domingo, 30 de junho de 2019

É A GEOPOLÍTICA, ESTÚPIDO!

Chefes de Estado do G20.
Difícil é encontrar o brasileiro.
Este artigo foi sendo escrito ao final do encontro da “Cúpula do G20”, em Osaka no Japão. Evento que reúne as maiores economias do mundo. Para além de todas as polêmicas que envolveram as discussões nesse encontro de repercussões mundiais, e não poderia ser diferente, há um substrato, para mim importante, que gostaria de destacar. É o que envolve a importância da geopolítica, cada vez sendo mais referenciada nas discussões, acordos e análises sobre as transformações que acontecem no mundo.
O comunicado oficial, final, do G20 se refere explicitamente a “intensificação de tensões comerciais e geopolíticas” no mundo. Consequência de uma situação de crise internacional, que afeta a economia mundial, coloca muitos países em condição de recessão, espalha medo e temor por todo o mundo em função de atritos gerados por políticas protecionistas e unilaterais de alguns países, em especial os EUA, além dos potenciais conflitos que envolvem nações que situam-se em posições estratégicas, particularmente no Oriente Médio, mas, principalmente aquelas que possuem grandes reservas petrolíferas. Além de outros fatores, como os problemas ambientais, o deslocamento de populações, o aumento da pobreza, até mesmo nos países desenvolvidos, e as trasnformações geradas pelo crescimento do gigante chinês, seja nos avanços tecnológicos e na ousada constituição da nova Rota da Seda.
Uso aqui, no título, uma expressão muito conhecida internacionalmente, transformada quase em um mantra, proferida por um assessor de Bill Clinton, num período eleitoral, quando ele dizia que a economia é o elemento principal a definir a política, e, no caso específico, uma eleição presidencial. Procura, assim, dizer que as questões mais sensíveis de um estado-nação estão ligadas à situação econômica, e que isso implica num embate eleitoral, naturalmente.
Faço um paralelo aqui com a geopolítica. Desde que a economia se tornou globalizada, mas não somente depois disso, as questões geopolíticas tornaram-se determinantes nas relações internacionais. Isso se compreendemos, como é natural que façamos, que a geopolítica é o olhar estratégico, tanto analítico, como do ponto de vista das ações governamentais e até mesmo do cotidiano e da vida de qualquer pessoa que deseje focar em seus objetivos e poder alcançá-los definindo os caminhos que a levará a atingir seus desejos e planos adredemente definidos.
No entanto, o que desejo aqui neste artigo é provocar uma discussão, ou prolongar uma discussão que tenho feito ao longo desses anos, que pode ser comprovado aqui em artigos já escritos neste blog. Porque a Geografia não valoriza a Geopolítica, mesmo diante da importância que ela tem tomado desde o final do século XX? Por um lado compreendo, assim como o faz Yves Lacoste, e é nele que me espelho, que a Geopolítica e a Geografia são a mesma coisa. Deixou de ser a partir do momento em que, após a segunda guerra mundial a geopolítica foi estigmatizada, não somente porque ela foi sabidamente utilizada no aparato belicista da ascensão nazista (embora fosse também utilizada por todos os demais países envolvidos naquele e em todos os outros conflitos). Mas houve outro elemento determinante nessa separação da Geopolítica da Geografia. Os embates entre duas escolas acadêmicas na área da Geografia, a lablacheana, francesa; e a ratzeliana, alemã. Os franceses, vitoriosos na segunda guerra, ao lado dos aliados, impulsionou uma desavença bem anterior, fomentada por historiadores que buscavam uma “revisão” historiográfica, e fizeram surgir a “história dos annales”. Assim, buscaram desacreditar essa vertente importante da geografia, de forma a evitar que viesse se sobrepor à história, e, ao mesmo tempo, seguir por um caminho que pudesse reduzir a abordagem política das interpretações geográficas, focadas a partir de então, prioritariamente no cotidiano das relações sociais.
Essa armadilha feita para a Geografia funcionou perfeitamente, e, paradoxalmente, constituiu-se em uma estratégia vitoriosa nessa construção historiográfica. Espalhou-se pelo mundo uma compreensão de Geografia focada naquilo que os franceses compreendiam como elementar para projetar o estado-nação, os estudos regionais. E o planejamento, muito embora devesse necessariamente partir de uma visão estratégica, se constituiu no olhar essencial a partir de divisões regionais que acompanhavam a constituição física e geomorfológica, definindo a partir daí os estudos que orientavam as administrações estatais os tipos de investimentos que devem ser feitos, constituídos a partir dessas características locais e regionais.
Isso é algo absolutamente correto, não há o que negar nesses aspectos, que se constituem nos dias de hoje elementos essenciais para planejamentos urbanos, regionais e ambientais. No entanto, o elemento crucial, e a essência da geografia, deixou de ser observado. Sua importância estratégica, o olhar político que possibilita a ampliação da capacidade crítica e o equilíbrio na identificação dos interesses que estão por trás de qualquer decisão que envolva as questões de Estado. Enfim, a Geopolítica, como elemento fundamental para que possamos ter a compreenssão macro e micro que circunda a própria Geografia como aquilo que muitos chamam de “a ciência dos lugares”, o que nos possibilita compreender tudo aquilo que está à nossa volta, a ligação inevitável que existe entre todos os lugares, nossas vidas e o ecúmeno.Somos movidos pela política, a capacidade de nos entendermos em sociedades cada vez mais complexas (embora se tente desconstruir a política nos dias atuais, mas isso é também um objetivo político). Portanto, é impossível pensar a Geografia sem a política, pois é ela, essa ciência, ou esse saber como desejam alguns, que explica a nossa existência em toda essa dimensão compreendida por milhões de quilômetros quadrados em um planeta esférico, embora a alienação e estupidez de alguns a vejam como plana. Mas os que pensam assim, somente refletem também a forma de seus cérebros.
A Geografia sem a política, é nula de entendimento da realidade. Abstrai-se nas especificidades, e somente serve às vaidades de quem foca seus conhecimentos de maneira limitada, desconsiderando a necessidade de junção de todas as partes que compõem o conhecimento geográfico. Prender-se somente a essas especificidades é reduzir a importância da Geografia, na verdade negá-la, e assumir-se enquanto condutor de uma parte que desconexa-se de um eixo. Os caminhos trilhados pela pós-graduação, seguindo a força imposta pelo globalismo neoliberal, consolidou esse viés, difícil de ser desfeito, principalmente por vivermos um tempo de negação da política.Contudo, isso não impede de reconhecer na Geografia, e na Geopolítica, aqueles elementos que nos dão a possibilidade de conhecer, em toda a essência de uma dialética que é real, como se dão as transformações que ocorrem no mundo, seja econômica, ambiental, da escasse hídrica, de alimentos, portanto não somente no que se convencionou imaginar como sendo o único elemento a se entender pela geopolítica: a guerra. Algo já há décadas desmistificado por um movimento de resgate da geopolítica, melhor dizendo, de retomada da política na Geografia, liderado por Lacoste. Mas o que veio depois, a onda neoliberal globalizante, em pouco tempo levou ao esquecimento desse resgate e prevaleceu a fragmentação e, se não a negação, a quase absoluta indiferença em relação a inserção da política como parte essencial e necessária da compreensão geográfica.,
Isso não muda somente com a referência permanente à Geopolítica na mídia ou nesses encontros de chefes de Estados, depende de novas compreensões, de reorientação e reconstrução de uma Geografia que retome a visão de totalidade e compreenda que nesses novos tempos de negação de conhecimentos elementares transmitidos pela universidade, a força desse saber está exatamente em poder dar resposta concretas aos dilemas que angustiam o mundo. Não sozinha, porque também vivemos no tempo de uma necessária multidisciplinaridade, mas jamais conseguirá ser forte como é preciso se se mantiver fragmentada e negligenciando a sua essência fundamental, a política. Que as novas gerações de geógrafos consigam romper com esse viés que acompanha boa parte das gerações que lhes orientam, formadas numa era neoliberal e fragmentária, e resgate para a geografia a importância do saber estratégico que lhe deve ser inerente.



segunda-feira, 24 de junho de 2019

PARA SEMPRE NA LEMBRANÇA (RELEMBRANÇAS - 18 ANOS DEPOIS)

24 de junho de 2019. Completaram-se 18 anos da morte de meu pai (2001). Foi em seu velório, em meio à dor que eu sentia, que fiquei sabendo da morte de outro baiano ilustre, na mesma data. Este um conhecido cidadão do mundo: Milton Santos. Com esse artigo homenageio Milton Santos, por sua dimensão histórica-geográfica mundial, e por extensão, meu pai, cujo papel político se restringiu ao seu Estado e a sua sempre querida cidade natal, Alagoinhas, onde foi vereador por quatro mandatos(**).

Meu pai, Romualdo, com minha
mãe, Maura. Foto de 1991
Meu pai faleceu no mesmo dia que meu Milton Santos. Romualdo Pessoa Campos, também baiano, vereador por 16 anos pelo PTB, na cidade de Alagoinhas, e por várias vezes secretário  da mesa diretora do legislativo daquela cidade, até ser preso em 1964 e ter desistido da política, tornando-se funcionário público do DNER até se aposentar. A altivez e o orgulho pelo seu trabalho alimentavam uma esperança de que o nosso país desse certo pelo esforço de cada um, como ele fazia.
24 de junho, dia de São João, tão lembrado pelos nordestinos. Um dia para ficar para sempre guardado na minha memória.
Um, cidadão do lugar, incorporado na força dos lentos, baiano do interior, embora quase anônimo me alimentou o orgulho de ser seu homônimo. O outro, também baiano, cidadão do mundo (embora ele não gostasse dessa expressão), esgrimindo na força de seus argumentos, de suas criações e elaborações intelectuais a esperança de um outro mundo, de uma outra globalização. E a morte, a igualá-los na eternidade do meu pensamento, na afinidade dos meus sonhos, na consolidação das minhas crenças, e na afirmação das certezas de que embora curta a nossa vida nessa imensidão de tempo que gesta e desenvolve a humanidade, vale a pena lutar, mesmo sendo ela, a morte, a única certeza do porvir. Mas ela não deve nos desanimar, e sim nos reconfortar, na medida em que escapemos da nossa individualidade e possamos transferir nossos sentimentos humanistas para a construção de uma utopia, sem a qual a nossa existência não teria sentido.

MILTON SANTOS: DA BAHIA PARA O MUNDO
CIDADÃO DO MUNDO
Conheci Milton Santos, em 1996 no Simpósio realizado na USP em sua homenagem: “O mundo do cidadão - cidadão do mundo”. Tempo suficiente para aprender a respeitá-lo e admirá-lo, e a me tornar leitor ardoroso de seus textos e livros.
Também baiano, como ele, formado em História, com pós-graduação nessa mesma área, entrei na Universidade Federal de Goiás em um concurso realizado no curso de Geografia, em 1995 para ministrar aulas de Formação Econômica e Social, também dentro da minha área de formação. Ao final do primeiro ano eu tinha uma firme convicção da importância dessa disciplina, por ser ela fundamental para o entendimento da relação tempo-espaço. Afinal, nada se dá fora do tempo, nem ocorre no vazio, senão num determinado espaço. Além da fundamental compreensão de que nada acontece isoladamente, somente este ou aquele fato podendo ser explicado dentro de um processo que aponte as causas e nos dê a dimensão de um presente que nada mais é do que a somatória de tempos passados. A junção e conjunção de espaços que se transformam num acumulo incessante de novos objetos, gerados por outros, que, outrora novos, foram envelhecidos pelo tempo.
Milton Santos passou a ser um referencial para um redirecionamento das minhas dimensões intelectuais. Primeiro, por uma iniciativa própria, senti a necessidade de buscar nas leituras da Geografia a condição necessária para me dar a compreensão de que eu estava ali para ajudar na formação de Geógrafos. Nada mais justo, e coerente, que procurasse aliar os meus conhecimentos historiográficos, à noção e dimensão do pensar geográfico. Senão me perderia num emaranhado de conceitos e categorias, vendo-os de maneira formal, como se vê habitualmente no senso comum, e banalizando a importância do conhecimento geográfico para o entendimento das relações humanas. É preciso bem mais do que uma mera análise da superfície terrestre; dos cursos dos rios; dos afluentes das margens esquerdas e das margens direitas; da localização cartográfica; das capitais e de seus estados; dos tipos de solo e da qualidade da água. Questões importantíssimas para entender o todo que abrange o nosso planeta, mas insuficientes se desconsiderarmos o principal elemento de ligação: o ser humano, razão primeira e última da existência de todo conhecimento, pois é por ele que todo o saber é gerado.
GEOGRAFANDO O HUMANO
O viés humano da Geografia transportava-a, do sentido estrategicamente imposto por séculos, desde os seus primórdios, que visava facilitar (e guardar) a localização de fronteiras dos nascentes Estados absolutistas, ou desde já o desenvolvimento cartográfico para tal fim, objetivando encontrar mercadorias e mercados, para uma visão mais ampla e racional, no entendimento de que era preciso inseri-la como uma ciência humana.
O lugar, o território, o espaço, a paisagem, as cidades, o urbano e o rural; a cultura, as tradições, enfim a busca de conhecimentos não mecanicamente estabelecidos, mas numa interação dialética que aponta claramente as relações entre o planeta e a sociedade, visualizando as “heranças sociais materiais e o presente social”[1]. Sem se limitar, contudo, à simples constatação de uma determinada realidade, mas procurando soluções que dêem conta de resolver os problemas da imensa maioria da população.
A Geografia mudou, num percurso oposto àquele tomado pela História. Enquanto aquela buscava abranger o todo numa abordagem dialética, encontrando no marxismo os elementos basilares para o entendimento da racionalidade e das contradições que moviam as sociedades humanas, o conhecimento histórico tomava outro rumo, caracterizando-se pela fragmentação. A História fragmentara-se e aprofundara-se no localismo, no cotidiano e nas mentalidades, e à medida que aprofundava-se em suas especificidades, afastava-se do presente e da noção de totalidade, mesmo procurando evitar os riscos do anacronismo.
Apesar de Braudel, que soube trabalhar brilhantemente as noções de espaço e espacialidade, e via tempo-espaço como inseparável, o enfoque dialético que ligará os restos do passado à inexorabilidade das explicações do presente, transfere-se para a Geografia, aproximando-a cada vez mais da sociologia, da filosofia, da economia e da própria história.
E ninguém melhor do que Milton Santos soube compreender o momento da Geografia, direcionando seus olhares para o fazer, na maneira como o homem no presente constrói o seu futuro sobre os restos do passado. Vendo nas técnicas, e em seus usos, as respostas para o entendimento das complexas relações sociais, como “um dado fundamental da explicação histórica, já que a técnica invadiu todos os aspectos da vida humana, em todos os lugares”.[2] Mas, mesmo com tais considerações, ele via a vida “não como um produto da técnica, mas da política, a ação que dá sentido à materialidade”[3]
Surpreendentemente, se considerarmos os direcionamentos dos fatos históricos das duas últimas décadas do Século XX, a produção intelectual do professor Milton Santos avançou na contramão de idéias hegemônicas que procuravam colocar-se como esclarecedoras e definidoras de um fatalismo, que nos impunha a crença em um fim do qual não poderíamos escapar. A “globalização” colocava-se como inevitável, e a sociedade futura como um deslumbramento da vitória do “livre-mercado” sobre o “leviatã”, inoperante máquina do Estado a entravar o progresso. Não somente o neoliberalismo despontava como o ápice das liberdades, como o pós-modernismo surgia para por fim à uma época que se caracterizou pela consolidação dos Estados-Nações e que alcançou seu auge, e também os limites de suas contradições, com o Welfare-State. A crise do socialismo dava um ar de déjà-vu, de estancamento de uma utopia cujo “fracasso” só confirmava a convicção de ser o capitalismo e a economia de livre-mercado o futuro incontestável da humanidade.
Não foi essa a análise que fez Milton Santos em 1993, momento máximo da euforia neoliberal, no 3° Simpósio Nacional de Geografia Urbana, realizada no Rio de Janeiro, quando apontava as principais tendências dos anos 90:
“Na hora atual, e para a maior parte da humanidade a globalização é sobretudo fábula e perversidade: fábula porque os gigantescos recursos de uma informação globalizada são utilizados mais para confundir do que para esclarecer: a transferência não passa de uma promessa. (...) Perversidade, porque as formas concretas dominantes de realização da globalidade são o vício, a violência, o empobrecimento material, cultural e moral, possibilitados pelo discurso e pela prática da competitividade em todos os níveis. O que se tem buscado não é a união, mas antes a unificação”.[4]
Contudo, apesar da acidez das suas críticas quanto ao processo da globalização, da destruição de valores e do encolhimento do indivíduo à superficialidade de suas relações, gerado pelo enorme poder da massificação midiática, Milton Santos apontava na contradição de ser este mundo três em um só, o elemento motivador da crença de que a globalização não passa de uma percepção enganosa onde se impõe a informação, alicerçada na produção de imagens e do imaginário. “O primeiro é o mundo tal como nos fazem vê-lo: a globalização como fábula; o segundo seria o mundo tal como ele é: a globalização como perversidade; e o terceiro, o mundo como ele pode ser: uma outra globalização”[5].
Assim, direcionou seus últimos escritos na contraposição do discurso hegemônico, caracterizado como “Consenso de Washington”, e se tornou uma das vozes mais importantes na abordagem do processo que atravessa a humanidade nas últimas duas décadas do século passado. “Ao contrário do que se disse antes, a história não acabou; ela apenas começa. Antes o que havia era uma história de lugares, regiões, países. (...) O que até então se chamava de história universal era a visão pretensiosa de um país ou continente sobre os outros, considerados bárbaros ou irrelevantes”.[6]
Acreditando na força do pobre e do lugar, Milton Santos enfatizava, utilizando-se de uma expressão da professora Maria Adélia de Souza, que “todos os lugares são virtualmente mundiais”,[7] o próprio sentido da globalidade corresponderia a uma maior individualidade, e nessa relação unicidade-totalidade acreditava que tornava-se necessário encontrar os novos significados do mundo atual redescobrindo o lugar.
Aos pobres ele concedia a primazia de situar-se num ponto de intersecção com o futuro. Acreditava que o distanciamento ao totalitarismo da racionalidade transformava as imagens do conforto, da modernidade tecnológica, em miragens para aqueles que por não estarem inseridos nessa aceleração contemporânea, nesse mundo da profusão de sempre novos objetos, eram por ele caracterizados como “homens lentos”. E por assim ser, por escaparem dessa ventura vedada aos ricos e às classes médias, é que os pobres podem esquadrinhar as cidades e ver na diversidade a necessidade de transformação.
FILOSÓFO DA GEOGRAFIA
“Trata-se, para eles, da busca do futuro sonhado com carência a satisfazer -carência de todos os tipos de consumo, consumo material e imaterial, também carência do consumo político, carência de participação e de cidadania. Esse futuro é imaginado ou entrevisto na abundância do outro e entrevisto, como contrapartida, nas possibilidades apresentadas pelo Mundo e percebidas no lugar”.[8]
Como afirmou o geógrafo e ex-presidente da SBPC, Aziz  Ab’Saber, Milton Santos foi um filósofo da Geografia. Procurou incorporar a crítica aos seus estudos geográficos num crescente resgate da concepção humanista, fundamentada na dialética marxista e no existencialismo sartriano. E assim, ele se impôs perante a Geografia mundial, e no Brasil se tornou um dos mais citados intelectuais das três últimas décadas. Para confirmar a exceção, numa regra caracterizada pela formação cultural dominada por uma elite branca e “estrangeirizada”, a sua cor negra não foi barreira para que se consolidasse como uma das vozes altissonantes da universidade brasileira, e de nossa cultura de uma maneira geral. Autoridade que lhe permitia, inclusive, cobrar coerência de seus colegas de Academia, e a ser duro nas críticas à apatia em que vivia a universidade.
No seu último escrito, um artigo publicado pelo jornal Correio Braziliense, afirma que “por definição, vida intelectual e recusa a assumir idéias não combinam. Esse, aliás, é um traço distintivo entre os verdadeiros intelectuais e aqueles letrados que não precisam, não podem ou não querem mostrar, à luz do dia, o que pensam. (...) A apatia ainda está presente na maior parte do corpo professoral e estudantil, o que é sinal nada animador do estado de saúde cívico dessa camada social cuja primeira obrigação é constituir, como porta-voz, a vanguarda de uma atitude de inconformismo com os rumos atuais da vida pública”[9].
***
Quando escrevi esse artigo minha filha ainda estava viva. Em 2007 ela também se foi, para ficar para sempre na memória. Certamente a palavra que usei no parágrafo anterior – reconfortar - passou a ter um peso maior com a morte dela. Sigo tentando, mas é muito difícil, afinal, embora seja mais fácil nos conformarmos com a morte de nossos pais, pela ordem natural quando chegada a velhice - assim imaginamos – é diferente quando perdemos um filho ou uma filha. Mas, sim, a morte não pode desanimar aqueles que ainda não sucumbiram a ela e que carregam consigo a utopia de um outro mundo, mais justo e solidário. Apesar das evidências apontarem para o contrário, no coração da maioria prevalece esse sentimento que embalou a vida dos que aqui homenageamos. Inclusive minha filha, que como canta Gonzaguinha, carregava essa certeza na pureza de ser criança. A vida, ela segue, a não ser para aqueles que já passaram por ela e nos esperam em algum lugar.

(*) Este artigo foi escrito no mês de junho de 2001, duas semanas após a morte de meu pai e de Milton Santos, um ano de perdas pessoais e de abalos geopolíticos mundiais com o ataque terrorista ao World Trade Center. Foi publicado nesse mesmo ano no Jornal Opção, de Goiânia, no Jornal A Tarde, de Salvador em um suplemento cultural especial sobre Milton Santos. Depois inseri o texto, com alguns reparos no Boletim Goiano de Geografia, Vol. 21, n. 1. Em 2010 postei um resumo dele neste Blog. Publico mais uma vez, na íntegra para lembrar, os 18 anos da morte desses dois baianos que de maneiras diferentes foram personagens importantes em minha vida. Um me fez gente como sou, o outro me aproximou da Geografia para sempre. 
(**) 24 de junho de 2019. Volto a publicar este artigo, dezoito anos depois da morte de meu pai, e de Milton Santos. O que está dito  aí não pode ser apagado. Eu relembrarei sempre nesta data.

[1] Santos, Milton. Território e Sociedade. São Paulo: Ed. Fund. Perseu Abramo, 2000. Pág. 26
[2] Santos, Milton. Técnica, espaço, tempo. São Paulo: Ed. Hucitec, 1994. Pág. 67
[3] Idem, Pág. 39
[4] Idem, Pág. 56
[5] Santos, Milton. Por uma outra globalização. São Paulo: Record, 2000. Pág. 18
[6] Idem, Pág. 172
[7] Santos, Milton. A natureza do espaço. São Paulo: Hucitec, 1996. Pág. 252
[8] Idem, Pág. 261
[9] Correio Braziliense, 03 de junho de 2001
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quinta-feira, 23 de maio de 2019

PÓS-VERDADE: COMO COMPREENDER UM TEMPO EM QUE SE NEGA A FILOSOFIA E AS CIÊNCIAS HUMANAS


PINT OF SCIENCE[1] – GOIANIA, 22.05.2019

“Migalhas dormidas do teu pão
Raspas e restos
Me interessam
Pequenas porções de ilusão
Mentiras sinceras me interessam
Me interessam, me interessam”
(Cazuza)
O que venho abordar aqui hoje não tem sido novidade em minhas reflexões e indagações por essa década deste século, em que o imponderável tem se imposto mais do que em outros tempos. Digo isso até de forma um pouco provocativa, porque sei, como historiador, o quanto é absolutamente impossível estabelecer comparações entre épocas, não somente pela natureza dos fatos, mas pelas próprias transformações que as sociedades passam.
Embora no senso comum as pessoas repitam com frequência que a “história se repete”, isso é uma bobagem que só demonstra o quanto se desconsideram as relações temporais. Imaginam haver uma repetição de situações que são completamente desvinculadas de realidades passadas, dentro de outros contextos e noutro tempo. É a absoluta ausência de capacidade crítica sobre o que é a história e como cada um de nós se situa no seu tempo. Em nosso tempo e na compreensão dos tempos passados.
Não quero travar aqui uma discussão de caráter acadêmico, até pelo perfil desse movimento “Pint of Science”, de benfazeja inovação. Que isso que acontece aqui, agora, aconteceu ontem e antes de ontem, por diversas partes do mundo, numa tentativa de informalmente trazer às pessoas que desejam sair à noite e relaxar, em busca de um sossego para se livrar das ansiedades e pressões do cotidiano, possa acontecer por muito mais vezes e se torne um hábito contumaz. Um elo saudável entre o lazer, o conhecimento e o saber.
Por isso farei muito mais uma exposição informal, procurando estabelecer um diálogo não somente com quem está aqui ouvindo, mas uma espécie de reflexão em voz alta, para que possa também me ajudar a compreender tudo que acontece à nossa volta, numa rapidez estonteante e num movimento de insanidade social, numa época em que ser normal pode te deixar meio deslocado da realidade.
Como eu disse inicialmente, venho escrevendo em meu blog – Gramática do Mundo – sobre esse tema desde que o criei, em 2010. Lá atrás o termo “pós-verdade” ainda não havia se destacado como um neologismo[2] que passaria a caracterizar uma era, marcada pela absoluta ausência de critérios para definir um acontecimento, ou até mesmo uma notícia inverossímil, desprovida de qualquer sentido ou que tendo sido inspirada em algum fato real. Mais do que isso, uma era onde se desconstruía a verdade elaborada e se afirmava a versão desejada. Nada mais importava para que se pudesse estabelecer a verdade, já não havia mais critério. Verdade passaria a ser aquilo que a minha paixão, a minha fé, o meu sentido desejava que fosse. O racionalismo, imperioso movimento iluminista que desbancou a era das trevas medievais, decaía em descrédito juntamente com a filosofia, a história e a sociologia. Claro que isso feito por forças desejosas  em abominarem a crítica.
Em 2016 “pós-verdade” (“post-truth”), foi citada pelo Dicionário de Oxford como a palavra do ano. Então não estamos falando de algo que decorre de uma conjuntura especifica nossa, advinda de um processo político complicado que culmina em um personagem que se torna presidente e foi beneficiário desse ambiente criado por “fake News”, o instrumento que consolida a era da pós-verdade, em todas as suas dimensões.
Esse fenômeno é característico de uma época que só pode ser compreendida em toda a sua dimensão histórica. Eu diria que o auge desse tempo de desvio de rota na forma como a sociedade se posicionava foi o momento em que estourou a crise econômica, no ano de 2007, embora suas causas já viessem de bem antes. Mas talvez pudéssemos recuar mais no tempo, e destacar um fato que, literalmente, implodiu as mais ferrenhas convicções e abriu caminho para uma década de instabilidade crescente, dentro de cada país e entre boa parte deles. O ataque às Torres Gêmeas, o “World Trade Center”, à Casa Branca (esse ataque fracassado) e ao Pentágono. O que se sucedeu nos anos seguintes abriu a caixa de pandora, e libertou todos os males que poderiam gerar perversidades e destruir a democracia e a política.
Vamos fazer a junção dos dois momentos. O “Patriot Act” significou a ausência de liberdades individuais e a completa perda de privacidade nos EUA e para o mundo. O medo, gerado pelo ataque terrorista, e o uso desse sentimento a partir de então, para justificar as mais perversas e inomináveis reações, transformou o mundo e sinalizou uma mudança fundamental na maneira as sociedades se comportavam até então, a partir de toda a propaganda que se fez em torno da globalização.
A mentira como arma sempre esteve presente ao longo da história da humanidade. Mas a forma como ela se torna algo quase unânime decorre da exposição permanente de uma versão fantasiosa, repetida infinitas vezes e “demonstrada” por meio de informações não comprováveis, mas ditas enfaticamente por autoridades que a repete incessantemente sem que o contraditório seja apresentado. Pouco a pouco as pessoas vão assimilando aquilo que é dito com insistência, e assim se forma a “opinião pública”. O grande momento disso foi toda a propaganda feita para justificar a invasão do Iraque pelos EUA, com base em informações falsas e adredemente construídas com o apoio da grande mídia. Sim, a grande mídia é responsável pela origem das fake news.
Não vou entrar na análise do que aconteceu desde então, mas os fatos demonstram os equívocos cometidos nessas ações, e a perversão gerada com a destruição de países, ampliação do deslocamento de populações pelo mundo, insegurança, aumento da violência, e... a crise econômica global, cujo ápice se deu entre 2007 e 2010, mas que segue gerando instabilidade na economia mundial.
No entanto, as análises feitas pelos grandes jornais poucas relações fazem entre esses atos e a crise mundial. É como se de repente, do nada, as pessoas começassem a rever seus conceitos, aleatoriamente.
Mas nada é aleatório, tudo decorre de algum tipo de ação, não se pode falar em acaso, mas em causas. Contudo, negar a verdade, como estratégia de ação e de desconstrução do seu oponente, passou a assumir a condição de praticamente uma arma, a partir desses fatos que eu acabei de citar. E, em meio à falta de perspectivas, diante de uma grave crise que quase quebrou o sistema financeiro mundial, o medo adquiriu uma nova conotação. Já não mais somente diante da guerra, ou da violência cotidiana, mas diante da ausência de caminhos que indicassem as melhores alternativas para que cada um pudesse acreditar que o futuro seria melhor.
Passamos a vivenciar, principalmente a partir de 2010 uma virada no comportamento das pessoas, induzidas por discursos radicais, sectários, alimentados pela fé e instrumentalizados por práticas ultra-conservadoras, disseminadas em um ambiente tóxico que só piorava como consequência da crise econômica.
Dois momentos foram marcantes para acentuar esses comportamentos, em meio a um mundo que já não girava somente em uma direção, mas completamente sem rumo. O primeiro foi a eleição de Barack Obama. A bem da verdade as “fake-news”, em todas as suas dimensões, se amplificaram incontrolavelmente a partir de então. Sua eleição despertou nos setores mais conservadores, estimulados pelo fundamentalismo religioso, um ódio étnico-racial visceral e uma intolerância inédita na relações políticas naquele país. O “Tea Party”, grupo que surgiu se contrapondo ao Obama se encarregou de espalhar mentiras o envolvendo e isso prosseguiu por todo o período em que ele foi presidente. Transformou-se numa estratégia política que teve sua experimentação mais determinante no plebiscito que aconteceu no Reino Unido, quando a população foi chamada para decidir sobre a continuidade ou não na União Européia. O “Brexit” como esse movimento foi chamado se constituiu no laboratório por excelência de uma nova prática política, onde a mentira espalhada persistentemente pelas redes sociais passou a adquirir ares de verdade, e os fatos eram desconstruídos por discursos toscos, sem fundamentação na realidade, mas que se escoravam nas decepções, frustrações, sentimentos de desprezo pelas instituições e pela política, e na incapacidade das pessoas refletirem criticamente sobre realidades complexas, em um ambiente em que as tecnologias dos smartfones reduz a capacidade de compreensão, por meios de uma inundação de notícias. As desejadas, e tornadas críveis, passavam a serem aquelas que melhor se inseriam nos desejos de cada um. A verdade passa a ter, então, a conotação que cada um deseja dar a suas escolhas. Isso pode representar o fim da democracia e uma plena derrota da política.
A partir do Brexit, e logo em seguida, com a eleição de Donald Trump, a palavra “fake News” foi massificada por este que viria a ser o presidente dos EUA. E passou a ser utilizada contra a imprensa toda vez que suas idéias eram contrariadas ou que reportagens emitiam fatos pérfidos de sua trajetória de rico empresário. Os ataques nas eleições contra Obama e a sua candidata Hilary Clinton eram repetidas e compartilhadas celeremente por seus seguidores, sem que houvesse a menor preocupação em checar os fatos. Ao mesmo tempo, e de forma oportunista, a milhares de quilômetros de distância alguns jovens penetravam no mundo digital e alimentavam as mentiras, a fim de atraírem para os seus sites o maior número de visualizações e dessa forma faturarem dinheiro em cima de “fake News”. A cidade de Velez, na Macedônia, ficou famosa por abrigar um grande número de sites que se especializaram em interferir nas eleições dos EUA e em outras partes do mundo. Mas isso não se deu somente de forma espontânea, houve método nisso. Steve Bannon foi talvez o principal estrategista por trás desse processo de difusão de fake News. Assim como teve também uma participação importante no “Brexit” e nas eleições aqui no Brasil.
Mas é preciso, diante disso, e eu procurei contextualizar para que pudéssemos compreender como se dá esse fenômeno das fake News, e, principalmente, porque entramos nessa “era da pós-verdade”, saber duas coisas: o que é a verdade; e porque as pessoas se dispõem a acreditar em mentiras.
Primeiro é necessário compreendermos que a verdade não é, jamais, absoluta. Ela é sempre relativa e possível de ser questionada, e até mesmo, revista. Nesse aspecto é salutar saber que é a ciência e a capacidade crítica de investigar e avançar para além do que se deseja demonstrar como definitivo quem pode colocar qualquer fato sob questionamento. Uma verdade só poderá ser negada a partir da investigação científica e da comprovação de elementos que, primeiro desconstrua com comprovações aquilo que se estava afirmando até então, e que, em sequência, se apresente as comprovações do que se deseja apresentar como algo a substituir o que até então era verdade. Por isso que, em minha opinião, a dialética se constitui como o melhor método de discussão e investigação. Na medida em que propõe analisar qualquer fato a partir da identificação de contradições que aponte a falseabilidade naquilo que se apresenta, e, ao mesmo tempo, se impõe como uma antítese daquilo. Na impossibilidade de que essa antítese se apresente como algo definitivo, de difícil questionamento, a tese é o caminho para que se possa fazer a junção do conhecimento anterior com as novas compreensões que pretendem negá-lo.
O que não se pode, jamais, é desconsiderar algo sem que se tenham elementos comprobatórios para isso. A humanidade avançou exatamente estabelecendo esses pressupostos, em que a cada novas descobertas se ampliavam o horizonte dos conhecimentos e se avançava na produção de algo qualitativamente superior. Que não é, jamais, definitivo.
O que se pretende hoje, com alguns discursos obtusos, na desqualificação de áreas importantes das ciências humanas, é erradicar essa possibilidade de interpretação dialética, visando colocar determinadas visões de mundo, e interpretações da realidade, como sendo definitivas, ou imutáveis. Isso significa construir um mundo totalitário, onde o pensamento crítico se tornaria algo marginal e “perigoso”, como aliás funcionou em um tempo tenebroso, e por isso denominado de trevas medievais. Cito muito o filme “O Nome da Rosa", que retrata um tempo onde o conhecimento estava sob controle da igreja e os que ousassem pensar de forma diferente seriam submetidos a julgamentos da inquisição e a serem mortos por questionarem os dogmas religiosos.
A outra questão, para além da verdade, que precisamos compreender é como e porque as pessoas se dispõem a acreditar em coisas que são ditas sem que haja a menor lógica por trás, ou sem que exista qualquer comprovação de que aquilo é fato e/ou real. Daí a importância de entender a contextualização. O que vai poder nos aproximar da compreensão do que faz isso ser possível é entender historicamente as condições reais de existências dessas sociedades e dessas pessoas, que as empurraram numa direção de cegueira e de crença radical em versões de acontecimentos que não correspondem aquilo que entendemos ser a verdade, porque possível de ser comprovada.
Naturalmente, colocarei aqui essas versões como sendo as verdades vistas por esses segmentos. Digamos que as fake news sejam para essas pessoas suas verdades. Para nós, que trabalhamos com o raciocínio crítico, dialético, a dúvida e a necessidade de comprovação é condição necessária para acreditarmos. O que move, por outro lado, as pessoas que acreditam em fake news?
Creio que resumidamente eu poderia colocar como sendo a junção de como a tecnologia tem sido usada para difusão da informação e como também tem se constituído num componente forte do fortalecimento do poder das igrejas. Isso, com o uso em larga escala das redes sociais e das mídias, disseminam elaborações de fatos, versões ao sabor das conotações ideológicas (e aqui não faço distinção, isso serve para as igrejas, mas serve também para quem segue alguma ideologia, da esquerda à direita) que, repetidamente, se constitui como aquela verdade que se enquadra no viés ideológico, ou no interesse dos dogmas que se inspiram em outras verdades ditas como absolutas e imutáveis.
Com esses componentes, aliado às questões conjunturais (crise econômica, crise política, crise de valores, violência, xenofobia, intolerância... etc...) nos situamos numa realidade em que as pessoas, a partir da própria situação de radicalidade que ela foi construindo a partir dessas condições analisadas, usam da seletividade para ler e acreditar somente naquelas notícias e fatos que lhes interessam. Cada um passa, então, a fazer um filtro nas informações, e eliminam assim, o contraditório. Dessa forma não conseguem identificar até onde aquilo no qual elas acreditam pode ou não ser verdade. Não há essa possibilidade do crivo quando eu elimino o contraditório, afasto-me do outro que pense diferente, abomino qualquer outro tipo de ideia que se contraponha à minha, não aceite um outro indivíduo pelo jeito dele ser, por sua condição social, de gênero, de escolhas políticas. Assim, cada um passa a ter a sua verdade, e a compartilhá-la somente com quem a aceite.
Ora, para fechar essa nossa conversa, eu finalizaria levantando uma questão fundamental para esse momento em que vivemos. A nossa humanidade depende de nossa capacidade de aceitação do outro, das nossas diferenças, a diversidade é a nossa maior riqueza. As pesquisas científicas existem para demonstrarem se aquilo que vemos, assistimos e acreditamos, merece ou não a nossa credibilidade. E a filosofia, a história e a sociologia são áreas da ciência que, juntamente com outras, tratam das relações humanas, das nossas condições sociais, da forma como nos comportamos e vivemos em sociedade. Na medida em que abominamos, primeiro, a necessidade de comprovarmos aquilo que nos é mostrado como verdade, e depois, quando extraímos do rol das ciências aquelas que são responsáveis pela compreensão de nossas condições humanas, estaremos nos direcionando para um ambiente cada vez mais permissivo do ponto de vista das relações sociais, intolerante e de não aceitação das diferenças. Penso que isso é extremamente perigoso, e, guardando-se as devidas proporções, e sem querer ser anacrônico, vai na direção daquele formato de mundo que o nazi-fascismo tentou fundar em meados do século XX e foi responsável pela morte de dezenas de milhões de pessoas.
Vivemos um tempo difícil, é verdade, mas devemos reafirmar a necessidade de estabelecermos relações sociais, solidárias e tolerantes. Enquanto cientistas sociais sabemos da nossa importância. Mas sabemos também que perfidamente existem mentes reacionárias que agem de maneira sinistra, insensível, e visam criar um modelo de sociedade onde a tirania e a ausência da crítica conduza as pessoas cegamente em direção a abismos. Precisamos de um novo movimento iluminista. Luz, e que a claridade impeça que nosso futuro seja de trevas.
Creio que o melhor é construirmos um mundo em que a verdade seja questionável, não por meio de mentiras, mas por nossa capacidade de crítica, de dúvida e de curiosidade sobre nós mesmos e os fenômenos que nos cercam.
Minha máxima para hoje e sempre: duvidem de tudo! A verdade estará mais próxima de nós se formos questionadores da realidade. E fujamos das bolhas que as redes sociais se tornaram.
Enquanto é tempo.



[1] O PINT OF SCIENCE é um festival que ocorre simultaneamente em diversas cidades do mundo e tem como objetivo  aproximar a ciência do cidadão, por meio de uma linguagem acessível e em locais de lazer. Veja no site: https://pintofscience.com.br/?fbclid=IwAR0ZZQCPr2qkm3nX7OqFJkvFFCxqZNLNpoUkj6xdc41BYUOIk-m7_r8B_s4.

[2] Neologismo é um fenômeno linguístico que consiste na criação de uma palavra ou expressão nova, ou na atribuição de um novo sentido a uma palavra já existente. Pode ser fruto de um comportamento espontâneo, próprio do ser humano e da linguagem, ou artificial, para fins pejorativos ou não (Wikipedia)

(*) Artigos já publicados neste blog, desde 2010, que abordam essa mesma temática:



sexta-feira, 22 de março de 2019

QUANTO MAIS IDIOTA, MELHOR

Tenho sentido uma ansiedade desmedida nos últimos meses. Ansiedade, frustração, raiva, desesperança… São sentimentos que, naturalmente, vão e vem dependendo da forma como reajo a cada instante em que me deparo com uma ou outra notícia sobre a política brasileira. Mas não só. Também sobre como a humanidade tem entrado num processo de transição de um sistema falido, mas ainda em alta em seu estado de perversão, para uma outra forma de sociedade indefinida, sequer em início de construção.
Estamos vivendo, portanto, uma transição longa e dolorosa, como aliás todas as transições também foram. Momento em que ocorrem choques e conflitos entre as forças que apontam para o progresso, para mudanças substanciais, e aquelas que tentam frear as transformações sociais e a entrada em um novo modo de se viver e de se aceitar as diferenças. Choque econômico, decorrência de uma crise estrutural, e como consequência disso choques de valores, de cultura, de comportamentos. Ampliação do ódio, da intolerância, do fundamentalismo religioso, enfim, do estado de conflagração social, ampliado pela violência e pelo medo, que se torna estratégia política dos setores conservadores. Tudo isso tem uma causa: a decomposição do sistema capitalista, cada vez mais excludente e concentrador, elementos contraditórios que o empurra para o abismo.
Esse quadro, que, a meu ver, sintetiza a crise estrutural e suas consequências conjunturais, nos leva por caminhos insólitos, às vezes impressionantes por ser resultados inesperados. E assim foi na mudança política que ocorreu após as eleições de 2018. Claro que tais situações são explicáveis, e no caso específico do Brasil, decorreu também de erros cometidos pela esquerda, sendo os principais deles negligenciar a crise sistêmica e negar, ou, menosprezar a ganância dos senhores do capital. Além de cometer erros repetindo vícios por tanto tempo combatidos, na relação republicana com o Estado e os privilégios que o Poder concede.
Mas, embora esses erros sejam capitais na política, o que pesa mesmo nessa transformação é o ambiente corrompido pela crise estrutural, em alguns aspectos não necessariamente ao alcance de medidas próprias de um governo. Principalmente porque a globalização trouxe essa consequência, a quase impossibilidade de um país se livrar das relações geopolíticas que afetam todo o sistema. E se nesse jogo nos situamos perifericamente, mais ficamos sujeitos as mudanças abruptas, e entre o jogo pesado travado entre as grandes potências, principais protagonistas nas relações internacionais.
Evidentemente que essas mudanças que acontecem aqui no Brasil tem ocorrido também por diversos países. Seja inevitavelmente, como consequência da crise estrutural, ou por ação das guerras híbridas, deflagradas pelos EUA sobre aqueles países que não se submetem estritamente aos seus interesses. Notadamente aqueles que situam-se em regiões estratégicas, ou possuem reservas consideráveis de petróleo em seus territórios. Esse segundo caso é o que nos envolve, enquanto país que buscava um protagonismo maior na geopolítica regional, e até mesmo mundial, bem como pelo fato de possuir uma enorme reserva de petróleo conhecida: o pré-sal.
Seguramente o Brasil não passaria ao largo, por essa crise mundial. Mas seu impacto poderia ser bem menor, diante das condições que tinham sido criadas na primeira década deste século. Restou à burguesia, aos segmentos reacionários da política brasileira e aos representantes dos interesses das corporações estrangeiras, construir uma crise que impusesse uma derrota a uma linha política que os assustavam, pelos seus resultados e pela perspectiva negativa de ter seus representantes de volta ao poder em médio prazo. Assim gestou-se, artificialmente, um golpe institucional. Propagandeou-se incansavelmente informações manipuladas, se não ainda as “fake-news”, mas algo parecido, notícias distorcidas repetidas ad nausean, invertendo todo o sentimento da população e fazendo com que as massas acreditassem que haviam sido traídas, e que o futuro seria melhor sacrificando aquelas lideranças que as ensinaram a sonhar com dias melhores.
O país passou por dias ruins, que se transformaram em meses e tem sido anos sofridos, com a intensificação de uma crise que inicialmente se deu por erros cometidos pelo governo Dilma, mas que foi potencializado escancaradamente e desavergonhosamente pela mídia, que comprou a idéia de derrubá-la a qualquer custo, sem que necessariamente pudesse encontrar em seu governo algo plausível para isso. Não era os erros que contavam, nem o desejo de corrigi-los. Mas a necessidade de tomar o Poder, e alterar o projeto em curso, retomando o viés mais abertamente liberal e alinhado com a economia restritiva das políticas sociais e da redução do Estado como suporte dos interesses mais vinculados às camadas mais pobres. Embora os governos de então tivessem feito concessões, ampliando o poder das corporações nacionais e dos bancos, o que importava era ter o Poder político, e o comando do Estado, nas mãos. E assim foi feito.
O golpe institucional, do qual participou o parlamento, a mídia e o STF, jogou o país no abismo. O parlamento, tresloucadamente pela ação de um deputado obcecado e ganancioso, um perfeito expert em solapar dinheiro público mediante pressões e chantagens, tornando-se um dos maiores gangster da política brasileira, os seus pares, em sua maioria, se identificava com o seu caráter; O STF por recusar-se em seguir preceitos jurídicos reconhecíveis até mesmo por um leigo, acovardando-se e negando-se a adotar uma postura que brecasse a loucura que estava em curso; e a grande mídia. Esta, em uníssono, se tornou a principal responsável por despertar a perversão de uma massa alienada, estúpida, conservadora e idiota, principalmente a classe média, reconhecida historicamente pelo oportunismo em portar-se nas crises ao lado de quem esteja em condições de assumir o Poder de acordo com os seus interesses imediatos. Agregando-se aos de cima e desprezando os de baixo.
Desde então entramos numa espiral de idiotização sem precedentes. Claro que essa característica acompanha muitos que se alienam e se afastam do mundo real. Vivem de fantasias, de crenças no imponderável, no improvável e no incomprovável. Mas são alimentados pelo medo. Medo da morte, da perda do emprego, da violência, dos pobres, dos negros, dos homossexuais… medo… medo… medo. Um fator de controle geopolítico, mas também de domínio das mentes e muito bem aproveitado pelas igrejas. Notadamente as de origem neopentecostais, cujo objetivo político, marcadamente reacionário, está explícito há décadas. E mais visível desde a primeira campanha eleitoral dos EUA que elegeu Barack Obama. Negro, descendente de africanos e tido naquele país como “comunista”.
Quando uso o termo “idiota”1, o faço em seu sentido etimológico, no significado original que representa determinado indivíduo que se aliena das questões essenciais que dizem respeito às formas como funcionam as estruturas governamentais e do Estado. Depreciativamente essa expressão vai tomando outras designações, que não deixam também de servir no perfil de boa parte da população, desinformada da essência do conhecimento, culturalmente tosca e conduzida pela propaganda midiática, fiel e servil a ensinamentos milenares decorados de livros sagrados e aplicados anacronicamente.
O bombardeio midiático, a crise instaurada, o aumento do desemprego e a violência, criaram as condições perfeitas para que entrassem em ação os personagens que carregassem esse perfil, e gradativamente tendo suas posições radicalizadas a ponto de tornarem-se agressivos, intolerantes e absolutamente refratário à política, e, principalmente, aos políticos, generalizando o seu olhar, mas não independente de distinções ideológicas. Foram gradativamente abduzidos pelo discurso da extrema-direita.
Aí entra a questão da ideologia. Alguns ressentidos personagens, cuja revolta pessoal dirige-se contra a academia, as universidades, por não serem reconhecidos nessas e sequer tivessem conseguido se verem aceitos em seus espaços, ou por não terem chegado sequer a concluir cursos secundários. Inclua-se nessa lista charlatões que ocupam púlpitos e apostam na idiotização para destilarem discursos de ódios, transformando o Deus que tantos procuram em uma figura vingativa, persecutória e alimentadora da individualidade gananciosa. O sentido coletivista, elemento essencial para a compreensão do cristianismo primitivo, tornou-se alvo de ataques, e aqueles que comportam esse sentimento visto como comunista, expressão tornada um adjetivo perigoso e sinônimo de comportamento pecaminoso. Substitui-se, nessas circunstâncias, e por meio desse discurso absolutamente ideológico, o sentido de libertação e de busca pelo bem-estar em sociedade, por um comportamento tosco, rude, que torna-se definidor de caráter, já que incorpora atitudes permeadas de ódio e de não aceitação do outro indivíduo que consigo vive nessa sociedade, por escolherem caminhos diferentes dos seus para viverem.
Alimentados nesse ódio, e com um discurso intolerante, falsos filósofos e teólogos tornaram-se referências, e encontraram um ambiente para transformarem esse público em uma sólida base, circunstancialmente, para consolidarem políticas regressivas, medidas medievalescas e projetos que retrocedem a tempos nefastos, de insensibilidade social e de negação das nossas diferenças, atacando perversamente os que buscam se libertar das amarras conservadoras e seguirem os caminhos que desejarem em suas escolhas sexuais e culturais.
Claro que com um quadro desses a eleição não poderia trazer surpresas. Embora muitos ficaram impactados com o resultado eleitoral. Mas haviam mais de dois anos que o Brasil caminhava para a escolha de um presidente que se encaixasse no perfil que esses idiotas desejavam. Enfim, buscavam alguém que lhes representassem nessas características que explicitaram nesse período. Alguém que fugisse do perfil tradicional trazido pela velha política, essa que foi largamente defenestrada, e que por consequência atingiu duramente a democracia.
Posto isso, ao fim e ao cabo tivemos um presidente eleito e um governo montado de acordo com o que essa turba revoltada, e tornada assim preventivamente, desejava. Ao seu perfil e à forma como sua consciência fundamentalista passava a determinar. O resultado não poderia ser diferente. Um governo caótico, desorganizado, cujo maior adversário é ele próprio e sua base insólita e gelatinosa. Ideologicamente definida, mas estupidamente refratária da ideologia, com um slogan do governo que prega um Deus vingativo, intolerante, homofóbico, racista, machista… enfim, carregando em suas ações e políticas tudo aquilo que por séculos tem sido combatido no afã de se construir uma sociedade mais humana e tolerante. Esses tempos ficaram décadas para trás. Contraditoriamente, os tempos que tinham ficado mais para trás ainda deram um salto, de séculos, se defrontaram desafiadoramente com a história e tentam reassumir a condução de nossas vidas.
Nessa conjuntura atual, o que esses que hoje governam desejam, eles e os que dominam multidões alienadas, é manter esse nível de (in)compreensão. Portanto, quanto mais idiotas, melhor. Claro, não podemos entrar nesse jogo baixo, devemos elevar as consciências, trazer as discussões para a racionalidade.
Seguramente, estamos diante de um desafio que não é único em termos de situações desesperadoras. A humanidade já conviveu com situações piores. No entanto, não se pode neglicenciar a capacidade desses obtusos que nos governam, e aqueles que conduzem milhões controlando seus cérebros e os mantendo cegos para a realidade, de fazer emergir fantasmas já exorcizados do passado. O fundamentalismo econômico, base da barbárie social, e o fundamentalismo religioso, responsável pelos crimes de ódio e intolerância, estão sendo chocados há anos e precisam ser combatidos enfaticamente. Essa é a condição de termos uma sociedade liberta desses farsantes e dos medos que eles alimentam. Só no enfrentamento ideológico a humanidade poderá retomar aquele patamar do final do século XX e começo do século XXI, da expectativa de melhorias sociais consideráveis e de pavimentação dos caminhos que pudessem levar àqueles modelos de sociedades desejadas, baseadas na cooperação e na solidariedade.
É hora de retomar a Utopia, arregaçar as mangas e combater as trevas medievais. Luz! Combater a alienação, a estupidez e a idiotização. Isso deu certo uma vez, certamente nos ajudará mais uma vez a reencontrar o caminho da justiça social e da paz.

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1 https://www.significados.com.br/idiota/

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

O EIXO DO MAL - VENEZUELA, IRÃ E CORÉIA DO NORTE


Como faz diferença ter capacidade de produzir mísseis nucleares. Coréia do Norte sempre foi um dos eixos do mal, desde a Era Bush. Quando invadiu o Iraque o eixo-do mal, assim distinguido pelos falcões estadunidenses, eram: Irã, Venezuela e Coréia do Norte. Continuam sendo, mas desses três o mais blindado por sua capacidade bélica é a Coréia do Norte. Isso faz com que o Trump, sucessor das diatribes da família Bush, viaje por milhares de quilômetros para uma "reunião de cúpula" com o líder coreano. Quanto ao Irã e a Venezuela pairam sobre seus territórios guerra híbrida e ameaça de invasão militar. Ressalte-se que o potencial bélico do Irã não é de se desprezar, com capacidade de atingir Israel, e quiçá com mísseis nucleares, embora isso não seja de todo certo. No caso da Venezuela o que faz com que os EUA ainda não tenha optado pela invasão é o potencial guerrilheiro que existe naquele país. Calcula-se em mais de um milhão de milicianos bolivarianos, armados e dispostos a morrer na defesa da soberania venezuelana, além das forças armadas e das tropas regulares. Até que ponto isso será empecilho para as invasões não se sabe, mas sabe-se sim a importância que esses países possuem, seja pelas riquezas existentes em seus subsolos, com as maiores reservas de petróleo do mundo, além de territórios situados em posições estratégicas no espectro da geopolítica mundial e nas disputas entre EUA, Rússia e China.
Na impossibilidade disso se concretizar assistimos a comportamentos bizarros nas relações internacionais. É absolutamente ridículo ver EUA, União Européia e Grupo de Lima, se apegarem a um presidente "autoproclamado". Isso é inusitado, e só mostra a falta de alternativas para derrubar Maduro. Aberração maior do que essa é ver uma imprensa estúpida, comprar essa história e se referir a alguém que não foi eleito, como presidente “autoproclamado”. Imaginem se a moda pega. É absolutamente vergonhoso e demonstra cabalmente que não há isenção por parte de uma imprensa que soma suas vozes quase que de forma uníssona em torno dos interesses estadunidenses. Ajuda humanitária o catso! Porque a ONU não assumiu a frente disso, se o interesse era de fato ajudar? Claro que essa foi uma estratégia para invadir a Venezuela. Por outro lado a situação da Venezuela é em grande parte gerado por um bloqueio econômico pérfido, imposto pelos EUA. Ora, se há crise humanitária, porque não acabar com o bloqueio econômico? Simples, porque não é esse o objetivo, normalizar a situação na Venezuela, mas aplicar um golpe de estado e impor ali um novo regime que seja equivalente políticamente aos novos governos de direita que assumiram o poder no Brasil, Argentina, Paraguai e Colômbia.
Quem é ditador nessa história? Se o autoproclamado, como o termo mesmo indica se indicou como presidente, sem ter sido eleito para o cargo de presidente. Pode isso? As regras da ONU mudaram? Claro que essa é mais uma estratégia da guerra híbrida, criar uma polarização em torno de um governo paralelo, mesmo que ilegítimo, mas apoiado por aqueles países que tem interesse em derrubar o regime bolivariano, visto como o último baluarte do "socialismo". Embora haja controvérsia sobre se de fato há socialismo naquele país. Particularmente não vejo assim. Há um governo que resiste bravamente a um pérfido bloqueio econômico e a um cerco de países governados por setores conservadores, e por isso e outras razões, entregue a enormes dificuldades para governar. Venezuela é a bola da vez. Desde há mais de uma década. Assim como Irã e Coréia de Norte. Cada um desses países se depararão em algum momento com uma guerra híbrida, a exceção da Venezuela que já vive isso. O difícil é desestabilizar um governo que possui capacidade nuclear, no caso da Coréia do Norte. Não se sabe nas mãos de quem isso pode cair.
Anos atrás escrevi sobre isso aqui nesse blog, acompanhando também as avaliações do professor Moniz Bandeira, falecido no ano passado, e de Pepe Escobar, um dos mais capacitados analistas em Geopolítica para o Oriente Médio. Claro que a conjuntura era diferente, já que os artigos foram escritos no ano de 2010, logo que criei esse Blog.
Sugiro a leitura dos artigos que intitulei “O Eixo do Mal”:
3. O EIXO DO MAL (III) – A CORÉIA DO NORTE -