segunda-feira, 15 de outubro de 2018

DIA DO/A PROFESSOR/A: O QUE TEMOS PRA COMEMORAR? EU VEJO O FUTURO (AMEAÇANDO) REPETIR O PASSADO...


É que vocês não sabem, não o podem saber,
o que é ter olhos num mundo de cegos”.
(José Saramago – Ensaio sobre a cegueira)

1981 - 7 de setembro - greve nacional
dos estudantes
Nesta segunda-feira, dia 15 de outubro,  se comemora o "Dia do/a Professor/a". Não tenho muito o que comemorar. Nos últimos dias tenho vivido tenso, preocupado. Lutei contra a ditadura militar, estive nas ruas e por diversas vezes fui preso, por ousar levantar a voz contra o arbítrio e defender os nossos direitos, inclusive dos professores, em greve históricas que fizemos. Quase sempre éramos reprimidos brutalmente. Fui levado ao DOPS (Departamento de Ordem Pública e Social) e à Polícia Federal, fichado e ameaçado de ser processado com base na Lei de Segurança Nacional.
Não sei como um vírus foi inoculado nas mentes incautas, a ponto de corrermos o risco de estarmos prestes a revivermos os piores momentos de ataques à liberdade e à democracia, como naqueles terríveis tempos das décadas de 1960, 1970 até meados da década de 1980. Creiam, os estudantes e os professores eram os mais visados. Muitos foram presso, torturados e desapareceram nos porões dos órgãos repressores. A censura era brutal, e quase ninguém sabia o que acontecia no país. Os moradores de ruas eram exterminados, e muitos jogados no oceano.
Como historiador, professor de geopolítica, tento compreender o que pode acontecer a um povo que esquece sua história. Ao ver ex-colegas que comigo militaram naqueles tempos sombrios defender a candidatura de alguém que defende a tortura, e diz que mais de trinta mil deveriam ter sido exterminados, me assusto. Sempre falei sobre como isso aconteceu na Alemanha nazista, na Itália fascista, na Espanha franquista, na ditadura no Chile de Pinochet, no Japão militarista, nas ditaduras que aterrorizaram os que se opunham às suas idéias. É verdade que isso também aconteceu no Camboja de Pol Pot, que se tornou também uma ditadura perversa, embora tivesse surgido com projeto de esquerda. E assim também na Iugoslávia socialista, cujo povo ao se rebelar contra o regime, logo após a morte de Josip Broz Tito, levou aquele país a uma guerra fratricida, que terminou com genocídios e o país dividido em seis partes, hoje seis países (Eslovênia, Croácia, Bósnia e Herzegovina, Macedônia, Sérvia) e duas províncias autônomas (Kosovo e Vojvodina). A história de Ruanda, e o genocídio de quase um milhão de pessoas da etnia tutsis, eliminados por seus compatriotas hutus, é outro exemplo de como a intolerância e o discurso do ódio jogam uns contra os outros sem que haja alguma razão plausível, a não ser a estupidez e o veneno do ódio.
Sempre falei sobre isso em minhas aulas de Geopolítica. Ver ex-alunos/as, embora poucos, ficar do outro lado da história, e se deixar levar por discursos perversos, racistas, machistas, homofóbicos e antidemocráticos, me faz refletir sobre como temos ao longo dos anos lidado com nossa história. Com a história do mundo. Ao ver amigos e amigas, que por longo tempo marchamos do mesmo lado, combatendo o inimigo perverso que nos tolhia a liberdade e ceifava a nossa  democracia, e que neste momento fecham os olhos e a mente, cedem a pressões de dogmas religiosos e apoiam propostas abjetas, me faz refletir sobre o quanto é tênue a linha entre o que a vida pode nos ensinar e o quão um discurso neofascista pode alienar a ponto de fechar os olhos diante das perversidades e desumanidades que são ditas abertamente.
O Dia do/a professor/a será para mim um momento de reflexão. Talvez um momento para relembrar (e para parafrasear) as palavras de José Saramago, em seu livro “Ensaio sobre a cegueira”. Refletir sobre como foi que essas pessoas cegaram. Não sabemos, mas talvez um dia possamos descobrir a razão. E, se queres que eu diga o que penso, penso que não são cegos. São cegos que vêem. Cegos que, vendo, não veem. Claro que Saramago se refere não à cegueira física, mas a incapacidade de enxergar a realidade em função da alienação e do fundamentalismo religioso.
Não vou me deixar me abater pela cegueira de alguns. Não depois de quase quarenta anos lutando pela democracia. E, neste dia, direi aos meus alunos e alunas que me assistem na disciplina de Geopolítica: se você lê Yves Lacoste, “A geografia serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra”; Milton Santos, “Por uma outra globalização”; e Moniz Banderia, “A desordem mundial”, e não compreende o que está em jogo no Brasil e no mundo, então você não entendeu nada do que acontece à sua volta. E, talvez, tenhamos errado na forma de procurar mostrar o que esses livros dizem, como o mundo é de fato, de que ele é muito mais complexo do que nos querem fazer crer (Yves Lacoste).
Como professor, historiador  (mestre), geógrafo (doutor), e com quase 30 anos lidando com contradições para entender as transformações sociais não posso me surpreender com o que está em curso no país. Cabe-me, no entanto, tentar entender como o discurso do ódio se dissemina tão celeremente, e o quão certas pessoas estão contaminadas com um vírus que consome a razão.
Neste dia, o que posso dizer como professor, é que hoje eu transmito o que aprendi e compreendi ao longo de décadas de formação. As ruas me ensinaram quando, como militante, não tive medo de encarar uma ditadura militar. Portanto, não será o neofascismo, nem o medo de um militarismo que pretende degradar a democracia, que me intimidará depois de tudo que aprendi e no que me tornei defendendo a democracia e a liberdade.
Como professor, lhe direi, caso reproduza ou apoie o discurso do ódio, da intolerância, da discriminação e do neofascismo: eu estou do lado certo da história! O tempo dirá isso, como já aconteceu no passado. E não haverá repetição da história. Se acontecer deste projeto nefasto se consolidar, será uma farsa, ou uma tragédia. Certamente, professores como eu, que lutam por uma sociedade onde o saber seja a principal ferramenta a definir nosso futuro, seremos considerados doutrinadores, por trânsfugas ou sectários fundamentalistas, que se consideram modeladores iluminados do jeito das pessoas se comportarem. Seguiremos trabalhando sempre, com a verdade, e essa verdade nos garantirá a liberdade, nem que tenhamos que oferecer nossas vidas, como tantos fizeram no passado para fazer desse país um ambiente de respeito às diversidades e às diferenças.
Seguirei firme, procurando transmitir um saber que possa ser compreendido como necessário à transformação social, ao respeito pelo outro, à aceitação da diversidade, às escolhas individuais, à democracia e à liberdade. Agradeço aos meus melhores alunos e alunas (e são muitos, maioria) que sempre me garantem um feedback, que possibilita meu aprimoramento. E, juntos, podemos cada vez mais tentar entender o que há por trás dos comportamentos humanos, a complexidade da humanidade e aprender sobre qual a melhor atitude e o caminho adequado para atingirmos nossos objetivos comuns. Só não conseguimos, pois não é atribuição nossa, enquanto professor, mudar o caráter das pessoas. Seria bom que fosse, pois “o caráter de um individuo, é o seu destino”.
Um brinde aos que lutam pela liberdade! Um brinde a todos professores e professoras! Um brinde ao professor Haddad! A luta não pode parar! 



terça-feira, 9 de outubro de 2018

O OVO DA SERPENTE – DÉJÀ VU!* - Crônica sobre um Brasil à beira do abismo

Para um historiador nada do que está acontecendo pode surpreender. E não me refiro somente a situação política e social que vive o nosso país. O que acontece no mundo também parece ser incompreensível. Mas para o estudioso da história, da geopolítica ou das ciências sociais, uma análise pelas transformações que ocorreram no passado, em diversas partes, nos dá a indicação de que tudo é possível. Os avanços, as transformações sociais, a intolerância, os retrocessos, as ditaduras, o fascismo, o nazismo. Tudo muda, permanentemente, e em muitos casos, essas mudanças carregam traços do passado, ainda latente e de muitas feridas não cicatrizadas.
Mas quero me ater ao Brasil, nesse momento tenso em que estamos passando. Sempre tivemos como característica uma sociedade muito conservadora. Nos costumes, nos valores, na maneira de encarar as mudanças de comportamentos e na dificuldade de aceitar as transformações que se contrapõem a dogmas seculares, e até mesmo milenares. Por certo tempo avançamos em direção a ideias progressistas, e certamente isso se deveu porque as pessoas sentiram que o rumo que o país estava tomando, no final do século passado, era terrivelmente prejudicial para si e também para a imensa maioria da população desse país. Assim, apostaram em um novo projeto político, bem na contramão desses valores.
De lá pra cá muita coisa mudou. E não foi somente devido aos erros que teriam sido cometidos pelos governos de esquerda. Isso, como a insistência tanto reverberada pela mídia, tem alimentado o discurso fascista. Mas o que mudou é consequência de uma crise que é muito maior. Estamos num processo de transição de um sistema falido, que joga milhões de pessoas no desespero e na miséria, enquanto concentra uma riqueza absurda com 1% da população. A crise econômica de 2008 deixou os Estados em grande parte falidos, porque precisaram salvar os bancos e o sistema financeiro. Mas com poucos recursos no tesouro os Estados não podem adotar políticas sociais e isso acentua as crises, porque se perde um forte agente indutor de investimentos e, por extensão, gerador de empregos. Já os bancos... vão muito bem, e nem sequer se preocupam em salvar os estados. Estes só servem para atender aos seus objetivos. Só não se admite, pela elite, que as políticas do Estado ajudem a população pobre a sair das condições de crise. É claro que isso vai transformar a sociedade num inferno. O problema é que as pessoas olham para o lado errado, e se submetem as informações falsas e deturpadas sobre como deve ser a saída para esses dilemas.
O golpe dado aqui no Brasil, em meio à ambição tresloucada dos derrotados nas eleições de 2014, afundou o país no caos. Três anos de uma perversa recessão, e a ilusão transmitida pela grande mídia que estávamos saindo do buraco, quando na verdade nos afundávamos cada vez mais, deixou os brasileiros baratinados. O que se via, ouvia e se acompanhava pela mídia e redes sociais, era a repetição de acusações e indicações de culpas contra as políticas de governos que ousaram fazer do Estado um estimulador de políticas sociais em benefício dos mais pobres. Bem como inseri-los na fila de ingresso nas universidades públicas.
Paradoxalmente essas camadas beneficiadas por tais ações e políticas passam a combater esses projetos e a defender, de forma inusual, um indivíduo que se contrapõe por essência, e por questões ideológicas, aos mecanismos que foram criados para beneficiá-los. Isso parece loucura, mas não é. As circunstâncias surgidas no contexto da crise, a maneira como a mídia criou um ambiente nefasto, de pessimismo, como condição para desconstruir tudo que havia sido construído de positivo no Brasil desde 2002, a insistente desmoralização dos dirigentes políticos, em especial da presidenta, e a forma como se iniciou um processo de investigação das corrupções dentro da estrutura do Estado como elemento construtor das campanhas eleitorais foi gradativamente criando uma aversão pela política, inicialmente, e pelas principais lideranças de esquerda, algumas envolvidas nas denúncias do uso da máquina pública para manter um projeto de poder. Não importava se esse projeto de Poder visava combater as desigualdades sociais, muito embora não se combatesse a concentração da riqueza. Outro paradoxo.
Mas talvez o elemento mais histriônico, pelo qual se construiu uma chocadeira eletrônica, de onde proliferou uma infinidade de filhotes de fascismo, foram as pautas hipócritas de defesa da família, dos valores tradicionais, se contrapondo às lutas de minorias contra o machismo, a opressão e a intolerância a que sempre foram submetidos. Daí despontou as vozes perversas do fascismo, irritantemente estúpidas e mentirosas, que desvalorizam as pessoas pelas suas opções e escolhas de vida, apregoando para justificar essas posturas bizarras versículos bíblicos e exaltando o nome de Jesus como condutor dessas mais abjetas perversidades humanas. Há uma terrível inversão de valores nesse comportamento, que destrói os melhores valores apregoados pelo cristianismo primitivo.
Mas, nada de novo nisso, é um dejá vu, aconteceu também em 1964, com a famigerada “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”. Não visava liberdade coisa nenhuma. Simplesmente as submissas senhorinhas da classe média alta e da burguesia foram para as ruas com as mesmas pautas intolerantes de hoje, em um contexto diferente, naturalmente. Ali por um golpe militar, agora se vê militares tentando assumir o poder com o mesmo discurso mediante um processo eleitoral, cujo objetivo, se se sagrar vitorioso é a destruição da democracia e das liberdades a muito custo e sacrifício conquistadas, e assim mesmo de forma limitada. Pois é justamente contra a ampliação dessas liberdades que o fascismo se remexeu no  cio.
Qual a diferença nos fatos e estratégias adotadas nesses dois momentos? Primeiro, em 1964, a base da religião que possibilitou esses movimentos foi a igreja católica, naquele momento de forte envolvimento conservador. O que estamos vivendo neste momento, 54 anos depois, é uma estratégia adotada para que se tivesse um movimento favorável, e que não seria um partido político – tanto que para isso usou-se um bastante inexpressivo – foi a conversão de um candidato de extrema-direita, com discurso ditatorial, intolerante, preconceituoso, machista e racista, ao evangelismo neopentecostal, de feição nitidamente ultraconservadora, e isso bem recentemente, em 2016. Em um caso e outro o discurso de intolerância dá também um tom anticristão, e o mesmo caráter reacionário. Mas, naturalmente, há cristãos que resistem a esse engodo. Os que não são alienados e não se submetem à lavagens cerebrais.
Não há cérebros sãos por trás de tudo isso, e se transmite pelo ar um clima insuportável, que se espalha perigosamente e deixa o ambiente cinzento. Há uma frase do poeta Bertold Brecht, forte, mas que sintetiza bem o que significa esse movimento: “A cadela do fascismo está sempre no cio”. É o que parece nesse momento. Haveremos de combatê-lo, mas conhecemos pela história que isso se dissemina perigosamente, em meio à ignorância, alienação e desespero de uma população que porventura tenha perdido as esperanças. O discurso do ódio, da violência para combater a violência gerada por problemas sociais, a absoluta ausência de preocupação com a harmonia da sociedade, pois desejam eliminar os diferentes, a hipocrisia e as mentiras, encontram nesses ambientes um solo fértil para germinar e crescer. Miremo-nos na história, aprendamos com o passado, ainda é tempo de impedir que entremos na loucura em que se transformaram outras sociedades, em alguns casos gerando genocídios de multidões inocentes. Acreditem que isso possa a vir novamente acontecer, mas tenha uma crença maior, de que é preciso impedir essa possibilidade. A humanidade já extirpou em outros momentos essas serpentes. Elas foram chocadas, estão se reproduzindo, mas serão mais uma vez derrotadas. Esperamos que somente pela via eleitoral.
Por fim, não se trata de querer aplicar esse rótulo de fascista a todos que porventura sejam conservadores. Não pode ser isso. Até porque nem mesmo esses liberais mais moderados escapam desse ódio visceral fascista, e vimos também isso quando se instalou uma ditadura militar aqui no Brasil, e de como funcionou o nazi fascismo na Alemanha e na Itália. Os arrependidos foram perseguidos e também se tornaram vítimas dessas ditaduras. Para isso é fundamental diferenciar quem propaga o discurso do ódio, da intolerância, da violência, daqueles que na ânsia de propor uma mudança terminam seduzidos por esses comportamentos abjetos. Trata-se de utilizarmos estratégias de convencimento, a fim de impedirmos que aqueles que são bem intencionados sejam atraídos pelo canto da serpente. Devemos trazê-los para o lado da democracia, da tolerância, do respeito às diferenças, e da liberdade.


(*) Déjà Vu – “A expressão francesa, que significa “já visto”, é usada para indicar um fenômeno que acontece no cérebro da maior parte da população mundial. O termo foi aplicado pela primeira vez por Emile Boirac (1851-1917), um estudioso interessado em fenômenos psicológicos. Déjà vu é quando nós vemos ou sentimos algo pela primeira vez e temos a sensação de já ter visto ou experimentado aquela sensação anteriormente”. Fonte: https://brasilescola.uol.com.br/curiosidades/deja-vu.htm


(**) Em 2012 publiquei outro artigo com o mesmo título: O Ovo da Serpente. E ali eu já abordava as fake news e os comportamentos intolerantes. Acesse o link e leia: https://gramaticadomundo.blogspot.com/search?q=O+ovo+da+serpente


quinta-feira, 13 de setembro de 2018

CAIADO – A FACE CÍNICA DO AUTORITARISMO


* Há cerca de dois meses (as convenções partidárias ainda não tinham acontecido) fui procurado por uma jornalista de um jornal de Aparecida de Goiânia. Ela me solicitou, por meio de algumas perguntas a mim enviadas, que fizesse uma avaliação da candidatura de Ronaldo Caiado, que liderava as pesquisas eleitorais. Como historiador e professor de Geopolítica, considerei que seria uma obrigação minha responder aos questionamentos feitos. Contudo, passados alguns dias sem que a notícia fosse publicada procurei saber quando isso aconteceria. Não muito surpreso fiquei sabendo que o jornal não publicaria por razões que ela desconhecia. Pois bem, fui a fundo, procurei tentar entender e descobri que a razão foi a pressão feita pela assessoria do candidato para que a reportagem não fosse publicada. Para mim não é surpresa isso, conhecedor que sou das práticas e do comportamento desse político. Cabe a indagação: se ele faz isso ainda como candidato, o que fará sendo eleito? Os prenúncios não são bons, sobre o futuro de Goiás e do Brasil. Quiçá ainda tenhamos tempo de alterar esse destino. Decidi, no entanto, que publicaria neste Blog a entrevista, mesmo sem o alcance que teria caso o jornal a publicasse. Espero dessa forma contribuir, mesmo que minimamente, com o processo político eleitoral em curso no Estado de Goiás, e poder expor para as gerações mais jovens comportamentos e ações de políticos que se escondem numa máscara construída por marqueteiros com o intuito de iludir as pessoas. Lamento também a subserviência de órgãos jornalísticos que giram em torno do Poder e se submetem a ele. A liberdade de expressão só é exigida quando se questiona os comportamentos persecutórios e manipuladores de alguns desses órgãos, para que eles possam se submeter a critérios verdadeiramente democráticos. Compreendo, no entanto, que as forças opressoras muitas vezes são muito poderosas e alguns desses jornais, ainda tentando se firmar num ambiente de recessão, terminam por ceder a essas pressões por simples questão de sobrevivência.

Eis a entrevista:
De acordo com pesquisas eleitorais, o pré-candidato sai na frente dos outros pretendentes ao cargo com uma vitória quase certa. Na sua opinião, a maioria da população pretende votar em Caiado pelas propostas que apresenta no Congresso, pela experiência na carreira política ou apenas porque é um nome muito reproduzido nas mídias e que as pessoas mais desconhecem sua carreira e conhecem a figura?
R – Caiado lidera pesquisas que indicam um percentual muito grande de abstenções, votos nulos e brancos. Essa tem sido a característica principal dessas pesquisas. Aliás, reflete também o resultado da eleição no Estado do Tocantins no último domingo. Metade do eleitorado não quis participar do processo.
Penso que tanto o voto em Caiado, quanto em Bolsonaro, é sintoma de uma sociedade descrente da política. Esse ambiente foi criado desde as manifestações de rua que culminaram com o impeachment da presidenta Dilma Rouseff. O problema, para a maioria da população, é que esse ambiente favorece somente aos setores conservadores e reacionários, que defendem prioritariamente o segmento que controla a riqueza e a produção e não os trabalhadores. Há um desconhecimento da história que beneficia esses candidatos que nos últimos anos carregaram no discurso do ódio, alimentando uma intolerância que foi cultivada para destituir a esquerda do poder. Na medida em que esse discurso afasta boa parte da população da política esses elementos se beneficiam, pois seguramente não votariam neles. É um equívoco daqueles que acham que se omitir é a melhor forma de resolver as coisas. Não é, pois proporciona que candidatos da anti-política, defensores de pautas intolerantes e, principalmente, que se opõem às conquistas dos trabalhadores, se destaquem. Tenho esperança que o processo eleitoral, ao se iniciar, traga um bom debate que possa esclarecer o perfil desses candidatos, e como tem sido as posturas deles na defesa dos trabalhadores e trabalhadoras e como tem votado no Congresso Nacional.
Filho de uma das mais tradicionais família goiana, o sobrenome Caiado já ocupou diversos cargos públicos em Goiás. Existem alguns feitos - dessa família ou do próprio senador- que puderam ser sentidas diretamente, para o bem ou para o mal, pela população?
R – Claro que não. Os Caiados foram derrotados na política pelo avanço de idéias modernizadoras, pela necessidade de se fazer o país e o nosso Estado avançarem em políticas desenvolvimentistas e sociais com garantia de emprego para uma população sofrida. Os conservadores chamavam isso, e ainda chamam, de populismo. Essa oligarquia sempre se bateu contra os avanços, pois seus objetivos sempre foram defender grandes proprietários de terras e oprimir trabalhadores rurais e pequenos proprietários. Na base da porrada e da bala. Não há na trajetória dele, e de sua família, nenhuma política que tivesse como foco o social, os trabalhadores, os camponeses, bem ao contrário, é nitidamente defensor do grande agronegócio e dos latifundiários, que concentram rendas e não se preocupam com as condições a que está submetida a população.
Um dos líderes da bancada ruralista no Congresso, Caiado defende bastante o agronegócio. Pelas suas atuações, o político parece mais preocupado com esse seguimento do que com a própria população?
R – Com certeza. E seria assim um futuro governo seu. Sua trajetória sempre foi marcada por esses posicionamentos. Fiz minha pesquisa sobre a violência no Sul do Pará e Norte de Goiás (atualmente Tocantins) nos embates gerados pela Constituinte da década de1980, e a figura do Caiado sempre esteve presente na liderança da UDR, entidade que ele ajudou a criar e que fazia sistematicamente leilões de gados para arrecadar dinheiro para financiar milícias paramilitares e com pistoleiros, a fim de atacar aqueles que defendiam a Reforma Agrária. Padres, parlamentares, lideranças sindicais, advogados, muitos foram assassinados devido a esse movimento que espalhou violência e ódio pelo interior do país e que começou por Goiás. É esse comportamento que ele, seguramente, manterá como governador, caso venha a ser eleito. Basta verificar suas ações no Congresso Nacional e se perceberá isso com clareza. Além do levantamento de sua história de vida a partir do momento em que se constituiu como liderança dos fazendeiros latifundiários.
Quais ideologias do candidato e quais efeitos poderiam ocasionar sobre os goianos, caso eleito governador em 2018?
R – Ronaldo Caiado explicita claramente um comportamento bruto, avesso à democracia. Suas atitudes, agressivas, como as Bolsonaro, é típica de indivíduos autoritários que não se submetem a opiniões contrárias e a comportamentos diversos de seus valores conservadores. Seria um enorme retrocesso na política para o Estado de Goiás, principalmente do ponto de vista das ações modernizantes que transformaram o Estado. O que nós precisamos é muito mais ao contrário. Precisamos transformar esse perfil moderno dado ao nosso Estado na direção da solução de problemas sociais e de redução da concentração de rendas e de riqueza. Caiado defende o oposto disso, e, consequentemente, caso eleito implicaria em aceleração dos conflitos, dos crimes contra a população mais pobre e de uma situação de instabilidade social que seria inevitável. Espero que a população de Goiás abra os olhos, conheça bem o perfil dos candidatos, e opte por quem deseja paz, educação, saúde e emprego para a maioria dos que vivem aqui.
Algo a acrescentar?
R – Acredito que a situação apontada agora pelas pesquisas, que é de momento, tende a mudar quando começar os debates e for mostrado à população quem é quem. Acho que ainda está muito cedo pra se imaginar haver algum candidato imbatível. É claro que quem já está na mídia há muito tempo leva vantagem agora. Mas quando as regras eleitorais começarem a serem postas dentro do limite da lei isso vai mudar. É o que eu espero e torço por isso. Precisamos de mais democracia e não de menos. De mais política e tolerância. Aposto que as pessoas se darão conta do que é melhor para elas e escolherão candidatos que não destilem ódio. Mas não será surpresa se o resultado for esse que as pesquisas indicam. Infelizmente.


segunda-feira, 10 de setembro de 2018

UM PAÍS À DERIVA: QUE TEMPO É ESSE? PARA ONDE ESTAMOS INDO?


O Grito de Edvard Munch.
Obra expressionista
Não podemos achar que vivemos em uma ilha, onde as coisas acontecem independentemente da realidade que reflete os fatos que se sucedem no mundo. Evidente que não. O que nos afeta é consequência de transformações que foram geradas pelo fracasso daquilo que se convencionou chamar de globalização. E das políticas neoliberais que formaram as condições necessárias para que tais políticas fossem implementadas.
Fracassados os modelos tentados por essa onda de desregulamentação e destruição dos Estados o mundo se depara com uma crise, que não advém de 2008 como muitos possam imaginar. Ela é um processo cíclico que se inicia, se é que há um início ali, na década de 1970. Mas somente na década de 1990 as soluções desejadas pelo capitalismo conseguiram ser plantadas, como decorrência da decadência dos países que seguiam pelo socialismo, e em especial a União Soviética.
Passou-se a um ambiente de absoluta ausência de regulamentações, a não ser aquelas definidas por um ente abstrato, erigido à condição de sujeito: o mercado. Naturalmente isso significa dizer que não havia nenhum tipo de regulação. Em termos, claro. Porque muitos países se aproveitaram dessas circunstâncias, se incluíram no mundo globalizado sem abdicar de ter o Estado como instrumento necessário para transformar o desenvolvimento econômico e social em algo mais palatável em relação à sociedade. Ou seja, sem o Estado como instrumento regulador as classes sociais mais baixas estariam entregues a um sistema claramente marcado pela selvageria da lei do mais forte. E assim ocorreu, em muitos casos. Em outros não. E para onde foi o mundo quase ao final da segunda década do século XXI?
Essa lógica foi desastrosa. Sob diversos aspectos. No econômico levou a uma poder descontrolado das corporações, principalmente aquelas que estão na ponta dos conglomerados: os bancos. A concentração de riquezas chegou a níveis escandalosos. Houve um processo de saneamento das empresas, motivado pela lógica inerente ao sistema capitalista, da necessidade de lucros, levando a uma escalada de desempregos por diversos países, principalmente aqueles que se encontravam em fortes conflitos, seja guerras com inimigos externos, seja por desestabilizações políticas internas, acrescidos das ações de agentes que executavam a chamada “guerra híbrida”.
Para tornar a situação mais complexa o capitalismo, como é comum acontecer diante do agravamento de suas crises crônicas, cíclicas, busca um processo de reestruturação, acelerando transformações tecnológicas cada vez mais sofisticadas, por meio da robotização acentuada e da inteligência artificial. Naturalmente isso garante maior lucratividade para empresas e a redução do uso de mão de obra humana, alimentando uma crise social de proporções crescentes, trazendo junto com isso desemprego, mais problemas sociais, uma juventude cooptada pela criminalidade, desestruturação familiar, intolerância, ódio e xenofobia.
Por outro lado, governos conservadores, alguns alçados à condição de dirigentes por meio de golpes institucionais, programam medidas austeras em relação aos gastos do Estado, prejudicando as camadas mais baixas, ao mesmo tempo em que seguem mantendo subsídios às grandes empresas, ou as beneficiando por meio de isenções fiscais e garantia de infraestruturas para seus aportes e instalações.
No Brasil não foi diferente. As circunstâncias de uma situação política que levou o país a uma forte crise fiscal serviu de pretexto para a derrubada em 2016 de um governo eleito legitimamente, mediante acusações nitidamente farsescas, embora com a anuência de um judiciário carregado de mágoas por causa de decisões que feriram seus interesses corporativos.
A crise política, econômica e institucional se agravou ao longo dos anos seguintes, e deixou numa situação caótica o quadro político e social brasileiro. Um governo incompetente e imoral, completamente distanciado dos interesses da Nação, até porque não foi eleito democraticamente, adotou medidas que sufocaram mais ainda os trabalhadores e empurrou o país para uma das maiores recessões de sua história. Mas o aspecto moral foi o que mais se deteriorou, potencializado pelo crescimento da criminalidade, da insegurança, da violência e do discurso que projeta mais um sentimento de vingança do que a sensação que a justiça prevalecerá. Um vale-tudo se instalou no país disseminado por fake-news nas redes sociais que toma proporções parecidas com o que aconteceu nas eleições dos EUA e no plebiscito do Brexit na Inglaterra.
Inquisição medieval
Nesse quadro a sociedade vive a expectativa de um processo eleitoral. Numa conjuntura em que a população se vê perdida diante dessa manipulação de fatos e da utilização dos mecanismos que foram adotados em outros países, da falsificação da verdade e de informações distorcidas, aliado à perseguição comandada por um Ministério Público de uma parcialidade irritante, embora reforçado por comportamentos semelhantes do judiciário.
Assim, tudo é feito, até por meios desleais no âmbito de uma justiça que se desmoraliza, aprofundando a sensação de parcialidade explícita para que o poder político não retorne às mãos dos partidos de esquerda. À medida que os principais candidatos dos segmentos conservadores não conseguem deslanchar, destaca-se como representante do ódio alimentado ao longo desse tempo, um candidato da extrema-direita. Como característica desses perfis de candidaturas por todas as partes do mundo, seu discurso é baseado na intolerância, na descriminação ao outro sem respeito às diferenças e na alimentação do ódio, sob todos os aspectos. Um discurso que pode ser caracterizado sem erro de neonazista. Paradoxalmente, ao tempo em que professa esse sentimento intolerante, alicerça-se em crenças evangélicas, cristãs, e diz falar em nome de deus.
Cenas da Inquisção
Mas, porque esse indivíduo chegou a essa situação? Basta olharmos para a história e veremos muitos trágicos exemplos de como uma população fica refém de discursos de ódio, na medida em que perde a esperança, não vê perspectivas em curto prazo, principalmente os jovens, e são nesse desespero capturados pelo discurso fácil, enganador, manipulador. São conduzidos pelo medo, e pela forma como culturalmente foram sendo constituídos os valores e a ideologia de uma sociedade conservadora.
Submersos em momentos de avanços sociais, como na primeira década deste século, um sentimento conservador se libertou das profundezas, alimentando o medo e iludindo as pessoas com versículos bíblicos escritos há mais de dois mil anos. Seria impossível crer que um discurso de ódio e perversidade encontrasse guaridas em páginas religiosas? Não é bem assim. A história nos levará a outros tempos, e nos veremos diante de fatos por épocas passadas, onde o discurso religioso se tornou instrumento de fascistas, farsantes e até mesmo de fanáticos que levaram centenas de seguidores à morte, ou a tornarem-se, eles próprios, armas contra quem eles sequer jamais chegaram a conhecer. Porque o ódio cega, e o ódio do sectarismo fanático religioso se alimenta da ilusão e da crença de que determinado indivíduo se torna ungido e destacado por deus para libertá-lo das angústias e dos medos. E os que professam desse ódio e desse sentimento perverso, matam e se matam em nome de deus.
Marcha da Família com Deus
Pela Liberdade, em apoio
ao golpe militar - 1964
Numa situação de crise grave, de desemprego que se conta a dezenas de milhões, em que uma juventude se perde na ausência de esperança e de perspectiva, esse discurso farsesco se espalha rapidamente. E, por mais paradoxo que possa parecer, mesmo sendo os que assim propagam como sendo o escolhido, representante das camadas ricas, que defende abertamente a eliminação dos pobres pela execução daqueles que os deveriam proteger, muitos pobres, alienados, e/ou dominados pelas crenças sectárias religiosas, são facilmente convencidos por esses discursos de ódio, por esse ambiente no qual eles vivem e que a crise o aprofunda. Foi assim que surgiram os personagens mais perversos e genocidas da história mundial.
Muito embora isso, no espectro político que define a disputa eleitoral em curso, tem valido mais a disputa do Poder e da projeção partidária desconectada da preocupação com o futuro que nos aflige. Seria de esperar que num quadro assim delineado tivéssemos uma junção de pensamentos, e de partidos, que se opõem a esse perigo eminente de caminharmos para uma fascistização aberta da sociedade. Mas seguimos um enredo já visto no passado, e isso parece não despertar uma sensação de risco, ou talvez venha acompanhado de um sentimento de que uma derrota agora pode ser revertida nas próximas eleições. Provavelmente alguns estrategistas imaginam que da eleição de um desastroso e pérfido projeto levará as pessoas a se arrependerem, e imaginam um fenômeno semelhante ao sebastianismo ocorrido em Portugal, país que viu seu rei perder-se em meio a uma guerra, sem que jamais se soubesse qual foi o seu destino. A expectativa do retorno de um salvador ilude a sociedade e transfere para um futuro incerto um destino que estará sendo definido neste momento.
Podemos dizer que a história julgará aqueles que se omitirem ou manipularem um processo à custa de um jogo perigoso que envolve toda uma nação. Mas ainda temos tempo de alterar o curso dos acontecimentos. Praticamente vai se definindo uma disputa que colocará de um lado uma candidatura nesse perfil aqui analisado, que representará a destruição de tudo que se construiu e que se avançou na sociedade. Agora, a menos de um mês da eleição é preciso recuperar o tempo perdido de forma a garantir uma candidatura de esquerda na contraposição a essa onda de perseguição e intolerância que tomou conta do Brasil. A rejeição a esse projeto reacionário está num patamar bastante elevado, indicando a possibilidade de uma derrota efetiva em um segundo turno das eleições. Temos que ter foco e saber definir bem claramente quem é o alvo a ser derrotado e quais propostas o povo rejeitará nas urnas, porque trariam mais incertezas para o nosso país. Neste momento virar as baterias contra possíveis aliados no segundo turno é uma estupidez. O "fogo amigo" só ajuda o adversário.
Mas o tempo não para. E as pessoas vão se definindo, em meio a uma confusão inédita na história dos processos eleitorais brasileiro.
Não temos tempo a perder. “Nosso suor sagrado, é bem mais belo que esse sangue amargo. E tão sério… temos nosso próprio tempo” (Legião Urbana).

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

ABRIRAM-SE AS PORTAS DO INFERNO! CRÔNICA SOBRE UM BRASIL ASSOMBRADO PELOS DEMÔNIOS


“A cegueira também é isto,
viver num mundo onde se tenha acabado a esperança”[1]

Uso essa expressão do título (em parte inspirado na obra de Carl Sagan, "O mundo assombrado pelos demônios") como uma metáfora, naturalmente. Inferno é um ambiente criado, tal como os demônios, para justificar a existência dos deuses, que, em tese, viriam para salvar os viventes das desgraças a que estivessem submetidos.
Mas o inferno sintetiza o caos, a perversão, a absoluta ausência de qualquer respeito pelo outro. Seja homem, mulher ou criança. Importa somente o poder de quem se impõe pela força, pela brutalidade, que desrespeita regras e que não dá o mínimo valor pela vida. Isso seja de quem tem o grande Poder, e que possa estar na condução de um Estado falido moralmente, ou dos micros-poderes, que se espalham perversamente na ausência de autoridade e numa situação gestada pela mediocridade de figuras ásperas, ávidas de poder impossibilitados de serem conquistados democraticamente.
Nada disso surgiu por acaso, esse “inferno” não se fez por geração espontânea, como num passe de mágica. Houve intenção, arquitetura, comando, decisão e ação, por meio de diversos atos que destruíram, e desconstruíram outras possibilidades de se viver com dignidade, mesmo numa sociedade desigual. A ganância, obsessão pelo poder, hipocrisia, desprezo pelos pobres e, acima de tudo, uma luta de classes que se mantinha submersa e emergiu perversamente diante da impossibilidade desse poder ser alcançado pelas urnas.
A chamada guerra híbrida, termo já por muito tempo usado por especialistas em geopolítica para identificar as sabotagens feitas por agentes estrangeiros infiltrados em ONGs, empresas, ou até mesmo por quintas-colunas cafajestes que não tem o menor sentimento pela nação, pois que espalham suas riquezas por paraísos fiscais mundo afora, foi aplicada aqui no Brasil, como já acontecera em diversos outros países. E continua a acontecer numa conjuntura mundial marcada por essa característica de disputa do grande poder. A bola da vez, neste momento, é a Nicarágua. Tudo indica que  a próxima será a Turquia.
Não está em jogo o caráter de um governo. Se ele é progressista, ou não. Simplesmente importa o fato de não rezar na cartilha do império, ousar bater de frente com forças que se julgam donas do mundo e/ou se atrever a construir alternativas que tirem a hegemonia geopolítica das mãos daquelas potências que desde a segunda-guerra mundial fortalecem podres-poderes e corporações que comandam a riqueza mundial.
As condições nas quais o nosso país se meteu a partir de 2015 não tem nada a ver com problemas fiscais. Essa farsa de “pedaladas” criadas para justificar ações golpistas e destruidoras de um modelo de democracia que já era limitado, e tornou-se absolutamente falso, farsesco, hipócrita, desmoralizado, foi somente pretexto para assaltar o Poder e dominar o Estado à revelia dos desejos do povo. As medidas para resolver problemas fiscais estavam postas, até mesmo com a inclusão do imposto sobre movimentação financeira. Mas este pegaria os sonegadores, pequenos e grandes marginais, os “laranjas”, doleiros, muita gente que tem lojas/empresas de fachadas utilizadas para lavar dinheiro, os ricos desse país que se enriqueceram com mérito. Mérito de terem a habilidade de explorar a força de trabalho de uma maioria de pobres, que historicamente foram colocados na condição de estúpidos, de adoradores dos “diabos”, de puxa-sacos dos ricos como se esses fossem iluminados pelos deuses para ajudá-los em suas via-crucis em busca de empregos. Desgraçadamente muitos acreditam assim, e oram em suas igrejas pela fidelidade de um deus que está encarnado em cada um desses grandes milionários. Pois que sim, foram iluminados. Por mérito. E cabe aos pobres miseráveis espelharem-se neles, e, quem sabe algum dia venham a ocupar seus lugares, nem que sejam depois da morte.
E, quando a máquina destrambelha, e no caso, o país entra no caos, em crise, os iluminados enviam seus dinheiros para os paraísos fiscais. Quanto aos pobres, uma parte adquire consciência de classe, sabem reconhecer que o inferno em que vivem é uma construção de mentes perversas, e desejam o embate com as trevas. Outros, alienados, desprovidos de qualquer capacidade de compreensão da realidade, senão pelo que lhes são ditos dos púlpitos e das máquinas que lhes alienam do mundo real, sucumbem às manipulações e escolhem entre seus representantes, mesmo que orando a seu deus, a figura estampada, farsesca, do belzebu. Ou de outros diabos menos qualificados para torná-los uma manada de estúpidos que seguem como gado em direção a um enorme lamaçal de areia movediça.
As tecnologias atuais os guiam. Cegamente repetem cantilenas fascistas que a história já condenara, e buscam se guiar por profetas do caos, justiceiros de uma imoralidade que lhes pariu. “Coisas ruins” que se alimentam das desgraças e as transformam numa hecatombe social. Esses “demônios” pregam cinicamente o faroeste moderno, a opacidade do ambiente em que vivemos, a desconstrução das gentes, e a cegueira para impedir que o mundo real seja desnudado, e descoberto as vilanias que lhes caracterizam. E, pior, se apresentam como enviados de deus, evangelizam-se, e saem a pregar o extermínio dos pecadores, independente dos crimes, sem julgamentos e sem condenação, num oposto radical do que serviu para fazer surgir algumas religiões. Mas numa equiparação ao pior dos marginais, esses cujas vidas já não valem quase nada e “só tem suas cadeias a perder”. Já esses “poderosos podres pecadores”, demoníacos e hipócritas, tem um mundo a proteger. Seu mundo, corrompido e degenerado.
O que esperar de um mundo dominado por esses demônios? Onde a cegueira os fazem serem confundidos com enviados de deus? Onde pobres se imaginam ascender ao paraíso burguês e desejam serem conduzidos por milionários que assim se tornaram à custa das suas desgraças, das suas misérias, de suas pobrezas?
Não! O inferno não é, assim, uma metáfora. É o mundo que se deseja construir, entregando as chaves para os mais pérfidos canalhas. E haverão de se arrepender, e não encontrarão paz, se essa estupidez se consumar. Repetirão cananeus e filisteus que por milênios disputam paz numa vida de guerra pela cegueira da visão. Ou da “ilusão de que um super-homem possa vir nos restituir a glória”.[2] Se derem asas ao demo ele reinará sobre o caos.
É certo que esse caos foi gerado por um golpe que saiu pela culatra! Os demônios infiéis foram rifados do jogo, e o grande belzebu foi escolhido pelo discurso mais perverso, encaixado no ambiente fétido criado por essas criaturas demoníacas.
Há saídas, não tenhamos dúvidas, nem percamos a esperança. Pode-se enfiar uma “estaca” no peito dessa perversão. Essa “estaca” tem nome e endereço fixo. Sabe-se que foi transformado no “bode expiatório” a ser ofertado no altar para saciar os desejos estúpidos de uma classe média boçal. Está trancafiado numa condenação moderna, caso contrário seguiria o exemplo que nos traz a antiguidade, e seria crucificado, quem sabe de cabeça para baixo, diante de uma massa acrítica e pusilânime. A mesma que foi beneficiada por suas ações políticas anos atrás.
Ou, na ausência dessa “estaca”, sempre usada nas lutas contra os demônios e vampiros perversos, poder-se-ia pela esquerda se tentar o exemplo de que a união faz a força, e tornaria mais firme a resistência, recompondo a força enfraquecida pela desconstrução feita pela mídia nos últimos anos. Mas, tudo indica que essas possibilidades estejam enfraquecidas. A força da perversidade demoníaca contaminou algumas mentes boas, e as iludiu com a possibilidade de que sós, separados e com discursos bondosos, pudessem converter os incautos e que cada uma dessas possibilidades se tornassem alternativas aos belzebus, pequenos demônios e diabinhos com chifres escondidos. É triste ver que os nomes desses demônios são repetidos diuturnamente pelos seguidores dessas alternativas, dando-lhes mais visibilidades do que já possuem.
Se essas alternativas derrapam, não conseguem iluminar as mentes convertidas dos pobres e miseráveis (e aqui não há referência explícita a condição financeira, mas a pobreza de inteligência e sagacidade) alienados, então teremos que nos preparar para vivermos muito mais do que numa metáfora: esse país se tornará um inferno!
É claro que essa crônica quase irônica de uma realidade cruel, é uma construção de quem tem uma visão sobre essa conjuntura de um dos lados da história, e por quem não acredita em demônios. Só que ela é, infelizmente, inspirada em fatos reais. Mas que eles, esses demônios existem, parece não haver muitas dúvidas. Já Deus, ou deuses... Se existirem, para onde estarão olhando?
Resta-nos lutar e torcer para que nessas eleições o número de exorcistas seja maior do que daqueles que estão possuídos pelo vírus demoníaco da perversão, da intolerância, da xenofobia, da homofobia e do feminicídio. Contra esses, nosso brado forte, retumbante! O Brasil, a Nação, é o povo brasileiro! “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós”![3]



[1] José Saramago: “Ensaio sobre a cegueira”.
[2] Trecho da música de Gilberto Gil, “Super-Homem”
[3] Trecho do “Hino da República” do Brasil.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

O QUE FIZERAM DE TI, ESPERANÇA? Uma crônica de nossos desejos, desafios e decepções políticas


“Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhecia toda a extensão de sua miserável condição: é nela que pensa em sua descida. A clarividência que deveria fazer o seu tormento consuma no mesmo instante a sua vitória. Não há destino que não se supere pelo desprezo”. (Albert Camus)*

Conta-se pela mitologia grega que a ingenuidade de Epimeteu e a curiosidade de Pandora, foram responsáveis pela libertação de todos os males que viriam a povoar a terra: a doença, a guerra, a velhice, a mentira, os roubos, o ódio, o ciúme… Ao abrir a caixa onde continham esses males e libertá-los, assustada, Pandora fechou-a rapidamente, mas o suficiente apenas para mantê-la por lá a esperança. Daí se espalhou pelo mundo a lógica de que a esperança sempre está guardada, e que ela poderá em algum momento nos fazer acreditar que é possível superar as adversidades.
Mas até quando a pobre esperança nos manterá na expectativa de que poderemos contornar situações difíceis e aparentemente definidoras dos limites que são impostos a uma determinada época?
Vivemos aqui no Brasil uma situação de absoluta falta de rumo na política e do que poderá acontecer ao país nos próximos anos. Não seria tão grave se não estivéssemos em meio a uma grave crise crônica e estrutural do sistema capitalista. Mas a situação instável que vive o mundo, economicamente e em termos de grandes disputas geopolíticas, nos deixa numa condição de estarmos próximos a frequentar uma unidade de terapia intensiva. É sempre importante não olharmos para o Brasil como se aqui fosse uma ilha, alheio a tudo que acontece à sua volta. E, se em meio a uma crise estrutural séria, nos deparamos com uma crise política sem perspectivas de solução, isso nos coloca mais próximo ao abismo.
Desde 2013 que venho analisando aqui neste Blog todo esse processo, que a meu ver aqui em nosso país começa com as chamadas “jornadas de junho”, atinge seu auge com o golpe que depôs a presidenta Dilma Roussef e se mantém numa espiral crescente até sabe-se lá quando. Mas já por esse tempo era previsível as dificuldades que a esquerda teria de se recompor, diante de um vendaval de notícias ruins, fake news, e um ataque sistemático da mídia, da direita e de uma justiça absolutamente parcial e corrompida por seus interesses mesquinhos e corporativos, que tem agido com forma de vingança e com ódio de classe.
Mas ao longo desse tempo, como reagiu a esquerda, e como ela se preparou para enfrentar um processo eleitoral? Em primeiro lugar não houve nenhuma preocupação equilibrada com a reestruturação das forças, da organização, de buscar o caminho de fortalecer nossas lutas procurando reforçar pontos comuns em nossos objetivos, de forma a chegar ao processo de composição para as eleições unidos, aptos a construir uma forte aliança para enfrentar uma direita que cresceu nos últimos anos, mas que também se dividiu.
Vivemos em meio a um dilema, semelhante ao mito de Sísifo. Para citar outro personagem da mitologia, esse teria sido punido por desobedecer aos deuses, com o castigo de viver eternamente rolando uma rocha montanha acima, sendo que ao chegar no topo a rocha rolaria abaixo, necessitando que esse trabalho fosse refeito eternamente.
Parece que a esquerda está condenada aqui no Brasil ao mesmo castigo de Sísifo. Mas, nesse caso, muito em função de seus próprios erros, que, aliás, são recorrentes. Dentre eles, o hegemonismo, o exclusivismo, o sectarismo, representado principalmente pela força majoritária, o Partido do Trabalhadores, que governou o país por três mandatos e um incompleto, até o golpe que desandou as coisas e possibilitou uma perseguição inusitada até levar para a  cadeia um presidente, e um dos mais populares de toda a nossa história.
Neste texto não tenho como analisar todas essas circunstâncias e equívocos cometidos. De certa maneira já abordei em textos anteriores, que, como disse, podem ser lidos aqui no Blog. Mas dedicarei a maior parte deste artigo a analisar o comportamento da esquerda na pré-campanha eleitoral de 2018, as táticas, os nomes postos e os comportamentos aleatórios de quem deveria saber se guiar por ensinamentos seculares de como a política deve ser utilizada no objetivo de atender as necessidades do povo e não somente dos interesses menores seja dos partidos ou dos grupos que os compõem.
Começo dizendo que, para além da injustiça que se comete contra o ex-presidente Lula, a estratégia pensada não deveria ser da insistência de uma candidatura sabidamente inelegível. Por lei aprovada durante seu governo e sancionada por ele próprio. Entendo o desespero perante tamanhas manobras da justiça brasileira a condenar alguém que chegou a essa condição por sua origem de classe, por superar desafios que a elite e as oligarquias brasileiras jamais esperariam de um nordestino que se tornou operário na maior metrópole desse país e uma liderança incontestável em sua força e carisma.
Contudo, o que estava em jogo não é somente a liberdade de Lula, a meu ver somente a ser garantida com a eleição de um governo de esquerda. Mas o que está em jogo é o futuro do país e as condições de vida de nosso povo, igualmente injustiçado com a destruição de políticas sociais criadas em seu governo e da presidenta Dilma. Exatamente por isso dever-se-ia pensar para além de seu próprio destino, e vê-lo ligado ao destino de nosso povo. Era preciso, então, na construção das alianças para o processo eleitoral, pensar em primeiro lugar na libertação de nosso povo, na vitória da esquerda e a partir daí, a garantia de que a justiça pudesse ser feita com vitória nas urnas e Lula livre!
Mas por todo esse tempo prevaleceu muito mais do que a razão, a emoção. A estratégia do golpe tinha como alvo, nitidamente, o presidente Lula. Claro, antes era preciso derrubar uma presidenta e desconstruir por meio de uma intensa campanha de mídia e de financiamento de grupos que se fortaleceram ao longo desse processo, fazendo despertar uma direita intolerante, cruel e perversa, alterando o percurso do golpe e transferindo para uma figura torpe a condição de se alçar a líder nas pesquisas eleitorais e a se colocar como alternativa ao poder, podendo levar o país ao aprofundamento de uma crise política que pode nos jogar mais ainda ao fundo do poço.
Ora, se a esquerda foi atingida duramente nesse processo, não somente a força que detinha, como sua credibilidade, era natural que as táticas a serem implementadas tivesse em vista um objetivo claro, retomar o poder. Nas condições existentes isso jamais poderia ser pensado sem que fosse pelo caminho da unidade da esquerda. Caso não fosse assim, poderia ser dito, com tranquilidade, que os objetivos dos golpistas, mesmo com situações que saíram pela culatra, foram alcançados. Dentre esses objetivos, naturalmente, isolar os partidos de esquerdas e mantê-los desunidos para serem mais facilmente derrotados.
No entanto como se comportou o partido majoritário da esquerda? Justamente aquele que se tornou o principal alvo dos ataques desfechados com o golpe? O Partido dos Trabalhadores confundiu a bandeira de luta pela liberdade de Lula, com a sua estratégia eleitoral, e levou para a prisão juntamente com ele, toda uma esperança de conseguir,  a partir dessa situação, unificar os partidos de esquerda, ou de centro-esquerda, para retomar o poder e contra-atacar os golpistas que em dado momento pareciam também completamente desnorteados com o crescimento da extrema-direita.
Adotou um comportamento contrário, se isolou em uma tática suicida, que pode dar certo, tanto quanto isso acontece numa disputa do alucinado jogo “roleta russa”. Insistiu na candidatura de Lula, e, pior, passou a desconstruir outra candidatura do campo da centro-esquerda, jogou com fiéis aliados, como o PCdoB, e nos Estados insistiu no hegemonismo sectário de não abrir mão para lideranças que possam lhes ameaçar futuramente. Quase no final da hora final, assestou um golpe fatal que terminou por isolar a candidatura de Ciro Gomes, do PDT, mesmo que à custa de demolir a candidatura de uma jovem liderança em ascensão em Pernambuco, com um efeito colateral que atingiu no Amazonas a candidatura de uma senadora que foi um dos baluartes na defesa do mandato da presidenta Dilma Roussef: Vanessa Graziotini. Ao final, sob o beneplácito do PCdoB, a essa altura sem muitas alternativas e ainda acreditando que isso significava uma unidade da esquerda, finalizou com uma aliança que mantém dois candidatos à presidência (Lula e Haddad) e duas candidaturas à vice (Haddad e Manuela), numa situação inusitada em toda a história política brasileira.
Em Goiás, onde a disputa está firmemente concentrada no campo dos conservadores, com um direitista contumaz, criador da UDR e financiador de milícias durante a Constituinte de 1985 para assassinar trabalhadores rurais, Ronaldo Caiado, disputando a liderança nas pesquisas, o Partido dos Trabalhadores manteve-se altivo, no alto de seu salto, então colado com super-bond. Aceitou coligar-se com o PCdoB, cedendo, no entanto, somente a vaga de vice numa chapa majoritária onde há ainda a disputa por duas vagas ao Senado, uma das quais me apresentei na condição de pré-candidato. Numa postura inarredável manteve, como sempre se acostumou a fazer, o PCdoB encostado numa parede, sem outra alternativa senão aceitar o comportamento impositivo e hegemonista que se tornou marca característica do PT. Compreenda-se também pelo fato deste ser um partido de tendências, em cuja disputa interna leva também à necessidade de acomodar indicados por cada um desses grupos, o que não e diferencia muito do tradicional fisiologismo dos partidos conservadores.
Coloquei-me na condição de contribuir com a luta, com o debate e entrar no ambiente desgastado da política atual, e acreditei poder ser um nome que viesse a encarar o desafio de tentar desmontar a farsa que se criou nesses últimos anos com discursos hipócritas que alienaram mais ainda as pessoas, acentuando o ódio, a intolerância e a estupidez. Mesmo sabendo das dificuldades me dispus a encarar essas dificuldades. Mas, não que eu não estivesse ciente que isso poderia acontecer, já que sou militante de longas datas, percebi que a esquerda não precisa da direita para se destruir, se isolar e se apequenar diante do poder dos conservadores. Ela é autofágica, guia-se pelos mesmos sentimentos daqueles que fazem políticas tradicionais, muito embora seja diferente no discurso, e ao final para alguns que a compõe não é a preocupação com o povo que os movem, mas sim, são seus interesses particularistas e de grupos, com foco no poder e nos privilégios que são concedidos a partir daí. Mantêm-se sempre os mesmos na condução desses processos, na apresentação dos nomes, na defesa de seus mandatos e na capacidade ceifadora de cortar cabeças de prováveis lideranças que venham a ameaçar também seus hegemonismos internos. Contribuem, no entanto, com esse comportamento, com o descrédito como as pessoas veem os políticos e os igualam, e destroem a política que possa ser vista como uma condição necessária para a libertação desse povo, mas a transformam em instrumentos de seus próprios interesses.
Assim, mantém a esperança aprisionada (aqui não há necessariamente relação com o Lula, mas pode ser visto como uma metáfora) e assume a condição que levou a punição de Sísifo, condenados a carregarem rochas para cima da montanha. Mas ao contrário do que se segue na mitologia, há um abismo ao final do percurso. Não sei se escaparemos dele, ou se a rocha rolará montanha abaixo e seguirá sendo levada ao cume, antes de despencar de uma vez no precipício. O que sei, e sinto, é que a esperança se esvai, nossa paciência também, e com tudo isso, desacreditamos na possibilidade de construir algo diferente, um tipo de política diferente, com pessoas que de fato coloquem o interesse coletivo para muito além das mesquinharias e vaidades que destroem nossas utopias.
Não sei como me comportar daqui para adiante, o certo é que não tenho nenhum interesse em ficar condenado a rolar rochas montanha acima. Vou procurar em algum canto, se ainda resta por lá uma esperança. Mas decerto que não sou eu quem está enclausurado em uma caverna.


(*) http://www.teatrodomundo.com.br/o-mito-de-sisifo/