terça-feira, 13 de outubro de 2020

O CORONAVÍRUS E O IMPACTO DA CRISE NAS CONTRADIÇÕES DO SISTEMA CAPITALISTA

Foram muitas, ao longo da história, as epidemias, ou ações de vírus e bactérias que causaram temor em governantes e insegurança na população neste e em outros séculos. Peste bubônica, cólera, varíola, sarampo, poliomielite, dengue, zika, chicungunha etc, colocaram, e ainda colocam, à prova a capacidade dos estados saberem lidar com essas doenças, em meio a circunstâncias que apontam em outra direção, como decorrência do sucateamento do sistema de saúde e redução a cada ano maior dos percentuais necessários para atender as necessidades mínimas do combate não somente aos microrganismos causadores dessas doenças, mas as condições nas quais eles encontram o campo ideal para agirem e se proliferarem. Além de, aqui no Brasil, o estabelecimento de uma lei que criou um teto – limite – aos gastos públicos, trava qualquer possibilidade de modernização e ampliação da rede pública de saúde, como também da educação, das políticas sociais e do desenvolvimento científico e tecnológico.

Por outro lado, no intervalo de tempo de um século, outras formas de crises colocaram a prova não somente o sistema, mas a capacidade de superar as dificuldades das próprias pessoas. Se as crises epidêmicas deixaram rastros de absolutos caos econômicos, outras decorrentes de desequilíbrios estruturais, ou até mesmo das consequências daquelas, estremeceram os alicerces do capitalismo: a grande depressão de 1929 e a crise dos sub-primes de 2008.

No entanto, nos baseando no que ocorreu após a grande depressão, que se inicia no final de 1929 e atravessa toda a década de 1930, até desembocar na segunda guerra mundial, houve uma transformação radical na sociedade, um aumento considerável do papel do Estado na solução dos problemas econômicos e sociais, e da garantia de emprego para a população, bem como levou a mudança de hábitos, nesse caso quebrado pelo advento da guerra, que pode também ser incluída dentre as consequências dessa crise de proporções mundiais, mas cujos efeitos foram mais fortes nos EUA e na Europa.

Embora tenha havido um forte impacto nas estruturas do sistema capitalista, esse não foi tão intenso a ponto de paralisar as estruturas produtivas como consequência de uma imposição externa, aparentemente casual. Mas isso pode ser cientificamente demonstrada em suas causas fundamentais, como sendo inerentes ao próprio sistema, visto que isso decorre da forma como a sociedade está organizada em grandes cidades, assim como pela destruição acelerada da biodiversidade do planeta.

Tentemos fazer uma comparação, com os devidos cuidados para não incorrermos em anacronismos, entre a grande depressão, tendo como causa o excesso de produção do sistema e a redução do consumo, sem, contudo, ter havido forçosamente uma paralisação da economia, já que essa se deu na sequência da elevação produtiva; com o que temos hoje, numa dimensão muito maior, já que a paralisia do processo produtivo se deu forçosamente por meses, como necessidade para conter o poder viral.

Nessas circunstâncias, de uma absoluta impossibilidade das cadeias produtivas funcionarem adequadamente, e uma semiparalisia no sistema afetando a quase totalidade das empresas, o que se pode observar é um impacto muito mais forte na estrutura do sistema capitalista em comparação com o que ocorreu na depressão de 1929, ou mesmo na mais recente explosão de crise, em 2008, com a quase quebra do sistema financeiro mundial.

Isso poderia jogar por terra toda e qualquer iniciativa de gerir a economia com base nas receitas neoliberais, pois só se poderia conter um caos de dimensão planetária, com os estados investindo maciçamente na economia, fortalecendo as empresas, dando suporte aos micro e pequenos empreendedores, e garantindo fortes investimentos em infraestruturas por todo o país, como elemento gerador de empregos, tal qual foi feito na grande depressão, seguindo-se as orientações keynesianas.

Seria preciso haver um retorno ao estado de bem estar social, desmontando por completo todo esse aparato de reforma que pode levar a uma quase destruição do Estado naquilo que o torna mais essencial, a sua importância nas políticas sociais, principalmente com a necessidade de criação de uma renda mínima para populações carentes, a ser mantidas pelo Estado. Muito embora o auxílio emergencial, aprovado pelo Congresso Nacional tenha aberto um caminho nessa direção, criando um dilema a ser resolvido por um governo ultra direitista e com uma política econômica radicalmente neoliberal.

O isolamento social, o distanciamento das pessoas e o enclausuramento em circunstâncias as mais diversas, tem causado fortes impactos, a depender da condição social e da dimensão habitacional onde cada família vive. Certamente, o pós-quarentena trará novos comportamentos sociais. Em primeiro lugar porque a crise imporá uma necessidade do estabelecimento de relações mais solidárias, em função do aumento da miséria e a disseminação da pobreza; em segundo lugar porque esse distanciamento já está gerando diversas reflexões sobre as formas como temos vivido em sociedade até então, com um distanciamento entre os próximos, e uma proximidade entre os distantes. Será preciso repensar aquilo que nos transformou enquanto sociedade com o advento de novas tecnologias e das redes sociais, bem como dos mecanismos criados pela competição a qualquer custo e a necessidade de se garantir o primeiro lugar como condição de se ver inserido nos mecanismos inclusivos do sistema.

Precisamos resgatar aquilo posto pelo geógrafo Milton Santos em uma de suas últimas obras, e seguramente a de maior leitura: Por uma outra globalização. Não creio que devamos culpar a globalização pela disseminação do vírus, até porque outros vírus se disseminaram pelo mundo com alto grau de letalidade, embora não com a velocidade deste. Claro que nosso estilo de vida, nos últimos anos se acentuou muito fortemente pela forma como se deu a globalização, com o esvaziamento acelerado do campo e o crescimento exponencial das cidades, bem como uma forte destruição da nossa biodiversidade. Mas a globalização não é um sistema. Ela é apenas uma forma pela qual o sistema ampliou seu poder de contaminação da ganância, da usura, do acesso às novas tecnologias e das desigualdades sociais. No entanto esses são elementos inerentes ao sistema capitalista, em sua forma perversa, como descrito por Milton Santos como uma das etapas, ou seja, da globalização como perversidade. (SANTOS, 2001)

Cumpre-nos enfatizar o aspecto final de seu livro, quando ele defende ser possível uma outra globalização, que possa primar pela solidariedade e pela necessidade de as pessoas por todo o mundo se ajudarem mutuamente, de forma a reduzir as desigualdades sociais. Porque não veremos, por mais que desejemos, o fim do capitalismo como consequência da disseminação da Covid19, muito embora isso amplie consideravelmente as suas contradições.

Ainda teremos um processo lento e doloroso, de ampliação da crise, da miséria, do aumento das desigualdades sociais, da violência, da perseguição aos que lutam contra essas condições perversas, e o poder concentrado nas mãos dos representantes das grandes corporações, principalmente as financeiras, que podem sair dessa crise mais fortes e concentradas, na medida em que terão fortes injeções de recursos financeiros por meio dos estados, como já está acontecendo e como aconteceu em 2008. Assim, suas garras tendem a se ampliar, através da aquisição de empresas em estado falimentar, possibilitando as suas recuperações mediante a destruição de empregos, como se deu no final da década de 1980 na Europa e nos EUA, principalmente. Aqui no Brasil a reforma da legislação trabalhista já garante aos empresários as condições para imprimirem regras mais flexíveis, já que as garantias dos direitos dos trabalhadores foram fragilizadas, beneficiando as empresas em detrimento da força de trabalho.

Mas, será possível fazer com que os rumos sejam outros? A partir daqui o que nos resta é deduzir, com base naquilo que nossa experiência pode permitir, e nos conhecimentos históricos que nos remetem a momentos, senão iguais, mas muito parecidos, cujas crises chegaram ao ápice, à exaustão da economia.


CRIAR NOVAS FORMAS DE ORGANIZAÇÕES, À MARGEM DO ESTADO


Isso inevitavelmente vai levar a uma mudança substantiva no poder político, tanto maior quanto mais próximas estejam os processos eleitorais nos países. Atentando-se para um elemento que pode ser motivador de reforçar governos de viés autoritário, de extrema-direita, que em essência representam a tentativa de implementação de projetos totalitários, como aliás já ocorre em alguns países, por meios de medidas profundamente antidemocráticas.

Mas o mundo pós-pandemia não será muito diferente do que já estava em curso. Uma guinada conservadora, cujas concepções reacionárias e anti-democráticas se espalharam por meio de manipulações, fake-news e o despertar de sentimentos por muito tempo contidos. Frustrações, ressentimentos, decepções, fracassos, perda de perspectivas diante de realidades sociais perversas, raiva pela política e desesperança.

O desemprego tem aumentado, e necessitará da intervenção do Estado. Isso sendo feito por um governo ultra conservador, tenderá a ampliar entre as camadas mais pobres a ilusão do acesso a programas sociais que não virão acompanhados de medidas que lhes garantam emprego e dignidade, mas que surtirá o efeito de fortalecer um falso populismo, e poderá estender por mais um governo, políticas antissociais, fortemente focadas no atendimento das benesses e privilégios das classes dominantes, na destruição de diversos biomas e suas transformações em pastos e agricultura, e submissão vergonhosa aos interesses dos EUA. Colocará também os segmentos progressistas num dilema, fruto das contradições, que é ter que defender um programa social mais forte para as camadas mais baixas economicamente da sociedade e ver o governo Bolsonaro se fortalecer com isso.

O que vai estar em jogo nos próximos meses pós-quarentena será a capacidade da sociedade não se abater com esse confinamento, e as organizações sociais e associações comunitárias conseguirem disputar contra o poder discriminatório do estado e das igrejas neopentecostais, o protagonismo no envolvimento das populações periféricas, apontando para elas a necessidade de seguir por um caminho de construção de relações solidárias e de comum união. Combatendo fortemente a intolerância, o ódio e a mentira, elementos que tem causado fraturas na sociedade e não nos permite proceder a debates produtivos sobre o caminho que precisamos trilhar e a escolha do melhor modelo de desenvolvimento que consiga eliminar vergonhosas desigualdades sociais. 

Há uma estratégia por trás da insistência em desconstruir a política e gerar desesperanças nas pessoas. É uma arquitetura perversa e invertida, que aposta na destruição das relações sociais, na dependência espiritual por meio do medo e do controle de suas crenças, e, do ponto de vista das estruturas sociais o foco, nitidamente é transformar a sociedade no caos, e de suas cinzas implementar políticas completamente opostas àquelas que colocaram o Brasil no topo das nações com mais avanços democráticos e sociais na primeira década do século XX.

O desafio é como resistir a isso, sem que os segmentos progressistas se coloquem numa postura eterna de defesa, em função dos ataques perversos por meio de desconstrução de reputações, de lawfares (o uso e manipulação de leis para perseguir opositores) e fake-news. É preciso reforçar os alicerces dos movimentos sociais, das associações comunitárias e organizações não governamentais. Mas acima de tudo, é preciso ter a clareza que a democracia tradicional está sob ataques, não porque essa tenha solucionado os problemas cruciais e as desigualdades criadas pelo sistema capitalista, mas porque nas duas décadas do século XXI políticas de inclusões sociais se ampliaram, garantiram inserções de segmentos por muito tempo oprimidos em patamares mais elevados na estrutura social e empoderaram setores secularmente discriminados, fazendo elevar suas vozes e os fazendo se assumirem e se destacarem, sobrepondo-se às amarras impostas por uma sociedade hipócrita e conservadora.

E se a velha democracia está sendo  carcomida, por dentro, pelos próprios beneficiários de suas artimanhas, é preciso encontrar outras formas de se implementar as políticas e até mesmo de questionar até que ponto nos levará a nossa paciência em achar que esse estado, dominado por uma burguesia estúpida, banqueiros gananciosos, latifundiários exterminadores da vida, e uma classe média alta empedernida, insensível e idiotizada, conseguirá solucionar os problemas graves geradores de desigualdades sociais que pode nos levar para uma guerra civil planetária. 

Talvez não tenhamos tempo para esperar que esse estado, ilusoriamente, seja capaz de atender aos nossos mais banais e simplórios desejos. E pensemos, o quanto antes, ser melhor elaborarmos uma estratégia que bote abaixo essas estruturas, o quanto mais rápido melhor, embora isso possa demorar décadas. A crise da pandemia pode acelerar esse processo... ou não. Dependerá do caminho que o povo seguirá. Em sendo assim, talvez seja melhor criar as condições para destruir esse estado, e sobre seus escombros construir novas relações sociais de produção, baseadas na cooperação, no comunitarismo e no socialismo. 

Não creio que as eleições possam ajudar, muito embora seja um caminho forçosamente necessário. Mas as transformações sociais, se desejamos construir algo novo, não deverão seguir na ilusão do caminho institucional. É preciso criar novas formações, contrapondo-se às estruturas do poder político do estado capitalista, dominado pelas corporações. Como numa espécie de ações em paralelo e desobediências civis, por um lado; e por outro lado reforçando-se o caminho das organizações populares, gerando uma dualidade de poderes, que possa assim desorganizar as forças tradicionais conservadoras e se instaure poderes comunitários locais. Isso é urgente, antes que as milícias assumam essa condição de controle sobre as comunidades, alinhando-se, como já estão, com o poder militar e uma estrutura de estado corrompida.

Os desafios estão postos, já nos iludimos bastante, o mundo virtual se assume como uma miragem que nos fornece o ópio. O mundo real é profundo, perverso e desigual, e o fosso que se abre e se amplia, suga para o fundo das profundezas a desesperança e o melhor que a juventude e os trabalhadores poderiam oferecer, com consciência política, para construir caminhos por onde possamos materializar as nossas utopias. Resgatemos as esperanças, e construamos nas periferias das grandes e médias cidades, e no grande sertão interiorano, organizações comunitárias que se estruturem à margem do Estado, com moedas próprias e formas de estruturar o poder que tenha na organização do povo, e nos conselhos comunitários, os pilares para a construção de um estado socialista.

Rebeldia e ofensividade, não a defensiva eterna, é o que nos fará acreditar ser possível construir um outro mundo. E, como dizia Lênin, “Sonhos, acreditemos neles, com a certeza de realizarmos, escrupulosamente, as nossas fantasias”.



(*) Esse texto é uma versão atualizada e ampliada de parte de um artigo publicado na Revista de Geografia da UEG, Eliseé:

Campos Filho, R. (2020). A peste, a gripe espanhola e a covid19 – geografizando as pandemias pelo mundo. Élisée - Revista De Geografia Da UEG9(1), e912014. Recuperado de https://www.revista.ueg.br/index.php/elisee/article/view/10301 

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

IMPERTINÊNCIAS, REMINISCÊNCIAS E DEVANEIOS – E A VIDA, ELA É MARAVILHA OU É SOFRIMENTO?

Minha crônica dessa vez será diferente. O momento exige isso. Embora esteja somente atualizada. O tempo segue no ritmo de tartaruga, de repente ele se transforma num coelho. Vai ser assim. Vou falar muito por metáforas. Prestem atenção, atentamente.

Estamos numa encruzilhada. Que caminho devemos seguir? Onde está a felicidade? Quem é mais ou menos feliz? O que é ser feliz? Gostaríamos de seguir, cada um de nós, para a beira do rio, pescar, e ver o tempo passar... Ou para a beira do mar, numa praia... Quem sabe seguindo uma vida de diletantismo, de reflexões sobre a beleza das estrelas, cantamos a música de Louis Armstrong e enfatizamos para nós mesmos que este é um mundo maravilhoso... Passávamos numa livraria com ar condicionado ou nas novas temakerias que se espalhavam, para reforçar nossa vaidade intelectual... Às vezes decidíamos meter o pé na jaca para saber como o povo lida com "aquela felicidade", aquele jeito de sorrir em meio aos infortúnios. Isso, naturalmente, antes dessa situação inusitada.

Quem é mais ou menos feliz nesse mundo de tantos deuses injustos que insistem em manter o mundo desigual?

Às vezes alguns me chamam de católico enrustido, ou de ateu pra inglês ver. Vou falar claramente, e sei que muitos dos que me ouvem, ou leem, “creem”! Eu não consigo acreditar em algo que não seja perceptível, visível, real. O nome que se dá a isso é ATEU. Mas o fato de ser ateu, cristão, muçulmano, budista, adventista, macumbeiro... e etc, etc, etc, não tem nada a ver com caráter, sensibilidade, bondade... o que seja. Cada um pode ser o que é à sua maneira, o que vai definir seu caráter é o caminho que escolher. Gosto muito desta frase, do filósofo Heráclito de Éfeso: “o caminho de um indivíduo é o seu caráter”. Ela transmite um sentido dúbio. E pode ser lida também assim: “o caráter de um indivíduo é o seu caminho”. Nem sei bem como é o original. Bom, mas é em grego, então vai numa tradução livre, mantendo o sentido.

E não há somente as pessoas de bom caráter e as de mau caráter. A não ser que sejamos maniqueus, e não consigamos enxergar outras possibilidades para definir a maneira como nos portamos diante do mundo. Porque nós erramos e acertamos permanentemente. Somos capazes de gestos de enorme grandeza moral, mas podemos também cometer canalhices. Orar, rezar, não apaga o que fizemos, só nos deixa tranquilos para “pecar” novamente. Claro, não é bem assim. Quis ser irônico.

Não é o mundo que é metafísico, são as ideias dominantes e a maneira de enxerga-lo tornada verdade dogmatizada pela religião. O mundo tal como existe foi criado pelo ser humano e está impregnado de visões metafísicas, pois esta é a melhor condição para deixar as pessoas inertes, passivas, dominadas, entregues às fantasias que elas imaginam ser delas, mas que são oferecidas por aqueles que constroem este mundo seguindo seus objetivos. Sim, porque este mundo, que não é metafísico, é real, e material, adquiriu esta condição por ter sido arquitetado e edificado segundo determinados interesses.

O que se constrói daí, metafisicamente ou não, decorre de tudo isso. Fantasias, sonhos, deuses, demônios, mitos, celebridades. Nossa formação está umbilicalmente ligada a tudo isso. A um mundo que incorpora as suas próprias contradições e transforma tudo em mercadorias.

Um brinde à Baco, Deus do vinho. Baco carrega os prazeres humanos. Já que meio homem, meio Deus. Quer saber a origem da expressão “feito nas coxas?” Então conheça como se deu a gestação de Baco, numa iniciativa de Zeus para protegê-lo, visto ser ele oriundo de uma escapadela com uma mortal. Mas isso é outra história. E o prazer que Baco transmite é por essa bebida mágica.

***

Falemos dos prazeres bucólico. Isso que é a felicidade para alguns, quem já a viveu, e para mim, que mesmo interiorano nunca fui roceiro, infelizmente. Todo esse prazer, que queremos ter algum dia, essa fantasia de nos reencontrarmos com a natureza, também virou negócio. O que antes era natural virou artificial. Como dizia Milton Santos, não há mais natureza natural. E se fosse vivo ele estaria dizendo que o que era natural está sendo devastado pelo ser humano, e pelo fogo. Ou, pelo fogo espalhado pelo ser humano. Imaginem quando não houver água para apagá-los.

Quanto às certezas, não as temos. Embora tentemos sempre transmitir a impressão de que o que falamos é o definitivo. Bom, é definitivo... até que alguém prove o contrário. E isso, inevitavelmente, sempre termina acontecendo. Porque o que dizemos, o que sentimos, é condicionado pelo momento, o lugar e as circunstâncias. Quando me refiro à noção de felicidade quero dizer exatamente isso, cada um vai se sentir feliz sob determinada circunstância, mas sabemos que isso não é definitivo.

Existem os ditos populares que falam: "depois da tempestade vem a bonança", ou de que "quando a coisa tá boa demais é sinal de que alguma desgraça vai acontecer". Ou seja, as condições objetivas de cada momento é que vão definir o que significa sentir-se feliz, está satisfeito com a condição dada pelo mundo não somente para si, mas para sua família.

Minha filha, Carol: Saudades!
Eu não sou feliz, mas já fui feliz. Sou uma pessoa alegre, animada, enturmada, às vezes mal humorada, já sofri na vida dores profundas, mas não mais do que milhares de outras pessoas. Amo as pessoas que me amam, ignoro as que não gostam de mim. Sei que devo aproveitar, sempre, o momento que nós vivemos da melhor maneira possível. Procuro adotar a filosofia do “carpe diem” (Aproveite o dia, confia o mínimo no amanhã), mas não sou egoísta.

Meus momentos alegres são entrecortados com visões terríveis das condições em que vivem milhares de pessoas. Olhando para elas posso me considerar uma pessoa feliz? Mas não vou fazer voto de pobreza, e deixar de sonhar com meu sitiozinho confortável, com internet e wireless para ler o que eu quiser deitado numa rede. Algum dia, quem sabe? materializo isso.

Isso não são certezas. São convicções. E se há algum amargor no que falo, isso vem da impossibilidade, como D. Quixote de La Mancha, de encontrar mecanismos verdadeiramente adequados para lutar por tudo isso, ou contra tudo isso que está aí e nos atormenta. Daí, às vezes a amargura, a angústia... mas sei que nada do que está aí é eterno. Ou, como diz o poeta, “é eterno enquanto dure”. Inclusive nós mesmos.

Cabe a cada um a iniciativa de buscar esses caminhos, ou seguir com a construção adequada aos vários significados que vamos dando, de acordo com a escolha de vida que fazemos, ou das direções que na encruzilhada optamos por seguir. Ou – o que não é uma escolha – como lidamos com as tragédias que o acaso produz e fazem com que, independente dos caminhos que existam à nossa frente, tenhamos que superar as adversidades. Isso termina por se tornar parte do cotidiano da vida. Assim é o que acontece, vivemos para superar adversidades.

Por falar em deuses, ou em Deus... A minha verdade, já que estamos numa época da pós-verdade, onde cada um acredita no que deseja acreditar. Que seja assim. Temos Deus dentro de nós. Ele está no coração de cada um. Ou melhor, pode estar. É dele, do coração, que emanam todos os sentimentos, numa íntima e dialética relação com o cérebro. E o que temos não nos foi dado, foi construído... Ou, às vezes, conquistado, tomado, arrancado.

E o coração pulsa, acelera seus batimentos no ritmo da intensidade emotiva: ódio, amor, inveja, raiva... saudades! Sigamos no ritmo da música: “Bate, bate, coração, dentro desse velho peito, você já está acostumado a ser maltratado a não ter direito”.

Na vida são muitas as impertinências. Mas ser impertinente é meio chato. O que escrevo aqui, diferente de outras crônicas, é como um desabafo, uma contrariedade com a vida e na aversão a como os deuses que criamos constroem um mundo desigual e acomodado. E de como nos desiludimos no caminhar dessa vida com as perdas que arrancam pedaços no coração. É nele que se encontra o poder da divindade, o sentimento do mundo, a frustração da dor, a angústia da impotência humana diante da irreversibilidade da morte. É dele que em alguns momentos extraímos um pouco da nossa impertinência.

“Mesmo que o tempo e a distância digam não, mesmo esquecendo a canção, o que importa é ouvir a voz que vem do coração”! E seguimos no ritmo da música, para ouvir o coração.

Será que é ele quem comanda nosso cérebro? Quem sabe?

“As águas deságuam para o mar, meus olhos vivem cheios d´água, chorando, molhando o meu rosto de tanto desgosto, me causando mágoa. Mas meu coração só tem amor, e amor tivera mesmo pra valer, por isso a gente pena, sofre e chora coração... E morre todo dia sem saber.”

Às vezes, em alguns momentos, cada um de nós se torna um pouco (ou muito) impertinente.

Me sinto assim neste momento. Mas...

“Bate, bate, bate coração, não ligue deixe quem quiser falar. Porque o que se leva dessa vida coração, é o amor que a gente tem pra dar”.

E a vida segue, dialeticamente. Às vezes maravilha. Noutras vezes, sofrimento.

Mas, como dizia Louis Armstrong, com sua voz tonitruante, “este é um mundo maravilhoso”. O problema é o que nós estamos fazendo com ele.

Perdoem-me as minhas impertinências, as reminiscências e os meus devaneios. 


Quem gosta de poesia e MPB deve ter percebido que usei frases aqui de várias músicas. Vamos lá. Bora dar os créditos a quem de direito, merece:

 

Soneto da Fidelidade – Vinícius de Moraes

Bate Coração – Antonio Barros e Cecéu – Elba Ramalho

Canção da América – Milton Nascimento e Fernando Brandt

O que é o que é? - Gonzaguinha

What a Wonderful World – Louis Armstrong

 

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

O EFEITO BORBOLETA! OU A TEORIA DO CAOS APLICADA À POLÍTICA BRASILEIRA

Muitos, provavelmente, já ouviram falar do “Efeito Borboleta”. Pelo menos já devem ter ouvido ou lido sobre essa expressão. Um número menor de pessoas vinculará isso à “Teoria do Caos”. Mas, seguramente quem gosta de cinema já deve ter assistido algum filme com essa temática. Inclusive com esse mesmo nome “O Efeito Borboleta”, que se repetiu, uma, duas, três vezes... com esse nome ou com outros, mas abordando esse tema.

Por outros caminhos também se tenta compreender a dimensão do tempo, e o eterno sonho humano de se transportar para épocas passadas, ou para o futuro. “Feitiço do Tempo”, com um roteiro inteligente, imagina um indivíduo preso à sua estressante rotina, em um dia que se repete irritantemente.

“De volta para o futuro”, iconicamente mantém um séquito de apreciadores (eu dentre eles) dos mistérios do tempo que se foi, e que se vai. E neste ainda se pode identificar também um pouco do “efeito borboleta”, e como resultado uma infinidade de hipóteses, na tentativa de modificar o passado. Ou seja, o efeito que uma possível mudança de um fato passado pode desencadear uma sucessão de eventos no presente, e afetar o futuro. Ou o que poderá vir a ser o futuro. Um fato, desconexo ou provocado, pode produzir situações inesperadas, mas o que seria dos fatos seguintes se esse acontecimento fosse modificado? Seria possível isso acontecer? E se acontecesse, poderia afetar todo o curso da história humana dali em diante?

Vou tentar desvendar esse mistério, porque certamente vocês estão se indagando por que razão venho agora a falar de “Efeito Borboleta”, “Teoria do Caos” ou “Feitiço do Tempo”.

Retornemos no tempo, não fisicamente, mas resgatando da história fatos acontecidos que com um pouco de reflexão e razão, poderiam ter seguidos por outros caminhos. Me refiro às eleições de 2014 e o comportamento adotado pela oposição de não aceitação do resultado eleitoral.

O efeito borboleta se refere a identificação de algum fenômeno, mesmo que aparentemente sem importância, que possui o poder de alterar todo o curso da natureza ou da sociedade humana. Indistintamente, em qualquer parte do mundo, como afirmou o matemático e meteorologista, autor da teoria que expressou essa denominação: “poderia o bater da asa de uma borboleta causar um tornado no Texas?” (Edward Lorenz, 1972).

De uma indagação à comprovação, se deu quando Lorenz percebeu, ao usar uma formulação matemática para aplicar em cálculos de padrões climáticos. Numa primeira vez ele usou seis casas decimais após a vírgula 0,000001, ao refazer optou por usar uma quantidade menor de casas decimais (0,0001). Mas o resultado o surpreendeu. Muito embora a mudança não significasse grande coisa, aparentes insignificantes zeros depois da vírgula, os resultados foram bem diferentes. Isso o fez perceber que sistemas complexos possuem comportamentos altamente sensíveis provocando mudanças em todo o sistema. Nascia, assim, a teoria do caos.

Naturalmente isso viria a demonstrar a imprevisibilidade do futuro, na medida em que qualquer pequena mudança no transcurso de um processo histórico levaria a situações inesperadas que surgiriam em um efeito cascata, impossível de ser controlado. E essas mudanças ocorrem sempre, de forma imponderável ou mesmo provocadas. Mas em nenhuma das situações se pode prever que o resultado seja o desejado.

Por assim dizer, o bater das asas de uma borboleta gerando um efeito catastrófico do outro lado do mundo, corresponderia a situações que indicam haver uma sintonia aleatória entre fenômenos que acontecem por todos os cantos, que de alguma maneira, em algum momento, terão suas correspondências identificadas. Por menores que sejam, esses fenômenos têm o poder de influenciar alterações substanciais, e se não são pressentidos podem levar a descontroles na natureza ou na sociedade.

Mas o caos não necessariamente significa desordem. É resultado de sucessivas ações aparentemente descoordenadas, mas em muitos casos previsíveis, que irão modificar a ordem, alterando-a em direções inesperadas e gerando resultados que se opõem ao inicialmente pensado originalmente. Por ser, assim, imprevisível, pode se transformar em algo de difícil retorno ao caminho aparentemente natural, e o seu controle, pelas aberrações que podem gerar, tende a demorar muito no tempo, provocando grandes reveses.

Enfim, quero assim dizer que o Brasil está passando pelas consequências do “efeito borboleta”. Mas não teria sido somente em um momento, mas em uma sequência de fatos, inesperados, que nos trouxeram para uma situação de caos político e social.

Um primeiro momento teria sido a manutenção da presidenta Dilma Roussef como candidata à reeleição. Inegavelmente o nome do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva seria o candidato capaz de amenizar um estremecimento político que nas vésperas da eleição já apresentava os sintomas sísmicos do que viria a acontecer caso ela se reelegesse. Em isso acontecendo, uma sucessão de fatos se acelerou nos colocando numa espiral, bem no olho de um furacão.

O segundo momento, que possibilitou mais uma reviravolta surpreendente se deu com a ação isolada e irresponsável de um indivíduo que nutria um ódio místico pelo candidato Jair Bolsonaro, e daí a facada dada quase na reta final de uma campanha altamente polarizada se tornou como um definidor daquele resultado eleitoral, com a eleição de um nome completamente inexpressivo na política brasileira, um outsider de comportamento claramente identificado como de extrema-direita. O resultado absolutamente imprevisível para uma política brasileira onde a extrema-direita sempre permaneceu no limbo.

Ora, o que pretendo tecendo esses paralelos, entre o “efeito borboleta”, a teoria do caos e a política brasileira? Evidente que isso se aplica também à geopolítica internacional, e a qualquer país em particular. Mas nosso caso é com o Brasil, e é o que importa olhar agora, mesmo sabendo que não estamos numa bolha.

O que pretendo confrontar com os fatos acontecidos é que nem todos são, ou foram, inesperados. Decorreram de ações mal aplicadas, análises feitas a partir de círculos restritos sem conjunção com outros fatores globais e mesmo internamente. Um exemplo: anos antes da pirueta dada na política brasileira pelo golpe institucional que derrubou a presidenta Dilma, já se espalhava pelo mundo, e em alguns casos na América Latina, uma guerra híbrida, mecanismo pelo qual agentes externos financiam e preparam grupos especializados em fomentar revoltas e desestabilizar governos. Faltou se precaver contra isso. E a guerra híbrida foi aplicada aqui no Brasil a partir de junho de 2013, se intensificando durante a Copa do Mundo em 2014.

Quando analisamos os estudos realizados por Lorenz, que identificou o que ele chamou de “efeito borboleta”, verificamos que determinados fatos, quando acontecem de forma inesperada, imprevista, provocam efeitos que terminam agindo como uma onda magnética, influenciando outros fatos e gerando um efeito cascata. Mas a questão é: há possibilidade de se evitar esse destino trágico, oriundo de uma espécie de negligência com os vários cenários possíveis de ocorrer em um dado momento? É verdade que em algumas situações não, mas em outras, sim, é possível evitar que determinados acontecimentos fujam ao controle de quem está no comando.

O segundo caso analisado aqui pode ser incluído nessa possibilidade de uma quase inevitabilidade. O ataque contra o candidato da extrema-direita, e o deixou numa condição de fragilidade da saúde que poderia tê-lo levado a morte, o fortaleceu na medida em que se afastou de debates e o efeito gerado foi de uma comoção de parcela da população que não consegue identificar o perfil ideológico dos candidatos e se apegam a uma espécie de sebastianismo tupiniquim. Esse fato poderia ter sido evitado caso houvesse uma preocupação da segurança que o protegia. Mas e se isso fosse algo desejado? Infelizmente essa é uma questão de difícil resposta. Ficamos, neste caso, com o chamado “efeito borboleta”, e o caos que tomou conta do estado brasileiro como consequência dessa eleição.

Mas, é possível reverter determinada situação, identificada como responsável por ações aleatórias geradas por esse efeito? Seguramente não será voltando no tempo, visto que isso é absolutamente impossível, muito embora seja o sonho eterno do ser humano. Como visto nas ficções que tratam dessa temática, seja em livros ou filmes, as tentativas de refazer os fatos passados sempre terminam por levar a situações diferentes, inusitadas e em alguns casos muito piores, gerando efeitos catastróficos não somente na vida dos personagens. Daí o “efeito borboleta”, estudado por Lorenz, e a “teoria do caos”, por onde se identifica rumos inesperados com efeitos, com perdão da redundância, caóticos.

E o que fazer quando se pressente o equívoco de decisões que geram tais efeitos? Não se pode deixar de olhar para o passado, obviamente, pois as análises dos possíveis erros estão lá atrás. Necessariamente eles terão que ser estudados a fim de se corrigir os rumos. Mas a repetição na identificação desses erros, em algumas situações de forma provocativa a fim de gerar desgastes políticos, e acusações sobre responsabilidades de atos equivocados, não podem se constituir numa estratégia de disputa visando recompor espaços perdidos. Esse comportamento só contribuirá para fortalecer quem se beneficiou de tais erros.

O essencial, a partir da identificação equilibrada desses erros, é estabelecer uma estratégia que mire nas consequências desses atos, e possibilite desligar o modo aleatório que se tornou o condutor de uma política fundada no caos. Porque o efeito gerado por tais distorções, que no presente tem afundado a democracia e desmoralizado a política, passou a se constituir numa estratégia daqueles que ascenderam o poder por esses mecanismos disfuncionais.

Isso parece simples. Na medida em que, se não é possível consertar o passado, e o futuro é uma construção, é com o foco no que está acontecendo no presente que se pode estabelecer uma estratégia coerente, cujo objetivo deve ser conter os estragos gerados pelos desequilíbrios que podem ser identificados como “efeito borboleta”, responsáveis pela situação caótica que se transformou o mundo, e especificamente o Brasil.

Simples de se identificar o que fazer. A questão é como fazer isso se o caos afeta também setores da esquerda e boa parte dos liberais e os levam por caminhos paralelos, que podem prolongar desesperadamente uma conjuntura política absolutamente fora dos padrões estabelecidos pela democracia liberal. Não há consenso quanto a estratégia a ser adotada, porque tudo se prende às teias dos mecanismos eleitorais e dos objetivos particularistas da disputa do Poder.

Isso pode nos levar a um dilema: se nos próximos cinco anos não for possível reverter esse ambiente político, e recompor os mecanismos democráticos fortemente afetados por uma nova forma de se disputar o poder, absolutamente fora das regras tradicionais (limitadas para as camadas sociais desfavorecidas, mas ainda assim as menos piores nos limites de uma sociedade capitalista), como sempre aconteceu historicamente os recursos que restarão se fundamentarão em desobediência civil, confrontos armados, guerra civil e a propagação de milícias revolucionárias ou não.

Será ainda tempo de conter o “efeito borboleta”? Ou o caos se prolongará até o limite que a sociedade pode suportar? A equação para isso não é meramente matemática.


NOTAS:

(*) Para mais informações sobre o “efeito borboleta”:

Efeito borboleta: o que é e como está presente em nossas vidas - https://www.hipercultura.com/o-efeito-borboleta-em-nossas-vidas/

O que é a teoria do caos e como ela pode afetar sua vida - https://www.hipercultura.com/o-que-e-a-teoria-do-caos-e-como-ela-pode-afetar-sua-vida/

O Efeito Borboleta existe mesmo? - https://gizmodo.uol.com.br/efeito-borboleta-real/

A crise do capitalismo e o efeito borboleta - https://outraspalavras.net/sem-categoria/a-crise-do-capitalismo-e-o-efeito-borboleta/


terça-feira, 25 de agosto de 2020

AS ORIGENS DA INTOLERÂNCIA E O FASCISMO MODERNO

A sociedade brasileira, historicamente, sempre foi "racista". Isso é consequência da formação cultural de um povo que por longo tempo aceitava como dentro da normalidade o tratamento diferenciado a pessoas de cor negra e de classes sociais mais pobres. Por muito tempo também, essas imposições que estavam impregnadas nas relações sociais, eram tão marcantes, e impositivas, que aqueles que eram vítimas do preconceito pouco reagiam, como se aquela condição viesse determinada por algum desígnio divino.

E assim, imposto pelas relações de classes a partir de um regime escravocrata, sob a cumplicidade da igreja e a conformação dos fiéis, culturalmente fomos treinados a aceitar tais diferenças como normais. Os que ousassem se bater contra a estratificação social, que prevaleceu em nosso país desde os seus primórdios, eram de diversas formas, segundo sua época, considerados subversivos. A reação era violenta, porque a classe dominante temia as revoltas populares.

Do ponto de vista científico muitos avanços em pesquisas contribuíram para derrubar vários mitos, criados com o intuito de manter as pessoas acomodadas. O principal deles diz respeito à teoria de que o mundo é constituído por raças, sendo algumas delas consideradas superiores. Mais uma vez a religião foi utilizada para reafirmar essas crenças, possibilitando que inúmeras tragédias e genocídios fossem cometidos. As classes e “raças” inferiores não tinham o direito de se insurgirem, e se assim o fizessem, poderiam ser eliminadas sem que isso pudesse se constituir em crime.

Intolerancia - spaceblog
Mas a ciência desmontou essa farsa, tornada uma arma política para dominar povos mais fracos. Raças não existem. Os povos se diferenciam por seus ambientes, pela necessidade de adaptação a situações diversas e adversas, o que os tornam diferentes. Isso quer dizer que todos os seres humanos carregam em sua formação biológica as mesmas características impressas no DNA, com pequenas diferenças que nos distingue uns dos outros.

Por vivermos em ambientes diferentes e termos que nos adaptarmos a eles, criamos resistências que com o tempo definem o nosso perfil, as nossas características, a nossa cor. Também por isso cultivamos hábitos diferentes, seja na forma de nos relacionarmos ou na maneira como nos alimentamos. O próprio DNA vai definir nossas proximidades parentais, tornando aqueles de cada grupo mais ou menos parecidos, o que cientificamente passou a ser conhecido como diferenças, ou semelhanças étnicas. São etnias, e não raças, que se espalharam pelo mundo. Afinal, somos todos componentes de uma única raça. Somos humanos.

As nossas diferenças foram sempre objetos de manipulação, por quem buscava exercer o controle sobre regiões e territórios ricos e estrategicamente importantes. E isso não se deu somente em relação à dominação que o branco vai exercer, consequência de todo o processo de colonização europeia. Antes disso, mulheres, judeus e homossexuais, padeceram por toda a idade média, rejeitados pelos livros sagrados que traziam em seus parágrafos e parábolas toda uma carga negativa contra essas camadas sociais. Depois, com a expansão colonial e a descoberta de riquezas na África e na América, os negros e os índios entraram nessa lista.

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Mas a igreja permanece entre as instituições mais importantes para reforçar uma série de estigmas. E isso se reforçou, na medida em que a concentração das pessoas nas cidades aumentava, o número de templos se reproduzia aceleradamente e um verdadeiro poder intimidatório, armado, tornava as diversas igrejas, principalmente da religião cristã e muçulmana, verdadeiros instrumentos de dominação mediante o controle das consciências, mas também com um aparato militar poderoso a deflagrar guerras santas contra os que se opusessem a aceitar a influência e o poder de uma delas.

O maniqueísmo, trazido dos tempos antigos, pelos maniqueus, donde vigorou por volta do século III, determinava a existência permanente de um antagonismo, expresso em dois princípios irredutíveis, Deus e o bem absoluto, e o Diabo, ou o mal absoluto. Embora perseguidos por muitos séculos, os adeptos do maniqueísmo sincretizaram esses valores de praticamente todas as grandes religiões. Judaísmo, islamismo, cristianismo, e até o zoroastrismo que foi uma grande influência para elas, fundamentaram seus dogmas escorados nessa dicotomia. Construía-se a ideia de que o mal se manifesta não somente, mas principalmente entre aqueles que não aceitam aquela outra divindade religiosa. Isso serviu, ao longo dos séculos, para justificar comportamentos intolerantes e guerras que passavam a serem justificadas como santas, com objetivo de converter impuros e hereges. Daí se origina a velha expressão: “ficar entre a cruz e a espada”.

Inquisição - condenação das "bruxas
Por toda a idade média acusações contra os que não seguiam os credos da religião dominante serviam como pretexto para condenações de bruxarias, heresias, e outros argumentos que tinham o intuito de forçar a aceitação daqueles valores religiosos. Sempre em plena harmonia com os interesses da classe dominante naquela e em cada época. Guerras e execuções monstruosas expunham os comportamentos intolerantes, da não aceitação das diferenças, e, principalmente, da livre escolha de cada um sobre a maneira de ver o mundo e de se comportar perante ele. O que era "permitido estava nos limites do que era tolerado pelas crenças religiosas, do apego a valores culturais escritos em milenares livros sagrados, em condições históricas e sociais completamente distintas.

O dogma, e seus valores inamovíveis, que constitui a espinha dorsal dessas religiões, sempre carregou preconceitos de outras épocas, aceitas como princípios e valores que não podem ser contrariados. E as mulheres sempre foram as principais vítimas dessas intolerâncias, submetidas aos papéis mais inferiores e à condição de submissão diante do poder autoritário do homem. Isso muda, aos poucos, com o passar do tempo, na medida em que aqueles grupos sociais submetidos ao preconceito conquistam vitórias e obtém, mediante lutas de décadas, leis que lhes favoreçam. A partir daí, preconceitos e atos de intolerância ora escondem-se em comportamentos hipócritas, ora assumem-se de formas violentas e fatais.

Com o advento do capitalismo essas intolerâncias assumem novos contornos. A burguesia necessitava romper com os valores culturais que vigorou por toda a idade média, e mesmo antes. Para isso era preciso não somente agir com dureza contra a nobreza decadente, mas também contra a instituição religiosa que determinava regras que a impediam de consolidar o seu poder dominante, naquele momento em ascensão. Por isso a divisão que surgiu no cristianismo foi um fator importante para a consolidação de novos preceitos dogmáticos.

O Estado capitalista assumiu a condução não somente das questões econômicas, mas também dos novos valores baseados, pelo menos em teoria, na liberdade, igualdade e fraternidade. Teoricamente também, os credos religiosos deveriam se submeter a esse novo poder estatal e a uma carta constitucional que deveria ser laica, a fim de garantir os preceitos democráticos, que deveria atender a todos indistintamente.

Na prática as coisas não aconteceram assim. Por trás das leis permaneciam resquícios de hábitos que continuavam impregnados naqueles valores milenares, e se ampliavam com uma nova lógica que determinava as diferenças a partir da capacidade do indivíduo de acumular riqueza. Assim, além das mulheres, homossexuais, negros, índios, também os pobres passavam a se constituir em alvos de intolerância, por se deslocarem para aqueles lugares que oferecessem as melhores alternativas de sobrevivência.

geografiaetal.blogspot - imigrantes
Muitas vezes estranhos àqueles ambientes essas pessoas tornavam-se malquistas por representarem ameaças aos indivíduos nascidos no lugar. Os estilos de vida diferentes, a cor da pele, e até mesmo as diferenças religiosas, passaram a definir uma nova lógica maniqueísta, que levou a guerras mundiais, com crimes coletivos aterradores. Mesmo quando as razões principais eram econômicas, as religiões estavam presentes, definindo comportamentos e acirrando ódios, quando em tese deveriam ser o oposto. Apesar das exceções, de quem seguiam preceitos éticos e de tolerância. Esses, se descobertos, seriam igualmente eliminados.

A luta em defesa da democracia prevaleceu em meio a muitas, sacrifícios e conquistas, principalmente como decorrência da derrota do nazismo e do fascismo, que em certo momento da história simbolizaram esse ambiente de acirramento das intolerâncias. Mas, sempre que uma determinada sociedade entrava em crise, sintomas crescentes de comportamentos intolerantes reacendiam e tornavam-se mais frequentes. E isso atingiu o auge, nesses novos tempos inaugurados com a chamada globalização e o crescente individualismo. Como em outras épocas a religião volta a se destacar, introduzindo novos valores, agora com a marca da “teologia da prosperidade”, por força do crescimento das igrejas neopentecostais.

Em algumas sociedades impera a contraposição aos “valores ocidentais”, e opõe cristãos x muçulmanos, muçulmanos x judeus, e mesmo no Ocidente, cristãos protestantes x católicos. Em todas elas, carregando dogmas seculares, se mantém e se acirram com as crises, a reação contra ateus, homossexuais e a preocupação em não dar às mulheres a plena condição de decidir sobre seu corpo. As mulheres sempre foram vítimas de preconceitos em todas as religiões.

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presoporfora.blogspot
E isso explica toda a violência que se mantém até os dias de hoje. Ora, de onde são retirados todos os ódios que se dirigem aos mesmos alvos de tantos séculos? As piadas, os constrangimentos, as brutalidades, se disseminam com a mesma estupidez de sempre, mas vêm carregadas de novos estigmas. Novos na forma, antigos no conteúdo, pois seguem a mesma lógica. Mulheres continuam sendo agredidas, embora leis cada vez mais duras sejam criadas; homossexuais são atacados, espancados e assassinados, e tanto quanto as mulheres são impedidos de definir o que fazer de seus corpos, e de suas escolhas sexuais; pobres, são vistos como ameaças a jovens que se julgam no direito de determinar quem deve se dar bem nos vários lugares, cidades, estados ou nações; e os ateus, cujo crime é buscar ver  a vida na compreensão de que a explicação para tudo o que nos cerca encontra-se na própria biodiversidade em plena transformação desde milhões de anos e de que a crença em um deus é uma das mais perfeitas criações humanas.

Mas, então, o que explica o fato de mesmo após de tantas conquistas e leis tais preconceitos e atos intolerantes permanecerem? Em minha opinião a religião é um fator preponderante. Nesta nova etapa da vida humana, século XXI, potencializada pela mais perversa delas, a religião do capital. Essa, nos dias de hoje definem o fascismo moderno, acentuado nesses anos de globalização neoliberal, cujos alicerces se sustentam no individualismo, no egoísmo e na ganância.

O mesmo capital que se torna a causa que motiva guerras religiosas, seja na disputa por territórios sagrados, de enorme riqueza mineral, ou pela ferrenha disputa pelos dízimos de milhões de ingênuos seguidores de pretensos apóstolos divinos. A religião do capital impregnou a sociedade e fez aumentar a intolerância religiosa, porque quanto mais a disputa pelo dinheiro seja o fator primordial, mas se tem a necessidade de defendê-lo e ampliar constantemente a possibilidade de maiores ganhos.

Em contrapartida, mas também marchando lado a lado com os interesses religiosos seculares, a disputa pelo poder, a política, e a crescente radicalidade de discursos xenófobos (de aversão ao estrangeiro), moralistas e preconceituosos. Na disputa pelo poder, o grande Poder, as grandes corporações midiáticas, entram com sua parcela considerável de culpa, ao posicionar-se ao lado de partidos e de políticos que assumem comportamentos fundados na intolerância. E a razão clara disso sempre foi conter a ascensão de personagens populares que não estivessem diretamente vinculados às elites secularmente dominantes.

Isso se expressou não somente nos períodos eleitorais, mas na aversão às políticas de inclusão social que buscavam minimamente resgatar dívidas causadas por esses valores culturais dominantes e preconceituosos. As políticas de cotas tornaram-se alvos de articulistas conservadores e políticos reacionários. Os velhos sicofantas religiosos arrepiaram-se e afiaram seus discursos, tentando impor a todos suas velhas crenças com base na meritocracia.

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Com isso a radicalidade do discurso preconceituoso e intolerante construiu nos templos, nas redações, nas escolas, nas ruas estressantes e perigosas para esses segmentos, os novos fascistas, remanescentes de práticas seculares, tão estúpidos, hipócritas e criminosos quanto todas as demais épocas da história. E, muito embora a época moderna traduza-se pelos avanços de leis democráticas, a dependência da decisão de uma justiça refém também de valores conservadores e moralistas, e presa aos interesses da elite dominante, reforçava a velha sensação de impunidade que mantém as cadeias abertas apenas para os pobres.

Ainda no âmbito da justiça, esses fascistas modernos se municiaram não somente de velhas crenças, mas também na impunidade que o dinheiro proporciona, nas brechas da lei e no que nos mostra o censo carcerário, onde 70% não completou o primeiro grau e cerca de 10% é analfabeto. Ou seja, se a cadeia é feita para o pobre, o que impede neo-fascistas e neo-nazistas oriundos de famílias ricas, de agirem contra o que eles consideram escória?

O fascismo moderno não aparece espontaneamente na cabeça de jovens. É fruto de teorias preconceituosas e de instrumentos sociais que criam e reforçam valores que se baseiam na intolerância, na não aceitação das diferenças, e na liberdade de as pessoas definirem suas opções sexuais. Como na atitude bisonha e estúpida de um deputado pastor que pretendia criar medidas que desfizesse a condição de ser dos homossexuais. Como se uma lei pudesse conter as escolhas sexuais de qualquer pessoa. A não ser numa sociedade totalitária, controlada por um governo fascista.

Tudo isso sempre fez parte de dogmas que permanecem sendo instigados de forma instrumental em templos, tabernáculos, igrejas e mesquitas de todo o mundo, muito embora não se constitua em regra geral nem tenha relação com a fé individual, de cada pessoa, com sua legítima crença e liberdade de acreditar no que lhe convier. É algo construído pela religião, e os que controlam as igrejas, e por esses meios se apropriam da fé do povo.

São teorias também que fundamentam programas partidários que representam setores econômicos dominantes e a classe média alta, branca, mas que pelo reforço ideológico religioso dissemina-se indistintamente por todas as demais classes sociais, apontam para perigosos caminhos, se refletem de forma mais agressivas em alguns países, que se expandiram na medida do crescimento da crise econômica mundial e que tende a se ampliar com a pandemia da Covid19, juntamente com o medo e insegurança que afetam as pessoas.

A consolidação de direitos, e de medidas legais contra o preconceito é bem recente no Brasil. Data da elaboração da Constituição de 1988, juntamente com a criação de instrumentos de punição, como o Ministério Público, instituições que surgiram e se fortaleceram, algumas sem vínculos diretos com o Estado, mas também com a criação de Ministérios, Secretarias e delegacias, voltadas para a defesa dos direitos humanos e das mulheres. Mas essas estruturas e leis não estão sobrevivendo à nova onda conservadora, moralista e perversa que se instalou em nosso país desde a última eleição, reabrindo feridas antigas e destilando ódios e preconceitos, em nome da “família cristã” e de um deus perverso, elitista, criado por pessoas pérfidas e de mau-caráter. A marca desse fascismo dos tempos atuais está se impregnando mais fortemente na sociedade, e deixarão feridas que irão demorar a cicatrizar.

Como na vida nada é eterno, esse será mais um período que será superado, muito embora com sacrifícios, lutas de classes e processos intensos de confrontação seja política ou por meio de violência revolucionária. Pois é assim que se tem escrito a história da humanidade e as transformações sociais. Isso é inevitável.

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(*) Esse artigo é uma adaptação do original publicado neste Blog em 2012:

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2012/03/as-origens-da-intolerancia-e-o-fascismo.html