quinta-feira, 13 de setembro de 2018

CAIADO – A FACE CÍNICA DO AUTORITARISMO


* Há cerca de dois meses (as convenções partidárias ainda não tinham acontecido) fui procurado por uma jornalista de um jornal de Aparecida de Goiânia. Ela me solicitou, por meio de algumas perguntas a mim enviadas, que fizesse uma avaliação da candidatura de Ronaldo Caiado, que liderava as pesquisas eleitorais. Como historiador e professor de Geopolítica, considerei que seria uma obrigação minha responder aos questionamentos feitos. Contudo, passados alguns dias sem que a notícia fosse publicada procurei saber quando isso aconteceria. Não muito surpreso fiquei sabendo que o jornal não publicaria por razões que ela desconhecia. Pois bem, fui a fundo, procurei tentar entender e descobri que a razão foi a pressão feita pela assessoria do candidato para que a reportagem não fosse publicada. Para mim não é surpresa isso, conhecedor que sou das práticas e do comportamento desse político. Cabe a indagação: se ele faz isso ainda como candidato, o que fará sendo eleito? Os prenúncios não são bons, sobre o futuro de Goiás e do Brasil. Quiçá ainda tenhamos tempo de alterar esse destino. Decidi, no entanto, que publicaria neste Blog a entrevista, mesmo sem o alcance que teria caso o jornal a publicasse. Espero dessa forma contribuir, mesmo que minimamente, com o processo político eleitoral em curso no Estado de Goiás, e poder expor para as gerações mais jovens comportamentos e ações de políticos que se escondem numa máscara construída por marqueteiros com o intuito de iludir as pessoas. Lamento também a subserviência de órgãos jornalísticos que giram em torno do Poder e se submetem a ele. A liberdade de expressão só é exigida quando se questiona os comportamentos persecutórios e manipuladores de alguns desses órgãos, para que eles possam se submeter a critérios verdadeiramente democráticos. Compreendo, no entanto, que as forças opressoras muitas vezes são muito poderosas e alguns desses jornais, ainda tentando se firmar num ambiente de recessão, terminam por ceder a essas pressões por simples questão de sobrevivência.

Eis a entrevista:
De acordo com pesquisas eleitorais, o pré-candidato sai na frente dos outros pretendentes ao cargo com uma vitória quase certa. Na sua opinião, a maioria da população pretende votar em Caiado pelas propostas que apresenta no Congresso, pela experiência na carreira política ou apenas porque é um nome muito reproduzido nas mídias e que as pessoas mais desconhecem sua carreira e conhecem a figura?
R – Caiado lidera pesquisas que indicam um percentual muito grande de abstenções, votos nulos e brancos. Essa tem sido a característica principal dessas pesquisas. Aliás, reflete também o resultado da eleição no Estado do Tocantins no último domingo. Metade do eleitorado não quis participar do processo.
Penso que tanto o voto em Caiado, quanto em Bolsonaro, é sintoma de uma sociedade descrente da política. Esse ambiente foi criado desde as manifestações de rua que culminaram com o impeachment da presidenta Dilma Rouseff. O problema, para a maioria da população, é que esse ambiente favorece somente aos setores conservadores e reacionários, que defendem prioritariamente o segmento que controla a riqueza e a produção e não os trabalhadores. Há um desconhecimento da história que beneficia esses candidatos que nos últimos anos carregaram no discurso do ódio, alimentando uma intolerância que foi cultivada para destituir a esquerda do poder. Na medida em que esse discurso afasta boa parte da população da política esses elementos se beneficiam, pois seguramente não votariam neles. É um equívoco daqueles que acham que se omitir é a melhor forma de resolver as coisas. Não é, pois proporciona que candidatos da anti-política, defensores de pautas intolerantes e, principalmente, que se opõem às conquistas dos trabalhadores, se destaquem. Tenho esperança que o processo eleitoral, ao se iniciar, traga um bom debate que possa esclarecer o perfil desses candidatos, e como tem sido as posturas deles na defesa dos trabalhadores e trabalhadoras e como tem votado no Congresso Nacional.
Filho de uma das mais tradicionais família goiana, o sobrenome Caiado já ocupou diversos cargos públicos em Goiás. Existem alguns feitos - dessa família ou do próprio senador- que puderam ser sentidas diretamente, para o bem ou para o mal, pela população?
R – Claro que não. Os Caiados foram derrotados na política pelo avanço de idéias modernizadoras, pela necessidade de se fazer o país e o nosso Estado avançarem em políticas desenvolvimentistas e sociais com garantia de emprego para uma população sofrida. Os conservadores chamavam isso, e ainda chamam, de populismo. Essa oligarquia sempre se bateu contra os avanços, pois seus objetivos sempre foram defender grandes proprietários de terras e oprimir trabalhadores rurais e pequenos proprietários. Na base da porrada e da bala. Não há na trajetória dele, e de sua família, nenhuma política que tivesse como foco o social, os trabalhadores, os camponeses, bem ao contrário, é nitidamente defensor do grande agronegócio e dos latifundiários, que concentram rendas e não se preocupam com as condições a que está submetida a população.
Um dos líderes da bancada ruralista no Congresso, Caiado defende bastante o agronegócio. Pelas suas atuações, o político parece mais preocupado com esse seguimento do que com a própria população?
R – Com certeza. E seria assim um futuro governo seu. Sua trajetória sempre foi marcada por esses posicionamentos. Fiz minha pesquisa sobre a violência no Sul do Pará e Norte de Goiás (atualmente Tocantins) nos embates gerados pela Constituinte da década de1980, e a figura do Caiado sempre esteve presente na liderança da UDR, entidade que ele ajudou a criar e que fazia sistematicamente leilões de gados para arrecadar dinheiro para financiar milícias paramilitares e com pistoleiros, a fim de atacar aqueles que defendiam a Reforma Agrária. Padres, parlamentares, lideranças sindicais, advogados, muitos foram assassinados devido a esse movimento que espalhou violência e ódio pelo interior do país e que começou por Goiás. É esse comportamento que ele, seguramente, manterá como governador, caso venha a ser eleito. Basta verificar suas ações no Congresso Nacional e se perceberá isso com clareza. Além do levantamento de sua história de vida a partir do momento em que se constituiu como liderança dos fazendeiros latifundiários.
Quais ideologias do candidato e quais efeitos poderiam ocasionar sobre os goianos, caso eleito governador em 2018?
R – Ronaldo Caiado explicita claramente um comportamento bruto, avesso à democracia. Suas atitudes, agressivas, como as Bolsonaro, é típica de indivíduos autoritários que não se submetem a opiniões contrárias e a comportamentos diversos de seus valores conservadores. Seria um enorme retrocesso na política para o Estado de Goiás, principalmente do ponto de vista das ações modernizantes que transformaram o Estado. O que nós precisamos é muito mais ao contrário. Precisamos transformar esse perfil moderno dado ao nosso Estado na direção da solução de problemas sociais e de redução da concentração de rendas e de riqueza. Caiado defende o oposto disso, e, consequentemente, caso eleito implicaria em aceleração dos conflitos, dos crimes contra a população mais pobre e de uma situação de instabilidade social que seria inevitável. Espero que a população de Goiás abra os olhos, conheça bem o perfil dos candidatos, e opte por quem deseja paz, educação, saúde e emprego para a maioria dos que vivem aqui.
Algo a acrescentar?
R – Acredito que a situação apontada agora pelas pesquisas, que é de momento, tende a mudar quando começar os debates e for mostrado à população quem é quem. Acho que ainda está muito cedo pra se imaginar haver algum candidato imbatível. É claro que quem já está na mídia há muito tempo leva vantagem agora. Mas quando as regras eleitorais começarem a serem postas dentro do limite da lei isso vai mudar. É o que eu espero e torço por isso. Precisamos de mais democracia e não de menos. De mais política e tolerância. Aposto que as pessoas se darão conta do que é melhor para elas e escolherão candidatos que não destilem ódio. Mas não será surpresa se o resultado for esse que as pesquisas indicam. Infelizmente.


segunda-feira, 10 de setembro de 2018

UM PAÍS À DERIVA: QUE TEMPO É ESSE? PARA ONDE ESTAMOS INDO?


O Grito de Edvard Munch.
Obra expressionista
Não podemos achar que vivemos em uma ilha, onde as coisas acontecem independentemente da realidade que reflete os fatos que se sucedem no mundo. Evidente que não. O que nos afeta é consequência de transformações que foram geradas pelo fracasso daquilo que se convencionou chamar de globalização. E das políticas neoliberais que formaram as condições necessárias para que tais políticas fossem implementadas.
Fracassados os modelos tentados por essa onda de desregulamentação e destruição dos Estados o mundo se depara com uma crise, que não advém de 2008 como muitos possam imaginar. Ela é um processo cíclico que se inicia, se é que há um início ali, na década de 1970. Mas somente na década de 1990 as soluções desejadas pelo capitalismo conseguiram ser plantadas, como decorrência da decadência dos países que seguiam pelo socialismo, e em especial a União Soviética.
Passou-se a um ambiente de absoluta ausência de regulamentações, a não ser aquelas definidas por um ente abstrato, erigido à condição de sujeito: o mercado. Naturalmente isso significa dizer que não havia nenhum tipo de regulação. Em termos, claro. Porque muitos países se aproveitaram dessas circunstâncias, se incluíram no mundo globalizado sem abdicar de ter o Estado como instrumento necessário para transformar o desenvolvimento econômico e social em algo mais palatável em relação à sociedade. Ou seja, sem o Estado como instrumento regulador as classes sociais mais baixas estariam entregues a um sistema claramente marcado pela selvageria da lei do mais forte. E assim ocorreu, em muitos casos. Em outros não. E para onde foi o mundo quase ao final da segunda década do século XXI?
Essa lógica foi desastrosa. Sob diversos aspectos. No econômico levou a uma poder descontrolado das corporações, principalmente aquelas que estão na ponta dos conglomerados: os bancos. A concentração de riquezas chegou a níveis escandalosos. Houve um processo de saneamento das empresas, motivado pela lógica inerente ao sistema capitalista, da necessidade de lucros, levando a uma escalada de desempregos por diversos países, principalmente aqueles que se encontravam em fortes conflitos, seja guerras com inimigos externos, seja por desestabilizações políticas internas, acrescidos das ações de agentes que executavam a chamada “guerra híbrida”.
Para tornar a situação mais complexa o capitalismo, como é comum acontecer diante do agravamento de suas crises crônicas, cíclicas, busca um processo de reestruturação, acelerando transformações tecnológicas cada vez mais sofisticadas, por meio da robotização acentuada e da inteligência artificial. Naturalmente isso garante maior lucratividade para empresas e a redução do uso de mão de obra humana, alimentando uma crise social de proporções crescentes, trazendo junto com isso desemprego, mais problemas sociais, uma juventude cooptada pela criminalidade, desestruturação familiar, intolerância, ódio e xenofobia.
Por outro lado, governos conservadores, alguns alçados à condição de dirigentes por meio de golpes institucionais, programam medidas austeras em relação aos gastos do Estado, prejudicando as camadas mais baixas, ao mesmo tempo em que seguem mantendo subsídios às grandes empresas, ou as beneficiando por meio de isenções fiscais e garantia de infraestruturas para seus aportes e instalações.
No Brasil não foi diferente. As circunstâncias de uma situação política que levou o país a uma forte crise fiscal serviu de pretexto para a derrubada em 2016 de um governo eleito legitimamente, mediante acusações nitidamente farsescas, embora com a anuência de um judiciário carregado de mágoas por causa de decisões que feriram seus interesses corporativos.
A crise política, econômica e institucional se agravou ao longo dos anos seguintes, e deixou numa situação caótica o quadro político e social brasileiro. Um governo incompetente e imoral, completamente distanciado dos interesses da Nação, até porque não foi eleito democraticamente, adotou medidas que sufocaram mais ainda os trabalhadores e empurrou o país para uma das maiores recessões de sua história. Mas o aspecto moral foi o que mais se deteriorou, potencializado pelo crescimento da criminalidade, da insegurança, da violência e do discurso que projeta mais um sentimento de vingança do que a sensação que a justiça prevalecerá. Um vale-tudo se instalou no país disseminado por fake-news nas redes sociais que toma proporções parecidas com o que aconteceu nas eleições dos EUA e no plebiscito do Brexit na Inglaterra.
Inquisição medieval
Nesse quadro a sociedade vive a expectativa de um processo eleitoral. Numa conjuntura em que a população se vê perdida diante dessa manipulação de fatos e da utilização dos mecanismos que foram adotados em outros países, da falsificação da verdade e de informações distorcidas, aliado à perseguição comandada por um Ministério Público de uma parcialidade irritante, embora reforçado por comportamentos semelhantes do judiciário.
Assim, tudo é feito, até por meios desleais no âmbito de uma justiça que se desmoraliza, aprofundando a sensação de parcialidade explícita para que o poder político não retorne às mãos dos partidos de esquerda. À medida que os principais candidatos dos segmentos conservadores não conseguem deslanchar, destaca-se como representante do ódio alimentado ao longo desse tempo, um candidato da extrema-direita. Como característica desses perfis de candidaturas por todas as partes do mundo, seu discurso é baseado na intolerância, na descriminação ao outro sem respeito às diferenças e na alimentação do ódio, sob todos os aspectos. Um discurso que pode ser caracterizado sem erro de neonazista. Paradoxalmente, ao tempo em que professa esse sentimento intolerante, alicerça-se em crenças evangélicas, cristãs, e diz falar em nome de deus.
Cenas da Inquisção
Mas, porque esse indivíduo chegou a essa situação? Basta olharmos para a história e veremos muitos trágicos exemplos de como uma população fica refém de discursos de ódio, na medida em que perde a esperança, não vê perspectivas em curto prazo, principalmente os jovens, e são nesse desespero capturados pelo discurso fácil, enganador, manipulador. São conduzidos pelo medo, e pela forma como culturalmente foram sendo constituídos os valores e a ideologia de uma sociedade conservadora.
Submersos em momentos de avanços sociais, como na primeira década deste século, um sentimento conservador se libertou das profundezas, alimentando o medo e iludindo as pessoas com versículos bíblicos escritos há mais de dois mil anos. Seria impossível crer que um discurso de ódio e perversidade encontrasse guaridas em páginas religiosas? Não é bem assim. A história nos levará a outros tempos, e nos veremos diante de fatos por épocas passadas, onde o discurso religioso se tornou instrumento de fascistas, farsantes e até mesmo de fanáticos que levaram centenas de seguidores à morte, ou a tornarem-se, eles próprios, armas contra quem eles sequer jamais chegaram a conhecer. Porque o ódio cega, e o ódio do sectarismo fanático religioso se alimenta da ilusão e da crença de que determinado indivíduo se torna ungido e destacado por deus para libertá-lo das angústias e dos medos. E os que professam desse ódio e desse sentimento perverso, matam e se matam em nome de deus.
Marcha da Família com Deus
Pela Liberdade, em apoio
ao golpe militar - 1964
Numa situação de crise grave, de desemprego que se conta a dezenas de milhões, em que uma juventude se perde na ausência de esperança e de perspectiva, esse discurso farsesco se espalha rapidamente. E, por mais paradoxo que possa parecer, mesmo sendo os que assim propagam como sendo o escolhido, representante das camadas ricas, que defende abertamente a eliminação dos pobres pela execução daqueles que os deveriam proteger, muitos pobres, alienados, e/ou dominados pelas crenças sectárias religiosas, são facilmente convencidos por esses discursos de ódio, por esse ambiente no qual eles vivem e que a crise o aprofunda. Foi assim que surgiram os personagens mais perversos e genocidas da história mundial.
Muito embora isso, no espectro político que define a disputa eleitoral em curso, tem valido mais a disputa do Poder e da projeção partidária desconectada da preocupação com o futuro que nos aflige. Seria de esperar que num quadro assim delineado tivéssemos uma junção de pensamentos, e de partidos, que se opõem a esse perigo eminente de caminharmos para uma fascistização aberta da sociedade. Mas seguimos um enredo já visto no passado, e isso parece não despertar uma sensação de risco, ou talvez venha acompanhado de um sentimento de que uma derrota agora pode ser revertida nas próximas eleições. Provavelmente alguns estrategistas imaginam que da eleição de um desastroso e pérfido projeto levará as pessoas a se arrependerem, e imaginam um fenômeno semelhante ao sebastianismo ocorrido em Portugal, país que viu seu rei perder-se em meio a uma guerra, sem que jamais se soubesse qual foi o seu destino. A expectativa do retorno de um salvador ilude a sociedade e transfere para um futuro incerto um destino que estará sendo definido neste momento.
Podemos dizer que a história julgará aqueles que se omitirem ou manipularem um processo à custa de um jogo perigoso que envolve toda uma nação. Mas ainda temos tempo de alterar o curso dos acontecimentos. Praticamente vai se definindo uma disputa que colocará de um lado uma candidatura nesse perfil aqui analisado, que representará a destruição de tudo que se construiu e que se avançou na sociedade. Agora, a menos de um mês da eleição é preciso recuperar o tempo perdido de forma a garantir uma candidatura de esquerda na contraposição a essa onda de perseguição e intolerância que tomou conta do Brasil. A rejeição a esse projeto reacionário está num patamar bastante elevado, indicando a possibilidade de uma derrota efetiva em um segundo turno das eleições. Temos que ter foco e saber definir bem claramente quem é o alvo a ser derrotado e quais propostas o povo rejeitará nas urnas, porque trariam mais incertezas para o nosso país. Neste momento virar as baterias contra possíveis aliados no segundo turno é uma estupidez. O "fogo amigo" só ajuda o adversário.
Mas o tempo não para. E as pessoas vão se definindo, em meio a uma confusão inédita na história dos processos eleitorais brasileiro.
Não temos tempo a perder. “Nosso suor sagrado, é bem mais belo que esse sangue amargo. E tão sério… temos nosso próprio tempo” (Legião Urbana).

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

ABRIRAM-SE AS PORTAS DO INFERNO! CRÔNICA SOBRE UM BRASIL ASSOMBRADO PELOS DEMÔNIOS


“A cegueira também é isto,
viver num mundo onde se tenha acabado a esperança”[1]

Uso essa expressão do título (em parte inspirado na obra de Carl Sagan, "O mundo assombrado pelos demônios") como uma metáfora, naturalmente. Inferno é um ambiente criado, tal como os demônios, para justificar a existência dos deuses, que, em tese, viriam para salvar os viventes das desgraças a que estivessem submetidos.
Mas o inferno sintetiza o caos, a perversão, a absoluta ausência de qualquer respeito pelo outro. Seja homem, mulher ou criança. Importa somente o poder de quem se impõe pela força, pela brutalidade, que desrespeita regras e que não dá o mínimo valor pela vida. Isso seja de quem tem o grande Poder, e que possa estar na condução de um Estado falido moralmente, ou dos micros-poderes, que se espalham perversamente na ausência de autoridade e numa situação gestada pela mediocridade de figuras ásperas, ávidas de poder impossibilitados de serem conquistados democraticamente.
Nada disso surgiu por acaso, esse “inferno” não se fez por geração espontânea, como num passe de mágica. Houve intenção, arquitetura, comando, decisão e ação, por meio de diversos atos que destruíram, e desconstruíram outras possibilidades de se viver com dignidade, mesmo numa sociedade desigual. A ganância, obsessão pelo poder, hipocrisia, desprezo pelos pobres e, acima de tudo, uma luta de classes que se mantinha submersa e emergiu perversamente diante da impossibilidade desse poder ser alcançado pelas urnas.
A chamada guerra híbrida, termo já por muito tempo usado por especialistas em geopolítica para identificar as sabotagens feitas por agentes estrangeiros infiltrados em ONGs, empresas, ou até mesmo por quintas-colunas cafajestes que não tem o menor sentimento pela nação, pois que espalham suas riquezas por paraísos fiscais mundo afora, foi aplicada aqui no Brasil, como já acontecera em diversos outros países. E continua a acontecer numa conjuntura mundial marcada por essa característica de disputa do grande poder. A bola da vez, neste momento, é a Nicarágua. Tudo indica que  a próxima será a Turquia.
Não está em jogo o caráter de um governo. Se ele é progressista, ou não. Simplesmente importa o fato de não rezar na cartilha do império, ousar bater de frente com forças que se julgam donas do mundo e/ou se atrever a construir alternativas que tirem a hegemonia geopolítica das mãos daquelas potências que desde a segunda-guerra mundial fortalecem podres-poderes e corporações que comandam a riqueza mundial.
As condições nas quais o nosso país se meteu a partir de 2015 não tem nada a ver com problemas fiscais. Essa farsa de “pedaladas” criadas para justificar ações golpistas e destruidoras de um modelo de democracia que já era limitado, e tornou-se absolutamente falso, farsesco, hipócrita, desmoralizado, foi somente pretexto para assaltar o Poder e dominar o Estado à revelia dos desejos do povo. As medidas para resolver problemas fiscais estavam postas, até mesmo com a inclusão do imposto sobre movimentação financeira. Mas este pegaria os sonegadores, pequenos e grandes marginais, os “laranjas”, doleiros, muita gente que tem lojas/empresas de fachadas utilizadas para lavar dinheiro, os ricos desse país que se enriqueceram com mérito. Mérito de terem a habilidade de explorar a força de trabalho de uma maioria de pobres, que historicamente foram colocados na condição de estúpidos, de adoradores dos “diabos”, de puxa-sacos dos ricos como se esses fossem iluminados pelos deuses para ajudá-los em suas via-crucis em busca de empregos. Desgraçadamente muitos acreditam assim, e oram em suas igrejas pela fidelidade de um deus que está encarnado em cada um desses grandes milionários. Pois que sim, foram iluminados. Por mérito. E cabe aos pobres miseráveis espelharem-se neles, e, quem sabe algum dia venham a ocupar seus lugares, nem que sejam depois da morte.
E, quando a máquina destrambelha, e no caso, o país entra no caos, em crise, os iluminados enviam seus dinheiros para os paraísos fiscais. Quanto aos pobres, uma parte adquire consciência de classe, sabem reconhecer que o inferno em que vivem é uma construção de mentes perversas, e desejam o embate com as trevas. Outros, alienados, desprovidos de qualquer capacidade de compreensão da realidade, senão pelo que lhes são ditos dos púlpitos e das máquinas que lhes alienam do mundo real, sucumbem às manipulações e escolhem entre seus representantes, mesmo que orando a seu deus, a figura estampada, farsesca, do belzebu. Ou de outros diabos menos qualificados para torná-los uma manada de estúpidos que seguem como gado em direção a um enorme lamaçal de areia movediça.
As tecnologias atuais os guiam. Cegamente repetem cantilenas fascistas que a história já condenara, e buscam se guiar por profetas do caos, justiceiros de uma imoralidade que lhes pariu. “Coisas ruins” que se alimentam das desgraças e as transformam numa hecatombe social. Esses “demônios” pregam cinicamente o faroeste moderno, a opacidade do ambiente em que vivemos, a desconstrução das gentes, e a cegueira para impedir que o mundo real seja desnudado, e descoberto as vilanias que lhes caracterizam. E, pior, se apresentam como enviados de deus, evangelizam-se, e saem a pregar o extermínio dos pecadores, independente dos crimes, sem julgamentos e sem condenação, num oposto radical do que serviu para fazer surgir algumas religiões. Mas numa equiparação ao pior dos marginais, esses cujas vidas já não valem quase nada e “só tem suas cadeias a perder”. Já esses “poderosos podres pecadores”, demoníacos e hipócritas, tem um mundo a proteger. Seu mundo, corrompido e degenerado.
O que esperar de um mundo dominado por esses demônios? Onde a cegueira os fazem serem confundidos com enviados de deus? Onde pobres se imaginam ascender ao paraíso burguês e desejam serem conduzidos por milionários que assim se tornaram à custa das suas desgraças, das suas misérias, de suas pobrezas?
Não! O inferno não é, assim, uma metáfora. É o mundo que se deseja construir, entregando as chaves para os mais pérfidos canalhas. E haverão de se arrepender, e não encontrarão paz, se essa estupidez se consumar. Repetirão cananeus e filisteus que por milênios disputam paz numa vida de guerra pela cegueira da visão. Ou da “ilusão de que um super-homem possa vir nos restituir a glória”.[2] Se derem asas ao demo ele reinará sobre o caos.
É certo que esse caos foi gerado por um golpe que saiu pela culatra! Os demônios infiéis foram rifados do jogo, e o grande belzebu foi escolhido pelo discurso mais perverso, encaixado no ambiente fétido criado por essas criaturas demoníacas.
Há saídas, não tenhamos dúvidas, nem percamos a esperança. Pode-se enfiar uma “estaca” no peito dessa perversão. Essa “estaca” tem nome e endereço fixo. Sabe-se que foi transformado no “bode expiatório” a ser ofertado no altar para saciar os desejos estúpidos de uma classe média boçal. Está trancafiado numa condenação moderna, caso contrário seguiria o exemplo que nos traz a antiguidade, e seria crucificado, quem sabe de cabeça para baixo, diante de uma massa acrítica e pusilânime. A mesma que foi beneficiada por suas ações políticas anos atrás.
Ou, na ausência dessa “estaca”, sempre usada nas lutas contra os demônios e vampiros perversos, poder-se-ia pela esquerda se tentar o exemplo de que a união faz a força, e tornaria mais firme a resistência, recompondo a força enfraquecida pela desconstrução feita pela mídia nos últimos anos. Mas, tudo indica que essas possibilidades estejam enfraquecidas. A força da perversidade demoníaca contaminou algumas mentes boas, e as iludiu com a possibilidade de que sós, separados e com discursos bondosos, pudessem converter os incautos e que cada uma dessas possibilidades se tornassem alternativas aos belzebus, pequenos demônios e diabinhos com chifres escondidos. É triste ver que os nomes desses demônios são repetidos diuturnamente pelos seguidores dessas alternativas, dando-lhes mais visibilidades do que já possuem.
Se essas alternativas derrapam, não conseguem iluminar as mentes convertidas dos pobres e miseráveis (e aqui não há referência explícita a condição financeira, mas a pobreza de inteligência e sagacidade) alienados, então teremos que nos preparar para vivermos muito mais do que numa metáfora: esse país se tornará um inferno!
É claro que essa crônica quase irônica de uma realidade cruel, é uma construção de quem tem uma visão sobre essa conjuntura de um dos lados da história, e por quem não acredita em demônios. Só que ela é, infelizmente, inspirada em fatos reais. Mas que eles, esses demônios existem, parece não haver muitas dúvidas. Já Deus, ou deuses... Se existirem, para onde estarão olhando?
Resta-nos lutar e torcer para que nessas eleições o número de exorcistas seja maior do que daqueles que estão possuídos pelo vírus demoníaco da perversão, da intolerância, da xenofobia, da homofobia e do feminicídio. Contra esses, nosso brado forte, retumbante! O Brasil, a Nação, é o povo brasileiro! “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós”![3]



[1] José Saramago: “Ensaio sobre a cegueira”.
[2] Trecho da música de Gilberto Gil, “Super-Homem”
[3] Trecho do “Hino da República” do Brasil.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

O QUE FIZERAM DE TI, ESPERANÇA? Uma crônica de nossos desejos, desafios e decepções políticas


“Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhecia toda a extensão de sua miserável condição: é nela que pensa em sua descida. A clarividência que deveria fazer o seu tormento consuma no mesmo instante a sua vitória. Não há destino que não se supere pelo desprezo”. (Albert Camus)*

Conta-se pela mitologia grega que a ingenuidade de Epimeteu e a curiosidade de Pandora, foram responsáveis pela libertação de todos os males que viriam a povoar a terra: a doença, a guerra, a velhice, a mentira, os roubos, o ódio, o ciúme… Ao abrir a caixa onde continham esses males e libertá-los, assustada, Pandora fechou-a rapidamente, mas o suficiente apenas para mantê-la por lá a esperança. Daí se espalhou pelo mundo a lógica de que a esperança sempre está guardada, e que ela poderá em algum momento nos fazer acreditar que é possível superar as adversidades.
Mas até quando a pobre esperança nos manterá na expectativa de que poderemos contornar situações difíceis e aparentemente definidoras dos limites que são impostos a uma determinada época?
Vivemos aqui no Brasil uma situação de absoluta falta de rumo na política e do que poderá acontecer ao país nos próximos anos. Não seria tão grave se não estivéssemos em meio a uma grave crise crônica e estrutural do sistema capitalista. Mas a situação instável que vive o mundo, economicamente e em termos de grandes disputas geopolíticas, nos deixa numa condição de estarmos próximos a frequentar uma unidade de terapia intensiva. É sempre importante não olharmos para o Brasil como se aqui fosse uma ilha, alheio a tudo que acontece à sua volta. E, se em meio a uma crise estrutural séria, nos deparamos com uma crise política sem perspectivas de solução, isso nos coloca mais próximo ao abismo.
Desde 2013 que venho analisando aqui neste Blog todo esse processo, que a meu ver aqui em nosso país começa com as chamadas “jornadas de junho”, atinge seu auge com o golpe que depôs a presidenta Dilma Roussef e se mantém numa espiral crescente até sabe-se lá quando. Mas já por esse tempo era previsível as dificuldades que a esquerda teria de se recompor, diante de um vendaval de notícias ruins, fake news, e um ataque sistemático da mídia, da direita e de uma justiça absolutamente parcial e corrompida por seus interesses mesquinhos e corporativos, que tem agido com forma de vingança e com ódio de classe.
Mas ao longo desse tempo, como reagiu a esquerda, e como ela se preparou para enfrentar um processo eleitoral? Em primeiro lugar não houve nenhuma preocupação equilibrada com a reestruturação das forças, da organização, de buscar o caminho de fortalecer nossas lutas procurando reforçar pontos comuns em nossos objetivos, de forma a chegar ao processo de composição para as eleições unidos, aptos a construir uma forte aliança para enfrentar uma direita que cresceu nos últimos anos, mas que também se dividiu.
Vivemos em meio a um dilema, semelhante ao mito de Sísifo. Para citar outro personagem da mitologia, esse teria sido punido por desobedecer aos deuses, com o castigo de viver eternamente rolando uma rocha montanha acima, sendo que ao chegar no topo a rocha rolaria abaixo, necessitando que esse trabalho fosse refeito eternamente.
Parece que a esquerda está condenada aqui no Brasil ao mesmo castigo de Sísifo. Mas, nesse caso, muito em função de seus próprios erros, que, aliás, são recorrentes. Dentre eles, o hegemonismo, o exclusivismo, o sectarismo, representado principalmente pela força majoritária, o Partido do Trabalhadores, que governou o país por três mandatos e um incompleto, até o golpe que desandou as coisas e possibilitou uma perseguição inusitada até levar para a  cadeia um presidente, e um dos mais populares de toda a nossa história.
Neste texto não tenho como analisar todas essas circunstâncias e equívocos cometidos. De certa maneira já abordei em textos anteriores, que, como disse, podem ser lidos aqui no Blog. Mas dedicarei a maior parte deste artigo a analisar o comportamento da esquerda na pré-campanha eleitoral de 2018, as táticas, os nomes postos e os comportamentos aleatórios de quem deveria saber se guiar por ensinamentos seculares de como a política deve ser utilizada no objetivo de atender as necessidades do povo e não somente dos interesses menores seja dos partidos ou dos grupos que os compõem.
Começo dizendo que, para além da injustiça que se comete contra o ex-presidente Lula, a estratégia pensada não deveria ser da insistência de uma candidatura sabidamente inelegível. Por lei aprovada durante seu governo e sancionada por ele próprio. Entendo o desespero perante tamanhas manobras da justiça brasileira a condenar alguém que chegou a essa condição por sua origem de classe, por superar desafios que a elite e as oligarquias brasileiras jamais esperariam de um nordestino que se tornou operário na maior metrópole desse país e uma liderança incontestável em sua força e carisma.
Contudo, o que estava em jogo não é somente a liberdade de Lula, a meu ver somente a ser garantida com a eleição de um governo de esquerda. Mas o que está em jogo é o futuro do país e as condições de vida de nosso povo, igualmente injustiçado com a destruição de políticas sociais criadas em seu governo e da presidenta Dilma. Exatamente por isso dever-se-ia pensar para além de seu próprio destino, e vê-lo ligado ao destino de nosso povo. Era preciso, então, na construção das alianças para o processo eleitoral, pensar em primeiro lugar na libertação de nosso povo, na vitória da esquerda e a partir daí, a garantia de que a justiça pudesse ser feita com vitória nas urnas e Lula livre!
Mas por todo esse tempo prevaleceu muito mais do que a razão, a emoção. A estratégia do golpe tinha como alvo, nitidamente, o presidente Lula. Claro, antes era preciso derrubar uma presidenta e desconstruir por meio de uma intensa campanha de mídia e de financiamento de grupos que se fortaleceram ao longo desse processo, fazendo despertar uma direita intolerante, cruel e perversa, alterando o percurso do golpe e transferindo para uma figura torpe a condição de se alçar a líder nas pesquisas eleitorais e a se colocar como alternativa ao poder, podendo levar o país ao aprofundamento de uma crise política que pode nos jogar mais ainda ao fundo do poço.
Ora, se a esquerda foi atingida duramente nesse processo, não somente a força que detinha, como sua credibilidade, era natural que as táticas a serem implementadas tivesse em vista um objetivo claro, retomar o poder. Nas condições existentes isso jamais poderia ser pensado sem que fosse pelo caminho da unidade da esquerda. Caso não fosse assim, poderia ser dito, com tranquilidade, que os objetivos dos golpistas, mesmo com situações que saíram pela culatra, foram alcançados. Dentre esses objetivos, naturalmente, isolar os partidos de esquerdas e mantê-los desunidos para serem mais facilmente derrotados.
No entanto como se comportou o partido majoritário da esquerda? Justamente aquele que se tornou o principal alvo dos ataques desfechados com o golpe? O Partido dos Trabalhadores confundiu a bandeira de luta pela liberdade de Lula, com a sua estratégia eleitoral, e levou para a prisão juntamente com ele, toda uma esperança de conseguir,  a partir dessa situação, unificar os partidos de esquerda, ou de centro-esquerda, para retomar o poder e contra-atacar os golpistas que em dado momento pareciam também completamente desnorteados com o crescimento da extrema-direita.
Adotou um comportamento contrário, se isolou em uma tática suicida, que pode dar certo, tanto quanto isso acontece numa disputa do alucinado jogo “roleta russa”. Insistiu na candidatura de Lula, e, pior, passou a desconstruir outra candidatura do campo da centro-esquerda, jogou com fiéis aliados, como o PCdoB, e nos Estados insistiu no hegemonismo sectário de não abrir mão para lideranças que possam lhes ameaçar futuramente. Quase no final da hora final, assestou um golpe fatal que terminou por isolar a candidatura de Ciro Gomes, do PDT, mesmo que à custa de demolir a candidatura de uma jovem liderança em ascensão em Pernambuco, com um efeito colateral que atingiu no Amazonas a candidatura de uma senadora que foi um dos baluartes na defesa do mandato da presidenta Dilma Roussef: Vanessa Graziotini. Ao final, sob o beneplácito do PCdoB, a essa altura sem muitas alternativas e ainda acreditando que isso significava uma unidade da esquerda, finalizou com uma aliança que mantém dois candidatos à presidência (Lula e Haddad) e duas candidaturas à vice (Haddad e Manuela), numa situação inusitada em toda a história política brasileira.
Em Goiás, onde a disputa está firmemente concentrada no campo dos conservadores, com um direitista contumaz, criador da UDR e financiador de milícias durante a Constituinte de 1985 para assassinar trabalhadores rurais, Ronaldo Caiado, disputando a liderança nas pesquisas, o Partido dos Trabalhadores manteve-se altivo, no alto de seu salto, então colado com super-bond. Aceitou coligar-se com o PCdoB, cedendo, no entanto, somente a vaga de vice numa chapa majoritária onde há ainda a disputa por duas vagas ao Senado, uma das quais me apresentei na condição de pré-candidato. Numa postura inarredável manteve, como sempre se acostumou a fazer, o PCdoB encostado numa parede, sem outra alternativa senão aceitar o comportamento impositivo e hegemonista que se tornou marca característica do PT. Compreenda-se também pelo fato deste ser um partido de tendências, em cuja disputa interna leva também à necessidade de acomodar indicados por cada um desses grupos, o que não e diferencia muito do tradicional fisiologismo dos partidos conservadores.
Coloquei-me na condição de contribuir com a luta, com o debate e entrar no ambiente desgastado da política atual, e acreditei poder ser um nome que viesse a encarar o desafio de tentar desmontar a farsa que se criou nesses últimos anos com discursos hipócritas que alienaram mais ainda as pessoas, acentuando o ódio, a intolerância e a estupidez. Mesmo sabendo das dificuldades me dispus a encarar essas dificuldades. Mas, não que eu não estivesse ciente que isso poderia acontecer, já que sou militante de longas datas, percebi que a esquerda não precisa da direita para se destruir, se isolar e se apequenar diante do poder dos conservadores. Ela é autofágica, guia-se pelos mesmos sentimentos daqueles que fazem políticas tradicionais, muito embora seja diferente no discurso, e ao final para alguns que a compõe não é a preocupação com o povo que os movem, mas sim, são seus interesses particularistas e de grupos, com foco no poder e nos privilégios que são concedidos a partir daí. Mantêm-se sempre os mesmos na condução desses processos, na apresentação dos nomes, na defesa de seus mandatos e na capacidade ceifadora de cortar cabeças de prováveis lideranças que venham a ameaçar também seus hegemonismos internos. Contribuem, no entanto, com esse comportamento, com o descrédito como as pessoas veem os políticos e os igualam, e destroem a política que possa ser vista como uma condição necessária para a libertação desse povo, mas a transformam em instrumentos de seus próprios interesses.
Assim, mantém a esperança aprisionada (aqui não há necessariamente relação com o Lula, mas pode ser visto como uma metáfora) e assume a condição que levou a punição de Sísifo, condenados a carregarem rochas para cima da montanha. Mas ao contrário do que se segue na mitologia, há um abismo ao final do percurso. Não sei se escaparemos dele, ou se a rocha rolará montanha abaixo e seguirá sendo levada ao cume, antes de despencar de uma vez no precipício. O que sei, e sinto, é que a esperança se esvai, nossa paciência também, e com tudo isso, desacreditamos na possibilidade de construir algo diferente, um tipo de política diferente, com pessoas que de fato coloquem o interesse coletivo para muito além das mesquinharias e vaidades que destroem nossas utopias.
Não sei como me comportar daqui para adiante, o certo é que não tenho nenhum interesse em ficar condenado a rolar rochas montanha acima. Vou procurar em algum canto, se ainda resta por lá uma esperança. Mas decerto que não sou eu quem está enclausurado em uma caverna.


(*) http://www.teatrodomundo.com.br/o-mito-de-sisifo/

segunda-feira, 21 de maio de 2018

SOBRE AS CARACTERÍSTICAS DO NAZISMO - O QUE EXPLICA HAVER "SOCIALISMO" NO NOME DO PARTIDO DE HITLER E AS CONFUSÕES DAS "FAKE NEWS"

Por: Romualdo Pessoa

- O Nazismo foi um movimento de Esquerda?
Negativo. De forma nenhuma. Quem tem alguma dúvida sobre isso desconhece por completo a história. A esquerda, principalmente os comunistas, foram os principais alvos de Hitler logo no começo de sua jornada para consolidar o poder que havia sido conquistado. Naquela época o movimento comunista estava em ascensão, assim como a social-democracia. A divergência entre esses dois segmentos terminou por abrir a possibilidade da ascensão de Hitler, na medida em que, em função de uma crise econômica terrível – consequência da grande depressão mundial da década de 1930 – a população alemã não se sentia protegida pelo governo. Numa situação dessas é normal que sempre surja alguém, ou algum grupo, com um discurso de ódio, duro, sectário e moralista. Assim fez Hitler, somando-se a uma capacidade de oratória que ele tinha. Mas o que garantiu a sua ascensão, além desse quadro político e econômico, foi também o fato de a burguesia não ter, naquele momento, outra opção. Assim o establishment do Estado alemão optou por entregar o poder a quem para eles seria mais confiável. Repito, num quadro em que a esquerda estava em ascensão motivada pela conquista e ampliação do poder na Rússia, então transformada em União Soviética. É bom que se diga que tão logo tomou um poder, e responsabilizar um indivíduo holandês, que seria do Partido Comunista, pelo incêndio do parlamento alemão, Hitler iniciou uma verdadeira caçada a todos os comunistas. Mas nunca houve prova de que isso tivesse sido uma articulação dos comunistas. No entanto, serviu de pretexto para dar início a uma ditadura e botar em prática os planos de Hitler da construção de uma nação de raça pura. Aliás, entre os que eram considerados de raça impura estavam os comunistas, negros, homossexuais, ciganos, pessoas com algum tipo de deficiência, portanto não somente os judeus.
Incêndio do Parlamento Alemão -
Reichstag (1933)
- Porque muitas pessoas na internet costumam espalhar essa informação?
Porque a principal característica das gerações atuais é o desconhecimento da história. Assim fica fácil plantar uma mentira, difundi-la repetidamente e esperar que uns tolos acreditem e compartilhem. Vivemos a época das “Fake News”. As redes sociais se tornaram canais de expressão de ignorância, intolerância e estupidez. Apegam-se ao fato da denominação do partido de Hitler.
- Por que o partido de Hitler tinha "socialismo" no nome?
Porque o socialismo estava em ascensão e o capitalismo em crise profunda, com a grande depressão. O socialismo conquistara corações e mentes nas enormes dimensões russas e na Europa, com o advento da Revolução Bolchevique, e também as próprias experiências em curso nos EUA, para tentar tirar o país da crise econômica, tinham no planejamento do estado socialista os melhores exemplos para isso. O Walfare State, que surge logo depois da guerra bebeu na fonte do socialismo. Agora a denominação do partido, como “Nacional-Socialista, dos trabalhadores alemães” era pura retórica. Da mesma maneira como vemos hoje aqui no Brasil partidos de direita e de centro-direita usarem o nome trabalhista e socialdemocrata. Suas políticas não são voltadas para os trabalhadores, embora suas retóricas enganem com denominações assim. Mas o que define as posições são as defesas de uma sociedade menos desigual econômica e socialmente, mais solidária e com distribuição de riquezas, de forma clara na sua aplicação e não somente no nome ou no discurso. Isso é o que diferencia “direita” de “esquerda”.
- Quais as características que definiam ou não o nazismo como direita ou esquerda?
O nazismo é um regime totalitário, que abomina a democracia e refuta a diversidade. Para as concepções nazistas o que faz as pessoas diferentes do padrão que eles consideram normais, constituem-se em deformidades que precisam ser extirpadas. É um regime que se propunha a atender a uma parcela minoritária da sociedade e a tratar os trabalhadores, principalmente aqueles de origem pobre, africana e asiática, como excrescência. No caso dos judeus haviam outros elementos, além daqueles que fizeram deles párias das sociedades desde a diáspora do mundo antigo por conta das questões religiosas. A Alemanha estava em crise, absolutamente falida e humilhada. A perseguição aos judeus, apesar dos argumentos utilizados que iam nessa direção da questão religiosa, se dava muito pela necessidade de pilhar aqueles que possuíam grandes riquezas. Os judeus eram pessoas bem sucedidas, em sua maioria, em uma sociedade absolutamente falida. Hitler saqueou praticamente toda a riqueza dos judeus e a incorporou ao Tesouro do Estado alemão. Mas, sempre, nazismo e comunismo se opuseram com profundas diferenças. Afirmar que o movimento comunista prega um Estado totalitário é também desconhecer a história desse movimento, que defende, sim, que num primeiro momento haja a conquista do Estado com a centralização do Poder, mas isso se dá pela necessidade de esse Estado atender ao que é essencial, distribuir a riqueza, diminuir as desigualdades sociais e caminhar para uma transição onde ele, o Estado, não seja mais necessário. Claro que ocorreram distorções e problemas nesse percurso, e erros foram cometidos levando a um fracasso nesse objetivo. Mas o nazismo é o oposto, assume a condição de um movimento avesso à democracia popular, menospreza pobres, trabalhadores e mulheres, e sempre teve o apoio da burguesia e das grandes empresas e corporações.
A maior batalha da 2ª Guerra se deu entre
alemães e soviéticos, em Salingrado.
- O que mais as pessoas precisam saber para que essa informação esteja clara?
Conhecer a História. As pessoas não estudam mais como antes. Submetem-se a leituras curtas e rápidas, sem dar importância às fontes, às origens daquelas notícias, não pesquisam para saber se o que está repetindo e compartilhando é verdade ou não e passam a assimilar mentiras como se fosse verdades. E aí, depois que assumem essa condição, de compartilhar inverdades, passa a acreditar fielmente naquilo. Assim seu cérebro vai sendo condicionado e suas posições assumem características radicais e intolerantes. Essa é uma situação que boa parte do mundo vive hoje, e que alguns chamam de “Pós-Verdade”, como sendo uma etapa posterior à “Pós-Modernidade”. A pós-verdade é aquele momento em que as pessoas, diante de condições socioeconômicas e políticas complicadas, e diante de crises inclusive identitárias, passam a ver somente diante de si uma realidade, aquela que ele construiu para si próprio a partir de leituras feitas sem embasamento e que se tornam crenças irredutíveis. Ele não consegue ouvir mais o contraditório, e passa a rejeitar qualquer outra explicação para aquele fato que ele crê como sendo a pura verdade. É um ambiente de intolerância.
Saber lidar com o conhecimento de forma a não ver uma opinião como definitiva, estar aberto para o contraditório, acreditar que as coisas podem ter mudanças positivas a partir do entendimento entre as partes, enfim, ser tolerante em suas posições, ajuda as pessoas a ter uma visão mais clara sobre a realidade. Mas, acima de tudo, olhar para o passado. As pessoas ficam procurando enxergar o futuro, quando ele sequer existe e sua possibilidade depende do presente. Só que a melhor maneira de aprendermos e evitarmos a repetição dos erros, ou pegar bons exemplos para seguir, é mirando-se no passado, conhecendo a história. Como dizia Eduardo Galeano, “A história é um profeta com o olhar voltado para trás. Pelo que foi, e contra o que foi, anuncia o que será”.


(*) Íntegra da entrevista concedida ao à Jornalista Fernanda Kalaoun, do Jornal Diário de Aparecida.

GEOPOLÍTICA DO CERRADO: NATUREZA, POLÍTICA E ECONOMIA


GEOPOLÍTICA DO CERRADO - Participei da Reunião Regional da SBPC na úttima sexta-feira pela manhã. Uma boa discussão para analisar um complexo e contraditório problema: “Cerrado: Ciência, Inovação, Crescimento Econômico, Desenvolvimento Sustentável e Sociedade”. O evento, muito bem organizado, ocorreu no Instituto Federal Goiano, Campus de Rio Verde. Minha conferência teve como tema> GEOPOLÍTICA DO CERRADO: NATUREZA, POLÍTICA E ECONOMIA. Creio ter deixado mais dúvidas do que certezas. Mas é como estamos convivendo com essa contradição de nos depararmos com regiões próspera economicamente, com uma grande concentração de riqueza e com um desenvolvimento econômico em cidades pujantes cercadas por áreas produtivas onde antes era o Cerrado. Sem o equilíbrio ecológico, dependendo de fortes pulverizações de venenos para eliminar as pragas cujos predadores foram extintos, escasseando a água, mas dando a dimensão de uma realidade fugidia, que não se sustenta ambientalmente e pode trazer profundas complicações para as gerações futuras. A academia está desafiada a contribuir com os rumos dessa história. Abaixo segue um resumo do que apresentei em minha exposição. (Romualdo Pessoa)

Nos últimos anos o mundo se deparou com um desafio, muito além das preocupações malthusianas, mas que nos força a relembrar das teorias de Thomas Malthus.  A análise que indicava a impossibilidade da humanidade poder garantir produção de alimentos para uma população que crescia vertiginosamente, praticamente perde força quando passamos a conviver com a capacidade tecnológica que o mundo alcançou ao final do século XX, inclusive na possibilidade de produzir alimentos nas situações mais adversas. Técnicas de lidar com o solo, inovações tecnológicas que aceleram o ritmo do plantio e da colheita, insumos que aumentam a capacidade produtiva, e o crescimento da indústria química utilizada no combate às pragas (para o bem ou para o mal, veremos mais adiante), colocaram por terra boa parte das questões postas por Malthus.
Mas, por outro lado, há uma lógica que impede essa capacidade tecnológica de vir suprir a contento a necessidade que existe em quase todos os continentes, mas principalmente África e Ásia, de reduzir o número de indivíduos que vivem na mais absoluta miséria e com boa parte deles, principalmente crianças, morrendo de desnutrição. Não tem acesso aos alimentos básicos que possam garantir suas sobrevivências.
Essa lógica é a maneira como o capitalismo transforma toda essa capacidade tecnológica em potencial produtivo visando exclusivamente a ampliação dos lucros. Assim, existe sim, uma enorme potencialidade decorrente de todas as inovações que revolucionaram incessantemente os meios de produção, mas toda essa capacidade termina servindo aos interesses mais gananciosos de acumulação e concentração de rendas.
Produzir alimentos, principalmente as chamadas commodities, mercadorias que tem os seus preços fixados no mercado internacional tem atraído muitos investidores. Traduzindo em miúdos, são mercadorias, principalmente minerais e produtos agrícolas, com pouca ou nenhuma industrialização, consequentemente com baixíssima agregação de valor, permanentemente monitoradas pelas bolsas de valores.
Esses produtos agrícolas têm seus preços fixados em dólares em nível internacional, com uma produção de larga escala, como característica principal o fato de serem produzidos em grandes propriedades e quase sempre monoculturas. Seus preços são, portanto, variáveis não somente em função da cotação do dólar, moeda padrão de referência internacional, mas também porque termina também sendo submetidas às oscilações das bolsas de valores, e, consequentemente, estão sujeitas às manipulações tradicionais que ocorrem no mercado financeiro. O Brasil tem se destacado nesse setor, tornando-se a partir deste ano no maior produtor de Soja, superando os EUA. A soja, assim, soma-se ao café, suco de laranja, açúcar e carne bovina. ii
Obviamente, esses mecanismos que movem o sistema capitalista global, não possuem a menor preocupação em transformar toda a capacidade tecnológica em investimentos para conter o aumento da fome em várias partes do mundo, notadamente naquelas citadas. Em alguns lugares, como na região da Somália e todo o seu entorno, a situação aproxima-se de uma enorme catástrofe, com milhões de pessoas deslocando-se para outras regiões e boa parte delas sucumbindo à fome e perdendo suas vidas nesses trajetos.
Portanto, o interesse é meramente especulativo, com base na ganância e na garantia de lucros crescentes, como de resto é a maneira como o sistema funciona. Isso significa dizer que os investimentos possíveis de serem feitos obedecem à lógica do mercado mundial, e, portanto, a crise econômica pode alterar os rumos do capital.
Mas é sempre bom considerar que o mercado de alimentos é potencialmente lucrativo, ou, melhor dizendo, das commodities agrícolas, já não mais somente como produtos que visem atender apenas às necessidades alimentares da população, mas também porque boa parte deles passa a se constituir em matéria-prima para produção de energia, como no caso da cana-de-açúcar (embora o etanol não seja ainda uma commoditie, o açúcar o é), o milho e outros que podem passar também a serem produzidos com esse objetivo. Além de boa parte da produção de soja atender ao mercado de ração para alimentar o gado que em boa parte do mundo, principalmente Europa é criado em confinamento.
A crise econômica, que persiste na maior parte dos países, tende a ampliar a crise alimentar em algumas partes do mundo, mas a tendência deve se manter, de os investimentos continuarem sendo feitos naqueles produtos marcados como commodities porque são os que garantem mais divisas para os países como o Brasil e possibilitam maiores lucros a quem investe no mercado de produtos agrícolas. Mesmo que isso signifique uma crescente concentração de rendas, por serem produtos de baixo valor agregado. Para o Estado Brasileiro o que mais importa é o fato de essa atividade ser a principal responsável pelo superávit na balança comercial.
Como esse é um espaço com enorme potencial produtivo e com ainda uma área cultivável imensa a ser explorada, se for desconsiderado, como tem sido, a importância da biodiversidade, provavelmente poucas alterações acontecerão em relação ao crescente interesse pela aquisição de terras em áreas desse bioma, como também na Amazônia e na região de transição entre o Cerrado e a Caatinga. Essa nova fronteira agrícola já atende pelo nome de MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí, e Bahia), que tende a se acelerar quando a ferrovia Norte-Sul entrar em funcionamento.
A delineação desse quadro, já em curso, tem levado à aquisição de grandes quantidades de terras por empresas, e até mesmo governos estrangeiros, e passa a se constituir em um excelente investimento, principalmente em regiões de expansão agrícola como o Cerrado.iii
Consequentemente os impactos que decorrerão de tudo isso tende a ampliar o processo de degradação ambiental e de aceleração da devastação desse bioma. Por mais que as pesquisas desenvolvidas nas Universidades ou ONGs sérias focadas na enorme contradição presente da expressão “desenvolvimento sustentável com preservação ambiental”, possa indicar todo o rico potencial da biodiversidade do Cerrado, a resposta para investimentos e o quantitativo de lucro que advirá em atividades exploradas pelas populações tradicionais, não são suficientes para se contrapor a essa lógica gananciosa e destrutiva. Especulação, grilagem de terras e violência, tendem a aumentar, seguindo uma lógica perversa que afeta há décadas a população da Amazônia.
Cabe a todos aqueles que vivem no Cerrado e os que estudam sua riqueza natural e importância da sua biodiversidade, insistir em apontar os riscos que isso causa e a possibilidade de futuramente boa parte do bioma se tornar improdutiva e desertificada. O uso excessivo da água para irrigação, por exemplo, com a utilização de grandes pivôs centrais, a esgotarem rios, córregos e lençóis freáticos, é um bom exemplo dos desatinos que se cometem sem levar em conta os desgastes inevitáveis desses excessos, como por exemplo, a salinização do solo.
Acrescente-se a isso os interesses que estão por trás desse modelo de produção agrícola. Refiro-me agora às essas disputas exercidas por corporações gananciosas, e criminosas, que inundam o campo com produtos químicos responsáveis pela ampliação dos casos de câncer no Brasil e no mundo. São os agrotóxicos, venenos que eliminam pragas, mas que trazem junto um efeito perverso e profundamente destrutivo para as pessoas e todo o meio ambiente.iv Agora, que os representantes latifundiários tomaram o Congresso de assalto, já se discute a mudança da legislação para facilitar a comercialização desses venenos.v
Essas corporações, quase todas multinacionais, usam de todos os tipos de praticas deliquentes para burlar legislações e buscar apoio em setores políticos conservadores com o intuito de conter proibições – como ocorre em outros países – mesmo para certos produtos claramente comprovados como extremamente nocivos à vida humana. Calcula-se que cada brasileiro, em média, por ano consuma em torno de 5,2 litros de agrotóxicos, embora existam estudos que apontem para uma maior quantidade. vi
E essas Corporações atuam não somente na área de alimentos, como é de suas características, mas em outros setores geradores de disputas internacionais e guerras como o petróleo, indústria farmacêutica e de produtos veterinários. São gigantes que possuem fortes influências em poderosos Estados, principalmente os de suas origens, como os Estados Unidos, Inglaterra, França, Alemanha etc. Muitas delas tem seus produtos também fabricados aqui no Brasil, como Basf, Bayer, Syngenta, DuPont e Monsanto.
Como defender o Cerrado em um tempo em que todos os olhares gananciosos e geopolíticos estão voltados para esses imensos chapadões de uma paisagem que dá uma impressão de pobreza, mas que esconde uma enorme riqueza? Se todas as transformações que são visíveis nos Estados centrais, ou do imenso sertão brasileiro, se deram às custas de grandes investimentos agrícolas, e com isso possibilitou um forte crescimento econômico, como frear nos dias de hoje a continuidade de um processo que se agigantou e ameaça a riqueza natural de um importante bioma?
Esse é um desafio que se apresenta para todos aqueles que são estudiosos do Cerrado, mas que compreendem também todo o processo de desenvolvimento socioeconômico de uma região até pouco tempo marginalizada. Um progresso também, notadamente conseguido à custa de uma enorme concentração de riqueza, como decorrência do modelo agrícola utilizado, que causou outros efeitos colaterais. Um deles, a expulsão de quase toda uma população rural para as cidades, potencializando um crescimento desordenado das mesmas e um cinturão de miséria em suas periferias responsáveis em grande parte pelo aumento da criminalidade e do consumo de drogas que destrói o futuro de boa parte da sua juventude e mantém as pessoas refém da violência e do medo.
Assim, são as condições criadas pela acelerada penetração em direção ao heartland brasileiro, desde a marcha para o Oeste na época varguista, até a instalação da capital federal, seccionando o território goiano, e todo o projeto de integração nacional visando o controle estratégico da grande Amazônia posto em prática por Juscelino Kubitscheck no final da década de 1950 e consolidada pelos governos da ditadura militar.
Mas foi mesmo a revolução tecnológica na agricultura o principal responsável pela transformação acelerada de um solo seco em terreno de ótimo potencial produtivo. Aliado à característica climática sem muitas alterações, dividida em duas estações, a seca e a chuvosa, propícia à atividade agrícola e à pecuária.
Desfazer essa visão do cerrado como meramente um território somente adequado à instalação do grande agronegócio, e buscar outros caminhos alternativos de desenvolvimento, que se preocupe com a conservação da biodiversidade e de outros modelos sustentáveis de produção agrícola, é a tarefa do momento da universidade, dos pesquisadores e de todos aqueles que lutam pela exploração democrática e não destrutiva das riquezas que a natureza possui, em benefício da maioria e em prol da construção de um mundo com outra compreensão a respeito da vida.

i Romualdo Pessoa Campos Filho. Professor do Instituto de Estudos Socioambientais da UFG, Historiador, Doutor em Geografia, especialista em Geopolítica Contemporânea, Geopolítica da Biodiversidade, Geopolítica das Águas. Esse texto é um resumo, atualizado, de alguns artigos já publicados aqui no Blog.