segunda-feira, 8 de maio de 2023

A TROPICÁLIA, A MARGINÁLIA E O ESTÚPIDO PARLAMENTAR – HELIO OITICICA REDIVIVO

A marginália, ou cultura marginal, volta à evidência, sem que ninguém saiba o que seja, ou melhor, poucas pessoas sabem, porque a maioria conhece pouco de nossa história. Mais uma vez um trôpego parlamentar, em outra estultice de sua curta e estúpida carreira, e evidentemente não irei nominá-lo para que seu nome não ganhe destaque por aqui, um ambiente que difere daquele em que ele transpira toxidade e ódio, expõe uma obra de arte como se fosse uma apologia ao crime. Não sei se ele conhece a obra, creio que não, dado ao nível baixo de seus neurônios, mas independente disso, o que o próprio deseja é despejar ódio por meio de mecanismos perversos, que coloca a educação contra a parede, cria confusão propositalmente e busca angariar seguidores nesse universo que já se sabe ser enorme, por onde se pesca mentes incautas e idiotas de todos os matizes.

Mas há uma armadilha no meio do caminho, e, lamentavelmente, segmentos progressistas seja de partidos ou de movimentos culturais e sociais, estão embarcando numa onda e seguindo um caminho que está há anos sendo traçado por essas figuras nefastas da extrema-direita. A de provocar com temas de costumes, sexuais ou de gênero. Questões por muito tempo negligenciadas, e com as mudanças nas sociedades adquiriram condições diferentes daquelas legadas pelo passado, e que vem num processo de disrupção desde os anos 60 do século XX, mas que termina por submeter-se as oscilações políticas, nas conformidades de qual segmentos assume o poder, se de direita ou de esquerda. Independente disso, esses temas, e essas condições assumidas por pessoas por muito tempo estigmatizadas ou vítimas de preconceitos pela influência de religiões e seus valores conservadores, rompem barreiras e se empoderam, num movimento de enfrentamento àqueles empecilhos criados para tolher suas liberdades.

Como as sociedade são moldadas pelas ideias das classes dominantes, e de seus valores culturais e ideológicos, o embate se torna inevitável. Contudo, infelizmente, a onda conservadora impregnada por esses preconceitos termina por adquirir uma força avassaladora, instrumentalizada por oportunistas e hipócritas, que manipulam as mentes das pessoas, em sua grande maioria desinformadas, que seguem esses preceitos religiosos e sucumbem às mentiras, armações e medos disseminados perversamente. Nos últimos tempos isso se tornou instrumento para elevar alguns indivíduos pérfidos, e maldosos, a se tornarem referências nas redes sociais, e dessa forma galgar um mandato parlamentar, e até mesmo mirando o Poder, e conseguindo chegar lá. A mentira se tornou uma arma, e para além dela, a deformação da informação e a falsificação da realidade, utilizando-se de questões reais, existentes, mas apresentadas de forma completamente distorcida.

Ora, porque falo que há uma armadilha nesse processo. Esse caminho, e essas pautas, embora importantes e necessárias, tornaram-se o foco da extrema-direita, por envolver valores conservadores religiosos, e dessa forma desviar os olhares das pessoas para questões que são mais importantes em suas vidas, e que são responsáveis para lhes dar segurança e dignidade. Ou seja, o que esses setores querem é evitar se falar das injustiças sociais existente numa sociedade absurdamente desigual, do fato de existirem classes sociais que se conflituam pela lógica de funcionamento do sistema capitalista, da degradante condição de dezenas de milhões de pessoas submetidas à exploração de uma estrutura social que faz com que 1% da população, controle cerca de 70% da riqueza.

O egoísmo, a ganância e a usura, são temas que, embora abordados nos mesmos livros sagrados onde anacronicamente se tenta preservar valores e costumes, passam despercebidos por uma massa de pessoas oprimidas e exploradas. São essas mesmas pessoas, que carregam nas costas as dificuldades de vidas sofridas por conta dessas condições de desigualdades sociais, que caem nos discursos conservadores e são alimentadas pelo ódio transmitido por aqueles trânsfugas que o direciona para tornar suporte de uma estrutural social absolutamente indecente.

Quando a esquerda, e os movimentos progressistas, deixam de enfocar essas questões econômicas e sociais, dessas disparidades gritantes em uma pirâmide social invertida, e saem na defensiva contra os disparos de fakes news e manipulação de valores, perdem a possibilidade de criar as condições para que a população se conscientize de uma realidade na qual ela vive, mas que se distancia quando sucumbe aos discursos de ódio e de pregadores oportunistas.

No caso específico, de uma camiseta que reproduz uma obra artística de Helio Oiticica, há situações criadas que geram a oportunidade desses setores. O que quer dizer uma frase “Seja marginal, seja herói”? Se não houver uma contextualização, do significado da frase, até mesmo das palavras, e do objetivo do artista que a produziu, ela gera uma dubiedade que passa a ser explorada por essa canalha oportunista e fascista, nessa onda que está trazendo de volta movimentos obscurantistas e reproduzindo grupos neonazistas.

Para comprovar pela história que esse embate, e esse debate, não é novo, basta ver quando essa obra foi produzida. O contexto era de um período sombrio, na ditadura militar, no ano de 1968, e da ascensão de muitos movimentos culturais contestadores, na transgressão de valores burgueses, e alguns até mesmo psicodélicos, como forma da juventude se contrapor ao controle cultural e aos valores conservadores que se impunham pela repressão e submissão da sociedade, principalmente os mais jovens. Aqui no Brasil, nesse período ditatorial, a Tropicália levou a juventude ao êxtase e a um crescente de formas contestadoras às imposições culturais reacionárias, num movimento puxado por cantores e compositores, homens e mulheres que buscavam formas de vida sem controle, e sem a rigidez que aqueles valores culturais impunham. "Deixa eu cantar que é pro mundo ficar odara! Pra ficar tudo joia rara...", cantava Caetano Veloso. Odara é uma expressão que vem do sincretismo religioso, e exalta a positividade, de origem iarubá. O que se desejava era a liberdade de se encontrar o caminho para deixar a “cuca” e o corpo aberto. Era a busca pela liberdade, contra todas as formas de opressão.

A Marginalia repete a Tropicália pelas mãos de alguns artistas plásticos, no caso que analisamos Helio Oiticica assume um protagonismo enorme, se tornando um dos artistas que mais vão se destacar nessa linha. Anarquista, adepto portanto da aversão de toda a forma de controle, mas também oriundo de uma realidade em que a alta criminalidade e as condições sociais relegavam às comunidades a escolha por ver na “juventude transviada” o algoz dos repressores e terminavam por transformá-los também em heróis de uma periferia alçada permanentemente à condição de marginalidade, no sentido estrito da palavra, de viver à margem da sociedade. Periferia não somente no sentido geográfico, mas também social, ou daquele olhar que a geografia humana nos permite ver quando estudamos as áreas urbanas, completamente desiguais, mesmo nas condições em que a pobreza, na favela, está geograficamente situada em meio a áreas nobres, como no caso emblemático do Rio de Janeiro.

Nesse contexto podemos entender a frase de Oiticica, falecido em 1980: “Seja marginal, seja herói”. Porque é o que a condição social impõe a milhões de pessoas, em suas lutas cotidianas pela sobrevivência, onde se destacam as mulheres, e onde os pretos e pretas vivem em condições que foram criadas desde o fim da escravidão.

Qual o grande problema nessa história toda? Se usamos uma camiseta atualmente com a imagem produzida, artisticamente, por Oiticica, sem explicarmos todos esses significados e essa contextualização, ela vai certamente, como foi, ser transformada em uma arma da extrema-direita, pela própria dubiedade que ela exprime. Afinal, no que se transformou a palavra “marginal”, nessa sociedade desigual, onde as favelas, os bairros pobres, as periferias, se tornaram ambientes de resistência a um sistema injusto e absurdamente desigual? Viver nesses lugares, em muitos casos controlados por traficantes e milicianos, é conviver com essa dubiedade expressa na frase. Muito embora nos últimos anos muitas ações têm sido feitas para apresentar uma outra feição dessas áreas, onde vivem, em sua maioria, famílias trabalhadoras que sofrem e lutam cotidianamente de forma honesta pela sobrevivência.

Mas o preconceito, latente na sociedade, é explorado por fascistas e por esses políticos da extrema direita. De forma que, paradoxalmente, assusta até mesmo quem vive nesses ambientes. Principalmente se frequentarem grupos cristãos neopentecostais ou católicos carismáticos, de onde se destilam esses mesmos ódios. Embora eu não queira generalizar, inegavelmente, é fato, é como acontece.

Por fim, enfatizo, porque foi a razão dessa minha abordagem, precisamos levar o debate para o ambiente que a extrema-direita foge. Da discussão das desigualdades sociais, inclusive de suas origens, da aceleração do processo de enriquecimento de uma minoria, em contraposição ao crescimento da pobreza da imensa maioria da população. De uma economia, focada na especulação financeira, e do domínio de classes sociais que, nas cidades e no campo, exploram o trabalho de homens e mulheres, para acumularem riquezas sem a menor preocupação com a pobreza na qual está submetida milhões de pessoas, forçadas a viverem em condições marginais de existência. Por aí, precisamos elevar o nível de conscientização das pessoas pobres, convencê-las a se organizarem em associações, adquirirem consciência de classe e se confrontarem com a opressão burguesa, forçando a transformações sociais que nos possibilite encontrar outro caminho para a humanidade, e para o Brasil em particular. Até lá, ser marginal e ser herói, será uma condição dúbia que é imposta por essa realidade perversa e desigual que vivemos no sistema capitalista.

Quanto àquele trânsfuga, oportunista e hipócrita, que tenta tolher nossas liberdades, esse será esquecido como um lixo na história. Mas devemos combatê-lo implacavelmente com o olhar crítico a essa podridão social que ele deseja defender.

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*Acompanhe também essa discussão pelo meu canal no YouTube:

COMO COMBATER A CULTURA DO ÓDIO E A IGNORÂNCIA

https://youtu.be/okDVUanUUkM

segunda-feira, 1 de maio de 2023

ATÉ QUANDO OS CANALHAS FASCISTAS ATACARÃO AS LIBERDADES?

Imagem: Estado da Arte

O livro Fahrenheit 451, de autoria do escritor estadunidense Ray Bradbury, transformado em filme em 1966 pelas mãos do competente diretor François Truffaut, aborda o que seria uma sociedade distópica, onde a função de um dos principais personagens, um bombeiro, seria queimar livros, numa absurda inversão da lógica para sua existência. O contexto seria no período da guerra fria, e a intensa censura que se espalhava naquele momento, mas visto também como uma crítica mordaz ao fascismo e ao nazismo, e à perseguição à intelectuais, homens e mulheres que usavam da literatura para se opor às autocracias reinantes, às ditaduras, mas também àqueles modelos de democracia que buscavam por outros meios impedir que determinada opinião se disseminasse pela população, elevando os “riscos” de revoltas populares. Como naquele momento afetava os Estados Unidos.

Mas esse artigo, ou essas palavras que uso para abominar essa prática, que se mantém de forma despudorada mesmo nos dias de hoje, sob argumentos tacanhos de “agressão à moral e aos bons costumes”, por meio de hipócritas que escondem suas feições fascistas, não é uma resenha literária ou cinegráfica. O que tento aqui é destilar minha indignação, e dessa forma atrair e alertar um número maior de pessoas, contra as práticas hediondas, pérfidas e fascistas, que se mantém em curso, apesar de em parte derrotada nas últimas eleições.

Não bastasse a estúpida e idiota ideia de emplacar uma medíocre tese de “escola sem partido”, muitos oportunistas, alguns dos quais obtiveram apoio de uma massa descerebrada e alienada, conseguiram se eleger, pois descobriram que a estupidez, e as falas toscas, geram “likes” em uma sociedade transformada pelo medo e pela alienação política e religiosa.

E não é somente esses elementos que motivam a ação desses maus-elementos. Com perdão da redundância. Mas se descobriu nos últimos anos, que a apoteose do ódio, germinada pela desconstrução da democracia desde o impeachment golpista da ex-presidenta Dilma Rousseff, e florescida em meio a espinhos durante quatro terríveis anos de um governo liderado por um bronco desqualificado, potencializa também alguns indivíduos à condição de “mito”, ou nas brechas da democracia os transformam em parlamentares.

Essa forma de direcionar os olhares na política, e as ações parlamentares ou governistas, não foca no bem-estar das pessoas, ou da sociedade. Mas é uma postura perversa, que visa por meio do ódio impedir que as pessoas possam raciocinar por meio da liberdade de discussão e da boa prática política, ou até mesmo que possam adquirir capacidade crítica, com liberdade de escolhas sobre o que lê, vê e assiste, e, claro, como se comportar em suas individualidades e desejos.

São atitudes mesquinhas, visando se projetarem às custas de valores adquiridos culturalmente, por meio das religiões, mas que se perdem no tempo e não acompanham as transformações que acontecem de gerações em gerações, embora, paradoxalmente, retornem de tempos em tempos e se radicalizem.

Dessa forma procuram encilhar as pessoas, a partir de suas imagens vistas nos espelhos deformados que expressam mais do que a visão apresenta, como também aquilo que seus diminutos cérebros de parcos neurônios identificam como “perigoso”, dentro do que classificam “modelos” de sociedades, puras, puritanas, mas que não subsistem a uma criteriosa análise de seus padrões e comportamentos, escondidos nos escombros de uma moral hipócrita e malfazeja. Seus subterrâneos são podres, por onde transitam marginais engravatados, e representam o que de pior existe em um mundo desigual, de enormes concentração de riqueza nas mãos de poucos, que se curvam religiosamente ao prazer de suas fortunas, manchadas com o sangue de corpos inertes, frágeis, miseráveis, consumidos pelas dores vividas em um mundo real que esses apóstatas pretendem esconder. Ou culpar essas pessoas por suas desgraças. Isso sim, é abominável de se ver, mas que esses trânsfugas desejam esconder, ou apresentar como “desígnios divinos”.

Imagem: Omelete
Assim, tentam censurar, impedir que se possa, por meio da literatura, da ciência, do conhecimento real e objetivo, demonstrar que o mundo real é contraditório, cheio de injustiças. Para além dessa ignomínia, tentam impedir que as pessoas possam pensar e agir por si só, sem que “bombeiros” do inferno (numa referência a Farenheit 451) ajam como juízes da moral, a impedir a liberdade de cada um poder formar sua própria opinião, por meio dos caminhos que nos libertam do jugo opressor, seja ele qual for.

Impedir que os livros possam ser consumidos por quem desejar é uma prática nazifascista, inaceitável, absurdamente recorrente por uma atitude canalha oportunista, para além da interpretação ideológica, porque visa angariar seguidores desavisados, ou completamente ensandecidos pelos discursos de ódio, lamentavelmente nos últimos anos destilados também por diversos púlpitos e altares, de onde antigamente se viam partir vozes de tolerância e empatia.

Pode-se dizer, em seu favor despudorado, que esses indivíduos usam da liberdade para se manifestarem. Mas pode uma sociedade sobreviver a práticas corriqueiras de discursos que alimentam a intolerância e o desrespeito à própria liberdade das pessoas? Onde se encontra o limite, a linha mesmo que tênue que diga haver um ponto em que tais práticas devam ser abolidas, porque apostam, por meio de mentiras, tergiversações e falsas alegações morais, e impedem que as pessoas possam ser respeitadas em suas diferenças? É preciso que por meio dos mecanismos da democracia, do Estado de direito, se possa fechar as brechas que esses indivíduos encontram, em proliferar por meio de suas atitudes torpes, ações de linchamentos físicos e morais, que prejudicam determinados segmentos sociais, e até mesmo impõe riscos às vidas de pessoas pelo simples fato de fazer escolhas de vida que lhes convêm.

Por fim, vou direto ao ponto. Visto que isso que escrevo se refere a diversos atos e práticas ocorridas no Brasil, mas não só por aqui, nos últimos anos. Preciso dizer que o mote para este artigo partiu da minha indignação por saber que uma Universidade no interior do Estado de Goiás, na cidade de Rio Verde, se quedou para um comentário fascista, de um desses indivíduos, propagadores do ódio como forma de se manter ativamente nas redes sociais, e conseguir por meios desses objetivos pérfidos, angariar simpatias reacionárias e se projetar como parlamentar. Um político goiano, deputado federal, que já estimulou o ódio aos professores, pregando que alunos e alunas os filmem, caso algo dito em sala contrarie seus pressupostos ideológicos ultra-direitistas. E, por meio da pressão, tentem impedir que a realidade seja mostrada da forma como o conhecimento e a ciência deve se comportar.

O mais trágico disso é ver uma universidade se rebaixar ao ponto de retirar um livro de literatura, da lista de indicações ao vestibular, sob o argumento do mesmo ser propagador de pornografias. Obviamente, visto assim pela mente pornográfica desse pervertido parlamentar.

Mas, se nem mesmo uma universidade resiste a essas pressões estúpidas, e garante a liberdade de expressão e valorização da literatura universalmente, que tipo de futuro estaremos construindo nesses tempos tóxicos onde se permite estabelecer um index, de livros proibidos, tal qual se fazia durante o período da inquisição, séculos atrás, durante as longas e terríveis sombrias noites medievais, quando as fogueiras e os enforcamentos eram estabelecidos como punição a quem ousasse contrariar os valores definidos pela igreja.

Não há dúvidas, precisamos urgentemente de um novo iluminismo, para romper mais uma vez com as trevas que nos atormentam e desejam impedir que o conhecimento por meio da ciência, garanta às novas gerações melhores dias, com transformações sociais e tecnológicas que façam o mundo avançar, e não regredir como desejam esses canalhas que nos querem impedir de sorrir. Faço aqui, para finalizar de fato, uma alusão ao romance O Nome da Rosa, uma das grandes obras literárias de Umberto Eco, quando por meio de mistérios e crimes inquisitoriais, o que se pretendia era impedir que as pessoas naquele período das trevas medievais, tivessem acesso a um dos livros da poética, de Aristóteles, o que trata do riso. O argumento era que estimular as pessoas ao riso impedia que elas sentissem medo. E pelo medo, ódio e maniqueísmo, se torna mais fácil controlar mentes incautas. 

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sexta-feira, 21 de abril de 2023

CRÔNICA DE UM PAÍS EM TRANSE... NUM MUNDO EM TRANSIÇÃO

Já não é mais tão fácil, ou talvez nunca tenha sido, produzir conhecimentos sobre a realidade vivida, ou compreender os fatos que nos cercam e nos afetam direta ou indiretamente, em um mundo conectado onde as pessoas julgam saber de tudo, por meio de informações superficiais e abstratas.

Por essa razão, e por poder ver tantas opiniões se multiplicando aceleradamente pelos canais virtuais, blogs, sites, aplicativos, de forma resumida, e acintosamente antidialética, que me recolhi à minha insignificância. Ser observador em um mundo de “gênios”, conhecedores rasos de políticas e geopolíticas, nos angustia, isso é inegável. Mas, pelo menos evitamos ser afrontados tanto pelo maniqueísmo que impera resolutamente nos tempos atuais, mais do que em outros tempos, ou não; bem como não somos alvos de “cancelamentos”, ou de ataques estúpidos, por quem só deseja ler e ouvir aquilo que quer, nesse tempo alguns anos atrás já denominado de “era da pós-verdade”.

Mas resolvi retornar, e produzir um artigo na linha de outros que já escrevi em meu blog, com um título parecido com esse que uso neste: “Crônicas de um mundo em transe”.[1] Talvez essa minha publicação possa vir a despertar alguns desses sentimentos, e eu venha a sofrer os ataques de milícias virtuais, pérfidos vigilantes da estupidez que grassa e faz reacender as fúrias neonazistas e neofacistas. Mas também posso ser afetado pela reação ferina de uma esquerda que atualmente se equilibra entre os discursos identitários e a visão maniqueísta de mundo. Numa estranha fuga da realidade e da compreensão dialética de analisar e perceber as sociedades em meio a todas as suas contradições, e do entendimento que muito nos ensinou o legado marxista, de que devemos partir da observação da totalidade das coisas, e que, por meio das análises das partes que a compõem, e da necessária vinculação entre elas, só assim, podemos compreender o todo dentro de uma visão concreta, materialista e dialética de como esse mundo foi sendo construído e da sua existência real nos tempos atuais.

Elevar alguma dessas partes a condição de elemento prioritário no enfrentamento dessa realidade social, nos impede de compreender e de ter a noção exata da existência de classes sociais, de um sistema dominado por uma dessas classes e de uma estrutura que vai muito além dos embates específicos, e deve, sempre, nos levar diretamente para a compreensão das raízes de como toda essa estrutura foi sendo construída. E, se quisermos destruí-la, e queremos, porque é abjeta em sua lógica desigual, precisamos abalar os seus alicerces, e transmitir às novas gerações as observações sobre como as colunas que sustentam todo esse arcabouço de uma sociedade perversa na consolidação e na defesa de um sistema injusto e deformado, estão construídas sobre fundamentos ideológicos rasos, frágeis, manipuladores, mas que se sustentam no medo, na fé e religiosidade das pessoas, na ganância, na usura e no individualismo que explora o trabalho alheio e sobre ele eleva suas riquezas e as transmitem por gerações e gerações, pela perversão meritocrática do direito de heranças.

 

“O MUNDO É MUITO MAIS COMPLEXO DO QUE QUEREM NOS FAZER CRER”[2]

 

A pior coisa que podemos fazer, na busca pela compreensão da realidade, é simplificarmos o olhar, ou o entendimento, de como é o mundo. Infelizmente, atravessamos um momento da história que inevitavelmente tem formado as novas gerações, onde a informação transborda como um líquido gaseificado após ser sacudido, mas que o conhecimento se dissipa como uma neblina.

Ou seja, temos muita informação, que nos são apresentadas na absoluta maioria de forma rápida e superficial, e carecemos de um conhecimento aprofundado sobre a realidade. Isso nos leva desastrosamente ao crescimento da estupidez, da idiotização e da alienação política. E, por óbvio, torna-se difícil a condução de qualquer debate, quando o expositor olha para uma plateia, ansiosa por compreender cada palavra dita por meio do acesso rápido ao Google – e agora ao ChatGPT – e a intervir com a idólatra sabedoria abstrata, ou na apostasia daquilo que lhe guiava até pouco tempo. Evidente que isso também não deixa de ser a dialética, ou a negação da negação, mas que devemos ver pelos caminhos oblíquos de uma sociedade que se guia por referências tais quais como uma biruta de aeroporto, que se deixa levar ao sabor do vento.

Mas pelo menos esse instrumento, de antanho, que sobrevive até hoje, tem a função de indicar a direção do vento. Já o sapiente ignorante se deixa levar pelas informações fáceis, aleatoriamente, em muitos casos, falsas, e se identifica com elas na conjunção com as circunstâncias de suas vidas, chatas, ressentidas, conflituosas, inexpressivas, cheias de rancores, desequilibradas, ou que se originam nas pregações dos púlpitos, mas cujas razões para explicar cada uma dessas situações não são compreendidas dialeticamente, e por isso, na busca pela razão rasa, com perdão da quase redundância, se (des)equilibram na adesão àquelas informações que lhes são mais convenientes às condições em que vive num dado momento. Dessa forma se tornam presas fáceis dos movimentos de uma extrema-direita que se dedicou nos últimos tempos a buscar nessas contradições o seu crescimento, e a adesão dessas pessoas, presas pela ignorância, pelo fundamentalismo religioso e pela alienação política.

Qual o risco no qual estamos metidos? É que essa situação não nos parece ser de uma passagem rápida. Possivelmente viveremos ainda por um bom tempo, tentando lidar com uma realidade tóxica, contaminada por discursos que inspiram o rancor, o ódio, a estupidez. A desinformação será a arma principal nas lutas políticas, principalmente por meio da destruição de reputação. Da mesma forma o uso e abuso da fé, partindo das pregações odientas de pastores sanguessugas e demais religiosos que fincam seus pés e seus valores na rigidez anacrônica de costumes ultrapassados, completamente distanciado da realidade atual.

Por esse meio, no entanto, seguirá acontecendo o recrutamento de uma população marcada pela baixa autoestima, e fragilizada por condições sociais desequilibradas, bem como pelo medo gerado pelo avanço da violência em um modelo de mundo perverso, mas onde essas pessoas se deslocam na direção de seus algozes. A compreensão de um mundo que se explica pela luta de classes sequer passa perto do entendimento da realidade como eles próprios se veem. São, assim, reféns do discurso conservador, pautado pelos costumes de eras passadas, pela hipocrisia de apóstatas que se desviam de princípios basilares do cristianismo. Estão à mercê do fascismo e do neonazismo, ou, da extrema-direita radicalizada.

Os desafios para quem lê, estuda e analisa o que está acontecendo no Brasil e no mundo, com um olhar estratégico, dentro de uma metodologia que prime pela compreensão dialética da realidade, são enormes. Porque as gerações atuais não têm mais a paciência de se aprofundar nos temas necessários ao entendimento da complexidade do mundo. São premidas por um tempo marcado pelo excesso de informação e a necessidade de ler sobre muitas coisas em um curto período. É a geração Tik-Tok.

 

O DESAFIO DE ENFRENTRAR A REALIDADE, NUMA ÉPOCA DE PÓS-VERDADE

 

Como alterar isso? Esse é o dilema. Ou seja, é preciso explicar as coisas com clareza, mas com objetividade, sem ser prolixo, mas também sem ser superficial. Encontrar a medida exata para chegar a uma pedagogia consistente, que prenda a atenção dessa geração não é tarefa fácil. Pois que não podemos renunciar ao aprofundamento nas questões objetivas, que nos levam a compreender as complexidades de um mundo confuso. Este meu texto, por exemplo, já extrapolou, pelo tamanho, o limite da paciência dessas novas gerações. Espero que, com essas provocações, os que estiverem lendo se sintam provocados para chegar até ao final.

Já as pessoas mais velhas, sucumbem ao medo, potencializado pelo uso que alguns pregadores fazem da religião. Saudosos de um tempo em que a violência não era tão explícita, ou que estavam distantes de suas realidades, as gerações mais antigas são induzidas por velhos discursos, como se a mudança nos costumes não pudesse ser responsabilizada pelas crises sistêmicas e mudanças no comportamento humano, cada vez mais insensíveis e desprovido de empatia. Mas, contraditoriamente, ao agir dessa maneira, terminam por seguir na direção do mesmo comportamento em que criticam, e são alimentados pelo discurso do ódio e da intolerância. Só que eles não têm essa percepção, seduzidos por essa estratégia perversa, pela qual a extrema direita conseguiu se aproveitar da alienação, do medo, da crença e da fé dessas pessoas.

Enquanto isso, os segmentos mais politizados se apegam a discursos identitários como bandeiras principais de suas lutas, se distanciam da compreensão de que a construção desse mundo se deu como base na expropriação dos sentimentos, e do desconhecimento da realidade. E que, os discursos preconceituosos, machistas e misóginos, representam, em realidade a conjunção de diversos fatores, que explicam como é, como surgiu e como foi se revelando em toda a sua perversão o sistema capitalista, trazendo marcas de um passado perverso, principalmente (como sempre) para as mulheres. E se é verdade que essas questões estão enraizadas numa construção de estruturas e instituições que mantém permanentemente um desequilíbrio social e uma sociedade etnicamente desigual em suas oportunidades e respeito aos diferentes, como acredito que seja, o fundamental é a compreensão de como isso se estruturou, como essa sociedade foi edificada, como esses valores se incorporaram nas mentes das pessoas, dentro de uma noção de abrangência de como tudo isso foi construído. Uma noção de totalidade, e um entendimento dialético das contradições que fundamentam, inclusive, esses comportamentos que as lutas identitárias combatem, com justeza e com justiça.

Mas, como se diz no ditado popular, que é necessário cortar o mal pela raiz, a luta nessas particularidades, descoladas de uma visão de totalidade e compreensão das origens dessas desigualdades, apresenta-se de forma incorreta, muito embora ser necessária. Ocorre que discurso e palavras de ordens, ditas sem o necessário processo educativo, de demonstração das raízes dessas perversidades, só alimentam as concepções reacionárias, que se protegem nos discursos hipócritas de falsos líderes e mitos desequilibrados, desviando as atenções para uma pretensa defesa de valores conservadores, reproduzidos de livros ditos sagrados e escritos há milênios.

Enfim, a defesa de valores conservadores, que inspiram a extrema-direita, bem como as lutas identitárias, que têm mobilizado setores mais à esquerda, se constituíram no embate mais visível desses tempos, denominada – com a minha contrariedade – de “guerra cultural”. Por paradoxo, mas não assim se nos aprofundamos no entendimento da composição e das mentes das pessoas que formam a nossa sociedade, esse caminho nos levou a um tempo em que vivemos o crescimento de uma extrema-direita raivosa e, por consequência de sua ascensão ao Poder até recentemente, a propagação e organização de ideias neonazistas, seduzindo parcela significativa da juventude.

Ao direcionar para o campo da “cultura”, o que é ideológico, a extrema-direita fez um movimento estratégico que emparedou a esquerda, e levou a essa polarização praticamente inédita dentro da realidade política brasileira em tempos democráticos. Como, pelo relato feito, o tempo é de informações fúteis, simplificadas, resumidas e, na maioria das vezes, falseadas, o caminho ficou pavimentado para que nosso país se visse às voltas de uma transformação radical na política, com duas décadas em um curto século em que transitamos da esquerda à extrema-direita, e de volta a uma esquerda escorada em segmentos da centro-direita e centro-esquerda, numa necessária composição para retirar o nosso país do limbo em que se encontrava.

 

A ESPERANÇA, NUMA REALIDADE TÓXICA

 

Não posso dizer, em minha compreensão, que as perspectivas são boas, mas não desejo me azedar em um pensamento pessimista, de que as coisas não irão melhorar. Para isso, sigo a máxima que sempre procuro repetir, do saudoso Ariano Suassuna: “O pessimista é um chato; o otimista um tolo. Melhor mesmo é ser um realista esperançoso”.

Mas, adepto da dialética como melhor filosofia de compreender o mundo real, tenho a percepção que estamos vivendo um período de transição, com dificuldade de entendermos para onde e qual tipo de sistemas podemos construir, na substituição do caquético e perverso capitalismo. Até sabe-se por quantas gerações, essa será uma transição lenta e marcada por muitas guerras, porque essa tem sido a alternativa para potências em crises: a economia de guerra, com a intensificação do comércio de armas cada vez mais sofisticadas. Os trabalhadores e trabalhadoras sofrerão com a redução de seus salários, como efeito do aumento de mão de obra disponível no mercado, como consequência do avanço de novas tecnologias, da robotização e da inteligência artificial. Portanto, será um mundo com fortes tensões e embates, que precisam ser direcionados para um enfrentamento de classes. É inadmissível que os mais pobres e as camadas médias baixas se coloquem em lados opostos, quando pela lógica sistêmicas são peças descartáveis pela burguesia e pelos novos ricos rentistas. Será assim no mundo... e será assim também no Brasil.

Então, na medida em que tomamos da extrema-direita o controle do Estado brasileiro, é mister que isso se mantenha pelo menos por mais uma década, ao tempo em que a prioridade deve ser trabalhar na conscientização de um enorme contingente de pessoas que foram seduzidas pela mentira, pelo medo e pelo ódio. Politizar essas pessoas pela qualificação de suas capacidades críticas de compreensão da realidade e pela necessidade de aglutinação em entidades, associações e sindicatos que lutam por seus direitos. Demonstrando que os representantes da extrema-direita, por seus atos óbvios, representam aquela camada social dominante que os exploram e se enriquecem mesmo em meio às piores crises.

A esquerda não deve disputar entre si esse processo com o afã de recrutar pessoas somente dentro de suas visões dogmáticas do mundo. É preciso amplitude, organicidade e unificação de setores que carregam um mesmo objetivo, a construção de uma sociedade em que se possa viver pelo bem comum, na consolidação de um estado de bem-estar social, no caminho do socialismo, evitando-se repetir os erros que o capitalismo e a burguesia prometeram corrigir, quando hipocritamente levantaram-se a bandeira de “igualdade, fraternidade e liberdade”. O que se viu foi a construção de um mundo em que os muros se multiplicaram, onde 1% controla mais da metade da riqueza mundial.

Sejamos “realistas esperançosos”, mas jamais defensores de sociedades fraturadas e de governos autoritários. Lutemos pela verdadeira democracia, não somente focada no direito de votar, mas onde a riqueza construída pelo trabalho possa ser distribuída de acordo com as necessidades de cada família, daqueles trabalhadores e trabalhadoras que efetivamente constroem o que se convencionou chamar de Produto Interno Bruto. Defendamos a democracia do PIB, e dessa forma estaremos pavimentando nosso caminho para um futuro razoável e mais solidário, que bote um fim à pobreza e a miséria. Alguns dirão que isso é utopia, mas recordo a fala de Eduardo Galeano, que sempre lembrava de uma frase que ele diz ter visto em um muro, de que a utopia é um ponto distante, e quanto mais nos direcionamos em direção a ele, mas ele se distancia. Concluindo, por isso, que a utopia nos serve para que não paremos de caminhar. Em direção àquele ponto distante que imaginamos como sendo uma sociedade mais humana, sensível, empática, e baseada na comum união.



[2] Yves Lacoste – A Geografia, isso serve em primeiro lugar para fazer a guerra

 

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

DEPOIS DA TEMPESTADE... O temor dos trovões ignora que os raios já fizeram os estragos

Nas primeiras horas da segunda-feira pós-eleitoral, em que alguns festejam em meio aos escombros de uma tempestade conservadora, reacionária, refliti comigo mesmo, no afã de tentar convencer os que lerem ou ouvirem o que tenho aqui a dizer, que nem sempre a experiência de anos de militância consegue acompanhar com serenidade e coerência as mudanças conjunturais da sociedade.

Eu me consumo aqui em meio a uma ressaca, ou como se eu tivesse sido massacrado em uma luta de MMA e ganhado por pontos o primeiro round. Isso para mim reflete o resultado eleitoral desse Brasil profundo, de mentalidades arcaicas, dominadas por sicofantas, farsantes, falsários e pilantras. Mentalidades que se apegam a uma espiritualidade canhestra, de comportamentos desajustados do ponto de vista da ética e do respeito humano, mas que se apegam aos discursos moralistas hipócritas de fariseus acanalhados, pérfidos sugadores de massa cerebral, de gente frágil, alienada, ressentida por uma realidade da qual não compreende em sua dinâmica e se apega ao discurso que lhe amedronta do púlpito ensandecido, pela viralidade de pregações que apostam no medo, na alienação e no desespero.

Mas do lado em que eu sempre me postei, temos feito o certo? Adotado estratégias que, ao longo dos últimos anos, tentem entender o que se passa pela cabeça de cada um desses indivíduos que se juntam e compõem o que conhecemos como sociedade brasileira? Ou será que nas últimas décadas não nos afastamos da realidade e nos metemos em bolhas, de onde falamos e gritamos para nós mesmos, sem que isso ecoe pelos cantos por onde a hipocrisia campeia e da forma como sempre consolidou comportamentos dantescos, violentos, misóginos, machistas e oportunistas?

Não quero parecer arrogante, como se possuísse o dom da verdade e que minhas palavras fossem as únicas a iluminar essas trevas que nos cercam. Reconheço minha pequenez nesse ambiente de disseminação de “verdades incontestáveis” espalhadas celeremente pelas redes sociais, com milhões de visualizações. Aqui, sei que falo e me comunico com algumas dezenas, de amigos e amigas que comungam das minhas ideias, mas nem sempre me dão o crédito necessário a ponto de dividir essas opiniões com muitas outras pessoas. Percebo que os que me leem, refletem, às vezes concordam, mas deixam de lado palavras que não se escoram em princípios de autoridades. Algo que se tornou muito comum entre as pessoas mais esclarecidas. É preciso citar expressões e falas de eminências intelectuais para ser ouvido e acreditado.

Me permiti ao longo deste ano refluir em meu ímpeto de produzir artigos para o meu blog e meu canal no YouTube. Percebi que o alcance era muito restrito e o conteúdo estava repetitivo, porque, com perdão da arrogância, em minhas análises eu já havia apontado o diagnóstico daquilo que nos carcomia enquanto sociedade, e como os cérebros humanos se deterioravam.

Por isso, quero me expressar relembrando o que já estava escrito em um desses textos, e pelo que se poderá ver, a quem tiver paciência de chegar ao final, que nada do que estamos passando é surpreendente, porque já estava em curso há anos, em um processo de transformação de uma realidade social que invertia o caminho que pensávamos estar em fase de construção, por um viés progressista. Nos enganamos. Nos fechamos em bolhas, falando para nós mesmos, com discursos virulentos identitários, como se isso fosse suficiente para o convencimento de mentes conservadoras e reacionárias. Despertamos com força o ódio, e vimos ser naturalizada uma violência que é parte de uma estrutura que compõe, com as fissuras que se ampliam, um sistema putrefato, carcomido, mas que no auge de sua crise torna mais perverso e insuportável suas contradições.

Deixamos de procurar entender os mecanismos de funcionamento desse sistema, e o embate que existe nele por meio da luta de classe, e nos prendemos a lutas corporativas, setorizadas, invertendo qualquer lógica de compreensão revolucionária e transformadora, que nos aponta a necessidade de travar uma luta que aglutine todos os setores, ao invés de segmentá-los. Caímos na armadilha da globalização, por onde a segmentação e a separação se constituiu num elemento forte para a consolidação da lógica individualista que se espalhou pelo mundo desde o final do século passado. Abrimos, assim, o caminho para a ação de missionários, comerciantes da fé, que se espalharam pelos rincões perdidos desse país, e pelas periferias abandonadas, e constituíram formas de organização que estavam na origem de nossas organizações revolucionárias: as células.

O ressentimento, a revolta, o medo, a sensação de abandono, a pobreza crescente, tudo isso, jogou multidões nas garras desses oportunistas, e prenderam as pessoas num ambiente de controle moral e de costumes arcaicos. Retrocedemos séculos e vimos ser transportados para o mundo atual os valores de uma idade média e de uma antiguidade onde deuses e demônios disputavam as mentes frágeis de pessoas ignorantes e desconhecedoras da realidade. Onde se encontravam esses valores? Onde sempre estiveram, em ditos "livros sagrados", cientificamente incomprováveis, historicamente falseados e absurdamente citados anacronicamente.

A planitude do mundo se apresentou em toda a sua plenitude, repleto de estupidez, ignorância e de visões fantasmagóricas e estapafúrdias. Como no filme “A Vila”, vivemos em uma realidade construída, falseada, dominada pelo medo e pelo temor de sermos punidos por entidades vingativas que nos controlam: "Aquelas de Quem Não Falamos". Por isso me inspirei no livro “O mundo assombrado pelos demônios”, de Carl Sagan, para escrever um dos meus últimos artigos, que passo em seguida a me referir, espero que não parem por aqui, e observem o que publiquei em meu blog em maio de 2021...


(*)  CENÁRIOS SOMBRIOS E UM MUNDO SEM RUMO – BIOPODER, FASCISMO E HIGIENISMO (Artigo publicado no Blog Gramática do Mundo. Link de acesso: https://gramaticadomundo.blogspot.com/2021/05/cenarios-sombrios-e-um-mundo-sem-rumo.html

(**) Veja também pelo Canal Romucapessoa, no YouTube: https://youtu.be/Iazk6TiaCHI


sexta-feira, 24 de junho de 2022

ADUFG SINDICATO – MUDAMOS O JEITO DE CAMINHAR

Estamos em reta final do processo eleitoral para escolha da nova diretoria da ADUFG-Sindicato. Isso acontece em meio a uma situação caótica, do ponto de vista da nossa realidade nacional, e nas questões relacionadas à nossa área de atividade. Nunca a educação foi tão vilipendiada como no governo atual, e se tivemos tempos sombrios durante os últimos anos do governo Fernando Henrique Cardoso, este momento agora supera aquele, porque os cortes dos recursos para as universidades, bem como para as pesquisas, e as ciências de uma maneira geral, chegaram a níveis exorbitantes, nos colocando no fundo do poço.

Estamos lidando com um governo negacionista, anti-ciência, que deseja destruir a universidade com o seu sentido laico, democrático e autônomo. Sufocá-la economicamente e destruir o pouco que existe de autonomia é outro objetivo, quando se recusa a nomear reitores e reitoras eleitos pela comunidade universitária.

Entendemos que existem formas de lutas diferentes, de acordo com cada momento. Na atual circunstância compreendemos que precisamos unir forças para derrotar esse governo no processo eleitoral em curso. Embora saibamos que o seu caráter anti-democrático e autoritário nos impõe também a necessidade de estarmos atentos para golpes contra o processo eleitoral, como aconteceu nos Estados Unidos. O ataque às urnas eletrônicas e as suspeitas infundadas e sem provas ao sistema eleitoral é um sinal dado de que a estupidez pode querer se impor, visto que as pesquisas dão a indicação que a maior parte da população rejeita um novo mandato desse indivíduo que é o comandante em chefe da tropa destruidora das universidades brasileiras e das próprias condições socioeconômicas do nosso país.

Portanto montamos uma chapa para concorrer às eleições da Adufg com o perfil de combatividade e compreendendo que nossa luta se dará em dois momentos. Relatei o primeiro, derrotar esse governo. Num segundo momento, na perspectiva de um governo que não tenha o viés autoritário deste, precisaremos unir força, combatividade e capacidade de diálogo. A racionalidade se torna um elemento forte, num momento que será de reconstrução do estado brasileiro, carcomido pelos cupins que dele se apoderaram.

Será fundamental no próximo governo que aliemos essas duas características combatividade e capacidade de negociação. Mas seja qual for o governo eleito, nosso limite de paciência está estourado. Portanto, queremos um sindicato que saiba negociar, mas que na hora precisa chamará os colegas professores e professoras para uma luta maior, mais renhida e radical. Esperamos não chegar a isso, porque as greves nas universidades representam também muitos transtornos para nossos trabalhos cotidianos. Por isso o diálogo e a negociação se fazem absolutamente necessários.

E é o que temos feito. Por essa razão construímos um caminho diferente daquele tradicional, onde as vozes iniciais sempre se davam no sentido de estimular as paralisações com pautas longas em que não havia espaço para diálogo, era oito ou oitenta. Isso nos levou a anos sem conquistas consideráveis.

Foi a criação de uma Federação, e a transformação de várias sessões sindicais em sindicatos autônomos, que possibilitou que quebrássemos com esse comportamento sectário, aparentemente combativo, mas cuja radicalidade impedia que avançássemos em discussões que poderiam resolver nossas pendências.

Assim reconstruímos nossa carreira. Foi essa capacidade de articulação e negociação que possibilitou reformar nossa carreira, com dois saltos importantes, a passagem de adjunto para associado; e de podermos atingir a condição de titular. Antes, chegar a titular só era possível por meio de um concurso quando abria vaga. Hoje qualquer colega pode chegar a essa condição pelo tempo de trabalho na universidade, seguindo-se a critérios que apontem sua história, analisem o seu desempenho e sua produtividade, seja com um memorial ou com uma tese. Esses avanços foram possíveis mediante uma mudança forte, com a criação da Federação Proifes, com nossa transformação em sindicato e iniciativa de buscarmos negociações, sem bloquear nenhum espaço de diálogo. E é assim que imaginamos que será na retomada de um novo governo com perfil democrático.

Por tudo isso, é preciso eleger uma diretoria da Adufg Sindicato que mantenha nossa entidade nessa direção, com autonomia, protegendo nosso patrimônio, compreendendo o caráter diverso e as várias concepções que existem dentro da universidade, e, acima de tudo, com capacidade de diálogo e determinação para lutar. Sim, isso é tudo que a Adufg tem feito nessas últimas décadas. E com sucesso.

Ora, por que rechaçamos o falso discurso de mudança que propõe a oposição? Porque em primeiro lugar ele é superficial, visa confundir e tenta desconstruir todo o trabalho feito até aqui. Essa prática é corriqueira em discursos de oposição. Mas nos últimos anos, o que vimos nesse país com esse discurso de “renovação”, de “mudança”, feito de forma abstrata, negando as conquistas e tentando impor rótulos, foi uma destruição do que se tinha construído e o caos nas relações políticas e sociais, bem como o desmonte de uma estrutura de estado que ainda estava se consolidando.

Mudança se faz mesclando a experiência adquirida pelo tempo, com a renovação, possibilitando o acesso ao movimento de novas pessoas, dispostas a seguir naquele caminho que se demonstra correto. É assim que a CHAPA 1 se apresenta, com uma composição que tem metade de seus membros com alguma passagem pelo sindicato, e outra metade que nunca estiveram em alguma diretoria. Ao mesmo tempo, a diversidade de gênero, com a participação de seis professores e seis professoras. E o que nos une, fortalecer a Adufg Sindicato e ir à luta, sem trégua, em defesa da universidade e dos nossos direitos.

Lembro uma parte de um poema de Thiago de Mello, em que ele diz: “Não tenho um caminho novo. O que eu tenho de novo é o jeito de caminhar”. E foi exatamente isso o que fizemos há duas décadas, mudamos nosso jeito de caminhar. Que resultou vitorioso em importantes conquistas para nós. Agora, seguimos em frente, com muita luta, para recuperarmos nossas perdas salariais e defender nosso espaço de trabalho, que também é um patrimônio de nossa sociedade, do estado brasileiro: a universidade pública e gratuita.

Por isso, não se esqueça, não podemos ver nosso sindicato ser mais uma vez transformado em uma seção de um sindicato nacional. Nem muito menos cair no radicalismo sectário que impede negociações e conquistas importantes.

Para isso vote... CHAPA 1 – ADUFG PRA FRENTE, DEMOCRÁTICA E DE LUTA!!!

ELEIÇÕES DIAS 28 E 29 DE JUNHO


quinta-feira, 2 de junho de 2022

UM GRITO DE ALERTA: ESTÃO MATANDO AS UNIVERSIDADES PÚBLICAS FEDERAIS BRASILEIRAS

"As Universidades não podem parar. Para que possamos parar os ataques daqueles que desejam destruir as Instituições Federais de Ensino, públicas e gratuitas".

As universidades públicas, de enorme importância estratégica para o nosso país e os estados brasileiros, assim como os Institutos Técnicos e Tecnológicos, sempre viveram numa batalha constante contra propostas perversas seja de cobranças de mensalidades, ou tentativas de enfraquecer suas estruturas. Desde aquelas políticas de viés neoliberais, que nos atormentam há décadas e são implementadas, ora abertamente, ora de forma sutil, com reformas que nos afetam e retiram direitos conquistados.

Mas nunca tivemos sob um ataque tão perverso quanto o que nos têm dirigido esse atual governo. Numa cruzada do que tem sido chamado de “guerra cultural”, que atinge principalmente a área de humanidades, como também com o negacionismo, e um horror anticientífico que causa enormes danos à toda sociedade e impacta diretamente na vida dos brasileiros e brasileiras. E o estrangulamento financeiro, que atinge as instituições como um todo.

Como sempre, e em reação a esse comportamento visceral perverso, de um governo medíocre e que aposta no anticientificismo, no negacionismo e na ignorância, essas instituições de ensino superior, públicas e gratuitas, se veem diante de propostas que saem das catacumbas, porque redivivem quando os setores conservadores se fortalecem. Mais uma vez volta à tona discussões sobre, por exemplo, o pagamento de mensalidades, em propostas abertas e absurdas, como aquelas que aparecem maquiadas de “justiça social”, seja à direita, ou a quem se apresenta pretensamente como de esquerda.

Afora isso, que ouvimos falar desde décadas e décadas de histórias de nossas lutas contra as destruições de nossa instituições superiores de ensino e pesquisa, temos também a nos incomodar e consumir o impacto de anos de ausência de reposição salarial, numa defasagem absurda em nossos pagamentos pelo trabalho árduo que desenvolvemos e de importância estratégica para o país.

Com uma inflação galopante, e na casa de dois décimos, uma carestia que só tem paralelo com as crises econômicas do século passado, vemos gradualmente, e ano a ano, nosso poder de compras ser reduzido dramaticamente. Situação que afeta de maneira mais perversa os colegas professores e professoras aposentados. Isso depois de reformas feitas que impactaram nossos destinos, como tem sido as reformas previdenciárias.

Enfim, temos uma caçamba de motivos para nos revoltarmos e nos insurgirmos com todas nossas forças contra esse governo e suas políticas destruidoras das universidades, institutos federais, e de toda a educação pública, como se vê pelos cortes em fundos setoriais da educação, imprescindíveis para a destinação de recursos para estados e municípios.

O que fazer, então, diante dessa agonia que nos atormenta e de propostas que nos ameaçam enquanto instituições sólidas e forjadas para objetivos firmados no tripé: ensino, pesquisa e extensão? De natureza pública, gratuita e de qualidade? E, principalmente quando vemos ameaças sobre nossas carreiras e o definhamento de nossos ganhos salariais, vistos com absoluto desdém nas políticas voltadas para nossa área pelo governo Bolsonaro. A destruição das Instituições Federais de Ensino é um projeto deste governo que nos atormenta, não governa e tem por prática a destruição das instituições que mais servem à sociedade, principalmente aos segmentos mais fragilizados. Os ataques às políticas de cotas, às comunidades tradicionais, ao conhecimento científico que por meio dessas instituições promovem pesquisas essenciais para o desenvolvimento econômico e social de nosso país, é mais do que uma comprovação disso que estou falando e daquilo que estamos vivenciando.

Nos resta gritar! Mais do que gritar, é preciso reagir. Mas reagir de forma que não travemos nenhuma “Batalha de Pirro”, e que nossa luta não nos enfraqueça enquanto instituição, mas que nos fortaleça internamente, mostre para a sociedade nossa importância e aponte a necessidade de fazermos uma real oposição à um governo anti-educação, anti-ciência e absolutamente insensível aos problemas sociais.

Infelizmente temos um problema crônico em nossa categoria, a dificuldade de mobilização. De certa forma é compreensível, porque nosso tempo é completamente preenchido por atividades que somos obrigados a desenvolver, cada vez em quantidade maior, pelas imposições do sistema que são garantidores não só de nossas progressões, mas até mesmo da destinação dos recursos para as nossas unidades. Não à toa, somos submetidos a doenças causadas por estresses profundos, decorrentes de acúmulos de atividades e de pressões sobre nós, feitas de diversas maneiras. Até mesmo pela essência de nossas formações, que terminam nos opondo em diversas questões, criando ambientes tóxicos e adversos para nossas convivências.

 Termina ficando sob a responsabilidade de nossas entidades, e daqueles que as dirigem, a condução desse processo, que nos fortalece pouco, pela falta de pessoas suficientes para demonstrar nossa força. Nesse compasso, em termos de UFG, temos procurado fortalecer nossa entidade, dando-lhe robustez e ampliando os caminhos pelos quais nossos colegas podem recorrer para o atendimento ou acompanhamento de suas reivindicações. A ADUFG não parou, mesmo em meio à pandemia, se mostrando assertiva e combativa em diversos momentos.

Mas é preciso muito mais do que isso. É necessário uma participação mais efetiva, que possa a vir ser elaborada estrategicamente por meio do Conselho de Representantes, com a disposição em cada unidade de colegas que se revezem a cada semana no atendimento aos chamamentos da entidade para estaremos presentes em atividades, principalmente em Brasília.

Por fim aparece a possibilidade de greve, que se espalhe e se desenvolva no âmbito nacional, como forma definitiva de pressão sobre o governo. Esse caminho tem sido muito desgastante para nós. Primeiro porque paralisa a universidade (em termos, porque a paralisação sempre se restringe à graduação) e isso acaba por concretizar um desejo desse governo de ver nossos espaços esvaziados; segundo porque diante de um governo que nitidamente declarou uma guerra cultural às universidades não teríamos nenhum canal de interlocução; e terceiro porque esse governo está pouco se lixando para se estamos em greve ou não, porque não há sensibilidade com nossas reivindicações, e usará a nossa paralisação para nos desgastar perante  a sociedade.

Em função disso o que nos cabe é manter mobilizações permanentes, ocuparmos os espaços midiáticos com textos e artigos que apontem para os desmandos desse governo na área de educação e os riscos para o país com o enfraquecimento dessas instituições e da redução de recursos para seu funcionamento e para a ciência em geral. E fortalecer nossa estrutura organizacional, com mais protagonismo do Conselho de Representantes, e por meio dele uma maior ligação com as unidades, podendo por aí traçar uma estratégia que garanta a presença, sempre, de colegas de todas as unidades, em um revezamento permanente, como numa guerra de movimento, ou numa guerra de guerrilhas, por meio de fustigamentos e ações diárias que desgastem o governo e nos dê visibilidade perante a sociedade.

Ou seja, digo de maneira direta e objetiva: a greve não nos ajuda, nos desgasta e enfraquece a universidade perante a sociedade. Embora este seja um mecanismo de luta que jamais podemos descartar. A qualquer momento, no limite, e sabedores de que há possibilidades de pressão e interlocução no governo, principalmente que contemos com o apoio da sociedade, o movimento grevista se torna, sim, uma opção de luta construída para nos garantir vitória e não para tornar nossa derrota mais dolorosa. Porque se sabe como se entra numa greve, mas não sabemos nem como, nem quando sairemos dela. Saber como sair é crucial a partir de nossa estratégia e do resultado de nossa luta e de nossa força, saber quando sair depende da questão anterior, e é absolutamente indefinido. Até porque muitas vezes terminamos por nesses momentos finais vivermos entremeados com querelas políticas internas ao movimento, que só nos atrapalham. Falo isso especificamente em relação ao movimento docente, visto que os técnicos administrativos travam também outra luta renhida, com mais perdas, inclusive, do que a nossa, e possuem atividades e estratégias diferentes.

Uma coisa, no entanto, é certa: se aquietar não pode fazer parte de nossos planos. Lutar, e demonstrar a importância que temos, e a necessidade de valorização do nosso trabalho, de nossas competências e das instituições superior de ensino, é o que deve nos unir e o que nos resta fazer.