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segunda-feira, 12 de junho de 2023

AS JORNADAS DE JUNHO ERAM PREVISÍVEIS E AS CONSEQUENCIAS PODERIAM TER SIDO OUTRAS

ESTAVA ESCRITO NAS ESTRELAS

A mudança radical na política brasileira, que nos jogou em uma crise profunda, com a ascensão de personagens políticos que imaginávamos sepultados com o fim da ditadura militar e pela “Nova República”, não se deu repentinamente. Ela se seguiu a uma série de mudanças que já vinham acontecendo por diversas partes do mundo. Os movimentos dos “Indignados”, “Occupy”, e aqui no Brasil com as “Não é por 20 Cents” e “Não vai ter copa” refletiam os rumos de uma crise que já acontecia desde a virada do século XX para o XXI, atingindo o seu ápice com a chamada crise econômica em 2008, que se prolonga até os dias atuais, entre altos e baixos da economia mundial.

A mudança de estratégia dos EUA, para combater seus desafetos, com a eliminação seletiva via uso de drones para assassinar suspeitos de serem terroristas; e o advento das “guerras híbridas”, como táticas desconcertantes de desequilíbrios geopolíticos e intervenção indireta nas políticas de determinados países, a fim de derrubar governos que fossem considerados ameaças aos interesses do império, mantiveram o mundo sob tensão, até explodir em guerras como na Síria e na Ucrânia.

Resgato aqui, com links para acesso a artigos publicados no Blog Gramática do Mundo, os vários momentos em que, acompanhando pela geopolítica todas essas transformações, procurei indicar as crises que nos cercavam, e até mesmo arriscar em projeções sobre os rumos que estavam tomando o mundo, e, em especial, no nosso país. Posso dizer, com tranquilidade, que acertei no vaticínio sobre algumas das consequências que estavam por vir.

É dessa maneira que me manifesto nesse 13 de junho de 2023, quando se completam dez anos das JORNADAS DE JUNHO. Acrescento que a ascensão da extrema-direita se deu muito mais por negligência e extremo sectarismo e esquerdismo da esquerda e da chamada esquerda radical, do que pela competência de personagens e grupos até aquele momento invisibilizados.

A onda que se seguiu às manifestações de junho de 2023, foi também impulsionada pela cobertura midiática não meramente contemplativa, mas bastante ativa e a partir de 2014 praticamente protagonista na frente de propaganda, a fim de ampliar o poder da multidão com o intuito de derrubar o governo de Dilma Rousseff, alçando a condição de lideranças personagens saídos dos subterrâneos da política, outsiders, ou políticos inexpressivos, mas porta-vozes dos indignados, ressentidos, frustrados e alienados, cuja cultura política se expressa pelo seguidismo expresso nos votos de currais e na influência de púlpitos de igrejas que os transformam em rebanhos servis e ignorantes da realidade e do mundo objetivo.

Mas o resultado não foi como o planejado. A tentativa de impor um derrotado na condução do país, a partir de 2015, que culminou no impeachment de uma presidenta legitimamente eleita e sem culpa grave que a condenasse, no que se constituiu em um golpe institucional, falhou. E, após um governo desastrado de um vice golpista, a ascensão da extrema-direita fugiu de todos os roteiros planejados pela centro-direita com forte apoio midiático: o tiro saiu pela culatra. Mas os derrotados fomos todos nós, brasileiros e brasileiras, que amargamos dez anos de uma crise fabricada a fim de retirar o Brasil de uma rota que era diferente daquela que tradicionalmente o país vinha seguindo desde os seus primórdios. Embora tendo retornado Lula á presidência, depois de situações inusitadas e de idas e vindas, perdemos um tempo considerável em meio a destruição de toda uma estrutura de estado que favorecia às camadas mais fragilizadas da sociedade. Reconstruir tudo isso não será fácil, porque se criou uma polarização política nefasta, e os embates se dão com base em mentiras e ataques mesquinhos e perversos, dividindo de forma sectária a sociedade brasileira.

Mas a história está aí, para não deixar esquecer por quais caminhos trilhamos e por quais erros nos guiamos até chegarmos aos dias atuais. Precisamos lembrar, sempre, do nosso passado, para evitar repetir erros que são cruciais para nossas vidas.

 

INDIGNADOS! PARA QUAL DIREÇÃO SEGUEM AS MUDANÇAS?

Novembro de 2011

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2011/11/indignados-para-qual-direcao-seguem-as.html

Infelizmente, a revolta das pessoas decorrente de situações reais, de dificuldades que lhes afetam diretamente, ao não se traduzir em transformações imediatas (o que é praticamente impossível), criam desesperanças e jogam nas ruas milhares de pessoas sem a verdadeira percepção de como as estruturas do Estado funcionam. (...)

Mas há um reverso nessa história, e talvez seja o pior resultado. A possibilidade de esse descontentamento ser absorvido por grupos e partidos conservadores, à espreita do crescimento da desesperança que se seguirá à frustração inevitável daqueles que se entregam aos protestos, ao não verem resultados concretos nas suas revoltas.

 

INFORMAÇÕES ABSTRATAS CONSTROEM REALIDADES VIRTUAIS

Novembro de 2011

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2011/11/informacoes-abstratas-constroem.html

Tenho repetido sempre, seguindo o mestre Milton Santos, que a informação é carregada de ideologia e nos tempos atuais cumprem mais o objetivo de desinformar, do que propriamente criar uma consciência a respeito de sua complexidade, de forma a levar o indivíduo a refletir e a pensar, construindo hipóteses, dúvidas, que o levem a um questionamento capaz de construir novas ideias que possam mudar o mundo positivamente.

Infelizmente, a Universidade nos últimos anos somente replicou a lógica demandada pela dita globalização, ou mundialização como querem os franceses. Seguindo-se aos interesses do mercado, numa pressa espetacular para garantir mão de obra nas novas conformações do trabalho criadas mundo adentro, fragmentou-se em uma infinidade de especializações, reduzindo a capacidade da juventude (já representada nos dias de hoje nos profissionais que assumiram seus postos, em muitos casos inexistentes há pouco mais de uma década) de pensar, criar, que não fosse dentro da lógica capitalista da ampliação de seus ganhos.

Empobrecido nessa capacidade inventiva, não de construir novos caminhos da lógica capitalista, mas de novas ideias que possam tornar o mundo mais racional e humano, cede-se o espaço para uma perigosa situação. Num mundo de acesso fácil à informação, pouco assimilada, mas imediatamente incorporada à sua visão de mundo, cada indivíduo julga-se, ou melhor julga pelo que recebe de informações, capaz de opinar sobre tudo e a estabelecer juízos de valores sobre fatos que se apresentam de maneira abstrata, ou que são construídos para tornarem-se instrumentais ideológicos capazes de tornar-se uma verdade absoluta. Nada de mais, pelo contrário, se esse conhecimento não fosse construído de maneira superficial.

As redes sociais potencializam isso e transformam-se, elas também, em instrumentos que aceleram o processo, devido à rapidez com que essas informações circulam para milhares de pessoas em um curto espaço de tempo. Mal recebe a informação e ela é imediatamente repassada, sem processá-la e analisá-la, mas por envolver muitas vezes temas que são facilmente aceitos, ou pela polêmica que carregam, ou por situar-se no âmbito dos agrados ou desagrados que marcam o cotidiano daquela pessoa.

E assim, num mundo de verdades virtuais e de informações abstratas, muitas vezes falsas, ou construídas em uma versão ideológica, do interesse de quem as produz e as difunde nos submetemos a uma espécie de tribunal tridimensional, onde fato, verdade e versão, se confundem e transformam nossas vidas em uma mera ficção hollywoodiana.

Abre-se dessa forma, no vazio de ideias consistentes e inovadoras, um largo caminho para a fascistização da sociedade, com a ampliação de situações que demonstram acentuado grau de intolerância com o outro, com as diferenças, com os limites que existem nas relações em sociedade, de respeito mútuo e de aceitação das contradições como elementos que são somatórios na diversidade que constituem nossa humanidade.

 

AS ORIGENS DA INTOLERÂNCIA E O FASCISMO MODERNO

Março de 2012

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2012/03/as-origens-da-intolerancia-e-o-fascismo.html

O fascismo moderno, enfim, não aparece espontaneamente na cabeça de jovens. É fruto de teorias preconceituosas e de instrumentos sociais que criam e reforçam valores que se baseiam na intolerância, na não aceitação das diferenças, e na liberdade de as pessoas definirem suas opções sexuais. Como na atitude bizonha e estúpida de um deputado pastor que pretende criar medidas que desfaçam a opção sexual de gays.

Tudo isso faz parte de dogmas que permanecem sendo instigados de forma instrumental em templos, tabernáculos, igrejas e mesquitas de todo o mundo, muito embora não se constitua em regra geral nem tenha relação com a fé individual, de cada pessoa, com sua legítima crença e liberdade de acreditar no que lhe convier.

São teorias também que fundamentam programas partidários que representam setores econômicos dominantes e a classe média alta, mas que pelo reforço ideológico religioso dissemina-se indistintamente por todas as demais classes sociais, apontam para perigosos caminhos, e se refletem de forma mais agressivas em alguns países, mas tendem a se expandir na medida do crescimento da crise econômica.

 

AS CRISES E A DESCONSTRUÇÃO DA POLÍTICA

Maio de 2012

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2012/05/as-crises-e-desconstrucao-da-politica.html

Vivemos, assim, um momento de profundas contradições. Crise econômica nos Estados Unidos e Europa que potencializa situações em que a intolerância desperta as frustrações e o desespero pela falta de emprego e de perspectivas futuras, e aqui no Brasil, onde economicamente passamos por um período de expansão e crescimento, mas cujas delinquências políticas, tradicionalmente ainda vigorando, nos mantém tensos e incertos quanto ao nosso futuro. Ou a dúvida sobre quem será beneficiado com todo esse crescimento.

E, no meio de tudo isso, a necessidade de estarmos vigilante, principalmente aqueles que conhecem o processo histórico e os exemplos de situações parecidas que levaram a humanidade para rumos indigestos, e buscarmos o convencimento das pessoas de que não é banindo a política que esses problemas serão corrigidos.

Só haverá saída no âmbito da própria política. E é sempre assim, mesmo que no advento de um processo revolucionário. Sair dele será também um exercício de apaziguamento das diferenças e de acordos selados pela política. O que as pessoas não podem abdicar é da capacidade de discernir o joio do trigo na escolha de quem irá lhe representar nos parlamentos ou na condução das administrações públicas.

Recusar-se a essas escolhas, motivado pela desesperança e incentivados por quem queira se aproveitar desse momento em aventuras abstratas, só irá beneficiar quem tem a riqueza, afasta mais ainda os trabalhadores da vida política e nos mantém reféns de nossos próprios vícios.

Ao mesmo tempo, é essencial compreender que a solução definitiva para esses males passa necessariamente pelo combate a um sistema que tem na ganância e na usura a base de suas transformações. Enquanto a cultura que prevalecer na sociedade for aquela onde o consumismo é o motor a motivar as pessoas, a individualmente buscarem formas de serem felizes tentando alcançar um estilo de vida individualista, egoísta e que sempre exige o esforço em busca de cada vez mais dinheiro, dificilmente poderemos acreditar que as gerações futuras terão um ambiente mais saudável e honesto para viverem.

 

O OVO DA SERPENTE – A pós-política e o perigo dos três efes: fakes, farsantes e fascistas

Julho de 2012

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2012/07/o-ovo-da-serpente.html

Mas o que me viria a me surpreender, por todo esse tempo de virtualidade digital seria a virulência dos embates, oriundos principalmente de pessoas identificadas com grupos aparentemente de esquerda. Além dos inconformados conservadores, contrariados com as recentes mudanças políticas no Brasil.

Passei a observar tais comportamentos, e até mesmo em algumas situações o grau de agressividade e de ofensas destiladas atingiu níveis preocupantes, me alertando para buscar explicações em uma nova realidade que teve início em conflitos que marcaram um novo estilo de luta da juventude por vários países, denominado “indignai-vos”. Na esteira da crise capitalista que se estende desde quando as torres gêmeas foram postas ao chão, em 2001, cujo epicentro se deu em 2008 com a quebra de inúmeras instituições financeiras na sequência de uma grave crise no mercado imobiliário estadunidense, até o momento atual, com uma crise imprevisível na Europa e do capitalismo de uma maneira geral.

A partir de uma situação concreta, particular, e as observações que as minhas aulas de geopolítica me impunham, fui construindo algumas ideias a respeito dos tempos atuais. Na junção das lembranças das elaborações de Milton Santos, das leituras dos últimos textos de Eric Hobsbawm, e, obviamente, da dialética marxista, fui me convencendo que vivemos uma época de transição, de um possível esgotamento do sistema capitalista. Mas, como já alertava Gramsci, o perigo está quando o novo demora em chegar e o velho resiste em desaparecer. Se não há a perspectiva de saídas revolucionárias, que possam dar um novo rumo à sociedade mediante a existência de uma vanguarda devidamente organizada, outros mecanismos certamente despontarão, a exemplo de como se deu o surgimento do nazi-fascismo, nas décadas de 1930-40, e prolongarão a agonia sistêmica.

***

Além disso, por não possuírem elementos ideológicos que lhes garanta organicidade, alguns desses movimentos não somente atacam os partidos políticos, mas escolhem aqueles que são forjados ideologicamente, e destilam injustos ódios que com o tempo transformam-se em comportamentos intolerantes. Parece haver uma necessidade de se destruir as ideologias dos que as têm. Mas como não há espaços para discussões, pela ausência delas diante de um pragmatismo imediatista, a agressividade passa a se constituir na arma aparentemente eficaz para fazer valer seus objetivos.

Ocorre que na sequência de comportamentos que vão se tornando cada vez mais intolerantes, amplia-se a virulência das agressões, e o que se vê é a repetição de atos que nos fazem lembrar a maneira como o nazismo e o fascismo despontaram logo na sequência da crise econômica da terceira década do século passado.

A alienação de uma juventude forjada em tempos de uma globalização neoliberal, a destruição dos laços familiares, a individualidade crescente, a busca egoística pelo sucesso a qualquer custo, e a ampliação de valores teológicos que substanciam tudo isso, denominada teoria da prosperidade, compõem um conjunto de circunstâncias que explicam os tempos de negação da ideologia. Mas não somente isso. Agregue-se, contraditoriamente, a falta de informação em um tempo em que as ferramentas tecnológicas facilitam a aproximação com o que acontece em todas as partes do mundo. Mas são essas mesmas ferramentas, que explicam, para o bem e para o mal, o distanciamento de leituras mais complexas, filosóficas, optando-se por um cartesianismo vulgar, porque fruto de toda a confusão gerada pela sociedade midiática neoliberal, e pela informação deformada, apolítica e baseada na espetacularização do medo. O que os empurram para leituras alienantes, bizarras e de auto-ajuda.

A radicalidade de alguns desses comportamentos foram potencializados pelas redes sociais, criando uma coragem peculiar a alguns jovens, situação que não aconteceria em plano real, pela absoluta falta de backgrounds, consequência do distanciamento teórico e da ausência de fundamentos a lhes garantir segurança para um embate ideológico.

O que se vê, então, é o destilar de ódios a todos aqueles que porventura pensem diferentes, discordem e confrontem seus pensamentos e práticas. Semelhante ao que aconteceu na ascensão do fascismo tradicional, aquele que no período de crise sistêmica parecida com a que vivemos nos dias atuais, despontou a partir de comportamentos críticos, de suportes garantidos pelas insatisfações e indignação de populações que viviam momentos de dificuldades econômicas graves. Também naquele momento, os jovens tornaram-se alvos potenciais de lideranças emergentes, pela insatisfação com uma época que não lhes ofereciam perspectivas. E alimentados pela intolerância, visaram também os comunistas, que ameaçavam ideologicamente a elite dominante, fracassada desde o final da primeira guerra mundial. A negação da política instrumentalizou uma reação conservadora.

Alguns daqueles que usam das redes sociais para agirem de maneira desrespeitosa não o fazem de maneira explícita, mas escondem-se em perfis falsos, prática criminosa que tem se tornado comum, principalmente no Facebook. Ou senão, omitem de seus perfis informações que possam identificá-los e apresentam desenhos, ou charges, em lugares de fotos que os reconheçam.

Não é essa uma prática somente desses grupos, mas pude identificá-las também sendo utilizada por jornalistas de blogs conservadores, de jornais, tabloides e revistas, que postam suas matérias para serem repercutidas, e que, ao serem criticados acionam seus fakes, que agem agressivamente, ofendem o interlocutor e tentam desqualificá-lo. Assim como fazem alguns desses farsantes, anonimamente, em comentários agressivos nos blogs que tem defendidos os últimos governos no Brasil e teçam criticas aos partidos conservadores.

Ao fim de tudo, esses comportamentos tornaram-se bem visíveis no desencadear da greve na universidade. Comportamentos sectários, violentos e intolerantes, traduzem um sentimento comum à época do fascismo, de não aceitação das diferenças, de negação do pensamento oposto e da reação intempestiva e agressiva na imposição de um pensamento ou de uma determinada prática. Não sei se surpreende, mas é lamentável, o fato de juntarem-se a esse coro intolerante alguns professores, que obviamente se desqualificam enquanto educadores. Mas suas posturas indicam que eles pouco se importam com isso, a inconsequência é uma marca que lhes acompanham e a intolerância um traço de caráter.

E, não surpreendente, grupelhos de extrema-esquerda, setores anárquicos despolitizados e contumazes direitistas, se irmanaram no mesmo comportamento. Mas tudo isso deve servir de alerta aos que defendem uma sociedade baseada na tolerância, no respeito às diversidades e na aceitação de ideias que se contraponham. Considerando-se o momento de crise econômica mundial, do xenofobismo e da intolerância religiosa, vivemos circunstâncias bastante parecidas com o que ocorreu no século XX. O fascismo e o nazismo ascenderam mediante a insatisfação popular, e se consolidaram com um discurso baseado no moralismo hipócrita, no anticomunismo e na descrença com as organizações políticas.

 

A FÚRIA: O DESPERTAR DA MULTIDÃO, OU A REVOLTA DE UM INCONSCIENTE COLETIVO?

FRAGMENTOS DE UM OLHAR SOBRE A MULTIDÃO

Junho de 2013

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2013/06/fragmentosde-um-olhar-sobre-multidao-eu_22.html

Eu acompanho essas manifestações há mais de dez anos. Claro, ao longe, como estudioso de geopolítica. A maior delas, ou uma das mais importantes, foi em 1999, durante uma reunião da OMC e gerou um filme chamado "A batalha de Seattle". Já escrevi sobre isso no meu blog (http://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2011/11/indignados-para-qual-direcao-seguem-as.html). Há diversas demandas, revoltas represadas, reivindicações justas. Mas nada disso será possível de ser mudado sem organização. As vozes das ruas, da multidão, criam motivações, e até mesmo uma empolgação exagerada, principalmente na juventude, cuja adrenalina explode e os empurra com força para o embate. É natural e importante que isso aconteça. Mas o que virá depois disso depende da política (ou da guerra, quando fracassa a política, mas aí sabemos as consequências). A multidão tem sido protagonista desde o final do século XX, com grandes protestos antiglobalização, e depois, com a intensificação da crise, na chamada “primavera Árabe”. Os resultados de tudo isso ainda está por vir, mas nos países onde ocorreram houve retrocesso na condução política.

 

 

SOBRE MÁSCARAS, VIOLÊNCIAS E O DIREITO DE SE MANIFESTAR

Fevereiro de 2014

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2014/02/nihil-humani-me-alienum-puto.html

Ao não desejarem participar de organizações de caráter político, e abominarem os partidos políticos, mesmo os que se intitulam revolucionários e socialistas ou comunistas, esses manifestantes deixam de analisar a conjuntura política com base em fatos concretos e na realidade objetiva. Novas "realidades" são perversamente construídas por outros setores da política, que se beneficiam com esses comportamentos, o que leva a fortalecer a indústria do medo, e a exigência de governos fortes, militarizados e com uma base de parlamentares mais conservadores.

Não há dúvidas de que há infiltração nessas manifestações. Tanto por organizações políticas, que temem se apresentar abertamente por medo das reações dos “Black blocs” e visam também “recrutar” novos militantes entre aquela juventude, como por setores fascistas, tipos provocadores que desde aquele momento por mim citado anteriormente, na década de 1980, já se infiltravam em nosso meio. Policiais ou não. Por motivos diferentes esses setores objetivam criar os confrontos para gerar desgaste nos governos, de tal forma que os possam debilitar. O uso da violência, no caso, como mecanismo de se contrapor à repressão policial assume um verniz diferente nos dois casos, mas o resultado é desastroso de qualquer jeito. Principalmente quando o personagem culpado desse tipo de ato não é um indivíduo vinculado às forças repressoras, porventura infiltrado. O que dá margem para a mídia conservadora enfatizar no seu discurso de um ambiente dominado pela insegurança e anarquia.

Não tenham dúvidas de que o principal discurso nas próximas campanhas eleitorais será esse. Dominados pelo medo, que cotidianamente entra em suas casas pelos canais de TV, ou pela própria realidade que as cercam, as pessoas tendem a sucumbir à repetição constante desse discurso, e corremos o risco de ver a eleição de um parlamento muito mais conservador do que o atual.

Esse poderá ser o resultado de atos inconsequentes e irresponsáveis, movidos por um voluntarismo tolo, e a demonstração de atos de estupidez como se fossem atitudes libertárias e revolucionárias. Em um novo tipo de ludismo pós-moderno que está mais para os atos de cegueira atestado por José Saramago.

As máscaras que assumem as frentes dessas manifestações escondem jovens desprovidos de capacidade política para entender os mecanismos que movem a sociedade. Ou meros provocadores desejosos de reeditar aqui no Brasil os mesmos gestos fascistas de 50 anos atrás, quando um golpe militar foi dado com o argumento de pôr fim à baderna, à desordem e a comunização do país

 

FAKES, FALSÁRIOS E FASCISTAS: COMO DESPERTAR O LADO SOMBRIO DAS PESSOAS

Maio de 2014

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2014/05/fakes-falsarios-e-fascistas-como.html

A desinformação, a preguiça de ir atrás da veracidade daquilo que está sendo divulgado, aliado à alienação peculiar, facilita a adoção desses mecanismos manipuladores, que repetidos à exaustão assume ares de verdades insofismáveis. Quando, em verdade, e realmente, são situações determinadas e localizadas, sem representar, como se apregoa, o declínio da civilização contemporânea, ou algo que o valha. Prato cheio para oportunistas, fascistas e para aqueles que desejam convencer as pessoas a ingressarem no mundo da ficção religiosa, de seitas que se deleitam com a desesperança e com o medo das pessoas.

Repercuti em minha página pessoal no Facebook essa percepção, e aqui a reproduzo.

Estou impressionado com a quantidade de pessoas que estão compartilhando postagens produzidas por páginas organizadas por "fakes". Matérias falsas, ou propagandas subliminares, são repercutidas sem que haja um mínimo de averiguação sobre a origem das notícias, em sua maioria, falsas. Algumas são boatos, e boa parte deturpações de notícias antigas. E o que é pior, muitos que repercutem isso estão na universidade ou tem curso superior. Por causa desse comportamento uma dona de casa foi linchada e assassinada em Guarujá, SP. Fico em dúvida se é desinformação, alienação, oportunismo ou má fé mesmo.

Vivemos, um tempo, de potencialidades de práticas antigas, mescladas com ares de modernidade tecnológica. O boato se dissemina virtualmente, e organiza em júbilo antros de acusadores odiosos, mas seu prólogo acontece nas formas tradicionais, da violência estúpida em grupo, nos justiceiros que assumem o papel de juízes, júri e carrascos. Sob os argumentos de ausências de autoridades, mas diante de situações que são reais, como o descontrole do aparato repressivo e a agressividade de um setor cada vez mais sob pressão: as polícias militares. Sob o medo, seduzido por ele e manipulado por outros, a multidão torna-se instrumento daqueles interesses que não se apresentam perceptivelmente.

Nas sombras, escondem-se os reais interesses, de grupos que disputam avidamente o poder político e desejam concentrar cada vez mais o poder econômico. Instigam e aproveitam-se dessas situações, para afinal dar o bote sobre as carcaças de uma sociedade onde as pessoas não se veem nela, mas apenas os outros. Nesse momento surgem os reformadores do caos, os mesmos, aqueles que por décadas e séculos controlam as riquezas, concentram rendas e constroem mundos partidos, sectarizados, mas que vivem protegidos em muralhas repetindo-se, sob novas conformações, mundos antigos e medievais. E as massas, como sempre, cumprem bem o papel de massa de manobra. Com o perdão da redundância.

 

DEPOIS DE UMA TRAGÉDIA COMO CONTER A DESTEMPERANÇA E O MESSIANISMO?

Agosto de 2014

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2014/08/depois-de-uma-tragedia-como-conter.html

O que faltou, portanto, ao governo brasileiro foi apresentar para a população, e à juventude, durante todos esses anos, principalmente depois das jornadas populares de junho de 2013, as distinções entre os projetos políticos que estão em disputa. E encarar com mais determinação as contradições que lhes cercam. Temo que isso sendo feito agora possa dar a impressão de que é devido à disputa eleitoral.

Ademais, como já tenho inserido em alguns artigos, mesmo com um ímpeto oposicionista, tentando algo mais à esquerda do que o governo atual, essa juventude se encaminha para uma armadilha, na escolha de uma, ou duas, candidaturas que escondem seus objetivos, definidos seja pelas opções liberais, ou pelo fundamentalismo religioso conservador. A ilusão do discurso eleitoral, a ânsia de transformação por não conseguir enxergar a continuidade das mudanças, ou porque ficaram refratários a elas pela massificação ideológica midiática, fará com que essa juventude, e aqueles que se encontravam na posição de indefinição, seja levado pela comoção de um trágico acidente, pela ineficiência da propaganda governamental e pelo discurso messiânico. Situação que seja aqui no Brasil, seja em qualquer parte do mundo, sempre trás futuros dissabores quando da descoberta da fraude eleitoral (como foi no caso Collor; ou no Egito recente), causando crises de proporções desconhecidas, levando o país ao caos e ao retrocesso econômico. Nessas condições, as camadas mais pobres, percentual maior da população, e principal beneficiada pelas conquistas dos últimos 12 anos, será a mais afetada, retroagindo aos tempos em que a política brasileira privilegiava somente medidas do agrado das elites econômicas das camadas sociais abastadas.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A DEMOCRACIA, O ANDAR DO CARANGUEJO E A REALEZA NA TERRA DE CEGOS

Uma rápida análise sobre o resultado eleitoral do primeiro turno das eleições deste ano, confirma as preocupações e receios que manifestei em vários artigos desde o famoso junho de 2013. Insisti por várias vezes que a multidão na rua não significava melhoria nos níveis de consciência política. A falta de organização, a violência que se seguiu e a captura do discurso inconformista difuso, por questões muito variadas e sem foco, pela grande mídia, além da repetida política do medo, sustentada por uma estratégia de amplificar o sentimento de insegurança, indicava que o voto conservador prevaleceria nessas eleições. As condições criadas pela presença maciça das pessoas nas ruas, “indignadas”, principalmente jovens, favoreceu aos setores reacionários, desejosos de retroceder em políticas sociais e de retomar o controle do Estado no interesse de uma minoria desejosa por mais lucros e menos investimentos nas camadas pobres. Isso não é análise sociológica, é fato, real, esteve presente nos embates nesse processo eleitoral, muito embora negado para esconder a roupagem conservadora embutida nos programas de governos e indicado nas mentes pouco brilhantes daqueles que coordenaram as campanhas que se opunham às políticas efetivadas pelo governo federal.
Ainda é tempo para mudar. Mas a opção à direita não conduz o nosso país adiante. Ao contrário, imporá um retrocesso para a adoção de políticas do interesse da elite econômica. Essa é a razão das constantes oscilações negativas da bolsa de valores cada vez que a candidata Dilma Roussef ampliava sua diferença dos demais. É a aposta que o “mercado” faz. Mas esse ente abstrato, se concretiza no capital financeiro, que por sua vez, traduz-se nos investidores, especuladores, na burguesia empresarial, financeira e latifundiária.
Diante de um mundo em crise, resultado de políticas neoliberais, e de ações do Estado para salvar grandes investidores e impedir falências de grandes empresas e corporações financeiras, seria um enorme contrassenso, e andar na contramão dos que desejam mudanças positivas, eleger no Brasil um candidato que represente os equívocos de tais políticas, causadoras da grave crise econômica que afeta todo o mundo.
Mas, o que se vê até aqui, com a composição do parlamento brasileiro, é que o voto conservador, escorado no medo, na apologia da violência, na manipulação dos desejos do povo pela grande mídia, foi em parte vitorioso. Não significou, em absoluto, melhorias nos níveis de consciência política do eleitor. Basta proceder a uma radiografia do processo eleitoral, a elaboração de uma geografia do voto, e se terá uma análise concreta disso que concluo nesse texto. E, isso nos mostrará, independente de quem se eleger no segundo turno, que se tornará muito mais difícil a articulação com esse Congresso, mais conservador e reacionário do que antes. E igualmente fisiológico. E será mais improvável aprovar a realização de um plebiscito que venha a propor uma reforma política, que reveja as condições pelas quais o processo político gera distorções na representação parlamentar, comparando-se com a composição da sociedade brasileira.
O povo brasileiro queria mudar. Mudou o parlamento para pior. Como sempre ocorre quando a organização política fracassa e cede espaço para a multidão cega se manifestar. Mas pode ficar pior ainda. Enfim, essa é a democracia capitalista, e ela prevalecerá porquanto o seu processo não significar um questionamento real e contundente das mazelas que esse sistema produz na vida da maioria daqueles que estão inconformados. Mas esses são cegos, porque sem consciência política, tornam-se incapazes de identificar por quais caminhos as mudanças realmente podem acontecer. E, na encruzilhada, e tomados pela cegueira, seguem rumos que os levarão de volta para o passado.
É evidente que nem todos são cegos, mas esses poucos, disfarçados, adotam o discurso da mudança. Confundem a multidão alienada e fazem valer o velho ditado, que diz, que “em terra de cego quem tem um olho é rei”.
A seguir destaquei alguns trechos de alguns artigos que publiquei desde as famosas “jornadas de junho”. Compare-os com a  realidade das urnas nesse primeiro turno:

CADÊ A MULTIDÃO?

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Junho de 2013, manifestações repentinas levaram multidões às ruas. Se imaginou passar o Brasil por profundas transformações. Em alguns artigos eu alertei que pelo mundo adentro situações semelhantes tinham levado ao poder setores conservadores e da extrema direita. Os resultados de multidões sem direção, cegas e reticentes à aceitarem direções e organização, sempre levaram para rumos opostos ao que se pretendiam. Relembro aqui um artigo que escrevi no auge da febre criada pela multidão. Não mudei uma vírgula. O que se vê hoje? qual o quadro se apresenta nas eleições estaduais e nacional? Mudou a política? Mudou a cabeça da população? Ou a mídia conseguiu manipular a multidão? hoje dispersa e sendo representada por um bando de inconsequentes que só conseguiram criar um ambiente de retrocesso democrático no trato com as manifestações. Qual o quadro político se apresentará ao final dessas eleições?

A FÚRIA: O DESPERTAR DA MULTIDÃO, OU A REVOLTA DE UM INCONSCIENTE COLETIVO?

FRAGMENTOS DE UM OLHAR SOBRE A MULTIDÃO
sábado, 22 de junho de 2013
Eu acompanho essas manifestações há mais de dez anos. Claro, ao longe, como estudioso de geopolítica. A maior delas, ou uma das mais importantes, foi em 1999, durante uma reunião da OMC e gerou um filme chamado "A batalha de Seattle". Já escrevi sobre isso no meu blog (http://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2011/11/indignados-para-qual-direcao-seguem-as.html). Há diversas demandas, revoltas represadas, reivindicações justas. Mas nada disso será possível de ser mudado sem organização. As vozes das ruas, da multidão, criam motivações, e até mesmo uma empolgação exagerada, principalmente na juventude, cuja adrenalina explode e os empurra com força para o embate. É natural e importante que isso aconteça. Mas o que virá depois disso depende da política (ou da guerra, quando fracassa a política, mas aí sabemos as consequências). A multidão tem sido protagonista desde o final do século XX, com grandes protestos antiglobalização, e depois, com a intensificação da crise, na chamada “primavera Árabe”. Os resultados de tudo isso ainda está por vir, mas nos países onde ocorreram houve retrocesso na condução política. Governos mais conservadores e direitistas foram eleitos, Na Grécia, Itália e Espanha. Ou fundamentalistas religiosos, no caso do Oriente Médio, resultando em menos democracia e no fim do Estado laico e o controle de partes dos países por milícias armadas. Devemos refletir sobre esses momentos, mas nada seguirá bem se a política não funcionar, e já há algum tempo uma massificação da ideia de que tudo está ruim. A grande mídia e os setores conservadores têm insistido nisso, e agora os jornalões da Inglaterra e dos Estados Unidos (lembremos-nos de 1964). Existem coisas que precisam ser melhoradas, mas penso que a possibilidade de piorar não é remota. As raposas estão escondidas, prestes a atacar na surdina, como sempre fazem. O melhor que fazemos nesse momento, para saber de fato o que queremos, é, por um lado apoiar as reivindicações que são justas e não sejam pautadas pela mídia, por outro assistir o filme "A dia que virou 21 anos", documentário que está em cartaz sobre o golpe militar de 1964. Para não precisarmos comprovar o que diz Marx, que "a história se repete, da primeira vez como tragédia, da segunda como farsa".
NÃO HÁ MUDANÇA NOS NÍVEIS DE CONSCIÊNCIA POLÍTICA
Tenho uma forte suspeita de que há uma geração que desaprendeu da política, e outra que desconhece o que ela significa, a sua importância. E, principalmente, desconhece a história desse país. Embora nada disso esteja sendo dito no sentido de generalizar, mas essa é uma realidade na multidão que tem ido ás ruas. Tenho críticas, muitas críticas, a algumas atitudes do governo, principalmente quando cede às pressões conservadoras e da grande mídia. Mas conheço o passado desse país, e espero que ele não se repita. Nem como tragédia, nem como farsa, como diria Karl Marx.
O melhor que se faz é buscar se informar sobre as batalhas políticas em curso, senão todos vão no embalo da rede globo. E é preciso também saber como funciona o sistema político. Muita gente está indo para as ruas sem saber isso. A multidão vai às ruas no embalo, mas a cegueira ainda continua. É necessário pressionar por uma reforma política e conscientizar os cidadãos de que não se pode votar em candidatos por simples amizade, mas pelo seu histórico de lutas. O que se vê é a repetição de um voto conservador, em que se elegem empresários, latifundiários e profissionais liberais sem tradição de participação nas lutas sociais. É a própria sociedade que compõe esses parlamentos. Além disso, as novas gerações precisam saber melhor de como era esse país. Embora a maioria das pessoas esteja certa na necessidade de que é preciso melhorar, e muito. Mas não podemos permitir que as nossas liberdades democráticas sejam ameaçadas e que essa multidão torne-se massa de manobra dos setores reacionários. 

SOBRE MÁSCARAS, VIOLÊNCIAS E O DIREITO DE SE MANIFESTAR

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
Aliás, já escrevi a respeito da inversão que se faz ao filme “V, de Vingança”. Ali, o personagem se revolta exatamente contra a manipulação feita por quem pretendia um poder forte. A violência se tornou constante, o regime refluiu no combate e o medo, ao tomar conta da população, a jogou para os braços de um ditador, que militarizou o poder estatal. Foi contra isso que “V” se insurgiu.
O que se vê pelos meios de comunicação, destacadamente nas grandes redes é uma ênfase às notícias sobre fatos violentos, e um clamor crescente da população por mais “segurança”, significando isso mais polícia nas ruas. Ou seja, enquanto nas ruas os manifestantes clamam por desmilitarização da polícia, nos bairros, principalmente os periféricos, a população exige mais polícia, para combater o que a mídia aponta como um descontrole do Estado para conter a violência. No que eu identifico como uma “geopolítica do medo” sendo maquiavelicamente implantada.
Embora a violência exista, e esteja vinculada principalmente ao tráfico de drogas, ela não é combatida em sua essência. Nem as críticas que se fazem a ela dão ênfase às contradições que fazem do capitalismo um sistema profundamente injusto e desigual.
Ao não desejarem participar de organizações de caráter político, e abominarem os partidos políticos, mesmo os que se intitulam revolucionários e socialistas ou comunistas, esses manifestantes deixam de analisar a conjuntura política com base em fatos concretos e na realidade objetiva. Novas "realidades" são perversamente construídas por outros setores da política, que se beneficiam com esses comportamentos, o que leva a fortalecer a indústria do medo, e a exigência de governos fortes, militarizados e com uma base de parlamentares mais conservadores.
Não há dúvidas de que há infiltração nessas manifestações. Tanto por organizações políticas, que temem se apresentar abertamente por medo das reações dos “Black blocs” e visam também “recrutar” novos militantes entre aquela juventude, como por setores fascistas, tipos provocadores que desde aquele momento por mim citado anteriormente, na década de 1980, já se infiltravam em nosso meio. Policiais ou não. Por motivos diferentes esses setores objetivam criar os confrontos para gerar desgaste nos governos, de tal forma que os possam debilitar. O uso da violência, no caso, como mecanismo de se contrapor à repressão policial assume um verniz diferente nos dois casos, mas o resultado é desastroso de qualquer jeito. Principalmente quando o personagem culpado desse tipo de ato não é um indivíduo vinculado às forças repressoras, porventura infiltrado. O que dá margem para a mídia conservadora enfatizar no seu discurso de um ambiente dominado pela insegurança e anarquia.
Não tenham dúvidas de que o principal discurso nas próximas campanhas eleitorais será esse. Dominados pelo medo, que cotidianamente entra em suas casas pelos canais de TV, ou pela própria realidade que as cercam, as pessoas tendem a sucumbir à repetição constante desse discurso, e corremos o risco de ver a eleição de um parlamento muito mais conservador do que o atual.
Esse poderá ser o resultado de atos inconsequentes e irresponsáveis, movidos por um voluntarismo tolo, e a demonstração de atos de estupidez como se fossem atitudes libertárias e revolucionárias. Em um novo tipo de ludismo pós-moderno que está mais para os atos de cegueira atestado por José Saramago.

sábado, 22 de junho de 2013

A FÚRIA: O DESPERTAR DA MULTIDÃO, OU A REVOLTA DE UM INCONSCIENTE COLETIVO?

FRAGMENTOS DE UM OLHAR SOBRE A MULTIDÃO
Eu acompanho essas manifestações há mais de dez anos. Claro, ao longe, como estudioso de geopolítica. A maior delas, ou uma das mais importantes, foi em 1999, durante uma reunião da OMC e gerou um filme chamado "A batalha de Seattle". Já escrevi sobre isso no meu blog (http://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2011/11/indignados-para-qual-direcao-seguem-as.html). Há diversas demandas, revoltas represadas, reivindicações justas. Mas nada disso será possível de ser mudado sem organização. As vozes das ruas, da multidão, criam motivações, e até mesmo uma empolgação exagerada, principalmente na juventude, cuja adrenalina explode e os empurra com força para o embate. É natural e importante que isso aconteça. Mas o que virá depois disso depende da política (ou da guerra, quando fracassa a política, mas aí sabemos as consequências). A multidão tem sido protagonista desde o final do século XX, com grandes protestos antiglobalização, e depois, com a intensificação da crise, na chamada “primavera Árabe”. Os resultados de tudo isso ainda está por vir, mas nos países onde ocorreram houve retrocesso na condução política. Governos mais conservadores e direitistas foram eleitos, Na Grécia, Itália e Espanha. Ou fundamentalistas religiosos, no caso do Oriente Médio, resultando em menos democracia e no fim do Estado laico e o controle de partes dos países por milícias armadas. Devemos refletir sobre esses momentos, mas nada seguirá bem se a política não funcionar, e já há algum tempo uma massificação da ideia de que tudo está ruim. A grande mídia e os setores conservadores têm insistido nisso, e agora os jornalões da Inglaterra e dos Estados Unidos (lembremos-nos de 1964). Existem coisas que precisam ser melhoradas, mas penso que a possibilidade de piorar não é remota. As raposas estão escondidas, prestes a atacar na surdina, como sempre fazem. O melhor que fazemos nesse momento, para saber de fato o que queremos, é, por um lado apoiar as reivindicações que são justas e não sejam pautadas pela mídia, por outro assistir o filme "A dia que virou 21 anos", documentário que está em cartaz sobre o golpe militar de 1964. Para não precisarmos comprovar o que diz Marx, que "a história se repete, da primeira vez como tragédia, da segunda como farsa".
E CONTRA O CAPITALISMO, NADA? AFINAL, O QUE FAZ VOCÊ FELIZ?
Espero poder morrer tranquilo, mas não em breve, embora a tempo de ver no meio dessa multidão como uma das bandeiras principais "fim ao capitalismo" e "abaixo as grandes corporações que comandam a riqueza no mundo". Porque os problemas principais, em essência, decorrem da lógica que está por trás do funcionamento desse sistema, de um estilo de vida que tem transformado a nossa maneira de ser e de nos relacionarmos, já que tudo decorre das condições que nos permitem consumir. Deixamos de ser cidadãos e aceitamos ser consumidores. Se pudermos consumir, seremos respeitados, senão somos excluídos. Quando essa pauta, que questione o sistema que constrói o abismo que separa ricos e pobres, for colocada como prioritária, aí eu vou acreditar que as consciências acordaram. De qualquer forma é salutar ver a juventude sair da letargia, só espero que os oportunistas não ganhem mais espaço, porque enquanto a juventude tem aversão à política as igrejas mais conservadoras aumentam o número de parlamentares e adotam uma agenda ultra-conservadora.
EM QUAL DIREÇÃO SEGUIR?
As manifestações começaram com um foco específico, o péssimo atendimento nos serviços urbanos, principalmente o transporte coletivo. Muitos problemas que são locais, de responsabilidades dos governos estaduais e municipais. A mídia direcionou as manifestações para outra pauta, incluindo nisso a questão da corrupção e até mesmo o repúdio à PEC 37, mesmo sendo do total desconhecimento da população e isso se espalhou pelas redes sociais. É visível a forma como a mídia regional bloqueia a crítica aos governos locais e estaduais. Dependentes de verbas publicitárias, os órgãos de imprensa submetem-se à pressão, e filtram das imagens os cartazes com críticas a esses governos. Quem não foi nas manifestações não sabem que esses governos são focos das críticas por serem responsáveis pelos setores mais criticados pela multidão. Mas manteve-se superdimensionando, a crítica ao governo federal. Ampliou-se para o ataque à participação de políticos, contra o comportamento oportunista e corrupto de muitos deles, pauta que está já há muito tempo em evidência. Há muitos anos, diga-se de passagem, e por todo esse tempo a mesma população que protesta é a que elege esses mesmos políticos que ela tenta agora “fuzilar”. Mais uma pauta da mídia. Há uma tentativa aqui de criar um sentimento de aversão a política, já que se poderia partir para uma campanha, e a imprensa tem esse poder, de fazer com que a população evitasse repetir o voto naquele político que ela votou. Mas não é isso, o que há por trás é uma clara tentativa de tornar a política algo nefasto. Os reacionários, golpistas de sempre, e os comentaristas pulhas, tipo Jabor, se aproveitaram para tentar induzir o foco. Mas as ações da multidão não são como no período pré-1964. O primeiro a ser sitiado foi o governador de São Paulo, claro, depois a mídia o escondeu. Depois algumas prefeituras viraram alvos. A revolta se deu também contra o Congresso. No Rio de Janeiro e em outras cidades o ataque foi contra a Assembleia Legislativa ou o parlamento municipal. O que é ruim. Mesmo com todos os problemas que existem no parlamento e sua maioria conservadora, esses lugares são sinônimos de democracia. As ditaduras e os fascistas atacam primeiro os parlamentos. É preciso saber escolher os representantes e não destruir a representação. Senão é a anarquia. E aí a população vai clamar pela polícia. Como é contada essa história no filme "V de Vingança", que muitos invertem seu sentido e usam sua máscara com objetivos diferentes. No filme, “V” luta contra o totalitarismo, que foi imposto a partir da manipulação da massa.
NO EMBALO DA MÍDIA
A mídia tentou por todo o tempo, e conseguiu, pautar as reivindicações da multidão. E insistiam a todo o momento que uma das bandeiras é a luta contra a PEC-37.  Perguntei a três jovens que estavam com cartazes na manifestação se conheciam o seu conteúdo, um deles era universitário. Só sabiam dizer que o governo estava tentando impedir que se investigue a corrupção. Não insisti com mais perguntas, sei que 95% desconhecem de que se trata, de fato. Há muita alienação, não conhecem o histórico dessa emenda que está sendo pautada pela Rede Globo. Ela é uma disputa entre as polícias e o ministério público, seu autor é um deputado que é delegado da polícia civil, não tem nada a ver com o governo. É muito relativo dizer que afeta o combate à corrupção, porque é função do Ministério Público oferecer denúncia, esse é o seu papel constitucional. Ademais, o Ministério Público também tem se omitido em investigações importantes sobre a corrupção, como no caso das privatizações e do envolvimento do banqueiro Daniel Dantas, acobertado pelo judiciário, inclusive por um ministro do STF. E quem investigou esse grande corrupto e todo seu esquema, foi a Polícia Federal. Muito embora eu não seja contra o caráter investigativo do Ministério Público, creio que isso deve se dá em conjunto com as Polícias Civil e Federal, caso contrário se dará muito poder a um órgão que tem se pautado pelos refletores. Suas maiores ações são aquelas que garantem uma grande repercussão midiática, e quase sempre expõe suspeitos sem que depois as acusações sejam comprovadas. Mas há por trás disso tudo um nítido objetivo da mídia de direcionar o movimento e incluir na pauta as mesmas questões que estiveram por trás do golpe de 1964.
FUI, VI E VOLTEI... MAIS PREOCUPADO DO QUE ANTES.
Ao contrário da euforia que se espalhou pela multidão nessa semana, o que vi nas ruas me preocupa mais do que me deixa entusiasmado. É inegável que há muita leniência nas ações do governo federal e um engessamento causado pela excessiva burocracia e por ter abdicado de reivindicações históricas. Cito a reforma agrária. E acrescento às concessões feitas às corporações financeiras em isenções de impostos para inchar as cidades de automóveis; cedendo no aumento dos juros para atender à especulação etc. Mas me preocupa, e pude viver isso de perto, de dentro da manifestação, a completa despolitização do movimento. Apesar de concordar com 75%, no mínimo, dos cartazes ali expostos. Saí convencido de que o poder da mídia não pode ser relevado, nem menosprezado. Muitas das reivindicações foram pautadas por ela, logo depois da repressão violenta em São Paulo. Há, sim, em curso, uma tentativa golpista, agora instrumentalizando a multidão, de alterar o jogo político que não tem sido possível fazer com a política tradicional. É claro que essa política tradicional deve ser criticada. E aí entra o grande erro do pragmatismo político de Lula, de buscar repetir os conchavos políticos com setores conservadores, e ceder espaços políticos antes tradicionalmente disputados pelos setores de esquerda, como a área de direitos humanos. É evidente que isso vai se tornando visível, principalmente quando se tinha expectativas diferentes quanto à condução da política. Traduzindo em miúdos: o governo do PT, e aliados, considerou que simplesmente adotar uma política de concessão de benefícios para os setores mais pobres seriam suficientes para agradar politicamente a sociedade, e mais do que isso, para fazer com que fosse sentido que há uma vontade de fazer avançar as mudanças estruturais, pedidas há muitos anos. A camada que se sobrepõe no quesito influência política, é a classe média. E ela arrasta em suas reivindicações, muitas de cunho meramente moralistas (o que não quer dizer que não sejam pertinentes), as demais camadas. 
O que aconteceu este mês no Brasil, foi o estouro de um dique onde estavam represadas expectativas de décadas e insatisfações geradas por comportamentos da classe política, de absoluto desrespeito à sociedade e de repetição de práticas seculares, herdadas do período colonial. Por outro lado, a mídia tem construído um clima de pessimismo desde a posse do Lula, simplesmente negando todo o processo histórico desse país, os avanços obtidos nos últimos anos, e as dificuldades de recompor um estrago nesse país que deve ser compreendido em toda a sua dimensão histórica. Mas considero que erros graves, na postura adotada pelos sucessivos governos pós-FHC, ao não combater as práticas políticas tradicionais, e até mesmo se servirem delas, deram forças a essas insatisfações e revoltas. Não tenho dúvidas. Quem tem o poder nas mãos é que tem a possibilidade de consolidar as mudanças que a sociedade exige. Se não fez isso é porque está completamente fora de sintonia da realidade de seu próprio povo. Não basta maquiar, é preciso mostrar que é diferente, e não ceder às pressões da matilha conservadora. Que essas rebeliões possam servir de exemplo. Mas depois do que vi, e quando cheguei em casa e li as notícias sobre as demais manifestações, me lembrei do livro de José Saramago (e do filme) "Ensaio sobre a cegueira". Os que acharem estranho essa referência vejam o filme.
GARNIZÉS COM COMPLEXOS DE GAVIÕES
Os jornais britânicos se especializaram no Brasil. Naturalmente, o velho e carcomido império colonial, deseja influenciar nas políticas brasileiras, com o claro objetivo de defender suas corporações e gananciosos investidores, o alvo deles, por mais que disfarcem, são os altos juros que lhes garantem um rentismo especulativo, mas que nada favorece ao desenvolvimento brasileiro. Repetem as “vozes do além” estadunidenses, que durante o governo João Goulart atacaram as reformas de base propostas naquele momento, principalmente o controle dos lucros das multinacionais, que deveriam ficar retido no país por, pelo menos, seis meses. Uma pena que o governo Dilma baixou a cabeça e cedeu às pressões, aumentando os juros, para deleite do “The Economist”. Agora, é a vez do "The Guardian" numa abordagem extremamente tendenciosa das manifestações. Eles deveriam se preocupar com a crise econômica que tem transformado a Inglaterra num "garnizé". Não precisamos que aqueles que colonizaram a América e a África venham agora querer ensinar qual o rumo que o Brasil precisa tomar. O desemprego por lá é o dobro do que existe aqui. E a riqueza por eles conseguida decorre de todo esse processo de exploração colonial. A desgraça da África e do Oriente Médio é fruto das ações rapaces do imperialismo britânico.
CEM POR CENTO DOS RECURSOS DO PRÉ-SAL PARA A EDUCAÇÃO
Essa é uma bandeira do movimento estudantil (100% para o pré-sal). Mais investimentos em educação, e se tornou uma das principais reivindicações nas manifestações. Veremos agora quem vai ser contra. Mas é preciso prosseguir atentos, principalmente porque setores da classe média alta se opõem a tudo que venha para atender às necessidades das camadas mais baixas. Há uma batalha no congresso entre parlamentares que desejam que esses recursos vão para seus estados sem que esteja definido para onde.
SOBRE O USO DA VIOLÊNCIA NAS MANIFESTAÇÕES
A mídia está tentando separar as coisas. Não, tudo faz parte de um mesmo movimento. São consequências dele. Há no meio desses grupos gangs e marginais, isso é inegável, mas a maioria dos que foram detidos com esses comportamentos agressivos é composta de jovens sem passagens na polícia, e membros da classe média, como o que foi preso no dia seguinte à depredação da prefeitura de São Paulo, estudante de arquitetura e filho de empresário, e o que foi identificado liderando a quebradeira no Itamaraty, em Brasília. Procura-se transferir para as camadas mais pobres a responsabilidade por atos que visam gerar o caos, e muitos deles são seguramente articulados, mas uma parte vai no embalo da adrenalina. Como sempre criminaliza-se o pobre. A tentativa é mostrar um ambiente de insegurança e de incompetência, e as críticas se voltam contra o governo federal. O comportamento da polícia paulista foi muito estranho, agiu com força desproporcional num primeiro momento, e abdicou de defender os prédios púbicos depois e praticamente desapareceu das ruas no maior protesto. Todas as críticas da mídia passaram a se direcionar para o governo Dilma, quando a principal reivindicação, que diz respeito à mobilidade urbana é de responsabilidade dos demais governos, principalmente. Há uma farsa em curso, é uma tentativa de repetição da forma como foi preparado a estratégia que levou o país a conviver com uma ditadura militar. Se isso se dará como naquele tempo vai depender da maneira como os partidos que apoiam a presidenta, principalmente os de esquerda, que sempre tiveram em suas bandeiras essas reivindicações que estão na rua, irão agir a partir de agora. Não há dúvida que será preciso se reinventarem. E o governo federal precisa deixar de pintar a realidade brasileira com cores que ainda não correspondem aos seus desejos. A realidade é palpável, estamos longe de por fim à pobreza, embora o país tenha avançado bastante. E não adianta ficar olhando para trás, afinal, já se vão dez anos que os neoliberais tucanos foram derrotados. A Nação tem pressa.

A "CEGUEIRA" DA MÍDIA!
Acho melhor falar "parte da mídia", dos grandes grupos de comunicação (A imprensa regional assume outro comportamento, mais ameno, digamos. Contudo fica mais sujeita às pressões dos governos locais e estaduais, e por isso omitem as críticas aos mesmos). Esses meios de comunicação, de linha editorial direitista (Globo, Veja, Estadão, Folha de São Paulo, Band, principalmente), nos últimos anos tem procurado criar um clima crescente de insatisfação na população, parte do objetivo político de levar ao poder seus aliados conservadores. Agora falam como se eles também não fossem alvos dessas insatisfações. Mostram cenas da multidão vaiando as bandeiras de alguns partidos de esquerda (o que demonstra a cegueira, já que não há outro caminho para as mudanças, que não o institucional, e com a ajuda daqueles partidos que apoiam as reivindicações) mas não mostram quando eles próprios são vaiados e precisam disfarçar-se no meio da multidão.  E dão dimensão pequena às cenas de destruição de seus próprios veículos de comunicação (atitudes extremas, e desnecessárias, aliás, mas é fruto da mesma revolta dos que se sentem enganados). As pessoas também estão fartas da maneira como esses órgãos da imprensa procuram manipular as notícias. Por isso a reação da multidão, fazendo com que alguns repórteres omitam o símbolo de suas emissoras. Pode-se usar, também nesse caso, a velha frase de uma música de Geraldo Vandré: "é a volta do cipó de aroeira, no lombo de quem mandou dá".

AS DIMENSÕES DOS PROBLEMAS URBANOS

Pouco se diz, mas é evidente, que as cidades são verdadeiros vulcões, prestes a explodir. Ou melhor, um vulcão em processo de expelir suas mais incandescentes lavas. A questão é, como solucionar problemas crônicos, na rapidez com que está a exigir a pouca paciência do povo e com uma máquina estatal paquidérmica? Não são problemas de agora, mas que foram se acumulando como decorrência da leniência dos governantes, que priorizam as áreas mais sofisticadas, bairros de ricos e facilitando os acessos aos condomínios fechados. Portanto, são problemas que não dizem respeito diretamente ao governo federal, são de responsabilidades locais e estaduais. Nos últimos tempos, apesar da (pequena) redução da miséria, ampliou-se o fosso entre ricos e pobres. Temos várias “cidades” em um único aglomerado urbano. Bairros que são microcosmos, e funcionam como pequenas cidades interioranas, mas compõem um verdadeiro apartheid social. Agora será preciso pressa, e suplantar a burocracia não é fácil. E precisa de muito mais vigilância, porque quando se exige menos burocracia, abre-se mais brechas para corrupção. Estamos naquela situação de como vemos o cachorro correndo atrás de seu próprio rabo. 
NÃO HÁ MUDANÇA NOS NÍVEIS DE CONSCIÊNCIA POLÍTICA
Tenho uma forte suspeita de que há uma geração que desaprendeu da política, e outra que desconhece o que ela significa, a sua importância. E, principalmente, desconhece a história desse país. Embora nada disso esteja sendo dito no sentido de generalizar, mas essa é uma realidade na multidão que tem ido ás ruas. Tenho críticas, muitas críticas, a algumas atitudes do governo, principalmente quando cede às pressões conservadoras e da grande mídia. Mas conheço o passado desse país, e espero que ele não se repita. Nem como tragédia, nem como farsa, como diria Karl Marx.
O melhor que se faz é buscar se informar sobre as batalhas políticas em curso, senão todos vão no embalo da rede globo. E é preciso também saber como funciona o sistema político. Muita gente está indo para as ruas sem saber isso. A multidão vai às ruas no embalo, mas a cegueira ainda continua. É necessário pressionar por uma reforma política e conscientizar os cidadãos de que não se pode votar em candidatos por simples amizade, mas pelo seu histórico de lutas. O que se vê é a repetição de um voto conservador, em que se elegem empresários, latifundiários e profissionais liberais sem tradição de participação nas lutas sociais. É a própria sociedade que compõe esses parlamentos. Além disso, as novas gerações precisam saber melhor de como era esse país. Embora a maioria das pessoas esteja certa na necessidade de que é preciso melhorar, e muito. Mas não podemos permitir que as nossas liberdades democráticas sejam ameaçadas e que essa multidão torne-se massa de manobra dos setores reacionários. 
“V” DE VINGANÇA!
A máscara do filme “V” DE VINGANÇA tem sido muito usado nas manifestações, principalmente por anarquistas e pelo grupo Anonymous. Isso tem acontecido também nos movimentos de "indignados" no mundo inteiro. Alguns usam sem compreenderem a mensagem do filme, que é baseado em uma história de quadrinhos. A revolta do personagem se dá porque um mandatário, com planos para por fim a democracia, permite que a violência assuma uma situação de total descontrole na sociedade, reduz as forças de segurança, a ponto de os cidadãos passarem a exigir um aparato repressivo mais forte. Dessa forma, após um golpe em que impõe o rigor de uma ditadura, ele militariza a sociedade, transforma as pessoas em alienadas e controladas pelo regime fascista. "V", o personagem, então se revolta contra a tirania, e prepara uma vingança para destruir um governo totalitário e fascista. Sua causa, advinha de uma ideia, ou de um ideal, que se contrapunha ao totalitarismo. Completamente diferente do sentido que os "mascarados" atuais tentam dar nas manifestações.
POR UMA NOVA FORMA DE FAZER POLÍTICA
Agora é apostar que surja dessas manifestações, a parte boa, naturalmente, majoritária, novas lideranças dispostas a fazer um novo tipo de política. Isso é tão importante quanto as reivindicações que estão postas, porque as coisas só se resolvem no âmbito da política. Chega de filhos de velhas raposas políticas serem candidatos, de pastores conservadores homofóbicos e de "mauricinhos" lançados por partidos de direita. São dessas manifestações que despontam as melhores lideranças. É uma esperança, mesmo que digam que lideranças de outrora assumiram posturas conservadoras quando chegaram ao poder. Mas se perdermos essas esperanças, aí só o caos, e também não se pode pensar em revolução sem uma vanguarda revolucionária. Só nos resta lutar por mudanças dentro das estruturas que estão aí, revigorando-as com personagens que não estejam viciados pelo eterno compadrismo que caracteriza a política brasileira. Mas não dá para atacar os partidos, eles são os instrumentos pelos quais se farão as mudanças. O que se deve é diferenciá-los, e identificar aqueles que possam erguer essas bandeiras que estão sendo gritadas nas ruas.
Como não creio que os anarquistas tenham razão, de que o caos prevalecerá, me seguro nessas expectativas, pois, ditadura nunca mais. Então, à luta, juventude! Mas com organização. E repito sempre a conhecida frase de Che Guevara: "hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás".
MULTIDÃO!
É preciso também ter a percepção que essa nova forma de fazer política deve também questionar aquelas existentes, tradicionais e fracassadas. São rejeitadas pela multidão e devem ser substituídas. Não se pode mais fechar os olhos, no Brasil e em outras partes do mundo, ao efetivo protagonismo da multidão. Embora ela seja, contraditoriamente, una e extremamente diversa. Como dizem Toni Negri e Michael Hardt, “a multidão é composta de diferenças e singularidades radicais que nunca podem ser sintetizadas numa identidade”. No entanto, ela é facilmente manipulada, a multidão é cega, e o direcionamento para onde ela seguirá dependerá das consequências que serão tiradas desse processo, por quem tem a condução da política.
Depois dessa longa temporada de violência e contradições, de guerra civil global, corrupção do biopoder imperial e infinita labuta da multidão biopolítica, os extraordinários acúmulos de queixas e propostas devem em dado momento ser transformados por um evento de impacto, uma radical exigência insurrecional. Já podemos reconhecer que hoje o tempo se divide em um presente que já está morto e um futuro que já nasceu – e o abismo entre os dois vai se tornando enorme. Com o tempo algum evento haverá de nos impulsionar como uma flecha para esse futuro vivo. Será este o verdadeiro ato de amor político”. (Hardt, Michael e Negri, Antonio. Multidão. São Paulo, Record, 2005)