quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

UM BREVE SILÊNCIO EM GRAMÁTICA DO MUNDO


“Ando devagar, porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais.
Hoje me sinto mais forte, mais feliz, quem sabe.
Só levo a certeza de que muito pouco sei.
Ou nada sei.” (Almir Sáter).

Em meados de junho de 2010 dei início ao meu blog Gramática do Mundo, uma espécie de “catarse”, para expirar minhas angústias em um momento depressivo, pela perda da minha filha. De lá para cá se somam 158 postagens, apenas em torno de uma dezena que não é de minha autoria.
Naveguei nas lembranças que algumas datas instigavam mais fortemente as saudades de minha filha. Os dias de sua chegada, 5 de março (1997), os nossos aniversários, o dia das mães, dos pais e da criança, o dia de sua partida, 13 de dezembro (1997), e, os momentos mais tristes, quando a maioria das pessoas procuram mais se alegrarem, as festas de final de ano. Nesses momentos escrever e postar no Gramática do Mundo tornava-se um alívio, parecia que eu transmitia para o mundo os soluços do meu coração. Isso serviu como um alento e se constituiu em uma espécie de terapia.
Eu sempre gostei de escrever e tive um grande incentivo de minha professora de português, Zilda Diniz, no Colégio Sylvio de Melo, em Morrinhos, quando fiz o segundo grau. Mas com o meu blog esse exercício ia além de uma paixão e de uma vontade, tornava-se uma espécie de divã, e minhas crônicas a respeito de minha filha e da dor e saudade que eu sentia com sua ausência, serviram para que em alguns momentos eu sentisse que conversava com ela. E assim pode ser lido em várias crônicas postadas em algumas das datas citadas acima.
Mas era intenção também transferir para o blog um pouco da minha indignação com as desigualdades sociais que me fez militante por três décadas. Até que a perda de minha filha arrefeceu os meus ânimos e me entreguei muito mais à reflexão do que ao embate costumeiro que fez conhecido pela minha presença marcante na luta política e na militância comunista.
Perdi o ímpeto que me fez um aguerrido agitador e liderança estudantil e depois sindical. Como já expressei em várias crônicas, a morte de minha filha me fez perder a perspectiva do futuro. Lutei contra isso. Em parte superei. Mas mantenho a convicção de que perdemos tempo construindo ilusões, esquecendo passado e nos afastando do presente. Daí a expressão “Carpe Diem”, com a qual passei a assinar o blog.
Mas os desafios do presente, queiramos ou não, nos impõe desafios que traçam os rumos por onde seguiremos em direção ao que chamamos de futuro. Ao chegarmos nesse dito ponto, estaremos no presente novamente. Contudo, mais velhos e submetidos a maiores paciências e momentos reflexivos, do que antes.
Assim, a minha atribuição à qual me dedico com prazer, na função de professor universitário, impõe, hoje mais do que antes, a necessidade de permanentemente nos submetermos a graus de qualificação superiores, de pós... pós... pós-graduação. Mantendo o mecanismo que nos obriga sempre a um constante processo de aprendizagem. Isso é, inegavelmente, algo extremamente importante. Não estou a reclamar.
Só que, depois desses arrodeios, esta é a razão pela qual deixarei, por um breve tempo, de produzir textos para o Gramática do Mundo. Depois de tantas idas e vindas, de dificuldades impostas por decisões políticas, ou por tragédias que marcaram minha vida, estou me afastando de minhas atividades para me dedicar à redação de minha tese de doutorado.
A vida da humanidade, e de cada um de nós mesmos em particular, é caracterizada pelo aumento da complexidade que a cerca. O tempo passa e nossa vida se torna mais complexa. Com isso quero dizer que os temas que tenho tratado aqui no blog estarão sendo pautados no cotidiano da vida com mais frequência e maiores dificuldades do que até aqui. Penso que 2013 será um ano muito mais difícil, com a acentuação da crise econômica que afeta o mundo, e, principalmente, com a radicalização de lutas em regiões que possuem grandes importâncias estratégicas, tanto pela posição geográfica, quanto pela riqueza existente em seus subsolos. E isso não será causa, mas consequência do agravamento de uma crise que já coloca em xeque a própria existência da União Europeía.
Contudo procurarei me manter focado na pesquisa que desenvolvo para o doutorado: “A influência da guerrilha na vida dos camponeses do Araguaia – as transformações de uma região de conflitos (1975-2012). E, certamente, será muito difícil conciliar as duas atividades, porque o Blog me deixa sempre envolvido em pesquisar as situações de conflitos e fatos políticos, para definição do que deverei abordar na postagem da semana. Atividade corriqueira que me envolve como professor de geopolítica. Mas que torna-se difícil no momento já que estou de licença desenvolvendo pesquisa. Não que eu não possa fazer isso, mas prefiro ser fiel ao mecanismo que a universidade me possibilita, de me conceder uma licença das minhas atividades com o intuito de garantir que eu possa me manter concentrado naquilo que é mais importante na minha formação, e na qualificação, que é fundamental também para a instituição.
Mas, como estarei vivo, pelo menos pretendo estar, e não vou me esconder em uma caverna, estarei atento aos acontecimentos geopolíticos do mundo e do Brasil. Já pensando nisso criei uma página no facebook, onde copio os links de reportagens interessantes de blogs e sites de notícias, confiáveis, que possam esclarecer melhor as pessoas das confusões que transmitem as mídias convencionais (https://www.facebook.com/gramaticadomundo). Não garanto que estarei a ler todas, mas confiarei na fonte, na origem dos blogs de onde as retiro, e também na atenção dos leitores, que poderão fazer comentários e até mesmo críticas sobre o conteúdo exposto.
No final de 2011, ano que além das saudades permanentes de minha filha, me deparei com constantes problemas de saúde, me afastei também por uns tempos do Blog, e deixei como mensagem uma postagem com o mesmo título acima (http://www.gramaticadomundo.com/2011/12/um-breve-silencio.html). O momento era outro, as circunstancias naturalmente, também, e principalmente o motivo. Mas o retorno foi rápido. Mais rápido do que será aqui. Só não prometo que não terei uma recaída, isso dependerá da gravidade da situação geopolítica, ou da eminência de um fato marcante da política brasileira.
Contudo, a publicização das razões do meu afastamento, me impõe a responsabilidade de cumprir os prazos determinados, pela licença e pelo meu doutorado. Deixo, assim, aos leitores do meu blog, a tarefa também de monitorar nesse “big brother” cotidiano que é as nossas vidas na contemporaneidade, o andamento desse meu compromisso intelectual e profissional. E, espero poder, assim, retornar no segundo semestre à regularidade das postagens do Blog Gramática do Mundo, com a característica marcante de instigar o debate, a provocação intelectual e a permanente crítica ás manipulações das corporações midiáticas e do jornalismo de baixo nível, dos tabloides que se vendem a quem paga melhor.
Nesse ínterim, contudo, estarei encaminhando para uma editora, os textos que considero relevante, principalmente os mais lidos, para publicação de um livro que terá como título principal GRAMÁTICA DO MUNDO. Um projeto que alimento há cerca de um ano, e que, em função da quantidade de textos escritos me possibilita agora concretizá-lo.
Por fim, aos que começaram a ler o blog já no transcurso de inúmeras publicações, quero direcioná-los para a primeira publicação, onde eu explico o sentido e a razão de tê-lo criado:  http://www.gramaticadomundo.com/2010/06/carpe-diem-aproveite-o-dia-confia-o.html. Não modifiquei nada, ele está integralmente tal como foi publicado pela primeira vez. É para mim um texto marcante, pois com ele dei início a um embate que para mim será eterno. Eterno enquanto eu possa durar. Entre a razão – de seguir em frente, tocando a vida – e a emoção – de porquanto eu viver, prosseguir lembrando com dolorosas (pela perda) e alegres (pelo tempo vivido) saudades e declarando meu eterno amor pela minha para sempre pequena Carol.
E escrevo essas palavras finais, em um momento de dor, que em mim, em minha esposa, e seguramente em todos aqueles que já perderam um filho ou filha, reproduz situações angustiantes e doloridas presentes em nossas memórias, em que pais e mães se veem na terrível tarefa de sepultá-los. Refiro-me à tragédia que já vitimou 235 jovens na cidade de Santa Maria no Rio Grande do Sul. Número que deverá se ampliar em função da gravidade de muitos que estão feridos e hospitalizados. De longe, só nos resta a solidariedade no sentimento humanitário e na torcida para que pais e mães consigam encontrar cada um a forma mais adequada de procurar superar essas perdas. Além de nos unirmos nos apelos por justiça para que tais situações não continuem a se repetir.
Se busquei isso nas páginas do blog Gramática do Mundo, minha companheira Celma Grace tem se dedicado com afinco à consolidação do Instituto Ana Carol, e da já consolidada Bordana, Cooperativa de Bordadeiras, projetos que tiveram na nossa pequena Carol a fonte de inspiração. A solidariedade se reproduz, nos alivia e nos dá alento para ir “tocando em frente”, e depois de tudo isso que passamos, me inspiro nos versos de Almir Sáter: “Penso que cumprir a vida seja simplesmente compreender a marcha, e ir seguindo em frente”. (http://letras.mus.br/almir-sater/44082/).
Até breve aqui nas páginas do blog Gramática do Mundo. A qualquer instante posso voltar. Me aguardem e prossigam acessando e lendo os textos que porventura ainda não tenham lido.
“Todo mundo ama um dia, todo mundo chora. Um dia a gente chega, no outro vai embora. Cada um de nós compõe a sua história, cada ser em si carrega o dom de ser capaz, e ser feliz.” (Almir Sáter).

domingo, 20 de janeiro de 2013

DEZ MACROTENDÊNCIAS GLOBAIS PARA OS PRÓXIMOS ANOS

Imagem: edufin.com.br

Recebi da jornalista Carla Guimarães, do jornal Tribuna do Planalto uma série de questionamentos sobre um estudo da Euromonitor Internacional: “Dez macro tendências globais para os próximos cinco anos”. São citados: Um futuro incerto, devido a incerteza econômica; A classe média emergente; A juventude descontente; A desigualdade entre ricos e pobres crescente; O desafio climático; Um mundo em envelhecimento; Urbanização crescente; Pessoas em movimento (mais viagens para viver, estudar ou trabalhar no exterior); Um mundo mais conectado (crescente uso da internet) e China se torna global(*).
A seguir respondo aos questionamentos (ampliado para a postagem) que em parte já os tenho abordados em alguns artigos postados aqui no Blog. No começo do ano passado, em uma crônica dividida em seis partes (http://www.gramaticadomundo.com/2012/01/cronica-de-um-mundo-em-transe-1-parte.html) procurei fazer uma análise geopolítica sobre as transformações em curso no mundo, e acredito que ela se mantém atual. Sem querer fazer previsões, minha análise baseia-se na realidade concreta, naquilo que está acontecendo no momento presente. O que virá dependerá das circunstâncias e das respostas que a humanidade dará para buscar solucionar seus problemas.
"Indignados", na maioria jovens,
protestam na Espanha
1- O senhor avalia que esses dez itens de fato são tendências mundiais? Acrescentaria algo mais como macro tendência não citada no estudo?
R – Todas as questões colocadas nesse estudo são reflexos da própria realidade que o mundo está vivendo. O futuro, em qualquer circunstância é incerto, já que é uma construção idealizada. Ele se explica pelas tendências do presente, e podemos projetá-lo com base na própria experiência, de situações parecidas. E isso é muito comum desde que o sistema capitalista se consolidou. Mas não necessariamente essas previsões podem se concretizar, muito embora eu concorde que a situação atual aponta para a direção que o estudo está indicando.
2- Como o Brasil, Goiás/Goiânia, se insere nesse contexto previsto? Impactos locais, por exemplo.
R – O Brasil não pode ficar imune a, por exemplo, uma situação de agravamento da crise econômica mundial. Já podemos sentir isso com um lento processo de industrialização, ou como alguns economistas preferem chamar, de desindustrialização. Isso ocorre porque o país passa a produzir menos para exportação, consequência do desaquecimento do mercado mundial em decorrência da quebradeira da economia de muitos países, principalmente os europeus e os EUA, que sempre foram os principais mercados para os produtos brasileiros.
Mas há um fator diferencial no caso brasileiro. Primeiro há um forte aquecimento econômico nas camadas populares, e boa parte delas estão ascendendo à classe média, embora essa classe já esteja dividida em três. Mas houve nos últimos dez anos uma melhoria das condições de vida das pessoas mais pobres, como decorrência de programas sociais e do aumento do salário mínimo sempre acima da inflação. Isso possibilitou um aquecimento na economia inferior, aquela que não está necessariamente submetida às oscilações do mercado internacional(**). Havia, e ainda há, uma forte demanda por crescimento nessas camadas, o que manterá a economia brasileira aquecida ainda por muito tempo e o nível de desemprego em patamares baixíssimos. A despeito de o crescimento do PIB não ser muito elevado, e isso se explica pelo que eu disse no primeiro parágrafo, já que a economia superior se manterá estagnada como decorrência da crise econômica mundial. O capitalismo deverá se reinventar, em decorrência disso.
Outra particularidade – que afeta fortemente o Estado de Goiás – é a crescente demanda por alimentos no mundo. Fatores diversos, como situação climática, guerras e recessão em algumas economias, tornarão alguns países dependentes da produção de alimentos em países da América Latina e África. O Brasil se destacará por isso, o que agravará os problemas ambientais. Mas dará um forte impulso ao agronegócio e ampliará a fronteira agrícola em direção aos estados do centro-norte. A exportação de produtos agrícolas e pecuários continuará a ser nos próximos anos a base da economia brasileira. Esses Estados, como já vem acontecendo, crescerão acima da média nacional, mas manterá uma forte tendência, histórica, de má distribuição da riqueza, aumentando a concentração de rendas nas mãos de grandes produtores latifundiários e corporações transnacionais.
3- A maior presença da China no mercado econômico mundial pode prejudicar atividades regionais, como agronegócio, fabricação de carros (já que temos fábricas instaladas no Estado), confecção...?
Inevitavelmente a China seguirá ocupando o primeiro lugar dentre os países que mais venderá ao Brasil e mais comprará produtos brasileiros, não somente pelo seu grandioso crescimento e pelo seu imenso mercado, mas também pela crise que afeta as economias centrais e, principalmente, os Estados Unidos, que sempre se destacou como o país com maior relacionamento comercial com o Brasil. E a tendência é que essa crise persista por mais de uma década. Mais uma vez a relação com Goiás estará relacionada a questão analisada no item anterior, já que a economia do nosso Estado baseia-se na produção de alimentos. Outra tendência que estará relacionada á China, embora também a outros países, será a busca por adquirir grandes quantidades de terras em Estados propícios à produção agrícola, e Goiás estará nessa lista. Por essa razão o governo federal já está preparando uma lei que limitará a aquisição de terras por estrangeiros. Já que essa será uma questão de segurança nacional em pouco tempo.
É claro que mesmo se ressentindo da crise capitalista global, a China seguirá com forte crescimento econômico, e gradativamente assumirá a liderança em diversos setores industriais e de novas tecnologias. Pela dimensão de seu mercado, provavelmente ela irá definir preços em diversas áreas, como tecnologia (informática), confecção, minério e automobilístico. A China ditará os rumos da economia global em boa parte deste século.
4- Pode avaliar em especial os itens sobre o envelhecimento, juventude e mundo mais conectado? Como o Brasil/Goiás, vive esse momento e o que podemos esperar para os próximos cinco anos (mão de obra, qualificação, manifestos, entre outros...)
O envelhecimento da população é consequência de um estilo de vida conduzido pelos mecanismos capitalistas. As pessoas passaram a optar por uma família menor a fim de possibilitar uma vida mais confortável e com condições de garantir a aquisição de produtos e mercadorias que satisfizesse uma lógica que impõe uma forte relação entre consumo e felicidade. Além da preocupação obsessiva com o futuro e a necessidade de sempre melhorar as condições financeiras de forma a garantir uma boa herança para os seus filhos. A vida demonstraria uma dificuldade maior para os que tivessem maior quantidade de filhos. A vivência nas cidades difere substancialmente do tempo em que a população concentrava-se majoritariamente na zona rural. Naquelas condições ter uma família grande era condição de reforçar a capacidade produtiva. Nas cidades, muitos filhos constitui-se em obstáculo à conquista de um estilo de vida farto e à garantia de que os filhos prossigam com sucesso no futuro.
BBC Brasil
Essa concepção se espalhou pelo mundo a partir da Europa e Estados Unidos. Na China há, forçosamente um controle de natalidade, imposto pelo Estado, em decorrência de um número elevado de habitantes. Nos países onde isso não acontece deve-se à questões religiosas, como na Índia, mas deverá ser uma tendência, à medida em que também aquele país vê sua economia crescer, situação parecida com a do Brasil.
Esse controle populacional, planejado ou não, trará efeitos colaterais. O envelhecimento da população é um deles, e o principal, já que afetará a economia na medida em que o Estado terá como obrigação manter um número crescente de aposentados. Na outra ponta, em alguns países o baixo crescimento populacional tem trazido dificuldades na absorção de mão de obra para alguns setores, principalmente os de baixa qualificação. Havendo necessidade de contar com a presença de imigrantes, que passavam a realizar esse tipo de atividade. Mas a crise econômica está mudando essa  realidade, e é difícil prever o que acontecerá caso a crise persista por mais de uma década.
A juventude é a primeira a sentir essa dificuldade, já que as empresas buscam sempre pessoas com experiências, tornando difícil o primeiro emprego. Por essa razão países como a Espanha, Grécia, Portugal e Itália, dentre outros, alcançaram um percentual de dois dígitos de desemprego entre os jovens. Na Espanha isso atinge quase 50%. A qualificação deixa de ter tanta importância como antes, já que os salários caem gradativamente, à medida em que a economia vai se enfraquecendo e pessoas com boas qualificações são obrigadas a aceitar trabalhos antes desempenhados pelos imigrantes. Resta aos jovens que saem da universidade mudarem-se para outros países, invertendo a situação que existia até então. E isso já está acontecendo. Países como o Brasil passam a receber um número cada vez maior de jovens qualificados, ou recém-formados, ou em busca de salários maiores. Na contramão, aumenta o número de jovens brasileiros que se deslocam para o exterior a fim de fazer cursos de melhores qualidades, com o objetivo de garantir qualificações que os façam competir com um mercado de trabalho que se torna mais exigente nesse quesito.
BBC Brasil
O mundo mais conectado seguirá também essa tendência, de deslocamento da importância econômica para outras regiões do mundo, levando a alteração na hegemonia mundial. Os investimentos em novas tecnologias seguem, além de um padrão, a necessidade de atingir um número considerável de pessoas, principalmente nos países com forte crescimento econômico, que ascendem socialmente. Somente nos países conhecidos pela sigla BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) concentra-se mais da metade da população mundial, e dentro deles um grande percentual encontra-se na economia inferior e agora buscam inserir-se no mercado de consumo. Além do que, novas tecnologias e a imposição midiática para os seu consumo, aliado ao setor de produção de alimentos, seguirá sendo a alternativa para se tentar driblar a crise econômica mundial.
5- Outras considerações?
Creio que falta analisar um aspecto que tem tornado as nossas cidades mais perigosas. O aumento do consumo de drogas, do seu comércio ilegal e o consequente fortalecimento de gangs de traficantes e a violência que se acentua na sequência dessa realidade perversa.
O estilo de vida nas cidades, estressante e impositivo na lógica exigente do trabalho, empurra principalmente os mais jovens à procura de mecanismos de escape das angústias e dependência do tempo, sempre em busca de ganhar mais dinheiro e melhor qualificação. O recurso ao uso de drogas consequentemente leva ao aumento do tráfico na comercialização de uma mercadoria que é ilegal. Essa equação trás resultados previsíveis, mas de difícil controle pelo Estado e corre-se o risco de transformar a nossa sociedade em uma redoma baseada na vigilância permanente e no estabelecimento de um Estado policial, com o fim da privacidade e a desconfiança se disseminando como característica principal na relação entre as pessoas.
O neocolonialismo deverá ser uma
tendência, como resposta à crise
econômica nas grandes potências
Outro aspecto a ser destacado é a alternativa sempre encontrada para sair de crises estruturais como a que atualmente atinge as maiores economias mundiais. A ampliação de conflitos regionais poderá levá-los a uma dimensão global e as potencias capitalistas seguirão encontrando pretextos, como no combate ao “terrorismo” para exercer fortes domínios sobre regiões estratégias e fundamentais para não perderem o controle da economia superior. Será corriqueiro a intromissão em disputas locais, e isso se tornará uma tendência principalmente naqueles países que possuem grandes riquezas minerais em seu subsolo e, principalmente enormes reservas de petróleo e gás. O neocolonialismo seguramente retornará á agenda internacional dos países europeus e dos Estados Unidos. É a condição de prosseguirem no jogo geopolítico sem perder suas posições hegemônicas. Líbia, Síria, e agora Mali, e, sempre a Somália, são exemplos presentes (dentre tantos outros) desse comportamento.
As tendências apontadas no estudo são fáceis de serem identificadas, embora faltem nelas essa identificação dos problemas geopolíticos mais determinantes. Mas, enfim, elas não dizem respeito ao futuro, que sequer existe. Elas já fazem parte do presente e a sua consolidação é que nos leva a fazer previsões sobre o que virá.
Claro que os rumos poderão ser diferentes. Mas as pessoas só acreditarão que o que assistimos hoje será diferente no futuro, se as medidas a serem adotadas nos convençam a respeito disso. No entanto, a perdurar a lógica de funcionamento desse sistema no qual estamos inseridos, não haverá mudança no curso dessa nossa história, e as tendências apontadas reafirmarão e consolidarão a realidade atual, da ampliação de uma crise que não dá sinais de arrefecimento e que tende a tornar-se cada vez mais global. Mas o futuro é uma abstração, ele é consequência do que transformamos no presente em realidade.



(*) Um resumo desses dez pontos levantados pelo Euromonitor Internacional pode ser lido no site da BBC Brasil: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/01/121220_euromonitor_tendencias_pai.shtml . E a reportagem da qual participei, a pedido da jornalista, pode ser encontrado no site: http://tribunadoplanalto.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=15999:vida-online-num-universo-com-mais-idosos&catid=64:comunidades&Itemid=6
(**) Conforme o historiador francês, Fernand Braudel, em sua obra “Civilização Material, Economia e Capitalismo” (Ed. Martins Fontes – 3 volumes), a economia capitalista divide-se em duas partes. No patamar inferior, a economia de mercado funciona como na concorrência tradicional, atendendo aos vários circuitos da vida cotidiana; no patamar superior a economia verdadeiramente capitalista, baseada na acumulação da riqueza e no monopólio determinado pelos grandes circuitos da economia-mundo. 

domingo, 13 de janeiro de 2013

OS CURDOS - UMA PEÇA ESQUECIDA NO XADREZ DO ORIENTE MÉDIO


Imagine que o povo curdo estivesse reunido em um território delimitado, com fronteiras definidas e um Estado que consolidasse uma nação. Esse país estaria na posição entre 30º e 35º lugar em número de habitantes, entre os quase 200 países existentes no mundo. Mas onde se encontra esse povo? Porque pouco se fala dele?
Quase nunca citado na mídia os curdos formam um povo sem pátria. Espalhado por vários países no Oriente Médio, tem, nos últimos anos, devido à forte repressão e perseguição a que tem sido duramente submetido durante séculos, migrado mais acentuadamente em direção à outros países ocidentais, principalmente os europeus, e destacadamente a Alemanha. São cerca de 35 milhões de curdos, espalhados por países do Oriente Médio: Turquia e Iraque, principalmente, além de Irã, Síria, Armênia e Azerbaijão (esses dois últimos fora do OM), em uma área que corresponde a aproximadamente 500 mil km². Eles formam grupos com características diversificadas, em razão das diferenças existentes entre os países em que vivem, mas estão situados em territórios com enorme importância estratégica no Iraque e na Turquia.
Mas nos interessa resgatar aqui o que a mídia omite por questões que estão relacionadas aos interesses geopolíticos de potências europeias e aos Estados Unidos. Principalmente pelo fato de a região reivindicada por esse povo ter uma importância geopolítica fundamental, pois o que deveria ser o seu território, numa região conhecida como Curdistão, possui além de enormes reservas de petróleo, rotas importantes de oleodutos e gasodutos que seguem em direção ao mar Cáspio. Um dos maiores consórcios que atuam na região tem, por exemplo, a presença da companhia britânica British Petróleum. Trata-se do consórcio Baku-Tibilise-Ceyan (BTC), que controla um oleoduto financiado pelo banco mundial desde 2005 que passa por Azerbaijão, Georgia e Turquia. O governo turco concedeu poderes sobre esse consórcio que anulavam direitos humanos, sociais e ambientais e que mantinham fortes pressões sobre o povo curdo, afetado em seus domínios, mas reprimidos implacavelmente. O oleoduto BTC tem uma importância considerável na geopolítica do petróleo e as potências ocidentais, com os acordos firmados, conseguem influenciar permanentemente na política da região.
No Iraque os curdos ocupam uma área com grande reserva de petróleo, na fronteira com Irã e sempre foram submetidos à opressão permanente, e durante o governo Sadam Hussein sofreram um massacre que levou à morte milhares deles, eliminados provavelmente com a utilização de armas químicas, em 1988 na cidade de Halabja de maioria curda. Mas também em 1995 tropas militares da Turquia, aos milhares, invadiram o curdistão iraquiano para atacar bases do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), grupo que lidera a luta separatista dos curdos na Turquia, e por isso e por seus métodos, é considerado pelos EUA como terrorista.
Com o esfacelamento do Iraque, após a invasão dos EUA quando se aliam à coalizão ocidental para derrotarem Sadam Hussein, acreditava-se que os curdos poderiam conseguir  a ambicionada autonomia, mas isso não se concretizou, muito provavelmente porque a área a ser autonomizada tem em seu subsolo uma enorme reserva de petróleo, provavelmente a maior em território iraquiano. Os EUA não apoiaram porque temia que se acentuassem as lutas étnicas gerando mais instabilidades que poderia complicar o controle sobre essa enorme reserva.
Refugiados iraquianos no
curdistão sírio
Contudo, a despeito dessas questões que tem a ver com o fato de o povo curdo reivindicar uma região riquíssima em petróleo, nesse momento o que fala mais alto (embora não repercuta na mídia), envolve a guerra civil na Síria e a fronteira com a Turquia. Sabemos que dura há séculos a luta curda por um Estado autônomo e independente, e que grupos guerrilheiros se mantêm ativo na Turquia, muito embora duramente reprimidos em massacres que não são mostrados para o mundo.
Nas últimas semanas se ouviu muito falar sobre movimentação de mísseis Patriots dos Estados Unidos, a serem controlados pela OTAN, deslocados para a região fronteiriça entre a Síria e Turquia. O argumento apresentado foi de que seriam para prevenir contra qualquer tentativa de ataque sírio. Mas a verdade é bem outra, embora não se descarte a possibilidade de haver um ataque turco ao país vizinho.
Curdistão sírio - guerrilheiras
Ocorre que grupos guerrilheiros curdos, aliados ao governo de Bashar al Assad, negociaram a autonomia da região em que vivem, na fronteira com a Turquia. A estratégia do governo sírio seria empurrar o conflito para o país vizinho possibilitando que o PKK, atualmente enfraquecido pela repressão violenta do governo turco, possa se sentir animado diante da eminência de avanço da revolta árabe para o território turco.
O pesadelo de Recep Tayyip Erdogan, primeiro ministro turco, seria uma aliança entre curdos iraquianos e sírios, que poderia reacender os ânimos dos curdos turcos, fortalecer o PKK, e, principalmente, estimular os guerrilheiros que atuam na Turquia, enfraquecidos pelos constantes confrontos e repressão do bem armado exército turco.
Mas, não somente esse quadro seria preocupante para o primeiro-ministro turco. A possibilidade de uma derrota do regime sírio poderia também levar a uma instabilidade na região, semelhante ao que acontece atualmente na Líbia, que poderia empurrar os curdos em direção à fronteira turca, onde milhares de refugiados vivem em acampamentos improvisados.
Enfim, o sonho de um Curdistão independente e autônomo pode estar sendo renovado com a radicalidade do conflito sírio e com a postura agressiva do governo Turco, constituindo-se em porta-voz dos interesses dos EUA através da OTAN.
Não é exagero considerar que a Turquia pode ser a próxima pedra do dominó a ser abalada no jogo geopolítico do Oriente Médio, em mais um capítulo do que se convencionou chamar (erroneamente) de “primavera árabe”. O que não se pode esperar, nesse caso, é que a reação das potencias ocidentais se limitem a ação de agentes espiões, de falcões provocadores ou de financiamento a grupos que disfarçadamente agem a seu favor. Seguramente a defesa da Turquia colocaria a OTAN em pé de guerrra, não somente por ser esse país um membro dessa organização, mas por sua posição estratégica.
Com um território dividido por dois continentes a Turquia se liga à Europa e a Ásia pelo estreito de Bósforo. Embora participante da OCDE, a sua integração ao bloco europeu anda a passos de tartaruga, e o grande empecilho a isso é a sua enorme população islâmica, que gera receios em vários governos europeus, já que essa religião tem um forte crescimento no continente, e poderia ser ampliado como consequência da liberdade movimento da população pelas nações europeias.
Uma situação de instabilidade na Turquia poderia levar a um deslocamento acentuado de turcos em direção aos países europeus, acirrando os problemas que esses já se deparam, com níveis crescentes de desempregos a estimular casos de xenofobia.
Cenas do filme:
Tartarugas podem voar
Essas interrogações, quanto ao resultado do conflito que está destruindo a Síria e as consequências disso não só para o futuro daquele país, mas também para a Turquia e outros Estados-nações que tem fronteira com o território sírio, não podem ser respondidas com segurança quanto aos seus resultados.
Contudo, é possível perceber que as manobras militares da OTAN, com o uso de mísseis patriots estadunidenses, tem o claro objetivo de proteger a Turquia das instabilidades crescentes na região. Da absoluta falta de segurança quanto ao destino que poderá ter o aparato bélico sírio, caso o governo seja derrotado (já que se sabe haver até mesmo grupos da Al Qaeda combatendo naquele país), bem como sobre qual será o comportamento dos vários grupos da guerrilha curda, que não descansará enquanto não conseguir atingir seu objetivo, tornar o Curdistão um Estado-nação do povo Curdo.


FONTES:
2. Conflito entre Turquia e Síria incentiva separatistas curdos – Der Spiegel: http://codinomeinformante.blogspot.com.br/2012/10/der-spiegel-conflito-entre-turquia-e.html
Vídeo/filme:
Tartarugas podem voar – filme que retrata a situação do povo curdo em aldeia (acampamento) na fronteira entre o Irã e o Iraque ás vésperas da invasão dos EUA.
Ficha Técnica: Tartarugas Podem Voar (Lakposhtha hâm parvaz mikonand /Turtles Can Fly). 2004. Irã / Iraque. Direção e Roteiro: Bahman Ghobadi. Elenco: Soran Ebrahim (Satellite), Avaz Latif (Agrin), Saddam Hossein Feysal (Pashow), Hiresh Feysal Rahman (Hengov), Abdol Rahman Karim (Riga), Ajil Zibari (Shirkooh). Gênero: Drama, Guerra. Duração: 95 minutos.
Disponível no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=00ZclxyVkJo (completo e legendado)

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

A ENCRUZILHADA - OS PRÓXIMOS ANOS DO RESTO DE MINHA VIDA


“Quem já passou por essa vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu”
Vinicius de Moraes – “Como dizia o Poeta”

Quem de nós não chegou a certo tempo de sua vida e não precisou olhar para trás, a fim de poder refletir sobre o presente e indagar o que pode reservar o futuro? São momentos em que precisamos tomar decisões que são baseadas em múltiplas complexidades vividas no presente, verdadeiros turbilhões de sensações e sentimentos que afetam e alteram nossas vidas. Quase sempre, nessas circunstâncias o impulso de todos é olhar para o futuro, diz-se sempre que “é preciso olhar para frente”. A meu ver um equívoco. O futuro é uma construção, ele existirá de conformidade com as decisões que tomarmos no presente.
Há uma música belíssima, de Paulinho da Viola, em cuja frase ele sintetiza esses elementos que para mim são fundamentais para a construção que pretendo fazer nessa crônica: “meu pai sempre me dizia, meu filho tome cuidado, quando eu penso no futuro, não esqueço o meu passado” (Dança da Solidão).
Reencontro de amigos, velhos militantes
da política e do movimento estudantil
nos anos 1980 (VIRAÇÃO)
Ainda buscando uma referência de qualidade neste mesmo compositor, do qual eu sou um grande admirador ele diz, ao final do DVD “Paulinho da Viola – Meu tempo é hoje” (espetacular!): “Wilson Batista é um dos meus compositores preferidos. Ele tem um samba com um verso que diz, ‘meu mundo é hoje não existe amanhã para mim’. Eu costumo dizer, que meu tempo é hoje, eu não vivo no passado, o passado vive em mim”.
Vivi momentos intensos em minha vida. Às vezes por impulso, influenciado por amigos (bons amigos, razão pela qual não me arrependo de suas influências), e ressalto que uma das qualidades que me orgulho é de sempre ter escolhido bons amigos.
Assembléia de estudantes, na
Praça Universitária (1981
Suas influências, portanto, foram positivas. Mas, sempre tive a capacidade de tomar posição, de criticamente analisar cada situação e assumir sem receios decisões que definiram um lado a me situar. Nunca tive receios em assumir tais responsabilidades e de torná-las públicas. Por muitas vezes fui criticado por isso, mas fazia parte de minha personalidade. Nunca me acovardei diante das idéias e posições que tinha que assumir e procurei esgrimir, sempre, aqueles argumentos que para mim eram definidores dos meus posicionamentos. Isso tanto no cotidiano de minhas relações afetivas e pessoais, quanto da minha escolha e militância política. Os que me conhecem podem atestar isso. Mas aqui separarei esses dois momentos, primeiro o político, depois o pessoal e afetivo.
Mas, depois de 30 anos de militância política, sempre num mesmo partido, e diante das circunstâncias criadas pelas complexidades da vida, algumas naturais, outras porque nós mesmos as complicamos, pelas escolhas que fazemos, algumas dúvidas e questionamentos se avolumam e nos deixam em permanente conflito. Isso nos leva a tomar posição. Algo que, como eu disse anteriormente, jamais deixei de fazer.
Encontro de Viração em Maceió (AL)
Isso me permite dizer, com segurança, que meus tempos de militância política se esgotaram. Não sei se pelos percalços deixados pelos acontecimentos que afetaram minha vida, pelos desânimos e/ou decepções causadas por determinadas frustrações sobre os rumos daquilo que sempre acreditei, ou quem sabe por uma somatória de tudo isso.
Mas desde algum tempo tenho sido fortemente influenciado por um dos maiores intelecuais brasileiros, que aprendi a admirar quando passei a ter contato com o mundo dos geógrafos, Milton Santos. Sempre me martelou uma de suas frases para mim mais significativas na definição da intelectualidade, dentre tantas outras: “Ser intelectual é exercer diariamente rebeldia contra conceitos assentados, tornados respeitáveis, mas falsos. É, também, aceitar o papel de criador e propagador do desassossego e o papel de produtor do escândalo, se necessário” (Revista Adusp, outubro de 1997).
Não que eu queira me incluir arbitrariamente como intelectual, mas acredito freqüentar esse ambiente formador dessas definições, e exercer eventualmente determinadas situações que podem me condicionar para tal, independente do grau de qualificação que me seja dado.
É assim, então, seguindo os exemplos de Milton Santos, que pretendo me posicionar. Sem jamais abdicar de meus posicionamentos ideológicos, forjados após anos de militância marxista, que encontra na dialética e no materialismo as respostas para o entendimento do mundo e da complexidade que o forma e o cerca.
Uma das minhas prisões. Em 1981, na
greve geral dos estudantes, puxada
pela UNE
Declaro, portanto, a partir deste momento, encerrada a minha militância político-partidária, sem me arrepender em um momento sequer de minhas escolhas e dos embates nos quais me envolvi, sempre com muita paixão, dedicação e garra. Nesta encruzilhada, o caminho que escolho é o da independência partidária, mas seguirei firme no rumo da minha definição ideológica: marxista e materialista.
Mas nossos destinos não são traçados apenas por decisões políticas. Talvez mais complexas do que essas são as que construímos em nossas relações pessoais, mas também igualmente carregadas de contradições. E as alterações desses rumos são muito mais complicadas e não dependem de simples escolhas, de qual o caminho temos de seguir quando nos deparamos em uma encruzilhada.
Aqui as decisões dependem muito de uma série de fatores, e quaisquer que sejam elas possibilitam desencadear uma infinidade de conseqüências porque enredam nossas vidas em tantas outras. Vividas desde o passado, construídas por paixões, amizades, amores possíveis e impossíveis. Mas envolvem valores culturais, tradições e rotinas que estabelecemos ao longo de décadas em que formamos nossos ambientes familiares, ou dos quais não pudemos nos afastar muito.
Com minha filha Carol e minha
sobrinha Ana Clara na festa
de Viração (2007)
Contudo, não há nada mais passível de alterar nossas vidas, seja em relação à nossa personalidade, ou na formação de nossa família, do que a perda de uma filha. A partir disso há uma desconstrução e reconstrução forçosa de nossas vidas. Perder um filho, como já disse em outras oportunidades, é perder a perspectiva do futuro, pois é nele que construímos nosso amanhã, vivemos para isso a partir de suas existências. Não existimos mais para nós, individualmente, mas para eles. O eu desaparece, quando aparecem os filhos. Somos nós, são partes de nós mesmos. Ao perdê-los, por morte, antes que partamos, perdemos por certo tempo os rumos que sempre imaginamos para nossas vidas.
Mas, conta-se na vida também não somente as partidas. Mas ao seguirmos em frente, apesar das adversidades, das frustrações, dos momentos depressivos pela perda de um filho, nossas vidas vão adiante, em ritmos e sensações diferentes. Mas o universo ao nosso redor não muda tanto quanto sentimos intimamente. Nossos amigos, as pessoas que nos cercam e convivem conosco a rotina de um cotidiano do qual não podemos sempre fugir, seguem nos observando com olhares sutis, companheiros, às vezes, dependendo da sensibilidade de cada um, com carinho e admiração diante do enfrentamento de determinada tragédia.
As pessoas têm olhares diferentes para o mundo. Às vezes não têm sequer dimensão do que acontece ao seu redor. Algumas se entregam ao sobrenatural, às crenças jamais improváveis, mas cuja fé as deixam plenamente cientes de que não há fantasia, há realidade. Confunde-se, então, o irreal com o real, e transpõe-se para um mundo distante daquele que o cerca.
Há, contudo, outras pessoas, cujos sentimentos são plenamente incorporados de amor e carinho, e transferem isso muitas vezes para quem luta, sofregamente, por sobreviver após tragédias que alteram não somente vidas, mas também individualmente, pessoas.
Em evento na UFG, ao lado do colega,
amigo e poeta, Eguimar Felício
Ao invadir nossas vidas, com esses sentimentos, essas pessoas também afetam sobremaneira nossa relação com a vida e com as pessoas que nos cercam. Vivi e vivo isso intensamente.
Busquei no ambiente do meu trabalho, seja com alunos ou colegas, suportar todos esses conflitos gerados pela perda de minha filha. Tornei-me mais tolerante na relação com meus “discípulos”, para usar uma expressão muito comum na época de Karl Marx. Procurei compreender as dificuldades que cada um de meus alunos carrega, porque são seres humanos, e tanto quanto no meu caso, sujeitos a se depararem com momentos de conflitos e sofrimentos. Mas, mesmo nos momentos mais difíceis em que vivi, sem jamais abdicar da seriedade e responsabilidade que me é dado como mestre.
Em alguns casos, no entanto, as relações confundem-se, da amizade para sentimentos mais complexos, embora carregados de nobreza, e muitas vezes nos colocam frente à dilemas que não dizem respeito somente às nossas escolhas, ou à decisões individuais, mas afetam sentimentos fortes, paixões, que mexem com nossas rotinas e maneiras de ser e viver. Põem-nos diante de muros, muralhas, que transpô-las pode significar surpresas às vezes indigestas, ou quem sabe, não, mas indecifráveis.
Os sofrimentos, ou sacrifícios, fazem parte da cultura judaico-cristâ. Assim se conta a história dos mitos que definiram a maneira de ser do mundo ocidental. Por isso o sofrimento atrai as pessoas e estimulam sentimentos de compaixão e solidariedade. Assim, nos tornamos reféns de nossas próprias tragédias, e muitas vezes não sabemos discernir quando nos confrontamos com determinadas situações em que paixões e compaixões confundem-se, ou nós mesmos confundimos porque não sabemos identificá-las.
E, fragilizados, diante das circunstâncias que nos cercam e tornam nosso futuro indecifrável, sucumbimos às sensações motivadas por amores e carinhos determinados por essas identidades. Mas isso muitas vezes nos coloca diante de outra encruzilhada. Já não se trata de uma escolha política, mas de uma decisão movida tanto pela racionalidade como também pelo coração. São razão e emoção, definindo as escolhas que selam nosso destino.
Cabe-nos então, retornar às questões postas no início dessa crônica, e relembrar a frase de Paulinho da Viola, “não vivo do passado, o passado vive em mim”. Isso torna difícil qualquer escolha que queiramos fazer, porque representaria retirar o passado de dentro de nós, e dificultaria a definição sobre qual caminho devemos seguir nessa encruzilhada que, permanentemente, a vida prepara para cada um de nós.
Por fim, uma dúvida que surgiu no decorrer da elaboração desse texto. Acredito ou não no destino? Para mim o destino é o acaso. Portanto, considero natural que o acaso seja considerado quando pensamos na maneira como nossa vida vai sendo delineada.
Paulinho da Viola - DVD "Meu
Tempo é Hoje"
Ora, não vivemos sozinhos, isolados, no mundo. Fazemos parte de uma realidade extremamente complexa, onde vidas se entrecruzam permanentemente. Seria improvável acreditar que em meio às redes que determinam as rotas que seguem nossas vidas, nada pudesse se “enredar” de tal maneira que não fosse suficiente para alterar esses rumos, independente de nossa vontade.
Temos nossas escolhas, inegavelmente. Mas a vida, às vezes, prepara armadilhas das quais temos dificuldades de nos desvencilharmos. Aí, nesse embate entre razão e emoção, podemos sucumbir ao destino, ou ao acaso, que a vida nos reserva, e perdemos a condição de traçá-lo. Somos carregados por ele.
Para finalizar, ainda inspirado em Paulinho da Viola, cito uma frase de uma belíssima música dele, como tantas outras, para resumir essa relação com o destino: “Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar”.
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(*) Reedito esse artigo que publiquei no final de 2010. O que naquele momento era uma tendência, uma decisão que eu alimentava e que decidira aplicá-la pouco a pouco, reafirmo agora e busco completar um ciclo de minha vida. Como digo em algumas frases, mantendo-me ligado àquelas idéias e concepções que guiaram minha vida nas últimas trés décadas e às quais nunca reneguei. Apenas deixo para o meu filho o legado da militância política e da escolha por caminhos que sempre considerei os mais justos e corretos, razão pela qual jamais me arrependi. Por isso tenho sempre como meu mestre o historiador britânico, recentemente falecido, Eric Hobsbawm. 
Dedico-me agora a finalizar um doutorado, por várias vezes adiado, ou por decisões políticas, ou por obra do acaso, em momentos de fatalidades que alteraram os rumos de minha vida. Algumas vezes agimos motivados pelo destino, por outras são nossas decisões racionais, nesse momento as duas coisas se uniram para que, na encruzilhada da vida, eu decidisse pelo caminho a tomar. Afinal, como dizia o poeta (se não me engano Thiago de Melo): "Quem sabe onde quer chegar, escolhe o caminho certo e o jeito de caminhar".