mecanismos perversos, que coloca a educação contra a parede, cria confusão propositalmente e busca angariar seguidores nesse universo que já se sabe ser enorme, por onde se pesca mentes incautas e idiotas de todos os matizes.

Mas há uma armadilha no meio do caminho, e, lamentavelmente, segmentos progressistas seja de partidos ou de movimentos culturais e sociais, estão embarcando numa onda e seguindo um caminho que está há anos sendo traçado por essas figuras nefastas da extrema-direita. A de provocar com temas de costumes, sexuais ou de gênero. Questões por muito tempo negligenciadas, e com as mudanças nas sociedades adquiriram condições diferentes daquelas legadas pelo passado, e que vem num processo de disrupção desde os anos 60 do século XX, mas que termina por submeter-se as oscilações políticas, nas conformidades de qual segmentos assume o poder, se de direita ou de esquerda. Independente disso, esses temas, e essas condições assumidas por pessoas por muito tempo estigmatizadas ou vítimas de preconceitos pela influência de religiões e seus valores conservadores, rompem barreiras e se empoderam, num movimento de enfrentamento àqueles empecilhos criados para tolher suas liberdades.

Como as sociedade são moldadas pelas ideias das classes dominantes, e de seus valores culturais e ideológicos, o embate se torna inevitável. Contudo, infelizmente, a onda conservadora impregnada por esses preconceitos termina por adquirir uma força avassaladora, instrumentalizada por oportunistas e hipócritas, que manipulam as mentes das pessoas, em sua grande maioria desinformadas, que seguem esses preceitos religiosos e sucumbem às mentiras, armações e medos disseminados perversamente. Nos últimos tempos isso se tornou instrumento para elevar alguns indivíduos pérfidos, e maldosos, a se tornarem referências nas redes sociais, e dessa forma galgar um mandato parlamentar, e até mesmo mirando o Poder, e conseguindo chegar lá. A mentira se tornou uma arma, e para além dela, a deformação da informação e a falsificação da realidade, utilizando-se de questões reais, existentes, mas apresentadas de forma completamente distorcida.

Ora, porque falo que há uma armadilha nesse processo. Esse caminho, e essas pautas, embora importantes e necessárias, tornaram-se o foco da extrema-direita, por envolver valores conservadores religiosos, e dessa forma desviar os olhares das pessoas para questões que são mais importantes em suas vidas, e que são responsáveis para lhes dar segurança e dignidade. Ou seja, o que esses setores querem é evitar se falar das injustiças sociais existente numa sociedade absurdamente desigual, do fato de existirem classes sociais que se conflituam pela lógica de funcionamento do sistema capitalista, da degradante condição de dezenas de milhões de pessoas submetidas à exploração de uma estrutura social que faz com que 1% da população, controle cerca de 70% da riqueza.

O egoísmo, a ganância e a usura, são temas que, embora abordados nos mesmos livros sagrados onde anacronicamente se tenta preservar valores e costumes, passam despercebidos por uma massa de pessoas oprimidas e exploradas. São essas mesmas pessoas, que carregam nas costas as dificuldades de vidas sofridas por conta dessas condições de desigualdades sociais, que caem nos discursos conservadores e são alimentadas pelo ódio transmitido por aqueles trânsfugas que o direciona para tornar suporte de uma estrutural social absolutamente indecente.

Quando a esquerda, e os movimentos progressistas, deixam de enfocar essas questões econômicas e sociais, dessas disparidades gritantes em uma pirâmide social invertida, e saem na defensiva contra os disparos de fakes news e manipulação de valores, perdem a possibilidade de criar as condições para que a população se conscientize de uma realidade na qual ela vive, mas que se distancia quando sucumbe aos discursos de ódio e de pregadores oportunistas.

No caso específico, de uma camiseta que reproduz uma obra artística de Helio Oiticica, há situações criadas que geram a oportunidade desses setores. O que quer dizer uma frase “Seja marginal, seja herói”? Se não houver uma contextualização, do significado da frase, até mesmo das palavras, e do objetivo do artista que a produziu, ela gera uma dubiedade que passa a ser explorada por essa canalha oportunista e fascista, nessa onda que está trazendo de volta movimentos obscurantistas e reproduzindo grupos neonazistas.

Para comprovar pela história que esse embate, e esse debate, não é novo, basta ver quando essa obra foi produzida. O contexto era de um período sombrio, na ditadura militar, no ano de 1968, e da ascensão de muitos movimentos culturais contestadores, na transgressão de valores burgueses, e alguns até mesmo psicodélicos, como forma da juventude se contrapor ao controle cultural e aos valores conservadores que se impunham pela repressão e submissão da sociedade, principalmente os mais jovens. Aqui no Brasil, nesse período ditatorial, a Tropicália levou a juventude ao êxtase e a um crescente de formas contestadoras às imposições culturais reacionárias, num movimento puxado por cantores e compositores, homens e mulheres que buscavam formas de vida sem controle, e sem a rigidez que aqueles valores culturais impunham. "Deixa eu cantar que é pro mundo ficar odara! Pra ficar tudo joia rara...", cantava Caetano Veloso. Odara é uma expressão que vem do sincretismo religioso, e exalta a positividade, de origem iarubá. O que se desejava era a liberdade de se encontrar o caminho para deixar a “cuca” e o corpo aberto. Era a busca pela liberdade, contra todas as formas de opressão.

A Marginalia repete a Tropicália pelas mãos de alguns artistas plásticos, no caso que analisamos Helio Oiticica assume um protagonismo enorme, se tornando um dos artistas que mais vão se destacar nessa linha. Anarquista, adepto portanto da aversão de toda a forma de controle, mas também oriundo de uma realidade em que a alta criminalidade e as condições sociais relegavam às comunidades a escolha por ver na “juventude transviada” o algoz dos repressores e terminavam por transformá-los também em heróis de uma periferia alçada permanentemente à condição de marginalidade, no sentido estrito da palavra, de viver à margem da sociedade. Periferia não somente no sentido geográfico, mas também social, ou daquele olhar que a geografia humana nos permite ver quando estudamos as áreas urbanas, completamente desiguais, mesmo nas condições em que a pobreza, na favela, está geograficamente situada em meio a áreas nobres, como no caso emblemático do Rio de Janeiro.

Nesse contexto podemos entender a frase de Oiticica, falecido em 1980: “Seja marginal, seja herói”. Porque é o que a condição social impõe a milhões de pessoas, em suas lutas cotidianas pela sobrevivência, onde se destacam as mulheres, e onde os pretos e pretas vivem em condições que foram criadas desde o fim da escravidão.

Qual o grande problema nessa história toda? Se usamos uma camiseta atualmente com a imagem produzida, artisticamente, por Oiticica, sem explicarmos todos esses significados e essa contextualização, ela vai certamente, como foi, ser transformada em uma arma da extrema-direita, pela própria dubiedade que ela exprime. Afinal, no que se transformou a palavra “marginal”, nessa sociedade desigual, onde as favelas, os bairros pobres, as periferias, se tornaram ambientes de resistência a um sistema injusto e absurdamente desigual? Viver nesses lugares, em muitos casos controlados por traficantes e milicianos, é conviver com essa dubiedade expressa na frase. Muito embora nos últimos anos muitas ações têm sido feitas para apresentar uma outra feição dessas áreas, onde vivem, em sua maioria, famílias trabalhadoras que sofrem e lutam cotidianamente de forma honesta pela sobrevivência.

Mas o preconceito, latente na sociedade, é explorado por fascistas e por esses políticos da extrema direita. De forma que, paradoxalmente, assusta até mesmo quem vive nesses ambientes. Principalmente se frequentarem grupos cristãos neopentecostais ou católicos carismáticos, de onde se destilam esses mesmos ódios. Embora eu não queira generalizar, inegavelmente, é fato, é como acontece.

Por fim, enfatizo, porque foi a razão dessa minha abordagem, precisamos levar o debate para o ambiente que a extrema-direita foge. Da discussão das desigualdades sociais, inclusive de suas origens, da aceleração do processo de enriquecimento de uma minoria, em contraposição ao crescimento da pobreza da imensa maioria da população. De uma economia, focada na especulação financeira, e do domínio de classes sociais que, nas cidades e no campo, exploram o trabalho de homens e mulheres, para acumularem riquezas sem a menor preocupação com a pobreza na qual está submetida milhões de pessoas, forçadas a viverem em condições marginais de existência. Por aí, precisamos elevar o nível de conscientização das pessoas pobres, convencê-las a se organizarem em associações, adquirirem consciência de classe e se confrontarem com a opressão burguesa, forçando a transformações sociais que nos possibilite encontrar outro caminho para a humanidade, e para o Brasil em particular. Até lá, ser marginal e ser herói, será uma condição dúbia que é imposta por essa realidade perversa e desigual que vivemos no sistema capitalista.

Quanto àquele trânsfuga, oportunista e hipócrita, que tenta tolher nossas liberdades, esse será esquecido como um lixo na história. Mas devemos combatê-lo implacavelmente com o olhar crítico a essa podridão social que ele deseja defender.

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*Acompanhe também essa discussão pelo meu canal no YouTube:

COMO COMBATER A CULTURA DO ÓDIO E A IGNORÂNCIA

https://youtu.be/okDVUanUUkM

segunda-feira, 1 de maio de 2023

ATÉ QUANDO OS CANALHAS FASCISTAS ATACARÃO AS LIBERDADES?

Imagem: Estado da Arte

O livro Fahrenheit 451, de autoria do escritor estadunidense Ray Bradbury, transformado em filme em 1966 pelas mãos do competente diretor François Truffaut, aborda o que seria uma sociedade distópica, onde a função de um dos principais personagens, um bombeiro, seria queimar livros, numa absurda inversão da lógica para sua existência. O contexto seria no período da guerra fria, e a intensa censura que se espalhava naquele momento, mas visto também como uma crítica mordaz ao fascismo e ao nazismo, e à perseguição à intelectuais, homens e mulheres que usavam da literatura para se opor às autocracias reinantes, às ditaduras, mas também àqueles modelos de democracia que buscavam por outros meios impedir que determinada opinião se disseminasse pela população, elevando os “riscos” de revoltas populares. Como naquele momento afetava os Estados Unidos.

Mas esse artigo, ou essas palavras que uso para abominar essa prática, que se mantém de forma despudorada mesmo nos dias de hoje, sob argumentos tacanhos de “agressão à moral e aos bons costumes”, por meio de hipócritas que escondem suas feições fascistas, não é uma resenha literária ou cinegráfica. O que tento aqui é destilar minha indignação, e dessa forma atrair e alertar um número maior de pessoas, contra as práticas hediondas, pérfidas e fascistas, que se mantém em curso, apesar de em parte derrotada nas últimas eleições.

Não bastasse a estúpida e idiota ideia de emplacar uma medíocre tese de “escola sem partido”, muitos oportunistas, alguns dos quais obtiveram apoio de uma massa descerebrada e alienada, conseguiram se eleger, pois descobriram que a estupidez, e as falas toscas, geram “likes” em uma sociedade transformada pelo medo e pela alienação política e religiosa.

E não é somente esses elementos que motivam a ação desses maus-elementos. Com perdão da redundância. Mas se descobriu nos últimos anos, que a apoteose do ódio, germinada pela desconstrução da democracia desde o impeachment golpista da ex-presidenta Dilma Rousseff, e florescida em meio a espinhos durante quatro terríveis anos de um governo liderado por um bronco desqualificado, potencializa também alguns indivíduos à condição de “mito”, ou nas brechas da democracia os transformam em parlamentares.

Essa forma de direcionar os olhares na política, e as ações parlamentares ou governistas, não foca no bem-estar das pessoas, ou da sociedade. Mas é uma postura perversa, que visa por meio do ódio impedir que as pessoas possam raciocinar por meio da liberdade de discussão e da boa prática política, ou até mesmo que possam adquirir capacidade crítica, com liberdade de escolhas sobre o que lê, vê e assiste, e, claro, como se comportar em suas individualidades e desejos.

São atitudes mesquinhas, visando se projetarem às custas de valores adquiridos culturalmente, por meio das religiões, mas que se perdem no tempo e não acompanham as transformações que acontecem de gerações em gerações, embora, paradoxalmente, retornem de tempos em tempos e se radicalizem.

Dessa forma procuram encilhar as pessoas, a partir de suas imagens vistas nos espelhos deformados que expressam mais do que a visão apresenta, como também aquilo que seus diminutos cérebros de parcos neurônios identificam como “perigoso”, dentro do que classificam “modelos” de sociedades, puras, puritanas, mas que não subsistem a uma criteriosa análise de seus padrões e comportamentos, escondidos nos escombros de uma moral hipócrita e malfazeja. Seus subterrâneos são podres, por onde transitam marginais engravatados, e representam o que de pior existe em um mundo desigual, de enormes concentração de riqueza nas mãos de poucos, que se curvam religiosamente ao prazer de suas fortunas, manchadas com o sangue de corpos inertes, frágeis, miseráveis, consumidos pelas dores vividas em um mundo real que esses apóstatas pretendem esconder. Ou culpar essas pessoas por suas desgraças. Isso sim, é abominável de se ver, mas que esses trânsfugas desejam esconder, ou apresentar como “desígnios divinos”.

Imagem: Omelete
Assim, tentam censurar, impedir que se possa, por meio da literatura, da ciência, do conhecimento real e objetivo, demonstrar que o mundo real é contraditório, cheio de injustiças. Para além dessa ignomínia, tentam impedir que as pessoas possam pensar e agir por si só, sem que “bombeiros” do inferno (numa referência a Farenheit 451) ajam como juízes da moral, a impedir a liberdade de cada um poder formar sua própria opinião, por meio dos caminhos que nos libertam do jugo opressor, seja ele qual for.

Impedir que os livros possam ser consumidos por quem desejar é uma prática nazifascista, inaceitável, absurdamente recorrente por uma atitude canalha oportunista, para além da interpretação ideológica, porque visa angariar seguidores desavisados, ou completamente ensandecidos pelos discursos de ódio, lamentavelmente nos últimos anos destilados também por diversos púlpitos e altares, de onde antigamente se viam partir vozes de tolerância e empatia.

Pode-se dizer, em seu favor despudorado, que esses indivíduos usam da liberdade para se manifestarem. Mas pode uma sociedade sobreviver a práticas corriqueiras de discursos que alimentam a intolerância e o desrespeito à própria liberdade das pessoas? Onde se encontra o limite, a linha mesmo que tênue que diga haver um ponto em que tais práticas devam ser abolidas, porque apostam, por meio de mentiras, tergiversações e falsas alegações morais, e impedem que as pessoas possam ser respeitadas em suas diferenças? É preciso que por meio dos mecanismos da democracia, do Estado de direito, se possa fechar as brechas que esses indivíduos encontram, em proliferar por meio de suas atitudes torpes, ações de linchamentos físicos e morais, que prejudicam determinados segmentos sociais, e até mesmo impõe riscos às vidas de pessoas pelo simples fato de fazer escolhas de vida que lhes convêm.

Por fim, vou direto ao ponto. Visto que isso que escrevo se refere a diversos atos e práticas ocorridas no Brasil, mas não só por aqui, nos últimos anos. Preciso dizer que o mote para este artigo partiu da minha indignação por saber que uma Universidade no interior do Estado de Goiás, na cidade de Rio Verde, se quedou para um comentário fascista, de um desses indivíduos, propagadores do ódio como forma de se manter ativamente nas redes sociais, e conseguir por meios desses objetivos pérfidos, angariar simpatias reacionárias e se projetar como parlamentar. Um político goiano, deputado federal, que já estimulou o ódio aos professores, pregando que alunos e alunas os filmem, caso algo dito em sala contrarie seus pressupostos ideológicos ultra-direitistas. E, por meio da pressão, tentem impedir que a realidade seja mostrada da forma como o conhecimento e a ciência deve se comportar.

O mais trágico disso é ver uma universidade se rebaixar ao ponto de retirar um livro de literatura, da lista de indicações ao vestibular, sob o argumento do mesmo ser propagador de pornografias. Obviamente, visto assim pela mente pornográfica desse pervertido parlamentar.

Mas, se nem mesmo uma universidade resiste a essas pressões estúpidas, e garante a liberdade de expressão e valorização da literatura universalmente, que tipo de futuro estaremos construindo nesses tempos tóxicos onde se permite estabelecer um index, de livros proibidos, tal qual se fazia durante o período da inquisição, séculos atrás, durante as longas e terríveis sombrias noites medievais, quando as fogueiras e os enforcamentos eram estabelecidos como punição a quem ousasse contrariar os valores definidos pela igreja.

Não há dúvidas, precisamos urgentemente de um novo iluminismo, para romper mais uma vez com as trevas que nos atormentam e desejam impedir que o conhecimento por meio da ciência, garanta às novas gerações melhores dias, com transformações sociais e tecnológicas que façam o mundo avançar, e não regredir como desejam esses canalhas que nos querem impedir de sorrir. Faço aqui, para finalizar de fato, uma alusão ao romance O Nome da Rosa, uma das grandes obras literárias de Umberto Eco, quando por meio de mistérios e crimes inquisitoriais, o que se pretendia era impedir que as pessoas naquele período das trevas medievais, tivessem acesso a um dos livros da poética, de Aristóteles, o que trata do riso. O argumento era que estimular as pessoas ao riso impedia que elas sentissem medo. E pelo medo, ódio e maniqueísmo, se torna mais fácil controlar mentes incautas. 

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sexta-feira, 21 de abril de 2023

CRÔNICA DE UM PAÍS EM TRANSE... NUM MUNDO EM TRANSIÇÃO

Já não é mais tão fácil, ou talvez nunca tenha sido, produzir conhecimentos sobre a realidade vivida, ou compreender os fatos que nos cercam e nos afetam direta ou indiretamente, em um mundo conectado onde as pessoas julgam saber de tudo, por meio de informações superficiais e abstratas.

Por essa razão, e por poder ver tantas opiniões se multiplicando aceleradamente pelos canais virtuais, blogs, sites, aplicativos, de forma resumida, e acintosamente antidialética, que me recolhi à minha insignificância. Ser observador em um mundo de “gênios”, conhecedores rasos de políticas e geopolíticas, nos angustia, isso é inegável. Mas, pelo menos evitamos ser afrontados tanto pelo maniqueísmo que impera resolutamente nos tempos atuais, mais do que em outros tempos, ou não; bem como não somos alvos de “cancelamentos”, ou de ataques estúpidos, por quem só deseja ler e ouvir aquilo que quer, nesse tempo alguns anos atrás já denominado de “era da pós-verdade”.

Mas resolvi retornar, e produzir um artigo na linha de outros que já escrevi em meu blog, com um título parecido com esse que uso neste: “Crônicas de um mundo em transe”.[1] Talvez essa minha publicação possa vir a despertar alguns desses sentimentos, e eu venha a sofrer os ataques de milícias virtuais, pérfidos vigilantes da estupidez que grassa e faz reacender as fúrias neonazistas e neofacistas. Mas também posso ser afetado pela reação ferina de uma esquerda que atualmente se equilibra entre os discursos identitários e a visão maniqueísta de mundo. Numa estranha fuga da realidade e da compreensão dialética de analisar e perceber as sociedades em meio a todas as suas contradições, e do entendimento que muito nos ensinou o legado marxista, de que devemos partir da observação da totalidade das coisas, e que, por meio das análises das partes que a compõem, e da necessária vinculação entre elas, só assim, podemos compreender o todo dentro de uma visão concreta, materialista e dialética de como esse mundo foi sendo construído e da sua existência real nos tempos atuais.

Elevar alguma dessas partes a condição de elemento prioritário no enfrentamento dessa realidade social, nos impede de compreender e de ter a noção exata da existência de classes sociais, de um sistema dominado por uma dessas classes e de uma estrutura que vai muito além dos embates específicos, e deve, sempre, nos levar diretamente para a compreensão das raízes de como toda essa estrutura foi sendo construída. E, se quisermos destruí-la, e queremos, porque é abjeta em sua lógica desigual, precisamos abalar os seus alicerces, e transmitir às novas gerações as observações sobre como as colunas que sustentam todo esse arcabouço de uma sociedade perversa na consolidação e na defesa de um sistema injusto e deformado, estão construídas sobre fundamentos ideológicos rasos, frágeis, manipuladores, mas que se sustentam no medo, na fé e religiosidade das pessoas, na ganância, na usura e no individualismo que explora o trabalho alheio e sobre ele eleva suas riquezas e as transmitem por gerações e gerações, pela perversão meritocrática do direito de heranças.

 

“O MUNDO É MUITO MAIS COMPLEXO DO QUE QUEREM NOS FAZER CRER”[2]

 

A pior coisa que podemos fazer, na busca pela compreensão da realidade, é simplificarmos o olhar, ou o entendimento, de como é o mundo. Infelizmente, atravessamos um momento da história que inevitavelmente tem formado as novas gerações, onde a informação transborda como um líquido gaseificado após ser sacudido, mas que o conhecimento se dissipa como uma neblina.

Ou seja, temos muita informação, que nos são apresentadas na absoluta maioria de forma rápida e superficial, e carecemos de um conhecimento aprofundado sobre a realidade. Isso nos leva desastrosamente ao crescimento da estupidez, da idiotização e da alienação política. E, por óbvio, torna-se difícil a condução de qualquer debate, quando o expositor olha para uma plateia, ansiosa por compreender cada palavra dita por meio do acesso rápido ao Google – e agora ao ChatGPT – e a intervir com a idólatra sabedoria abstrata, ou na apostasia daquilo que lhe guiava até pouco tempo. Evidente que isso também não deixa de ser a dialética, ou a negação da negação, mas que devemos ver pelos caminhos oblíquos de uma sociedade que se guia por referências tais quais como uma biruta de aeroporto, que se deixa levar ao sabor do vento.

Mas pelo menos esse instrumento, de antanho, que sobrevive até hoje, tem a função de indicar a direção do vento. Já o sapiente ignorante se deixa levar pelas informações fáceis, aleatoriamente, em muitos casos, falsas, e se identifica com elas na conjunção com as circunstâncias de suas vidas, chatas, ressentidas, conflituosas, inexpressivas, cheias de rancores, desequilibradas, ou que se originam nas pregações dos púlpitos, mas cujas razões para explicar cada uma dessas situações não são compreendidas dialeticamente, e por isso, na busca pela razão rasa, com perdão da quase redundância, se (des)equilibram na adesão àquelas informações que lhes são mais convenientes às condições em que vive num dado momento. Dessa forma se tornam presas fáceis dos movimentos de uma extrema-direita que se dedicou nos últimos tempos a buscar nessas contradições o seu crescimento, e a adesão dessas pessoas, presas pela ignorância, pelo fundamentalismo religioso e pela alienação política.

Qual o risco no qual estamos metidos? É que essa situação não nos parece ser de uma passagem rápida. Possivelmente viveremos ainda por um bom tempo, tentando lidar com uma realidade tóxica, contaminada por discursos que inspiram o rancor, o ódio, a estupidez. A desinformação será a arma principal nas lutas políticas, principalmente por meio da destruição de reputação. Da mesma forma o uso e abuso da fé, partindo das pregações odientas de pastores sanguessugas e demais religiosos que fincam seus pés e seus valores na rigidez anacrônica de costumes ultrapassados, completamente distanciado da realidade atual.

Por esse meio, no entanto, seguirá acontecendo o recrutamento de uma população marcada pela baixa autoestima, e fragilizada por condições sociais desequilibradas, bem como pelo medo gerado pelo avanço da violência em um modelo de mundo perverso, mas onde essas pessoas se deslocam na direção de seus algozes. A compreensão de um mundo que se explica pela luta de classes sequer passa perto do entendimento da realidade como eles próprios se veem. São, assim, reféns do discurso conservador, pautado pelos costumes de eras passadas, pela hipocrisia de apóstatas que se desviam de princípios basilares do cristianismo. Estão à mercê do fascismo e do neonazismo, ou, da extrema-direita radicalizada.

Os desafios para quem lê, estuda e analisa o que está acontecendo no Brasil e no mundo, com um olhar estratégico, dentro de uma metodologia que prime pela compreensão dialética da realidade, são enormes. Porque as gerações atuais não têm mais a paciência de se aprofundar nos temas necessários ao entendimento da complexidade do mundo. São premidas por um tempo marcado pelo excesso de informação e a necessidade de ler sobre muitas coisas em um curto período. É a geração Tik-Tok.

 

O DESAFIO DE ENFRENTRAR A REALIDADE, NUMA ÉPOCA DE PÓS-VERDADE

 

Como alterar isso? Esse é o dilema. Ou seja, é preciso explicar as coisas com clareza, mas com objetividade, sem ser prolixo, mas também sem ser superficial. Encontrar a medida exata para chegar a uma pedagogia consistente, que prenda a atenção dessa geração não é tarefa fácil. Pois que não podemos renunciar ao aprofundamento nas questões objetivas, que nos levam a compreender as complexidades de um mundo confuso. Este meu texto, por exemplo, já extrapolou, pelo tamanho, o limite da paciência dessas novas gerações. Espero que, com essas provocações, os que estiverem lendo se sintam provocados para chegar até ao final.

Já as pessoas mais velhas, sucumbem ao medo, potencializado pelo uso que alguns pregadores fazem da religião. Saudosos de um tempo em que a violência não era tão explícita, ou que estavam distantes de suas realidades, as gerações mais antigas são induzidas por velhos discursos, como se a mudança nos costumes não pudesse ser responsabilizada pelas crises sistêmicas e mudanças no comportamento humano, cada vez mais insensíveis e desprovido de empatia. Mas, contraditoriamente, ao agir dessa maneira, terminam por seguir na direção do mesmo comportamento em que criticam, e são alimentados pelo discurso do ódio e da intolerância. Só que eles não têm essa percepção, seduzidos por essa estratégia perversa, pela qual a extrema direita conseguiu se aproveitar da alienação, do medo, da crença e da fé dessas pessoas.

Enquanto isso, os segmentos mais politizados se apegam a discursos identitários como bandeiras principais de suas lutas, se distanciam da compreensão de que a construção desse mundo se deu como base na expropriação dos sentimentos, e do desconhecimento da realidade. E que, os discursos preconceituosos, machistas e misóginos, representam, em realidade a conjunção de diversos fatores, que explicam como é, como surgiu e como foi se revelando em toda a sua perversão o sistema capitalista, trazendo marcas de um passado perverso, principalmente (como sempre) para as mulheres. E se é verdade que essas questões estão enraizadas numa construção de estruturas e instituições que mantém permanentemente um desequilíbrio social e uma sociedade etnicamente desigual em suas oportunidades e respeito aos diferentes, como acredito que seja, o fundamental é a compreensão de como isso se estruturou, como essa sociedade foi edificada, como esses valores se incorporaram nas mentes das pessoas, dentro de uma noção de abrangência de como tudo isso foi construído. Uma noção de totalidade, e um entendimento dialético das contradições que fundamentam, inclusive, esses comportamentos que as lutas identitárias combatem, com justeza e com justiça.

Mas, como se diz no ditado popular, que é necessário cortar o mal pela raiz, a luta nessas particularidades, descoladas de uma visão de totalidade e compreensão das origens dessas desigualdades, apresenta-se de forma incorreta, muito embora ser necessária. Ocorre que discurso e palavras de ordens, ditas sem o necessário processo educativo, de demonstração das raízes dessas perversidades, só alimentam as concepções reacionárias, que se protegem nos discursos hipócritas de falsos líderes e mitos desequilibrados, desviando as atenções para uma pretensa defesa de valores conservadores, reproduzidos de livros ditos sagrados e escritos há milênios.

Enfim, a defesa de valores conservadores, que inspiram a extrema-direita, bem como as lutas identitárias, que têm mobilizado setores mais à esquerda, se constituíram no embate mais visível desses tempos, denominada – com a minha contrariedade – de “guerra cultural”. Por paradoxo, mas não assim se nos aprofundamos no entendimento da composição e das mentes das pessoas que formam a nossa sociedade, esse caminho nos levou a um tempo em que vivemos o crescimento de uma extrema-direita raivosa e, por consequência de sua ascensão ao Poder até recentemente, a propagação e organização de ideias neonazistas, seduzindo parcela significativa da juventude.

Ao direcionar para o campo da “cultura”, o que é ideológico, a extrema-direita fez um movimento estratégico que emparedou a esquerda, e levou a essa polarização praticamente inédita dentro da realidade política brasileira em tempos democráticos. Como, pelo relato feito, o tempo é de informações fúteis, simplificadas, resumidas e, na maioria das vezes, falseadas, o caminho ficou pavimentado para que nosso país se visse às voltas de uma transformação radical na política, com duas décadas em um curto século em que transitamos da esquerda à extrema-direita, e de volta a uma esquerda escorada em segmentos da centro-direita e centro-esquerda, numa necessária composição para retirar o nosso país do limbo em que se encontrava.

 

A ESPERANÇA, NUMA REALIDADE TÓXICA

 

Não posso dizer, em minha compreensão, que as perspectivas são boas, mas não desejo me azedar em um pensamento pessimista, de que as coisas não irão melhorar. Para isso, sigo a máxima que sempre procuro repetir, do saudoso Ariano Suassuna: “O pessimista é um chato; o otimista um tolo. Melhor mesmo é ser um realista esperançoso”.

Mas, adepto da dialética como melhor metodologia para compreender o mundo real, tenho a percepção que estamos vivendo um período de transição, com dificuldade de entendermos para onde e qual tipo de sistemas podemos construir, na substituição do caquético e perverso capitalismo. Até sabe-se lá por quantas gerações, essa será uma transição lenta e marcada por muitas guerras, porque essa tem sido a alternativa para potências em crises: a economia de guerra, com a intensificação do comércio de armas cada vez mais sofisticadas. Os trabalhadores e trabalhadoras sofrerão com a redução de seus salários, como efeito do aumento de mão de obra disponível no mercado, como consequência do avanço de novas tecnologias, da robotização e da inteligência artificial. Portanto, será um mundo com fortes tensões e embates, que precisam ser direcionados para um enfrentamento de classes. É inadmissível que os mais pobres e as camadas médias baixas se coloquem em lados opostos, quando pela lógica sistêmicas são peças descartáveis pela burguesia e pelos novos ricos rentistas. Será assim no mundo... e será assim também no Brasil.

Então, na medida em que tomamos da extrema-direita o controle do Estado brasileiro, é mister que isso se mantenha pelo menos por mais uma década, ao tempo em que a prioridade deve ser trabalhar na conscientização de um enorme contingente de pessoas que foram seduzidas pela mentira, pelo medo e pelo ódio. Politizar essas pessoas pela qualificação de suas capacidades críticas de compreensão da realidade e pela necessidade de aglutinação em entidades, associações e sindicatos que lutam por seus direitos. Demonstrando que os representantes da extrema-direita, por seus atos óbvios, representam aquela camada social dominante que os exploram e se enriquecem mesmo em meio às piores crises.

A esquerda não deve disputar entre si esse processo com o afã de recrutar pessoas somente dentro de suas visões dogmáticas do mundo. É preciso amplitude, organicidade e unificação de setores que carregam um mesmo objetivo, a construção de uma sociedade em que se possa viver pelo bem comum, na consolidação de um estado de bem-estar social, no caminho do socialismo, evitando-se repetir os erros que o capitalismo e a burguesia prometeram corrigir, quando hipocritamente levantaram-se a bandeira de “igualdade, fraternidade e liberdade”. O que se viu foi a construção de um mundo em que os muros se multiplicaram, onde 1% controla mais da metade da riqueza mundial.

Sejamos “realistas esperançosos”, mas jamais defensores de sociedades fraturadas e de governos autoritários. Lutemos pela verdadeira democracia, não somente focada no direito de votar, mas onde a riqueza construída pelo trabalho possa ser distribuída de acordo com as necessidades de cada família, daqueles trabalhadores e trabalhadoras que efetivamente constroem o que se convencionou chamar de Produto Interno Bruto. Defendamos a democracia do PIB, e dessa forma estaremos pavimentando nosso caminho para um futuro razoável e mais solidário, que bote um fim à pobreza e a miséria. Alguns dirão que isso é utopia, mas recordo a fala de Eduardo Galeano, que sempre lembrava de uma frase que ele diz ter visto em um muro, de que a utopia é um ponto distante, e quanto mais nos direcionamos em direção a ele, mas ele se distancia. Concluindo, por isso, que a utopia nos serve para que não paremos de caminhar. Em direção àquele ponto distante que imaginamos como sendo uma sociedade mais humana, sensível, empática, e baseada na comum união.



[2] Yves Lacoste – A Geografia, isso serve em primeiro lugar para fazer a guerra

 

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

DEPOIS DA TEMPESTADE... O temor dos trovões ignora que os raios já fizeram os estragos

Escrevi esse artigo depois do primeiro turno das eleições de 2022. Reitero aqui o que disse, e insisto que não há uma estratégia da esquerda para conter esse viés conservador e fascista que se impõe em nosso país. Com o quadro eleitoral dessas eleições municipais, podemos afirmar que a reeleição do presidente Lula em 2026 está sob forte ameaça. A menos que a esquerda mude o rumo, reforce a organização entre os trabalhadores, nas periferias das cidades (dominada pelo neopentecostalismo) e, principalmente, entre a juventude. Ao mesmo tempo que retorne à critíca visceral sobre as desigualdades sociais geradas e mantidas pelo capitalismo, e procure estabelecer uma estratégia que leve em conta a totalidade do funcionamento de nossa realidade, procurando fugir de bolhas que somente isolam a esquerda e compreendendo o conservadorismo que impera na sociedade a partir, principalmente, de uma base religiosa reacionária. Se não fizermos isso, estaremos sujeitos à mesma punição imposta à Sísifo, condenado pelos deuses, segundo a mitologia grega, por não cumprir o prometido. (Outubro de 2024)


Nas primeiras horas da segunda-feira pós-eleitoral, em que alguns festejam em meio aos escombros de uma tempestade conservadora, reacionária, refleti comigo mesmo, no afã de tentar convencer os que lerem ou ouvirem o que tenho aqui a dizer, que nem sempre a experiência de anos de militância consegue acompanhar com serenidade e coerência as mudanças conjunturais da sociedade.

Eu me consumo aqui em meio a uma ressaca, ou como se eu tivesse sido massacrado em uma luta de MMA e ganhado por pontos o primeiro round. Isso para mim reflete o resultado eleitoral desse Brasil profundo, de mentalidades arcaicas, dominadas por sicofantas, farsantes, falsários e pilantras. Mentalidades que se apegam a uma espiritualidade canhestra, de comportamentos desajustados do ponto de vista da ética e do respeito humano, mas que se apegam aos discursos moralistas hipócritas de fariseus acanalhados, pérfidos sugadores de massa cerebral, de gente frágil, alienada, ressentida por uma realidade da qual não compreende em sua dinâmica e se apega ao discurso que lhe amedronta do púlpito ensandecido, pela viralidade de pregações que apostam no medo, na alienação e no desespero.

Mas do lado em que eu sempre me postei, temos feito o certo? Adotado estratégias que, ao longo dos últimos anos, tentem entender o que se passa pela cabeça de cada um desses indivíduos que se juntam e compõem o que conhecemos como sociedade brasileira? Ou será que nas últimas décadas não nos afastamos da realidade e nos metemos em bolhas, de onde falamos e gritamos para nós mesmos, sem que isso ecoe pelos cantos por onde a hipocrisia campeia e da forma como sempre consolidou comportamentos dantescos, violentos, misóginos, machistas e oportunistas?

Não quero parecer arrogante, como se possuísse o dom da verdade e que minhas palavras fossem as únicas a iluminar essas trevas que nos cercam. Reconheço minha pequenez nesse ambiente de disseminação de “verdades incontestáveis” espalhadas celeremente pelas redes sociais, com milhões de visualizações. Aqui, sei que falo e me comunico com algumas dezenas, de amigos e amigas que comungam das minhas ideias, mas nem sempre me dão o crédito necessário a ponto de dividir essas opiniões com muitas outras pessoas. Percebo que os que me leem, refletem, às vezes concordam, mas deixam de lado palavras que não se escoram em princípios de autoridades. Algo que se tornou muito comum entre as pessoas mais esclarecidas. É preciso citar expressões e falas de eminências intelectuais para ser ouvido e acreditado.

Me permiti ao longo deste ano refluir em meu ímpeto de produzir artigos para o meu blog e meu canal no YouTube. Percebi que o alcance era muito restrito e o conteúdo estava repetitivo, porque, com perdão da arrogância, em minhas análises eu já havia apontado o diagnóstico daquilo que nos carcomia enquanto sociedade, e como os cérebros humanos se deterioravam.

Por isso, quero me expressar relembrando o que já estava escrito em um desses textos, e pelo que se poderá ver, a quem tiver paciência de chegar ao final, que nada do que estamos passando é surpreendente, porque já estava em curso há anos, em um processo de transformação de uma realidade social que invertia o caminho que pensávamos estar em fase de construção, por um viés progressista. Nos enganamos. Nos fechamos em bolhas, falando para nós mesmos, com discursos virulentos identitários, como se isso fosse suficiente para o convencimento de mentes conservadoras e reacionárias. Despertamos com força o ódio, e vimos ser naturalizada uma violência que é parte de uma estrutura que compõe, com as fissuras que se ampliam, um sistema putrefato, carcomido, mas que no auge de sua crise torna mais perverso e insuportável suas contradições.

Deixamos de procurar entender os mecanismos de funcionamento desse sistema, e o embate que existe nele por meio da luta de classe, e nos prendemos a lutas corporativas, setorizadas, invertendo qualquer lógica de compreensão revolucionária e transformadora, que nos aponta a necessidade de travar uma luta que aglutine todos os setores, ao invés de segmentá-los. Caímos na armadilha da globalização, por onde a segmentação e a separação se constituiu num elemento forte para a consolidação da lógica individualista que se espalhou pelo mundo desde o final do século passado. Abrimos, assim, o caminho para a ação de missionários, comerciantes da fé, que se espalharam pelos rincões perdidos desse país, e pelas periferias abandonadas, e constituíram formas de organização que estavam na origem de nossas organizações revolucionárias: as células.

O ressentimento, a revolta, o medo, a sensação de abandono, a pobreza crescente, tudo isso, jogou multidões nas garras desses oportunistas, e prenderam as pessoas num ambiente de controle moral e de costumes arcaicos. Retrocedemos séculos e vimos ser transportados para o mundo atual os valores de uma idade média e de uma antiguidade onde deuses e demônios disputavam as mentes frágeis de pessoas ignorantes e desconhecedoras da realidade. Onde se encontravam esses valores? Onde sempre estiveram, em ditos "livros sagrados", cientificamente incomprováveis, historicamente falseados e absurdamente citados anacronicamente.

A planitude do mundo se apresentou em toda a sua plenitude, repleto de estupidez, ignorância e de visões fantasmagóricas e estapafúrdias. Como no filme “A Vila”, vivemos em uma realidade construída, falseada, dominada pelo medo e pelo temor de sermos punidos por entidades vingativas que nos controlam: "Aquelas de Quem Não Falamos". Por isso me inspirei no livro “O mundo assombrado pelos demônios”, de Carl Sagan, para escrever um dos meus últimos artigos, que passo em seguida a me referir, espero que não parem por aqui, e observem o que publiquei em meu blog em maio de 2021...


(*)  CENÁRIOS SOMBRIOS E UM MUNDO SEM RUMO – BIOPODER, FASCISMO E HIGIENISMO (Artigo publicado no Blog Gramática do Mundo. Link de acesso: https://gramaticadomundo.blogspot.com/2021/05/cenarios-sombrios-e-um-mundo-sem-rumo.html

(**) Veja também pelo Canal Romucapessoa, no YouTube: https://youtu.be/Iazk6TiaCHI