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segunda-feira, 12 de junho de 2023

AS JORNADAS DE JUNHO ERAM PREVISÍVEIS E AS CONSEQUENCIAS PODERIAM TER SIDO OUTRAS

ESTAVA ESCRITO NAS ESTRELAS

A mudança radical na política brasileira, que nos jogou em uma crise profunda, com a ascensão de personagens políticos que imaginávamos sepultados com o fim da ditadura militar e pela “Nova República”, não se deu repentinamente. Ela se seguiu a uma série de mudanças que já vinham acontecendo por diversas partes do mundo. Os movimentos dos “Indignados”, “Occupy”, e aqui no Brasil com as “Não é por 20 Cents” e “Não vai ter copa” refletiam os rumos de uma crise que já acontecia desde a virada do século XX para o XXI, atingindo o seu ápice com a chamada crise econômica em 2008, que se prolonga até os dias atuais, entre altos e baixos da economia mundial.

A mudança de estratégia dos EUA, para combater seus desafetos, com a eliminação seletiva via uso de drones para assassinar suspeitos de serem terroristas; e o advento das “guerras híbridas”, como táticas desconcertantes de desequilíbrios geopolíticos e intervenção indireta nas políticas de determinados países, a fim de derrubar governos que fossem considerados ameaças aos interesses do império, mantiveram o mundo sob tensão, até explodir em guerras como na Síria e na Ucrânia.

Resgato aqui, com links para acesso a artigos publicados no Blog Gramática do Mundo, os vários momentos em que, acompanhando pela geopolítica todas essas transformações, procurei indicar as crises que nos cercavam, e até mesmo arriscar em projeções sobre os rumos que estavam tomando o mundo, e, em especial, no nosso país. Posso dizer, com tranquilidade, que acertei no vaticínio sobre algumas das consequências que estavam por vir.

É dessa maneira que me manifesto nesse 13 de junho de 2023, quando se completam dez anos das JORNADAS DE JUNHO. Acrescento que a ascensão da extrema-direita se deu muito mais por negligência e extremo sectarismo e esquerdismo da esquerda e da chamada esquerda radical, do que pela competência de personagens e grupos até aquele momento invisibilizados.

A onda que se seguiu às manifestações de junho de 2023, foi também impulsionada pela cobertura midiática não meramente contemplativa, mas bastante ativa e a partir de 2014 praticamente protagonista na frente de propaganda, a fim de ampliar o poder da multidão com o intuito de derrubar o governo de Dilma Rousseff, alçando a condição de lideranças personagens saídos dos subterrâneos da política, outsiders, ou políticos inexpressivos, mas porta-vozes dos indignados, ressentidos, frustrados e alienados, cuja cultura política se expressa pelo seguidismo expresso nos votos de currais e na influência de púlpitos de igrejas que os transformam em rebanhos servis e ignorantes da realidade e do mundo objetivo.

Mas o resultado não foi como o planejado. A tentativa de impor um derrotado na condução do país, a partir de 2015, que culminou no impeachment de uma presidenta legitimamente eleita e sem culpa grave que a condenasse, no que se constituiu em um golpe institucional, falhou. E, após um governo desastrado de um vice golpista, a ascensão da extrema-direita fugiu de todos os roteiros planejados pela centro-direita com forte apoio midiático: o tiro saiu pela culatra. Mas os derrotados fomos todos nós, brasileiros e brasileiras, que amargamos dez anos de uma crise fabricada a fim de retirar o Brasil de uma rota que era diferente daquela que tradicionalmente o país vinha seguindo desde os seus primórdios. Embora tendo retornado Lula á presidência, depois de situações inusitadas e de idas e vindas, perdemos um tempo considerável em meio a destruição de toda uma estrutura de estado que favorecia às camadas mais fragilizadas da sociedade. Reconstruir tudo isso não será fácil, porque se criou uma polarização política nefasta, e os embates se dão com base em mentiras e ataques mesquinhos e perversos, dividindo de forma sectária a sociedade brasileira.

Mas a história está aí, para não deixar esquecer por quais caminhos trilhamos e por quais erros nos guiamos até chegarmos aos dias atuais. Precisamos lembrar, sempre, do nosso passado, para evitar repetir erros que são cruciais para nossas vidas.

 

INDIGNADOS! PARA QUAL DIREÇÃO SEGUEM AS MUDANÇAS?

Novembro de 2011

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2011/11/indignados-para-qual-direcao-seguem-as.html

Infelizmente, a revolta das pessoas decorrente de situações reais, de dificuldades que lhes afetam diretamente, ao não se traduzir em transformações imediatas (o que é praticamente impossível), criam desesperanças e jogam nas ruas milhares de pessoas sem a verdadeira percepção de como as estruturas do Estado funcionam. (...)

Mas há um reverso nessa história, e talvez seja o pior resultado. A possibilidade de esse descontentamento ser absorvido por grupos e partidos conservadores, à espreita do crescimento da desesperança que se seguirá à frustração inevitável daqueles que se entregam aos protestos, ao não verem resultados concretos nas suas revoltas.

 

INFORMAÇÕES ABSTRATAS CONSTROEM REALIDADES VIRTUAIS

Novembro de 2011

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2011/11/informacoes-abstratas-constroem.html

Tenho repetido sempre, seguindo o mestre Milton Santos, que a informação é carregada de ideologia e nos tempos atuais cumprem mais o objetivo de desinformar, do que propriamente criar uma consciência a respeito de sua complexidade, de forma a levar o indivíduo a refletir e a pensar, construindo hipóteses, dúvidas, que o levem a um questionamento capaz de construir novas ideias que possam mudar o mundo positivamente.

Infelizmente, a Universidade nos últimos anos somente replicou a lógica demandada pela dita globalização, ou mundialização como querem os franceses. Seguindo-se aos interesses do mercado, numa pressa espetacular para garantir mão de obra nas novas conformações do trabalho criadas mundo adentro, fragmentou-se em uma infinidade de especializações, reduzindo a capacidade da juventude (já representada nos dias de hoje nos profissionais que assumiram seus postos, em muitos casos inexistentes há pouco mais de uma década) de pensar, criar, que não fosse dentro da lógica capitalista da ampliação de seus ganhos.

Empobrecido nessa capacidade inventiva, não de construir novos caminhos da lógica capitalista, mas de novas ideias que possam tornar o mundo mais racional e humano, cede-se o espaço para uma perigosa situação. Num mundo de acesso fácil à informação, pouco assimilada, mas imediatamente incorporada à sua visão de mundo, cada indivíduo julga-se, ou melhor julga pelo que recebe de informações, capaz de opinar sobre tudo e a estabelecer juízos de valores sobre fatos que se apresentam de maneira abstrata, ou que são construídos para tornarem-se instrumentais ideológicos capazes de tornar-se uma verdade absoluta. Nada de mais, pelo contrário, se esse conhecimento não fosse construído de maneira superficial.

As redes sociais potencializam isso e transformam-se, elas também, em instrumentos que aceleram o processo, devido à rapidez com que essas informações circulam para milhares de pessoas em um curto espaço de tempo. Mal recebe a informação e ela é imediatamente repassada, sem processá-la e analisá-la, mas por envolver muitas vezes temas que são facilmente aceitos, ou pela polêmica que carregam, ou por situar-se no âmbito dos agrados ou desagrados que marcam o cotidiano daquela pessoa.

E assim, num mundo de verdades virtuais e de informações abstratas, muitas vezes falsas, ou construídas em uma versão ideológica, do interesse de quem as produz e as difunde nos submetemos a uma espécie de tribunal tridimensional, onde fato, verdade e versão, se confundem e transformam nossas vidas em uma mera ficção hollywoodiana.

Abre-se dessa forma, no vazio de ideias consistentes e inovadoras, um largo caminho para a fascistização da sociedade, com a ampliação de situações que demonstram acentuado grau de intolerância com o outro, com as diferenças, com os limites que existem nas relações em sociedade, de respeito mútuo e de aceitação das contradições como elementos que são somatórios na diversidade que constituem nossa humanidade.

 

AS ORIGENS DA INTOLERÂNCIA E O FASCISMO MODERNO

Março de 2012

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2012/03/as-origens-da-intolerancia-e-o-fascismo.html

O fascismo moderno, enfim, não aparece espontaneamente na cabeça de jovens. É fruto de teorias preconceituosas e de instrumentos sociais que criam e reforçam valores que se baseiam na intolerância, na não aceitação das diferenças, e na liberdade de as pessoas definirem suas opções sexuais. Como na atitude bizonha e estúpida de um deputado pastor que pretende criar medidas que desfaçam a opção sexual de gays.

Tudo isso faz parte de dogmas que permanecem sendo instigados de forma instrumental em templos, tabernáculos, igrejas e mesquitas de todo o mundo, muito embora não se constitua em regra geral nem tenha relação com a fé individual, de cada pessoa, com sua legítima crença e liberdade de acreditar no que lhe convier.

São teorias também que fundamentam programas partidários que representam setores econômicos dominantes e a classe média alta, mas que pelo reforço ideológico religioso dissemina-se indistintamente por todas as demais classes sociais, apontam para perigosos caminhos, e se refletem de forma mais agressivas em alguns países, mas tendem a se expandir na medida do crescimento da crise econômica.

 

AS CRISES E A DESCONSTRUÇÃO DA POLÍTICA

Maio de 2012

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2012/05/as-crises-e-desconstrucao-da-politica.html

Vivemos, assim, um momento de profundas contradições. Crise econômica nos Estados Unidos e Europa que potencializa situações em que a intolerância desperta as frustrações e o desespero pela falta de emprego e de perspectivas futuras, e aqui no Brasil, onde economicamente passamos por um período de expansão e crescimento, mas cujas delinquências políticas, tradicionalmente ainda vigorando, nos mantém tensos e incertos quanto ao nosso futuro. Ou a dúvida sobre quem será beneficiado com todo esse crescimento.

E, no meio de tudo isso, a necessidade de estarmos vigilante, principalmente aqueles que conhecem o processo histórico e os exemplos de situações parecidas que levaram a humanidade para rumos indigestos, e buscarmos o convencimento das pessoas de que não é banindo a política que esses problemas serão corrigidos.

Só haverá saída no âmbito da própria política. E é sempre assim, mesmo que no advento de um processo revolucionário. Sair dele será também um exercício de apaziguamento das diferenças e de acordos selados pela política. O que as pessoas não podem abdicar é da capacidade de discernir o joio do trigo na escolha de quem irá lhe representar nos parlamentos ou na condução das administrações públicas.

Recusar-se a essas escolhas, motivado pela desesperança e incentivados por quem queira se aproveitar desse momento em aventuras abstratas, só irá beneficiar quem tem a riqueza, afasta mais ainda os trabalhadores da vida política e nos mantém reféns de nossos próprios vícios.

Ao mesmo tempo, é essencial compreender que a solução definitiva para esses males passa necessariamente pelo combate a um sistema que tem na ganância e na usura a base de suas transformações. Enquanto a cultura que prevalecer na sociedade for aquela onde o consumismo é o motor a motivar as pessoas, a individualmente buscarem formas de serem felizes tentando alcançar um estilo de vida individualista, egoísta e que sempre exige o esforço em busca de cada vez mais dinheiro, dificilmente poderemos acreditar que as gerações futuras terão um ambiente mais saudável e honesto para viverem.

 

O OVO DA SERPENTE – A pós-política e o perigo dos três efes: fakes, farsantes e fascistas

Julho de 2012

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2012/07/o-ovo-da-serpente.html

Mas o que me viria a me surpreender, por todo esse tempo de virtualidade digital seria a virulência dos embates, oriundos principalmente de pessoas identificadas com grupos aparentemente de esquerda. Além dos inconformados conservadores, contrariados com as recentes mudanças políticas no Brasil.

Passei a observar tais comportamentos, e até mesmo em algumas situações o grau de agressividade e de ofensas destiladas atingiu níveis preocupantes, me alertando para buscar explicações em uma nova realidade que teve início em conflitos que marcaram um novo estilo de luta da juventude por vários países, denominado “indignai-vos”. Na esteira da crise capitalista que se estende desde quando as torres gêmeas foram postas ao chão, em 2001, cujo epicentro se deu em 2008 com a quebra de inúmeras instituições financeiras na sequência de uma grave crise no mercado imobiliário estadunidense, até o momento atual, com uma crise imprevisível na Europa e do capitalismo de uma maneira geral.

A partir de uma situação concreta, particular, e as observações que as minhas aulas de geopolítica me impunham, fui construindo algumas ideias a respeito dos tempos atuais. Na junção das lembranças das elaborações de Milton Santos, das leituras dos últimos textos de Eric Hobsbawm, e, obviamente, da dialética marxista, fui me convencendo que vivemos uma época de transição, de um possível esgotamento do sistema capitalista. Mas, como já alertava Gramsci, o perigo está quando o novo demora em chegar e o velho resiste em desaparecer. Se não há a perspectiva de saídas revolucionárias, que possam dar um novo rumo à sociedade mediante a existência de uma vanguarda devidamente organizada, outros mecanismos certamente despontarão, a exemplo de como se deu o surgimento do nazi-fascismo, nas décadas de 1930-40, e prolongarão a agonia sistêmica.

***

Além disso, por não possuírem elementos ideológicos que lhes garanta organicidade, alguns desses movimentos não somente atacam os partidos políticos, mas escolhem aqueles que são forjados ideologicamente, e destilam injustos ódios que com o tempo transformam-se em comportamentos intolerantes. Parece haver uma necessidade de se destruir as ideologias dos que as têm. Mas como não há espaços para discussões, pela ausência delas diante de um pragmatismo imediatista, a agressividade passa a se constituir na arma aparentemente eficaz para fazer valer seus objetivos.

Ocorre que na sequência de comportamentos que vão se tornando cada vez mais intolerantes, amplia-se a virulência das agressões, e o que se vê é a repetição de atos que nos fazem lembrar a maneira como o nazismo e o fascismo despontaram logo na sequência da crise econômica da terceira década do século passado.

A alienação de uma juventude forjada em tempos de uma globalização neoliberal, a destruição dos laços familiares, a individualidade crescente, a busca egoística pelo sucesso a qualquer custo, e a ampliação de valores teológicos que substanciam tudo isso, denominada teoria da prosperidade, compõem um conjunto de circunstâncias que explicam os tempos de negação da ideologia. Mas não somente isso. Agregue-se, contraditoriamente, a falta de informação em um tempo em que as ferramentas tecnológicas facilitam a aproximação com o que acontece em todas as partes do mundo. Mas são essas mesmas ferramentas, que explicam, para o bem e para o mal, o distanciamento de leituras mais complexas, filosóficas, optando-se por um cartesianismo vulgar, porque fruto de toda a confusão gerada pela sociedade midiática neoliberal, e pela informação deformada, apolítica e baseada na espetacularização do medo. O que os empurram para leituras alienantes, bizarras e de auto-ajuda.

A radicalidade de alguns desses comportamentos foram potencializados pelas redes sociais, criando uma coragem peculiar a alguns jovens, situação que não aconteceria em plano real, pela absoluta falta de backgrounds, consequência do distanciamento teórico e da ausência de fundamentos a lhes garantir segurança para um embate ideológico.

O que se vê, então, é o destilar de ódios a todos aqueles que porventura pensem diferentes, discordem e confrontem seus pensamentos e práticas. Semelhante ao que aconteceu na ascensão do fascismo tradicional, aquele que no período de crise sistêmica parecida com a que vivemos nos dias atuais, despontou a partir de comportamentos críticos, de suportes garantidos pelas insatisfações e indignação de populações que viviam momentos de dificuldades econômicas graves. Também naquele momento, os jovens tornaram-se alvos potenciais de lideranças emergentes, pela insatisfação com uma época que não lhes ofereciam perspectivas. E alimentados pela intolerância, visaram também os comunistas, que ameaçavam ideologicamente a elite dominante, fracassada desde o final da primeira guerra mundial. A negação da política instrumentalizou uma reação conservadora.

Alguns daqueles que usam das redes sociais para agirem de maneira desrespeitosa não o fazem de maneira explícita, mas escondem-se em perfis falsos, prática criminosa que tem se tornado comum, principalmente no Facebook. Ou senão, omitem de seus perfis informações que possam identificá-los e apresentam desenhos, ou charges, em lugares de fotos que os reconheçam.

Não é essa uma prática somente desses grupos, mas pude identificá-las também sendo utilizada por jornalistas de blogs conservadores, de jornais, tabloides e revistas, que postam suas matérias para serem repercutidas, e que, ao serem criticados acionam seus fakes, que agem agressivamente, ofendem o interlocutor e tentam desqualificá-lo. Assim como fazem alguns desses farsantes, anonimamente, em comentários agressivos nos blogs que tem defendidos os últimos governos no Brasil e teçam criticas aos partidos conservadores.

Ao fim de tudo, esses comportamentos tornaram-se bem visíveis no desencadear da greve na universidade. Comportamentos sectários, violentos e intolerantes, traduzem um sentimento comum à época do fascismo, de não aceitação das diferenças, de negação do pensamento oposto e da reação intempestiva e agressiva na imposição de um pensamento ou de uma determinada prática. Não sei se surpreende, mas é lamentável, o fato de juntarem-se a esse coro intolerante alguns professores, que obviamente se desqualificam enquanto educadores. Mas suas posturas indicam que eles pouco se importam com isso, a inconsequência é uma marca que lhes acompanham e a intolerância um traço de caráter.

E, não surpreendente, grupelhos de extrema-esquerda, setores anárquicos despolitizados e contumazes direitistas, se irmanaram no mesmo comportamento. Mas tudo isso deve servir de alerta aos que defendem uma sociedade baseada na tolerância, no respeito às diversidades e na aceitação de ideias que se contraponham. Considerando-se o momento de crise econômica mundial, do xenofobismo e da intolerância religiosa, vivemos circunstâncias bastante parecidas com o que ocorreu no século XX. O fascismo e o nazismo ascenderam mediante a insatisfação popular, e se consolidaram com um discurso baseado no moralismo hipócrita, no anticomunismo e na descrença com as organizações políticas.

 

A FÚRIA: O DESPERTAR DA MULTIDÃO, OU A REVOLTA DE UM INCONSCIENTE COLETIVO?

FRAGMENTOS DE UM OLHAR SOBRE A MULTIDÃO

Junho de 2013

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2013/06/fragmentosde-um-olhar-sobre-multidao-eu_22.html

Eu acompanho essas manifestações há mais de dez anos. Claro, ao longe, como estudioso de geopolítica. A maior delas, ou uma das mais importantes, foi em 1999, durante uma reunião da OMC e gerou um filme chamado "A batalha de Seattle". Já escrevi sobre isso no meu blog (http://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2011/11/indignados-para-qual-direcao-seguem-as.html). Há diversas demandas, revoltas represadas, reivindicações justas. Mas nada disso será possível de ser mudado sem organização. As vozes das ruas, da multidão, criam motivações, e até mesmo uma empolgação exagerada, principalmente na juventude, cuja adrenalina explode e os empurra com força para o embate. É natural e importante que isso aconteça. Mas o que virá depois disso depende da política (ou da guerra, quando fracassa a política, mas aí sabemos as consequências). A multidão tem sido protagonista desde o final do século XX, com grandes protestos antiglobalização, e depois, com a intensificação da crise, na chamada “primavera Árabe”. Os resultados de tudo isso ainda está por vir, mas nos países onde ocorreram houve retrocesso na condução política.

 

 

SOBRE MÁSCARAS, VIOLÊNCIAS E O DIREITO DE SE MANIFESTAR

Fevereiro de 2014

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2014/02/nihil-humani-me-alienum-puto.html

Ao não desejarem participar de organizações de caráter político, e abominarem os partidos políticos, mesmo os que se intitulam revolucionários e socialistas ou comunistas, esses manifestantes deixam de analisar a conjuntura política com base em fatos concretos e na realidade objetiva. Novas "realidades" são perversamente construídas por outros setores da política, que se beneficiam com esses comportamentos, o que leva a fortalecer a indústria do medo, e a exigência de governos fortes, militarizados e com uma base de parlamentares mais conservadores.

Não há dúvidas de que há infiltração nessas manifestações. Tanto por organizações políticas, que temem se apresentar abertamente por medo das reações dos “Black blocs” e visam também “recrutar” novos militantes entre aquela juventude, como por setores fascistas, tipos provocadores que desde aquele momento por mim citado anteriormente, na década de 1980, já se infiltravam em nosso meio. Policiais ou não. Por motivos diferentes esses setores objetivam criar os confrontos para gerar desgaste nos governos, de tal forma que os possam debilitar. O uso da violência, no caso, como mecanismo de se contrapor à repressão policial assume um verniz diferente nos dois casos, mas o resultado é desastroso de qualquer jeito. Principalmente quando o personagem culpado desse tipo de ato não é um indivíduo vinculado às forças repressoras, porventura infiltrado. O que dá margem para a mídia conservadora enfatizar no seu discurso de um ambiente dominado pela insegurança e anarquia.

Não tenham dúvidas de que o principal discurso nas próximas campanhas eleitorais será esse. Dominados pelo medo, que cotidianamente entra em suas casas pelos canais de TV, ou pela própria realidade que as cercam, as pessoas tendem a sucumbir à repetição constante desse discurso, e corremos o risco de ver a eleição de um parlamento muito mais conservador do que o atual.

Esse poderá ser o resultado de atos inconsequentes e irresponsáveis, movidos por um voluntarismo tolo, e a demonstração de atos de estupidez como se fossem atitudes libertárias e revolucionárias. Em um novo tipo de ludismo pós-moderno que está mais para os atos de cegueira atestado por José Saramago.

As máscaras que assumem as frentes dessas manifestações escondem jovens desprovidos de capacidade política para entender os mecanismos que movem a sociedade. Ou meros provocadores desejosos de reeditar aqui no Brasil os mesmos gestos fascistas de 50 anos atrás, quando um golpe militar foi dado com o argumento de pôr fim à baderna, à desordem e a comunização do país

 

FAKES, FALSÁRIOS E FASCISTAS: COMO DESPERTAR O LADO SOMBRIO DAS PESSOAS

Maio de 2014

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2014/05/fakes-falsarios-e-fascistas-como.html

A desinformação, a preguiça de ir atrás da veracidade daquilo que está sendo divulgado, aliado à alienação peculiar, facilita a adoção desses mecanismos manipuladores, que repetidos à exaustão assume ares de verdades insofismáveis. Quando, em verdade, e realmente, são situações determinadas e localizadas, sem representar, como se apregoa, o declínio da civilização contemporânea, ou algo que o valha. Prato cheio para oportunistas, fascistas e para aqueles que desejam convencer as pessoas a ingressarem no mundo da ficção religiosa, de seitas que se deleitam com a desesperança e com o medo das pessoas.

Repercuti em minha página pessoal no Facebook essa percepção, e aqui a reproduzo.

Estou impressionado com a quantidade de pessoas que estão compartilhando postagens produzidas por páginas organizadas por "fakes". Matérias falsas, ou propagandas subliminares, são repercutidas sem que haja um mínimo de averiguação sobre a origem das notícias, em sua maioria, falsas. Algumas são boatos, e boa parte deturpações de notícias antigas. E o que é pior, muitos que repercutem isso estão na universidade ou tem curso superior. Por causa desse comportamento uma dona de casa foi linchada e assassinada em Guarujá, SP. Fico em dúvida se é desinformação, alienação, oportunismo ou má fé mesmo.

Vivemos, um tempo, de potencialidades de práticas antigas, mescladas com ares de modernidade tecnológica. O boato se dissemina virtualmente, e organiza em júbilo antros de acusadores odiosos, mas seu prólogo acontece nas formas tradicionais, da violência estúpida em grupo, nos justiceiros que assumem o papel de juízes, júri e carrascos. Sob os argumentos de ausências de autoridades, mas diante de situações que são reais, como o descontrole do aparato repressivo e a agressividade de um setor cada vez mais sob pressão: as polícias militares. Sob o medo, seduzido por ele e manipulado por outros, a multidão torna-se instrumento daqueles interesses que não se apresentam perceptivelmente.

Nas sombras, escondem-se os reais interesses, de grupos que disputam avidamente o poder político e desejam concentrar cada vez mais o poder econômico. Instigam e aproveitam-se dessas situações, para afinal dar o bote sobre as carcaças de uma sociedade onde as pessoas não se veem nela, mas apenas os outros. Nesse momento surgem os reformadores do caos, os mesmos, aqueles que por décadas e séculos controlam as riquezas, concentram rendas e constroem mundos partidos, sectarizados, mas que vivem protegidos em muralhas repetindo-se, sob novas conformações, mundos antigos e medievais. E as massas, como sempre, cumprem bem o papel de massa de manobra. Com o perdão da redundância.

 

DEPOIS DE UMA TRAGÉDIA COMO CONTER A DESTEMPERANÇA E O MESSIANISMO?

Agosto de 2014

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2014/08/depois-de-uma-tragedia-como-conter.html

O que faltou, portanto, ao governo brasileiro foi apresentar para a população, e à juventude, durante todos esses anos, principalmente depois das jornadas populares de junho de 2013, as distinções entre os projetos políticos que estão em disputa. E encarar com mais determinação as contradições que lhes cercam. Temo que isso sendo feito agora possa dar a impressão de que é devido à disputa eleitoral.

Ademais, como já tenho inserido em alguns artigos, mesmo com um ímpeto oposicionista, tentando algo mais à esquerda do que o governo atual, essa juventude se encaminha para uma armadilha, na escolha de uma, ou duas, candidaturas que escondem seus objetivos, definidos seja pelas opções liberais, ou pelo fundamentalismo religioso conservador. A ilusão do discurso eleitoral, a ânsia de transformação por não conseguir enxergar a continuidade das mudanças, ou porque ficaram refratários a elas pela massificação ideológica midiática, fará com que essa juventude, e aqueles que se encontravam na posição de indefinição, seja levado pela comoção de um trágico acidente, pela ineficiência da propaganda governamental e pelo discurso messiânico. Situação que seja aqui no Brasil, seja em qualquer parte do mundo, sempre trás futuros dissabores quando da descoberta da fraude eleitoral (como foi no caso Collor; ou no Egito recente), causando crises de proporções desconhecidas, levando o país ao caos e ao retrocesso econômico. Nessas condições, as camadas mais pobres, percentual maior da população, e principal beneficiada pelas conquistas dos últimos 12 anos, será a mais afetada, retroagindo aos tempos em que a política brasileira privilegiava somente medidas do agrado das elites econômicas das camadas sociais abastadas.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

O DESPERTAR DAS BESTAS... (2ª PARTE)


Em 2016 publiquei um artigo aqui neste blog,[i] em que analisei o quadro político daquele momento, as instabilidades geopolíticas e tracei um desenrolar dos acontecimentos em direção a uma situação sombria para os anos seguintes. Procurei entender como a direita ascendeu tão rapidamente e os mecanismos adotados para aplicar o golpe e levar ao Poder a figura nefasta de Michel Temer. Mas também já havia identificado, e coloco isso no artigo, os movimentos trilhados por um personagem que por muito tempo, inclusive nos governos da esquerda, transitou livremente, adotando comportamentos fascistas e provocando com discursos e gestos as ações que eram feitas para resgatar a história pérfida de torturadores e criminosos durante a ditadura militar brasileira
O gabinete dessa figura torpe era a comprovação de que ali se instalava mais do que um indivíduo provocador, mas um elemento altamente nocivo para a democracia, que deveria ter sido cassado por seu comportamento. Lembro de ver, não somente em foto, mas percorrendo os corredores do Anexo IV da Câmara dos Deputados, um gabinete em que ostentava não somente a imagem dos ditadores militares brasileiros, como também ofendia os militantes de esquerda assassinados naqueles tempos tenebrosos. E um cartaz causava náusea, indicando provocativamente que quem procura osso é cachorro, numa relação ofensiva e macabra com os familiares dos militantes que procuravam resposta para os restos mortais daqueles que foram torturados e assassinados no combate ao movimento guerrilheiro do Araguaia.
Nada foi feito contra esse indivíduo, e ele se fortaleceu na medida em que se enraizava um ódio construído pela grande mídia contra o governo Dilma e o receio que depois dela viesse mais dois governos Lula. Deixar impune um defensor do fascismo e de torturadores, foi um erro imperdoável. Outro foi acreditar em uma possível redenção da burguesia urbana e dos latifundiários, e a aceitação da permanência da esquerda no Poder por quanto tempo a “democracia” permitisse. A elite, a burguesia rural e urbana, os “bem-nascidos”, não são democratas, a não ser nos limites permitidos pela “democracia capitalista”, logicamente desde que o Poder político não se afaste de suas mãos por não mais do que duas eleições. Mais do que isso os golpes são tradição que jamais deveriam ter sido negligenciados pela esquerda.
Mas, embora de relance eu tenha observado um movimento que se encaminhava para a periferia e já estava consolidado na classe média, a expansão do neopentecostalismo evangélico, não consegui observar atentamente e descobrir a dimensão do que estava acontecendo. Em relação à classe média sim, era nítido e perceptível pelos grandes templos luxuosos evangélicos construídos em bairros nobres das capitais.
No entanto, a disseminação de pequenas igrejas, iniciadas como “células” (ironicamente o adjetivo/substantivo que dávamos às nossas organizações de base quando atuávamos no movimento estudantil e militávamos clandestinamente) em alguns casos, ou como consequência das dissenções que ocorrem com frequência nesses grupos que faziam com que se espalhassem pelas periferias. Registre-se que de certa forma empoderadas politicamente, já que muitos de seus pastores-líderes, ou a cúpula que dominava o movimento evangélico, e se organizam em diversas associações, apoiaram ou fizeram parte dos governos da esquerda e após o golpe se tornaram mais fortes ainda, já que se tornaram base importante para derrubar a presidenta Dilma Roussef.
A conversão oportunista de Bolsonaro, justamente naquele ano de 2016, representava então uma estratégia adotada por integrantes do PSC – Partido Social Cristão, principalmente o pastor Everaldo, que havia sido candidato à presidência da República. Mas o perfil de Bolsonaro não indicava nenhuma fidelidade a este ou aquele líder evangélico, ele transitaria por todas as igrejas dessa linha cristã, e soube se aproveitar bem da cegueira de seus fiéis para despejar seu ódio ao sabor das disputas bíblicas, mas unindo “hebreus, filisteus, fariseus e seduceus” (me sirvo aqui de metáforas, naturalmente). Conseguindo até nessa loucura pérfida cristã, pelo discurso reacionário, ultrajante e odiento que representa o “mito”, envolver os grupos mais conservadores da igreja católica, dentre os quais o mais importante: renovação carismática católica.
Mas, o uso do adjetivo no primeiro artigo individualizava o termo, e tinha somente um único sentido, aquele dado na identificação religiosa com o “coisa ruim”. Besta no imaginário cristão é a representação demoníaca. Mas neste eu insiro o plural a fim de ampliar o seu sentido, principalmente depois do efeito manada na última eleição, com a surpreendente escolha eleitoral por um indivíduo cujo comportamento e discurso é completamente oposto ao sentido que sempre foi dado pelo cristianismo. Neste caso, o sentido de “besta” se enquadra também no adjetivo muito usado em diversas regiões do Brasil, identificando as pessoas tolas, bocós, ignorantes, e... estúpidas.
No quadro de uma população majoritariamente alienada e desprovida de senso crítico (algo que os governos de esquerda não se preocuparam em alterar, já que o olhar para a educação reproduziu o viés neoliberal que se espalhava pelo mundo e aportou aqui celeremente, anestesiando uma nova geração de doutores, igualmente alienados) a estratégia da falsificação da notícia e a repetição de frases tolas e estúpidas que reproduzem o que secularmente a cultura dominante impôs, por meio de discursos machistas, homofóbicos, misóginos e preconceituosos, comportamentos que se disseminaram rapidamente (porque era o olhar do espelho), se acelerando pela força dos púlpitos que se espalharam incentivados pelas políticas e pelo dinheiro dos EUA, dentro dos interesses geoestratégicos de combater o avanço da igreja progressista, identificada nas comunidades eclesiais de base. Essa corrente foi sufocada no final dos anos 1980 ao mesmo tempo em que crescia a influência e a força das igrejas pentecostais, depois das neopentecostais, no Brasil e na América Latina[2].
Esse público, “fiel”, se tornaria a base ideal para a ascensão de um candidato bufão. A estratégia foi a mesma adotada nos EUA, com Donald Trump, de perfil parecido, mas em um nível de estupidez mais sofisticado. E no Brexit, plebiscito que aprovou a saída da Grã-Bretanha da União Européia, e permitiu a ascensão de outro indivíduo que fica numa espécie de síntese desses dois primeiros, Bolsonaro e Trump: Boris Johnson.
O estrategista foi o mesmo, Steve Bannon, estrategista-chefe da Casa Branca e conselheiro de Trump. Sua aposta sempre foi a criação de fake news, facilmente assimilada por um público estúpido, avesso à política, com a exploração dos limites possíveis de estupidez existente em uma camada da população, com nítida deficiência intelectual e de compreensão da realidade em toda a sua dimensão. Isso pode ser atestado em um documentário disponível para acesso na internet, numa produção independente mostrada pela Globonews[3].
Mas essa estratégia se adequou também a uma realidade gerada por uma crise econômica sistêmica, estrutural, que afetou a economia de praticamente todos os países do mundo, gerando uma reação de comportamento, aversão à política, desânimo com as instituições e revolta contra tudo que representasse as crenças alimentadas por longos anos que demonizava o Estado. O neoliberalismo, que houvera destruído o estado de bem-estar social, por suas políticas de abrir o mercado para o livre trânsito das corporações e eliminar os mecanismos de defesa das camadas socialmente mais vulneráveis, de repente alimenta nessas pessoas o ódio àquilo que essa política econômica ajudara a enfraquecer.
O sintoma dessa nova realidade, absurda, porque foge do concreto e se prende em abstração, passou a ser denominada de “pós-verdade”. As pessoas, incapazes de compreender as contradições que as cercam, passam a acreditar naquilo que desejam, e direcionam suas revoltas não contra os causadores dos problemas, mas para as consequências dessas situações geradas pelas perversões dessas políticas. Paradoxalmente esse movimento, basicamente da classe média e de parte da população pobre que ascendera socialmente, se volta contra as políticas desenvolvidas por governos progressistas para amenizar a destruição neoliberal, embora usando em parte esse remédio nocivo. E abre caminho para que as estratégias da extrema-direita se encaixassem facilmente num ambiente de perplexidade, apreensão, medo e revolta, mas tudo isso potencializado e alimentado por corporações midiáticas, aliadas aos segmentos mais oportunistas da burguesia, que fomentaram essas insatisfações e a direcionaram contra os governos de esquerda, principalmente na América Latina.
Claro que no Brasil, especificamente, o tiro saiu pela culatra. Os artífices do golpe, capitaneados pelos tucanos (PSDB), imaginavam retomar o controle do Poder, e confiaram isso a uma figura decrépita moralmente, também presidente desse partido, que disparou a senha para desconsiderar o resultado da eleição de 2014. Primeiro sofreram uma rasteira do PMDB, e em seguida, como consequência de toda a propaganda midiática antipolítica, defenestrando a esquerda, culminou com uma polarização entre o PT e a figura nefasta que captara bem, por meio de uma assessoria não somente de Bannon, mas também de uma malta de figuras perversas, odientas e oportunistas, encravadas nos púlpitos de algumas igrejas evangélicas, mas que de algum tempo já tomavam espaços em outro templo, outrora representante da democracia, o Congresso Nacional.
O antipetismo foi mais forte do que o “ele não”. No meio do caminho, numa atitude tosca e irresponsável, um indivíduo, por meio de uma facada, definiu a eleição de um personagem que não tinha tempo na televisão, não aparecia nos debates e quando convidado pelas TVs agia grotescamente, acusando sem provas e ostentando bravatas irresponsáveis.
A aceitação desse discurso por meio de uma massa inebriada, conduzida pelo conservadorismo evangélico e pelo que de pior existe na política, um movimento fascista, praticamente neonazista, deu suporte para ações viscerais na destruição de conquistas históricas dos direitos dos trabalhadores, das populações pobres, das comunidades fragilizadas e historicamente destruídas em suas tradições e reduzidas pelas ações rapaces de grileiros e marginais que vestem ternos, usam togas e escondem-se por detrás de impunidades piores do que aquelas imputadas aos políticos acusados de corrupção.
Somente um tipo de corrupção tornou-se alvo, aquela praticada por um mecanismo que por décadas foi aceito e passado em branco pela justiça eleitoral: o caixa 2, e suas consequências, por meio do beneficiamento a empresas que financiavam as eleições. Mas a corrupção disseminada por outros setores, polícia, judiciário e até mesmo nos costumes, foi naturalizada pela população, que a vê com menos importância, até mesmo porque se serve dela em alguns momentos.
Esse ambiente criado é absolutamente refratário a mudanças rápidas. Estamos num dilema que necessariamente impõe preocupações para além das lutas eleitorais imediatas, porque essas prosseguirão contaminadas por essa polarização e pelo uso e abuso da incapacidade cognitiva de boa parte da população. Aliás, a luta eleitoral só acentua a polarização e, consequentemente, cria uma espécie de blindagem mental, que dificulta a essas pessoas perceberem o abismo enorme que elas têm pela frente.
A conjuntura política, ao contrário do que possa parecer quando analisamos o erro de cálculo da direita e centro-direita, não é hostil à burguesia e aos latifundiários. Pelo contrário. O ambiente de anestesia que se abateu sobre a sociedade e atingiu até mesmo os segmentos organizados, tem facilitado o desmonte acelerado das estruturas de proteção social inseridas por meio de muita luta por longos anos. Isso tem sido feito numa rapidez impressionante, por meio de um rolo compressor de um congresso majoritariamente conservador, com bancadas perversas como as da “bala, da bíblia e do boi”, que agem nas áreas estratégicas, de segurança, da produção agrícola e dos costumes, inserindo aí um forte ataque à cultura e à educação, com desmonte impressionante de segmentos que são responsáveis por consolidar saber e defender valores culturais que são formadores de nossa identidade nacional.
Mais do que pensar em disputar eleições, embora isso seja essencial para mudar principalmente a correlação de forças nos parlamentos, o que é preciso, necessário e urgente, é retomar o protagonismo que está nas mãos das igrejas, seja por meio de pastores evangélicos e do clero católico conservador, e procurar incutir nas mentes das camadas mais desprotegidas e vulneráveis, os trabalhadores, que estão vendo seu direitos serem retirados, e a população da periferia, que imaginam pela fé, construir algo de bom em suas situações econômicas. Uma ilusão de quem desconhece os mecanismos de funcionamento do capitalismo, principalmente agora, neste momento de transição, em que uma transformação tecnológica impõe uma ampliação da destruição de empregos, como consequência do uso de inteligência artificial e da robotização crescente da força de trabalho.
A organização e conscientização dessa massa alienada é algo bastante difícil, levará tempo, mas contará com a situação de desespero que tende a se acentuar, na medida em que essas mudanças aplicadas contra os trabalhadores começarem a serem sentidas no dia a dia, que transformará o cotidiano dessas pessoas, principalmente dos mais jovens, em um verdadeiro inferno aqui na terra. Isso é inevitável, mas cabe as forças progressista se anteciparem e construírem os bunkers para se defenderem dos ataques da extrema-direita, mas sem se colocarem somente numa posição defensiva, procurando construir táticas de ações ofensivas. Possíveis com arma da organização e da conscientização política desses segmentos. Talvez a Venezuela nos ajude a entender como fazer para resistir, ofensivamente, à escalada de destruição da democracia que parte dos demônios do Norte.
Creio ter me alongado, mas esse ambiente tóxico, de perversão e de mudança rápida de conjuntura, nos obriga a ir bem a fundo na compreensão das causas (é preciso saber onde erramos, e porque erramos), na dimensão do problema e na necessária indicação de que é preciso planejar uma forte reação às investidas que estão destruindo e consumindo a sociedade brasileira, incluídos aí povos originários e comunidades tradicionais, principais alvos dessas perversões, pela cobiça das riquezas que existem em suas terras.



NOTAS:
[2] LIMA, Décio Monteiro de. Os demônios descem do Norte. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1987. https://issuu.com/juliocesarpedrosa/docs/delcio-de-lima-os-demonios-descem-d
[3]Fake News – Baseado em fatos reais -  https://vimeo.com/239115794


sexta-feira, 22 de março de 2019

QUANTO MAIS IDIOTA, MELHOR

Tenho sentido uma ansiedade desmedida nos últimos meses. Ansiedade, frustração, raiva, desesperança… São sentimentos que, naturalmente, vão e vem dependendo da forma como reajo a cada instante em que me deparo com uma ou outra notícia sobre a política brasileira. Mas não só. Também sobre como a humanidade tem entrado num processo de transição de um sistema falido, mas ainda em alta em seu estado de perversão, para uma outra forma de sociedade indefinida, sequer em início de construção.
Estamos vivendo, portanto, uma transição longa e dolorosa, como aliás todas as transições também foram. Momento em que ocorrem choques e conflitos entre as forças que apontam para o progresso, para mudanças substanciais, e aquelas que tentam frear as transformações sociais e a entrada em um novo modo de se viver e de se aceitar as diferenças. Choque econômico, decorrência de uma crise estrutural, e como consequência disso choques de valores, de cultura, de comportamentos. Ampliação do ódio, da intolerância, do fundamentalismo religioso, enfim, do estado de conflagração social, ampliado pela violência e pelo medo, que se torna estratégia política dos setores conservadores. Tudo isso tem uma causa: a decomposição do sistema capitalista, cada vez mais excludente e concentrador, elementos contraditórios que o empurra para o abismo.
Esse quadro, que, a meu ver, sintetiza a crise estrutural e suas consequências conjunturais, nos leva por caminhos insólitos, às vezes impressionantes por ser resultados inesperados. E assim foi na mudança política que ocorreu após as eleições de 2018. Claro que tais situações são explicáveis, e no caso específico do Brasil, decorreu também de erros cometidos pela esquerda, sendo os principais deles negligenciar a crise sistêmica e negar, ou, menosprezar a ganância dos senhores do capital. Além de cometer erros repetindo vícios por tanto tempo combatidos, na relação republicana com o Estado e os privilégios que o Poder concede.
Mas, embora esses erros sejam capitais na política, o que pesa mesmo nessa transformação é o ambiente corrompido pela crise estrutural, em alguns aspectos não necessariamente ao alcance de medidas próprias de um governo. Principalmente porque a globalização trouxe essa consequência, a quase impossibilidade de um país se livrar das relações geopolíticas que afetam todo o sistema. E se nesse jogo nos situamos perifericamente, mais ficamos sujeitos as mudanças abruptas, e entre o jogo pesado travado entre as grandes potências, principais protagonistas nas relações internacionais.
Evidentemente que essas mudanças que acontecem aqui no Brasil tem ocorrido também por diversos países. Seja inevitavelmente, como consequência da crise estrutural, ou por ação das guerras híbridas, deflagradas pelos EUA sobre aqueles países que não se submetem estritamente aos seus interesses. Notadamente aqueles que situam-se em regiões estratégicas, ou possuem reservas consideráveis de petróleo em seus territórios. Esse segundo caso é o que nos envolve, enquanto país que buscava um protagonismo maior na geopolítica regional, e até mesmo mundial, bem como pelo fato de possuir uma enorme reserva de petróleo conhecida: o pré-sal.
Seguramente o Brasil não passaria ao largo, por essa crise mundial. Mas seu impacto poderia ser bem menor, diante das condições que tinham sido criadas na primeira década deste século. Restou à burguesia, aos segmentos reacionários da política brasileira e aos representantes dos interesses das corporações estrangeiras, construir uma crise que impusesse uma derrota a uma linha política que os assustavam, pelos seus resultados e pela perspectiva negativa de ter seus representantes de volta ao poder em médio prazo. Assim gestou-se, artificialmente, um golpe institucional. Propagandeou-se incansavelmente informações manipuladas, se não ainda as “fake-news”, mas algo parecido, notícias distorcidas repetidas ad nausean, invertendo todo o sentimento da população e fazendo com que as massas acreditassem que haviam sido traídas, e que o futuro seria melhor sacrificando aquelas lideranças que as ensinaram a sonhar com dias melhores.
O país passou por dias ruins, que se transformaram em meses e tem sido anos sofridos, com a intensificação de uma crise que inicialmente se deu por erros cometidos pelo governo Dilma, mas que foi potencializado escancaradamente e desavergonhosamente pela mídia, que comprou a idéia de derrubá-la a qualquer custo, sem que necessariamente pudesse encontrar em seu governo algo plausível para isso. Não era os erros que contavam, nem o desejo de corrigi-los. Mas a necessidade de tomar o Poder, e alterar o projeto em curso, retomando o viés mais abertamente liberal e alinhado com a economia restritiva das políticas sociais e da redução do Estado como suporte dos interesses mais vinculados às camadas mais pobres. Embora os governos de então tivessem feito concessões, ampliando o poder das corporações nacionais e dos bancos, o que importava era ter o Poder político, e o comando do Estado, nas mãos. E assim foi feito.
O golpe institucional, do qual participou o parlamento, a mídia e o STF, jogou o país no abismo. O parlamento, tresloucadamente pela ação de um deputado obcecado e ganancioso, um perfeito expert em solapar dinheiro público mediante pressões e chantagens, tornando-se um dos maiores gangster da política brasileira, os seus pares, em sua maioria, se identificava com o seu caráter; O STF por recusar-se em seguir preceitos jurídicos reconhecíveis até mesmo por um leigo, acovardando-se e negando-se a adotar uma postura que brecasse a loucura que estava em curso; e a grande mídia. Esta, em uníssono, se tornou a principal responsável por despertar a perversão de uma massa alienada, estúpida, conservadora e idiota, principalmente a classe média, reconhecida historicamente pelo oportunismo em portar-se nas crises ao lado de quem esteja em condições de assumir o Poder de acordo com os seus interesses imediatos. Agregando-se aos de cima e desprezando os de baixo.
Desde então entramos numa espiral de idiotização sem precedentes. Claro que essa característica acompanha muitos que se alienam e se afastam do mundo real. Vivem de fantasias, de crenças no imponderável, no improvável e no incomprovável. Mas são alimentados pelo medo. Medo da morte, da perda do emprego, da violência, dos pobres, dos negros, dos homossexuais… medo… medo… medo. Um fator de controle geopolítico, mas também de domínio das mentes e muito bem aproveitado pelas igrejas. Notadamente as de origem neopentecostais, cujo objetivo político, marcadamente reacionário, está explícito há décadas. E mais visível desde a primeira campanha eleitoral dos EUA que elegeu Barack Obama. Negro, descendente de africanos e tido naquele país como “comunista”.
Quando uso o termo “idiota”1, o faço em seu sentido etimológico, no significado original que representa determinado indivíduo que se aliena das questões essenciais que dizem respeito às formas como funcionam as estruturas governamentais e do Estado. Depreciativamente essa expressão vai tomando outras designações, que não deixam também de servir no perfil de boa parte da população, desinformada da essência do conhecimento, culturalmente tosca e conduzida pela propaganda midiática, fiel e servil a ensinamentos milenares decorados de livros sagrados e aplicados anacronicamente.
O bombardeio midiático, a crise instaurada, o aumento do desemprego e a violência, criaram as condições perfeitas para que entrassem em ação os personagens que carregassem esse perfil, e gradativamente tendo suas posições radicalizadas a ponto de tornarem-se agressivos, intolerantes e absolutamente refratário à política, e, principalmente, aos políticos, generalizando o seu olhar, mas não independente de distinções ideológicas. Foram gradativamente abduzidos pelo discurso da extrema-direita.
Aí entra a questão da ideologia. Alguns ressentidos personagens, cuja revolta pessoal dirige-se contra a academia, as universidades, por não serem reconhecidos nessas e sequer tivessem conseguido se verem aceitos em seus espaços, ou por não terem chegado sequer a concluir cursos secundários. Inclua-se nessa lista charlatões que ocupam púlpitos e apostam na idiotização para destilarem discursos de ódios, transformando o Deus que tantos procuram em uma figura vingativa, persecutória e alimentadora da individualidade gananciosa. O sentido coletivista, elemento essencial para a compreensão do cristianismo primitivo, tornou-se alvo de ataques, e aqueles que comportam esse sentimento visto como comunista, expressão tornada um adjetivo perigoso e sinônimo de comportamento pecaminoso. Substitui-se, nessas circunstâncias, e por meio desse discurso absolutamente ideológico, o sentido de libertação e de busca pelo bem-estar em sociedade, por um comportamento tosco, rude, que torna-se definidor de caráter, já que incorpora atitudes permeadas de ódio e de não aceitação do outro indivíduo que consigo vive nessa sociedade, por escolherem caminhos diferentes dos seus para viverem.
Alimentados nesse ódio, e com um discurso intolerante, falsos filósofos e teólogos tornaram-se referências, e encontraram um ambiente para transformarem esse público em uma sólida base, circunstancialmente, para consolidarem políticas regressivas, medidas medievalescas e projetos que retrocedem a tempos nefastos, de insensibilidade social e de negação das nossas diferenças, atacando perversamente os que buscam se libertar das amarras conservadoras e seguirem os caminhos que desejarem em suas escolhas sexuais e culturais.
Claro que com um quadro desses a eleição não poderia trazer surpresas. Embora muitos ficaram impactados com o resultado eleitoral. Mas haviam mais de dois anos que o Brasil caminhava para a escolha de um presidente que se encaixasse no perfil que esses idiotas desejavam. Enfim, buscavam alguém que lhes representassem nessas características que explicitaram nesse período. Alguém que fugisse do perfil tradicional trazido pela velha política, essa que foi largamente defenestrada, e que por consequência atingiu duramente a democracia.
Posto isso, ao fim e ao cabo tivemos um presidente eleito e um governo montado de acordo com o que essa turba revoltada, e tornada assim preventivamente, desejava. Ao seu perfil e à forma como sua consciência fundamentalista passava a determinar. O resultado não poderia ser diferente. Um governo caótico, desorganizado, cujo maior adversário é ele próprio e sua base insólita e gelatinosa. Ideologicamente definida, mas estupidamente refratária da ideologia, com um slogan do governo que prega um Deus vingativo, intolerante, homofóbico, racista, machista… enfim, carregando em suas ações e políticas tudo aquilo que por séculos tem sido combatido no afã de se construir uma sociedade mais humana e tolerante. Esses tempos ficaram décadas para trás. Contraditoriamente, os tempos que tinham ficado mais para trás ainda deram um salto, de séculos, se defrontaram desafiadoramente com a história e tentam reassumir a condução de nossas vidas.
Nessa conjuntura atual, o que esses que hoje governam desejam, eles e os que dominam multidões alienadas, é manter esse nível de (in)compreensão. Portanto, quanto mais idiotas, melhor. Claro, não podemos entrar nesse jogo baixo, devemos elevar as consciências, trazer as discussões para a racionalidade.
Seguramente, estamos diante de um desafio que não é único em termos de situações desesperadoras. A humanidade já conviveu com situações piores. No entanto, não se pode neglicenciar a capacidade desses obtusos que nos governam, e aqueles que conduzem milhões controlando seus cérebros e os mantendo cegos para a realidade, de fazer emergir fantasmas já exorcizados do passado. O fundamentalismo econômico, base da barbárie social, e o fundamentalismo religioso, responsável pelos crimes de ódio e intolerância, estão sendo chocados há anos e precisam ser combatidos enfaticamente. Essa é a condição de termos uma sociedade liberta desses farsantes e dos medos que eles alimentam. Só no enfrentamento ideológico a humanidade poderá retomar aquele patamar do final do século XX e começo do século XXI, da expectativa de melhorias sociais consideráveis e de pavimentação dos caminhos que pudessem levar àqueles modelos de sociedades desejadas, baseadas na cooperação e na solidariedade.

É hora de retomar a Utopia, arregaçar as mangas e combater as trevas medievais. Luz! Combater a alienação, a estupidez e a idiotização. Isso deu certo uma vez, certamente nos ajudará mais uma vez a reencontrar o caminho da justiça social e da paz.
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1 https://www.significados.com.br/idiota/