terça-feira, 1 de novembro de 2011

INFORMAÇÕES ABSTRATAS CONSTROEM REALIDADES VIRTUAIS



Resolvi esta semana diversificar.  Não é que eu estivesse com preguiça de pensar, muito pelo contrário, uma explosão de idéias invade meu raciocínio e me impede de produzir para o que essencialmente tem sido mais urgente. A reedição de meu livro (A Guerilha do Araguaia – A esquerda em armas, que tenho que entregá-lo até o começo de dezembro à editora, revisto e atualizado, e estará à disposição de vocês no começo do próximo ano) e a preparação da minha tese de doutorado (A Geopolítica das Águas – Irrigação, segurança alimentar e água virtual).
Como vocês, caros(as) amigos(as) leitores e leitoras deste blog podem ver, o tempo é curto para o que realmente preciso produzir. Sem contar que desperdiçamos boa parte desse tempo com atividades do cotidiano, algumas essenciais em nossas vidas, outras nem tanto, mas que se somam à rotina que construímos ao longo do nosso tempo de ócio. Mas, são situações necessárias, já que não sou nenhum eremita, ou monge tibetano. Longe disso, por sinal.
Curioso que sou, e sempre fui, desde pequeno, dedico uma parte desse limitado tempo para as leituras que possam complementar a minha compreensão acerca do mundo em que vivemos. Claro que não posso esturricar meus neurônios lendo Veja ou Época, ou algum lixo semelhante. Caras... e por aí vai. Tem quem as leiam, mas, como diz um velho ditado popular, “uns gostam dos olhos, outros da remela”.
rudhro.wordpress.com
Além de curioso, sou muito criterioso, embora de vez em quando me submeta á auto-aflitiva condição de assistir a alguns telejornais e a ver a impressionante capacidade daqueles atores que os apresentam, e conseguem num espetacular contorcionismo, fazer com que um indivíduo imagine conhecer um fato que lhe foi apresentado em trinta segundos de informação. E, o que é pior, induzi-lo a acreditar que já seja capaz de reproduzir ali uma idéia definitiva a respeito do que lhe foi mostrado, sem que, em essência, saiba absolutamente nada do que desencadeou esse determinado fato, as razões, bem como as condições objetivas e as contradições que o gerou.
Tenho repetido sempre, seguindo o mestre Milton Santos, que a informação é carregada de ideologia e nos tempos atuais cumprem mais o objetivo de desinformar, do que propriamente criar uma consciência a respeito de sua complexidade, de forma a levar o indivíduo a refletir e a pensar, construindo hipóteses, dúvidas, que o levem a um questionamento capaz de construir novas idéias que possam mudar o mundo positivamente.
Infelizmente, a Universidade nos últimos anos somente replicou a lógica demandada pela dita globalização, ou mundialização como querem os franceses. Seguindo-se aos interesses do mercado, numa pressa espetacular para garantir mão de obra nas novas conformações do trabalho criadas mundo adentro, fragmentou-se em uma infinidade de especializações, reduzindo a capacidade da juventude (já representada nos dias de hoje nos profissionais que assumiram seus postos, em muitos casos inexistentes há pouco mais de uma década) de pensar, criar, que não fosse dentro da lógica capitalista da ampliação de seus ganhos.
Amplificou-se com isso, do mesmo modo, a ganância e o sonho de consumo agora tornado possível a todos. Pelo menos teoricamente, e na divulgação que a mídia passou a fazer seguindo-se os interesses das grandes corporações. Basta assistir as propagandas que infestam os intervalos televisivos. Difícil saber o que é pior, os programas ou as propagandas, tanto uns quanto os outros de inventividade medíocre em sua maioria. Há exceções. Poucas. Claro, senão não seriam exceções.
Empobrecido nessa capacidade inventiva, não de construir novos caminhos da lógica capitalista, mas de novas idéias que possam tornar o mundo mais racional e humano, cede-se o espaço para uma perigosa situação. Num mundo de acesso fácil à informação, pouco assimilada mas imediatamente incorporada à sua visão de mundo, cada indivíduo julga-se, ou melhor julga pelo que recebe de informações, capaz de opinar sobre tudo e a estabelecer juízos de valores sobre fatos que se apresentam de maneira abstrata, ou que são construídos para tornarem-se instrumentais ideológicos capazes de tornar-se uma verdade absoluta. Nada de mais, pelo contrário, se esse conhecimento não fosse construído de maneira superficial.

As redes sociais potencializam isso e transformam-se, elas também, em instrumentos que aceleram o processo, devido à rapidez com que essas informações circulam para milhares de pessoas em um curto espaço de tempo. Mal recebe a informação e ela é imediatamente repassada, sem processá-la e analisá-la, mas por envolver muitas vezes temas que são facilmente aceitos, ou pela polêmica que carregam, ou por situar-se no âmbito dos agrados ou desagrados que marcam o cotidiano daquela pessoa.
E assim, num mundo de verdades virtuais e de informações abstratas, muitas vezes falsas, ou construídas em uma versão ideológica, do interesse de quem as produz e as difunde nos submetemos a uma espécie de tribunal tridimensional, onde fato, verdade e versão, se confundem e transformam nossas vidas em uma mera ficção hollywoodiana.
Abre-se dessa forma, no vazio de idéias consistentes e inovadoras, um largo caminho para a fascistização da sociedade, com a ampliação de situações que demonstram acentuado grau de intolerância com o outro, com as diferenças, com os limites que existem nas relações em sociedade, de respeito mútuo e de aceitação das contradições como elementos que são somatórios na diversidade que constituem nossa humanidade.
Mas vocês devem estar a indagar, onde estará a diversificação que prometi na primeira frase desse texto? É que desde a postagem anterior, resolvi também inserir alguns outros artigos que complementem o meu pensamento, aquilo que me propus a fazer quando criei esse blog. Mais uma vez recorro a outro colunista da revista Carta Capital. Desse jeito deverei receber uma bonificação, quem sabe uma assinatura por tanta propaganda. Mas me contento com o fato deles não reclamarem da reprodução que faço aqui dos artigos de seus colunistas.
Esse é um tema que já abordei aqui, vou inserir um link abaixo para quem quiser ler(*). Mas tem sido muito tratado ultimamente, até por que isso tem sido objeto de análise pedagógica e psicológica, envolvendo não somente a questão da maneira como a informação tem sido absorvida, mas também a forma como ela é difundida pelas redes sociais. Para o bem, ou para o mal (sem ser maniqueísta ou nietzcheano).
O artigo que vocês lerão a seguir é de Thomaz Wood Jr.

PENSAR DÓI?
Posted By Thomaz Wood Jr. On 16 de outubro de 2011 @ 18:13 In Política

Em texto publicado no New York Times, Neal Gabler, da Universidade do Sul da Califórnia, argumenta que vivemos em uma sociedade na qual ter informações tornou-se mais importante do que pensar: uma era pós-ideias. Gabler é o autor, entre outras obras, de Vida, o Filme (Companhia das Letras), no qual afirma que, durante décadas de bombardeio pelos meios de comunicação, a distinção entre ficção e realidade foi sendo abolida. O livro tem o significativo subtítulo: Como o entretenimento conquistou a realidade.
No texto atual, Gabler troca o foco do entretenimento para a informação. Seu ponto de partida é uma constatação desconcertante: vivemos em uma sociedade vazia de grandes ideias, leia-se, conceitos e teorias influentes, capazes de mudar nossa maneira de ver o mundo. De fato, é paradoxal verificar que nossa era, com seus gigantescos aparatos de pesquisa e desenvolvimento, o acesso facilitado a informações, os recursos maciços investidos em inovação e centenas de publicações científicas, não seja capaz de gerar ideias revolucionárias, como aquelas desenvolvidas em outros tempos por Einstein, Freud e Marx.
Não somos menos inteligentes do que nossos ancestrais. A razão para a esqualidez de nossas ideias, segundo o autor, é que vivemos em um mundo no qual ideias que não podem ser rapidamente transformadas em negócios e lucros são relegadas às margens. Tal condição é acompanhada pelo declínio dos ideais iluministas – o primado da razão, da ciência e da lógica – e a ascensão da superstição, da fé e da ortodoxia. Nossos avanços tecnológicos são notáveis, porém estamos retrocedendo, trocando modos avançados de pensamento por modos primitivos.
Gabler critica o afastamento das universidades do mundo real, operando como grandes burocracias e valorizando o trabalho hiperespecializado em detrimento da ousadia. Critica também o culto da mídia por pseudoespecialistas, que defendem ideias pretensamente impactantes, porém inócuas.
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No entanto, o autor aponta que a principal causa da debilidade das nossas ideias é o excesso de informações. Antes, nós coletávamos informações para construir conhecimento. Procurávamos compreender o mundo. Hoje, graças à internet, temos acesso facilitado a qualquer informação, de qualquer fonte, em qualquer parte do planeta. Colocamos a informação acima do conhecimento. Temos acesso a tantas informações que não temos tempo para processá-las.
Assim, somos induzidos a fazer delas um uso meramente instrumental: nós as usamos para nos manter à tona, para preencher nossas reuniões profissionais e nossas relações pessoais. Estamos substituindo as antigas conversas, com seu encadeamento de ideias e sua construção de sentidos, por simples trocas de informações. Saber, ou possuir informação, tornou-se mais importante do que conhecer; mais importante porque tem mais valor, porque nos mantêm à tona, conectados em nossas infinitas redes de pseudorrelações.
As novas gerações estão adotando maciçamente as mídias sociais, fazendo delas sua forma primária de comunicação. Para Glaber, tais mídias fomentam hábitos mentais que são opostos àqueles necessários para gerar ideias. Elas substituem raciocínios lógicos e argumentos por fragmentos de comunicação e opiniões descompromissadas.
O mesmo fenômeno atinge as gerações mais velhas. Nas empresas, muitos executivos passam parte considerável de seu tempo captando fragmentos de notícias sobre mercados, concorrentes e clientes. Seu comportamento é o mesmo no mundo virtual e no mundo real: eles navegam pela internet como navegam por reuniões de negócios. Vivem a colher informações e distribuí-las, sem vontade ou tempo para analisá-las. Tornam-se máquinas de captação e reprodução. À noite, em casa, repetem o comportamento nas mídias sociais. Seguem a vida dos amigos e dos amigos dos amigos; comunicam-se por uma orgia de imagens e frases curtas, signos cheios de significado e vazios de sentido.
O futuro aponta para a disponibilidade cada vez maior de informações. A consequência para a sociedade, segundo Gabler, é a desvalorização das ideias, dos pensadores e da ciência. A considerar a velocidade com que livros e outros textos estão sendo digitalizados e disponibilizados na internet, estamos no limiar de ter todas as informações existentes no mundo ao nosso dispor. O problema é que, quando chegarmos lá, não haverá mais ninguém para pensar a respeito delas.
Pode-se acusar o ensaísta de nostalgia infundada ou ludismo. Porém, ele não está só. Felizmente, há sempre um grupo de livres pensadores a se colocar contra o conformismo massacrante das modas tecnológicas e comportamentais, nesta e em outras eras.


(*) LEIA TAMBÉM:

http://www.gramaticadomundo.com/2011/07/nos-na-rede-e-o-mundo-enredado-em-crise.html


Um comentário:

  1. Pensar faz com que as pessoas sejam expostas as contradições dos seus comportamentos, tira delas a ilusão da escolha, questiona seus caminhos, valores e lhes pôe diante do único propósito da vida, que segundo o Agente Smith (MATRIX I), é terminar.
    Só se pode viver pensando quando alguém paga as suas contas por você.
    Abraços

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