segunda-feira, 24 de julho de 2017

UMA VISÃO DA CRISE ATUAL - ENTREVISTA

Entrevista concedida ao Jornalista Renato Dias, do Diário da Manhã - Goiânia/GO, em julho de 2017. Uma tentativa de compreender a instabilidade política, social e econômica no momento atual. Publicado na edição de 22.07.2017 (https://impresso.dm.com.br/edicao/20170722/pagina/11). Edição integral.

Diário da Manhã - Michel Temer cai?
Romualdo Pessoa Campos Filho – É imprevisível. A votação no Congresso não será baseada em respeito às questões éticas. O jogo é de cartas marcadas, e o atual presidente, que assumiu o posto por meio de um golpe de estado jurídico-parlamentar, está fazendo de tudo para comprar votos que o mantenha no poder. Ele sabe que se perder o cargo será preso. Com esse jogo pesado de compra de votos, é difícil prever o resultado.
DM - Qual acusação teria maior peso: corrupção, formação de quadrilha ou obstrução da Justiça?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Creio que corrupção. Ela é que dá margem para que tudo a seguir seja feito para manter a estruturas por onde jorram os recursos ilícitos.
 DM - O PSDB desembarca do Governo Federal?
Romualdo Pessoa Campos Filho – O PSDB ajudou a construir esse cenário caótico da política brasileira. Apostou no tudo ou nada e agora está sem saída. Qualquer que seja a posição a tomar já se maculou e está condenado a carregar nas costas o peso de posturas inconsequentes motivadas pela absoluta recusa em aceitar o resultado eleitoral. Não lhe restou nenhum patrimônio moral nesse processo.
DM - Existem indicadores de recuperação da economia?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Absolutamente. O que acontece é por osmose. Se não tivesse o Michel no comando talvez o crescimento fosse maior. O país inegavelmente consolidou suas estruturas neste século, por meio de fortes investimentos estatais, ampliou seu mercado externo e potencializou o mercado interno. Poderia estar numa situação confortável no cenário político internacional, se não fosse a mediocridade da política rasa posta em curso de um lado por quem não aceitava ficar na oposição, e de outro, por quem tornou essas estruturas viciadas e ampliou a corrupção.
DM - Rodrigo Maia acalma o mercado?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Se o fizer será por força do poder da grande mídia. Mas será por pouco tempo. Suas ações seriam na mesma direção das medidas adotadas por Michel Temer, que ampliará a recessão e trará mais desemprego e tornará a sociedade inseguro devido ao aumento da violência e da instabilidade social.
DM - Qual a sua análise da carta-manifesto divulgada por Aldo Rebelo [PC do B - SP]?
Romualdo Pessoa Campos Filho – A meu ver ele reflete uma posição que procura ampliar o leque de forças que possa ajudar o país a sair da crise. O foco que ele dá é a necessidade de fortalecer o sentimento nacional e recuperar as condições que fortaleçam o país. Mas de forma mais ampla do que outros setores apresentam. Acho que é uma alternativa interessante, só não sei com quem se pode contar no atual quadro político para ampliar essa aliança. O documento mais se aproxima da “Carta aos Brasileiros” do primeiro governo Lula, com um foco mais específico em relação ao papel democrático das forças armadas no processo de consolidação do poder nacional.
DM - Qual a sua análise da Reforma Trabalhista aprovada no Senado Federal?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Uma reforma feita por um governo ilegítimo. Não foi eleito, não apresentou à sociedade uma proposta que pudesse ser discutida e aceita pela maioria. São medidas tomadas para facilitar a vida daqueles que controlam a riqueza nesse país e vão de encontro às aspirações dos trabalhadores. Tornarão mais precárias as condições de trabalho e deixarão os trabalhadores nas mãos dos donos das empresas. Se não for refeita em curto prazo gerará muitas revoltas e tornará o clima socialmente instável.
DM - O que esperar da Reforma da Previdência Social?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Vai na mesma direção. Procura aplicar doses cavalares ao paciente. O que se propõe, na prática, é acabar com aposentadoria por tempo de serviço. Um indivíduo irá trabalhar a vida toda e não irá se aposentar. O déficit da previdência decorre de uma escandalosa sonegação por parte das empresas, que não repassam ao Estado os valores devidos. Todo o rompo poderia ser coberto se fossem cobradas essas dívidas.
DM - Geopolítica: qual a sua análise dos passos de Donald Trump?
Romualdo Pessoa Campos Filho – O que marca as ações de Trump é a imprevisibilidade. Não se pode dizer que ele tenha definido uma estratégia política confiável. Os EUA nunca viveram uma instabilidade política tão grande, e em tão pouco tempo após uma eleição. Certamente ele procurará tomar atitudes belicistas para conter a insatisfação interna. Essa tem sido uma medida tomada por todos os governos estadunidenses sempre que cai sua popularidade. O mundo poderá passar por momentos tensos, decorrentes da eleição de Trump, mas, fundamentalmente, como consequência  de uma crise estrutural que não tem saída.
DM - OS EUA atacarão a Coreia do Norte e a Síria?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Duvido muito que isso ocorra de forma aberta. Principalmente a Coréia do Norte, pelo potencial nuclear que ela possui. Mas certamente ações de desestabilizações internas, como tem sido prática dos EUA nas últimas décadas, deverão acontecer. O grande problema para o mundo é que a maneira como esses países têm entrado em crise só potencializam mais ainda problemas estruturais que se espalham por todo o mundo. Os efeitos colaterais dessas políticas externas inconsequentes tem sido perversos para todos os países, principalmente os que são mais fracos economicamente. A Síria, a Libia, o Iêmen, dentre tantos outros, até mesmo a Venezuela, são países destruídos por meio de ações políticas que os desestabilizaram internamente e os levaram a guerra ou à instabilidade social.
DM - A China ultrapassará os EUA na Economia?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Creio que isso já vem acontecendo. Essa teria sido a razão da escolha por Trump como presidente. Desde sua campanha vê-se uma tentativa de se aproximar da Rússia para tentar frear a influência que a China tem adquirido por todo o mundo. O grande equívoco é imaginar que o Putin irá embarcar nessa estratégia. Duvido muito. A tendência é a China continuar ampliando sua influência e os EUA procurarem formas de solapar esse processo, o que poderá levar a conflitos sérios não somente diplomáticos, mas com a possibilidade de enfrentamentos bélicos localizados no Pacífico.
DM- Há, hoje, uma onda conservadora em ascensão no mundo contemporâneo?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Sim, como consequência da crise estrutural. Como pela esquerda as alternativas não são sustentáveis, porque estão também dentro do mecanismo de funcionamento de um sistema em crise, os discursos radicais à direita ou a saída por meio de medidas neoliberais (não há outra para a burguesia mundial) terminam se apresentando como alternativas para uma população desiludida e desesperançosa. Não são propostas aprovadas por maiorias. O número dos que estão desistindo de comparecerem nos processos eleitorais só cresce. Na França a abstenção foi a maior da história, cerca de 57% das pessoas não compareceram para votar. Essa desilusão, por outro lado, pode levar a explosões de descontentamentos, principalmente entre a juventude, e as sociedades viverão momentos de terríveis enfrentamentos entre grupos sociais distintos. Esse é um sintoma de uma estrutura social em crise, mas que não há ainda uma luz no final do túnel. A luz que se vê é a de uma locomotiva que se aproxima e que pode atropelar quem estiver pela frente.
DM - Qual a sua análise da eleição para reitor na UFG?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Já publiquei também em meu blog uma análise sobre esse processo. A Universidade mudou muito, em todos os sentidos, para o bem e para o mal. Cresceu, se fortaleceu, ampliou sua capacidade de produção científica com o aumento de cursos de pós-graduação, mas relegou o ensino de graduação à uma posição de inferioridade e se tornou uma instituição conservadora, fortemente focada no sucesso e na alimentação de egos e vaidades de grupos. Isso se demonstrou na campanha. Fiz um diagnóstico que se demonstrou, ao final, correto. A acomodação, o medo de mudar, a aceitação da normalidade de uma instituição que deveria ser crítica e inquieta, prevaleceu. Mas fizemos um bom debate, ético e respeitoso. Colocamos os problemas abertamente, sem preocupação se isso resultaria em voto, era preciso fazer isso, e vamos continuar fazendo. Não é possível que num momento tão crítico de nosso país, a universidade se feche numa redoma. Não tivemos receio de enfrentar essa discussão, mas quebrar paradigmas não é fácil. O que a Universidade precisa entender é que a lógica que impulsionou as mudanças no mundo nas últimas décadas, está em crise, e não encontra saída nos mecanismos que a impulsionaram. Nós, na universidade, entramos também nessa lógica, mas há dificuldade de sair disso e perceber que precisamos apontar saídas inclusive no âmbito das políticas públicas e na identificação de alternativas a esse sistema. O conhecimento que produzimos só tem importância se ele se concretizar por meio de saberes que transformem a sociedade. É o saber que faz com que o conhecimento tenha validade. O conhecimento, pelo conhecimento, não tem relevância, se esgota em si próprio até ser superado.
DM – Como você vê a condenação do Lula?
Romualdo Pessoa Campos Filho - A condenação de Lula neste momento de destruição dos direitos sociais e trabalhistas, e quando se discute os crimes de uma quadrilha que deu um golpe na democracia deste pais, tem o claro objetivo político de desviar a atenção e evitar a revolta da população. É preciso dizer em bom tom, que tudo isso é parte do mesmo processo que está jogando o país no buraco e ampliando o fosso que separa os ricos dos pobres. Nitidamente o que se fez nesse país foi brecar todas as mudanças democráticas e mudar o rumo do país para atender os interesses de banqueiros, grandes empresários e latifundiários do agronegócio. A indignação à condenação de Lula não pode ser passional, ela deve ser uma reação política apontando para a organização popular a fim de reverter por meios democráticos, ou pela força do poder das massas populares trabalhadoras, que sentirão duramente as consequências dessas reformas.
DM - Projeto de novo livro?

Romualdo Pessoa Campos Filho – Produzi ao longo dos últimos anos uma série de artigos que publiquei em meu Blog, Gramática do Mundo. Estou fazendo uma seleção daqueles que considero mais relevantes e os colocarei em três sessões: da geopolítica mundial, da conjuntura política brasileira e de discussão sobre a universidade. Espero neste semestre publicá-lo. E para o ano seguinte, talvez num pós-doutorado, pretendo dar continuidade sobre a luta pela terra no Sul do Pará, e completar a trilogia sobre os conflitos naquela região que tem se acentuado. Agora abordando do ano 2000 até os dias atuais.

sábado, 8 de julho de 2017

REFLEXÕES SOBRE O RESULTADO DA ESCOLHA DO NOVO REITOR DA UFG

Há um ano e meio quando decidi puxar a discussão sobre a escolha do novo reitor da UFG, e me coloquei na condição de candidato, eu sabia, pelo que eu pretendia fazer, que haveria uma forte reação daqueles que estão dirigindo esta universidade há três gestões.
No começo eu não me preocupava com a possibilidade de ser eleito. Até ser convencido por quem eu conversava para aderir ao objetivo de “mexer” com a universidade, que não faria sentido ser candidato sem almejar uma vitória, para que as mudanças fossem possíveis.
Aos poucos, principalmente por meio de alguns artigos que publiquei, essa posição foi se consolidando e a persistência em apontar desvios na forma de ser uma universidade começou a incomodar. A crítica se fez imediata, e houve quem dissesse abertamente que a campanha era extemporânea, fora do tempo.
Essa persistência levou, de fato, à antecipação do processo. A primeira consequência foi uma cisão dentro da reitoria, fazendo surgir duas candidaturas, da professora Sandra Mara e do professor Luis Melo. Eu não estava querendo escolher adversários, mas à época vi que essas candidaturas potencializariam o debate, e, com a divisão, as condições para entrarmos fundo nos problemas da universidade estariam dadas. No entanto, prevendo as dificuldades que seria o processo com esse quadro, voltou à cena o nome do professor Edward Madureira, reitor por duas vezes no período de expansão da universidade e de fartos recursos destinados IFES (Instituições Federais de Ensino Superior) por meio do REUNI. Embora não abertamente, mas nos bastidores, consolidava-se sua candidatura e o recuo dos outros dois nomes que haviam despontados. Delineava-se o processo com a presença de um nome forte, apesar da situação inédita de uma candidatura para um terceiro mandato. Ficava claro a dificuldade que teríamos pela frente com essa mudança de quadro no processo eleitoral.
Mas eu não queria discutir somente a eleição. Eu queria discutir essa universidade. Queria levantar a necessidade de rompermos com o comodismo e com a normose que nos tem afetado. Queria travar um debate sobre a necessidade de romper com o clientelismo e a burocracia que tem deformado o sentido de universidade. Não me intimidei, mantive o meu nome e abri caminho para que desta feita a escolha não se desse somente com uma candidatura.
Isso levou a consolidação de um quadro com mais duas candidaturas, e o retorno a dois dias do final da inscrição, da candidatura do professor Luis Melo. Além dele entrou na disputa a um mês e meio da inscrição das chapas, o professor Reginaldo Nassar. O quadro se definia, mas foi pouco a pouco tornando-se confuso, porque praticamente o discurso de todos os candidatos pouco se distinguia, e não se percebia por dois deles que tinham identificação com a atual gestão, nenhum compromisso com os problemas que apontávamos. Ao final, as propostas eram bastante parecidas, embora os discursos fossem diferentes. Mas, só discurso não ganha eleição, muito menos quando se deseja quebrar paradigmas.
A consulta à comunidade universitária comprovou o diagnóstico que apontei nos artigos. Foram diversos, mais de dez. Mas, creio, isso acrescido a todas as discussões e debates que fizemos, nos dão a certeza que a próxima gestão, a quarta sequencialmente conduzida praticamente pelos mesmos personagens, terá que ser diferente. Isso porque desta feita provocamos a comunidade, que embora tendo reagido de forma diferente, se fez presente apontando as insatisfações, os diversos problemas, situações de órgãos em vias de colapso, falta de segurança, ausência de estrutura adequada na parte administrativa, sobrecarga de trabalho dos técnicos administrativos, adoecimentos generalizados e as dificuldades que se apontam como consequência dos cortes de recursos.
O resultado final foi desproporcional e contraditório com todas as reclamações e insatisfações que ouvimos. Mas não estranhamos. Houve uma polarização entre duas candidaturas que tinha mais visibilidade por já terem estado na reitoria, mas que estranhamente se distanciaram da atual gestão, e algumas vezes usaram discursos que mais pareciam oposição. Tudo isso levou, ao final, uma definição pelo voto útil, consolidando quem tinha mais volume de campanha e apresentava mais segurança de vitória.
Como na sociedade, a universidade mantém os mesmos vícios de escolhas no estilo rebanhão. A parcela mais significativa, muito embora todas as insatisfações reinantes e explicitadas nas diversas reuniões que fizemos, preferiu a acomodação de um voto conservador, receosa da mudança e preferindo a manutenção de quem inegavelmente fizera uma boa gestão. Malgrado as deficiências na parte administrativa e na consolidação de uma universidade fragmentada. Mas o estilo de gestão adotado criou vícios e reforçou a política de favores. Inegável que consolidou uma forte base, praticamente imbatível. No entanto, os desafios de outra realidade econômica no país e uma dotação orçamentária reduzida, colocarão à prova a correção, ou não, desse rumo.
De nossa parte, persistiremos levantando discussões sobre a necessidade de definirmos que modelo de universidade queremos, de forma a deixarmos de ser meramente um conjunto de faculdades isoladas que brigam cada uma separadamente pelo seu quinhão. Insistimos que, ou a comunidade se aglutina em torno do objetivo de defender essa instituição, vendo-a enquanto uma totalidade, ou nos perderemos em meio a uma fragmentação que só estimula a disputa de poder e acentua vaidades. A conjuntura atual impõe a necessidade de nos fortalecermos, e devemos fazer isso definindo um rumo para essa universidade. Devemos procurar estreitar mais nossas relações com a sociedade, e buscar nas comunidades tradicionais elementos que enriqueçam o conhecimento que aqui produzimos.
Devemos lutar, e assim o faremos, para resgatar o princípio de uma universidade que tenha no ensino o seu primado, em fortalecer a capacitar cada vez mais jovens que entram nessa instituição sem as devidas convicções de qual caminho devem seguir, o que tem levado a uma enorme evasão. A UFG não pode seguir desprezando a graduação e sendo indiferente com a crise que afeta as licenciaturas. E mais, devemos compreender que estamos numa instituição para servi-la, fortalecendo-a e fazendo com que ela cumpra seus requisitos fundamentais, voltados para atender os interesses da sociedade. Ela não pode permanecer como uma instituição utilitarista, dos professores e a eles servindo, elevando egos e vaidades. Ou compreendemos o sentido de ser da universidade, e vemos nos estudantes e na necessidade de formá-los com competência, mas com capacidade crítica, como o centro de nosso trabalho ou estaremos consolidando uma estrutura pública privatizada por grupos de interesses movidos por intenções diversas dos objetivos essenciais do que deve ser uma universidade.
Esses elementos estiveram presentes no centro das discussões e do resultado final do processo de escolha do futuro reitor. Foram motivadores para o desfecho de acomodação que mantém esses e outros vícios. Mas não é algo impossível de ser mudado, depende de levarmos adiante discussões que são essenciais para definirmos nossos rumos. Sabemos que podemos contar com um número considerável de colegas que compreendem a necessidade de buscarmos resgatar essa essência que é instigadora de outros valores. E assim procuraremos fazer, para além de quaisquer preocupações meramente de disputas eleitorais.
Mas jamais desejaremos o fracasso de uma gestão. Nosso compromisso é com o bem da universidade. Portanto, ao mesmo tempo em que estaremos fustigando o debate, crítico, respeitoso e leal, nos colocaremos à disposição para lutar em defesa da UFG. Certamente, devemos lutar juntos para que os problemas gerados por cortes de recursos e de uma crise política e econômica que nos ameaça, não nos leve a uma situação de estrangulamento de nossas atividades. Insistimos, no entanto, que a luta deve ser pela universidade, vista como um todo e não em benefício ou privilégio setorizados. Em assim sendo, estamos na luta, e creio poder falar também em nome do colega Leandro Oliveira, que somou comigo a chapa que soube qualificar o debate. E continuarei a reafirmar: "é pra frente que se anda"!

domingo, 18 de junho de 2017

A HORA É DE MUDANÇA! PORQUE PRECISAMOS MUDAR A UFG.

Desde outubro de 2016, quando publiquei um artigo neste blog, uma espécie de manifesto (https://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2016/10/minha-vida-se-completa-na-ufg-sigo-por_13.html), me coloquei na condição de candidato a reitor da UFG. Mas minhas críticas ao perfil burocrático das últimas gestões, se estendem a meses antes, por meio de diversos artigos que estão até hoje aqui registrados.
Minha candidatura, vista como extemporânea terminou por ser um balizador da existência ou não de disputa nessa eleição. O retorno de um candidato que já passara por duas vezes pela reitoria, em um momento de disponibilidade de muitos recursos e euforia como consequência disso, por meio do REUNI (Programa de Reestruturação das Universidades Brasileiras), deixou em suspense sobre a insistência ou não da minha condição de candidato. Mantive a minha coerência, e julguei que tal candidatura representava a repetição de tudo que eu via de forma crítica. Reforçou mais ainda a necessidade de termos disputa e uma discussão em profundidade sobre o que é ser uma universidade e como nos tornamos uma instituição fragmentada, burocrática e clientelista.
Com essa decisão, e a certeza que eu não recuaria, mais outros dois candidatos entraram na disputa, a praticamente um mês de abertura das inscrições da chapa. Um desses candidatos voltara ao jogo a dois dias do final da inscrição, representando uma dissidência do grupo que há doze anos controla a administração da universidade, repetindo erros e vícios acobertados por uma acomodação que afetou a universidade desde o processo de expansão. Não importava por esse tempo discutir modelo de universidade, mas disputar o elevado montante de recursos que estava à nossa disposição.
Mas, apesar de ver essa dissidência como fruto do esgotamento dessa forma de comandar a UFG, saudei o fato de haver quatro candidaturas, pois significava essa possibilidade de discutirmos os nossos problemas – que haviam sido jogados para debaixo do tapete – com mais profundidade e de forma respeitosa. Creio que estamos conseguindo fazer isso, malgrado campanhas sub-reptícias que estão sendo feitas por meio de boatos, algo que afirmo não ser prática daqueles que apoiam a nossa chapa.
Dirijo-me especificamente àqueles que porventura não tenham se alinhados com outras candidaturas. Essa Universidade padece de muitos vícios somente possíveis de serem corrigidos com uma mudança forte, e a substituição de todos aqueles que  há mais de uma década se revezam em cargos e assessorias, não se preocupando em questões elementares para uma gestão participativa, democrática e com coragem de assumir posições. Não somente não temos um modelo adequado de universidade, funcionando de maneira integrada e com princípios que há muito defendemos, baseado na multidisciplinaridade, como nos fragmentamos acentuadamente nesse processo de expansão.  Há muitos problemas.
As últimas gestões jamais realizaram planejamento estratégico, e a descentralização administrativa muito mais do que representar um estilo democrático de gestão, significa a  delegação de responsabilidade, isentando-se de assumir com coragem decisões que devem implicar em garantir a integralidade de nossa instituição. Isso tornou a UFG com um perfil nitidamente clientelista. A burocracia, que se intensificou muito, é apenas consequência desse estilo de gestão e cumpre o objetivo de reforçar o poder nas mãos do grupo que a comanda. O excesso de burocracia e a multiplicação de comissões representam alguns dos vícios que precisam ser corrigidos.
Nossa universidade nos últimos anos foi posta de ponta-cabeça. O ensino de graduação, porta de entrada das dezenas de milhares de estudantes que representam a finalidade de sua existência, foi relegado às calendas gregas, menosprezado e não teve a prioridade que deveria ter. A licenciatura, então, embora os problemas externos também contribuam, passa por um momento de crise grave. Mas nenhuma iniciativa, nem via pró-reitoria de graduação, nem via o Fórum de Licenciatura, foi tomada para atacar os problemas que afetam essa área. Sequer nos tornamos protagonistas em discussões com governos e instituições externas à universidade, para poder contribuir com políticas públicas que reforcem as licenciaturas e garantam mais seguranças àqueles que escolhem formar-se como professores e professoras. Perdemos o bonde da história em diversos momentos: não discutimos o impacto do ENEM, não nos adequamos a contento para as mudanças que vieram com o SISU e não tivemos participação na discussão sobre a Reforma do Ensino Médio. E estamos passando ao largo das discussões sobre as mudanças das Bases Curriculares. Só conseguimos avanços, que devem ser mantidos e ampliados, na política de inclusão social. Mas padecemos de medidas concretas para garantir a permanência desses estudantes e evitar a evasão.
Precisamos discutir amplamente essa universidade, e mudar por completo. Precisamos nos adaptar às mudanças que tem acontecido, e deixarmos de seguir o perfil de universidade definido pelas ondas neoliberais que percorreram o mundo e o levou a uma das piores crises desde a grande depressão da década de 1930. Que nos sirvam somente os aspectos positivos, principalmente a nossa adequação aos avanços tecnológicos. Devemos ter coragem de não aceitar imposições que nos colocam submissos e de joelhos diante de medidas que são aplicadas sem questionamentos. Sucumbimos aos controles externos, não há luta por autonomia, o que há é covardia diante de decisões que desfiguram a universidade, por medo de assumir posições e de ser processado.
Não temos dúvidas em dizer que mais do que crescimento, neste momento de crise institucional, econômica e política, nosso objetivo deve ser uma reestruturação interna, com foco nas pessoas, na qualidade e na identificação do modelo de universidade que nos possam dizer o que somos, para que e para quem servimos. Queremos uma universidade que reforce a inter, trans, e multidisciplinaridade, que entenda o perfil da nova geração de estudantes e que crie condições para evitar a mobilidade interna e a evasão crescente, por meio de reforma curricular e do estabelecimento de grandes áreas do conhecimento, retardando a escolha por qual curso o jovem deseja. Algo que tem sido bem aplicado na Universidade Federal Sul da Bahia, na Universidade Federal do ABC, dentre outras.
No âmbito da estrutura da Universidade, queremos mudar a política e a prática no tratamento com os trabalhadores. Em primeiro lugar recompor uma estrutura técnico-administrativa que passou por um desmonte, a partir de escolhas por contratação de trabalhadores terceirizados, o que se agravou enormemente à medida dos cortes orçamentários e da redução dos recursos para custeio. Um erro estratégico imperdoável das gestões anteriores, que optaram por dirigir a universidade por meio de contratação de empresas que precarizam o trabalho e não se preocupam com o grau de qualificação de seus trabalhadores. Criamos uma dificuldade gerencial, na medida em que a expansão da universidade não contou com a ampliação do número de técnicos efetivos, ao contrário do número de professores que se elevou nesse processo. Um crescimento exponencial predial da Universidade não acompanhado pela garantia de pessoal efetivo suficiente. O corte de recursos impõe, naturalmente, uma diminuição no número de terceirizados, cujo pagamento se dá via verbas de custeio. Sobrecarregando, assim, as atividades sobre um número de TAEs que não teve o crescimento necessário.
Além disso, não tem havido nos últimos anos a preocupação necessária com a saúde dos trabalhadores, sejam professores ou técnico-administrativos. Programas criados há mais de uma década não têm sido usados para prevenir adoecimentos, por meio de garantia de exames de saúdes regulares e de acompanhamento de possíveis situações de estresse e depressão. Tem faltado às gestões da UFG a preocupação humanista e a valorização de outro patrimônio, que não só o material: as pessoas que constroem essa universidade.
Precisamos fazer a Universidade funcionar para aqueles alunos/as trabalhadores/as que estudam à noite. A UFG não funciona para eles, a não ser os Centros de Aulas. Vamos estabelecer os turnos contínuos para garantir uma universidade funcionando nos três turnos. E assim, atenderemos também a uma demanda histórica dos servidores técnico-administrativos, uniformizando o regime de trabalho em seis horas, como já acontece na biblioteca, hospital universitário e hospital das clínicas. Faremos isso, é uma necessidade, e queremos como contrapartida mais qualidade e dedicação no trabalho, possíveis de serem verificados por meio de planejamento e relatórios anuais.
No tocante à nossa relação com a sociedade, um vazio enorme nos afastou e nos deixou sem o protagonismo que tivemos em outras épocas. A expansão nos deixou somente preocupados com as questões internas. Conformamos-nos disputando os recursos e consolidando as unidades e laboratórios, isso era natural. Mas faltou à direção da universidade se preocupar em não se fechar como aconteceu. Nossa política de extensão é burocrática, como de resto. As ações se prendem a editais, e pouco se busca de alternativas, por meio de programas, que possa nos colocar em sintonia com o que se produz na sociedade, no âmbito da cultura, das artes e dos saberes tradicionais. E fazemos pouco levando para a sociedade, principalmente para as periferias e bairros mais pobres, o que produzimos em diversas áreas do conhecimento, e principalmente nas artes e na cultura.
Queremos mudar isso, fazendo da universidade um ambiente mais vivo, mais pulsante, mais criativo e, principalmente, mais tolerante com as diferenças. Uma universidade onde a disputa a ser feita internamente se dê prioritariamente no campo das ideias. Um ambiente aonde ninguém venha ser expulso por professar opiniões, ideias ou comportamentos que represente a identidade de gênero e as escolhas político-ideológicas de cada um/a. Queremos, enfim, resgatar a essência de ser universidade, algo que estamos perdendo gradativamente.
São essas algumas das questões que destacamos, embora ainda faltem muitas outras e críticas que tenho acumulado ao longo desse processo. Bem mais do que imaginava poder fazer quando comecei a debater os problemas da UFG. Vejo hoje que nossa situação, do ponto de vista administrativo e organizacional, é mais grave do que imaginava, o que joga por terra o argumento de “ser experiente”. Os “experientes” criaram uma estrutura caótica, desorganizada e fragmentada.
Espero contar com apoio expressivo da comunidade universitária. Que não tenham receio em apostar em um jeito novo de conduzir essa universidade. O medo não é um sentimento positivo quando precisamos de transformação, reflete a acomodação e a aceitação de uma normalidade estranha. Não tenhamos receios de enfrentar os desafios de uma época que está sendo marcada pela indefinição dos rumos, e diante de uma crise política que nos afeta com muita força. Mas precisamos de coragem e determinação para superar esse momento e fazer com que a UFG aposte na qualidade como elemento a nos projetar para patamares superiores no posicionamento do ranking universitário. E, lhes garanto, não terei medo de tomar posição e de lutar com ênfase por nossa autonomia. Mantenho a minha verve, e não temerei ameaças de processos, já passei por isso e jamais me acovardei. Meu CPF estará sempre à disposição, sem receios, e manterei minha coerência com aquilo que estou apresentando nos eixos programáticos de minha candidatura. Minha história reforça isso, e pode ser atestada no artigo do link que inseri no começo desse texto.
Conto com esse apoio. Tanto eu, quanto meu colega de chapa, candidato a vice-reitor, professor Leandro Oliveira. Estamos nos propondo a diuturnamente nos dedicarmos ao objetivo de fazer da UFG um lugar melhor para se trabalhar e estudar. E a torná-la uma das dez melhores universidades brasileiras.
Um forte abraço.
Professor Romualdo Pessoa
CHAPA 1 – UFG PRA VOCÊ! DIVERSIDADE & QUALIDADE

É PRA FRENTE QUE SE ANDA!

sexta-feira, 9 de junho de 2017

É PRA FRENTE QUE SE ANDA!!

ENTREVISTA DO PROFESSOR ROMUALDO PESSOA AO JORNAL DO PROFESSOR – ADUFG (JUNHO 2017)(*)

1) O que te move a concorrer ao cargo de reitor?
 R – A universidade se acomodou a partir de uma euforia com uma quantidade grande de recursos aplicados pelo governo federal no processo de expansão com o Reuni. O ambiente acadêmico retraiu-se, consolidando suas unidades e laboratórios, mas faltou reforçar a essência da universidade, que se perde quando se fragmenta. Esse olhar crítico que tenho expressado em artigos publicados em meu blog (www.gramáticadomundo.blogspot.com.br) há pelo menos dois anos, me motivou e despertou uma marca que carrego comigo há décadas de lutas na universidade. O desejo de agir quando me incomodo com uma situação que não me agrada. Penso que por todos esses anos, mesmo com muitos recursos e com governos progressistas, até o segundo governo da presidenta Dilma, houve aqui na UFG um processo de desmonte da universidade, com o enfraquecimento de sua estrutura administrativa, com a substituição de técnicos efetivos por terceirizados. Ao mesmo tempo desprezou-se a importância da graduação, e dentro desta a necessidade de fortalecer as licenciaturas. Por esse tempo houve também um ensimesmamento na universidade, e, portanto uma retração na relação com a sociedade. Deixamos de ser protagonistas nas discussões de muitas questões que nos dizia respeito e que envolveu a sociedade intensamente. Tudo isso, e a certeza de que a experiência de anos de luta estudantil, sindical e acadêmica, poderia me possibilitar apresentar novos rumos, me fez deflagrar esse processo e ser o primeiro a colocar o meu nome em discussão para ocupar a reitoria da UFG a partir de 2018.
2) Nesse momento de escassez de recursos, com a conturbação política, quais serão os principais desafios de uma gestão de reitoria?
R – Em primeiro lugar ter muita disposição de lutar pela recomposição dos recursos orçamentários, bem como para garantir que aquilo que a Universidade consegue arrecadar por vários serviços prestados sejam totalmente investidos em nossa instituição. O desafio principal é não se acomodar, procurar unificar os representantes políticos goianos também nessa luta, provocar na Andifes um sentimento maior de combatividade na defesa das instituições federais e, principalmente, unificar a comunidade universitária nessa luta. Precisamos recompor e fortalecer os setores que compõem o ambiente acadêmico para que tenhamos uma universidade forte e com poder de reivindicação e destaque perante o MEC e o MPOG, mas também criar um fórum de defesa de nossa universidade, aglutinando diversos setores da sociedade organizada, governos estadual e municipal. Já fizemos isso em outros momentos de dificuldades e conseguimos passar por períodos igualmente turbulentos com determinação e não se curvando às pressões. Juntar essa luta também com a defesa de nossa autonomia. Agora, acreditamos que para termos sucesso precisamos fazer diferente de tudo que tem sido feito nas últimas gestões, na forma de lidar com as dificuldades. Ser mais proativo, ter coragem de tomar decisões e procurar se antecipar a situações de crises que possam nos desagregar.
 3) Qual a avaliação o professor faz da gestão do professor Orlando?
R – Eu prefiro não olhar somente a gestão do professor Orlando. Para mim sua gestão representa uma continuidade do que foi feito a partir das duas administrações anteriores do professor Edward. Ele foi Pró-Reitor de Administração e Finanças nas duas gestões, portanto não tem como separar sua administração das anteriores. Há diferenças de estilo, mas creio que houve continuidade à maneira como a UFG tem sido administrada nas últimas gestões. Claro que as dificuldades financeiras impactaram numa situação de instabilidade política e de cortes de recursos, mas isso se agravou também por uma opção feita de investir em contratação de técnicos terceirizados. Com isso reduzindo as verbas para custeio e não aumentando o número de técnicos-administrativos, que complica com a diminuição dos terceirizados. Além de ter acentuado uma gestão muito burocrática e excessivamente submissa aos controles que reduzem a autonomia da universidade. E também repetiu os erros cometidos anteriormente em não reforçar a graduação. Sintomaticamente temos nesse processo eleitoral tanto um ex-reitor participando que de forma inédita em nossa história deseja ser reitor pela terceira vez, como também um ex pró-reitor de graduação, que estava no cargo até o final do mês de abril. E essa foi uma área pouco valorizada nas três últimas gestões, embora haja números positivos, e que devem ser melhorados, em relação à inclusão por meio de ações e programas de cotas. Mas faltou focar na qualidade, na revisão curricular para adequar os programas dos cursos às mudanças que ocorreram desde o ENEM até ao SISU. Enfim, faltou nos últimos anos fazer da universidade uma instituição plena, com força e qualidade nos três setores que compõem o tripé acadêmico: ensino, pesquisa e extensão. Tornamos-nos uma instituição fragmentada,  clientelista e fragilizada em sua estrutura admistrativa. Vamos corrigir isso, diminuindo a burocracia, buscando estreitar as relações entre as áreas e conter a alta evasão que afeta os cursos de graduação.
4) O que o professor considera como sendo o ponto mais forte da sua candidatura?
R – A nossa vontade de fazer diferente, promovendo uma mudança completa no quadro de gestores de nossa universidade, a fim de conter certos vícios que se fortalecem com a continuidade de um mesmo grupo no comando, a disposição de refazer o sentido de ser universidade e a proposta de realizar planejamento estratégico, algo que não tem sido feito. Também retomar o protagonismo da UFG na relação com a sociedade e criar um ambiente de debate e discussão sobre problemas que são cruciais dentro e fora da universidade. Em nossas discussões com a comunidade universitária tem havido uma concordância com a necessidade de a UFG mudar de rumo. Podemos fazer mais e melhor, tendo como foco a qualidade e o respeito às diferenças.
5) Para a consulta à comunidade, a sua força de votos maior está entre estudantes, técnicos ou professores?
R – Há uma tradição, não só na UFG, mas nas eleições em outras universidades, que é a fragmentação dos votos entre os professores quando há uma grande quantidade de candidatos em disputa. Creio que isso acontecerá nessas eleições. Os estudantes, só se tornam decisivos quando vota um número elevado, em decorrência do peso proporcional, pelo fato de a quantidade ser bem maior. A não ser que haja uma votação muito expressiva, e é o que desejamos e estimularemos. Já os técnicos administrativos podem ser decisivos, já que costumam votar mais coesos. Nesse ponto, pelas propostas que tenho apresentado e que representam demandas antigas da categoria, como a flexibilização da jornada com turnos contínuos e 30 horas semanais, e a atenção à qualificação e à saúde, tem me permitido transitar com facilidade nesse segmento. Ao mesmo tempo, existem dois outros candidatos que representam o modelo de gestão que até agora não valorizaram muito a categoria e não fizeram ampliar o quadro de técnicos efetivos. Optaram por criar comissões que sempre protelaram decisões que já poderiam ter sido tomadas. Por minha história de luta desde os tempos do movimento estudantil e também por ter sido duas vezes presidente do nosso sindicato (ADUFG) e da SBPC, creio que conseguirei obter votos expressivos em todas as categorias. São trinta e cinco anos lutando em defesa da UFG, creio que haverá um reconhecimento a isso e o momento de crise reforça a necessidade de termos um reitor com perfil de luta, coragem, determinação e que consiga angariar respeito nos três segmentos que compõem a comunidade acadêmica.


UFG PRA VOCÊ! DIVERSIDADE & QUALIDADE.



*Essa é a íntegra da entrevista que concedi ao Jornal do Professor. Por razões de espaço a entrevista foi editada. Publico aqui em toda a sua integridade, as razões pelas quais nos colocamos como candidato a reitor da UFG.


domingo, 28 de maio de 2017

A DEMOCRACIA, A REPRESSÃO E O ESTADO MILITARIZADO

A Nota da Associação da Polícia Militar[1], em reação à reportagem sobre a agressão ao estudante da UFG, Mateus Ferreira, apresentada num programa deste domingo (28/05), é absolutamente irracional. Mostra bem que aqueles princípios norteadores da militarização das polícias, construídos durante a ditadura militar, com a criação do SISNI (Sistema Nacional de Informação), cujo objetivo, seguindo bem a orientação estadunidense incorporada nas elaborações teóricas do estrategista Nicholas Spykman, visava no âmbito da guerra fria identificar os inimigos externos e os inimigos internos.
Assim, todos aqueles que ousavam questionar os valores conservadores estabelecidos pelas políticas dos governos aliados dos EUA, e aqui no Brasil dominado pelos militares, eram considerados subversivos, perseguidos, presos, torturados e assassinados. Não se analisavam o caráter das pessoas, e a justeza de suas causas, mas identificavam naqueles que não concordavam com o regime desajustados criminosos, que eram inapelavelmente eliminados. Invertiam-se os valores, e os crimes de tortura e morte eram justificados como cumprimento aos valores patrióticos. Uma aberração, que causou mortes de gente inocente, que lutavam por uma causa justa, por democracia e justiça social.
Passados tantos anos, mesmo décadas depois do fim da ditadura militar, mantêm-se nas corporações militares aqueles mesmos valores, pelos quais se identificam nas rebeldias de jovens inquietos e inconformados com uma sociedade absolutamente desigual e injusta, como perigosos subversivos e criminosos.
Não estou pregando o comportamento agressivo e de enfrentamento com forças repressivas, até pelo caráter desigual do confronto, e por entender que as lutas em curso devem primar pelo equilíbrio e construção de outra forma de democracia, embora saiba tratar-se de uma tarefa difícil, pelas reações violentas às lutas democráticas. Também deploro a destruição do patrimônio público, porque é um patrimônio do povo e construído por meio de impostos  extraídos do suor da maioria que não sonega. Mas é indefensável usar um argumento de proteção do patrimônio quando se coloca em risco vidas de jovens, quando se adota uma forma repressiva nitidamente letal. E percebe-se que no caso em discussão, isso absolutamente não estava acontecendo, muito menos se identifica Mateus Ferreira em algum ato de depredação, conforme já mostrado por diversos ângulos no momento da agressão por ele sofrida.
O papel da polícia militar é de segurança, de garantias de defesa da segurança da população, primordialmente. Não pode ser de atentar contra a vida. Embora seja inegável que nas circunstâncias de uma atividade de risco muitos policiais perdem suas vidas. Evidente que também é lamentável ver isso ocorrer e deve-se louvar o trabalho daqueles que se dedicam com afinco a uma profissão que é de proteger o cidadão. Contudo, na medida em que se confunde um comportamento criminoso, com uma atitude de rebeldia e insatisfação social, percebe-se uma mudança nos objetivos dessa instituição, e um retorno à maneira como se procedia nos períodos mais violentos e antidemocráticos de nosso país, na ditadura militar. Não pode a democracia ser pior do que uma ditadura, mas no tocante à ação da Polícia Militar, isso está acontecendo. Por isso podemos questionar: que democracia?
A insistência na defesa desse comportamento agressivo em ações individuais e coletivas da polícia aponta em um sério e grave desvio de conduta  dessa corporação, que a afastará cada vez mais do cidadão, que já não tem mais respeito e sim medo, pela forma como se dá essa relação. E, ao se sentir protegido nas reações de seus comandos e de suas entidades de classe, individualmente as atitudes serão desproporcionais, agressivas, violentas e até mesmo com ações letais que atentam contra a vida das pessoas. Nessa direção, já não se faz mais distinção no trato entre o criminoso e o cidadão comum, mesmo que este eventualmente tenha se desviado de sua conduta pacífica. Perigosamente, marchamos para um modelo de sociedade moldada pelo medo e pelo militarismo exacerbado.
Urge, portanto, haver uma reflexão profunda nessa relação, estabelecer formas de treinamento que incorpore valores humanistas e compreensão sobre a importância dos direitos humanos. A segurança pública é essencial em uma sociedade fortemente urbanizada, em ambientes que congregam milhões de pessoas e diante de comportamentos egoístas, gananciosos e consumistas. Essa relação tem que ser estabelecida a partir de valores solidários e comunitários, o que não significa deixar de agir com rigor contra a criminalidade. Mas o que não se pode é identificar em todos ou todas que porventura sejam críticos das estruturas de poder como marginais ou bandidos.
Por essa razão, muito embora vivamos nos espaços da universidade diariamente com uma insegurança crescente, é que nos opomos à presença da Polícia Militar dentro de nossos Campi e regionais. Sabemos que precisamos de segurança, mas por esses comportamentos a presença militarizada da segurança incorreria em outras inseguranças, e certamente em algum momento isso poderia implicar em conflitos, por essa concepção formativa dos quadros policiais. Mas entendemos ser necessário encontrar um meio termo. Naturalmente, no entendimento de compreensão que a juventude é, por essência, rebelde, inquieta e contestadora, e isso é algo insofismável.
A crítica que fazemos aqui deve ser absorvida pelos que comandam o Estado e por consequência estabelecem a política de segurança pública. Para que o foco nos treinamentos dessas corporações seja o respeito às pessoas e a garantia de segurança para a sociedade. Mesmo que não se descuide da segurança patrimonial. Mas quando se estabelece como foco primeiro defender patrimônio, mesmo que à custa de agressões mortíferas contra as pessoas, isso representa uma decadência de valores e nos encaminha perigosamente para um tipo de sociedade fria, inconsequente, onde será impossível distinguir qual tipo de caráter importa defender.
Essas críticas também não podem ser recebidas de forma rancorosa, como se estivéssemos identificando em cada policial um inimigo. Não, essa lógica é o alvo de minha crítica de como se dá no sentido oposto. O que é preciso é assimilar a crítica como uma necessidade premente de se mudar a forma de tratar a juventude, de como atuar em meio à multidão, e de como proceder a uma tática defensiva nessas situações, como é prática em muitos países europeus. Não pode ser jamais uma instituição que existe para cuidar da segurança das pessoas, a primeira a exacerbar a violência. Ela deve, primeiramente, conter qualquer tipo de violência. É plenamente possível fazer isso, sem recorrer a atos que beiram a insensatez e o sadismo no confronto com os movimentos sociais. E considere-se o fato de que a forma como parte dessa juventude se prepara para a guerra, ao ir a esses atos, é consequência do histórico de repressão e de agressividade como a Polícia se comporta. E quanto mais se radicaliza nessa repressão, mais se amplia o número daqueles que assim se preparam para o confronto. Isso não interessa aos que organizam essas manifestações, não contribui para a democracia e aumenta perigosamente o risco de estarmos diante do estabelecimento de um estado policial.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

REPENSAR A RELAÇÃO UNIVERSIDADE-SOCIEDADE

A Universidade Federal de Goiás, como todas as universidades públicas, e até mesmo algumas (poucas) boas instituições privadas, cumprem um importante papel na relação com a Sociedade. Não somente por gerarem, a partir de seus preceitos básicos a que servem, a formação de jovens aptos a se tornarem profissionais competentes, essencial para que possam ter boas condições de vida, como também contribuindo com o desenvolvimento econômico e social nas regiões onde estão instaladas. A formação profissional e a pesquisa são essenciais para impulsionarem transformações socioeconômicas regionais, bem como reforçarem a competência nacional em áreas que são estratégicas para o país.
No entanto, outros elementos nessa relação são necessários, inclusive a formação humanista. É essencial que o conhecimento gerado na universidade, por meio do ensino e da pesquisa, seja levado à sociedade, envolvendo a comunidade de seu entorno, mas que vá bem além disso, ampliando o máximo possível os saberes acadêmicos produzidos.
Mas essa relação não pode ser burocrática, elitista, ou visando tão somente projetos que se adequem meramente dentro das exigências academicistas. Devemos compreender essas ações como objetivos precípuos, essenciais à universidade. Não se limitando, no entanto, a ser tão somente uma relação em que a Universidade apresente sua competência, exteriorizando sua produção e capacidade no âmbito da ciência e da produção do conhecimento. Isso é absolutamente relevante e necessário. Mas é preciso ir muito além disso.
É essencial criar uma sinergia com a sociedade em todos os sentidos, estabelecendo parcerias com organizações sociais, associações de moradores, instituições públicas e privadas, de forma a fazer com que o que produzimos seja não somente mostrado, mas usufruído pela população. E isso deve se dar em todas as áreas do conhecimento. Temos bons exemplos em algumas unidades que atuam em áreas de saúde, no Planetário etc. Mas podemos fazer mais, e melhor, também num sentido reverso, trazendo para dentro da universidade uma competência estabelecida fora dela, na experimentação da vida cotidiana dos saberes tradicionais.
Boaventura de Souza Santos
Creio que a Universidade Federal de Goiás não conseguiu nos últimos anos promover adequadamente esse vínculo, prendendo-se a uma aproximação mediante apresentação de editais com projetos que exigem o estabelecimento dessa relação. Não há crítica sobre esse caminho, embora haja em relação à quantidade de editais, que poderiam ser em maior número, mas tem sido reduzido em função dos cortes de verbas. Mas a universidade não pode buscar uma interação com a sociedade tão somente mediante esse mecanismo. É preciso criar programas que envolvam projetos de pesquisas e até mesmo as disciplinas da graduação. E também atividades que levem o que de melhor produzimos na Universidade à população de maneira geral, em especial às periferias.
Uma experiência recente pode nos servir como exemplo, embora as circunstâncias sejam diferentes, porque é uma universidade que começou recentemente do nada, com uma nova proposta. É o que tem sido feito na Universidade Federal Sul da Bahia, por iniciativa do Reitor Naomar Oliveira. Partindo de elaborações teóricas expostas por Boaventura de Souza Santos, a experiência consiste em reconhecer competências externas à universidade, de saberes tradicionais, identificadas como “epistemologia de conhecimentos ausentes”. Propõe assim uma revolução epistemológica, que passa a ser considerada como uma extensão reversa, de fora da universidade para dentro. O objetivo é consolidar uma relação que fuja de qualquer subordinação da universidade para com a sociedade, mas compreendendo uma relação de troca de saberes, de pesquisa ação. “Compreende, enfim, a promoção de diálogos entre saberes científicos ou humanísticos, que a universidade produz, e saberes leigos, populares, tradicionais, urbanos, camponeses, das favelas, provindos de culturas não ocidentais (indígenas, de origem africana, oriental etc.) que circulam na sociedade e igualmente a compõem.” [1]
Não temos aqui seguido o exemplo de outras universidades, principalmente as do Nordeste, que se envolvem fortemente com as culturas locais. Uma simples olhada nos sites dessas universidades, comparando-as com o que temos feito na UFG já é possível perceber a diferença de foco.
Propomos reverter essa situação. Entendemos que podemos fazer mais e melhor, promovendo nossas competências, mas valorizando a cultura local e regional. Produzindo ações que permitam o conhecimento do que é produzido para além dos muros da universidade e que podem ser representado em nossos espaços: música, folclore, cinema e artes.
O que é produzido de forma competente na Universidade deve ser mais conhecido e reproduzido na sociedade. Mas, ao mesmo tempo, devemos também abrir as portas da Universidade para o que é produzido de forma profissional ou até mesmo por meio de iniciativas populares em cidades onde certas festividades e folclores já se tornaram tradicionais. Propomos realizar festivais de música, teatro e folclore, transformando o ambiente acadêmico e fazendo pulsar em nossos campi e unidades regionais um pouco do que representa a arte e a cultura goiana.