Vamos tentar botar os pingos nos iis.
O mundo é complexo, e nada pode ser analisado simplificando-se os problemas.
Mas isso é o que mais tem acontecido nos tempos atuais, quando as análises não
são estudadas e observadas em toda a sua complexidade, limitando-se a
informações resumidas e textos que focam nos acontecimentos pela banalização da
história, cometendo-se aquele erro crucial para os historiadores, que é trocar
uma época pela outra. Trocando em miúdos, o que se chama “anacronismo”.
Os tempos contemporâneos se
caracterizaram, neste mundo conectado em tempo real, onde as redes sociais
reduziram a linguagem, por valorizar mais a informação do que o conhecimento. A
informação é importante, claro, inclusive como um valor estratégico. Mas ela
deve apenas ser um ponto de partida para, por meio da busca pelo conhecimento
histórico, pela rememoração, ou seja, o avivamento da memória e da busca dos
acontecimentos em tempos passados que porventura sirva para o entendimento do
tempo presente.
Esse aspecto da contemporaneidade, a
facilidade com que a informação (real, ou deformada e mentirosa – que se
convencionou chamar “fake-news”, em mais uma incorporação do anglicanismo
dominante no ocidente), passa às pessoas um sentimento de que pode-se avaliar
os acontecimentos por esse vendaval de informações compartilhadas de todas as
maneiras, transmitidas aleatoriamente e interpretadas por várias cabeças
intelectuais ou não, e mais ainda agora com a geração dos chamados
“influencers”, na maioria das vezes absolutamente desconhecedores do processo
histórico e incapazes de compreender as nuances e as estratégias dos poderes,
sejam os micropoderes ou os macropoderes. E os receptores dessas “notícias” ou
“análises”, em sua grande maioria, são ignorantes e alheios a todo esse
complexo de interesses, objetivos estratégicos e disputas de poderes que se
escondem por trás das manchetes dos grandes meios de comunicação, a “mass
media”, ou grande mídia hegemônica.
Dito isso, que é algo que muito me
incomoda como historiador e doutor em Geografia, especialista em Geopolítica,
vamos ao fato objetivo a ser analisado: as ações dos Estados Unidos, sob a
governança mais uma vez de Donald Trump, e de sua estratégia para a América
Latina, ou de suas estratégias com focos mais amplos tanto no Oceano Pacífico,
como Oriente Médio e Europa. Mas, de forma objetiva, e que tem sido objeto de
preocupação mais direta dos governos progressistas da America Latina, a forma
como os EUA redirecionou suas preocupações principais, seguindo a lógica
imperialista, para esse enorme continente de sempre foco de interesse
geopolítico estadunidense.
Primeiro é até difícil falar dessa
maneira, “como os EUA redirecionou”, porque parece haver um erro ortográfico na
expressão. Já expus esse problema em uma publicação no meu blog (*), e aí já
entramos na história, e, sim, voltando no tempo para entender em parte o
processo de independência dos EUA e a sua afirmação colonialista sobre a
América. O nome do país ao qual nos
referimos (EUA na sigla), é ESTADOS UNIDOS da América. Ocorre que durante o
período, século XIX, da aplicação da Doutrina Monroe e seguindo-se as
concepções religiosas que definiam que Deus havia concedido àquele país a
predestinação para guiar o continente em direção ao progresso, livrando-se dos
domínios coloniais, principalmente espanhol, mas também português, o termo
AMERICA foi sendo apropriado e incorporado ao sentimento de nação, transitando
do colonialismo para o imperialismo, em um século bastante emblemático.
Assim, se convencionou pela
propaganda de dominação, considerar AMÉRICA a um país que nasce sem nome, por
uma escolha dos pais criadores e dos Estados que buscavam manter autonomia
perante o Estado Nacional que se constituía após a separação enquanto colônia,
da Inglaterra. Passou a se denominar, não espontaneamente, mas pela imposição
do Poder imperialista, como americanos (ou americanas) a todos aqueles nascidos
nos EUA, provocando um reducionismo ao termo que denomina todo o continente.
Essa foi também uma forma de dominação cultural, que se impôs ao longo do
século XX por meio do aparato propagandístico muito forte, da religião,
principalmente os puritanos, mas também metodistas e batistas. O
protestantismo, de maneira geral. Mas também pela indústria cultural
cinematográfica, que criou mitos e desfigurou a história, principalmente no
grande genocídio que foi a destruição da população indígena no processo
conhecido como Marcha para o Oeste. O forte começo do expansionismo
estadunidense em busca de terras e ouro, em um momento de recessão econômica
(segunda metade do século XIX) que impôs ao México por meio de guerra e de
pressão econômica a cessão de terras importantes, que depois se tornaram
economicamente estratégicas para o desenvolvimento do país.
Em relação aos demais países
americanos, algumas preocupações importantes, que do ponto de vista estratégico
mantém-se até os dias atuais. Aqui, me dedico a desfazer as confusões
históricas e o anacronismo presente na maioria das análises sobre como os EUA
avança novamente sobre os territórios nacionais na América Central, do Sul e,
claro, também envolvendo a outra parte da América do Norte, que além dos EUA,
também fazem parte o Canadá e o México.
É importante considerar as condições
históricas do crescimento do poder estadunidense, no começo do século XIX. Isso
é impossível sem conhecer talvez o maior estrategista daquele período, Alfred
Mahan, e a sua teoria da importância dos mares para o controle econômico e o
crescimento de seu país. Como se sabe, os EUA é um país beneficiado pela
Geografia (apesar de geologicamente estar sujeitos a sérios problemas), sendo
banhado em uma enorme costa pelo Oceano Atlântico, muito importante na expansão
marítimo-comercial dos tempos modernos; e por outro lado pelo Oceano Pacífico,
que atualmente se torna um dos principais foco de disputas pelo Poder
hegemônico do comercial marítimo mundial.
Com essa visão estratégica, a teoria
do Poder Naval, Mahan conseguiu fazer com que os Estados Unidos se
desenvolvessem comercialmente, buscando exercer o controle marítimo. E foi
fundamental na construção do Canal do Panamá que possibilitou a ligação entre
esses dois oceanos, encurtando enormemente a distância entre as suas duas
costas e exercendo um controle fundamentalmente estratégico na região da
América Central e sua ligação com a América do Norte.
Mas já não estamos falando sobre
colonização. As ações dos EUA visavam por fim à colonização e exercer um
controle comercial sobre as antigas colônias espanholas e portuguesas, entrando
inclusive em guerra contra o domínio colonial, como foi no caso de Cuba. A
partir daí passa a vigorar a máxima “A América para os Americanos”, e o
processo de imposição imperialista, não colonialista, dos EUA. E a partir do
olhar estratégico de Alfred Mahan, e do poderio naval, já se delineava os
caminhos para essa imposição: dominar os países da América Central (a
grã-colômbia – que depois se torna Colômbia, Venezuela, Equador e Panamá), e
procurar exercer o controle sobre a política em três países considerados muito
importantes estrategicamente por esses teóricos geopolíticos, primeiro Mahan e
depois Nicolas Spykman (esse já no século XX, anterior à segunda guerra
mundial*). Os países compunham a região que foi denominada ABC: Argentina,
Brasil e Chile.
Desde sempre, com lapsos de tempos em
que os EUA esteve voltado para outros conflitos/guerras, principalmente no
Oriente Médio, suas maiores preocupações sempre foram não perder o controle
sobre o Canal do Panamá, e isso inclui todo o entorno desse país (Venezuela e
Colômbia) e sobre a política na região do ABC. Por essas razões sempre apoiou e
participou de golpes de Estados (Brasil, Chile, Argentina, Paraguai e Uruguai)
e executou invasões para sequestrar lideranças e presidente de países que
ousassem se opor à postura canhestra imperialista (Panamá, Equador e Venezuela
mais recentemente). Foram muitos atos de invasões e assassinatos executados por
agentes da CIA, e “assassinos econômicos”.
Um dos casos mais emblemáticos é
Cuba, antigamente um protetorado estadunidense, e um grande cassino explorado
por aquele país para lavagem de dinheiro, que após a revolução livrando-se
desses grilhões tornou-se alvo principal de tentativas de assassinatos,
principalmente de Fidel Castro (diversas vezes) e de invasões, sem sucesso. É
importante saber a história de Cuba e de sua resistência ao imperialismo
estadunidense, mas também é necessário considerar a sua posição geográfica.
Cuba situa-se a poucos quilômetros marítimos dos EUA, mas numa posição
estratégica de enorme importância, na entrada do Golfo do México, renomeado
autoritariamente de Golfo dos Estados Unidos, pela desfaçatez de Donald Trump.
Procurei resgatar a história, para os
dias de hoje, quando se lê pouco e em textos curtos. Talvez tenha ficado longo,
mas porque é imprescindível para desfazer as confusões que muitos fazem,
buscando equiparar as ações atuais do governo Trump, dos EUA, ao que foi a
Doutrina Monroe, começo do século XIX, no governo do presidente James Monroe.
Fazer isso significa olhar esse processo de forma anacrônica. As condições
históricas do século XIX eram diferentes das atuais. Ali os EUA lutaram contra
as estruturas colonialistas, numa forma de se impor de outras maneiras e obter
o controle sobre os países do continente americano.
No final do século XIX e começo do
século XX, impôs uma política dura, denominada de “big stick”, durante o
governo de Theodore Roosevelt, na consolidação de sua política imperialista e
intervencionista, conjugado com o rígido controle do Canal do Panamá, dos
oceanos Atlântico e Pacífico, consolidando sua condição de potência mundial que
irá se fortalecer após a primeira guerra mundial, e, principalmente, após a
segunda guerra. Entre essas duas guerras é fundamental se estudar as
estratégias e as teorias apresentadas por Nicolas Spykman, especificamente
sobre o RIMLAND, se opondo ao HEARTLAND de Halford Mackinder. Com isso, se
inicia a Guerra Fria, e a busca pelo controle do poder político internacional
dos EUA sobre a Europa, Oriente Médio e América Latina.
É um equívoco aventar a Doutrina
Monroe para se referir às estratégias atuais do governo autoritário de Donald
Trump. Se assemelha mais à política do “big stick”, embora com outras nuances,
naturalmente, e ao controle imperialista sobre os países da América Latina. O
objetivo é claro, retomar o controle sobre sua principal área de influência,
num momento de declínio do seu poder hegemônico e da consolidação de poderes
regionais que envolve a China (Ásia), Rússia (Eurásia) e o próprio Estados
Unidos (América Latina). Embora as ambições imperialistas dos EUA foquem mais
longe, com a tentativa de usurpar a Groenlândia, a fim de conter avanços da
Rússia e da China. Olhar os mapas é essencial, para entender essas
movimentações dos EUA e a sua desesperada corrida para não perder a hegemonia
econômica e militar mundial. Fundamental se aprofundar nas estratégias
geopolíticas de Alfred Mahan, Nicolas Spykman e George Kennan. Ver-se-á que a
“doutrina” Trump é um compilado de ações inspiradas nas teorias desses estrategistas,
e o que se permite ver de suas estratégias, que copiam e aperfeiçoam, mesmo que
de forma aleatória e imprevisível em certos aspectos, na medida em que fustiga
com seu poderio bélico-militar e depois recua, afim de intimidar, amedrontar os
países e impor o controle imperialista.
Sim, a doutrina Trump é uma
atualização do imperialismo executado pelos EUA desde o fim do século XIX, e
não deve ser confundida com a Doutrina Monroe, a menos que se use de análises
anacrônicas para assim interpretar. Na verdade, o viés imperialista dos EUA
nunca desapareceu em seus objetivos estratégicos, apenas por um tempo se
deslocou para outras regiões, ao tempo em que a América Latina passou a
conviver com governos progressistas e de esquerda, que não souberam entender
tanto aquele momento, como não se prepararam para o que inevitavelmente
aconteceria, dos EUA se voltar para retomar a sua influência sobre a América de
uma forma geral, tanto do Norte, Central e Latina. É o que está acontecendo,
seja por ações militares diretas, e ameaças de uso de força, quanto pela
infiltração política por meio de guerras híbridas e interferências nos
processos eleitorais.

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