terça-feira, 17 de abril de 2018

NÃO SE PODEM MATAR OS SONHOS. MAS OS ESTAMPIDOS DAS BALAS PODEM INCENDIAR A LUTA DE CLASSES.

(Resposta aos que nos tomam por tolos)
Nunca tive a vida focada em meu próprio umbigo. Sofri até chegar aonde cheguei, e aprendi a conhecer o mundo não somente com o que eu leio, mas com o que vivi. Sou Militante desde os anos 1980 e enfrentei nas ruas o ódio expresso nas armas empunhadas pelos agentes da repressão. Lutamos muito, até conseguirmos sair de um regime ditatorial, opressor que nos silenciava pela força. Sabíamos no contexto daquela luta, que em nossa sociedade prevalece nitidamente uma luta de classes, e no jogo do Poder há poucas chances para os que defendem outro modelo de sociedade, mais solidário e cooperativo, com menos desigualdades sociais.
Senti nos anos dos governos Lula e Dilma que uma ilusão estava sendo plantada aqui, e que não daria certo, da possibilidade de convivência de classe. Numa sociedade absurdamente desigual como a nossa, onde a riqueza foi construída em cima da miséria de uma maioria alienada e crente nas promessas divinas, a perversidade da elite se sobressai e não deixa margem para que haja um mínimo de avanço que melhore as desigualdades. Eu não me iludi com isso, mas estávamos contidos numa esperança. Isso se demonstra nos dias de hoje como impossível.
Os que ressoam os discursos reacionários e batem panelas de seus apartamentos chiques dos bairros nobres não são cegos, são bem vividos, se encontram num patamar de classe que os fazem ter os olhos bem abertos. A cegueira atinge os mais pobres, alienados, frágeis diante de diversos vírus que os impede de ver a realidade, em função da manipulação da informação a que são submetidos. Pessoas que compõem o escalão superior na pirâmide social sempre tiveram os olhos bem abertos, e a esperteza, para se escorar no hipócrita discurso do mérito sobre uma pobreza que vive submetida ao medo, ao poder, à violência das forças repressivas, e a uma cultura dominante que a escraviza. Eu sei o quanto essa justiça é seletiva, e sei que ela pode condenar quem ela quiser, sem provas, ou escolhendo os que serão exemplos para impedir que os de baixo tenham a ilusão de que conseguirão em algum momento mudar as coisas num país secularmente dominado por oportunistas, cafetões, coronéis e bandidos engravatados que se apropriam do Estado em busca de milhões de subsídios, mas que não aceitam uma miséria de uma centena de reais a ser pagos aos mais pobres.
Eu me contive por muito tempo. Respeitosamente, numa tentativa de convivência numa realidade que poderia ter outro caminho. Mas de agora em diante, as respostas serão num tom adequado ao nível de radicalização que se criou nessa sociedade, fruto da forma como a grande mídia golpista acentuou o maniqueísmo ao seu prazer, escolhendo quem ela considerava imputável, a ser condenado, por representar o perfil de uma população de miseráveis perigosos, que ousaram em algum momento ultrapassar a fronteira permitida entre a Casa Grande e a Senzala. Mesmo que tenha que jogar alguns dos seus na jaula dos leões. Eles são assim mesmo, além de covardes e desonestos, traem-se mutuamente.
Essa porcaria de triplex, nessa fraude que construíram, situado numa zona praiana decadente, não vale o preço da minha casa. E jamais seria uma residência para quem já possua uma idade avançada. Essa farsa não se sustenta na realidade dos fatos, a não ser em mentes doentias, de nababescos, bem situados, pervertidos, que temem o avanço dos mais pobres.
Mas isso vai mudar com o tempo, nada é para sempre. Tudo muda, no mundo. Essa troupe de reacionários precisam ser confrontados nos debates e assembleias, se é que terão coragem de aparecer, porque agora é preferível o debate tête-à-tête, como nos tempos em que enfrentávamos, sem medo, as forças da repressão. Podem vir para o debate, estaremos esperando os que queiram divergir. Mas é bom saber, eu tenho lado. E sei também que é sempre do lado que estou, da esquerda, dos indignados, que aumenta a cada vez mais o número de cadáveres, daqueles que são assinados por grupos que representam uma direita perversa e assaltante de nossos sonhos e de nossas riquezas. Aliás, já passou da hora dessa matemática ser refeita, e que possa vir uma reação a pelo menos empatar o número daqueles que são vítimas desse ódio de classe. Se é luta de classes, é preciso então que não haja somente a queda de corpos dos que defendem a liberdade, se opõem à opressão, e se colocam contra as desigualdades sociais. Basta de mártires, de mortes dos que ousam levantar as vozes contra as injustiças sociais, pelos direitos humanos e contra os “donos da terra” que secularmente assassinam os que lutam por seus direitos. Talvez tenhamos chegado ao limite da conciliação de classes, na tentativa de construir um estado justo e uma sociedade menos desigual. Como se diz no ditado popular, “a paciência tem limites”.
Nesses tempos estranhos o que falta também a muitos é estudar História. Há por demais os que estão precisando conhecer quais são os verdadeiros ladrões e vendilhões desse país. E que não se olhe para os políticos somente, eles são em sua maioria corrompíveis e corrompidos. Mas para a burguesia. Banqueiros, empresários e latifundiários, os corruptores, que construíram suas riquezas à custa da pilantragem institucionalizada, desde a época colonial. Muitos não entendem nada desse país. Ou melhor, entendem, mas sucumbem aos discursos hipócritas que escondem a realidade dos que saqueiam essa Nação. E esses saqueadores, que controlam os meios de comunicação de massas, conhecem a história, tal como eles contam, manipulando fatos e desconstruindo a realidade. Arrotam discursos moralistas, como se todos a ouvi-los fossem tolos, ou tivessem a mesma deficiência de neurônios que a si próprios. Esse país é uma zona, prostituída por uma elite perversa que recebe as benesses de um judiciário que vende sentenças e prima pela seletividade. Entramos numa rota de colisão. O erro de Lula foi ter se iludido com os canalhas da Casa Grande. Mas se cuidem, como canta Wilson das Neves, conhecido sambista carioca, falecido no ano passado, quando o morro descer, esse país vai ferver: “O dia em que o morro descer e não for carnaval, ninguém vai ficar pra assistir o desfile final, na entrada rajada de fogos pra quem nunca viu, vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil (é a guerra civil)”.[1] Não irá demorar. Já está começando. Os muros altos dos condomínios fechados não será proteção. Quem viver verá. Mas, como diria Engels, não é que sejamos apaixonados por revolução, mas a classe dominante não deixa outra alternativa.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

GEOPOLÍTICA DA AMÉRICA LATINA


Íntegra da entrevista concedida ao Jornalista Renato Dias – DM. Publicada no dia 17/02/2018



A América Latina sofre, hoje, o esgotamento de um ciclo progressista? 
Não diria “esgotamento”, mas as políticas progressistas, mesmo que limitadas e ainda padecendo de alguns defeitos neoliberais, colocaram em xeque o velho poder tradicional, de uma oligarquia acostumada a dominar com o apoio dos EUA. Isso durou o tempo em que as ações das políticas externas estadunidenses estavam absorvidas em intensas guerras no Oriente Médio e na tentativa do isolamento da Rússia. Quando se percebeu que os países latino-americanos estavam seguindo por uma rota diferente, e por meio da liderança brasileira construindo uma alternativa na geopolítica mundial de deslocamento do poder estratégico, inclusive reforçando o poderio comercial pelo pacífico em direção à China, e incluindo a própria Rússia, as ações se voltaram para destruir os governos daqueles países que tem maior importância nessas relações políticas. As crises foram geradas por meio de ações políticas e infiltrações de agentes em manifestações, ao mesmo tempo em que grande mídia tradicional unificava seu discurso com o objetivo de desconstruir as mudanças que estavam em andamento. Como muitos desses governos administraram crises de Estado, e por ter que lidar com congressos parlamentares de maioria conservadora, terminaram por manter vícios na administração e na política. Foi por esse caminho, tradicionalmente trilhado por eles, que os conservadores deram um xeque mate na esquerda. O moralismo hipócrita, o discurso conservador religioso e a manipulação da mídia, terminou por apagar a euforia que existia na relação com a esquerda. Isso não significa esgotamento, mas uma nova etapa de um processo político que encontra sempre adversidades. Contudo, as dificuldades enfrentadas pela população, em razão de uma crise real consumir seus ganhos salariais, e á medida em que esse discurso conservador for sendo desmascarado a tendência é que haja uma retomada nessas políticas progressistas. Mas o momento, infelizmente, é de retrocesso.
Existem identidades entre as quedas de Manuel Zelaya, 2009, Honduras; Fernando Lugo, 2012, Paraguai; Dilma Rousseff, 2016, Brasil?
Sim, claro. Não há dúvidas, nem coincidências. A derrubada desses governos, bem como o desgaste imposto aos Kirchner na Argentina, fez parte de uma estratégia conservadora numa ação política para retomar o controle do poder na América Latina e botar nos governos desses países fantoches, elementos ligados aos interesses dos EUA.
O que explica a derrota do Kirchenerismo, após 13 anos de hegemonia, na Argentina?
Praticamente as mesmas razões que levaram ao definhamento do PT aqui no Brasil. Uma reação orquestrada, conforme já disse anteriormente, que passou inicialmente por uma forte campanha de desmoralização dessas forças políticas, e da esquerda em geral, por meio da intensificação na grande mídia de notícias negativas e de contrainformações com o objetivo de gerar fortes desgastes. Mais do que simples desgastes, as ações, coordenadas pela mídia, mas contando com o apoio de ONGs, órgãos do próprio Estado dominado por idéias e práticas conservadoras, e intensificada por um setor poderoso do judiciário quando viram que seus interesses corporativos estavam sendo ameaçados no Governo Dilma. Na Argentina o embate foi ainda mais prolongado, porque ainda houve uma sobrevida da Cristina Kirchner, que conseguiu suportar até locaute e intensas greves patrocinadas pelos setores “produtivos”, ou melhor dizendo, por aqueles que controlam os meios de produção.
A deposição das armas pelas Farc constituem uma estratégia correta?
A meu ver sim. Eles seriam dizimados diante de um quadro que lhes era absolutamente adverso. Principalmente com a crise que se intensificou na Venezuela e com todo o poderio bélico que foi investido pelos EUA na Colômbia. Na verdade, essa guerra servia aos interesses estratégicos estadunidense, porque através da política de combate ao tráfico de drogas, e da vinculação que foi dada dessa atividade com a guerrilha, as ações militares cumpriam outros objetivos, de através da Colômbia as ações de inteligência no combate às drogas servissem para desestabilizar os governos de esquerda.
Os EUA recomendam um golpe de Estado civil e militar, hoje, na Venezuela. Para depor Nicolás Maduro. Como analista da geopolítica mundial do século 21, o que o senhor tem a dizer?
Isso é um “deja vu”. Os EUA sempre agiram assim na relação com os países da América Latina cujos governos lhes eram e são hostis. É uma política imperialista, de envolvimento direto nos destinos de outras nações, ferindo frontalmente a autodeterminação de cada povo e de cada país. Essa é uma história cujas origens podem ser encontradas no século XIX. Pelo “Destino Manifesto”, de viés protestante-puritano, aquele país se designou como sendo o eleito por Deus para dominar as Américas, daí a célebre e malfadada frase: “A América para os americanos”. E, pouco depois, a política do “Big Stick” (o grande porrete), inserido na Doutrina Monroe, que tratava na ponta do porrete aqueles países que ousassem sair da “linha” e contrariassem os interesses estadunidenses. O que ocorre com a Venezuela já aconteceu com Cuba, com o Brasil, com o Panamá, com a Bolívia e com todos os países cujos governos adotassem uma política de alianças com inimigos estratégicos dos EUA. A guerra fria acabou, mas não essa forma dos EUA lidar com seus desafetos. Muito pelo contrário.
Raúl Castro deixa mesmo o poder, no mês de abril, em Cuba, para Miguel Díaz-Canel?
Acredito que sim, e acho que isso fez parte do acordo com os EUA durante o governo Obama, com a intermediação do Papa Francisco. Até mesmo pelo fato dele já estar bastante velho. Agora tudo depende da maneira como se dará a relação com os EUA. Com o Trump muito do que foi acordado entre os dois países está sendo desfeito. Porque sabemos que a política externa de Trump é isolacionista, e sua base de apoio é muito forte entre os anti-castristas que vivem naquele país. É possível que a saída dele sirva como um trunfo nas negociações para que o Bloqueio criminoso de cinco décadas seja extinto. Mas é preciso ainda ver como as coisas andarão nos EUA sob a batuta desafinada de Donald Trump.
Luiz Inácio Lula da Silva será preso e impedido de disputar as leições de 2018?
Veja, desde o começo dessa crise em que ficou bem claro a seletividade nas investigações de casos de corrupção que tenho dito que o objetivo é pegar o Lula. Quando falo em seletividade não me refiro somente a investigações aos que são do PT, mas aos que fizeram parte da base de apoio dos governos Lula e Dilma. Porque tudo que se está descobrindo agora, era prática corriqueira de décadas de política brasileira. As eleições aqui no Brasil sempre aconteceram contaminadas nessas relações entre empresas e financiamento de campanha. Foi assim que as oligarquias permaneceram no poder tanto tempo. Portanto isso tudo aconteceu nos governos anteriores, inclusive do PSDB, com FHC, que usou do mecanismo de compra de parlamentares para aprovar a reeleição. Ora, se o objetivo desde o começo é prender Lula, para que ele não retorne à presidência da República, e se por mais de dois anos repetidamente se acentua o desgaste numa lógica goelbesiana (uma mentira repetida por muitas vezes se passa por verdade), é evidente que isso deverá acontecer. Pode não acontecer caso o STF volte atrás na decisão de prender um investigado quando já houver uma condenação numa segunda instância judicial. Se isso não acontecer o Lula será preso. A menos que houvesse uma convulsão social e ações de desobediências civis coletiva. E isso não me parece que vai acontecer, porque o povo está anestesiado e muito cético em relação a política. Houve uma desconstrução perversa do que aconteceu de melhor no Brasil nos últimos anos e o pessimismo foi injetado no inconsciente da população. Pessimismo, aversão à política e intolerância com as diferenças. Nesse ambiente a sociedade está mais para a letargia do que para se levantar contra injustiças que se cometam contra um político que é tido, e isso é inegável, como a maior liderança política do país desde Getúlio Vargas. É claro que isso tem um tempo de validade, a desesperança leva ao desespero, e às insurgências sociais, basta pesquisar na história.
Qual a sua análise do cenário em Goiás?
Não é diferente do cenário brasileiro. E também segue uma onda conservadora. Para desespero daqueles que combateram a ditadura acabamos de ver um ex-governador biônico, base de apoio da ditadura militar, ser conduzido à condição de Secretário de Segurança Pública, isso mostra o nível do retrocesso e da mudança de foco de uma política de viés social para outra de caráter repressivo, porque é o que esse nome representou e representa. Veja também que o nome mais forte para candidato ao governo é de um elemento que comandou na década de 1980 uma associação de fazendeiros criada para eliminar lideranças sindicais rurais e camponeses que lutavam pela terra, a UDR. E faziam leilões para comprar armas com esse intuito, claramente definido e propagado. Uma candidatura que representa antigas oligarquias goianas, que se imaginava já estar soterrada com o tempo e as transformações políticas. Claro que o nome forte, porque o conservadorismo foi acionado pela campanha midiática contra os setores progressistas, não significa uma estrutura de partido forte, portanto não acredito que ele seja vitorioso. Até porque seu discurso radical de direita afasta políticos do Centro e tende a isolá-lo politicamente no transcorrer da disputa. Mas Goiás também tem uma característica de uma estrutura econômico-social fundada na exploração da terra, da grande propriedade latifundiária e do grande agronegócio, e isso por si só reforça o caráter conservador da sociedade. E culturalmente por todos os poros goianos essa tendência se manifesta e afeta até mesmo as camadas mais baixas da sociedade. Portanto, não acredito numa alternativa progressista como sendo vitoriosa nas próximas eleições aqui em Goiás, não há força política para isso, até mesmo em Goiânia que por diversas vezes elegeu prefeitos de esquerda. Essa tendência conservadora só não terá impacto maior se os partidos de esquerda conseguirem se unir em torno de uma candidatura que possa de fato competir visando chegar ao segundo turno. Se isso não for possível veremos uma disputa entre o candidato de centro-direita e um candidato de direita no segundo turno das eleições em Goiás, infelizmente.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

QUE SEJAM FELIZES OS DIAS QUE VIRÃO! VAMOS INVENTAR UM 2018, COM SOLIDARIEDADE, PAZ, TOLERÂNCIA, AMIZADE E AMOR!

Não sei o que dizer do que será. Resta-me analisar o que já não é mais. Assim, na reconstrução do passado, que me pode dar a compreensão dos erros e acertos do tempo que se foi, posso melhor inventar o meu futuro. 2018, e o que mais vier.
Repito aqui, os mesmos desejos de anos anteriores, pois eles são permanentes, apenas envelhecemos um ano a mais.
Seguramente uma das coisas boas em minha vida nesses últimos anos foi a força para criar e consolidar este Blog. Gramática do Mundo, como já disse, um nome quase emprestado do historiador francês, Fernand Braudel, que criou sua Gramática das Civilizações, representou para mim muito mais do que eu pretendia que se fosse inicialmente. Transformou-se em um fórum de debate bem provocativo, como sempre fui, e sou, em minha peculiaridade, mas sempre de maneira positiva e propositiva. Através desse estímulo pude reencontrar minhas forças. E, embora as marcas do passado não cicatrizem, aprendemos a conviver com elas, e com nossas dores. Às vezes, contraditoriamente, elas nos estimulam.
Em 2018, já completando 23 anos como professor na UFG, pretendo redefinir meus objetivos. Não necessariamente,  ano novo, vida nova. Até porque o tempo é contínuo, nós, seres humanos foi quem criamos uma lógica que se impôs pela religiosidade e foi adaptada pelos interesses consumistas sistêmicos. Já não vivemos numa universidade em que a experiência conta mais do que os arroubos juvenis. Hoje vale mais a fria imposição contabilista do novo produtivismo. Sou um péssimo competidor nesse ambiente que ajudei a construir, mas que se alenta com a fluidez, e com a rapidez que caracteriza esse tempo perverso e cada vez mais insensível e individualista. A Universidade é tão somente um reflexo disso. Os idealistas não tiveram forças suficientes para influenciar nessas transformações. Ou sucumbiram ou foram derrotados.
Dedicar-me ao blog é um alento, embora academicamente seja negligenciado. Como procurei afirmar no parágrafo anterior, pouco valem nossas idéias e posições firmadas a respeito de questões que nos envolvem cotidianamente. Nos é imposto a necessidade de sempre nos referenciarmos àquilo que já foi dito, vale, portanto, o argumento da autoridade, e cada vez menos a autoridade do argumento. Mas esse blog  cumpre um papel importante para mim, para além das preocupações meramente acadêmicas, e se transformou numa catarse a aliviar os meus tormentos, de fazer libertar do fundo da minha intimidade todas as angústias motivadas pela perda de minha filha, Ana Carolina. Através do Gramática do Mundo, e tentando ainda fragilmente seguir o lema da filosofia antiga, exposta inicialmente em um poema de Horácio, no século I, antes da Era Cristã, com a expressão Carpe Diem, não me preocupo em viver obcecado com o futuro, mas buscar a compreensão do presente, de forma a vivê-lo em toda a sua intensidade.
Essa máxima permanece a guiar as minhas atitudes e a maneira como concebo a vida, embora com uma concepção materialista. Sem jamais querer eliminar as minhas memórias, as lembranças, mesmo tristes, que me marcaram e me conduziram ao presente. Bloqueei por algum tempo lembranças trágicas da internação de minha filha, até o dia fatídico da sua morte. Mas, desde 2013, principalmente após a defesa de meu doutorado – talvez algo que eu ainda devesse a ela – recuperei essas imagens, mesmo que doídas, mas já conseguindo sentir a sua presença permanentemente ao meu lado, em nossos momentos de alegrias. Carregarei para sempre suas lembranças, mas não imaginem que para mim isso significa sofrimento. São saudades, repletas de amor.
Por isso essa minha mensagem de transição entre dois momentos simbólicos (2017 - 2018), construídos seguindo uma lógica que interessa ao consumismo capitalista, apesar da crise econômica no Brasil e no mundo, mas que inegavelmente também se constitui em um momento de confraternização, e de expiação de todos os nossos problemas, eu quis produzi-la aqui. Transformo, assim, todos os meus seguidores e eventuais leitores, em personagens de minha vida, com os quais estabeleço abertamente, por essa ferramenta espetacular que é a internet (muito embora sempre sob ameaça de controle), momentos de franca discussão ideológica e intelectual, bem como compartilho todos os meus sentimentos pela perda irreparável que me consumiu e me consumirá pelo resto da minha vida, mas que aprendi a conviver com ela, superar a dor e encarar a realidade. Também as dores da vida social são terríveis, convivemos com elas diariamente, direta ou indiretamente, e não podemos viver eternamente numa caverna a olhar infinitamente para dentro de si próprio, senão esquecemos como são as coisas por aí afora, no mundo real que nos cercam e nas quais estamos envolvidos.
Continuo recebendo, principalmente nas minhas postagens mais sofridas, nas datas que mais me lembram da Carol, mesmo dez anos depois de sua morte, mensagens de amigos e amigas, e até mesmos de pessoas anônimas para mim, que só conheço pelas redes sociais, e foram e têm sido fundamentais para a recomposição de meu caminho. São, seguramente, estímulos para a superação das adversidades e me ajudam a viver a vida como expressado na filosofia antiga, nessa loucura do mundo moderno.
Isso nos dá também a convicção de que a solidariedade só precisa ser praticada, porque muito embora tenhamos a sensação de que vivemos em um mundo cruel, as pessoas, em sua maioria, têm sim, sensibilidade e expressam ainda isso de várias formas. O velho altruísmo que salvou a espécie humana em épocas primitivas permanece, ainda que hibernado pelos tempos individualistas como resquícios do neoliberalismo, e do próprio capitalismo e de algumas religiões que fogem aos próprios valores que as constituíram. Mas em certos momentos esse altruísmo se manifesta e desperta o lado sensível dos indivíduos, homens e mulheres. Talvez nesses últimos anos, além dessa palavra, uma outra devesse ser mais analisada, e mais do que isso, o que ela representa devesse ser aplicado: alteridade. Em tempos marcados pela intolerância, resgatar o altruísmo e aplicar mais alteridades em nossas relações, certamente nos ajudará a construir uma força capaz de refazer nosso mundo. Não vai ser fácil.
2017 foi, mais uma vez, um ano de crise, desta feita marcado pelo crescimento do ódio e da intolerância na relação com o outro e com o desrespeito com as diferenças. Sempre envolto nas leituras geopolíticas, que me ajudam a interpretar o mundo, e a nossa situação específica, no caso do Brasil, segui repensando os comportamentos que me acompanharam por vários anos.  Por vezes um choque, uma tragédia, em nossas vidas, torna-se capaz de nos fazer parar para refletir. Tendo não mudar minha personalidade, diante das adversidades e das cargas negativas que nos cercam, alimentadas por uma mídia insana e oportunista.  Procuro sempre seguir sendo eu mesmo, um pouco melhor da minha “ranzizesse” privada, apesar de mais velho e agora tendo ultrapassado a barreira dos 60 anos. Sim, tornei-me neste 2017, sexagenário, com muito orgulho, prazer, dores, tristezas e alegrias. 

Todos nós temos nossos defeitos que cada um de nós possui e compõe a nossa personalidade, obviamente junto com as nossas qualidades. Mas adquiri uma capacidade maior de compreender os dramas e fragilidades da vida humana. Até pela acumulação de conhecimentos que busquei no estoicismo, somando-os à minha visão de mundo, baseada na dialética materialista e pela experiência adquirida da vida. 
Não sou partidário de princípios doutrinários, segundo os quais o sacrifício é um fator essencial para que o sentimento humano se realize. Não temos que, necessariamente, buscarmos o sofrimento a fim de termos nossos “pecados” expiados. Mas é inegável que ele nos trás um choque de uma realidade da qual não esperamos experimentar. Construímos nossos mundos (assim como nossos deuses) de acordo com o que queremos, e esquecemos que não podemos querer aquilo que é inusitado, ocasional. O inevitável, ou o imponderável, pode nos trazer surpresas para as quais não nos preparamos, e da fragilidade de uma vida aparentemente perfeita, desfazem-se sonhos e ilusões de futuros construídos quase que moldados por fantasias que nos são impostas por mecanismos exteriores à nossa vontade.
Converso com minha companheira, Celma, sob óticas diferentes de ver a vida. Ela, sempre otimista, construiu toda a sua resistência à tragédia que nos abateu, buscando espiritualmente forças que traduzisse sentimentos de solidariedade e de um pensar positivo que vê ao longe, além do momento em que estamos, e constrói positivamente um futuro de esperança. Assim ela vai lidando com os projetos que o Instituto Ana Carol tem construído e, principalmente o que já se tornou uma realidade consistente, a BORDANA, Cooperativa de Bordadeiras a consolidar essas certezas construídas com o olhar para adiante.
Não tento desconstruir os sonhos, mas parto de outra perspectiva. A de que o que imaginamos ser a construção de um futuro nada mais é do que a realização do presente. Dialeticamente, ele vai sendo tecido, e termina por concretizar algo que foi pensado. Mas o que seria desse “futuro” se no presente não tivéssemos construído as bases das mudanças? Ademais, não há futuro, pois o que idealizamos como sendo isso, ao imaginarmos tê-lo construído, ele já se torna presente. E, como o tempo não para, em frações de segundos já se torna passado.
Digo isso para afirmar que são as realizações do presente que possibilitam aos nossos pensamentos se concretizarem. Contudo, nada do que se constrói hoje, ou do que se imagina construir, está livre do acaso. Mas, como não podemos ficar pensando no acaso, assim como não faz sentido a obsessão pela morte, devemos pensar sempre em viver toda a intensidade do presente. Abstraindo o egoísmo e o individualismo, logicamente. Afinal, a nossa vida não se realiza isoladamente. E, principalmente, procurarmos viver cultivando a honestidade e a solidariedade.
Assim, 2018 se construirá a cada dia. Por isso, a mensagem que quero passar é a de que cada ano novo só se completa em seu final, até lá ele simplesmente é a somatória de dias, semanas e meses. E cada um de seus dias, deve ser vivido em seu tempo, na duração que lhe foi dada por essa espetacular e indecifrável condição que adjetivamos como vida. E, ao final, ele soma-se à nossa própria história.
Então, não nos basta pensar no ano de 2018. E sim na construção dele, a partir da vivência ativa e intensiva de cada dia, separadamente. Viver um dia por vez, ao invés de nos perdermos em angústias e desesperos do que fazer depois de amanhã. Isso parece óbvio, mas estranhamente não é visto dessa maneira.
Mas alguns dirão que isso é utopia. Que é ilusão se imaginar preso apenas ao que acontecerá a cada dia, na medida em que isso acarreta um efeito em sequência e, seguindo a própria lógica da vida, impõe naturalmente o pensamento no que se seguirá.
Isso também é verdade. Mas aí reside a beleza, a incógnita e o segredo da dialética. A vida em sua mais perfeita contradição. Pela qual não conseguimos jamais compreendê-la por completo, nem vivê-la a cada momento. Pois que ela nada mais é do que uma tridimensionalidade que nos cerca: vivemos o presente, a partir de coisas que construímos do passado e que seguiremos levando adiante, naquilo que se traduz como o futuro.
Que 2018 seja assim, então, para cada um de nós. Cheio de saúde, alegria, amor, amizade, tolerância e fraternidade. Que a solidariedade jamais deixe de estar conosco cotidianamente, por mais que tenhamos em nossas ideologias o sentimento de que tudo que está aí deve ser mudado na construção de um mundo novo.
Tudo bem. Mas as pessoas que vivem a sofrer, por uma condição de sujeição à lógica irracional deste mundo, têm direito a superar seus sofrimentos. Não devemos esperar as pessoas morrerem na miséria para tomar isso como exemplo de que o sistema é injusto. Devemos condená-lo, mas salvando as pessoas... e não somente as matas, as árvores, os animais. Somos nós, seres humanos, que damos sentido a este mundo. Embora contraditoriamente sejamos nós também os responsáveis pela aceleração de sua destruição. Enfim, devemos lutar pela vida. “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás” (Che).
Que 2018 possa nos inspirar tudo isso, mas não vai ser fácil, diante dos momentos complexos e carregados de ódio que vivemos. Mas temos que lutar pela construção de um novo mundo a partir de nossos próprios exemplos. Que não nos limitemos à crítica, pela crítica, mas que apresentemos alternativas concretas para seja realizado o sonho das pessoas viverem seus presentes com dignidade. E façamos isso também com nós mesmos. Que consigamos viver intensamente cada dia, cada momento, e nos coloquemos um desafio: de a cada dia que conseguirmos superar, aumentar o número de amigos e amigas que nos cercam. E os entendamos em suas peculiaridades, em suas diferenças e os respeitemos assim, sem necessariamente compactuar com comportamentos agressivos, intolerantes, preconceituosos. Isso desfaz amizades, são inaceitáveis, ignora a alteridade, destrói-se o altruísmo e brutaliza as relações humanas. São comportamentos que devem ser combatidos, a fim de construirmos um mundo novo. Sim, acredito que um outro mundo é possível.
Certamente os desafios que temos pela frente não são fáceis. O novo ano não será fruto do que imaginávamos construir positivamente em 2017 e no ano anterior. Algumas coisas, necessárias para isso, fugiram do nosso controle e se perderam em meio á perversão de um governo insensível, corrupto e focado nos interesses dos mais ricos. Mas devemos lutar, sempre, acreditando que a vida pode ser vivida de forma plena, sem esquecer que não vivemos sós e que os muros não nos protegem, simplesmente escondem uma realidade que nos oprime, que precisa mudar, mas da qual é impossível fugir.
Essa vontade de lutar, que, particularmente, pude recompor nos últimos anos, deve estar imbuída do sentimento de que a transformação deve ser coletiva. Pensar somente em mim, não vai ajudar a construir o mundo melhor e mais solidário. Meu tempo de vida não é longo, o de nenhum de nós é, comparando-se ao tempo da história humana, e mais do que isso, se compararmos ao tempo de existência da terra. Portanto, se temos que lutar por algo que valha a pena, que isso se traduza em uma conquista que seja plena para a humanidade. Ao contrário do que se possa pensar, e é assim que vejo, isso não se contradiz com o lema que sugeri lá atrás. Carpe Diem! Significa que devemos aproveitar o momento, confiar o mínimo possível no amanhã, mas o que proponho na junção desses dois desejos é, ao mesmo tempo em que lutamos por um mundo melhor, viver a vida com serenidade, desprendimento, vivacidade, respeito, honestidade e compreensão. Se queremos aproveitar cada momento, podemos também plantar sementes daquilo que imaginamos ser o melhor, para cada um de nós, individualmente, e para todos e todas coletivamente.
Quem sabe assim atingiremos nosso objetivo de inventar um 2018 que corresponda ao que desejamos. Mas, além disso, construir um futuro que possa refletir o presente que idealizamos.
E o façamos tornar-se realidade.
Feliz 2018!! Um brinde à construção de um mundo novo. “Sonhos, acredite neles, com a condição de realizar escrupulosamente a nossa fantasia” (Lenin).
Carpe Diem!


“Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati. seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam, quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare Tyrrhenum: sapias, vina liques et spatio brevi spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida aetas: carpe diem quam minimum credula postero”.
“Tu não procures - não é lícito saber - qual sorte a mim qual a ti os deuses tenham dado, Leuconoe, e as cabalas babiloneses não investigues. Quão melhor é viver aquilo que será, sejam muitos os invernos que Júpiter te atribuiu, ou seja o último este, que contra a rocha extenua o Tirreno: sê sábia, filtra o vinho e encurta a esperança, pois a vida é breve. Enquanto falamos, terá fugido ávido o tempo: Colhe o instante, sem confiar no amanhã”.
 "Odes" (I,, 11.8) do poeta romano Horácio (65 - 8 AC) 




(*) A idéia central desse texto eu construí no final de 2011. Adaptei-o já por diversas vezes em algumas partes, e o faço mais uma vez para torná-lo atual a mais um momento de transição em nossas vidas. Um feliz ano novo aos leitores e leitoras do blog Gramática do Mundo e aos meus amigos e amigas do Facebook. Que possamos continuar lutando pela construção de um mundo melhor.  E que em 2018 possamos avançar muito nessa direção. Um forte abraço.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

A GRADUAÇÃO NA UFG. QUEM AVALIA QUEM?

Durante a última campanha para candidato a reitor pude discutir intensamente os problemas que cercam a graduação na Universidade Federal de Goiás. Pela análise que fizemos era perfeitamente visível a absoluta ausência de um projeto focado na adequação do nosso modelo de ensino à realidade que se transforma aceleradamente, como consequência não somente do crescimento da Universidade, mas das mudanças geradas pelo ENEM e pela Reforma do Ensino Médio e as que afetam novas gerações de estudantes e nos impõe a necessidade de experimentarmos outras metodologias e novos mecanismos de interação entre professor/aluno, e principalmente diante das tecnologias que modificam hábitos e transformam comportamentos.
É nítido que nos últimos anos a universidade passou a priorizar mais a pós-graduação. Não vou entrar nessa discussão, que já fiz em outros momentos. Repito, para que não pairem nenhuma dúvida, que considero imprescindível o fortalecimento dos cursos de pós-graduação, não somente pela necessidade de formarmos novos doutores e termos um número maior de publicações científicas. Mas pela própria essência desses cursos, que focam na necessidade de apresentar novos conhecimentos e teses, por meio da pesquisa, constituindo-se em uma necessidade estratégica para o desenvolvimento do país.
Mas tudo indica que o modelo de universidade existente no Brasil, no âmbito dessas instituições públicas que investem fortemente em pesquisa, se esgotou. A graduação perdeu espaço para a pós-graduação, por diversos fatores. Principalmente porque esta garante aos professores maior protagonismo dentro do ambiente acadêmico e possibilita uma maior visibilidade para suas competências.
A graduação é a base da Universidade. É por ela que buscamos formar nossos melhores estudantes, não somente para torná-los profissionais competentes, mas também para que daí possa sair novos pesquisadores e professores. Por isso ela não pode ser posta em segundo plano. A condição para termos bons pós-graduandos é termos muitos bons graduandos. No entanto, a maior valorização das pós-graduações terminou ocasionando um certo distanciamento de boa parte dos professores da graduação. Até por uma questão de limitação da capacidade em sua atividade, já que há implicações decorrentes da necessidade de orientar um número considerável de alunos pós-graduandos. Assim passou a haver uma sobrecarga de trabalho para aqueles professores que se deparam com essa situação. E, na medida em que algumas exigências para elevar a pontuação desses cursos impõem publicações de artigos constantemente e uma permanente aferição do que se é produzido, incluindo quantidade de orientações, torna-se extenuante e estressante a maneira como se dá essa divisão e a responsabilidade de conseguir atender às pressões que só aumentam pelos mecanismos muitas vezes perversos que são criados pelos órgãos responsáveis por definirem os critérios e avaliação desses cursos e das atividades dos seus professores.
Dessa forma, já que os critérios que avaliam os cursos de graduação não seguem o mesmo padrão nem as mesmas exigências; bem como não implicam em atrair recursos das agências de fomentos; além de não garantir as projeções e visibilidade às competências que nos últimos anos reforçam vaidades e podem significar bolsas de produtividade, inevitavelmente o interesse maior, bem como o efetivo desejo de quem já entra na Universidade pensando como pesquisador, e não como docente, faz com que se inverta a lógica como deveria ser o ambiente acadêmico. A pós-graduação assume, assim, a condição de um melhor caminho para a carreira docente.
Isso trouxe como consequência uma certa indiferença quanto à graduação. Faz-se o que se pode, até porque se é obrigatório dar um mínimo de aula, por exigência legal. Falta estímulo e a universidade não apresenta alternativas a uma realidade que não é grave somente por isso, mas porque temos a cada ano gerações de alunos que se deparam com uma estrutura de ensino secular, muito embora eles carreguem hábitos gerados por uma sociedade em acelerada mutação e por lidarem com cada vez mais novidades tecnológicas que superam os mecanismos que usamos em salas de aula.
O contraditório, lamentavelmente, é que aqueles professores que desejam se dedicar mais às aulas de graduação são vistos como inoperantes e improdutivos. O que demonstra uma perversa incompreensão sobre a importância dos anos iniciais dos estudantes na universidade, formativos principalmente para suas escolhas do que se dedicarão ser, bacharel, pesquisador ou professor. Mas é essencial que a cada escolha as competências sejam fundamentais, e, portanto os níveis de conhecimento não podem ser diferentes. Não tem sido esse o rumo tomado pela universidade, o que resulta em desestímulos e distanciamento, na relação entre boa parte dos professores com suas atividades em salas de aula da graduação. Infelizmente, o modelo de universidade dificulta medidas que alterem essa realidade, já que o foco maior é na pós-graduação.
Ocorre que as alternativas que porventura venham a ser encontradas, só serão possíveis de acontecerem se houver, efetivamente, prioridade na atenção que a graduação merece. Isso implica em procurar compreender as condições em que se encontram cada curso, o perfil dos alunos e alunas que entram nesses cursos, quantos saem por necessidade, desestímulo ou buscam outras opções mesmo dentro da universidade, analisar as suas capacidades ainda no ano inicial e encontrar novas ferramentas e metodologias que se adéquem ao perfil de uma geração dominada pela tecnologia.
Nada disso tem sido efetivamente feito. Ou acontece esporadicamente e de forma isolada. Há mais de uma década que a universidade não passa por um profundo processo de discussão curricular e de avaliação dos cursos de graduação visando uma mudança e adequação aos novos tempos. Esse enfraquecimento da graduação, e o fortalecimento da pós-graduação, refletem-se nas escolhas feitas pelos professores, que seguindo uma lógica impositiva, preocupam-se com suas carreiras. Entendo que tudo isso é responsabilidade dos que estão à frente da Universidade, que estabelecem prioridades e são submissos a critérios questionáveis superiores.
No entanto, para forçar uma outra responsabilidade, que deveria ser natural, a reitoria da UFG adota medidas que desvirtuam os mecanismos que colocam os professores na condição de mestres. Quebram-se hierarquias e as substituem por um democratismo questionável, jogando para aqueles que deveriam ser os discípulos a condição de julgarem eventuais improbidades, livrando os que deveriam ser os condutores dessas fiscalizações, os diretores das unidades, de assumirem suas responsabilidades.
Não se trata de querer blindar os professores de serem avaliados por suas competências. Mas isso deve ser feito, rompendo-se qualquer tipo de corporativismo, pelos que assumem as condições para isso. Os diretores tornam-se chefes imediatos, e devem acompanhar, juntamente com as coordenações de cursos, a rotina de seus subordinados, sejam os técnicos-administrativos ou os professores. Hierarquicamente eles são os responsáveis por isso, mas não o fazem, porque se tornam reféns de uma estrutura que nos últimos anos têm primado mais por uma horizontalidade administrativa, fazendo, inclusive com que os próprios colegas sejam os fiscais das atividades do outro que se encontra no mesmo nível hierárquico. O que pressupõe dizer que é o caminho aberto para o assédio moral horizontal, que tem sido muito comum em diversas unidades. Essa forma caótica de administrar, se apresenta com um verniz democrático, mas constrói um ambiente muito mais marcado por perseguições, vaidades, assédio, do que propriamente um espaço de construção de saberes, de formas respeitosas de conduzirem o conhecimento.
Não bastasse, portanto, as avaliações às cegas às quais somos submetidos, não podendo assim identificar o perfil do aluno/a que está nos avaliando (já que poucos o fazem), a reitoria oferece como grande mudança nesses anos em que, inoperantemente, esqueceu a graduação, a possibilidade de o estudante denunciar o professor que porventura chegue atrasado para sua aula.
Ora, a responsabilidade disso é a direção da unidade e as coordenações dos cursos. Afinal, que medida se tomará contra um professor que eventualmente seja “denunciado” por um aluno/a por chegar atrasado? Se nem sequer se toma medida adequada contra os que são acusados de assédio sexual? Portanto é mais uma medida inócua, que gradativamente vai minando a autoridade do professor/a, e banalizando a relação que deve ser construída com base em competências respeitadas e hierarquicamente definidas.
Os Centros Acadêmicos devem
cumprir esse papel de fiscalizar
o funcionamento dos cursos
E criticar essa medida obtusa não significa compactuar com atitudes relapsas e irresponsáveis que porventura existam. Mas é preciso que em vez de empoderar individualmente, e abrir espaços para conflitos entre professor/a e aluno/ a reitoria deveria estimular os Centros Acadêmicos a acompanharem as condições existentes em seus cursos, do ponto de vista administrativo e acadêmico. E ele, o centro acadêmico, ser a voz dos estudantes na relação com a direção da unidade, para cobrar desta uma atitude em relação àquele docente que não esteja cumprindo sua obrigação. Como presidente de um centro acadêmico, na década de 1980, pude realizar um abaixo assinado e entregá-lo, e o fiz pessoalmente, à diretora de nossa unidade (que posteriormente veio a ser a minha orientadora no Mestrado), solicitando o afastamento de uma professora que faltava às aulas sem avisar nem dar justificativas. Pudemos fazer isso, sem quebra de hierarquias e sem que essa cobrança resvalasse para embates personalizados. O Centro Acadêmico foi o porta-voz da insatisfação de quase uma turma inteira, mas nem mesmo assim o foi em sua totalidade, já que alguns colegas não quiseram se manifestar.
Atitudes como essa certamente não receberá muita atenção porque o comportamento que existe dentro da universidade atualmente é de completa paralisia, como de resto acontece com toda a sociedade. Entretanto, essas medidas só serão sentidas com o tempo, e aí em meio à passividade já estaremos diante de uma situação que afetará nossa condição professor. Prevalecerá o estilo “amiguinho/a” da relação professor(a)/aluno(a) e seguramente, ao contrário do que pretende tal medida, prejudicará quem tem uma postura mais rígida no controle da frequência dos/as alunos/as, já que este/a estará submetido/a a um único deslize para que se proceda uma possível “vingança” de quem não aceita ser punido pelo professor por chegar atrasado na aula. O caminho será, inevitavelmente, deixar de fazer chamada e prevalecerá a cumplicidade, já existente em outras situações.
Mas, afinal, se essa medida foi tomada, significa que a reitoria tem informações sobre atrasos de professores. Ora, se isso acontece, porque por meio da Pró-Reitoria de Graduação não é solicitado informações às coordenações de cursos e direções das unidades, para que se procedam as medidas desejadas? E naturalmente isso não poderá ultrapassar a de uma conversa e de reclamação perante esse professor, para que tal fato não se repita. Afinal, existe no âmbito do regimento da Universidade, algum tipo de punição para o professor que insista em chegar atrasado? Juridicamente seria possível afastar algum professor por isso? Parece-me que não.
A universidade precisa debater reformas
mas também a saúde do professor -
Ver o significado da Síndrome de Burnout*
Portanto, a medida além de inócua é absolutamente duvidosa quanto aos resultados, além de questionável do ponto de vista pedagógico, uma vez que se inverte a lógica na relação professor/a aluno/a. Insisto que cabe às direções estarem atentas à maneira como os cursos de suas unidades estão funcionando e se os professores e funcionários estão cumprindo devidamente suas responsabilidades. Mesmo nessa circunstância, hierarquicamente definida, o caminho é o do diálogo e do convencimento, de forma a proceder à regularização de algum eventual desvirtuamento das nossas funções. É assim que deve funcionar uma Universidade.
De minha parte, assino com tranquilidade este artigo, pois não me lembro de quando tive um atraso em dia de aula. E se em algum momento isso aconteceu em meus 21 anos de universidade, o fiz com justificativa. Por outro lado, jamais fui conivente com atraso de alunos/as, dentro da exigência que é estabelecida pelo regimento. Mas não será com medidas como essa, que iremos resolver os graves problemas pelos quais passa o ensino de graduação, principalmente nas licenciaturas. Ao contrário, poderá ser fator gerador de conflitos na relação professor-aluno.
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(*) http://www.unaerp.br/revista-cientifica-integrada/edicoes-anteriores/edicao-n-2-2014-1/1464-161-454-1-sm/file

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

AS LIÇÕES DO PASSADO, AS INCERTEZAS DO PRESENTE, AS ILUSÕES DO FUTURO

* CRÔNICA PUBLICADA NO LIVRO "DEPOIS QUE VOCÊ PARTIU".


O futuro não existe. Essa pode ser uma frase forte, que transmite uma sensação de absoluta ausência de esperança. Fomos acostumados a ouvir sempre a tradicional frase: “a esperança é a última que morre”. O intuito sempre foi nos dar força para enxergarmos longe, bem além da realidade presente, em momentos de dificuldades ou de ameaças que apontam para perdas irreparáveis. Buscamos muitas vezes, espiritualmente, retirar forças de nossas fantasias sobre existências sobrenaturais, e com isso nos conformamos muito mais rapidamente com momentos trágicos e de perdas de pessoas que fazem parte de nossas vidas.
Mas, de fato, o futuro é apenas uma construção idealizada por nós. Por mais que essa constatação possa ser apresentada como uma elaboração partida de quem se encontra em estado depressivo, ou de alguém identificado como pessimista ninguém pode, a rigor, viver da expectativa do futuro.
Ou melhor, não deveria viver dessa expectativa. Pois na verdade essa tem sido uma das características do mundo contemporâneo, viver mais do futuro do que compreender o presente. Faz parte de estratégias de marketing, de construção de conceitos e ideologias que visam sustentar um conjunto de valores consolidados pelo tempo dentro da lógica de funcionamento do sistema econômico em que vivemos.
Por outro lado, e isso me fez adotar uma escolha ideológica, de combate ao pensamento que anteriormente descrevi, construímos crenças na absoluta necessidade de se desconstruir o presente, tendo como objetivo a construção de uma sociedade diferente, em que prevaleça a comum união, apontando para o futuro um ambiente mais solidário, de um ideal coletivista.
Hoje, onze meses após o desaparecimento de minha filha, vivo a me questionar permanentemente se não perdi muito tempo de minha vida preso entre essas duas realidades virtuais. A de um presente pouco valorizado, no sentido da importância de vivê-lo da melhor maneira possível, sem a obsessão do futuro. E a de um futuro, que representa uma incógnita, naturalmente, que se apresentava como uma condição para justificar a escolha de um caminho de luta para a construção de algo que o presente não representava. E por isso, tornava-se mais importante viver para o futuro do que para o presente.
Um futuro em que você desconstrói o presente, porque ele te revolta e a mudança em si já representaria uma fuga dele. E outro futuro em que você busca construir no presente, abstraindo a existência deste, sem nenhuma certeza de que ele por certo virá. Nas duas vertentes, vivemos todos à espera do futuro, que nunca chegará, simplesmente porque jamais nos conformamos com aquilo que nós mesmos construímos.
Minhas reflexões apontam na necessidade de nos concentrarmos mais sobre o passado para compreendermos o presente. Muito se diz da irrelevância disto, na medida em que o passado se foi, e jamais voltará. Mas não se trata de trazer de volta o passado, que em ultima instância significa a morte do que se foi, e sim a lembrança e o conhecimento de como construímos o mundo presente, onde erramos e acertamos, e por onde, no presente, devemos seguir para tornar nossas vidas mais prazerosas e menos sofridas.
Contudo, pensar dessa maneira tem sido analisado como sintoma de absoluta ausência de vontade de viver, na medida em que ao não enxergarmos o futuro perderíamos qualquer perspectiva de darmos valor ao que pretendemos construir. Assim, estaríamos fadados a simplesmente vivermos parados no tempo, absortos, desprovidos de vontades em realizar mudanças significativas em nossas vidas.
Vamos analisar o que pretendo dizer com o título desta crônica, partindo primeiramente desse pressuposto.
Desde a morte de minha filha tenho ficado a refletir sobre passado, presente e futuro. E percebam que desde a primeira crônica que escrevi tenho evitado usar a palavra “morte”, quando me refiro a ela, preferindo “partida”, pois embora tenha cessado a sua vida, não o foi a sua existência, enquanto permanência em minha memória. Apenas uma partida, uma “triste partida”, quase que como no poema de Patativa do Assaré, de um retorno impossível e de doídas saudades pelo que ficou.
Em minhas aulas repito sempre que a humanidade chegou ao ponto em que estamos pela capacidade que o ser humano adquiriu de construir utopias. De sonhar e lutar incessantemente para que cada sonho se tornasse realidade. Aprendi como na música de Raul Seixas, que “sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só. Sonho que se sonha junto é realidade”. Pensar dessa maneira nos levou muito mais longe do que poderia imaginar os maiores visionários em suas épocas.
Mas o que construímos? Que tipo de sociedade edificamos com essa capacidade única dentre todos os seres vivos que habitam o planeta, de idealizar e de planejar o futuro? Podemos seguramente dizer que realizamos transformações impressionantes, inventamos coisas magníficas que de tão espetaculares nos tornamos delas escravos. Mas dentre tantas capacidades adquiridas, certamente nenhuma delas foi mais eficaz do que a criação de armas que pudessem nos destruir de várias maneiras possíveis. E, de tão inebriados ficamos que já não importava mais a vida do outro, ou até mesmo a melhor maneira de vivermos, senão a necessidade de construirmos um ambiente que se aproximasse ao máximo da idealização de um futuro marcado por essa capacidade inventiva.
Com isso tornou-se difícil construirmos um único futuro. A rapidez com que mudavam e mudam-se os valores nos impunham a necessidade de descartarmos num espaço de tempo cada vez menor aquilo que imaginávamos ser um futuro distante. Era preciso refazê-lo, pois, permanentemente. Na mesma rapidez com que se intensificavam os produtos, mercadorias, que definiriam a nossa maneira futurística de viver. Mudamos, assim, o futuro, sem jamais tê-lo vivido.
Presente e futuro passaram a se confundir. Ou, como conhecemos academicamente, o arcaico e o moderno passam a viver lado a lado, momento em que o futuro chegou para alguns e a permanência do passado caracteriza os outros. Estes passam a serem conhecidos como excluídos. Os demais, parcelas diminutas da sociedade rumam aceleradamente para um futuro que para alguns se encontra inatingível, muito embora o sistema ache várias formas de fazer com que todos, absolutamente todos, mantenham sempre a esperança de que ele será alcançável tal qual é imaginado, sonhado e até mesmo trazido para o presente de forma virtual.
Com isso, creio que mais do que viver o presente, passamos a viver para o futuro. Não importando as dificuldades que tenhamos para atingi-lo ou até mesmo jamais chegar a vivê-lo, seja pela morte que prematuramente pode inviabilizá-lo, seja porque na maneira como o mundo divide-se o futuro sonhado só é mesmo possível para alguns. O que também não garante nenhuma certeza de que ele virá, na medida em que a morte desconhece valores, crenças e condições sociais. Ela sim, é a única certeza do futuro.
Ao mesmo tempo em que deixamos o presente e vivemos em função do futuro, esquecemos o passado quase por completo. Nossa memória torna-se cada vez mais seletiva e abstraímos determinadas condições e até mesmo a história que nos trouxe ao ponto em que nos encontramos. Em meio a um mundo de incessantes mudanças vemos a todo o momento lamento de pessoas que afirmam nada mudar: “As coisas são sempre assim, nunca vão mudar”, dizem contraditoriamente em meio a um ambiente e a uma realidade sociais profundamente dinâmicos, de permanentes mudanças.
Diante de uma dor infinita e do sofrimento pela perda de minha filha, tento redimensionar meu olhar sobre o mundo e compreender melhor nossas vidas. Tenho sido amargo em minhas reflexões porque quando paramos para observar o presente somos bombardeados por um aparato midiático que busca explorar certas características que foram se tornando marcas em nossa maneira de viver. Os meios de comunicação, em suas buscas ávidas por audiência que lhes aumentem os ganhos financeiros, exploram a curiosidade mórbida que se acentuou na natureza humana, até mesmo por algumas crenças religiosas que visam apresentar o sacrifício como elemento permanente na nossa relação entre a vida, morte e a salvação espiritual.
Imagino, no entanto, que viver a vida presentemente, absorvendo o passado de forma positiva, sem, contudo, cairmos em um mundo de auto-ajuda ou auto-sacrifício, deixando de lado a obsessão futurística, seria a melhor maneira de encontrarmos um caminho menos individualista e egoísta para a humanidade. Achar o caminho não significa idealizar o futuro. Ele será construído na medida em que o presente vá sendo consolidado. O que nos falta é compreender que não haverá futuro algum se no presente algum obstáculo nos impedir de seguir adiante.
Sem minha filha, tendo a repensar minha vida a partir do universo que me cerca. Do que ficou de minha família, sem a Carol, mas com o meu filho Iago e minha esposa. De que adiantou pensar tanto no futuro de minha filha se sua vida foi ceifada. Poderíamos ter vivido de forma diferente, ser mais tolerante, construído melhor nossas relações e imposto menos sacrifício aos dias que se passaram, quase sempre vistos como um degrau para o futuro. Pensar diferente o presente, estreitar nossos laços mais com o passado, sem viver necessariamente de nostalgias, mas sem a obsessão de que o futuro é tudo em nossas vidas, pode nos ajudar a aproveitar melhor cada momento junto daquelas pessoas de quem gostamos. E até mesmo olharmos o outro com menos desconfiança.
Isso nos remete à discussão sobre o sentido da utopia. Pode parecer que assim deixo de pensar um futuro utópico e tento viver essa utopia no presente completamente destoado da realidade que é o mundo hoje. Isso é fato. Constatar isso, saber o quão difícil seja enfrentar os desafios de um mundo que se tornou extremamente complexo e demasiadamente humano, para parafrasear Nietsche, amplia as nossas angústias e nos transfere para um universo de questionamentos e incertezas que podem nos afundar numa depressão. Esta que tem sido talvez por isso mesmo, a doença mais característica dos tempos atuais e tem produzido uma geração profundamente ansiosa.
A dúvida entre viver o presente real, construir um mundo virtual ou um futuro desejável, mas profundamente incerto, é algo que nos deixa completamente inseguros e fragilizados, apesar de sentirmos a necessidade de nos apresentarmos como pessoas fortes e plenas de segurança pelo que queremos. O que queremos é o futuro. Mas será que veremos esse futuro que queremos? Essa questão não encerra esta crônica, antes nos leva de volta ao começo.

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(*) Esta crônica foi publicada no livro "Depois que você partiu", com o título: "Não verás futuro algum". Achei melhor modificá-lo, pois o tempo me fez ver que o título original transparecia uma visão de rendição ao incerto. Não era o sentido que tentei expressar em seu conteúdo, como pode ser atestado na leitura.
CAMPOS FILHO, Romualdo Pessoa. Depois que você partiu. Goiânia: Editora Kelps, 2014. 2ª edição, ampliada. Pp. 101-106.
(Nota: A primeira edição do livro foi publicada em dezembro de 2008. Um ano depois da morte de Ana Carol, em 13 de dezembro de 2007. Essa crônica faz parte da primeira edição)