sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

O MENINO QUE DESCOBRIU O VENTO – ANÁLISE


Filme nós avaliamos de acordo com nossa visão de mundo, e a partir daquilo que estamos focados em assimilar no trabalho que desenvolvemos, se desejamos utilizar como referência para debate e discussão.
Esse filme, “O menino que descobriu o vento”, a meu ver possibilita fazer diversas discussões. Particularmente irei usá-lo tendo como foco questões estratégicas e de caráter geopolítico, especialmente em Geopolítica das Águas.
A seguir, então, indicarei os pontos que destaco para discussão, e que representa a minha maneira de ver o que  a história do filme pode me dizer.
- Certamente eu não poderia deixar de começar traçando um histórico da realidade da África. Pelo aspecto econômico, como um continente abandonado após ter sido saqueado pelos países europeus, principalmente. Um pífio desenvolvimento em muitos países deixando a população sem alternativas, que não fosse uma produção para sobrevivência. Isso aliado a governos frágeis, corruptos, submissos aos colonizadores e incapazes de oferecer alternativas que pudessem tornar suas economias mais fortes. Se a colonização nos países africanos foi terrível e desumana, a descolonização foi perversa. As potencias europeias, em crise e endividadas no pós-guerra, abandonaram suas colônias ao sabor das diferenças internas, acentuadas por eles próprios no processo de dominação, fazendo com que as guerras tribais e étnicas se tornassem frequentes. Quando não chegaram a um estágio de extrema divisão, com guerras civis e lutas por libertação do jugo opressor, daqueles países que insistiam em manter o domínio colonial, mesmo em meio à crise. O palco dessa história é o Malaui, ou República do Malawi, país que situa-se na parte oriental da África e faz fronteira com o Moçambique. Neste mês de março esses países foram vitimados por um violento tornado, que mais uma vez trouxe caos e desespero para as suas populações, com destruições terríveis, causadas principalmente por inundações e deixando cerca de mil mortos.
- Essa realidade, de uma pobreza cruel e de absoluta ausência do Estado em diversas regiões, levou naturalmente a população, em seu ímpeto por sobreviver, a utilizar métodos tradicionais que pecavam por não perceber a necessidade de evoluírem em técnicas que garantissem manter um nível de produção que lhes satisfizessem, mas que não destruísse o ambiente em que eles viviam. 
- Sem condições econômicas suficientes para atender uma comunidade que crescia, e tendo que assistir aos seus filhos saírem em busca de oportunidades em outros lugares, as pessoas se submetem a uma postura equivocada do governo que vê suas chances no desmatamento para a venda da madeira. Isso gera um efeito perverso, na medida em que as terras que produziam os alimentos ficam sujeitas às intensas chuvas. Sem proteção florestal as inundações destroem as colheitas, e, para piorar, esse desmatamento provoca um desequilíbrio ambiental que se reflete no regime de chuvas. Enchentes em um ano pela falta de proteção florestal e seca nos anos seguintes, tornando cada vez mais impossível produzir pelos métodos tradicionais, levando a uma forte crise na comunidade e a um enfrentamento com os poderes governamentais, também incapazes de dar resposta aos problemas. Em muito criado por suas próprias políticas de incentivo ao desmatamento.
- Em meio a tudo isso o que se destaca com muita força no filme é o papel do conhecimento. Esse é o diferencial que irá propiciar uma redenção à comunidade, mas não sem muito sofrimento, como decorrência do apego do pai de William aos métodos tradicionais e às crenças, muito forte, de seus antepassados.
- A escola garantiu ao jovem William despertar sua curiosidade e o desejo de aprender se somou a isso. Importante enfatizar o confronto entre o novo que surge sempre, a partir da busca do conhecimento e do que pode apontar para melhorias numa sociedade, e o velho que insiste em permanecer com métodos tradicionais, muitas vezes pelo medo de apostar em algo diferente. Ou, o que prevalece em algumas sociedades, principalmente na África e na Ásia, o temor que persiste entre os mais velhos, em verem seus conhecimentos tradicionais serem superados pelo que os jovens podem apresentar. Em alguns casos isso está ligado a preceitos religiosos, exatamente por isso de caráter conservadores. Já que rejeitam algumas mudanças que possam impactar esses valores.
- Mas há também o aspecto individual. A resiliência. Essa é uma característica que está presente em algumas pessoas, independente da classe social. Claro que na condição de William, a luta para que essa resiliência se mantenha firme até atingir o objetivo que ele deseja, é mais difícil. Em função da pobreza que o cerca e dos desafios imensos para poder continuar na escola. Essa é uma característica presente no William que a irmã dele não adquiriu. O que faz com que, ao final, ele tenha chegado a uma situação de ganhar prêmios e frequentar universidades na África do Sul e nos EUA.
- Por fim, o elemento central para mim, em meio a tantas dessas questões possíveis de serem discutidas. A necessidade da água para a garantia de sobrevivência de uma comunidade e de como ela se torna essencial também para manter uma economia suficiente para que as pessoas possam sobreviver, mesmo que por mera subsistência. A água é essencial. Ao mesmo tempo o uso de energias alternativas, que poderiam ser mais utilizadas pelos governos para melhorarem as condições de vida das comunidades mais pobres. A energia eólica, neste caso, demonstra ser uma saída não somente para geração de energia, mas para criar condições de buscar água em lençóis freáticos e possibilitar que por meio da irrigação as comunidades possam produzir alimentos para suas sobrevivências e para comercializarem no mercado, a fim de melhorarem suas condições de vida. Isso pode evitar o deslocamento de populações, já que a escassez hídrica é uma das principais razões para o imenso fluxo migratório que atinge principalmente a África.
- E, para além dessas questões, existem outros aspectos que tem relevância, e que não são  de menor importância. A ausência do Estado em todas as circunstâncias, mas o mais grave é ver uma escola em uma comunidade paupérrima sem ser gratuita, com os pais tendo que pagar para seus filhos estudarem em meio a uma condição de absoluta dificuldade. 
Penso que esse filme, cuja história se passa no começo desse século, nos dá muitas possibilidades de discutir temas que são candentes nos dias de hoje e absolutamente necessários compreendê-los para que tenhamos a compreensão das desigualdades que afetam os diversos países e continentes.
Na parte técnica, a direção do filme e o desempenho dos atores é algo que eu também destacaria. Suas atuações transmitem um sentimento de revolta e frustração diante de uma realidade tão sofrida e tão sombria. E nos emociona ao ver o resultado como consequência da resiliência e na certeza que pode sim, haver soluções para todas as situações, mesmo as que se apresentam como desesperadoras. E o conhecimento é a ferramenta para as transformações sociais, mas o papel do Estado é imprescindível.

Ficha Técnica do filme (Disponível no Netflix):
Título no Brasil - O Menino Que Descobriu o Vento
Título original - The Boy Who Harnessed the Wind (2019)
Gênero(s) - Drama Biografia
Roteirista: Chiwetel Ejiofor

MIRAMOS O FUTURO, MAS O TEMPO NOS LEVOU AO PASSADO

Não me iludo
Tudo permanecerá
Do jeito que tem sido
Transcorrendo
Transformando
Tempo e espaço navegando
Todos os sentidos...
(...)
Não se iludam
Não me iludo
Tudo agora mesmo
Pode estar por um segundo...

 (Tempo Rei – Gilberto Gil)


De olhos abertos vejo a vida que flui. Observo a paisagem, as pessoas que passam, que vão, que seguem em alguma direção. Elas desaparecem do meu olhar, mas seguem suas vidas adiante. E com seus olhares veem o que não vejo mais. Minha visão tem limites, só mesmo a imaginação seguirá elaborando outras visões, do que já está distante do meu olhar. Mas são reais. Tão reais quanto eu queira acreditar.
Fecho os olhos e vejo o passado. Observo cada momento vivido tempos atrás por meus olhares atentos... ou nem tanto. Tantas coisas olhei que não observei. Passaram. Mas passaram também as que vi, e vivi. Algumas tão intensamente, e fatídicas, que mesmo de olhos abertos, embora passadas, não escapam da minha memória. Minha filha. Sua morte, nossa dor. Essa dor que é passado e é presente. Que confunde nosso tempo pretérito. De um futuro que restou no passado.
Como é possível pensar o futuro? De olhos abertos, com a vista de um presente torpe, embriagado, dominado pela estupidez humana? Tentando entender o passado e como os fatos vividos distorceram nossa realidade, nublaram nossos caminhos e nos trouxeram para um tempo em que nos tornamos cegos sem sê-los? Já não mais acreditamos no que vemos e no que sentimos. Mas no que desejamos ser... e ter. E, principalmente, no que queremos ver, seletivamente. Perdemos nossa visão e passamos a confundir a realidade com a fantasia. Enterramos o passado, mas ele ressurgiu perversamente enquanto mirávamos o futuro.
Penso que o futuro nunca existirá. É uma construção hipotética. Depende até que estejamos vivos, para a possibilidade de sua realização. Mas ele nunca se realizará efetivamente. Quando acontecer, se acontecer, será presente, e a sua construção terá sido passado. Com olhos bem abertos, ou fechados.
Então o que temos é o presente, que passa, e flui. E o passado a nos ensinar como aconteceu o que se foi. Se fecharmos os olhos para o presente e esquecermos o passado, caminharemos a passos largos para um abismo sem fim. Nesse percurso suicida, a aceleração dependerá do grau de estupidez que atingirmos.
Já alcançamos uma escala limite em graus Fahrenheit.


* LEIA TAMBÉM:
AS LIÇÕES DO PASSADO, AS INCERTEZAS DO PRESENTE, AS ILUSÕES DO FUTURO

domingo, 1 de dezembro de 2019

A EXPERIÊNCIA DE UM SERTANEJO NORDESTINO DA CAATINGA ATÉ O CERRADO GOIANO – E A CAÇA AO PEQUI

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Eu cheguei em Goiás na primeira metade da década de 1970[1]. Para ser mais exato, em 1974. Vim do recôncavo baiano, região enfincada entre o litoral e o sertão. Morava na cidade de Serrinha, famosa por ter uma “água milagrosa”, até cantada em música: “água de Serrinha, milagrosa, muita gente tem a prova...”.[2] Por ali se esparramava muito sisal, onde se produzia corda, muita corda. E se perdia braços, nas máquinas de desfiar o sisal.
Mas minhas lembranças que desejo juntar aqui na transição para o Cerrado, vem é do sertão mais profundo. Perto de onde se convencionou chamar “Raso da Catarina”. Quando eu saí da Bahia tinha 14 anos de idade, e por um tempo morei em Jeremoabo, cidade que faz parte da região que leva esse nome, bem no meio da Caatinga, próximo a Sergipe e Paulo Afonso, onde se situa uma enorme cachoeira e uma enorme represa para geração de energia elétrica. Uma das mais antigas da Bahia.
Passei bons momentos de minha infância por ali. Por certa vez fui por uma necessidade. Minha madrinha, Estelita Montalvão, irmã de minha mãe vivia ali, sozinha. Era uma pessoa que se tornou por um tempo uma segunda mãe. E ela me tinha como um filho, já que nunca tivera um. Eu tinha um carinho e um amor especial por ela. Uma outra tia ficara com nossa família ainda na cidade de Alagoinhas, onde nasci. Era o ano em que nascera meu irmão mais novo, o fatídico ano de 1964. Meu pai era vereador naquela cidade. Se elegeu por cinco mandatos. No último não chegou até o final, foi preso, levado para Salvador, onde ficou por 30 dias, no Forte de Monteserrat. Ele era do PTB, então partido do presidente João Goulart. Minha mãe se recuperava do resguardo pelo nascimento de meu irmão quando os brucutus chegaram lá em casa, armados de fuzis, e sem cerimônia levaram meu pai preso deixando minha mãe no desespero. Eu não vi essas cenas, estava, portanto, em Jeremoabo vivendo com minha tia, exatamente para aliviar a barra para minha mãe.
Ali, numa cidadezinha pacata, sem muita coisa por fazer, vivi bons momentos. E estabeleci uma forte ligação com a caatinga, para onde por muitas vezes saí para caçar com meu pai em períodos de férias. Adentrava aquela vegetação cortante em busca de codorna, nhambu e rolinhas. Adorava fazer farofa desses bichinhos. Não os matávamos por esporte ou diversão.
Andávamos horas e horas por dentro da caatinga, até chegar no rio Vaza Barris. Este tem uma história no meio de outra história. O Vaza Barris nasce próximo a Canudos, lugar que ficou marcado na história pela resistência dos jagunços (O termo "jagunço" é dúbio, com o tempo mudou a sua conotação) liderados por Antonio Conselheiro, na famosa guerra contra milhares de soldados derrotados por três vezes. Até ser completamente dizimada. O açude de Cocorobó, que soterrou parte da história de Canudos, é formado pelas águas do Vaza Barris. Mas nos limites baiano atualmente o rio é intermitente.
De lá o Vaza Barris corta o sertão em direção a Sergipe quando se torna perene, e vai desembocar no Oceano Atlântico, formando no seu estuário na praia de Mosqueiro, em Aracaju.
Foi nesses rincões da caatinga que vivi. Permeados de histórias da jagunçada de Antonio Conselheiro (foi em Jeremoabo a primeira refrega, com os poucos soldados enviados para lá, logo no começo do conflito de Canudos, sendo surpreendidos na delegacia da cidade) de cangaceiros (Lampião visitara várias vezes Jeremoabo, e ouvi muitas histórias do medo imposto por Virgulino e sua turma) e também foi rota da Coluna Prestes.
Carrego comigo cada detalhe daquele lugar, jamais perco esse vínculo e por muitas vezes retornei ali e ainda espero ir mais vezes. A pobreza, a dureza e secura do solo, as árvores espinhentas e pouco frondosas, a raridade dos riachos e rios num ambiente de seca quase permanente, me atraem pela paixão e pela atração do pertencimento. Aquele era o meu lugar. E por isso, por tanto tempo fui apaixonado pela Guerra de Canudos, quase sendo esse o tema do meu mestrado.
Tenho várias edições do livro de Euclides da Cunha, "Os Sertões". Na primeira leitura o sacrifício foi passar das cem primeiras páginas. Mas por ele aprendi a compreender a importância da geologia, embora tenha adquirido um olhar crítico e estratégico e não meramente descritivo. Já li Os Sertões três vezes, e ainda lerei mais.
Nosso destino na Bahia, no entanto, foi encerrado, pelo menos para moradia permanente, com a transferência de meu pai, funcionário do antigo DNER, hoje DNIT, para Morrinhos. Pois é, embora nas cidades, nosso destino nos tirou de uma "Serra" e nos levou para um "Morro". Da caatinga e do recôncavo baiano, para o cerrado goiano.
Um ambiente totalmente diferente. Que nos assustava quando soubemos da mudança que teríamos. Nossos amigos zoavam dizendo que íamos nos ver com os índios. Era essa a imagem que se tinha do “assustadoramente” distante Goiás.
Claro que o que vimos foi completamente diferente. Apesar de características distantes daquela de onde viemos, no falar, no comer, no jeito de se comportar e se vestir. Mas nossa capacidade adaptativa é enorme. Ainda mais quando estamos entrando na adolescência. Foi fácil nos adaptarmos.
Vista panorâmica de Serrinha-BA
Mas as condições econômicas que vivíamos eram muito difíceis. O salário que meu pai ganhava era irrisório, e a vida dele era rolar dívidas. Comprava pacotes de cigarro no armazém da cooperativa dos servidores do DNER, para vender em outros armazéns e ter dinheiro para fazer compras de verduras na feira. Carne, só de frango, criados em casa, e de pombos. Sim, naquela época comíamos pombos, também criados no quintal. E, de vez em quando um tatu, feito ensopado por minha mãe.
Não nos restava outra saída que não nos virarmos para termos um pouco de dinheiro, para nos divertirmos e aproveitar a adolescência. Mas, fazer o quê? Capinei roça de melancia, trabalhei de peão numa usina de fabricar massa asfáltica, tudo ao lado do bairro onde morávamos, em residências construídas para os funcionários do DNER.
E, na ausência dessas atividades, nos embrenhávamos no cerrado. Foi a partir daí que tive contato direto com a flora e a fauna do cerrado, e o conheci na prática, pela necessidade.
Saíamos bem cedo, por volta de cinco horas, ainda escuro, e caminhávamos por quilômetros dentro do cerrado, do lado oposto da BR-153. O bairro onde morávamos era na margem da rodovia. Cada um de nós, íamos em grupo de amigos, às vezes três, mas chegávamos a ir em turma de cinco ou seis, levava dois baldes nas mãos. Os mais fortes ainda carregavam sacolas. Íamos “Caçar Pequi”. Sim, era assim que dizíamos. Ainda cerrado nativo, quanto mais andávamos mais nos deparávamos com imensos pés de pequis. Retornávamos próximo ao meio-dia carregados desse bendito fruto, responsável por nossos divertimentos de finais de semana.
Quando chegávamos nos apressávamos para descascar os frutos (às vezes eram descascados embaixo do próprio pequizeiro). Os dois baldes acabavam virando somente um. E lá íamos para a beira da BR, com um prato, que era como vendíamos os pequis. Não demorava muito e fileira de carros estacionavam perigosamente no encostamento da rodovia, ainda não duplicada. Em menos de duas horas nós conseguíamos vender todos os pequis catados. Era também um divertimento, e não nos envergonhávamos, muito pelo contrário.
Isso durou muito tempo, o pequi tornou-se um fruto bendito, que nos possibilitava aproveitar os fins de semanas, difícil de ser caso dependêssemos de alguma ajuda de nossos pais. Eram tempos difíceis, muito difíceis.
Mas ficou um trauma. Essa também foi a razão por eu nunca ter gostado de comer pequi. Creio que o cheiro forte, por diversas vezes tendo que manuseá-lo, repetidamente, me fez enjoar. Nunca gostei de comer pequi, mas o pequi será inesquecível para mim.
Em 1978 vim para Goiânia, era preciso encontrar um emprego, tão logo concluí o curso colegial. Foi difícil encontrar alguma coisa. Trabalhei de peão de obra, saindo na segunda-feira cedo e dormindo na obra até sábado, como apontador, depois auxiliar de almoxarifado e por fim almoxarife. Até que em 1980, consegui passar no vestibular, depois de me preparar pelos fascículos do curso abril vestibular. Tentei jornalismo, duas vezes, e por fim história.
Vim estudar então na UFG, no Instituto de Ciências Humanas e Letras, bem ao lado da placa que homenageia August de Saint-Hilaire, homenageado neste evento depois de 200 anos de sua passagem pelo Brasil. Desconhecido para mim até então. Mas o bosque, famoso em minha época, mas degradado depois e mal-visto, era conhecido, de forma divertida, como uma área de pouso da “esquadrilha da fumaça”. Os entendedores entenderão. Naquela época era um lugar recôndito para quem queria “relaxar”, e eram poucos os espaços possíveis, diferentes de hoje.
A minha curiosidade me levou a procurar saber quem tinha sido aquele francês que era homenageado com um bosque no recém construído campus da Universidade Federal de Goiás.
E foi dessa forma que conheci um pouco da história de Saint-Hilaire. Não viajei tão longe quanto ele, mas me identifiquei com o seu naturalismo pelo que que já sentira em minha vida.
Hoje sei da importância de viajar, e sempre falo isso para meus alunos e alunas. Viagem, as experiências de grandes geógrafos, biólogos e historiadores (Humboldt, Reclus, Vidal de La Blache... Saint-Hilaire) assim como Charles Darwin, e suas importantes descobertas, se deram pelas viagens, pelos conhecimentos empíricos de realidades complexas, diferentes e admiráveis. Além do mais, vajar nos ajuda a eliminar boa parte de nossos preconceitos.
Era esse o meu relato, e a forma que encontrei de me aproximar do que se propôs a fazer a organização do evento que homenageia esse importante naturalista, botânico, mas sem sombra de dúvidas, pelos seus relatos e observações, também geógrafo e historiador.



Mesa redonda: Romualdo Pessoa,
Eguimar Chaveiro, Lena Castelo Branco
Coord: Profª Fabrizia Gioppo
Foto: Antenor Pinheiro
[1] Esse texto foi elaborado para o evento “Encontro com Saint-Hilaire: 200 anos após sua visita à província de Goiaz”, na mesa redonda: “Solidões” do sertão – estigmas, imaginários e memórias de Goiás. O evento foi organizado pelo grupo de trabalho ligado às linhas de pesquisas da Profª Maria Geralda e coordenado pelo Laboter (Laboratório de Estudos e Pesquisas Territoriais), do Instituto de Estudos Socioambientais (IESA-UFG).

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

TEM JABUTI NO TELHADO NO PACOTE NEOLIBERAL DE GUEDES-BOLSONARO

Imagem retirada do site
conversaafiada.com.br

Esse governo, de perfil neoliberal na economia e de extrema direita na política e no trato das questões sociais, se especializou em encaminhar pacotes de maldades para o Congresso Nacional, com o intuito de destruir o Estado naquilo que ele possui de capacidade de intervir na garantia das proteções dos direitos sociais, dos trabalhadores e no combate à miséria e à crescente desigualdade social, diante de um sistema ganancioso e desigual.
Mas há uma estratégia pérfida que acompanha cada uma dessas medidas, que estão chegando sorrateiramente no parlamento, enquanto os filhotes do fascismo, no cio, bradam propostas e frases de conteúdo totalitário e com nítido viés autocrata. Essa é a primeira estratégia, desviar a atenção das medidas absurdas e impopulares que estão sendo aprovadas, ou melhor, tratoradas por uma maioria conservadora, defensora das camadas sociais mais abastadas e no interesse do capital financeiro, nacional e internacional. Nisso eles se confundem, se misturam.
Além disso, juntamente com essas propostas acompanham medidas claramente impossíveis de serem aprovadas, por tocarem em pontos sensíveis, de interesses corporativos da elite econômica e política do país, bem representadas no Congresso Nacional.
Na reforma da previdência o jabuti subiu na árvore. Sabe-se lá como, mas ele estava lá. E como jabuti não sobe em árvore, alguém o colocou lá. Nesse caso, o jabuti era o BPC (Benefício de Prestação Continuada). Era visível que essa proposta não passaria no Congresso, pois ameaçaria eleições de muitos parlamentares. Contudo, essa foi a discussão central, em meio a um pacote de maldades que ia sendo aprovado e tratado como presente para gerações futuras, numa campanha de marketing paga pelo governo e outra campanha que veio pelo interesse dos ricos por meio dos canais de televisão, a grande mídia corporativa: Globo, Band, SBT, Record... Enfim, tiraram o jabuti da árvore. O BPC se manteve tal qual sempre esteve. Embora outros jabutis estivessem lá para fazer companhia a ele, e seriam acionados caso falhasse a propaganda em torno deste.
Agora, com outro pacote de maldades neoliberais em curso o jabuti escalou algo mais impossível para si, subiu no telhado. E o jabuti das reformas econômicas, o mais importante, chama-se “municípios de menos de cinco mil habitantes”. Qualquer emissora de TV ou de rádio que alguém sintonizar nesse exato momento estará fazendo algum debate sobre a extinção dos pequenos municípios. Esses, em sua maioria, com algumas exceções a se salvarem, criados a fim de garantir os currais eleitorais de políticos oportunistas e conservadores.
Ora, aposto meu mísero salário contra uma garrafa de vinho malbec argentino da região de Mendoza, agora aparentemente livre do neoliberalismo, que essa proposta jamais será aprovada. Mais uma vez, desvia-se a atenção das questões que para eles são essenciais, aprovar um pacote que destrói a capacidade do estado intervir para solucionar problemas sociais e atacar, como deveria estar sendo feito a fim de reduzir a miséria crescente, e beneficiar os bancos e as grandes corporações. O jabuti no telhado vai sair de lá juntamente com os pequenos municípios. Afinal, só foram colocados nesses lugares onde estão por uma questão de estratégia e oportunismo político.
Mas atentem para um enorme jabuti que foi colocado no alto da torre de tv de Brasília. Aquela em que todos sobem para ver portentosamente a esplanada do poder federal, de onde atualmente saem alguns inocentes jabutis e se atacam direitos sociais. Esse jabuti, no caso, são os servidores públicos federais. Como é possível de se ver, em todos esses pacotes há alguma referência ao que seria “privilégio” do servidor público. Algo que vem sendo repetido ad nausean, desde que a grande mídia conseguiu eleger o “caçador de marajás”. Não por acaso deposto por corrupção. De lá para cá, sistematicamente, os servidores públicos tem sido alvo da anti-propaganda, a fim de criar uma cultura de desmoralização não só desses servidores, como do serviço público em geral. Isso é o que se chama de pavimentar o caminho para que a população rejeite o trabalho que é feito pelo Estado, e aceite a sua redução, assim como a retirada de direitos conquistados pelos trabalhadores e trabalhadoras do serviço público federal. Assim como também nos demais níveis federativos.
Os jabutis estão escalando perigosamente tais lugares? Claro que não, eles estão sendo colocados estrategicamente por lá, a fim de desviar a atenção para as maldades e perversidades contidas nos pacotes de reformas, cujo intuito, claramente, é atender as demandas das classes dominantes: burguesia industrial, financeira e latifundiária. E uma parte da classe média, alta, que gerencia grandes corporações, ou atuam como testas de ferros para os interesses destas.
Temos sabido lidar com essas questões? Creio que não. As forças de esquerda dividem-se naquilo que é essencial, a partir de demandas próprias e de estratégias que visam as campanhas eleitorais. Isso que se tornou um vício. Perdeu-se a capacidade de focar na organização dos trabalhadores, da população em geral, abdicou-se disso que foi e está sendo feito por igrejas neopentecostais, ou por grupos conservadores da igreja católica, como carismáticos e TFP. Erra o maior partido de esquerda, que esgrime como sua maior bandeira a liberdade de sua grande liderança, e foco obsessivamente nisso, erra o candidato de esquerda que foi o terceiro mais votado, erra os pequenos partidos de esquerda porque, como sempre, lutam entre si pelo protagonismo que os tornem maiores do que o outro, e se engalfiam em minúcias ideológicas intermináveis.
Enquanto isso a população tem a sua atenção voltada para os jabutis, sofrem com os riscos que tais espécimes correm, porque não foram feitos para escalar árvores, telhados e torres de tv. E se aliviam quando os mesmos que puseram os jabutis nesses lugares, os tiram de lá e se satisfazendo com isso esquecem as maldades que estão a apunhalá-los pelas costas.
E assim segue a procissão, seja com as cordas que os levam à virgem, ou com os gritos histéricos de neopentecostais reacionários. E as pessoas cedem a fé, de que do céu virão as melhorias que elas esperam. Talvez com o tempo elas precisarão se proteger, porque no andar da carruagem o que cairá do céu será uma chuva de jabutis. Como aliás conta uma velha fábula da festa no céu. Bom, originalmente foi o sapo que imaginava poder voar e se esborrachou no cão, e, sendo salvo pela virgem Maria, foi remendado.
Mas nos dias de hoje, os sapos estão em extinção, e já não se fala mais nesse tipo de festa no céu. Agora é a vez dos jabutis correrem o risco de se estropiarem. Esses colocados em lugares estranhos pelos farsantes para ludibriar incautos, que acreditam nessas histórias e em outras lendas mais.
Salvemos os jabutis, mas não nos esqueçamos do povo, inebriado pela fé alienante, escorados em discursos preconceituosos e iludidos de que serão bem servidos no banquete dos ricos.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

A MÁSCARA DO CORINGA E O QUE SE VÊ NO ESPELHO


O filme do Coringa tem gerado muitas controvérsias. Mas observo algo que vejo passar despercebido nas opiniões de boa parte daqueles que se dispõem a comentar sobre o impacto gerado por um personagem que carrega em suas características pessoais os sintomas de uma patologia social.
Há uma ausência de percepção temporal nessas análises e nos comentários sobre o filme. No afã de identificar esses sintomas ligados aos comportamentos dos dias atuais, muitos não percebem que a Gotham City do Coringa vive os ares dos anos 1980.
Identifico essa confusão no desejo de muitos de verem aquelas reações causadas pelo comportamento violento, mas anti-sistema, que está por trás da história e do personagem do filme, como se ocorrendo nos dias de hoje, marcados pelos mesmos sintomas identificados naquela década: violência, desesperança, desemprego, pobreza, intolerância, ridicularização do outro, falta de perspectiva da juventude, individualismo, ódio e preconceito contra quem não se enquadra no perfil e no padrão definido pelas camadas ricas da sociedade, ou dos que aspiram atingir esse grau de riqueza, a classe média.
O Coringa surge nos quadrinhos, como o grande vilão a infernizar a vida de Batman, no começo dos anos 1940. Um período conturbado, tumultuado pela grande depressão que assolou praticamente todos países na década anterior, cujas consequências levou o mundo a uma guerra cruel e de uma perversão terrível. A década de 1930 e de 1940 foram tensas e historicamente nefastas para a humanidade.
Mas, eliminado e depois renascido, o personagem ainda reapareceu noutros tempos menos desesperadores. No entanto, o enredo no qual o Coringa do filme atual transita, e cujo perfil do personagem carrega as mazelas de mais um tempo de crise, é aquela década que ficou conhecida como a década perdida, assim denominada pela mídia e pelos economistas.
De quais maneiras foi construído esse período, e o que ele pode nos dizer sobre como o Coringa carrega os traumas dessa época?
Os anos 1980 são reflexos da grave crise que afetou o mundo na década de 1970, conhecida como a “crise do petróleo”. Momento em que os países produtores de petróleo, que haviam tomam para si a produção e o controle da distribuição desse “ouro negro” nos anos 1960, quando criaram a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), deram um choque no preço elevando-o a patamares insuportáveis, com aumentos superiores a 400%, levando a bancarrota uma série de países dependentes desse produto.
A crise se alastrou por todo o mundo, afetando principalmente os países menos desenvolvidos e com altas taxas de desigualdades sociais. Outros fatores geopolíticos não só contribuíram, mas foram os elementos causadores em larga escala, oriundos no Oriente Médio. O resultado levou o mundo a uma recessão e a um enorme déficit nas contas tanto dos países ricos como dos mais pobres. A América Latina sofreu mais fortemente as consequências dessa crise.
Por outro lado, e como acontece em todas as crises no capitalismo, a concentração de rendas aumentou e, consequentemente, a desigualdade social. Essa equação deixa sempre um resultado perverso, o desespero da população pobre. Mas, por incrível que isso possa parecer, os ricos tornam-se mais insensíveis e ao invés de defenderem políticas publicas para amenizar a situação de pobreza e miséria, fecham-se em seus casulos e bradam ao estado o reforço da segurança pública para protegê-los. E seguem acumulando riqueza em meio a uma intensa pobreza.
Ora, o que faz as pessoas se confundirem ao assistirem o filme do Coringa é o fato de a situação do mundo no final dos anos 1970 e começo dos anos 1980 ser muito parecida com as condições econômicas e sociais que vivemos atualmente. Isso considerando a situação de crise e de acumulação de riquezas de forma acentuada nas mãos de poucos, com ampliação de desemprego e falta de perspectiva da juventude.
Desde o ano de 2008, momento em que estourou a crise financeira que por pouco não quebrou o sistema, a instabilidade econômica e as fortes disputas comerciais se tornaram frequentes. O mundo vive hoje a consequência da quebradeira dos Estados, em função da necessidade de esses salvarem as corporações financeiras do desastre gerado pela ampliação da ganância. De lá para os dias de hoje o que se vê é uma crescente insatisfação social, e até por isso com a população fazendo escolhas suicidas, elegendo governantes que vão na contramão de suas expectativas. Naturalmente que a frustração tende a gerar um efeito previsível, de descontentamento e revolta, com explosões sociais levando à grandes manifestações e a cada vez mais a não aceitação da democracia, a refutação da política e a desesperança em relação às suas próprias escolhas.
“No final dos anos 70, os presidentes das 350 maiores companhias do mundo ganhavam, em média, 30 a 40 vezes mais que os funcionários de base. Hoje, a diferença de salário entre o presidente e o peão passa de 300 vezes. Nos Estados Unidos, o salário médio dos trabalhadores encolheu de US$ 4 mil para US$ 2.750 (em valores reais, descontando a inflação do período) entre 1978 e 2010. Já a remuneração do 1% mais rico disparou: foi de US$ 25 mil para US$ 83 mil”. (https://super.abril.com.br/comportamento/os-verdadeiros-donos-do-mundo/)
Esse quadro dos dias de hoje é semelhante ao dos anos 1980, potencializado pela ampliação dos defeitos do sistema e pela acentuação da riqueza cada vez mais controlada por menos pessoas.
Agora como Coringa se insere nisso tudo? Vou ter que dar spoiler, não tem jeito. Primeiramente eu me preocupei em criticar o anacronismo presente em diversas análises. Feito isso, preciso falar sobre o personagem que me inspira a escrever sobre esse tema, e também procurar entender a razão de tantos manifestantes atualmente usarem uma máscara de palhaço, a marca do Coringa. Substituindo a máscara de “V”, personagem do filme (e dos quadrinhos) “V de Vingança”, muito usada a partir das Jornadas de Junho, aqui no Brasil, como também em diversas manifestações por outros países.
O Coringa é um filme tenso. Brinco com alguns que para ir assistir é bom tomar Rivotril antes. É tenso mesmo na primeira parte, quando a violência não explode explicitamente, mas que está inserida nos comportamentos e na maneira das pessoas se relacionarem, na negação do outro, na indiferença diante das complexidades sociais e da miséria que torna a cidade fria e angustiante.
Há a possibilidades de se extrair do filme diversas interpretações, tal qual a parábola dos monges cegos e do elefante. Sem entrar no mérito de outras análises apresentarei o meu olhar sobre o que eu considero a sociopatia que para mim caracteriza o personagem (e, creio que há também uma esquizofrenia) até a descoberta de que fora enganado por sua mãe, em uma história que deixa dúvida no espectador (esse é um spoiler pela metade). A partir disso, e de algumas outras situações nas quais a frustração dele se junta com a revolta por se sentir estigmatizado e desprezado em seus desejos, sua patologia muda de grau e torna-se psicopatia.
O riso, que poderia interpretar uma insensibilidade diante da violência e do mal, e certamente muitos viram assim ao longo da história de Batman e sua relação com Coringa, representa tão somente uma dessas patologias. O riso foge do seu controle, e representa aquilo que historicamente incomoda, a sensação que o outro ri não por alguma coisa, mas de alguma coisa. Coringa não controla o seu riso, e isso o torna potencialmente um alvo da fúria dos que veem nisso uma forma de ironizar ou escrachar o outro. Com o tempo essa sua risada torna-se marca registrada e se vinculará à sua história, de absoluta permissividade com a sociedade que o afrontara e o humilhara.
O Coringa sai dos subterrâneos para se tornar uma imagem no espelho. É essa imagem do espelho que reflete também atrás de si todos os sintomas de uma sociedade doente, violenta, insensível e intolerante. De repente ele vira um símbolo que carrega o desejo de pessoas oprimidas, revoltadas, deprimidas, inseguras e sem esperanças. À espera de um momento para explodirem.
A opressão, marca de uma sociedade desigual, vem cercada de mecanismos que mantém as pessoas submissas. Há uma estrutura perversa, em que micro-poderes estão dispersos e envoltos em elementos repressivos violentos ou não-violentos. Seja a estrutura policial ou do aparato de leis e costumes que perpassam eras e se consolidam às custas de valores jurídicos, religiosos e outras formas visíveis ou invisíveis.
Isso tudo explode quando algo realiza aquilo que no íntimo muitos desejam. Espalha-se rapidamente um anseio de vingança, e da panela de pressão social os ressentimentos contidos vê naquele que ousa romper essa lógica e atingir aqueles que representam a perversão do sistema, pela exploração e condição social diferenciada em meio às desgraças e infortúnios, se não um herói, pelo menos a representação de seus desejos oprimidos.
A palavra de ordem expressa pela multidão que se revolta e se deslumbra com a ousadia de alguém vestido e fantasiado como um palhaço, desconhecido em sua identidade, é o sintoma que não somente o personagem carrega uma patologia social. Toda a sociedade demonstra estar corrompida e adoecida, pela pressão de um sistema injusto, perverso, insensível e cego. “Morte aos ricos”, brada a multidão sedenta de vingança, revanche, ódio, sabe-se lá quantos outros sentimentos estiveram contidos. Pouco importa a identidade de quem friamente comete assassinatos. Pela origem das vítimas tal ato corresponde a esses desejos, e é aceito como bem feito.
E nesse momento que o Coringa se descobre, comete mais desatinos agora já com a convicção do que deseja, de fato. E o que ele quer é potencializado por aqueles sintomas doentios que se espalha também pela sociedade: vingança. Seu ato final expressa agora o perfil de um psicopata, mas não sem antes transmitir ao vivo e pela televisão, para cada um que, com máscara ou sem máscara, se deslumbrava com seu comportamento e ousadia, que aquele ali, nada mais é do que a imagem de cada um expressa em um espelho.
O Coringa, seja no começo dos anos 1980 do século XX, ou no final da segunda década do século XXI, é a imagem no espelho de uma sociedade oprimida, de uma população cordata e submissa em meio a uma desigualdade impressionante. Pelas periferias de cidades pobres e de cidades ricas, humilhadas, desempregadas e sombrias, revoltadas muitas vezes consigo mesmo por seus fracassos, porque assim são educadas a crer, seja pela esperança da fé religiosa ou pela cegueira da crença no que é transmitido pela grande mídia e no marketing bem preparado de especialistas meritocratas. Tudo isso estruturado a serviço dos ricos, dos que acumulam riquezas escandalosamente às custas da exploração desenfreada, da corrupção sistêmica e das transmissões hereditárias de enormes fortunas.
Assim como a máscara de “V”, a máscara de palhaço do Coringa também carrega um simbolismo que reflete a realidade na ficção, e sai da ficção com toda virulência contida em uma enorme panela de pressão. Explodiu em Gotham City... explode em Santiago, em Barcelona, Em Bagdá, no Líbano, no Equador, em Hong Kong, no Haiti... e vai explodir alhures. E como diz Caetano "o Haiti, é aqui". Vai explodir também no Brasil, um dos países mais desiguais do mundo, por outras razões, diferentes das Jornadas de Junho de 2013. Por essas razões contidas explicitamente no filme.
O Coringa está por aí. Ele está na multidão. A qualquer momento seu riso se fará ouvir. O coringa é cada um que carrega o sofrimento, a dor, a miséria, a humilhação e a vergonha de se sentir culpado por ser pobre. Até que se descobre que a culpa de tudo isso, não é sua. É daqueles que enriqueceram às custas de uma violenta e degradante exploração.
O filme, O Coringa, é devastador. E a máscara de palhaço, que se torna a sua marca registrada, vai assombrar cada vez mais os ricos!

terça-feira, 6 de agosto de 2019

A UNIVERSIDADE E A FALÊNCIA DO MUNDO MODERNO

XV Encontro Nacional do Proifes-Federação
Na foto Iago Montalvão, presidente da UNE,
fala na abertura do XV Encontro Nacional do

Proifes-Federaçãlo

O Brasil passa por momentos tensos, e poderia dizer que a sociedade está vivendo uma relação tóxica, marcada por um enebriamento que não tem sido causado por nenhum elemento químico, mas pela estratégia de massificação do ódio, de desconstrução da política, de negação da história e de afirmação de idéias e pensamentos que colidem com tudo que possa tornar nossa convivência social com um mínimo de civilidade.
O mundo já passou por situações semelhantes, e sempre o caminho seguido foi de governos totalitários, ditaduras, e a perversidade que levou a genocídios em regimes nazi-fascistas e/ou marcados pelo sectarismo religioso.
É preciso compreender que isso que vivemos aqui nesses momentos, e nessas situações que podem ser estabelecidas temporalmente a partir do ano de 2013, após as chamadas “Jornadas de Junho”, tem suas peculiaridades e especificidades nas relações políticas brasileiras. No entanto, não somos o único país a conviver com esses comportamentos, nem com a ascensão de governos autoritários e de perfis de extrema-direita. Existem outros países que seguem nessa mesma direção, ou já seguiram e se veem diante desses mesmos dilemas. Acirramento da intolerância, xenofobia, preconceito, negação da política, afirmação de poder para indivíduos de perfis e caracteres duvidosos e com atitudes fascistas.
Não é conveniente, contudo, que o combate a esses comportamentos deva seguir na mesma direção da intolerância que eles exalam. E, infelizmente, esse em sido o caminho que aquelas pessoas que se indignam com atitudes abjetas que comandam esses governos atualmente. Do confronto por meio de atitudes que em muito se assemelha aos seus oponentes, embora em outra direção.
Mas para onde estamos indo com essas atitudes e ações, que embora estejam carregadas de boas intenções, pecam por reforçar uma polarização que divide a sociedade e impede uma reflexão crítica sobre a essência daquilo que representam as mudanças que estão em curso? Quanto mais se reforçam esses embates, majoritariamente travados em redes sociais, mais as posições se cristalizam e torna-se difícil qualquer convencimento. Considerando, para agravar mais ainda a situação, que os comportamentos violentos, preconceituosos e intolerantes têm sido escorados numa base religiosa forte, e que tem crescido em meio à crise de desempregos, do medo e da violência, embora eivadas de hipocrisia considerando-se as distâncias das pregações e leituras sagradas que dizem seguir.
Nos últimos meses assistimos manifestações vigorosas contra as medidas tomadas pelo governo de bloqueio de recursos para as universidades e em oposição à reforma da previdência. Logo em seguida outras manifestações, embora de menor porte, mas de números consideráveis, levaram às ruas centenas de milhares de pessoas que ainda se comportam como uma manada, seguindo convocações que explicitam apoio a ações que afetam duramente a eles próprios, e a sociedade de uma maneira geral, principalmente os mais pobres. O que nos espera nos próximos anos, a seguir essa tendência, e comportamentos que se radicalizam no discurso de ódio que se espalhou perigosamente desde o golpe assestado contra uma presidente legitimamente eleita e à prisão de um ex-presidente em um processo acusatório frágil, com o claro intuito de impedi-lo de se recandidatar à presidência da república?
Creio que é perigoso menosprezar a capacidade do governo atual, e desses “ceguidores” que lhes apoia. E a palavra que usei aí não está errada no sentido que quero dar a ela. Na verdade um neologismo que criei, com a junção das palavras “cegos” e “seguidores”, pois, infelizmente, é essa a realidade que estamos vivenciando, em um quadro onde a possibilidade de se mudar de opinião tem sido muito difícil.
Vivemos um viés conjuntural ainda contaminado por uma crise econômica mundial que estourou em 2008 e teve seus momentos de ápices extremamente preocupantes, com a quase quebra do sistema financeiro mundial. Naquele momento os Estados salvaram diversas corporações financeiras, levando bancos e seguradoras a serem estatizadas, ou reestatizadas, a fim de evitar uma sangria maior no sistema. Ocorre que, por ser estrutural, em função do limite das contradições atingidas pelo capitalismo em sua fase neoliberal globalizante, com muito mais ênfase nas especulações e mercantilização do dinheiro do que propriamente no investimento na produção visando geração de empregos a situação não foi controlada, a não ser momentaneamente a altos custos para a sociedade. O que vimos, ao contrário disso, foi como saída para as grandes corporações o investimento acelerado em inovações tecnológicas que, se por um lado deu impulso às ciências, por outro acentuou o problema dramático do desemprego e da desigualdade social, tanto entre as pessoas como entre estados-nações. Conclusão disso: os estados quebraram e o sistema financeiro seguiu cada vez mais forte em meio às oscilações de uma economia claudicante.
Por um tempo a euforia da globalização ludibriou muitas pessoas, multidões se iludiram com a promessa de um mundo sem fronteiras, com mais facilidades de deslocamentos e acesso às novas tecnologias. Juntamente com tudo isso o que se viu também foi uma ampliação desmesurada da ganância, esse que é o elemento mais marcante no processo que move aqueles que controlam o sistema capitalista e tem acesso às riquezas. E, numa lógica que é de sua essência, quanto mais se tem, mais se deseja ter mais.
No entanto, nas brechas desse processo alguns governos foram eleitos paradoxalmente em meio a essa onda globalizante e na contramão daqueles discursos, visto que defendiam maior protagonismo do Estado na defesa tanto da sua soberania quanto na proteção das populações mais pobres. Com isso, e impulsionado por um fórum criado por ONGs, sindicatos, instituições sociais e segmentos de esquerda, o Fórum Social Mundial, em contraposição ao Fórum Econômico Mundial que se reúne anualmente em Davos, na Suíça, reunindo a nata do capital mundial e as maiores economias estatais do mundo, novas políticas foram sendo implementadas e, ao mesmo tempo, diferentes articulações para alterar o rumo da geopolítica mundial. O surgimento dos BRICS acontece nesse contexto, e, como era de se esperar, começa a incomodar as grandes economias do mundo, em especial os EUA.
Não demorou para que as guerras híbridas, que aconteciam no Oriente Médio e nas fronteiras da Rússia, passassem a acontecer na América Latina. O Brasil, por todo o seu protagonismo na criação desse novo passo geopolítico mundial, assim como por sua tentativa de se imiscuir em assuntos tidos como sagrados pelo império, como no caso das questões relacionadas à algumas das potências possuidoras de enormes reservas de petróleo, como o Irã, e nas discussões sobre enriquecimento de urânio, se tornou alvo nesses movimentos que se articulam para desconstruir governos e manipular multidões para destruir a política e a democracia, e assim derrubar regimes políticos que lhes antagonizem. As Jornadas de Junho deram o “start” de todo esse movimento que levou o nosso país para um abismo de proporções inimagináveis, cujas consequências às vezes nem queremos pensar, no afâ de evitarmos pessimismos e aumento das desesperanças que nos cercam. Mas é preciso lidar com esse ambiente tóxico e com essa areia movediça na qual nos metemos e que nos assusta, porque quanto mais mexemos mais nos afundamos nela.
Aparentemente as nossas instituições estão funcionando. E isso dá um ar de existência de uma república democrática. Contudo, a “res publica”, que deu origem àquele regime que se opunha ao absolutismo e às monarquias centralizadoras do Poder, e que explicitamente representava a “coisa pública”, ou “coisa do povo”, está deixando de existir. Num primeiro momento pelas políticas neoliberais globalizantes, e agora pelo nacionalismo direitista entreguista, vinculado aos interesses das grandes corporações, principalmente aos grandes conglomerados controlados por grandes bancos e sua burguesia pérfida e desejosa de mais poder e dinheiro.
É uma onda, naturalmente, ocorre ao sabor dos descaminhos que acontecem como consequência das contradições na política, e pelo fato da crise econômica estrutural não dá sinal de tréguas. Se acentuando, do ponto de vista da disputa pela hegemonia do poder econômico global, num embate entre gigantes que controlam a produção e o comércio mundial, que se reflete como efeito colateral em todas as demais economias, ampliando o drama de um mundo ainda indefinido quanto aos rumos que deveremos seguir.
Mas, voltando à nossa realidade, independente (até onde seja possível) do que acontece no mundo, é preciso criar ou fortalecer movimentos que tragam luz às trevas que se apresentam nesses tempos. Os ataques ao setor da educação, em especial, merece uma preocupação central, pelo que eles possuem em termos de intenção, do ponto de vista estratégico de quem deseja inibir, cercear ou censurar comportamentos críticos e visões que se contraponham aos desmandos e devaneios do governo.
Temos conhecimento que se articula em nível nacional uma tentativa de criar uma associação de professores de direita. Como em todos os casos desse tipo de entidade, que refuta a ideologia (como se fosse possível viver sem uma), inserem a palavra liberdade em suas denominações, muito embora o que preguem seja exatamente o cerceamento à liberdade de crítica. Pois não devemos ver isso como algo grave que devamos nos preocupar. O que devemos nos preocupar é a falta de envolvimento de nossas entidades e organizações de uma parcela considerável da população, particularmente de nossa categoria, que termina por deixar um vácuo de participação e representatividade que nos impede de programar ações concretas que nos defendam de ataques que prejudicam nossa categoria e que possam vir a ameaçar as liberdades democráticas.
Não sairemos desse impasse atual fugindo do debate, pelo contrário, devemos fazer o inverso, provocar discussões, ampliar nossa capacidade de inserção na universidade, e a partir dela na sociedade.
Uma sociedade tanto mais estará vacinada contra os vírus do obscurantismo e do viés autoritário, quanto mais ela for capaz de compreender todas as contradições que a cerca e quais são os melhores caminhos para evitar um colapso social e a disseminação de conflitos, violências e marginalidades. Somente com uma capacidade crítica e com o despertar de um sentimento do que é ser, de fato, cidadão, pleno de direito e convicto de suas necessidades de participar do processo de transformação social é que podemos combater os ilusionistas, os charlatões que comandam templos e impedem as pessoas de terem uma percepção real das coisas, livres de medos, preconceitos e discriminações.
A universidade cumpre um papel ímpar. Ela não pode se acovardar com os ataques que sofre de setores autoritários e de viés ideológico que teme a liberdade de pensar. E na universidade as nossas organizações, de técnicos administrativos e estudantes, mas particularmente dos professores, devem mudar sua postura sem perder a combatividade necessária. Mas devemos patrocinar mais debates, chamar nossos colegas a participarem de discussões sobre a conjuntura e a necessidade de compreender que uma política decidida por quem não tem a real dimensão dos problemas sociais, poderá trazer consequências para as nossas atividades, mas também para o futuro da sociedade e dos nossos filhos. É um pleno exercício de cidadania, para além da necessidade de termos que trabalhar para usufruirmos de um salário e podermos sobreviver.
Por isso nossas entidades devem assumir um protagonismo mais eficaz, que vá além das palavras de ordem e das agitações para participação de manifestações. Isso é fundamental, importante, e tanto mais quanto maior sejam nossas presenças nesses lugares que demonstrem nossas indignações e representem nossa combatividade e luta. Mas construir uma mentalidade crítica em nossa categoria, na universidade de forma geral, é a mais eficaz vacina que podemos injetar na sociedade. Essa é a condição de impedirmos que o abismo se abra cada vez mais em nossa frente, criar anti-corpos para destruir os vírus que corroem nossa existência republicana e democrática.
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(*) Artigo escrito para o XV Encontro Nacional do Proifes-Federação, realizado na cidade de Belém-PA. Título original: NOSSA FORÇA ESTÁ NA ORGANIZAÇÃO E NA CAPACIDADE DE DISCERNIMENTO CRÍTICO. Apresentado por mim, Romualdo Pessoa, professor da UFG e delegado ao encontro, eleito pela base da ADUFG-Sindicato.