quinta-feira, 23 de maio de 2019

PÓS-VERDADE: COMO COMPREENDER UM TEMPO EM QUE SE NEGA A FILOSOFIA E AS CIÊNCIAS HUMANAS


PINT OF SCIENCE[1] – GOIANIA, 22.05.2019

“Migalhas dormidas do teu pão
Raspas e restos
Me interessam
Pequenas porções de ilusão
Mentiras sinceras me interessam
Me interessam, me interessam”
(Cazuza)
O que venho abordar aqui hoje não tem sido novidade em minhas reflexões e indagações por essa década deste século, em que o imponderável tem se imposto mais do que em outros tempos. Digo isso até de forma um pouco provocativa, porque sei, como historiador, o quanto é absolutamente impossível estabelecer comparações entre épocas, não somente pela natureza dos fatos, mas pelas próprias transformações que as sociedades passam.
Embora no senso comum as pessoas repitam com frequência que a “história se repete”, isso é uma bobagem que só demonstra o quanto se desconsideram as relações temporais. Imaginam haver uma repetição de situações que são completamente desvinculadas de realidades passadas, dentro de outros contextos e noutro tempo. É a absoluta ausência de capacidade crítica sobre o que é a história e como cada um de nós se situa no seu tempo. Em nosso tempo e na compreensão dos tempos passados.
Não quero travar aqui uma discussão de caráter acadêmico, até pelo perfil desse movimento “Pint of Science”, de benfazeja inovação. Que isso que acontece aqui, agora, aconteceu ontem e antes de ontem, por diversas partes do mundo, numa tentativa de informalmente trazer às pessoas que desejam sair à noite e relaxar, em busca de um sossego para se livrar das ansiedades e pressões do cotidiano, possa acontecer por muito mais vezes e se torne um hábito contumaz. Um elo saudável entre o lazer, o conhecimento e o saber.
Por isso farei muito mais uma exposição informal, procurando estabelecer um diálogo não somente com quem está aqui ouvindo, mas uma espécie de reflexão em voz alta, para que possa também me ajudar a compreender tudo que acontece à nossa volta, numa rapidez estonteante e num movimento de insanidade social, numa época em que ser normal pode te deixar meio deslocado da realidade.
Como eu disse inicialmente, venho escrevendo em meu blog – Gramática do Mundo – sobre esse tema desde que o criei, em 2010. Lá atrás o termo “pós-verdade” ainda não havia se destacado como um neologismo[2] que passaria a caracterizar uma era, marcada pela absoluta ausência de critérios para definir um acontecimento, ou até mesmo uma notícia inverossímil, desprovida de qualquer sentido ou que tendo sido inspirada em algum fato real. Mais do que isso, uma era onde se desconstruía a verdade elaborada e se afirmava a versão desejada. Nada mais importava para que se pudesse estabelecer a verdade, já não havia mais critério. Verdade passaria a ser aquilo que a minha paixão, a minha fé, o meu sentido desejava que fosse. O racionalismo, imperioso movimento iluminista que desbancou a era das trevas medievais, decaía em descrédito juntamente com a filosofia, a história e a sociologia. Claro que isso feito por forças desejosas  em abominarem a crítica.
Em 2016 “pós-verdade” (“post-truth”), foi citada pelo Dicionário de Oxford como a palavra do ano. Então não estamos falando de algo que decorre de uma conjuntura especifica nossa, advinda de um processo político complicado que culmina em um personagem que se torna presidente e foi beneficiário desse ambiente criado por “fake News”, o instrumento que consolida a era da pós-verdade, em todas as suas dimensões.
Esse fenômeno é característico de uma época que só pode ser compreendida em toda a sua dimensão histórica. Eu diria que o auge desse tempo de desvio de rota na forma como a sociedade se posicionava foi o momento em que estourou a crise econômica, no ano de 2007, embora suas causas já viessem de bem antes. Mas talvez pudéssemos recuar mais no tempo, e destacar um fato que, literalmente, implodiu as mais ferrenhas convicções e abriu caminho para uma década de instabilidade crescente, dentro de cada país e entre boa parte deles. O ataque às Torres Gêmeas, o “World Trade Center”, à Casa Branca (esse ataque fracassado) e ao Pentágono. O que se sucedeu nos anos seguintes abriu a caixa de pandora, e libertou todos os males que poderiam gerar perversidades e destruir a democracia e a política.
Vamos fazer a junção dos dois momentos. O “Patriot Act” significou a ausência de liberdades individuais e a completa perda de privacidade nos EUA e para o mundo. O medo, gerado pelo ataque terrorista, e o uso desse sentimento a partir de então, para justificar as mais perversas e inomináveis reações, transformou o mundo e sinalizou uma mudança fundamental na maneira as sociedades se comportavam até então, a partir de toda a propaganda que se fez em torno da globalização.
A mentira como arma sempre esteve presente ao longo da história da humanidade. Mas a forma como ela se torna algo quase unânime decorre da exposição permanente de uma versão fantasiosa, repetida infinitas vezes e “demonstrada” por meio de informações não comprováveis, mas ditas enfaticamente por autoridades que a repete incessantemente sem que o contraditório seja apresentado. Pouco a pouco as pessoas vão assimilando aquilo que é dito com insistência, e assim se forma a “opinião pública”. O grande momento disso foi toda a propaganda feita para justificar a invasão do Iraque pelos EUA, com base em informações falsas e adredemente construídas com o apoio da grande mídia. Sim, a grande mídia é responsável pela origem das fake news.
Não vou entrar na análise do que aconteceu desde então, mas os fatos demonstram os equívocos cometidos nessas ações, e a perversão gerada com a destruição de países, ampliação do deslocamento de populações pelo mundo, insegurança, aumento da violência, e... a crise econômica global, cujo ápice se deu entre 2007 e 2010, mas que segue gerando instabilidade na economia mundial.
No entanto, as análises feitas pelos grandes jornais poucas relações fazem entre esses atos e a crise mundial. É como se de repente, do nada, as pessoas começassem a rever seus conceitos, aleatoriamente.
Mas nada é aleatório, tudo decorre de algum tipo de ação, não se pode falar em acaso, mas em causas. Contudo, negar a verdade, como estratégia de ação e de desconstrução do seu oponente, passou a assumir a condição de praticamente uma arma, a partir desses fatos que eu acabei de citar. E, em meio à falta de perspectivas, diante de uma grave crise que quase quebrou o sistema financeiro mundial, o medo adquiriu uma nova conotação. Já não mais somente diante da guerra, ou da violência cotidiana, mas diante da ausência de caminhos que indicassem as melhores alternativas para que cada um pudesse acreditar que o futuro seria melhor.
Passamos a vivenciar, principalmente a partir de 2010 uma virada no comportamento das pessoas, induzidas por discursos radicais, sectários, alimentados pela fé e instrumentalizados por práticas ultra-conservadoras, disseminadas em um ambiente tóxico que só piorava como consequência da crise econômica.
Dois momentos foram marcantes para acentuar esses comportamentos, em meio a um mundo que já não girava somente em uma direção, mas completamente sem rumo. O primeiro foi a eleição de Barack Obama. A bem da verdade as “fake-news”, em todas as suas dimensões, se amplificaram incontrolavelmente a partir de então. Sua eleição despertou nos setores mais conservadores, estimulados pelo fundamentalismo religioso, um ódio étnico-racial visceral e uma intolerância inédita na relações políticas naquele país. O “Tea Party”, grupo que surgiu se contrapondo ao Obama se encarregou de espalhar mentiras o envolvendo e isso prosseguiu por todo o período em que ele foi presidente. Transformou-se numa estratégia política que teve sua experimentação mais determinante no plebiscito que aconteceu no Reino Unido, quando a população foi chamada para decidir sobre a continuidade ou não na União Européia. O “Brexit” como esse movimento foi chamado se constituiu no laboratório por excelência de uma nova prática política, onde a mentira espalhada persistentemente pelas redes sociais passou a adquirir ares de verdade, e os fatos eram desconstruídos por discursos toscos, sem fundamentação na realidade, mas que se escoravam nas decepções, frustrações, sentimentos de desprezo pelas instituições e pela política, e na incapacidade das pessoas refletirem criticamente sobre realidades complexas, em um ambiente em que as tecnologias dos smartfones reduz a capacidade de compreensão, por meios de uma inundação de notícias. As desejadas, e tornadas críveis, passavam a serem aquelas que melhor se inseriam nos desejos de cada um. A verdade passa a ter, então, a conotação que cada um deseja dar a suas escolhas. Isso pode representar o fim da democracia e uma plena derrota da política.
A partir do Brexit, e logo em seguida, com a eleição de Donald Trump, a palavra “fake News” foi massificada por este que viria a ser o presidente dos EUA. E passou a ser utilizada contra a imprensa toda vez que suas idéias eram contrariadas ou que reportagens emitiam fatos pérfidos de sua trajetória de rico empresário. Os ataques nas eleições contra Obama e a sua candidata Hilary Clinton eram repetidas e compartilhadas celeremente por seus seguidores, sem que houvesse a menor preocupação em checar os fatos. Ao mesmo tempo, e de forma oportunista, a milhares de quilômetros de distância alguns jovens penetravam no mundo digital e alimentavam as mentiras, a fim de atraírem para os seus sites o maior número de visualizações e dessa forma faturarem dinheiro em cima de “fake News”. A cidade de Velez, na Macedônia, ficou famosa por abrigar um grande número de sites que se especializaram em interferir nas eleições dos EUA e em outras partes do mundo. Mas isso não se deu somente de forma espontânea, houve método nisso. Steve Bannon foi talvez o principal estrategista por trás desse processo de difusão de fake News. Assim como teve também uma participação importante no “Brexit” e nas eleições aqui no Brasil.
Mas é preciso, diante disso, e eu procurei contextualizar para que pudéssemos compreender como se dá esse fenômeno das fake News, e, principalmente, porque entramos nessa “era da pós-verdade”, saber duas coisas: o que é a verdade; e porque as pessoas se dispõem a acreditar em mentiras.
Primeiro é necessário compreendermos que a verdade não é, jamais, absoluta. Ela é sempre relativa e possível de ser questionada, e até mesmo, revista. Nesse aspecto é salutar saber que é a ciência e a capacidade crítica de investigar e avançar para além do que se deseja demonstrar como definitivo quem pode colocar qualquer fato sob questionamento. Uma verdade só poderá ser negada a partir da investigação científica e da comprovação de elementos que, primeiro desconstrua com comprovações aquilo que se estava afirmando até então, e que, em sequência, se apresente as comprovações do que se deseja apresentar como algo a substituir o que até então era verdade. Por isso que, em minha opinião, a dialética se constitui como o melhor método de discussão e investigação. Na medida em que propõe analisar qualquer fato a partir da identificação de contradições que aponte a falseabilidade naquilo que se apresenta, e, ao mesmo tempo, se impõe como uma antítese daquilo. Na impossibilidade de que essa antítese se apresente como algo definitivo, de difícil questionamento, a tese é o caminho para que se possa fazer a junção do conhecimento anterior com as novas compreensões que pretendem negá-lo.
O que não se pode, jamais, é desconsiderar algo sem que se tenham elementos comprobatórios para isso. A humanidade avançou exatamente estabelecendo esses pressupostos, em que a cada novas descobertas se ampliavam o horizonte dos conhecimentos e se avançava na produção de algo qualitativamente superior. Que não é, jamais, definitivo.
O que se pretende hoje, com alguns discursos obtusos, na desqualificação de áreas importantes das ciências humanas, é erradicar essa possibilidade de interpretação dialética, visando colocar determinadas visões de mundo, e interpretações da realidade, como sendo definitivas, ou imutáveis. Isso significa construir um mundo totalitário, onde o pensamento crítico se tornaria algo marginal e “perigoso”, como aliás funcionou em um tempo tenebroso, e por isso denominado de trevas medievais. Cito muito o filme “O Nome da Rosa", que retrata um tempo onde o conhecimento estava sob controle da igreja e os que ousassem pensar de forma diferente seriam submetidos a julgamentos da inquisição e a serem mortos por questionarem os dogmas religiosos.
A outra questão, para além da verdade, que precisamos compreender é como e porque as pessoas se dispõem a acreditar em coisas que são ditas sem que haja a menor lógica por trás, ou sem que exista qualquer comprovação de que aquilo é fato e/ou real. Daí a importância de entender a contextualização. O que vai poder nos aproximar da compreensão do que faz isso ser possível é entender historicamente as condições reais de existências dessas sociedades e dessas pessoas, que as empurraram numa direção de cegueira e de crença radical em versões de acontecimentos que não correspondem aquilo que entendemos ser a verdade, porque possível de ser comprovada.
Naturalmente, colocarei aqui essas versões como sendo as verdades vistas por esses segmentos. Digamos que as fake news sejam para essas pessoas suas verdades. Para nós, que trabalhamos com o raciocínio crítico, dialético, a dúvida e a necessidade de comprovação é condição necessária para acreditarmos. O que move, por outro lado, as pessoas que acreditam em fake news?
Creio que resumidamente eu poderia colocar como sendo a junção de como a tecnologia tem sido usada para difusão da informação e como também tem se constituído num componente forte do fortalecimento do poder das igrejas. Isso, com o uso em larga escala das redes sociais e das mídias, disseminam elaborações de fatos, versões ao sabor das conotações ideológicas (e aqui não faço distinção, isso serve para as igrejas, mas serve também para quem segue alguma ideologia, da esquerda à direita) que, repetidamente, se constitui como aquela verdade que se enquadra no viés ideológico, ou no interesse dos dogmas que se inspiram em outras verdades ditas como absolutas e imutáveis.
Com esses componentes, aliado às questões conjunturais (crise econômica, crise política, crise de valores, violência, xenofobia, intolerância... etc...) nos situamos numa realidade em que as pessoas, a partir da própria situação de radicalidade que ela foi construindo a partir dessas condições analisadas, usam da seletividade para ler e acreditar somente naquelas notícias e fatos que lhes interessam. Cada um passa, então, a fazer um filtro nas informações, e eliminam assim, o contraditório. Dessa forma não conseguem identificar até onde aquilo no qual elas acreditam pode ou não ser verdade. Não há essa possibilidade do crivo quando eu elimino o contraditório, afasto-me do outro que pense diferente, abomino qualquer outro tipo de ideia que se contraponha à minha, não aceite um outro indivíduo pelo jeito dele ser, por sua condição social, de gênero, de escolhas políticas. Assim, cada um passa a ter a sua verdade, e a compartilhá-la somente com quem a aceite.
Ora, para fechar essa nossa conversa, eu finalizaria levantando uma questão fundamental para esse momento em que vivemos. A nossa humanidade depende de nossa capacidade de aceitação do outro, das nossas diferenças, a diversidade é a nossa maior riqueza. As pesquisas científicas existem para demonstrarem se aquilo que vemos, assistimos e acreditamos, merece ou não a nossa credibilidade. E a filosofia, a história e a sociologia são áreas da ciência que, juntamente com outras, tratam das relações humanas, das nossas condições sociais, da forma como nos comportamos e vivemos em sociedade. Na medida em que abominamos, primeiro, a necessidade de comprovarmos aquilo que nos é mostrado como verdade, e depois, quando extraímos do rol das ciências aquelas que são responsáveis pela compreensão de nossas condições humanas, estaremos nos direcionando para um ambiente cada vez mais permissivo do ponto de vista das relações sociais, intolerante e de não aceitação das diferenças. Penso que isso é extremamente perigoso, e, guardando-se as devidas proporções, e sem querer ser anacrônico, vai na direção daquele formato de mundo que o nazi-fascismo tentou fundar em meados do século XX e foi responsável pela morte de dezenas de milhões de pessoas.
Vivemos um tempo difícil, é verdade, mas devemos reafirmar a necessidade de estabelecermos relações sociais, solidárias e tolerantes. Enquanto cientistas sociais sabemos da nossa importância. Mas sabemos também que perfidamente existem mentes reacionárias que agem de maneira sinistra, insensível, e visam criar um modelo de sociedade onde a tirania e a ausência da crítica conduza as pessoas cegamente em direção a abismos. Precisamos de um novo movimento iluminista. Luz, e que a claridade impeça que nosso futuro seja de trevas.
Creio que o melhor é construirmos um mundo em que a verdade seja questionável, não por meio de mentiras, mas por nossa capacidade de crítica, de dúvida e de curiosidade sobre nós mesmos e os fenômenos que nos cercam.
Minha máxima para hoje e sempre: duvidem de tudo! A verdade estará mais próxima de nós se formos questionadores da realidade. E fujamos das bolhas que as redes sociais se tornaram.
Enquanto é tempo.



[1] O PINT OF SCIENCE é um festival que ocorre simultaneamente em diversas cidades do mundo e tem como objetivo  aproximar a ciência do cidadão, por meio de uma linguagem acessível e em locais de lazer. Veja no site: https://pintofscience.com.br/?fbclid=IwAR0ZZQCPr2qkm3nX7OqFJkvFFCxqZNLNpoUkj6xdc41BYUOIk-m7_r8B_s4.

[2] Neologismo é um fenômeno linguístico que consiste na criação de uma palavra ou expressão nova, ou na atribuição de um novo sentido a uma palavra já existente. Pode ser fruto de um comportamento espontâneo, próprio do ser humano e da linguagem, ou artificial, para fins pejorativos ou não (Wikipedia)

(*) Artigos já publicados neste blog, desde 2010, que abordam essa mesma temática:



sexta-feira, 22 de março de 2019

QUANTO MAIS IDIOTA, MELHOR

Tenho sentido uma ansiedade desmedida nos últimos meses. Ansiedade, frustração, raiva, desesperança… São sentimentos que, naturalmente, vão e vem dependendo da forma como reajo a cada instante em que me deparo com uma ou outra notícia sobre a política brasileira. Mas não só. Também sobre como a humanidade tem entrado num processo de transição de um sistema falido, mas ainda em alta em seu estado de perversão, para uma outra forma de sociedade indefinida, sequer em início de construção.
Estamos vivendo, portanto, uma transição longa e dolorosa, como aliás todas as transições também foram. Momento em que ocorrem choques e conflitos entre as forças que apontam para o progresso, para mudanças substanciais, e aquelas que tentam frear as transformações sociais e a entrada em um novo modo de se viver e de se aceitar as diferenças. Choque econômico, decorrência de uma crise estrutural, e como consequência disso choques de valores, de cultura, de comportamentos. Ampliação do ódio, da intolerância, do fundamentalismo religioso, enfim, do estado de conflagração social, ampliado pela violência e pelo medo, que se torna estratégia política dos setores conservadores. Tudo isso tem uma causa: a decomposição do sistema capitalista, cada vez mais excludente e concentrador, elementos contraditórios que o empurra para o abismo.
Esse quadro, que, a meu ver, sintetiza a crise estrutural e suas consequências conjunturais, nos leva por caminhos insólitos, às vezes impressionantes por ser resultados inesperados. E assim foi na mudança política que ocorreu após as eleições de 2018. Claro que tais situações são explicáveis, e no caso específico do Brasil, decorreu também de erros cometidos pela esquerda, sendo os principais deles negligenciar a crise sistêmica e negar, ou, menosprezar a ganância dos senhores do capital. Além de cometer erros repetindo vícios por tanto tempo combatidos, na relação republicana com o Estado e os privilégios que o Poder concede.
Mas, embora esses erros sejam capitais na política, o que pesa mesmo nessa transformação é o ambiente corrompido pela crise estrutural, em alguns aspectos não necessariamente ao alcance de medidas próprias de um governo. Principalmente porque a globalização trouxe essa consequência, a quase impossibilidade de um país se livrar das relações geopolíticas que afetam todo o sistema. E se nesse jogo nos situamos perifericamente, mais ficamos sujeitos as mudanças abruptas, e entre o jogo pesado travado entre as grandes potências, principais protagonistas nas relações internacionais.
Evidentemente que essas mudanças que acontecem aqui no Brasil tem ocorrido também por diversos países. Seja inevitavelmente, como consequência da crise estrutural, ou por ação das guerras híbridas, deflagradas pelos EUA sobre aqueles países que não se submetem estritamente aos seus interesses. Notadamente aqueles que situam-se em regiões estratégicas, ou possuem reservas consideráveis de petróleo em seus territórios. Esse segundo caso é o que nos envolve, enquanto país que buscava um protagonismo maior na geopolítica regional, e até mesmo mundial, bem como pelo fato de possuir uma enorme reserva de petróleo conhecida: o pré-sal.
Seguramente o Brasil não passaria ao largo, por essa crise mundial. Mas seu impacto poderia ser bem menor, diante das condições que tinham sido criadas na primeira década deste século. Restou à burguesia, aos segmentos reacionários da política brasileira e aos representantes dos interesses das corporações estrangeiras, construir uma crise que impusesse uma derrota a uma linha política que os assustavam, pelos seus resultados e pela perspectiva negativa de ter seus representantes de volta ao poder em médio prazo. Assim gestou-se, artificialmente, um golpe institucional. Propagandeou-se incansavelmente informações manipuladas, se não ainda as “fake-news”, mas algo parecido, notícias distorcidas repetidas ad nausean, invertendo todo o sentimento da população e fazendo com que as massas acreditassem que haviam sido traídas, e que o futuro seria melhor sacrificando aquelas lideranças que as ensinaram a sonhar com dias melhores.
O país passou por dias ruins, que se transformaram em meses e tem sido anos sofridos, com a intensificação de uma crise que inicialmente se deu por erros cometidos pelo governo Dilma, mas que foi potencializado escancaradamente e desavergonhosamente pela mídia, que comprou a idéia de derrubá-la a qualquer custo, sem que necessariamente pudesse encontrar em seu governo algo plausível para isso. Não era os erros que contavam, nem o desejo de corrigi-los. Mas a necessidade de tomar o Poder, e alterar o projeto em curso, retomando o viés mais abertamente liberal e alinhado com a economia restritiva das políticas sociais e da redução do Estado como suporte dos interesses mais vinculados às camadas mais pobres. Embora os governos de então tivessem feito concessões, ampliando o poder das corporações nacionais e dos bancos, o que importava era ter o Poder político, e o comando do Estado, nas mãos. E assim foi feito.
O golpe institucional, do qual participou o parlamento, a mídia e o STF, jogou o país no abismo. O parlamento, tresloucadamente pela ação de um deputado obcecado e ganancioso, um perfeito expert em solapar dinheiro público mediante pressões e chantagens, tornando-se um dos maiores gangster da política brasileira, os seus pares, em sua maioria, se identificava com o seu caráter; O STF por recusar-se em seguir preceitos jurídicos reconhecíveis até mesmo por um leigo, acovardando-se e negando-se a adotar uma postura que brecasse a loucura que estava em curso; e a grande mídia. Esta, em uníssono, se tornou a principal responsável por despertar a perversão de uma massa alienada, estúpida, conservadora e idiota, principalmente a classe média, reconhecida historicamente pelo oportunismo em portar-se nas crises ao lado de quem esteja em condições de assumir o Poder de acordo com os seus interesses imediatos. Agregando-se aos de cima e desprezando os de baixo.
Desde então entramos numa espiral de idiotização sem precedentes. Claro que essa característica acompanha muitos que se alienam e se afastam do mundo real. Vivem de fantasias, de crenças no imponderável, no improvável e no incomprovável. Mas são alimentados pelo medo. Medo da morte, da perda do emprego, da violência, dos pobres, dos negros, dos homossexuais… medo… medo… medo. Um fator de controle geopolítico, mas também de domínio das mentes e muito bem aproveitado pelas igrejas. Notadamente as de origem neopentecostais, cujo objetivo político, marcadamente reacionário, está explícito há décadas. E mais visível desde a primeira campanha eleitoral dos EUA que elegeu Barack Obama. Negro, descendente de africanos e tido naquele país como “comunista”.
Quando uso o termo “idiota”1, o faço em seu sentido etimológico, no significado original que representa determinado indivíduo que se aliena das questões essenciais que dizem respeito às formas como funcionam as estruturas governamentais e do Estado. Depreciativamente essa expressão vai tomando outras designações, que não deixam também de servir no perfil de boa parte da população, desinformada da essência do conhecimento, culturalmente tosca e conduzida pela propaganda midiática, fiel e servil a ensinamentos milenares decorados de livros sagrados e aplicados anacronicamente.
O bombardeio midiático, a crise instaurada, o aumento do desemprego e a violência, criaram as condições perfeitas para que entrassem em ação os personagens que carregassem esse perfil, e gradativamente tendo suas posições radicalizadas a ponto de tornarem-se agressivos, intolerantes e absolutamente refratário à política, e, principalmente, aos políticos, generalizando o seu olhar, mas não independente de distinções ideológicas. Foram gradativamente abduzidos pelo discurso da extrema-direita.
Aí entra a questão da ideologia. Alguns ressentidos personagens, cuja revolta pessoal dirige-se contra a academia, as universidades, por não serem reconhecidos nessas e sequer tivessem conseguido se verem aceitos em seus espaços, ou por não terem chegado sequer a concluir cursos secundários. Inclua-se nessa lista charlatões que ocupam púlpitos e apostam na idiotização para destilarem discursos de ódios, transformando o Deus que tantos procuram em uma figura vingativa, persecutória e alimentadora da individualidade gananciosa. O sentido coletivista, elemento essencial para a compreensão do cristianismo primitivo, tornou-se alvo de ataques, e aqueles que comportam esse sentimento visto como comunista, expressão tornada um adjetivo perigoso e sinônimo de comportamento pecaminoso. Substitui-se, nessas circunstâncias, e por meio desse discurso absolutamente ideológico, o sentido de libertação e de busca pelo bem-estar em sociedade, por um comportamento tosco, rude, que torna-se definidor de caráter, já que incorpora atitudes permeadas de ódio e de não aceitação do outro indivíduo que consigo vive nessa sociedade, por escolherem caminhos diferentes dos seus para viverem.
Alimentados nesse ódio, e com um discurso intolerante, falsos filósofos e teólogos tornaram-se referências, e encontraram um ambiente para transformarem esse público em uma sólida base, circunstancialmente, para consolidarem políticas regressivas, medidas medievalescas e projetos que retrocedem a tempos nefastos, de insensibilidade social e de negação das nossas diferenças, atacando perversamente os que buscam se libertar das amarras conservadoras e seguirem os caminhos que desejarem em suas escolhas sexuais e culturais.
Claro que com um quadro desses a eleição não poderia trazer surpresas. Embora muitos ficaram impactados com o resultado eleitoral. Mas haviam mais de dois anos que o Brasil caminhava para a escolha de um presidente que se encaixasse no perfil que esses idiotas desejavam. Enfim, buscavam alguém que lhes representassem nessas características que explicitaram nesse período. Alguém que fugisse do perfil tradicional trazido pela velha política, essa que foi largamente defenestrada, e que por consequência atingiu duramente a democracia.
Posto isso, ao fim e ao cabo tivemos um presidente eleito e um governo montado de acordo com o que essa turba revoltada, e tornada assim preventivamente, desejava. Ao seu perfil e à forma como sua consciência fundamentalista passava a determinar. O resultado não poderia ser diferente. Um governo caótico, desorganizado, cujo maior adversário é ele próprio e sua base insólita e gelatinosa. Ideologicamente definida, mas estupidamente refratária da ideologia, com um slogan do governo que prega um Deus vingativo, intolerante, homofóbico, racista, machista… enfim, carregando em suas ações e políticas tudo aquilo que por séculos tem sido combatido no afã de se construir uma sociedade mais humana e tolerante. Esses tempos ficaram décadas para trás. Contraditoriamente, os tempos que tinham ficado mais para trás ainda deram um salto, de séculos, se defrontaram desafiadoramente com a história e tentam reassumir a condução de nossas vidas.
Nessa conjuntura atual, o que esses que hoje governam desejam, eles e os que dominam multidões alienadas, é manter esse nível de (in)compreensão. Portanto, quanto mais idiotas, melhor. Claro, não podemos entrar nesse jogo baixo, devemos elevar as consciências, trazer as discussões para a racionalidade.
Seguramente, estamos diante de um desafio que não é único em termos de situações desesperadoras. A humanidade já conviveu com situações piores. No entanto, não se pode neglicenciar a capacidade desses obtusos que nos governam, e aqueles que conduzem milhões controlando seus cérebros e os mantendo cegos para a realidade, de fazer emergir fantasmas já exorcizados do passado. O fundamentalismo econômico, base da barbárie social, e o fundamentalismo religioso, responsável pelos crimes de ódio e intolerância, estão sendo chocados há anos e precisam ser combatidos enfaticamente. Essa é a condição de termos uma sociedade liberta desses farsantes e dos medos que eles alimentam. Só no enfrentamento ideológico a humanidade poderá retomar aquele patamar do final do século XX e começo do século XXI, da expectativa de melhorias sociais consideráveis e de pavimentação dos caminhos que pudessem levar àqueles modelos de sociedades desejadas, baseadas na cooperação e na solidariedade.
É hora de retomar a Utopia, arregaçar as mangas e combater as trevas medievais. Luz! Combater a alienação, a estupidez e a idiotização. Isso deu certo uma vez, certamente nos ajudará mais uma vez a reencontrar o caminho da justiça social e da paz.

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1 https://www.significados.com.br/idiota/

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

O EIXO DO MAL - VENEZUELA, IRÃ E CORÉIA DO NORTE


Como faz diferença ter capacidade de produzir mísseis nucleares. Coréia do Norte sempre foi um dos eixos do mal, desde a Era Bush. Quando invadiu o Iraque o eixo-do mal, assim distinguido pelos falcões estadunidenses, eram: Irã, Venezuela e Coréia do Norte. Continuam sendo, mas desses três o mais blindado por sua capacidade bélica é a Coréia do Norte. Isso faz com que o Trump, sucessor das diatribes da família Bush, viaje por milhares de quilômetros para uma "reunião de cúpula" com o líder coreano. Quanto ao Irã e a Venezuela pairam sobre seus territórios guerra híbrida e ameaça de invasão militar. Ressalte-se que o potencial bélico do Irã não é de se desprezar, com capacidade de atingir Israel, e quiçá com mísseis nucleares, embora isso não seja de todo certo. No caso da Venezuela o que faz com que os EUA ainda não tenha optado pela invasão é o potencial guerrilheiro que existe naquele país. Calcula-se em mais de um milhão de milicianos bolivarianos, armados e dispostos a morrer na defesa da soberania venezuelana, além das forças armadas e das tropas regulares. Até que ponto isso será empecilho para as invasões não se sabe, mas sabe-se sim a importância que esses países possuem, seja pelas riquezas existentes em seus subsolos, com as maiores reservas de petróleo do mundo, além de territórios situados em posições estratégicas no espectro da geopolítica mundial e nas disputas entre EUA, Rússia e China.
Na impossibilidade disso se concretizar assistimos a comportamentos bizarros nas relações internacionais. É absolutamente ridículo ver EUA, União Européia e Grupo de Lima, se apegarem a um presidente "autoproclamado". Isso é inusitado, e só mostra a falta de alternativas para derrubar Maduro. Aberração maior do que essa é ver uma imprensa estúpida, comprar essa história e se referir a alguém que não foi eleito, como presidente “autoproclamado”. Imaginem se a moda pega. É absolutamente vergonhoso e demonstra cabalmente que não há isenção por parte de uma imprensa que soma suas vozes quase que de forma uníssona em torno dos interesses estadunidenses. Ajuda humanitária o catso! Porque a ONU não assumiu a frente disso, se o interesse era de fato ajudar? Claro que essa foi uma estratégia para invadir a Venezuela. Por outro lado a situação da Venezuela é em grande parte gerado por um bloqueio econômico pérfido, imposto pelos EUA. Ora, se há crise humanitária, porque não acabar com o bloqueio econômico? Simples, porque não é esse o objetivo, normalizar a situação na Venezuela, mas aplicar um golpe de estado e impor ali um novo regime que seja equivalente políticamente aos novos governos de direita que assumiram o poder no Brasil, Argentina, Paraguai e Colômbia.
Quem é ditador nessa história? Se o autoproclamado, como o termo mesmo indica se indicou como presidente, sem ter sido eleito para o cargo de presidente. Pode isso? As regras da ONU mudaram? Claro que essa é mais uma estratégia da guerra híbrida, criar uma polarização em torno de um governo paralelo, mesmo que ilegítimo, mas apoiado por aqueles países que tem interesse em derrubar o regime bolivariano, visto como o último baluarte do "socialismo". Embora haja controvérsia sobre se de fato há socialismo naquele país. Particularmente não vejo assim. Há um governo que resiste bravamente a um pérfido bloqueio econômico e a um cerco de países governados por setores conservadores, e por isso e outras razões, entregue a enormes dificuldades para governar. Venezuela é a bola da vez. Desde há mais de uma década. Assim como Irã e Coréia de Norte. Cada um desses países se depararão em algum momento com uma guerra híbrida, a exceção da Venezuela que já vive isso. O difícil é desestabilizar um governo que possui capacidade nuclear, no caso da Coréia do Norte. Não se sabe nas mãos de quem isso pode cair.
Anos atrás escrevi sobre isso aqui nesse blog, acompanhando também as avaliações do professor Moniz Bandeira, falecido no ano passado, e de Pepe Escobar, um dos mais capacitados analistas em Geopolítica para o Oriente Médio. Claro que a conjuntura era diferente, já que os artigos foram escritos no ano de 2010, logo que criei esse Blog.
Sugiro a leitura dos artigos que intitulei “O Eixo do Mal”:
3. O EIXO DO MAL (III) – A CORÉIA DO NORTE -





sábado, 26 de janeiro de 2019

TEMPOS INSIDIOSOS – COMO COMBATER OS VÍRUS QUE CORROEM CÉREBROS.

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Retomo a minha verve. Gosto de escrever, criei esse blog para isso, em meio às circunstâncias que me jogaram em depressão com a morte de minha filha. De lá para cá, e já se vão quase dez anos (o blog foi criado em 2010), fui gradativamente substituindo os textos de caráter mais intimistas, uma maneira que encontrei de extravasar minhas emoções, por análises geopolíticas gerais e aqui do Brasil. Já que essa é uma condição do meu trabalho como professor de geopolítica na Universidade Federal de Goiás. Mantenho em alguns deles, como este que inicio aqui, um tom bem pessoal como se fora mais do que um artigo analítico. Assim, identifico-os como crônicas de um cotidiano no qual estou envolvido, mas que vejo pelo olhar crítico de um especialista e estudioso dessa área. Mais do que isso, de um historiador e doutor em Geografia, especializado nesse campo do conhecimento que aborda as relações internacionais e as questões políticas locais e para além-fronteira. Mas que abrange também as formas de funcionamento das sociedades e suas relações, a nossa especialmente, muito embora isso esteja mais restrito a sociólogos e antropólogos. Compreendo, mesmo assim, que há cada vez mais elementos da geopolítica em nosso cotidiano, já que a sociedade capitalista ao mesmo tempo em que centraliza, pulveriza o poder. Uma contradição, naturalmente mais uma de tantas que marcam esse sistema controverso, embora vitorioso até aqui diante de outros já tentados.

Quero neste ano poder publicar mais crônicas. Um problema, no entanto, me manteve em um breve silêncio dos últimos meses do ano passado para este começo de ano: As redes sociais. Em especial o Facebook, já que o whats app cumpre mais o papel de distribuir as informações, em sua maior parte falsas ou distorcidas, se encarregaram de conceber a cada indivíduo uma espécie de dom do conhecimento geral e genérico. Apesar disso ser algo que pode identificar uma ampliação da democracia, com a liberdade de cada um poder se manifestar e opinar livremente, numa sociedade desigual do ponto de vista do conhecimento, ou onde uma classe média e ricos se julgam superiores não pelo que sabem, mas pelo que possuem, a ignorância e estupidez assumem uma relevância estonteante e dificulta uma compreensão da verdade e da realidade.
Não se pode conhecer a realidade sem que se tenha uma capacidade de discernimento sobre as dimensões do Poder e dos poderes. O Poder com “P” maiúsculo, na identificação do que envolve as questões de Estado, das grandes governanças globais e das empresas multinacionais, enormes corporações que comandam a economia e as finanças mundiais. Ao não terem a dimensão disso e ficarem submetidos à informações ideológicas, apresentadas como anti-ideologia, feita por políticos obtusos e sem formação intelectual, demagogos, conservadores e oportunistas, bem como por dogmas difundidos por indivíduos mal-intencionados, incorrem-se em terríveis equívocos e passa-se a disseminar discursos toscos, racistas, xenófobos e intolerantes em relação às escolhas individuais, seja no tocante à sexualidade, à liberdade de crença e de não-crença em divindades, e, principalmente a não aceitação do empoderamento das mulheres. O conservadorismo assume, assim, pelo caminho da ignorância e da estupidez uma direção que nos levará ao abismo.
Igrejas espalham-se celeremente, pelas periferias e até mesmo bairros nobres, aproveitam-se do desespero, angústia e, principalmente, dos medos que povoam nossas vidas numa sociedade violenta e desigual. Não pregam o fim das desigualdades. Fazem do medo um instrumento de dominação, de mentes e de corpos. Não usam da solidariedade como forma de construir uma sociedade mais altruísta, ao contrário, estimulam frases ditas há milênios, como se as mesmas se adequassem a todas as formas de sociedades por todos os tempos, acentuando a intolerância e o desrespeito quanto às diferenças. Nos últimos anos, com a ampliação de uma crise econômica mundial, a que mais tem sido representada pelos discursos políticos e vieses conservadores que saem dos púlpitos e tomam conta das bravatas políticas tem sido “olho por olho, dente por dente”, além do crescente sentimento xenófobo, de um nacionalismo pérfido e intolerante. Naturalmente, este é o caminho da barbárie.
Nos deparamos em verdade, com um tempo em que disseminam-se informações curtas e superficiais por um lado, e, por outro lado, em função de todo um processo de desconstrução das ideias que se firmaram na primeira década do século e que levaram a esquerda ao poder, surgiram alguns arautos da inconformidade, do caos, resgatando discursos medievais, fomentando o medo e disseminando perversões em nome de deus e do resgate do sentido tradicional de família. Me fez lembrar da malfadada TFP (Tradição Família e Propriedade), que nos anos sessenta e setenta desfilava suas loucuras pelas ruas com estandartes em que pregavam a salvação pelos céus e abominavam o comunismo. Eram os tempos da guerra fria e vivíamos sob o domínio de uma ditadura militar. Não é uma repetição da história, mas até isso já se pode ver novamente pelas ruas. Loucura, estupidez, burrice, intolerância, ódio e um absoluto esvaziamento dos cérebros por meio de repetição de frases bíblicas, de anacronismo, e de força de um neopentecostalismo que nos faz lembrar de um dos momentos que se conta da história de Jesus Cristo, em que ele tomado por uma fúria surpreendente, expulsa do templo os “vendilhões”, aqueles que faziam nesse ambiente um espaço de perversão, usura e negócios que extrapolavam o que se pregava da fé cristã.
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Dentre as aberrações que se diz nos dias de hoje, e que se tornou um mantra repetido ad nausean, tem sido “desideologizar”, “sem viés ideológico”. Os que acreditam haver nessas viradas políticas que o país passa, com a eleição inusitada de um parlamentar inexpressivo, do “baixo-clero” e de postura obtusa, uma realidade onde a ideologia desaparecerá, só confirmam a incapacidade de reconhecer como funcionam as coisas nas sociedades capitalistas. Mas não somente nessas, como em qualquer outra já construída pelo ser humano. Ideologia é o elemento que as move, e nada mais é do que o conjunto de ideias que determinam as formas como se dão as relações sociais. Pode haver uma ou mais ideologias dominantes, bem como outras que são expressas por grupos que não estão vinculados às classes dominantes, sejam economicamente ou politicamente. Assim, é impossível haver qualquer forma de governo, ou qualquer tipo de sociedade, que não seja organizada a partir de ideologias. Elas se apresentam na forma de religião, na constituição de organizações políticas e sociais, em agrupamentos que se opõem ao establishment e defendem o fim do estado e de todas as formas de dominação, estão nas igrejas e em todas as formas filosóficas que representam hábitos e estilos de viver e de contemplar a realidade e o que pode existir para além dela. Ideologia faz parte de nossas vidas, não há como viver sem uma. Acreditar que um governo comandará um estado “sem viés ideológico” só exprime total ignorância e desconhecimento da própria realidade em que se vive.
Assim, diante de um comportamento completamente avesso ao conhecimento científico por parte daqueles que assumiram o poder nesse contexto caótico em que nosso país foi metido, pelas “fake news” e pela estratégia goelbesiana adotada pela grande mídia, torna-se difícil tentar racionalizar um debate. O próprio debate já inexiste, substituído por ironias, zombarias, ridicularização, menosprezo, escárnio etc. Desse ambiente, gestado nos últimos cinco anos aqui no Brasil, mas adredemente construído há, pelo menos, uma década desde que os EUA deu uma guinada na escolha de seu presidente, elegendo um negro de viés liberal. Que pela sua postura era visto naquele país como um esquerdista, além da sua própria cor incomodar uma elite branca perversamente intolerante com a diversidade étnica.
A partir daí, e em um ambiente de uma grave crise econômica, a política deixou de ser aquele elemento que serve para aplacar as crises, e passou ela própria a fabricar crises, ao sabor de interesses conservadores, de ideologias reacionárias no combate aos comportamentos libertários e de ampliação do poder das igrejas neopentecostais, cada vez mais envolvidas na disputa do Poder político e na disseminação de frases bíblicas visando desconstruir as mudanças de comportamentos celeremente em curso e representativas de uma época de forte mudança e de transição. A política foi derrotada, e em meio a essa onda nefasta de estupidez, tem levado junto a democracia. As duas perderam validade e confiança. No choque desses elementos, envolvendo a força dos avanços dos direitos sociais com os freios conservadores e o viés religioso e dogmático que se ampliaram em meio ao medo gerado pela crise e alimentado pelos púlpitos e pela mídia, abriu-se um enorme abismo que se amplia indiferente à possibilidade disso se transformar em um enorme caos. É o tempo da cegueira que se conta pelas páginas bem descritas de José Saramago. Impossível saber onde vamos parar, já que fica cada vez mais impossível enxergar saídas e alternativas para esses dilemas.
Do lado de cá, preparado para brandir como arma uma ideologia que preze pela solidariedade, pela comum união e pelo respeito à diversidade, sigo enxergando ao longe a utopia. E ela me ajuda a seguir em frente, embora a vejo cada vez mais distante à medida que me afasto dos tempos em que meu corpo me garantia mais energia e força para lutar por aquilo que acredito. No momento insisto em escrever, torcendo para que as novas gerações consigam chegar ao fim do último parágrafo, nessa época de informações parciais, curtas e abstratas. A minha geração fez o que pôde, acreditou que era real o que ainda era utopia, e cabe aos mais novos construir com solidez outros caminhos, que levem na mesma direção do que acreditávamos ser a construção de uma sociedade mais justa, solidária e menos desigual.

domingo, 25 de novembro de 2018

A ONDA – OS DEMÔNIOS QUEREM NOS AMORDAÇAR


Imagine there's no countries
It isn't hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people
Living life in peace”1
(John Lennon)
Filme "A Onda" - Alemanha, 2009
Experimentamos nos últimos tempos importantes transformações sociais. Apesar de todas as intempéries ocorridas em todo o mundo por intensos conflitos, guerras e crises financeiras, avançamos no tocante a direitos fundamentais em nossas condições humanas, e tudo isso registrado por leis e tratados internacionais. Nessas duas décadas do século XXI muitas conquistas sociais se tornaram realidade. Se não foram suficientes para acabar com as desigualdades e injustiças, o que é pedir demais dentro de uma lógica sistêmica que não pode prescindir disso, pelo menos garantiram um mínimo de proteção a segmentos marginalizados e a setores muito visados por se manifestarem cada vez mais ostensivamente por seus direitos, e pela garantia de poderem ser o que desejarem.
Mas porque entramos numa onda regressiva e a intolerância e ódio se disseminaram acentuadamente? Não é difícil entender isso, apesar do elevado grau de alienação em boa parte das pessoas. Podemos começar tentando entender como as questões econômicas definem as escolhas da população. É inegável que as sociedades capitalistas são condicionadas pelo elemento “economia”. Por isso a estabilidade política mantém as pessoas passivas, principalmente se os resultados apontam para empregos garantidos, possibilidades de consumo, créditos disponíveis e melhoria das suas condições de vida. O inverso disso, a instabilidade econômica, torna mais difícil a qualquer governo se manter incólume e a sociedade, inquieta e insatisfeita, segue em qualquer direção que possa servir de alento para retomar suas capacidades numa lógica que é comandada por um sistema que não permite a quem não tenha recursos financeiros se inserir como cidadão num ambiente que é por essência consumista. 
Num país de desigualdades crônicas, qualquer política econômica que resulte em mais do que equilibrar a economia, inserir um número considerável de famílias nos patamares superiores ao que elas se encontravam, gera um frenesi positivo e cria expectativas de que tais melhorias seguirão indefinidamente. Principalmente se nesse processo for garantido créditos que acentuem o consumo e possibilitem melhorias na qualidade de vida. É claro que a concessão de créditos implica necessariamente em acúmulos de débitos, que se sucedem na medida em que a expectativa seja positiva face ao futuro. Trocando em miúdos, para as classes médias e baixa isso quer dizer: endividamento.
Agora, imaginar que exista uma base eleitoral simplesmente porque políticas econômicas estão garantindo melhorias financeiras e elevando pessoas para a classe média, é um grande equívoco. Se não houver uma manutenção dessas condições econômicas essas pessoas se voltarão com força contra os que controlam o governo, já que imaginam que suas conquistas se devem ao poder de um Deus e que os seus fracassos diante de um desequilíbrio fiscal do Estado e a impossibilidade de garantir as mesmas políticas que os fizeram ascender socialmente, são jogados nas costas dos governantes. A segunda premissa é verdadeira e é inevitável que isso aconteça, já que as crises econômicas, cíclicas, a cada vez encurta o tempo em que aparecem.
Esse comportamento, inicialmente por meio de insatisfações contidas, tornam-se revoltas latentes quando são estimuladas por opositores, ou quando interessa estrategicamente a algumas forças externas vinculadas a governos ou corporações, desestabilizar politicamente um país e envolver multidões em atos que leve a reações violentas. Isso tem ocorrido com frequência na última década, e tem um nome: “guerra híbrida”.
No entanto, nem mesmo o discurso anticorrupção é suficiente para abalar o otimismo das pessoas em um ambiente onde a economia esteja equilibrada e as projeções são positivas. Aí, os problemas existentes, são congelados, como se não existissem, mas existem e cabe a quem tem o poder ter a capacidade de compreender isso buscar corrigi-los, antes que o caldo entorne.
Vejamos, por exemplo, o que ocorreu aqui no Brasil durante as investigações do escândalo denominado de “Mensalão”, também fruto de esquemas vinculados a desvios de recursos públicos para cumprir compromissos de Caixa 2 e assegurar apoio parlamentares aos partidos da base de sustentação do governo, ainda na primeira gestão do presidente Lula. O governo se manteve forte e a reeleição foi garantida.
Mas essa linha, entre apoio a um governo por conta de suas situações econômicas e a revolta com o mesmo, é muito tênue. Se desfaz rapidamente. Então é preciso que os que estão no governo pensem estrategicamente. Primeiro na inevitabilidade das crises e como prevenir-se diante da eminência de que elas ocorrerão. Segundo criando as condições para que essa massa de pessoas tenham a compreensão de como a realidade funciona e dos interesses escusos que muitas vezes levam governos à bancarrota em meio a disputas ferrenhas pelo poder.
Não é tarefa simples. Principalmente nos dias atuais, em que as notícias se proliferam pelas redes sociais, sem que necessariamente relatem fatos que tenham efetivamente acontecidos, ou que sejam verdades devidamente comprovadas ou comprováveis. Some-se a isso uma massa que segue como gado o discurso e as pregações vociferadas a partir dos púlpitos no estilo tradicional de especialistas em lidar com o medo das pessoas e controlá-los mediante a exposição de frases milenares e de vingança divina a uma possível traição aos valores religiosos. Constrói-se, pelo medo, o ódio a quem porventura se constituir em liderança e porta-voz de um povo, e que ouse ameaçar substituir sua divindade pela fidelidade a um mortal. A materialização das crenças de um povo, por meio da identificação de personagens reais, constitui-se em um perigo para dogmas que sobrevivem milenarmente e para os que se empoderam a partir disso e enriquecem às custas do medo e da ignorância popular. Ironicamente, foi assim que aconteceu com o criador do cristianismo. Deuses, existiam muitos, no imaginário que percorria o Império Romano, mas bastou aparecer alguém que diziam ser filho de um deus, e sua existência material provocar revoltas aos valores existentes a partir de pregações vistas como subversivas, e isso fez com que o grande Poder se manifestasse e procurasse eliminá-lo. E isso foi feito, tragicamente com apoio popular, que o trocou por um marginal.
Mas por aqui, uma conjunção de fatores contribuíram para reverter a situação que até 2015 era favorável à esquerda. Alie-se a essas questões os erros cometidos na condução dos governos Lula e Dilma, ao negligenciarem bandeiras agora tidas como moralistas, mas que foram carros chefes em outros momentos da história política do Brasil, como na luta para destituir um presidente identificado como corrupto na década de 1990, Fernando Collor de Mello.
Ao seguir um modelo corruptível, base da estrutura política brasileira, mas não só aqui, como de todas as democracias capitalistas embora com gradações diferentes e até mesmo com mecanismos legalizados de compra de parlamentares (como os lobbies autorizados nos EUA), os governos de esquerdas se viram vítimas de um discurso que foi se tornando eficaz, na medida em que passou a atingir muito mais do que pecadores, mas principalmente os pregadores. Aquelas vozes que foram marcantes na denúncia das corrupções no Estado e na identificação de personagens pérfidos por essa política, como Paulo Maluf , em São Paulo, e Antonio Carlos Magalhães, na Bahia, entre tantos outros, naturalizaram um mecanismo perverso da política brasileira: o Caixa 2 das campanhas políticas.
A esquerda, no poder, tornou-se assim, parecida com a direita, tanto no período militar quanto na redemocratização, até a virada do século XX no tocante à malversação dos recursos públicos, não importa se para manter um projeto de poder político visando atacar as desigualdades sociais. Os fins não podem justificar os meios, se estes forem pérfidos. E isso nos faz lembrar de uma frase marcante da política brasileira: “Nada mais parecido com um Saquarema do que um Luzia no poder”. Denominação dada aos políticos conservadores e liberais no Império, durante o segundo reinado da monarquia brasileira.2 Esses dois segmentos se revezavam no poder político, mas mantinham políticas parecidas no tocante ao uso do poder para a manutenção de privilégios. Isso não é uma comparação, mas a constatação que a esquerda não aprendeu com a nossa história, e foi incapaz de identificar uma onda que vinha de outras partes do mundo e poria abaixo essa forma de governar.
Sub-repticiamente, semelhante a uma serpente na maneira silenciosa de se mover e preparar o ataque, e pouco a pouco tendo se preparado para se colocar em condição de confrontar as ideias transformadoras de realidades sociais por séculos conservadoras, um movimento evangélico reacionário, neopentescostal, fundamentado na teologia da prosperidade e no “design inteligente”, pelo qual se tenta explicar cientificamente a teoria da criação, assumiu o discurso da política e ungiu o seu eleito para colocá-lo como porta-voz das ideias mais retrógradas desse movimento. O objetivo é disseminar esse poder difundido pelos púlpitos, fundamentado no medo, e no conservadorismo dos costumes. Diante da crise e da desesperança construída no meio do povo, o ataque foi frontal e certeiro nos valores progressistas que se disseminaram na sociedade, principalmente entre os mais jovens, na maneira de lidar com as políticas sociais, com os direitos humanos e as liberdades individuais e coletivas.
O ungido era porta-voz também de um discurso virulento, intolerante e claramente adepto da estrutura ditatorial militar que vigorou no Brasil nos anos 1960 e 1970, os 21 anos de trevas que se abateu sobre o país. Defensor de torturas e tendo como heróis torturadores julgados e condenados, e da militarização da política e da sociedade. Seu discurso se conjugou com o medo imposto às pessoas pelas pregações de púlpitos e dos programas religiosos nas mídias e foi atrelado ao medo da violência, esse bem real, consequência do desequilíbrio social, do desemprego em alta escala e da desesperança da juventude. A criminalidade crescente e o uso disso por “abutres” do jornalismo sensacionalista, fez com que gradualmente fosse tomando conta das mentes das pessoas o perfil de um presidente que pudesse acolher novas expectativas, desta feita geradas não pela esperança de um futuro radioso, mas pelo pessimismo de uma realidade perversa potencializada pela perversão do discurso.
A história nos mostra que movimentos políticos ou sociais que transformam-se em ondas, tendem a consolidar-se de forma tirânica, seja como ditaduras, teocracias, totalitarismos, absolutismos ou arremedos de democracias. Não importa o formato, se houver o apoio da maioria da sociedade e que esta assimile o discurso imposto por impostores, com perdão da redundância, as dificuldades para retomar um curso mais racional e progressista se tornam enormes e demandam tempo. E o que se vê, mais do que as questões que envolvem as políticas de Estado, do grande Poder, por assim dizer refletindo os estudos de Michel Foucault3 bem explicado pelo geógrafo francês Claude Raffestin4, é um ataque às liberdades individuais que vieram se consolidando desde o final do século XX.
Desta feita, o movimento em curso pretende portanto, mais do que o Poder, assim, com P maiúsculo, pois que se refere ao Estado. Se organiza para tentar impor barreiras aos avanços culturais da sociedade e a disseminação de valores que confrontem dogmas caros a segmentos religiosos e a igrejas que veem na ampliação de seus séquitos a condição para o enriquecimento crescente de seus líderes. Miram também nos pequenos poderes, nas relações familiares, na verdadeira doutrinação como é feita nas igrejas e que se desejam fazer nas escolas públicas.
Entendo que o movimento “Escola sem Partido”, uma aberração que tenta impor mordaças a professores/as de escolas e universidades, tem por objetivo impedir as liberdades individuais e o que eles denominam de “liberalismo nos comportamentos”, que são vistos como pecaminosos e desvirtuadores de princípios basilares do cristianismo. Não é um movimento restrito ao Brasil, embora com algumas nuances características da nossa cultura e da importação de um evangelismo que se mescla com interesses empresariais na condução da religião, tem muita semelhança com o que foi construído nos EUA nas últimas décadas, mais especificamente desde a primeira eleição de Barack Obama. Com o tempo, e seguindo-se essa estratégia que vemos ser aplicada hoje no Brasil, culminou na eleição de um presidente com as características de um personagem de uma ópera bufa e um discurso antipolítica, escorado nos valores conservadores do fundamentalismo religioso evangélico daquele país.
Mas não é somente um movimento contra esse liberalismo comportamental. Ele visa também conter o avanço das ciências na direção cada vez mais certeira de indicar as razões pelas quais existimos, e a indicação de que quase tudo teorizado por Charles Darwin no século XIX, tem sido gradativamente comprovado, e até mesmo ido mais além, através da investigação científica. Quanto mais a ciência avança, mais se coloca em xeque dogmas tradicionais que representam a base dessas religiões. Por esta razão surgiu para fazer o debate com o evolucionismo, o “design inteligente”, ou a tentativa de provar cientificamente o mito da criação do mundo. E a partir daí se estruturou fortemente, primeiro nos EUA, e de lá se espalhou para outras regiões, principalmente América Latina e Brasil, um fundamentalismo religioso, fortemente militante, que se estrutura por aqui a partir do Conselho Interdenominacional de Ministros Evangélicos do Brasil (CIMEB), que tem como vice-presidente o ultra-conservador e pastor Silas Malafaia, um dos que mais tem se envolvido nos últimos anos nas eleições brasileiras, desde as municipais até a presidencial, reforçando a cada processo eleitoral bancadas evangélicas que tentam impor por meio de projetos de leis valores cristãos, à revelia da condição de estado laico estabelecido pela Constituição Brasileira. Embora essa laicidade seja, de fato, questionável, pela influência que até aqui foi exercida pela igreja Católica, outro ramo do cristianismo. Isso explica o excesso de feriados religiosos santificados que existem no Brasil.
Mais do que tentar impor discussões sobre gêneros, o que esse segmento religioso fundamentalista deseja é manter seus dogmas intocáveis, tentar controlar o conhecimento científico a partir desse movimento tentando influenciar nas destinações de verbas para pesquisas, tendo como foco, principalmente, as áreas de humanas, vistos por eles como ambientes permissivos controlados por marxistas.
Assim, nos deparamos com dois movimentos em meio a uma estratégia clara de Poder. O controle do Estado, etapa vencida com as eleições, que passará a sofrer transformações para adequar políticas sociais e culturais a esses objetivos conservadores fundamentalistas religiosos; e o embate com a academia, na tentativa de impor pelo silêncio e o amordaçamento de intelectuais e professores, seus fundamentos religiosos como elementos explicativos de nossa existência no mundo e a escravidão e dependência que devemos ter ao seu deus, como se esse fosse único, em meio a tantas diversidades espalhadas por todos os continentes e aqui no Brasil. Essa última etapa visa também impor restrições à atuação dos professores do ensino fundamental e médio.
É absolutamente equivocada a afirmação que o ensino brasileiro se baseia em ideologias marxistas. Profundamente falso, já que majoritariamente os professores não são de esquerda e sequer marxista, com uma diminuta, ínfima, exceção. Que se concentram nas áreas de humanas porque Marx e Engels, assim como Comte, são referências acadêmicas nas Ciências Sociais, e não necessariamente militantes. E o fato de terem seus textos citados não tornam os professores automaticamente socialistas ou positivistas. Mas por trás de toda essa algazarra que se faz, e nitidamente com objetivos ideológicos, está a gradativa intenção de retirar do Estado esse caráter laico, e impor ensinos, valores e culturas baseadas no cristianismo, em especial nesse mais tosco, que tem como base a intolerância, a estupidez, o ódio e reflete todo o caráter reacionário construído a partir dos púlpitos de igrejas de linhagens protestantes, ultraconservadoras dos Estados Unidos. Esse fenômeno foi relatado em um livro, sintomaticamente pouco divulgado, denominado “Os demônios descem do Norte”.5 Publicado no final da década de 1980, já analisava todo esse movimento que transformou a política naquele país, e que se espalhou por tantos outros lugares, objetivando impor valores conservadores às sociedades e consolidar o domínio dos poderes capitalistas.
Como se vê, e parafraseando a velha frase shakeasperiana, “há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar a nossa vâ filosofia”. Teremos tempos conturbados, e acredito ser pior do que aqueles pelos quais minha geração passou. Já experimentamos um modelo de governo ditatorial, de imposição de valores, cerceamento de nossas liberdades e censura sobre o que se podia noticiar e ensinar nas escolas. E foi um tempo de perseguições políticas, prisões, torturas e mortes, por quem divergia politicamente do governo militar. Um tempo em que as pessoas eram “suicidadas” e morriam assassinadas com laudos de latrocínio, embora as causas fossem a militância política, e os cartazes de terroristas, ladrões e estupradores eram espalhados pelas cidades adjetivando principalmente jovens militantes da oposição. Os dias de hoje nos jogam num cenário tão pérfido quanto aquele, que se acentua em função das ferramentas tecnológicas, das fake news, que podem transformar alguém em criminoso e justificar ações beligerantes, pelo que se fala, até mesmo com o uso de “snipers”. Hipocritamente, “em nome de Deus”.
A verdade só é crível se pudermos investigá-la. Mas nesses tempos o que se deseja não é a verdade, é a manipulação, a alienação, a disseminação de valores inspirados em uma única crença. E a excrescência do “escola sem partido” representa exatamente a tentativa de ideologizar o conhecimento na direção de um pensamento único, é o oposto de tudo que diz querer acabar. Intimidar os professores, tentar nos silenciar, amordaçar-nos impedindo nossa liberdade de cátedra, impedir avanços da ciência, somar-se-á à tentativa de eliminar a laicidade do Estado e impor uma espécie de “sharia” cristã, por meio da qual o comportamento e a cultura seriam controlados. Às mentes iluminadas cabe resistir ao obscurantismo, naturalmente, afinal, como dizia Vinicius de Morais, “a liberdade é a essência do ser humano”.
“E pur si muove!”6
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1 https://www.youtube.com/watch?v=D2yeUGpRfVs
2 https://alunosonline.uol.com.br/historia-do-brasil/saquaremas-luzias-os-partidos-imperio.html
3 FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. São Paulo: Graal Editora, 2008.
4 RAFFESTIN, Claude. Por uma geografia do poder. São Paulo: Editora Ática, 1993.
5 LIMA, Delcio Monteiro de. Os demônios descem do Norte. Rio de Janeiro: Francisco Alves editora, 1987.
6 Frase que teria sido pronunciada por Galileu, logo após o final de seu julgamento à “Santa Inquisição”. Seu crime: ter dito que a terra girava em si mesma e em torno do sol. Embora absolutamente correto, ele foi obrigado a se retratar. “Ainda assim, ele foi condenado e obrigado a permanecer em prisão domiciliar pelo resto de sua vida. Conta-se que após o veredicto, Galileu proferiu a seguinte frase: ‘eppur se muove’ – e, no entanto, ela se move”. (https://brasilescola.uol.com.br/fisica/galileu-ciencia-santa-inquisicao.htm)