quinta-feira, 31 de março de 2011

OS DIREITOS HUMANOS COMO PRETEXTO PARA MAIS AGRESSÕES IMPERIALISTAS

Retrocedendo às posições tomadas anteriormente, durante o governo Lula, o Brasil da presidenta Dilma entrou por um caminho perigoso na política externa, ao votar no Conselho de Direitos Humanos da ONU a favor de investigação sobre violação de direitos humanos no Irã. Corre o risco de se tornar coadjuvante de um jogo dos Estados Unidos cuja estratégia é isolar aquele país e assim encontrar justificativa para que decisões semelhantes ao que ocorre na Líbia possam acontecer também com o país persa.

Os direitos humanos no mundo são atingidos indiscriminadamente. Por todos os continentes e em praticamente todos os países modalidades diferenciadas de desrespeito aos direitos das pessoas acontecem, sem que sejam tomadas quaisquer iniciativas para contê-los. Ou, quando o são, esbarram na própria contradição da lógica democrática. Afinal, aos miseráveis é garantida a liberdade para superar suas pobrezas. Mesmo que isso somente seja possível a partir de uma pedra de “crack”.

O Brasil, por exemplo, convive abertamente com casos explícitos de homofobia, ataques perpetrados por grupos de ideologias nazifascistas, acobertados pela hipocrisia de segmentos religiosos, intimidam e assusta quem livremente faz sua opção sexual. De forma hedionda, mesmo que no pretexto de liberdades políticas democráticas, vemos um projeto de lei que transforma em crime tais atos, que fere o direito da pessoa humana, ser atacado por setores religiosos. Parlamentares evangélicos se levantam, como a dar guarida a essas ações, e, portanto podem ser considerados cúmplices, ao tentar impedir que esses atos sejam considerados crimes.

Ora, não se pode confundir opinião, a respeito de se aceitar ou não determinado comportamento, com ações que visam até mesmo eliminar as pessoas que assumem determinadas posições. Qualquer um pode ter uma opinião contrária a determinado pensamento ou postura, só não pode violentar o direito das pessoas de serem diferentes. E diferentes da lógica construída por determinados valores culturais, que se forem impostos transformam-se em atos de intolerância. Pois se não ferem a lei, as pessoas não podem ser impedidas de tal ou qual escolha.

Como no Irã, também aqui no Brasil, a religião tenta determinar valores que se contrapõe às escolhas de vida das pessoas, relembrando os tempos medievais, quando não se podia ir contra os escritos dos chamados livros sagrados cristãos. E da intolerância e imposição dos dois lados, cristãos e muçulmanos deram início às escaramuças que atravessaram toda a idade média, e ainda permanecem em alguns países.

O que dizer também do bloqueio criminoso à Cuba? Seguramente a pequena ilha tem também problemas que agridem os direitos humanos. Como a tentativa de impedir manifestações de opiniões contrárias ao regime vigente, inclusive com prisões de chamados “dissidentes”, e ela tem sido bastante criticada por isso e já tem tomado iniciativa para libertá-los. Mas impedir, por imposições de sanções, que se estabeleça um livre comércio com aquele país, se constitui também violações aos direitos humanos, porque afeta sobremaneira a população. E isso acontece há mais de quarenta anos.

E Guantánamo? Há quantos anos se constitui em uma fortaleza imperialista estadunidense em solo cubano, transformada em prisão onde se pratica as mais vis práticas de torturas contra cidadãos suspeitos de terrorismos. Sem julgamento e sem o respeito aos direitos civis.

Da mesma maneira, por territórios ocupados pelos Estados Unidos, a prática de tortura é corriqueira e constantemente denunciada. O deslocamento de prisioneiros para países aliados, e com histórico de desrespeito aos direitos humanos, constitui-se em uma estratégia estadunidense para esconder-se das acusações. É sabido por todo o mundo que tais práticas se repetem acintosamente. Inclusive em navios-prisões, adaptados para realizar essas ações em águas internacionais, longe das fronteiras territoriais nacionais.

E no que se transformou o Afeganistão? Tanto quanto no Iraque, com as denúncias de torturas e humilhações na prisão de Abu Graib, e por todo o processo de ocupação naquele país, com sistemáticas violações dos direitos humanos, o que se vê também neste país, sob ocupação “humanitária” dos EUA é o total descontrole de soldados e a sistemática execução de civis.

Embora todos esses crimes sejam acobertados pelo Pentágono, as ações de instituições independentes, como o wikileakes, e de órgãos da imprensa que já se cansaram das mentiras da Casa Branca, trazem à tona todos esses frontais desrespeitos cometidos sob o pretexto de combater o terrorismo.

A Revista Rolling Stone, edição dos EUA, publica em seu último número uma reportagem especial denunciando flagrantes violações aos direitos humanos no Afeganistão. Cenas chocantes de fatos ocorridos em 2010 e bloqueados pelo Pentágono escandalizam o mundo. Coincidência, ou não, a divulgação desses fatos e fotos acontece justamente quando se inicia o ataque à Líbia. Diga-se de passagem, a partir de uma repentina mudança de atitude por parte da Hillary Clinton. Estranho, não? Ou seria uma estratégia para esvaziar a notícia?

A revista mostra em uma reportagem recheada de fotos, as ações de soldados 3º Pelotão da Companhia Bravo, alocada na província afegã de Kandahar, uma das regiões mais violentas daquele país. O texto informa que essa equipe demonstrava o desejo de matar, e escolheu um jovem de 15 anos. Mas ele não seria o único, outros teriam sido também assassinados pelo mesmo grupo, que nunca foi julgado pelos crimes. O grupo tirou fotos, que vazaram e foram publicados pela revista. Algumas delas insiro aqui no blog, outras, no entanto, são muitos fortes, chocantes. Mas elas podem ser verificadas no site da revista: (http://www.rollingstone.com/politics/photos/the-kill-team-photos-20110327/0602176).

No Oriente Médio, como se vê nas revoltas populares, a intolerância tem levado a população às ruas gritando por transformações sociais. Na maioria, países aliados dos Estados Unidos, com um velho histórico de desrespeito aos direitos humanos e de intolerância religiosa.

Quase por toda a África a situação é semelhante. Recentemente, na Costa do Marfim, sete mulheres foram assassinadas por forças leais ao governo derrotado nas urnas, mas que se recusa a aceitar a derrota (Carta Capital, nº 637, PP 48/49). Somente este ano mais de 400 pessoas já morreram no conflito e o número de deslocados, segundo a ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados), poderá chegar a um milhão (http://www.acnur.org/t3/portugues/noticias/noticia/marfinenses-fogem-da-guerra-e-abandonam-abidjan/). No Congo, em Uganda, no Sudão, cuja crise em Darfur se manteve praticamente distante das preocupações “humanitárias” da ONU e das potências ocidentais a situação se repete.

Também a Rússia tem sistematicamente usado de todo o tipo de violência contra os grupos que se opõem ao governo. A Chechênia é um exemplo disso, muito embora a ação dos rebeldes seja também agressiva e com danos cruéis à população civil, a reação dos agentes do Estado é desproporcional, e as denúncias de práticas de torturas e eliminação de opositores e de profissionais da imprensa são constantes.

Da mesma maneira a China, potência em ascensão, reage com violência a qualquer protesto contra o governo. E impede que qualquer investigação seja feita contra violações de direitos humanos. Acrescente-se a isso a complexa situação do Tibete, como resolvê-la? A luz da soberania, ou com “intervenções humanitárias”?

Há alguns anos, para repelir as acusações do governo Bush, a China divulgou um documento com uma série de denúncias contra os EUA. As duas potências se acusam mutuamente por impedir que idéias divergentes se consolidem. A China, com um governo extremamente fechado e com poucas liberdades políticas; e os EUA com a neurose anti-terrorismo impõe com o patriot act uma forte restrição à liberdade individual, principalmente contra estrangeiros. Tornado lei em 26 de outubro de 2001.

Israel, então, com sua política criminosa de manter um cerco permanente contra a faixa de Gaza, impedindo até mesmo a chegada de produtos essenciais ao dia-a-dia dos palestinos, transforma aquela área em uma das maiores concentrações populacional do planeta, com a maioria das pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza. E o que dizer das monarquias decrépitas do Oriente Médio, assentadas nas imensas reservas de petróleo, como a Arábia Saudita, o Bahrein, Emirados Árabes, e fiéis aliados dos EUA?

Vejam esse caso ocorrido nos Emirados, segundo reportagem da BBC Brasil, publicado na Folha Online em 30.03.2011: Mulher processa hotel por ser presa após denunciar estupro - Uma australiana,Alicia Gali foi condenada a 12 meses de prisão depois de ter alegado ter sido violentada por três colegas de trabalho, quando bebia com colegas no bar do Le Meridien Al Aqah Beach Resort, nos Emirados Árabes, em junho de 2008. A australiana acabou presa por ser ilegal, manter relações sexuais fora do casamento nos Emirados Árabes e foi acusada e condenada de ter feito ''sexo consensual''. Estupro só é considerado crime no país se quatro homens muçulmanos testemunharem o ocorrido. Após ter relatado o crime à polícia, Alicia Gali acabou sendo presa por adultério e cumpriu uma pena de oito meses. Ela foi perdoada em março de 2009 e regressou à Austrália.

Mas, também, sem dúvidas, essa situação de flagrantes desrespeitos acontece no Irã. Embora não sendo uma monarquia, seu regime escora-se na intolerância religiosa e sustenta-se também no chamado “ouro negro”.

Contudo, o que o diferencia dos demais? A velha rivalidade com os EUA e a “prepotência” do regime dos Aiatolás em não se curvar aos interesses imperialistas estadunidenses.

Portanto, todo esse histórico, ainda sendo um pequeno mosaico do que é de fato na realidade, nos dá a dimensão de como os direitos humanos são desrespeitados em todo o mundo. Repito, inclusive no Irã. E mesmo no Brasil, que até hoje não acertou as contas com seu passado, convivendo com a impunidade de torturadores “anistiados” pelos chefes que ordenaram assassinatos de militantes políticos.

Esperamos, pelo menos, que essa posição da política externa do Brasil seja uma sinalização de que a Comissão da Verdade será constituída. De resto, espalha-se pelas prisões de nosso país práticas corriqueiras de torturas e assassinatos praticados por grupos de extermínio. Embora investigações em curso levem alguns policiais à prisão a justiça os soltam, fortalecendo o sentimento de impunidade e levando à repetição desses crimes por quase todos os estados brasileiros. A estrutura Policial brasileira se mantém ainda dentro dos princípios formulados no período da Ditadura Militar.

Se há no geral violações aos direitos humanos, e se é fato que eles precisam ser investigados e combatidos, indistintamente, porque o Conselho de Segurança da ONU determina apenas que essa investigação se dê no Irã? Ora, ou se faz isso no geral, ou o Brasil não deveria servir de instrumento para atender os interesses rapaces dos Estados Unidos, que desejam ardentemente invadir o país persa a fim de consolidar seu controle sobre as três principais reservas de petróleo daquela região: Arábia Saudita, Iraque e o próprio Irã.

Enreda-se por um caminho perigoso, a diplomacia brasileira, na medida em que procura ser amável aos Estados Unidos com o intuito de obter deste país o aval para que o Brasil possa vir a participar como membro permanente do Conselho de Segurança. Vender a “alma”, ao estilo de Fausto (da obra de Goethe), que sucumbiu à Mefistófeles, tirará do Brasil a marca de ser um país que sempre procurou ostentar uma política externa independente. Principalmente na última década.

O Brasil pode ter tomado uma decisão, apoiando essa resolução contra o Irã, que irá consubstanciar futuramente o estabelecimento de sanções econômicas contra aquele país (o que nos afetará, inclusive, economicamente), o que sempre se constitui no primeiro passo para uma possível – e há muito desejada – invasão imperialista.

Ou se toma decisões que sejam regra geral para todos os países, e assim se acompanha de forma permanente, e com sanções pré-definidas, as violações dos direitos humanos, ou se estará fortalecendo a política hipócrita da potência hegemônica de nítidos interesses imperialistas.

Assim, pouco a pouco se tornará letra morta um dos valores fundamentais da consolidação dos Estados Nações: o respeito á soberania nacional. Se assim o for, se afirmará a nova estratégia de dominação dos Estados Unidos e demais potências européias, como denuncia o historiador Moniz Bandeira, de uma nova “doutrina da intervenção humanitária” (http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17611). Obviamente, ela seguirá os passos das riquezas a serem exploradas de acordo com os interesses imperialistas.

sexta-feira, 25 de março de 2011

OPERAÇÃO ALVORADA DA ODISSÉIA - O CERCO À LÍBIA: "É O PETRÓLEO, ESTÚPIDO!"

Estamos assistindo algo que já está se tornando corriqueiro. E por ser repetitivo, ou, melhor dizendo, as atitudes belicistas adotadas pelas grandes potências se assemelham tanto às ações tomadas em diversas outras vezes, que fica cada vez mais nítido, até para o mais distraído observador, o verdadeiro interesse que está por trás de um discurso hipócrita de defesa da população civil líbia.

É o que já se chama de “imperialismo humanitário”. São discursos, mal disfarçados, que não escondem a real razão para a deflagração de mais uma guerra. Poderíamos indagar, como se fôssemos ingênuos: por que não no Bahrein, por que não no Iêmen. E agora na Síria, e na Jordânia, haverá intervenção? E, mais ainda, porque tal não aconteceu nas várias vezes em que Israel massacrou a população palestina, tanto nos territórios ocupados, como até mesmo no Líbano?

A nova cruzada das potencias ocidentais não tem nada a ver com a defesa da população civil. Até porque ela se torna um alvo potencial nos ataques nada “cirúrgicos” de centenas de mísseis que explodem criminosamente em áreas urbanas.

Existem outros objetivos por trás dos discursos, nos quais já não há mais credibilidade da opinião pública internacional. Mas desta vez envolvem interesses díspares de não mais uma única potência. Além dos EUA, França e Itália disputam o controle estratégico da região, do petróleo, e, claro, a reconstrução de tudo que for destruído nessas ações. E também Alemanha e China (estes se abstiveram na votação do Conselho de Segurança da ONU que autorizou a criação da chamada zona de exclusão aérea, nome pomposo para determinar a agressão às forças líbias), que tem contratos importantes no comércio do petróleo líbio. Pode-se ler uma boa análise dessa divisão de interesses dentro da “força de coalização” no artigo de Antonio Martins, no site Outras Palavras: http://ponto.outraspalavras.net/2011/03/23/libia-invasor-dividido/.

No caso da França, talvez o mais emblemático em toda essa farsa, envolve até mesmo a necessidade de reafirmação de um governo enredado em uma série de complicações internas, revoltas populares e insatisfações com graves crises que atinge aquele país, talvez na Europa o que mais convive com populações deslocadas de seus países como conseqüência de crises econômicas e guerras. Empenhado em melhorar sua baixa popularidade, Sarkozy não vacila em massacrar o povo líbio. Acrescente-se a isso uma espécie de “vingança” pela declaração de um dos filhos de Kadafi, que afirmou ter o ditador líbio bancado a eleição do premier francês e que teria muito mais coisas a declarar.

A Itália talvez seja o país que tem mais a perder com essa situação de crise e instabilidade nas águas do mediterrâneo. Tanto pela proximidade com aquele país, e que pode sofrer conseqüências do deslocamento de populações da África, até então contida por Kadafi, como pelo fato de ser o país que mais estabeleceu relações com o governo líbio, até pelo fato de ter sido a potência européia colonizadora na Líbia.

Contudo isso, e pelos mais variados interesses comezinhos, o que estamos assistindo não é uma simples agressão imperialista, mas um verdadeiro assalto, na medida em que se trata de um roubo à mão armada, das riquezas de um dos países mais prósperos do norte da África.

Ora, se poderá dizer, a culpa é do Kadhafi. Os que leram um outro texto que publiquei neste blog (http://gramaticadomundo.blogspot.com/2011/03/revolta-nos-paises-arabes-um-olhar.html) devem ter percebido que não morro de amores pelo ditador líbio. No entanto, meu olhar geopolítico e as concepções anti-imperiaistas que carrego, não podem me prender às repetições maniqueístas da mídia, expert em demonizar determinado governante para poder justificar as agressões imperialistas.

O povo líbio tem todo o direito de rebelar-se contra seu governante, assim como os povos de qualquer país do mundo. Mas deve ser dado a ele o direito de fazê-lo pelo princípio da autodeterminação, sem que essa e outras crises sirvam de pretexto para invasões estrangeiras, com objetivo claro de se exercer o controle sobre as riquezas existentes naquele território.

A farsa que se esconde por trás dos discursos humanitários não resiste a uma simples retrospectiva de situações semelhantes e às análises dos interesses sobre aquela região desde o final do século XIX. Um interessante artigo de Michel Chossudovski, publicado no Correio da Cidadania (http://www.correiocidadania.com.br/content/view/5609/9/) traça com precisão todo o histórico de disputas, desde o processo da colonização até os dias atuais.

Se observarmos a maneira como as revoltas árabes estavam acontecendo veremos que quando isso acontece na Líbia há de imediato um interesse diferenciado por parte das grandes potências. Até a maneira como a oposição naquele país utiliza para se contrapor ao poder de Kadafi, diferencia-se da forma como estava acontecendo até então. Armados, desde o começo, e dispostos a partir para um conflito aberto, davam a nítida impressão de contar com a ingerência externa, em função da confiança e do rápido comportamento de alguns membros do governo que se aliaram rapidamente aos insurgentes. Acrescente-se a isso a presença de missões estrangeiras de espionagem, justamente na região onde se concentram as reservas de petróleo da Líbia, e onde é mais forte a ação dos rebeldes, a cidade de Bengazhi.

Portanto, é nítido o interesse diferenciado dentro de todo esse quadro de revoltas árabes, quando a situação envolve a Líbia. Tanto pela posição estratégica desse país, como pela riqueza petrolífera ali existente.

Paradoxalmente, enquanto em alguns países as revolta se dirigem também contra tiranias monárquicas, os rebeldes líbios, alguns deles (são de origens diversas, uma vez que uma característica da região é a existência de várias tribos), ostentavam a bandeira da antiga monarquia líbia. É importante ressaltar que há uma grande divisão étnica que dificulta a caracterização tradicional de nacionalidade. A peculiaridade está no fato de Kadafi, mediante uma capacidade que reside em seu carisma, construída em tempos de guerra fria e contra a antiga monarquia, aliado a idéias socializantes bem excêntricas, ter conseguido unificar por tanto tempo interesses internos tão díspares e características regionais tão diversas. Além de uma política de sufocar a oposição. Isso se intensificou, inclusive, nos últimos anos, como decorrência de uma aproximação com os EUA para perseguir suspeitos de terrorismos e eliminar as sanções econômicas.

A par de todo o interesse que desperta a situação da Líbia, as revoltas árabes continuam a se espalhar e a atingir graus de ebulição elevados, como no caso do Iêmen, Bahrein e agora na Síria. Como podemos vislumbrar o quadro geopolítico que está se desenhando por toda essa área atingida, desde a África subsaariana, seguindo por todo o Oriente Médio até Israel? Tentarei a seguir elaborar uma análise em perspectiva, mesmo correndo o risco de cometer algum equívoco, na medida em que algumas ações que ocorrem no presente podem tomar outro rumo, redefinindo o que possamos escrever a respeito do futuro.



Deserto da Líbia se transforma em pântano para as potências ocidentais.

É provável que as potências européias tenham tomado a decisão mais infeliz, em termos geopolíticos, dos últimos tempos. Envolveram-se em um atoleiro de proporções inimagináveis, cujas conseqüências podem variar: pode ocorrer a divisão (embora isso deva ter sido pensado) da Líbia em dois ou três novos Estados-Nações, da maneira como aconteceu na Iugoslávia; a exemplo do que se tornou a Somália, pode também acontecer de, em caso de queda de Kadafi, mas sem que os rebeldes consigam conquistar todo o território, por muito tempo perdurar um Estado em situação de anarquia, sem um governo central que possa impor ordem por todo o território, com o poder se esfacelando nas mãos de várias tribos com o surgimento dos senhores da guerra, tal qual acontece no Afeganistão; ou até mesmo consolidar dois Estados, um na região tradicionalmente conhecida como Cyrenaica, com a Capital em Benghazi (nesse caso essa parte controlaria as principais reservas de petróleo), e o outro Estado na região Tripolitania, com a capital em Tripoli.

O que certamente ficará mais complicado, e de difícil previsibilidade, é a coalizão esgotar-se nesses ataques aéreos que não sejam suficientes para derrubar Kadafi. Mantendo-se no poder e avançando para reconquistar territórios a Líbia pode vir a ser submetida a fortes pressões econômicas, com a adoção de sanções por parte do Conselho de Segurança da ONU, como defende a Alemanha. A reação de Kadafi pode seguir a ameaça feita por ele próprio, de abrir a Líbia para o deslocamento de população da África para a Europa, ou partir para ações terroristas, como ele já fez em outras situações, a Itália seria o país a ser mais afetado caso isso se concretize. A incógnita, neste caso, fica por conta da Al Qaeda, inicialmente responsabilizada por Kadafi, mas que pode vir a ser uma aliada da Líbia. Algo que, aliás, pode ocorrer também no Iêmen, visto que nesses dois países houve ações no sentido de conter células terroristas daquele grupo, depois dos acordos feitos por esses governos com os EUA.

No aspecto que envolve as grandes potencias ocidentais, não somente as que participam da coalizão que bombardeia a Líbia, mas também a Alemanha e a Itália, os diferentes interesses podem levar a conflitos políticos que deverão afetar as relações políticas entre vários países. Haverá uma disputa, na hipótese de Kadafi ser derrotado e a Líbia tiver que ser reconstruída com um novo governo de unidade nacional (algo muito difícil em função das divergências tribais), para ver qual país liderará a reconstrução daquele país. Isso significa também deter o controle sobre os poços e refinarias de petróleo, além do repartimento entre corporações multinacionais de um país destruído e arrasado. O espólio líbio será disputado da maneira como as aves de rapinas agem logo após estraçalhar as carcaças de suas presas.

Nesse momento os principais interesses a serem contrapostos serão entre a França e os EUA. Principal potência colonialista a controlar os países daquela parte da África, a França busca recompor-se no cenário internacional, inclusive na disputa pelo mercado de armas. Vide a disputa para venda ao Brasil de aviões de guerra. Sua condição crítica, às voltas com problemas internos graves, como já citados, deixa o governo Sarkozy com pouca margem de manobra nas decisões internas para solucionar os problemas. Uma ação de vulto, de disputa e controle sobre uma região do mundo importante é tida como uma alternativa para elevar os baixos índices de popularidade do governo conservador.

Já os EUA, em que pese toda a aparente vacilação de Barak Obama, precisa desesperadamente exercer nesse momento o controle sobre fatos e situações que envolvem diretamente uma série de países sobre os quais eles tinham o domínio. Praticamente todos os países que enfrentam levantes populares (inclusive a Líbia) firmaram acordos e alianças no combate a Al Qaeda ou a todos os grupos suspeitos de terrorismos. Envolvidos em duas frentes de batalha, já com um tempo que extrapola em muito o que foi pensado inicialmente, e sem perspectiva de vitórias concretas, os EUA experimenta uma situação dúbia. Se entrar definitivamente em uma nova guerra o governo Obama será cobrado pela opinião pública e corre o risco de deixar escapar o poder nas próximas eleições; mas se ficar de fora da liderança da coalizão, e ver a França se despontar, pode sofrer um forte revés em sua política externa.

Alie-se a isso o fato de a China estar já há certo tempo consolidando alianças com diversos países africanos e estabelecendo contratos para exploração do petróleo daquela região. Tem sido essa a razão pela qual a China tem bloqueado qualquer sanção àqueles países africanos envolvidos em fortes disputas internas.

Por fim, a maior incógnita diz respeito aos rebeldes que se levantam contra Kadafi. Embora a resolução da ONU diga que o ataque à força aérea líbia seja para impedir que os aviões daquele país perpetrem um massacre sobre os rebeldes, existem notícias que indicam que as ações que são desenvolvidas contra os simpatizantes de Kadafi, por parte dos rebeldes, têm sido violentas e indiscriminadas, comparando-se à forma como o ditador líbio reage à revolta.

Como ocorreu no Afeganistão, corre-se o risco de as potências ocidentais cometerem mais um enorme erro estratégico, e perderem por completo o controle sobre grupos diversificados sobre os quais não se teria nenhuma autoridade. Podendo toda essa revolta ser fragmentada com grupos tribais controlando parte do que é hoje território líbio e transformando-se assim em um perfeito palco para as ações de células da Al Qaeda.

Ao fim de tudo, conclui-se que todas as medidas adotadas com a resolução da ONU, tem puramente o objetivo de se exercer o controle geopolítico sobre uma região importante do ponto de vista econômico. Não somente a existência do petróleo, mas de toda uma infraestrutura montada para sua exploração, de tal forma que faz da companhia estatal líbia, A National Oil Corporation (NOC), a 25ª entre as maiores companhias de petróleo do mundo.

Os interesses, portanto, não são humanitários, senão vários outros países da África não estariam submetidos à situação de abandono e de domínio de gangues armadas. Não nos esqueçamos de Ruanda, cujo genocídio foi praticado às vistas dos capacetes azuis da ONU, e as armas usadas, facões, adquiridos da França. Assim como Somália, Congo, Costa do Marfim, etc.

Enfim, parafraseando um “mote” de campanha do ex-presidente Bill Clinton, em 1992 (se referindo à economia), podemos assim, dizer das ações da coalizão que ataca a Líbia, na operação denominada “Alvorada da Odisséia”: “É O PETRÓLEO, ESTÚPIDO!”

sábado, 19 de março de 2011

TERREMOTO NO JAPÃO, REVOLTAS ÁRABES E OBAMA NO BRASIL – XEQUE-MATE NA GEOPOLÍTICA MUNDIAL

Para além dos problemas geofísicos, que os meus colegas geógrafos físicos e geólogos, principalmente, podem melhor explicar, vejo outra dimensão além da tragédia causada pelos deslocamentos das placas tectônicas na parte asiática onde se situa o Japão. Milhares de vidas perderam-se, mas os abalos sísmicos irão causar ainda muitos contratempos a centenas de milhares de pessoas por muito tempo.

Mas as conseqüências do terremoto na ilha localizada no Oceano Pacífico, parte oriental da Ásia, conhecida como a Terra do Sol Nascente, devem tomar uma dimensão muito maior do que a quantidade de vidas humanas perdidas e a destruição de cidades inteiras, afetando a economia da atual terceira maior economia do mundo.

Catástrofes naturais, como esses terremotos de vários níveis, acontecem em larga escala ao longo de anos, décadas e séculos. Não são novidades na história geológica do nosso planeta. São conhecidos, pelos estudos geológicos, os locais mais sujeitos a sofrerem esses abalos. E eles inevitavelmente ocorrerão. Poderíamos inverter a maneira como assistimos as notícias sobre essas tragédias. Olhemos por esse ângulo: não é que os terremotos aconteçam onde existem milhões de pessoas habitando. Na verdade, são milhões de pessoas que habitam locais onde inevitavelmente acontecerão terremotos.

Os estudos geológicos demonstram que esses eventos se repetem há milhões de anos e fazem parte da dinâmica da terra. Contudo, a humanidade passou a viver um cotidiano de citadinos, e concentraram-se em áreas urbanas que crescem a proporções espetaculares. Tóquio, por exemplo, concentra, somando-se a população de todo seu entorno, mais de 30 milhões de pessoas. Isso transforma essas catástrofes naturais em tragédias humanas, devido a quantidade de pessoas que são atingidas. A rapidez com que a informação se desloca pelo mundo amplia, em muito, as repercussões, principalmente pela maneira como a mídia trata o assunto. A seu feitio, espetacularizando a notícia e causando mais pânico do que o próprio evento já proporciona. O efeito, pela forma como essas notícias são passadas, é como se nós fossemos afetados diretamente por esses eventos. Mesmo a milhares de quilômetros de distância.


O TRAUMA NUCLEAR

O agravamento da tragédia japonesa tem outro capítulo. Polêmico historicamente. O fato de uma usina nuclear, em Fukushima, ter sido atingida e liberado radiações nucleares cuja dimensão, até o momento em que escrevo esse texto, é desconhecida. A possibilidade de essa radiação atingir Tóquio tornaria a tragédia em uma escala impossível de prever. Aguardamos com ansiedade todos os trabalhos feitos no sentido de conter o vazamento radioativo e esperamos que essas previsões mais pessimistas não se confirmem. Até lá só nos resta torcer para que mais vidas humanas não sejam perdidas e outras não fiquem com sequelas para o resto da vida. Quanto às informações que nos chegam, elas jamais trarão a verdade em sua totalidade. O governo japonês tentará evitar que o pânico se espalhe, e, portanto, deixará de dar a notícia de acordo com o fato real e o verdadeiro perigo que o cerca. Embora isso possa ter um efeito contrário.

Quanto a isso, o melhor é torcermos e esperarmos. Mas, no tocante ao impacto que tudo isso causa no mundo, creio que podemos fazer algumas conjecturas, baseando-nos em análises geopolíticas e em como a crise econômica estava afetando o Japão.


AINDA REFLEXOS DA CRISE ECONÔMICA DE 2008

O Japão foi um dos países mais afetados pela crise econômica. As medidas desesperadas do governo daquele país incluíam deportar estrangeiros, como os dekasseguis brasileiros e depositar ienes na conta corrente do cidadão japonês para aquecer o consumo. Nada disso impediu que o país entrasse em uma recessão, seguindo-se o efeito dominó da enorme bolha especulativa causada por Wall Street em 2008.

Ainda sem conseguir sair dessa situação de crise, e tendo perdido o posto de segunda maior economia do mundo para a China, os efeitos do terremoto e mais as conseqüências do vazamento nuclear deixará a situação econômica japonesa em situação deplorável. Além do desconforto em ter que depender da ajuda de um vizinho que outrora teve seu território invadido pelos próprios nipônicos, e com os quais disputa na região posições estratégicas no tabuleiro geopolítico mundial. Ou disputava.

Como a economia mundial está profundamente interligada, seguramente os destroços da economia japonesa atingirão todos os países, em especial Europa e Estados Unidos. Que também ainda encontram-se enredados na mesma crise iniciada em 2008. Em entrevista ao Canal de TV Bloomberg, Nouriel Roubini, economista que primeiro alertou para o estouro da bolha especulativa, opina que inevitavelmente a crise se intensificará no Japão. A queda da bolsa de Tóquio, mesmo com forte injeção de dólares por parte do Banco do Japão é um sintoma disso. Aliado ao desespero que se abate sobre trabalhadores de várias empresas estrangeiras, cuja preocupação é fugir da ameaça nuclear. Portos e aeroportos afetados pela Tsunami, que varreu veículos e mercadorias, junto com milhares de pessoas, dão a dimensão exata das dificuldades que o Japão terá em se reencontrar. Até lá, a tendência é que suas dificuldades afetem seus principais parceiros, e dentre eles, os EUA.

Não bastassem as guerras desastradas do Iraque e do Afeganistão, e da sequência de revoltas em países árabes até então sob forte influência estadunidense, os EUA vê um de seus principais parceiros entrar em uma crise sem precedentes. Tanto pela economia, cujos reflexos o alcançará, como pela posição geopolítica daquele país, essa é mais uma situação a causar transtornos para uma potência nitidamente em declínio, apesar de ainda deter a hegemonia econômica mundial.

Embora com um PIB um pouco distante da Alemanha, não é improvável que o Japão venha a perder o posto de terceira maior economia do mundo. Pior do que isso, para os EUA, é a absoluta fragilidade que impedirá o Japão de poder fazer frente ao poderio crescente da China em uma região também de grande interesse geoestratégico para os EUA, a península coreana.

A tendência, a prosseguir todo o pânico que está girando em torno do desastre nuclear, é que sejam retomadas as discussões entre as duas Coréias, a fim de reintegrá-las em um só Estado-Nação (registre-se que isso não é de interesse dos EUA). Com isso cresceria mais ainda a influência chinesa, acelerando um processo de fortalecimento da China como potência hegemônica mundial no século XXI. Bem antes do que tem sido previsto pelos estudiosos do assunto. Apesar de, no momento, os EUA ainda manterem-se disparados em primeiro lugar no ranking dos países com maior PIB do mundo, o dobro do PIB Chinês. O problema é que enquanto um cai, embora de forma lenta, o outro sobe aceleradamente.


EUA DE OLHO NA AMÉRICA LATINA E NO PRÉ-SAL

Desesperados, ao ter que lidar com diferentes crises por todos os lados, inclusive internamente, o Governo Obama tenta retomar sua influência na América Latina. A visita ao Brasil, cuja presidenta tomou posse a menos de três meses (o que pela primeira vez acontece antes de um presidente brasileiro visitar aquele país), demonstra essa necessidade de o presidente dos EUA se antecipar e tentar recompor uma relação política e econômica que ficou estremecida durante o Governo Lula.

Enquanto isso, às suas costas, ficaram os protestos com milhares de trabalhadores, a maioria do serviço público, opondo-se às políticas econômicas que visam jogar nas costas dos trabalhadores todo o serviço sujo feito pelos especuladores. O corte de direitos, principalmente através de uma lei que proíbe negociações trabalhistas, levada a cabo pelo governo ultraconservador do Estado do Wisconsin (ligado ao Tea Parfty), tem levado dezenas de milhares de pessoas às ruas.

Os estudantes secundaristas realizaram sexta-feira (18/03) uma greve geral e uma grande manifestação. E algumas notícias dão conta de que esses protestos já estão se espalhando por outros Estados, com os trabalhadores se prevenindo contra medidas semelhantes. Lamentavelmente, seguindo a lógica de submissão aos interesses estadunidenses, a mídia tradicional não mostra as manifestações e não dão nenhuma repercussão a essas lutas.

Não são atos direcionados contra o governo Obama. Mas refletem um momento crítico naquele país e ainda conseqüência da crise iniciada em 2008. O próprio Tea Party é um ovo brotado dessa serpente, parafraseando Ingmar Bergman, e o seu filme (de 1979), que trata do nascimento do nazismo na Alemanha pós-primeira guerra mundial.

Os terremotos dos últimos meses, desde os que tratamos apenas metaforicamente, quando nos referimos às revoltas árabes, até os reais abalos sísmicos que estremeceram o Japão, deixarão conseqüências marcantes na economia e na geopolítica mundial. Isso indica que a recuperação econômica sofrerá um revés, e seguirá mais lenta do que tem acontecido até então.


O CERCO À LÍBIA

Nesse quadro, não há dúvidas que EUA e aliados sofrerão mais duramente o golpe. Resta apenas aquela alternativa comum às crises de proporções como essa: a eclosão de uma guerra. As medidas recentes tomadas contra a Líbia (medida completamente oposta ás atitudes em relação ao Bahrein, invadido por tropas sauditas para ajudar a monarquia decadente) sinalizam em direção a uma guerra, de proporção mundial. Talvez só assim para alterar os rumos das transformações geopolíticas que tendem a por fim a hegemonias que atravessaram todo o século XX.

A dúvida é saber se a economia desses países tem fôlego para suportar mais uma guerra.

São conjecturas. É impossível escrever o futuro, só podemos inventá-lo a partir de nossas análises. O que pensavam as pessoas na manhã do fatídico 11 de setembro de 2001, quando o World Trade Center foi atingido? E o que esperavam os japoneses da recuperação de seu país no dia 11 de março de 2011, dia do terremoto seguido do tsunami? As previsões esbarram no acaso, nas dinâmicas da terra e do mundo globalizado, na ganância que move os senhores da guerra e nas diatribes dos que tem sede de poder.



IMAGENS:

1. g1.globo.com; 2. .portalrg.com.br; 3. reidacocadapreta.com.br; 4. wapedia.mobi; 5. voarnews.blogspot.com;6. cartamaior.com.br; 7. guiaglobal.com.br; 8. planobrasil.com; 9. ponto.outraspalavras.net

sábado, 12 de março de 2011

INSIDE JOB – A PERVERSÃO DO CAPITALISMO

Sensacional! Eu não poderia encontrar uma palavra que expressasse melhor a minha satisfação pelo que vi. Estou me referindo ao documentário “Inside Job”, premiado com o Oscar 2011, denominado em português Trabalho Interno, sabe-se lá por que.

Segundo Luis Gonzaga Beluzzo(1) Inside Job é uma expressão idiomática e não caberia uma tradução literal. O documentário é dirigido por Charles Ferguson, que não chega a ser um cineasta famoso. Empresário e formado em matemática ele conseguiu realizar um trabalho brilhante que consegue expor com rara clareza todo o processo que culminou com a grave crise econômica de 2008, cujo ápice se deu com a quebradeira de três das principais instituições financeiras dos EUA: Lehman Brothers, Merrill Lynch e AIG, e com o efeito cascata gerado por especulação desenfreada com o uso de hipotecas e empréstimos subprimes.

Aconselho a todas as pessoas, que tem interesse em saber o real funcionamento do sistema capitalista, nessa etapa de financeirização, e inclusive, da mais completa e definitiva relação entre aqueles que controlam o dinheiro e o Estado, a assistirem Inside Job. E também para melhor entender essa relação com o poder político, que determina a maneira como se controlam os mecanismos que garantem a acumulação da riqueza nas mãos de uma ínfima minoria. Tudo isso é mostrado às claras no documentário. As entrevistas, algumas delas feitas com personagens que estiveram no centro do escândalo, chegam a ser hilárias, diante da maneira como Ferguson derruba todos os argumentos que são apresentados a partir de uma competente pesquisa com informações sobre o envolvimento de cada um abertamente ou feito de forma dissimulada.

Tudo começa e gira em torno da chamada “desregulamentação”. Naquele ano de 2008, quando estourou a crise econômica, na primeira aula que dei para uma turma de Geopolítica, após apresentar um outro documentário, igualmente imperdível, “Enron, os mais espertos da sala”, escrevi no quadro este palavrão – desregulamentação – e disse aos alunos que me assistiam que certamente dali em diante eles ouviriam muito essa palavra. Eu já tinha informações, por leituras alternativas na internet em blogs como Carta Maior, Vermelho e acompanhando a revista Carta Capital, que a crise já se avizinhava. Afinal, desde o final de 2007 (e agora se sabe, bem antes, como é mostrado em Inside Job) era perceptível aos analistas independentes, mais críticos do comportamento neoliberal, que se aproximava uma grave crise imobiliária nos EUA. Resolvi começar minhas aulas, então, tratando dessa temática, porque pelas leituras que eu fazia era possível perceber que teríamos pela frente uma crise de uma enorme gravidade, de tal forma que colocaria em xeque toda a política neliberal, de desgulamentação e de evitar que o Estado estabelecesse formas de controle sobre os ganhos de capital e sobre a movimentação financeira mundo afora.

Desregulamentação, enfim, veio a ser todo o processo político e econômico que possibilitou uma enorme virada na economia mundial e deu início ao que passou a se chamar “Globalização”. Partia-se do princípio que era necessário a economia ver-se livre de todas as amarras que eram impostas pelo Estado e garantir ampla liberdade para o comércio mundial. Mas, o que não se percebeu no primeiro momento, era que essa liberdade reivindicada tinha como alvo principal a movimentação do capital financeiro pelo mundo. Claro, também para as mercadorias. Mas a mercadoria mais importante a ser “libertada” era o dinheiro, garantindo-se a especuladores todas as possibiidades de “inventar” fórmulas que garantissem às grandes corporações aumentar de forma espetacular os seus lucros.

Transformou-se, assim, o mundo em um verdadeiro cassino e fez de analistas e acadêmicos das famosas escolas de administração, economia e finanças dos EUA, espertos oportunistas que foram os responsáveis para teorizarem, tornarem-se consultores e até mesmo assumirem cargos elevados da alta administração das finanças estadunidenses. Já nos anos 1980, do século XX, François Chesnais(2) e Perry Anderson(3), críticos da forma como se dava a globalização financeira, acusava ter sido criado nas escolas de administração dos Estados Unidos, tanto o termo “globalização”, assim como a idealização de toda a política neoliberal.

Na esteira da crise do socialismo o caminho abria-se para um discurso que procurava determinar o fracasso de uma política de cunho social a partir da ação do Estado e tentava convencer a todos, e conseguiu transmitir isso à maioria das pessoas, inclusive os mais pobres, que o capitalismo era a única alternativa capaz de solucionar os problemas do mundo. Desde que se garantisse liberdade àqueles que visavam investir seus capitais em rentáveis negócios de forma a espalhar desenvolvimento por toda a parte.

O que não se via, mas que viria a ser a essência das novas políticas econômicas adotadas pelos quatro cantos do mundo, a partir de mecanismos implementados via FMI, Banco Mundial e outras “governanças” globais que se tornaram mais fortes do que os Estados Nacionais. À exceção, claro, daqueles que davam as cartas e fortaleciam seus sistemas financeiros, e ao mesmo tempo criavam leis que davam todas as liberdades para que grandes corporações transgredissem até mesmo os limites da usura e da ganância. Se é que há limite para tais perversões.

Enquanto a grande mídia mundial, deslumbrada pelo papel que a propaganda e/ou marketing passava a ter, manipulava e escondia a verdadeira face do que estava se espalhando pelo mundo, vendendo a idéia de modernização e progresso, poucos, muitos poucos, ganhavam milhões em todo esse processo. Esse é um detalhe a ser observado quando se assiste Inside Job, as cifras citadas são de valores grandiosos, a mostrar que a desgulamentação abriu as portas do “inferno” para todos os tipos de gananciosos e criminosos financeiros (ironicamente Fergusson começa o documentário dizendo que o mesmo teria custado mais de 20 trilhões de dólares, soma gasta para cobrir as quebradeiras do sistema financeiro estadunidense e mundial).

Tudo isso à custa do crescimento da pobreza no mundo, principalmente em países de onde se retirou todos os tipos de investimentos produtivos, principalmente a partir da pressão para que o Estado se afastasse de determinados setores da economia. O resultado disso se assiste hoje também com a crise da produção de alimentos e o encarecimento dos mesmos, afetando principalmente a população mais pobre.

Hoje, com a extensão da crise para todos os continentes, com menor impacto em alguns poucos países que se apoiaram em um mercado interno em expansão, percebe-se com maior clareza todo o estrago feito pelas políticas neoliberais. Mas, isso não significa que os agentes responsáveis pela quebradeira, pela ação gananciosa que ampliou a pobreza inclusive em países como os Estados Unidos, tenham sido punidos por isso. Ao contrário, o próprio documentário mostra que muitos deles ocupam hoje cargos importantes na estrutura administrativa daquele país, indicado por Barack Obama, ilusoriamente visto como a saída para o caos econômico que os atingiu. O documentário explica isso.

Sugiro que antes de verem Inside Job, assistam outros dois documentários, que eu inclusive já citei aqui mesmo neste blog, quando apresentei a proposta do mini-curso que realizei, “Decifrando o sistema capitalista”. O primeiro deles, que falei anteriormente, é “ENRON, os mais espertos da sala”, o outro, CORPORATION, e se tiverem tempo, vejam também, de Michael Moore, Capitalismo, uma história de amor. A partir daí será difícil entender porque tantos defendem que o capitalismo é o melhor sistema para a humanidade.

Seria cômico, se não fosse trágico.

O que deduzimos de Inside Job é que a maioria dos seres humanos não vivem no sistema ali mostrado. Vivem sob ele. Quero dizer que a enorme maioria das pessoas vive no submundo do que se pode caracterizar como Capitalismo. Algo já dito, de outra maneira, pelo historiador francês Fernand Braudel, para quem o capitalismo deveria ser dividido em uma economia superior, onde se faz o capital, e uma economia inferior, onde praticamente as pessoas trabalham e produzem para sobreviverem. Aí se encontra a enorme maioria da população. O impressionante é a quantidade daqueles que, vivendo nesse submundo, são submetidos à uma verdadeira lavagem cerebral e acreditam poder atingir a riqueza daqueles que controlam os meios pelos quais ela é conquistada. Talvez isso explique, pela ganância que caracteriza sempre essa obsessão, porque há tanta corrupção no mundo.

Mas é evidente que creio ser possível superar os abusos do capitalismo. Pode-se mesclar algumas coisas que são positivas, com a necessidade de se distribuir a riqueza de forma mais democrática. E o Estado é essencial para isso, portanto é necessário que o mesmo possa regular os abusos cometidos por verdadeiros psicopatas financeiros (como os apresentam o documentário Corporation). Não sou pessimista. E jogo no time dos que acreditam que um outro mundo é possível!


NOTAS:

(1) Inside Job, documentário imperdível. Artigo de Luis Gonzaga Beluzzo, publicado originalmente no jornal Valor Econômico. (http://fmauriciograbois.org.br/portal/noticia.php?id_sessao=12&id_noticia=4957)

(2) CHESNAIS, François. “A emergência de um regime de acumulação financeira” in Praga, estudos marxistas, número 03. São Paulo: editora hucitec, 1997.

(3) ANDERSON, Perry. “Balanço do neoliberalismo”, in SADER, Emir e GENTILI, Pablo (org.), Pós-neoliberalismo – as políticas sociais e o Estado democrático. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1995