segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

UFG PRA VOCÊ! DIVERSIDADE E QUALIDADE.

Íntegra da Entrevista com o Prof. Romualdo Pessoa, publicado no Jornal do Professor, da Adufg-Sindicato, nº 36 – Janeiro/fevereiro de 2017.
Eleição da Reitoria da UFG – “Quem disputar comigo virá para o debate” – Prof. Dr. Romualdo Pessoa

O professor já se colocou à disputa lançando seu nome.
Romualdo Pessoa - Sim, eu quis fazer com certa antecedência porque a universidade vem de dois processos eleitorais em chapa única, tanto na reeleição do professor Edward como a eleição do professor Orlando. A universidade cresce em debates e discussões e esses dois processos foram frágeis pela ausência de um aprofundamento das questões que estavam postas em cada um desses momentos. Quem vier a disputar a eleição junto comigo deve vir com esse espírito para debater aquilo que propor para a universidade.
O que o motiva, inicialmente, então é essa necessidade do debate?
É um diagnóstico que eu tenho sobre a maneira como a universidade tem funcionado. A UFG recebeu muitos recursos em seu processo de expansão, acentuado e acelerado. Os governos Lula e Dilma destinaram montantes significativos, que foram aplicados em laboratórios e diversos cursos de pós-graduação, o que era necessário, mas por outro lado isso criou ilhas isoladas de saberes. A universidade carece de uma relação maior entre as diversas áreas. Essa situação de projetos isolados, a meu ver, não é um projeto de universidade. Ela tem que ser um todo. O processo de expansão gerou isolamento e competição entre diversas áreas. Muitas áreas de pesquisas que não são ligadas ao mercado acabam fragilizadas. Há um desequilíbrio nesse processo e precisamos discutir isso. Por último, houve uma acomodação em se pensar de que maneira esses recursos seriam melhor aplicados, de que forma o processo de expansão seria sustentado nos anos seguintes. Faltou uma discussão sobre isso e nesse momento, com recursos muito menores, em função das condições políticas e econômicas do país, é preciso refletir sobre o modelo de universidade que queremos. Uma universidade com foco nos cursos com mais aceitação no mercado ou uma universidade mais reflexiva, crítica, tolerante com as concepções diferentes e mais sintonizada com as questões da sociedade?
Fale mais sobre essa acomodação.
É sobre o perfil da universidade. Universidade para quê, para quem? É uma universidade inclusiva mas que perde sua capacidade crítica. O processo de inclusão não veio acompanhado de um processo que reflita a realidade brasileira. Um desequilíbrio entre cursos mais focados no mercado e as licenciaturas, o que possibilitou uma grande evasão em cursos fundamentais para a sociedade e para a preparação de jovens que ingressarão na universidade. Há um desequilíbrio também porque, na medida em que houve muito recurso para pós-graduação e pesquisa – as próprias contratações de professores tinham como foco fortalecer a pós-graduação – houve uma fragilização da graduação, principalmente em cursos necessários para os ensinos médio e fundamental.  Precisamos refletir sobre o perfil do formando que oferecemos para a sociedade. Acomodação é se contentar com o fato de que muitos recursos foram destinados à universidade sem discussão do perfil dessa universidade. Não houve grandes debates mesmo num dos momentos mais críticos, que foi essa transição política dos últimos tempos. A universidade não contribuiu com a discussão, nem internamente. A consequência disso foi o crescimento de um processo de intolerância também dentro da universidade, de não aceitação de opiniões diferentes e de imposição de ideias. Isso se choca com a própria razão de ser da universidade, que por essência tem que ter concepções divergentes, que tem que ser aceitas e debatidas. Não se pode impor pela força. E nos últimos anos é o que vemos, inclusive uma perda de autoridades. Tanto de dirigentes como de professores, houve agressões nesse processo todo. Carecemos de uma reformulação, retomada de rumo, naquilo que nos faz universidade, uma noção de totalidade, de necessidade de interação entre as diversas áreas e na capacidade criativa. Só a pesquisa não basta. É preciso extrair algo de novo, de inovador. Muitas teses reafirmam o que já foi dito, mas não dão passo além do que é investigado. Precisamos estimular a juventude a ser criativa e inovadora, e não há como isso acontecer se não analisarmos criticamente e com liberdade de criação.
O professor tem sido crítico a possibilidade de lançamento do nome do professor Edward. Por quê?
As gestões do professor Edward foram produtivas, principalmente quanto à expansão, o que decorreu do momento que o país viveu. Todo sistema universitário se expandiu aceleradamente, tanto institutos tecnológicos quanto universidades. Mas eu questiono a reeleição. Eu sou candidato para quatro anos. Nossa função maior na universidade não é ser dirigente ou gestor, mas ser professor. Professor Edward foi candidato a reitor com a proposta de não ser reeleito e terminou reeleito. Saiu para ser candidato a deputado federal pelo PT, não logrou êxito. Um retorno do professor Edward seria a continuidade de oito anos de gestão com mais quatro do professor Orlando, que saiu do mesmo grupo. Eu não me lembro, de todo tempo que estou na universidade, desde minha militância estudantil até hoje, de situação parecida. Um professor eleito, reeleito, que volta e que pode ser candidato a um quarto mandato. Mesmo que ele diga que não será novamente candidato à reeleição, não podemos saber, porque ele falou na primeira vez que foi candidato. Isso é ruim para a universidade.
Por quê?
Porque reforça a crítica que me faz candidato, tirar a universidade da acomodação em que ela se meteu. Aquilo que eu chamo de "normose", a doença da normalidade. Aceitamos determinadas situações como normais quando elas não são normais. Depois é que percebemos equívoco de não renovar, não mudar. A mudança faz parte da essência da universidade. Além disso a manutenção de um mesmo grupo por mais de uma década no controle cria vícios, burocratiza excessivamente determinados cargos, que são inclusive repetidos para as mesmas pessoas e não dá oportunidade para avançar. Precisamos avançar naquilo que já foi constituído. Por uma dificuldade de gestão de quem lhe sucedeu, e não encontrando nomes a altura para o processo eleitoral, volta o professor Edward, que foi reitor num momento de vacas gordas, para ser uma espécie de salvador da pátria? A universidade não precisa de salvador da pátria, uma questão inclusive em discussão no país. Precisamos de coragem para discutir nossos problemas e as condições em que esses problemas foram criados. Apesar de toda expansão, muitos problemas se originaram na maneira como se deu a gestão nesse período, inclusive nas relações internas da universidade, em que perdemos muito da autoridade e da liturgia de determinados cargos.
Que problemas, por exemplo?
As invasões(*) da reitoria, a humilhação ao próprio reitor em determinadas situações, agressões a professores. Em determinados momentos é necessário usar o estatuto da universidade para que não percamos o controle. Gerir bem a universidade evidentemente depende de uma equipe competente para isso e da capacidade de gerir pessoas, mas acima de tudo de liderança. A universidade carece de liderança, elemento fundamental. Não é só liderança na figura do reitor, mas também daqueles que estão à volta do reitor e daqueles que estão nos departamentos, unidades. Tem faltado muito assumir responsabilidades. Há um excesso de democratismo na universidade e de burocracia. O fato de a autoridade não assumir suas responsabilidades e delegar a autoridades inferiores as discussões com seus pares, para dali tirar uma opinião (inferiores no sentido de estarem abaixo hierarquicamente). Esse processo é longo e termina se perdendo. Há determinadas situações em que você precisa dar respostas imediatas. Se você não dá, a situação foge do controle. Isso tem acontecido nos últimos anos, tanto na gestão do professor Orlando como nas gestões do professor Edward. Considero também criar um gabinete de crises, para acompanhar as demandas que existem em todos os setores da universidade.
(*) Há questionamentos sobre o uso do termo “invasões”, em detrimento a “ocupações”. Quando de minha militância no movimento estudantil não tínhamos ressalva ao termo “invasão”, mas não ocupávamos por tempo indeterminado os espaços na universidade. Entendo a preocupação dos movimentos em estabelecer uma diferença, sob argumento que esses espaços são públicos. Mas discordo da estratégia adotada e fui franco nessa avaliação em minhas aulas, embora tenha respeitado e dado apoio às ocupações, até que houve a invasão da Assembleia dos professores e as agressões que se seguiram. A partir daí me mantive afastado. Na gravação falei "invasão", mas para dar um sentido diferente ao movimento.
JP – Qual avaliação o professor faria da gestão Orlando?
Ele pegou a UFG numa situação complicada, em função de débitos da gestão anterior, do professor Edward e num momento em que aconteceram cortes de orçamento, ainda no governo Dilma. Isso criou muita dificuldade de gestão, o que demandou muita habilidade não só em gerir recursos, mas habilidade política para conseguir novos recursos. E creio que um aspecto que poderia ter sido melhor conduzido na gestão do professor Orlando foi nos momentos de crise interna na universidade, em que equivocadamente alguns grupos internalizaram as lutas, quando elas deveriam ser externalizadas. Faltou um pulso mais firme nessas situações. O diálogo foi aberto, mas é inadmissível que determinados grupos ajam com radicalidade e sectarismo quando uma gestão se abre ao diálogo. E há um limite para o diálogo. A partir do momento em que a atitude radical não dialoga mais é preciso agir com autoridade, exercer o que está contido no estatuto da universidade. Faltou isso em alguns momentos, principalmente nas primeiras ocupações, o que levou essas situações se repetirem e quase fugiram do controle. Houve uma preocupação justa do professor Orlando para que não houvesse confronto de manifestantes com forças policiais, mas essa situação chegou ao ponto de quase haver necessidade de tropas dentro da universidade porque o problema não foi resolvido no começo. Ademais, a liderança não se faz no gabinete, mas na presença cotidiana em todas as partes da universidade, é preciso se antecipar a determinadas situações e estabelecer um diálogo frequente e presente nas unidades no ano inteiro. Ter contatos com professores e técnicos, saber de suas demandas, não esperar que os sindicatos peçam audiências. E também dos estudantes, que são diversos grupos, que se formam por demandas específicas, de gênero, de questão racial, de problemas sexuais. Grupos que fazem com que o movimento não tenha um centro único e as entidades estudantis sozinhas já não mais representam todos esses segmentos, porque inclusive alguns deles não querem. É preciso saber o que está acontecendo, o diálogo deve ser permanente. Conhecendo essas demandas e procurando resolvê-las, demonstrando a esses movimentos e entidades que há interesse em resolver essas questões, é evidente que você desarma qualquer ação mais radical. O reitor tem que percorrer mais a universidade.


Quando eu estava finalizando a organização e revisão do texto dessa entrevista, publicada em parte no Jornal do Professor da UFG, tomei conhecimento de uma reportagem publicada em um tabloide semanal de Goiânia, onde, de forma capciosa tenta desqualificar e estigmatizar minha candidatura, em detrimento de um nítido apoio a outro candidato a reitor, que somente agora se declara como candidato, embora já tenha sido reitor por duas vezes. Imediatamente, indignado, compartilhei nas redes sociais uma resposta me contrapondo veemente a esse tipo de ardil, em que se utiliza o péssimo jornalismo para confundir, em vez de informar honestamente. Reproduzo essa resposta abaixo:
AVISO A JORNALISTAS DESAVISADOS E/OU MAL-INTENCIONADOS: NESTE ANO A UFG VAI DEBATER SEU RUMO. E EU ESTAREI FIRME NO PÁREO.
Que tipo de jornal e jornalista escreve uma reportagem, te cita e dá informação categórica sobre você, sem lhe ouvir e saber se aquilo que diz respeito a você e a sua posição, é verdade? Certamente é daquele tipo que não merece crédito, e o que publica segue a linha do chamado “jornalismo chapa branca”, que somente apresenta a versão de candidatura oficial, não sei se pago ou por questões ideológicas. Em um caso ou outro não é jornalismo, é do típico tabloide que não está preocupado com isenção ou com verdade. Estou falando de reportagem publicada por um semanário goiano, que nitidamente faz propaganda de uma candidatura apresentada como a de um “salvador da pátria”, e alega que a minha candidatura a reitor “tende a sair do páreo”. Já postei  aqui que existe uma central de boatos, que esse tabloide repercute, tenta usar a tática de repetir uma mentira várias vezes para que assim ela se passe por verdade. Vou reafirmar aqui e peço aos amigos e amigas que compartilhem até chegar a esse despreparado jornalista e ao seu tabloide: minha candidatura é irreversível, e não faz parte de nenhum jogo, que não o objetivo de tirar a universidade da mesmice e da “normose”, da aceitação de imposição de nomes que julgam se perpetuar no comando da instituição. Se alguém se julga “salvador da pátria”, no caso, da Universidade, vamos tentar descobrir do que é preciso salvá-la. Ou seja, o que fizeram da UFG nos últimos anos que precisa ser salvo. Quem o fez? Que obsessão faz com que alguém julgue precisar retornar para “salvar” a UFG, depois de tê-la dirigido (de perto ou de longe) pelos doze últimos anos? Essas serão boas indagações para os debates que ocorrerão, para sabermos que universidade queremos. E creiam, reprodutores de boatos travestidos de jornalistas, eu estarei pronto para debater e discutir esses e outros problemas. A UFG não tem dono, e a comunidade universitária, professores, técnicos administrativos e estudantes, demonstrarão isso. Podemos fazer em nossa universidade algo diferente do que é feito nas disputas eleitorais tradicionais. E o primeiro critério é não faltar com a verdade. Estamos na luta! Porque É PRA FRENTE QUE SE ANDA!”


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terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

CRÔNICA DE UM MUNDO EM TRANSE – CAPITALISMO, UM SISTEMA FINITO (PRÓLOGO)

Em janeiro de 2012 escrevi uma série de artigos para este blog, que intitulei “Crônica de um Mundo em Transe”[i]. Foram seis artigos, ou cinco partes e um final. Mas não houve um fechamento definitivo, até porque a última parte, em que analisei uma nova etapa da guerra travada pelo Império, denominada “guerra ao terror”, com a substituição de tropas por um serviço de inteligência, espionagem, mais efetivo e sofisticado tecnologicamente, posto em prática com a introdução de uma novidade surgida da indústria da guerra e que predomina atualmente em diversas áreas por todas as partes do mundo: o uso dos drones. A partir dos anos seguintes, esse aparato tornou-se mais sofisticado e os assassinatos “cirúrgicos”, de enormes efeitos colaterais, dizimaram um número indefinido de vítimas, “terroristas” ou não. Isso me fez insistir na análise de como as ações desenvolvidas intensivamente para destruir e desestabilizar os inimigos do império por todo o mundo, onde isso fosse possível, tornaria a humanidade mais vulnerável e espalharia ódio e intolerância de forma indiscriminada. De lá para cá o mundo mudou, e para pior. E, ao invés de reduzir as guerras, ampliou-as e deu poder aos grupos sectários, disseminando mais ainda ações terroristas, que não ficaram restritas ao Oriente Médio e África, mas que atingiu duramente a Europa e até mesmo os EUA, apesar de todo aparato repressivo e de vigilância.
A crise econômica mundial se intensificou, tornou-se cada vez mais crônica, porque é de origem estrutural, e disseminou uma onda de perversidade gerada pela necessidade das classes dominantes retomar o curso dos acontecimentos, de forma a reestruturar o capitalismo e tentar tirá-lo de uma das piores crises de sua história. Tudo isso alimentou uma reação conservadora, potencializada pelas redes sociais, onde cada um individualmente, se sentindo uma voz “libertadora” em meio a uma multidão virtual, descarrega sua opinião apolítica, anti-política, políticamente incorreta, e absolutamente estúpida. São minhas impressões, feitas a partir de análises geopolíticas, mas sustentadas por uma ótica que me coloca em contraposição com os mecanismos criados pelas forças que dominam os mercados, as corporações, e as políticas que definem os rumos loucos de um mundo em transe.
Minhas análises decorrem de leituras acuidadas, de concordâncias com diversas opiniões[ii] manifestadas em blogs, revistas, livros e em documentários produzidos nos últimos anos, e muitos premiados, que retratam com bastante fidelidade o desequilíbrio na política mundial, provocado por uma estratégia que se dissemina há décadas, desde o começo da guerra fria, mas que nos últimos anos atingiu o limite da estupidez. Como já disse em outros escritos neste blog, apesar de toda a loucura existente por trás das ações geopolíticas dos EUA e seus aliados, houve uma nítida intencionalidade em cada uma delas, no sentido de desestabilizar dezenas de países, por meio de provocações de insurgências internas com o consequente esfacelamento de seus governos. Em alguns casos, a guerra civil foi fomentada quando alguns governos resistiram às pressões populares, insuladas por grupos organizados financiados por ONGs e alguns grupos que surgiam seguindo-se uma estratégia de deslocar o protagonismo dos partidos e tornar a política desmoralizada. Sem a capacidade política de estabelecer acordos, a regra que se segue é a guerra. E isso se dá de diversas maneiras, desde o enfrentamento bélico, gerador de destruição acelerada, como aconteceu na Síria; ou por meio da disseminação entre a população da desesperança, da descrença e da propagação do ódio e intolerância, tornando o país ingovernável, nos dois casos.
O desequilíbrio que atinge mundo, decorre de uma crise que teve seu ápice entre os anos de 2008 e 2010, mas que não pôde ser solucionada até hoje, gerando uma onda de insatisfação por todo o mundo e possibilitando que discursos ultranacionalistas antiglobalizantes apresentem como alternativas personagens anti-políticos, ou de comportamentos populistas e fascistas. A derrota da política dissemina-se para além das fronteiras e desconhece os poderios econômicos dos países por onde ela se espalha.
A partir de 2010 uma série de revoltas, fomentadas propositadamente afetaram diversos países, mas também ocorreram como decorrência da forma com que a crise econômica afetou cada um deles. Havia um clima de insurgência latente que potencializou essas ações. O aumento de desemprego, que afeta primordialmente as camadas mais jovens, na medida em que se fecham as possibilidades de acesso ao mercado de trabalho por aqueles que estão se habilitando, mas que não detém experiência para serem aproveitados numa realidade em que muitos devidamente especializados estão sendo dispensados de seus empregos. Seguramente essa foi uma das razões que levou a uma explosão de manifestações por países do norte da África e estendeu-se por todo o Oriente Médio. Mas a espontaneidade foi apenas no início dessas revoltas, a partir do momento em que se disseminaram entraram em cena outros atores, com objetivos bem definidos, desestabilizar governos situados estrategicamente, ou por seus governos serem reticente às políticas do Império e de seus aliados.
Na América Latina, que nas duas últimas décadas tinha dado uma guinada à esquerda, com a escolha pela população de governos progressistas que se dirigiam para uma outra direção, distanciando-se dos EUA e aproximando-se da China e da Rússia afetando o espectro geopolítico regional, esse desequilíbrio não ocorreu como consequência da crise econômica, embora ela fosse latente. Mas pelas disputas do poder local, estimuladas pelos interesses dos EUA em retomar sua influência nesses países. A estratégia, nesses casos, foi fomentar a desestabilização por meio de uma forte influência na política, fortalecendo os partidos conservadores; potencializando movimentos ditos independentes, que cumpriram o papel de desmoralizar a política; e, por meio de espionagem cibernética a identificação dos vícios historicamente consolidados no controle do poder. Assim, neste último caso disseminou no Brasil, em especial, uma espetacular investigação, iniciada, segundo Edward Snowden, pela vigilância na maior estatal brasileira, além dos principais personagens da política, blindando aqueles que sempre estiveram alinhados ideologicamente com os interesses estratégicos estadunidenses.
Mas a Europa não ficou imune a todas essas mudanças. Ela foi afetada não somente pela crise econômica que diretamente influenciou cada um dos países do bloco europeu, mesmo que de forma distinta no começo, mas que no último ano se ampliou voltando novamente a atingir o sistema financeiro, estremecendo o poderio dos principais bancos, principalmente na Itália e na Alemanha. Ao mesmo tempo, os efeitos colaterais das guerras travadas naqueles países que foram desestabilizados pela estratégia citada anteriormente levaram a uma das maiores migrações da história, com o deslocamento de centenas de milhares de pessoas oriundas principalmente daqueles países onde os governos foram derrubados ou estavam em vias de serem, causando uma falência quase total nos Estados.
Para completar as vicissitudes de futuros imprevisíveis, o “brexit”, com a saída da Grã-Bretanha da União Européia, numa decisão inesperada da população, tanto quanto a eleição de Donald Trump nos EUA. Inesperada, ma non troppo! São posições que refletem uma insatisfação com os rumos em que a economia e a política andam tomando, em cada um desses países, em particular, e no mundo, de uma maneira geral. O que se espera ainda, para os próximos meses, é uma guinada ainda mais à direita, com as eleições da França e da Alemanha, que já sentem a repercussão da derrota do establishment estadunidense, que apostara tudo na candidatura da Hilary Clinton, inclusive praticamente toda a grande mídia daquele país.
Ao mesmo tempo em que o mundo estremece, com crises incontroláveis por todos os lados, e deixa os estados-nação sem alternativa para conter as insatisfações geradas por essas situações, ampliam-se sentimentos de intolerância, de xenofobia, de comportamentos fascistas e neo-nazistas, inclusive o fortalecimento de partidos que defendem esses posicionamentos. As redes sociais disseminam muito mais rapidamente essas atitudes agressivas e reforçam na sociedade um sentimento de aversão ao outro que age, pensa e se comporta de maneira diferente dos padrões conservadores e/ou religiosos.
Tudo que ocorre são consequências nefastas da falência de um processo de globalização que prometeu uma coisa, mas que o resultado foi bem diferente. O deslumbramento com a rapidez com que se davam os negócios e os deslocamentos de mercadorias pelo mundo, escondia o essencial; o fim das fronteiras só fez ampliar a concentração da riqueza. Nesse período, que corresponde a cerca de trinta anos, desde as últimas décadas do século passado, e das primeiras deste século, o sistema despertou sua face cruel, e a ganância se apresentou como o verdadeiro motor que movimenta o capitalismo, tendo a usura como coadjuvante. Nunca, em toda a história da humanidade, indivíduos se esforçaram tão intensamente para tornar-se cada vez mais ricos, sem que houvesse um limite para atingir. Ao mesmo tempo, disseminou-se como uma cultura entre as pessoas comuns, estimuladas por dogmas criados a partir desses valores, de que o enriquecimento seria uma dádiva possível a todos, desde que fossem fiéis aos princípios do sistema, impulsionados por sofismas que desvirtuavam crenças religiosas milenares.
Naturalmente, uma tentativa de reestruturação do sistema, como se pretendeu com a globalização neoliberal, necessitaria de vir acompanhada por verdades ditas insofismáveis. O convencimento deveria ser um elemento fundamental, e crucial, a fim de consolidar entre as pessoas a fé inabalável na existência de um único caminho para a humanidade: o capitalismo. E a condição de se tornar vitorioso, ou vitoriosa, seria incorporar esse espírito, despertar os desejos inerentes à lógica capitalista e inebriar-se no consumismo desenfreado. Entramos numa era de ilusões vãs, e em lugar dos sonhos bucólicos a humanidade optou pela distopia, transformando a sociedade num ambiente opressivo, onde a necessidade de competir, e de se destacar em meio à intensa disputa pelo sucesso, nos legou a depressão como a doença do século, e, como consequência, uma era de intolerância, violência, racismo e estupidez se disseminaram aceleradamente pelo mundo, e destacadamente no Brasil, potencializado pela disputa política e pelo lamaçal de corrupção que desvendou uma parte de como funciona as relações de poder na falida democracia. Mas talvez democracia não seja mais o nome adequado para identificar o regime que norteia e conduz a política no capitalismo. Melhor seria considerar que vivemos em uma plutocracia. Ou numa cleptocracia. Qual será o fim dessa história? Porque haverá um fim, isso é certo, embora não possamos dizer em que momento preciso. Afinal, até mesmo o capitalismo é um sistema finito. Como todos os outros.
Analisarei na sequencia dessa crônica as situações particulares do Brasil, EUA, Europa e Rússia.



[ii] ANDERSON, Perry. A Política externa norte-americana e seus teóricos. São Paulo: Boitempo, 2015
BANDEIRA, Luis Alberto. A Segunda Guerra Fria. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013
 __________________. A Desordem Mundial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016
ESCOBAR, Pepe. Império do Caos. Rio de Janeiro: Revan, 2016
HARVEY, David. 17 Contradições e o fim do capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2016