quinta-feira, 29 de julho de 2010

O EIXO DO “MAL” (II)

Prosseguindo na trilha malévola dos inimigos do Império,analiso o comportamento luciferiano do venezuelano Hugo Chavez. Aliás, mais uma vez as manchetes povoam o universo imperial, daquelas mídias que ecoam sempre as notícias que coincidem com os interesses estratégicos dos Estados Unidos, e responsabilizam o presidente da Venezuela por uma crise diplomática que foi deliberadamente provocada por seu vizinho colombiano Álvaro Uribe.
(Na foto: Hugo Chavez, Fidel Castro e Evo Morales)
Desafeto de Chavez, e aliado de primeira hora dos Estados Unidos, Uribe, tal qual fez no ano passado em relação à Roberto Correia do Equador (outro que eventualmente freqüenta o eixo do mal), responsabiliza a Venezuela pela presença de guerrilheiros das Farcs na fronteira entre os dois países, obviamente, do lado da Venezuela. Onde teoricamente as tropas colombianas não poderiam atacar.

Quais as razões que levam, assim como no caso do Irã, os EUA e seus aliados, criarem fatos que causem atritos com aqueles países que praticam uma política que desdenham do poder imperial? Não é estranho, em conseqüência, que as manchetes ampliem incidentes provocados deliberadamente com o intuito de repercutirem de tal forma que justifiquem ações retaliatórias, quando não ameaças de ações militares. Veremos depois que o mesmo acontece com a Coréia do Norte.

Em muitos desses casos as ações são provocadas com a participação de espiões infiltrados, disfarçados até mesmo de executivos de empresas estratégicas ou da própria estrutura de um Estado. Tudo isso pode ser devidamente comprovado pelo depoimento transformado em livro de um ex-espião: CONFISSÕES DE UM ASSASSINO ECONÔMICO, de John Perkins (e de uma outra publicação dele mesmo, com ajuda de outros “assassinos econômicos”: História Secreta do Império Americano), publicado pela Editora Cultrix.

(Ver entrevista de Perkins em: http://www.youtube.com/watch?v=vH3qK_bnQCg&feature=related)

Mas não quero entrar no mérito das divergências entre a Venezuela e a Colômbia. Porque este país é apenas uma peça no tabuleiro de xadrez da América Latina, nas mãos de um jogador poderoso. O importante é compreendermos que, muito além das bazófias de Uribe, está em disputa fronteiras que possuem uma importância estratégica vital para os EUA. A Colômbia é nada mais do que um imenso paredão a proteger as fronteiras existentes entre a Venezuela e o Panamá. Isso pelo que a Venezuela representa hoje.

Na Venezuela uma enorme reserva de Petróleo, que inclui aquele país dentre os maiores produtores de petróleo do mundo, e um dos membros ativos da Organização dos Países Exportadores de Petróleo, a OPEP. E, do outro lado da fronteira colombiana, no que antes formava a Gran-Colômbia (separados a partir de ações dos EUA), o Panamá, localizado estrategicamente, com um canal controlado pelos EUA, que faz ligação marítima com dois oceanos. Ao olharmos o mapa (sim, a cartografia constitui-se em um elemento importante para desvendarmos alguns mistérios) podemos entender melhor as preocupações dos Estados Unidos.

Diante do efeito dominó, que se constituiu as mudanças para a esquerda nos países latino-americanos, cresceu a preocupação com a ampliação dessas mudanças em direção à América Central. Nicarágua, Honduras, El Salvador também já haviam enveredado por governos anti-EUA, sendo que no caso de Honduras as ações dos agentes estadunidenses deram certo, com o golpe que destituiu Manuel Zelaya. Entre a Nicarágua e o Panamá situa-se Costa Rica, com um governo facilmente manipulado pelos EUA. Entre o Panamá e a Venezuela, o governo colombiano de Álvaro Uribe.

Portanto, a principal razão para tamanha preocupação estratégica, além da necessidade do controle de uma região historicamente dominada pelos EUA, é a existência do Canal do Panamá. Qualquer estremecimento político nos países que circundam o Panamá, ou mesmo nele próprio, terá como consequência uma forte reação dos Estados Unidos.

Na década de 1980 aconteceu uma mudança brusca na política panamenha, com a eleição de Manuel Noriega, ex-agente da CIA, mas que rebelou-se contra os EUA ao assumir o poder naquele país. O resultado foi uma ação militar estadunidense em 1989, sob o comando de Bush (pai), que terminou com o seqüestro e prisão de Noriega e a morte de mais de 3.000 pessoas, a maioria civil.

O Canal de Panamá possui uma importância vital para a economia dos Estados Unidos. Possibilita o encurtamento de uma enorme distância na ligação entre as duas costas daquele país, banhadas por diferentes oceanos – o Pacífico e o Atlântico. É importante economicamente, mas é fundamental militarmente. Essas duas razões impõem a existência de uma série de bases militares na região, ampliadas recentemente em novo acordo com a Colômbia, sob pretexto de combate ao narcotráfico.

Vê-se assim, a real preocupação dos Estados Unidos em não aceitar um discurso beligerante como o de Chavez, e muito menos a sua intenção de expandir a “revolução bolivariana” pelos demais países da América Latina e Central.

- Bases militares dos EUA espalhadas pela América Latina
E, como por trás de todo o aparato de comunicação existe a influência de grandes corporações, os interesses se combinam, e determinam a maneira como o perfil dos governantes desses países, contrários à essa política tradicionalmente hegemonista em nosso continente, vai ser destacado. De forma a gerar uma antipatia das populações contra essas lideranças. Por isso mesmo o tom das notícias devem ser não somente de tratá-los como inconseqüentes e/ou irresponsáveis, mas de ironizá-los por suas idéias e muitas vezes tratando-os com desdém e os desqualificando.

Bem se vê, que independente das críticas que se façam às ações de cada um desses governantes, é preciso ir muito além dos discursos, e descobrir os interesses estratégicos que faz das notícias transmitidas pelos grandes meios de comunicação, informações suspeitas, a servir aos interesses hegemônicos dos EUA e às grandes corporações que operam milhões de dólares em todo o mundo e contribuem para manter a própria mídia em funcionamento.

domingo, 25 de julho de 2010

O EIXO DO “MAL” (I)

Quando acompanhamos as notícias pelos meios tradicionais de informação, TV, jornais e Rádio, ou até mesmo em alguns portais que reproduzem as visões conservadoras, e, consequentemente, tornam-se porta-vozes dos discursos beligerantes dos Estados Unidos, temos a impressão de que só existem problemas em 4 ou 5 países. Notadamente aqueles que ocupam obrigatoriamente as manchetes todos os dias, revezando-se como protagonistas de ações malévolas, nos destaques das noticias internacionais.

Especificamente: Coréia do Norte, Venezuela, Irã, compõem o denominado “eixo do mal”, expressão usada inicialmente por George Bush, ex-presidente dos EUA, mas que seguem sendo os principais alvos da política externa agressiva daquele país, mesmo no governo Democrata de Obama (incluo aqui por conta própria a Venezuela, em substituição ao Iraque, então sob ocupação). Eventualmente entram também nesta lista a Bolívia, o Equador, a Palestina, Cuba (sempre pode aparecer) e, mais discretamente a China e Rússia. Que pelas suas importâncias econômicas são tratados mais “respeitosamente”.

Existem em nosso planeta 192 países, dos que compõem as Nações Unidas, mais 11 que ou lutam por independência, ou tiveram suas independências reconhecidas recentemente, como no caso do Kosovo. E, uma peculiaridade que é o Vaticano, um enclave, uma espécie de cidade-Estado, que representa a Igreja Católica.

Cada qual com suas características e culturas decorrentes do processo histórico e geográfico de consolidação de seus territórios e de seus Estados-Nações. Consequentemente com governos que se diferenciam por essas características, variando da democracia cristã-ocidental a governos teocráticos, cuja constituição submete-se a preceitos sagrados seculares, passando por regimes comunistas com governos fortemente centralizados.

Obviamente cada um desses países carrega problemas diferenciados, formas de governos variadas, antagônicas em suas especificidades, e governantes com estilos e vínculos populares que se encaixam no perfil do sistema de governo e que agem de acordo com o poder que lhes é atribuído por esse sistema.

Em alguns desses casos o governante assume uma postura que contraria o poder hegemônico mundial, capitaneado pelos Estados Unidos, e secundarizado por outras potências européias, mais o Japão e Israel. Estes últimos são países cujas localizações os transformaram em aliados estratégicos importantes da aliança euro-americana. Na América Latina, a Colômbia, sem nenhuma importância econômica, mas estrategicamente nos últimos anos o aliado mais importante dos Estados Unidos.

Há alguns anos, listaríamos mais dois países, hoje sob ocupação: o Iraque e o Afeganistão, devidamente subjugados por invasões em seus territórios, mas ainda numa “guerra infinita”. Vê-se, dessa forma, que cada um desses países tem sua postura política marcada por uma oposição aos interesses dos Estados Unidos.

E por essa razão tornam-se alvos preferenciais dos ataques da mídia às suas ações, em muitos casos com total inversão nas informações ou o falseamento de fatos difíceis de serem comprovados.

Nos últimos dias seguem-se as notícias, repetitivas, dentro da estratégia de forçar a opinião pública à demonização desses países, referentes ao Irã (continuamente), à Coréia do Norte e à Venezuela. Vamos aos fatos:

O IRÃ E SUAS FRONTEIRAS

No caso do Irã, antes de formularmos qualquer juízo de valor sobre as ações do governo daquele país, e das quais podemos tranquilamente discordar, precisamos compreender a Geografia que o cerca, e que determina a sua existência. Sem isso ficamos à mercê do maniqueísmo estadunidense. Quais as fronteiras que cercam o Irã? Essa é uma primeira pergunta a fazer. Que tipo de riqueza natural, fontes de energia, existe em seu território? É uma segunda pergunta importante. E, historicamente, o que foi o Irã com o Xá Reza Pahlevi e o que se tornou aquele país depois da revolução islâmica, que levou os aiatolás ao poder?

A primeira pergunta nos leva a uma informação estratégica esclarecedora, quanto aos interesses em desgastar o governo daquele país. De um lado o Afeganistão, do outro o Iraque, e ainda o Paquistão. E um imenso território estratégicamente situado entre o Mar Cáspio e o Golfo Pérsico, rota possível para instalação de oleodutos e gasodutos de interesses do Ocidente. Afinal, essa foi uma das razões para a invasão do Afeganistão.

Só assim, conhecendo o que se passa nesses países (invasões, guerras, controle de petróleo, construções de oleodutos e gasodutos, controle de armas nucleares), nos dá a dimensão do porque o Irã precisa ser “dominado”. A existência das maiores reservas de petróleo do mundo, no caso do Irã e do Iraque, e a posição estratégica do Afeganistão para o escoamento de óleo e gás.

Por fim, e isso é apenas um começo, os EUA perderam um importante aliado dadas todas as circunstâncias citadas que envolvem estratégicamente o Irã, quando após a revolução islâmica seu “testa-de-ferro”, o Xá Reza Pahlevi, foi derrubado. Podemos recuar um pouco mais no tempo, se quisermos, para historicamente demonstrar o quanto vem de longe a luta dos EUA para manter sua influência naquela região. Em 1953, os EUA derrubaram o governo legítimo e democrático de Mohammad Mossadeq, consolidando o poder de Pahlevi, devidamente acessorado pela CIA até 1979. A partir daí se impõe a República Islâmica, sob o comando do líder exilado Aiatolá Ruhollah Khomeini.

Como forma de tentar minar o poder dos Aiatolás e retomar o controle de um país importante estratégicamente, os EUA apoiaram as ações de Sadam Hussein e instigaram uma guerra do Iraque contra o Irã que durou praticamente toda a década de 1980. Sem vencedores, mas sem conseguir o intento estratégico dos EUA de derrotar os Aiatolás, Irã e Iraque se enfraqueceram e passaram a conviver com crises constantes, muitas delas conseqüências das ações de espiões estadunidenses.

O objetivo sempre foi de procurar manter uma permanente instabilidade naquela região, condição para que os EUA pudessem espalhar bases militares por todos os lados, cercando territórios ricos em petróleo, mas com dificuldades de mantê-los sob seu domínio. Para justificar perante a opinião pública mundial, as notícias que se espalham pelo mundo através de agências noticiosas sob controle ocidental transmitem informações que visam preparar terreno para ações belicistas, sempre dando a idéia que se trata de uma luta justa em nome da democracia. Repete-se isso ad nauseam, até formarem uma opinião pública favorável à suas ações.

Continua...

Em outro Post, abordarei a situação de mais um “demônio”: a Venezuela de Hugo Chavez.

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* Charge 1: Jornal do Brasil (Rio de Janeiro-RJ) – 27.11.2009
* Charge 2: http://img4.imageshack.us/img4/1803/obamagoestowarbylatuff2.jpg

terça-feira, 20 de julho de 2010

A POLÍTICA E O MEDO!

Assisti esta semana a um filme até então por mim desconhecido. Peguei por acaso, pela temática abordada. Prá variar, o título brasileiro foge completamente do original: Plano B – A América contra o comunismo (Spinning Boris). Não é um filme que eu indicaria, é de má qualidade, mas o conteúdo foi o que me chamou a atenção, já que baseia-se em fatos acontecidos realmente.

Em 1996, já no fim do seu segundo mandato, Boris Yeltsin, completamente desgastado pela crise econômica que estrangulava a antiga União Soviética e em meio à um conflito violento contra os separatistas chechenos, decide concorrer à reeleição.

O cenário de crise e de enormes dificuldades para cumprir as promessas de mudanças com o fim do poder soviético fazia emergir o poder dos velhos bolcheviques. Com um presidente desmoralizado perante a opinião pública, avesso ao contato com o povo, e uma máquina estatal completamente desmontada, como conseqüência das opções neoliberais postas em prática por Gorbatchev, inicialmente, e consolidada pelo primeiro mandato do próprio Yeltsin, as condições para o retorno dos comunistas estavam praticamente consolidadas.

Exatamente por isso, por quase todo o período eleitoral o comunista Gennady Zyuganov manteve-se à frente, no começo com uma diferença que deixava dúvidas sobre a capacidade de Yeltsin reverter a situação. A linha dura, aqueles mais beneficiados com as mudanças na antiga URSS, tanto os “senhores da guerra”, quanto os burocratas recém-transformados em novos ricos, em função das privatizações de empresas estatais, principalmente as vinculadas à exploração de petróleo, preparavam-se para aplicar um golpe e impedir a realização das eleições. O medo era que a derrota de Yeltsin fizesse com que todas as mudanças sofressem um revés, caso os comunistas retornassem ao poder.

Levados para a Rússia pelos próprios “senhores da guerra”, possivelmente com o intuito de provarem que a derrota era eminente, o jogo começou a ser mudado a partir da adoção pelo grupo, já especializado em estratégias e táticas de campanhas eleitorais nos EUA, do próprio temor que eles sentiam em caso de vitória comunista...

O MEDO!

Aliado a estratégias que visam, como em qualquer campanha política, desconstruir a imagem do adversário, seja ridicularizando-o, seja transformando-o em um demônio, com fortes investidas de ameaças à paz, à democracia, o discurso do medo impõe à população uma espécie de droga letal, que transformado em uníssono para a multidão gera um pânico ideal para manter o controle com base na sujeição ao líder salvacionista, à escolha entre o céu e o inferno.

Pesquisas qualitativas com a população definiram para o grupo de marqueteiros estadunidenses qual o discurso ideal para garantir a vitória de Yeltsin. Em meio ao caos de um governo que somente fez desmontar a estrutura soviética baseada em uma forte proteção social com base no Estado, e à ameaça de uma guerra civil com o crescimento da insurgência na Chechênia, os russos optaram nos últimos dias da campanha eleitoral – que contou com uma participação indireta de Bill Clinton, então presidente dos Estados Unidos – por acreditar na probabilidade do caos, caso os comunistas retornassem ao poder.

Numa eleição apertada, cujo resultado deveu-se ao que os marqueteiros denominaram de “jogo”. Para eles era assim que se disputava uma eleição, onde os passos a serem dados devem estar devidamente sintonizados com os sentimentos dos eleitores. A tarefa inicial, portanto, é saber como pensam aqueles que deverão fazer as escolhas. Só que essas escolhas deixarão de ser suas, quando seus medos e paranóias tornarem-se instrumentos de controle nas mãos de estrategistas especializados em lidarem com a manipulação das vontades.

Foto revista Time: http://textosnet.blogspot.com/2009_06_01_archive.html

O medo, torna-se então, um forte componente motivador, podendo definir mudanças de comportamentos pela maneira como ele vá ser manipulado.

Podemos assim, entender, sem nos perdermos em possíveis anacronismos, porque retorna mais uma vez as manchetes em revistas reacionárias, como a veja (escrita assim mesmo, pois não merece destaque), que apontam para o “velho radicalismo petista”. (Aliás não somente velho, como prá lá de sepultado, já que foi deslocado para outros partidos, onde se abrigaram os que, no PT, tinham posturas mais radicais, de defesa do socialismo).

Mas a insistência segue a lógica de repetir a mentira, criar o medo, e assim falsear as notícias. Como uma orquestra, outros órgãos da imprensa conservadora acompanham esse discurso, e... pinba! Eis que o vice do Serra manda o torpedo, e volta a velha acusação de ligação do PT com as FARCs e o narcotráfico. Notícia requentada para tentar ver se desta vez a estratégia vai dar certo, e usar o velho discurso do medo para tentar virar um jogo que eu diria praticamente perdido.

"O trololó de sempre" - capa da revista (argh!) em 2002

Como no filme sobre as eleições russas, completamente fora da tradução original, é o Plano B, dos que fazem oposição ao governo Lula. Razão porque Serra, na falta de outro discurso, endossou a tresloucada declaração do seu vice-de-última hora.

Isso, contudo, não nos deve deixar com um ar de ironia e desdém. Essa tática obedece a uma estratégia, e usa de um mecanismo tradicionalmente instrumentalizado, cujo resultado na maioria das vezes foi o estabelecimento de ditaduras e governos fascistas. O medo impõe às pessoas a absoluta incapacidade de refletir de maneira racional. E se ele se transforma em um eco, reproduzido aos milhões, gera o pânico de tal forma que se torna incontrolável. O medo torna as pessoas cegas, e assim, facilmente manipuláveis.

“Si vis pacem, para bellum”.

sábado, 17 de julho de 2010

A CAMPANHA ELEITORAL, A MÍDIA E A LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Algo me chamou a atenção na sexta-feira. O jornal nacional, da rede Globo, simplesmente não tocou no assunto “eleições”. Para um telespectador alienado, desinformado, ou que apenas está interessado em ver notícias de tragédias e catástrofes, nada de anormal seria percebido. Contudo, como não me incluo nos perfis citados, fiquei curioso por saber se porventura nenhuma atividade de campanha teria acontecido.

Não foi preciso pesquisar muito, alguns sites da inernet já davam em suas página iniciais a ocorrência de um comício da campanha de Dilma Russef no Rio de Janeiro, na Cinelândia, que contou com a presença do presidente Lula. O primeiro que ele participa sem a tutela e a perseguição da (in)justiça eleitoral. Se informasse algo sobre a agenda dos candidatos, obrigatoriamente a Globo teria que mostrar Lula no comício da Dilma. É tudo que eles não querem.

Ficou bem nítido para mim, e espero que para outras pessoas, a tentativa da grande mídia em esconder a imagem do presidente Lula na campanha eleitoral, como forma de evitar ampliar mais ainda o percentual de votos que ele tem transferido para Dilma. Uma maneira de forçar o entendimento burlesco dos comentaristas bufões da Globo de que Lula não conseguirá transferir mais votos para sua candidata.

Mas fica também uma clara impressão de que a manipulação dos meios de comunicação será forte e que eles não se intimidarão. Ao contrário, mantém uma forte ofensiva na defesa do que eles chamam de “liberdade de expressão”. Percebe-se que essa tal liberdade tem o objetivo de desinformar o eleitor, a fim de assegurar que o candidato que a elite escolheu não seja visto como o anti-Lula. Liberdade para eles (a mídia) dizerem o que querem, de forma parcial, preconceituosa e manipuladora.

Há um medo, perceptível, a meu ver, de que a imagem do Lula possa ser associada à Dilma de forma tão forte que ela termine por vencer as eleições no primeiro turno.

Eis o medo da grande mídia. Certamente imaginam que a Dilma possa agir como Cristina Kirchner, e estabelecer limites para o poder dos grandes meios de comunicação. Bem que poderia ser assim. Espero que esse medo se realize.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

VAMOS SALVAR O PLANETA? COMECEMOS POR SALVAR AS PESSOAS.

Tenho debatido com alguns colegas, velhos amigos de longas e prazerosas jornadas de lutas, aquilo que nos dias atuais tem chamado as atenções no mundo, a par de uma infinidade de outros problemas sociais que nos cercam: as questões ambientais.
Em algumas discussões que participo, principalmente na universidade, tenho concordância com os argumentos postos na linha da defesa ambiental, em outros casos sinto uma irritação natural em função de toda uma trajetória de vida, de formação humanista e marxista. Percebo um radicalismo excessivo na defesa da natureza, e uma conformação, senão cumplicidade, quando se trata de abordarmos os problemas sociais, notadamente aqueles ligados à pobreza e à crescente marginalidade e violência que cercam as comunidades carentes. As questões são abordadas pelo lado puramente técnico, em detrimento do social.
Na medida em que a polêmica cresce, e sinto uma angústia diante de algumas ambiguidades – visto que tenho plena noção dos problemas ambientais, mas que não dizem respeito somente à natureza em si, mas à sociedade também (pois o ambiente comporta a natureza e seu entorno construído) – procuro questionar as razões que levaram alguns antigos defensores do socialismo a enveredarem pelos caminhos do radicalismo ambiental. Como se nada mais importasse no mundo senão o discurso verde, politicamente correto porque definido assim pela mídia, em detrimento de questões mais urgentes de serem resolvidas, para salvar os vivos que já nasceram e não conseguem viver condignamente.
Questiono, por exemplo, se vale a pena lutar pela natureza com tanta radicalidade, semelhante aos xiitas islâmicos, ou os fundamentalistas cristãos, se a vida humana concentrada em bolsões de misérias em cidades com milhões de habitantes, em sua maioria pobres e vivendo em periferias mal-cuidadas ou favelas, passam por um processo crescente de degradação moral, seja individual ou coletiva.
Claro que no aspecto da degradação essa não é uma condição posta apenas para os mais pobres. Há aí, contudo, uma distinção. A degradação entre os mais pobres se dá como decorrência das condições insalubres, miseráveis e deterioradas em que eles vivem.
No caso da classe média e da elite rica, essa degradação moral se dá como necessidade de se buscar, ou manter, uma vida marcada pelo individualismo, ganância e orgias, que se define como “hábitos modernos”, adequados ao novo século em que vivemos.
É a modernidade, cercada de aparatos sofisticados e tecnologias permanentemente superáveis, e por isso necessariamente supérfluas, pois precisam ser constantemente substituídas a fim de garantir a ostentação do luxo e dos prazeres modernos. E o lucro, claro!
No primeiro caso, romper com a miséria pressupõe ampliar o desenvolvimento econômico, garantir à população acesso a emprego e renda que possibilitem a essas pessoas viverem com o mínimo de dignidade possível. Mas não são poucos os investimentos que precisam ser feitos para atingir um patamar minimamente aceitável. O país, no caso específico, o Brasil, precisa produzir muito, ampliar sua capacidade industrial, avançar em conquistas tecnológicas e agregar valores aos produtos fabricados. Esse é somente o começo para diminuir as diferenças sociais gritantes.
No segundo caso, reduzir a lógica insana consumista, e a obsessão doentia pela riqueza a qualquer custo. O que pressupõe, naturalmente, uma alteração no estilo de vida e uma mudança dos hábitos culturais que implique rever valores que consideram natural as abissais diferenças sociais. 
Não seriam essas frutos de capacidades individuais, de superação, ou de ordem genéticas que definem competências e possibilidades de ascensão social mediante o “pedigree”. Nem o que se prega na explicação religiosa, fundada no sacrifício, para justificar a predestinação que atingiria alguns. À maioria fica reservado “o reino dos céus”. São os bem-aventurados que viverão no pós-morte o paraíso, sem os ricos, esses desalmados a purgar seus pecados nos paraísos terrenos.
Em um caso e no outro, não há a mínima hipótese de considerar “salvação”, considerando-se inclusive a necessidade de “salvar” a natureza, dentro dos limites que nos impõe a lógica do mundo capitalista.
Portanto, considero nula, hipócrita, oportunista e outros adjetivos semelhantes que encontrarmos, levantar bandeiras de defesa ambiental que não venham acompanhadas dos questionamentos sobre a maneira como funciona o modo de produção capitalista. Em miúdo: o que se faz é o puro discurso político (carregado de oportunismo e hipocrisia), sem aplicabilidade prática, porque no final sobrepõe-se os interesses das grandes corporações. Aos pequenos sobram as migalhas, embora muitos digam falar em seus nomes.
Não são os indivíduos, em si mesmos, responsáveis pelo quadro que o mundo vive. E não é somente a destruição da natureza. Listamos uma infinidade de outros problemas que afetam nossa vida, a começar pelo caos urbano, com os traçados de cidades definidos para atender à indústria automotiva e da construção civil. Grandes corporações que lucram absurdamente. E continuam lucrando com o discurso ecológico, “sustentável”.
A responsabilidade maior está nas condições de vida criadas a partir dos mecanismos que movem o sistema capitalismo. Ou superamos isso, e consequentemente alteramos nosso estilo de vida (do qual, ressalve-se, ninguém parece abrir mão), ou tentamos nos salvar do pântano puxando nossos próprios cabelos, ao estilo do nobre mentiroso Barão de Munchausen. Este, como se sabe, conta-se em suas memórias, salvou-se de um pântano trançando as pernas na barriga de seu cavalo e puxando com suas próprias mãos seus cabelos fortemente ao alto conseguiu içar a ambos.
Não se trata de menosprezar a destruição à natureza, que realmente acontece. Nem sobrepujar aqueles que honestamente preocupam-se com o ambiente em que vivemos, principalmente em prol da existência humana com dignidade. Mas de ressaltar as enormes contradições que cercam esse discurso, a necessidade de termos uma visão de totalidade e compreendermos o mundo complexo que construímos não em bilhões de anos, mas nos dois últimos séculos, principalmente. E para o bem, ou para o mal, há por trás de todos os problemas um nome: CAPITALISMO!
E na lógica que esse sistema nos impôs, é lícito lutar para que aqueles que vivem na miséria em decorrência das injustiças geradas pelo capitalismo, possam também superar suas dificuldades e ter acesso às tecnologias e produtos sofisticados, e a renda para poderem viver bem, se alimentar três vezes ao dia, ter saúde e dinheiro para divertirem-se, mesmo que seja nos shopíngs centers, templos do consumismo capitalista. Onde sempre nos encontramos, verdes ou vermelhos. É a contradição.
Ou, se não for assim, que sejamos honestos e lutemos pelo fim do capitalismo e pela  construção de um sistema em que seja possível falar de equilíbrio ambiental a partir de um equilíbrio social. Precisamos reinventar o socialismo.

Continuarei a tratar desse tema, sem necessariamente ser preciso citar novamente o ilustre Barão.

terça-feira, 13 de julho de 2010

SPY x SPY

Uma semana cheia, em função da correria para finalizar avaliações e lançar notas no sistema da UFG, criou dificuldades para atualização dos artigos que tenho postado neste blog.

Justo em uma semana quando o final da Copa trouxe de volta às manchetes escândalos, tragédias, crimes e, o começo oficial do processo eleitoral. Portanto assunto é o que não falta para polemizarmos, seguindo a linha que nos propusemos, de olhar além do discurso.

Mas outro assunto além dos que aqui listei, me chamou também a atenção. Pois me pareceu uma bem preparada encenação.

Para quem observa de forma criteriosa o tabuleiro de xadrez da política internacional não é novidade que a espionagem continua à solta. No entanto, a descoberta de uma rede de espionagem nos Estados Unidos e a pronta prisão de treze pessoas envolvidas, sob a acusação de buscarem informações para repassá-las à Rússia, pareceu mais uma comédia do que um roteiro do tipo “missão impossível”.

Não que não se deva levar a sério o fato, mas pela rapidez com que a diplomacia dos dois países buscou um acordo que possibilitou a troca dos espiões russos presos nos EUA, com outros que já estavam presos na Rússia, a serviço dos Estados Unidos, demonstra que tudo não passou de uma “trama” para justificar essa negociação.

Principalmente pelo fato dos dois presidentes terem se encontrado na Rússia, cerca de três dias antes da operação realizada, que levou às prisões. O encontro, inclusive, teve momentos de descontração entre os dois em uma lanchonete, enquanto comiam chessburgers. Segundo relatos da mídia, eles teriam se divertido fazendo ironias ao famoso “telefone vermelho”, e propondo a substituição pelo twitter.

Esse encontro, a piadinha - mais fria do que a guerra entre os dois que nunca aconteceu -, a rapidez com que a rede de espionagem foi desmontada e a célere troca de espiões(*), sugere que um acordo foi firmado para garantir a devolução dos agentes presos na Rússia. Ou seja, os espiões russos que estavam a trabalho nos EUA tornaram-se bodes expiatórios para a concretização da devolução dos 007 estadunidenses.

Se como dizia Carl Von Clausewitz, a guerra é somente a continuidade da política, percebe-se que a diplomacia entre os dois países estão bastante afinadas, a ponto de sacrificar seus próprios espiões. Resta saber o que está por trás de tudo isso.


(*) Sobre a troca dos espiões acessem: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2010/07/100709_espioes_russia_sexta_tp.shtml

(Charge acima retirada de: http://4.bp.blogspot.com/_9I6nqYuWqmA/SHygVRXQriI/AAAAAAAAC8A/j7-ONdZNrfk/s1600-h/spys_800x600.jpg)

segunda-feira, 5 de julho de 2010

INSTITUTO ANA CAROL JÁ É REALIDADE!

Eu havia publicado no post anterior que o próximo texto seria dedicado à minha filha. E será. Este, contudo, é um comunicado rápido para dar a notícia pela qual estamos batalhando há mais de um ano. O INSTITUTO ANA CAROL, organização da sociedade civil de direito público, enfim é uma entidade juridicamente reconhecida. Finalmente, depois muitas burocracias vencidas, foi criado o CNPJ do IAC.

Uma nova etapa se descortina a partir de agora. O Instituto Ana Carol foi criado com o intuito de desenvolver projetos sociais, eternizando o nome de uma pequena que tinha um coração enorme e uma simpatia que envolvia os que a conheciam. Um pouco da criança que ela era, um pouco de um jeito de ser construído pela convivência com boas amizades, bons vizinhos e uma família que a amava com todas as forças.

Pretendemos agora dar ao IAC um perfil que possibilite ser transformado em entidade de utilidade pública para facilitar a aprovação de projetos e a garantia de recursos que possam ser investidos em benefício da comunidade. A atenção principal estará voltada para atividades com crianças, jovens e mulheres. Há muito por fazer, pois são muitas as carências existentes em nossa sociedade.

De onde estiver nossa pequena Carol ficará orgulhosa. E, certamente, feliz com o esforço dedicado a isso por muitas pessoas, colaboradores e amigos. Principalmente por sua mãe, Celma Grace de Oliveira, liderança comunitária e presidente do Instituto, como também presidente da BORDANA (Cooperativa de Bordadeiras e de Produção Artesanal do Cerrado Goiano), criada com o mesmo objetivo do IAC, mas focado para geração de rendas para mulheres da comunidade do Conjunto Caiçara e adjacências.

(veja no blog:http://coopbordana.blogspot.com/) .

Ana Carolina Oliveira Campos, permanecerá presente nas ações solidárias do IAC e BORDANA. Contaremos sempre com o apoio e colaboração de amigos e voluntários que compreendam o objetivo de nosso gesto.

MINHA PEQUENA “WENDY”

(Escrito em abril de 2008. Reedito aqui novamente para aplacar a saudade. Nesse mês de outubro, o dia da criança faz aumentar a lembrança de minha filha. Essa crônica, que publiquei no livro que escrevi para ela, é uma das que mais vezes li e uma das que mais gosto.  Um beijo minha filha, aonde você estiver)
Estou a milhares de quilômetros de distância de casa. No momento em que aproveito para escrever essa crônica espero o horário do vôo que me levará para Salvador na área de alimentação do Aeroporto do Recife. Passei cinco dias na cidade de João Pessoa, participando da Conferência da Terra, um evento feito para discutir os problemas ambientais que afetam o planeta e afligem a humanidade. Muito embora, apesar de aflitas, as pessoas ainda resistem em mudar hábitos e rever a lógica da nossa sociedade, consumista e predadora da natureza.
É a primeira viagem que faço depois da morte da minha Carol. Desde antes de sair de casa eu ficava a me perguntar qual seria a minha reação diante de uma possível solidão que poderia me afetar e da preocupação em saber que não ficavam mais dois filhos com a mãe, agora, somente o Iago estava a lhe fazer companhia. Afinal, seria uma solidão também para ela, que ficaria em casa, ambiente onde por todos os lados estão presentes marcas da Carolina.
Como eu suspeitava por todo o tempo a lembrança da Carolina me acompanhou. O momento mais forte foi quando assisti a um belíssimo espetáculo da natureza: o pôr do sol na cidade da capital paraibana. Na verdade em uma das cidades da Grande João Pessoa, Cabedelo, na praia do Jacaré. Transformado em um verdadeiro ritual, para fins de atratividade turística, ao ritmo de uma ótima interpretação do Bolero de Ravel, por um artista local, saxofonista, o espetáculo é belíssimo, e atrai centenas de pessoas, turistas ou não, que se deleitam ao ver o sol desaparecer às 17 horas da tarde. Segundo os paraibanos é o lugar onde o sol nasce e se põe primeiro no Brasil, e isso parecer ter se tornado motivo de orgulho, bem aproveitado por um povo simpático e hospitaleiro e por uma cidade surpreendente em sua beleza.
Por opção da maneira de viver meu luto, tenho evitado ir a reuniões, principalmente festivas, a bares e lugares onde haja muita aglomeração, a não ser com meu filho e a Celma. Mas aceitei o convite de duas amigas que estavam participando do mesmo evento e fomos juntos ver aquilo que já se tornou uma das principais atrações turística de João Pessoa.
Não me arrependi. De fato é muito bonita a visão que temos das barracas colocadas às margens do rio Paraíba. Mas ficamos apenas o prazo de terminar a apresentação do bolero, já com o sol tendo descido por trás das águas. Depois fomos conhecer as demais barracas e lugares de vendas de artesanato, bijuterias e roupas, com destaque para bonitas confecções produzidas com algodão colorido, exclusividade dessas paragens, por enquanto, por ter a Embrapa sediado no Estado da Paraíba o projeto que possibilitou isso.
Esses momentos, da beleza do sol desaparecendo no poente, e de me deparar com uma enorme quantidade de barracas vendendo uma porção de objetos que eram as coisas que a Carol mais gostava de fazer me fizeram sentir uma forte saudade. Ao comprar algumas coisas para presentear Celma e Iago, vendo algumas roupas para garotas e aquele diversidade de artesanato, comecei a sentir uma profunda tristeza. A dor no peito, que às vezes aparece, parecendo que o coração está sendo comprimido voltou forte e me deixou abatido.
Saímos logo dali, e fomos procurar um bar próximo à praia, e de onde estávamos hospedados. Mas a angústia e a saudade cresciam dentro de mim, e me fazia querer falar da Carol, mas o que deveria ser um desabafo para mim, certamente era um assunto que minhas amigas não queriam prolongar. Fiquei então a observar ao meu redor, e por todos os lados eu via uma garota da idade da Carol. Num pequeno muro quebra-mar, fiquei observando alguns pais acompanhando suas filhas, um pouco mais novas do que ela e a lhes mostrar o mar e a lua que surgia por trás dele.
Lembrei-me de quantas vezes, em Salvador principalmente e Florianópolis, nos divertimos à beira do mar, e como num projetar de slides esses momentos vieram despertar a minha memória. Mas só me deixava mais triste. Lembrar da Carolina ainda me traz muita tristeza, mas sei que eu deveria me lembrar desses momentos com alegria, pois pude vivê-los intensamente e demonstrar por ela todo o meu amor.
Ao chegar ao hotel, e responder um e-mail da Celma, chorei profundamente enquanto escrevia e relatava a solidão que eu sentia naquele momento e a enorme saudade que eu sentia dela e do Iago, mas o que me fazia chorar e me deixava triste era a lembrança de minha pequena.
Nos dias seguintes, a companhia de novos colegas, conhecidos ali mesmo, amenizou esse meu sofrimento, sintoma de que até este momento não consigo viver a ausência da minha filha, buscando tê-la presente.
No aeroporto, como lá na praia, pude vê-la em cada menina que eu imaginasse ter mais ou menos a sua idade. E como parece ter se multiplicado a quantidade de garotas dessa idade desde que a Carol partiu. Por todos os lados elas parecem transmitir uma mensagem que tem como objetivo não deixar jamais que eu deixe de pensar nela, a cada momento, por qualquer lugar por onde eu estiver.
Em meio a essas lembranças pensei na Wendy, personagem da história do Peter Pan. Foi quando resolvi começar a escrever essa mensagem. Lembrei-me deles, personagens que marcaram a minha infância porque o fundamento da existência da Terra do Nunca era preservar para sempre o sentido de ser criança. Não crescer, recusar a tornar-se adulto, e manter vivas sempre as fantasias infantis. Pois assim será, com minha querida Carol, só poderei vê-la em seus dez aninhos infantis, por quanto tempo a vida passe para mim. Para nós, que a amamos tanto.
Vendo aquelas garotinhas a correr ali por todos os lados, plenas de inocências e alegrias, imaginei-me daqui a dez, vinte anos, se a morte permitir, a continuar lembrando-me da minha pequena Wendy, agora na Terra do Nunca, imortalizada em nossa memória nessa tenra e doce idade.

Quão saborosa é a infância, momento em que fantasiamos um mundo repleto de heróis, de ambientes construídos sempre de forma maniqueísta, numa eterna luta entre o bem e o mal, tal como nossos pais transmitem suas heranças culturais marcadas pela religiosidade. Peter Pan foi para mim um herói que lutava para manter nosso universo da fantasia, e a figura tragicômica do Capitão Gancho representava a perversidade e o comportamento abjeto dos que não compreendem o jeito pueril e aproveitam-se da inocência e fragilidade típicas dessa fase da vida.
Ter minha filha sempre criança como desejavam Wendy e Peter Pan, não me possibilita, por outro lado, sonhar com o seu mundo da adolescência. Isso já me jogou por vezes em outra situação, de observar as garotas com idade entre 15 e 16 anos e tentar construir uma imagem do que seria minha filha nesta idade. Fico pensando se ela manteria seus desejos fortemente representados em seus traços de desenhos, de ser uma estilista. Tanto ver aquelas garotas em seus dez anos, idade da Carol, e pensar que a verei para sempre assim em minhas lembranças, quanto projetar sua imagem de um futuro que não acontecerá, como adolescente, me faz acordar para a triste realidade de uma perda precoce que desconstruiu parte de meu futuro.
Melhor voltar à Terra do Nunca, e ver minha pequena Carol, como a Wendy, flutuando pelo uso do pó de pir-li-pim-pim, tendo ao seu lado a fada Sininho a iluminar o seu caminho. É assim, portanto, que a verei e procurarei tê-la sempre ao meu lado. Por isso as pessoas eternizam-se em nossa memória, sempre construímos para elas um universo que represente o que faria sentido em suas vidas, mesmo sendo um mundo repleto de lugares impossíveis.

Carol queria ser estilista, mas não se via como adulta, ela julgava já viver isso, desenhando, vestindo seu manequim quando queria criar um estilo, acompanhando todo o mês as novidades da moda, mesmo em revista para adulto, mas com olhar de criança. Brincando e se divertindo como toda criança de sua idade. É assim que a verei para sempre: minha pequena Wendy, minha eterna Carol.
(Publicado no livro DEPOIS QUE VOCÊ PARTIU, de minha autoria, em dezembro de 2008, um ano depois da morte da pequena Carol)

Vamos aprender a torcer com as crianças

Na sexta-feira, após o jogo da seleção brasileira saí de casa para aproveitar o tempo. Resolvi fazer compras, ritual que sigo toda semana como uma necessidade. Parecia um daqueles feriados prolongados. A diferença era que as pessoas estavam em Goiânia. A cidade não estava vazia. As pessoas, em suas casas, entristecidas, davam a dimensão do que se transforma o país, quando se cria uma expectativa nacional em que a vitória, no caso do futebol, passa a ser a condição da alegria, satisfação, orgulho de todo um povo.

Muito embora um povo “mal-acostumado”, para quem ganhar, sempre, é o que importa. Isso, potencializado pela maneira como a mídia trata o assunto, de forma, inclusive, a angariar audiência, criando um clima de tragédia, aumenta o sentimento de frustração. Cabisbaixos, saímos à busca dos culpados, precisamos de um, para torná-lo o “bode expiatório”, o “cristo”, sobre o qual descarregaremos nossa ira.

Esse ambiente de tristeza e frustração espalhava-se por todo o supermercado. Eu, mesmo tentando encarar o resultado de forma racional, também lamentei a derrota da seleção. Portanto me incorporei àquele sentimento coletivo. Mas as crianças, mesmo que influenciadas por nós adultos, tem um limite na euforia. Envolvem-se pela festa, mas se algo saiu errado, imediatamente elas recompõem-se e buscam outro pretexto para divertirem-se.

Até hoje, passados dois anos e sete meio da morte de milha filha, andar pelos corredores de supermercados ainda me traz fortes lembranças dela. Eram raras as vezes em que ela não me acompanhava. E, claro, as lembranças são carregadas de tristezas. Naquele dia, em meio à todo aquele lamento da derrota, triste como todos os brasileiros, e saudoso pela lembrança da minha filha, me vejo na fila do caixa tendo à minha frente uma garotinha, cuja idade não deveria ultrapassar os oito anos.

Serelepe, alegre, por todo o tempo chamando a atenção dos pais, como toda criança nessa idade, ela parecia não dar importância ao motivo por aquele dia triste.

Lembrei-me mais ainda de minha filha, e como sempre acontece nesses casos, é difícil segurar a emoção. Passa um filme pela minha cabeça. Me vejo diante dela, pois os gestos são parecidos, afinal, trata-se de uma criança.

Como disse no primeiro post que incluí nesse blog, uma das razões por eu tê-lo criado é para aliviar esse sentimento, extravasar minhas emoções, algo que sempre me habituei a fazer desde quando era estudante de segundo grau. Escrever sempre acalmou meus ânimos. Além de registrar momentos que são importantes em nossas vidas, como se assim eu pudesse materializar as minhas memórias.

Por isso esse texto é uma catarse, mais também uma introdução ao texto que postarei em seguida. Trata-se de um dos artigos que escrevi para o livro que dediquei à minha filha, publicado em dezembro de 2007, um ano depois de sua morte: DEPOIS QUE VOCÊ PARTIU.

Dentre todos os textos que ali escrevi, o que eu considero aquele que sempre me acompanhará pelo resto de minha vida, sem desmerecer os demais, é o que eu intitulei “Minha Pequena Wendy”. Na sexta-feira, em meio às lembranças e saudades de minha filha, amplificado por aquela frustração que não era somente minha, lembrei-me do que havia escrito um ano e meio atrás, e resolvi que iria colocar esse texto no blog. E assim o farei.

Espero que ao lê-lo as pessoas percebam o quanto de pureza as crianças carregam, e porque a humanidade depende, para ter justiça, tolerância e amor, de sabermos tratá-las com justiça, tolerância e amor. Repito, quase de forma redundante, para dar ênfase àquilo que, embora pareça óbvio, não é aplicado na prática em milhões de lares pelo mundo afora. As crianças, por serem frágeis, terminam sendo vítimas das neuroses de uma vida estressante que aflige as pessoas. São espancadas, abusadas, tratadas covardemente por quem deveria dar exemplos de bom comportamento.

Como incluí no prefácio de meu livro, muitas vezes elas “se transformam em instrumentos para conter neuroses e desabafos de pais ou outros tipos de parentes, que por vezes descontam toda sua ira de momentos ruins seja no trabalho ou no ambiente familiar, nos elementos mais frágeis. As crianças, impotentes diante da raiva de alguns adultos, tornam-se alvos e vítimas das agressividades e transtornos causados por uma sociedade que vive à beira do colapso”.

Às crianças, em nome de minha filha, dedico o próximo texto que publicarei aqui.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

GEOPOLÍTICA, NATUREZA, SOCIEDADE... E O CAPITAL!

Encerrei mais um ciclo de apresentação de trabalho dos meus alunos. Pretendo fazer uma análise deles, embora de forma sucinta. Foram mais de 20 grupos, distribuídos em três disciplinas: Natureza e Sociedade (Ciências Geoambientais); Geopolítica e Geografia Política (Geografia) e Crítica da Economia Política – O Capital Vol. III (Núcleo Livre). Pretendo abordar neste blog principalmente o conteúdo dos temas que tratamos, mas também a forma que escolhi para a apresentação desses trabalhos.

À exceção daqueles do núcleo livre, organizei e orientei os alunos para produzirem vídeos, inovando um pouco minha metodologia, tentando adequá-la às novas ferramentas tecnológicas. Ainda assim, sei que estamos aquém dos avanços obtidos pela informática nos últimos anos. É melhor falar nos últimos tempos, devido à rapidez com que isso acontece.

Vou começar falando do conteúdo apresentado na disciplina Natureza e Sociedade. O tema, claro, tem a ver com o programa da disciplina que aborda essa relação, ultimamente bastante em evidência, em decorrência dos sucessivos “eventos extremos”, expressão designada para identificar “comportamentos” exagerados na natureza. Os impactos desses descontroles, aparentemente causados por questões naturais, afetam sobremaneira as sociedades pela forma como o ser humano construiu seu habitat. Já tratei disso em um dos textos publicados no blog, e pretendo prosseguir na discussão (“Um novo fundamentalismo I”).

Utilizei como referência para as discussões, e posteriormente edição dos vídeos, o livro de Jared Diamonds, “Colapso”. Nele, o biogeógrafo norte-americano, nascido nos Estados Unidos e professor da Universidade da Califórnia, analisa como ao longo da história algumas sociedades lidaram com a relação ser humano-natureza.

Procurando entender os erros cometidos, que levaram ao colapso de algumas delas, bem como o sucesso obtido por outras poucas, Diamonds tenta encontrar respostas para os dilemas atuais das sociedades contemporâneas. Aliando conhecimentos geográficos, biológicos, geológicos e antropológicos, dentre outros, ele apresenta cinco pontos que seriam responsáveis pelas dificuldades do ser humano em lidar com a sustentabilidade na relação com a natureza:

1. dano ambiental; 2. Mudança climática; 3. vizinhança hostil; 4. Parceiros comerciais amistosos; e, 5. Respostas da sociedade aos seus problemas ambientais. (DIAMONDS, Jared. Colapso. São Paulo: Ed. Record, 2005)

Embora aparente alarmismo, até pelo título da obra, Diamonds é bastante criterioso em sua análise para identificar os problemas, mas eu diria que, por outro lado, otimista demais frente às possibilidades de sucesso a partir de intervenções equilibradas e responsáveis na busca por alternativas às ações destrutivas da sociedade humana.

Em oposição à essa visão Guillermo Foladori, em seu livro LIMITES DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL, afirma que somente com a substituição do sistema econômico capitalista, se poderá pensar em estabelecer novas relações com a natureza e buscar uma nova cultura que defina outro estilo de vida para o ser humano. Procurei fazer um contraponto entre essas duas opiniões, ao longo do semestre.

Os trabalhos feitos, em vídeos de meia-hora, demonstraram um amadorismo natural, visto que falta ainda experiência para lidar com esse novo formato de trabalho. Por outro lado mostrou como a internet ainda é usada também de forma amadora, e de como a própria tecnologia é mal utilizada por uma juventude que é a representação desses tempos de orkut, facebook, twitter e outros canais de expressão que virou moda para a geração atual - e também para alguns veteranos que ainda lembram-se do velho e muito usado mimeógrafo (provavelmente os jovens de hoje sequer tenham ouvido essa palavra, quiçá saber o que ela significa, e olhe que estou falando de algo bem recente no curso da história humana). Significa que essa geração lida apenas com o básico, o necessário para conversar e assistir vídeos.

Mas, apesar dessa análise um pouco rígida, para não fugir do meu estilo, o resultado foi altamente positivo. Que demonstra a existência nesses alunos de um potencial que devemos explorar com mais firmeza, embora isso os assuste. Tenho dito que a nós professores cabe a tarefa de explorarmos ao máximo a capacidade, às vezes inerte, de nossos alunos. Creio que quanto mais exijamos deles mais conseguiremos formar bons profissionais. É um desafio, que eu, particularmente, encaro sem receio que eles me demonizem. Afinal, como não acredito em demônios não me preocupo com isso. Sei que depois os mais dedicados agradecerão. Os insatisfeitos certamente aprenderão também, mas esses demorarão mais tempo para compreender que certas oportunidades não se repetem. Ainda assim não será tarde para agradecer às impertinências do mestre.

Finalizei as aulas com um documentário que também recomendo a todos: HOME – NOSSO PLANETA, NOSSA CASA. Com belíssimas imagens, sempre filmadas do alto, de mais de 50 países, e um texto muito bem articulado, este documentário bem que poderia ser visto como a síntese do que Diamonds aborda em seu livro, muito embora os dois trabalhos não tenham conexão. Pelo menos não que eu saiba.

O documentário, produzido pelo fotógrafo e ambientalista francês Yann Arthus-Bertrand, está com livre acesso, inclusive para download no site, http://www.home-2009.com , ou em partes no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=uf8Nt759-y0&feature=player_embedded. Mas também já pode ser encontrado em DVD nas locadoras.

Volto depois para falar sobre os demais trabalhos apresentados, com os clássicos da Geopolítica e do Núcleo de Estudos de O Capital.