terça-feira, 15 de dezembro de 2015

APOIO À LUTA DA JUVENTUDE SECUNDARISTA

Não somente pelo meu histórico de participação política, muita intensa no movimento estudantil, à frente da nossa entidade de professores na UFG e como Secretário Regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) por duas vezes, mas também pelo conteúdo das disciplinas que leciono na Universidade, no âmbito da geopolítica, tenho sido instado por estudantes a me posicionar em relação às lutas que tem sido travadas em várias escolas pela juventude secundarista de Goiás.
Manifesto então publicamente, meu apoio á luta dos estudantes e professores, principalmente contra a militarização de escolas. Aliás, sou pela desmilitarização da polícia, que dirá ver essa instituição como responsável pela preparação educacional de jovens. Não é função da polícia cuidar da educação, isso pode trazer como efeito uma formação autoritária.
Quanto as OS, penso que os modelos de gestão das instituições educacionais particulares não devem servir como parâmetros para as melhorias que nosso sistema de ensino está precisando. Embora lentamente, a educação tem melhorado no país. Muita coisa precisa ser feita. Mas não será enrijecendo a disciplina e voltando atrás nos avanços pedagógicos que os problemas serão superados. Ao contrário, precisamos sair das imposições neoliberais que nosso sistema educacional se vê amarrado há duas décadas. Simplesmente porque elas não deram certo. E não me refiro especificamente só a Goiás. Embora as escolas não moldem o caráter dos indivíduos, e que portanto jamais substituirá a educação familiar, ela deve, sim, se constituir em espaços de respeito, tolerância e liberdade, sem abrir mão de preceitos educativos que exigem a valorização do trabalho dos professores: deve-se manter o princípio da autoridade, como diria Che, “Sin perder la ternura jamás”
Vivemos uma crise de valores, porque também nos encontramos em meio a uma transição de modelo de sociedade, mas que por enquanto não sabemos para onde isso nos levará. Mas não é desejável retornar ao tempo dos colégios internos, de disciplinas religiosas rígidas e autoritárias, para onde os pais enviavam seus filhos, a fim de se livrarem dos conflitos comuns a todos adolescentes. No entanto, compreendo que as mudanças desejadas só serão possíveis de ser solucionadas com o envolvimento da comunidade e a participação efetiva dos pais e alunos de cada escola, procurando envolvê-los em discussão de forma também a encontrar nessas participações alternativas que melhorem, inclusive, a relação entre alunos e professores.
A valorização do magistério, com melhores salários e uma política de requalificação dos professores, é o primeiro passo. Mas também será a saída para intensos embates que levam a greves prolongadas e prejudicam o aprendizado da juventude. Tais paralisações, e, principalmente, radicalizações de todos os lados que impedem acordos, terminam por se constituir em pretexto do Estado para medidas autoritárias, e também dos pais dos alunos, que desejam vê-los em instituições que possam cumprir com seus objetivos e optam, erroneamente, por buscar escolas geridas por militares.
O Estado precisa encontrar alternativas que façam avançar a relação institucional, democraticamente, pois qualquer outra saída levará, sempre, a confrontos desgastantes e prejudiciais à formação da juventude.
A Universidade também pode dar a sua contribuição, efetivamente, não por meio de notas curtas e vazias, mas buscando elaborar sugestões, de forma permanente, que contribuam para encontrar caminhos que possam qualificar melhor os jovens que em algum momento estarão buscando seu espaço em algum curso superior. Cuidar mais dos cursos de graduação, principalmente os de licenciatura, e ter preocupações que extrapolem as políticas de cotas. A mesma universidade que tem avançado nas pesquisas tem também sido negligente com a formação de professores. E me refiro aqui como política educacional geral, e não somente especifica das instituições federais de Goiás, para além de números e estatísticas que, em muitos casos criam uma cortina de fumaça.
Pensar na qualidade da formação secundária dos alunos das escolas públicas, é a condição para que no futuro não seja mais necessário à universidade a adoção de políticas de inclusão e de cotas. Até lá, só haverá a possibilidade de selecionar pelo mérito, quando o ensino público, fundamental e médio, superar crises que são recorrentes.
Portanto, é, sim, uma preocupação que nos diz respeito, a luta travada nesse momento em Goiás, e assim também o foi no Estado de São Paulo, e por outros cantos, em busca de alternativas que não retrocedam às conquistas. Mas que melhorem as condições das escolas, a qualificação e o salário dos professores, a gestão administrativa e que valorize os aspectos pedagógicos que focam na formação de jovens com espíritos de cidadania, respeito à democracia e uma disciplina que garanta os princípios da autoridade na relação professor-aluno, mas que não incorra no erro de imposições autoritárias a fim de moldar jovens cordatos e alienados, distanciados das condições reais e objetivas que lhes cercam.
·  QUE AS ESCOLAS SEJAM ESPAÇOS DE FORMAÇÕES SOLIDÁRIAS, HUMANAS, DE TOLERÂNCIA E RESPEITO.
·  QUE OS PROFESSORES SEJAM VALORIZADOS PELO QUE REPRESENTAM E NÃO SEJAM HOSTILIZADOS EM SEUS AMBIENTES DE TRABALHO.
·    QUE SE ESTABELEÇA UM AMBIENTE DEMOCRÁTICO, MAS QUE OS MESTRES NÃO PERCAM A AUTORIDADE EM SUA SALA DE AULA.
·    QUE OS PAIS NÃO VEJAM NA ESCOLA UM ESPAÇO A SUBSTITUIR O AMBIENTE FAMILIAR.
·    QUE O ESTADO NÃO ENCARE AS DIVERGÊNCIAS COMO UMA DECLARAÇÃO DE GUERRA
·   QUE OS PROFESSORES E DEMAIS SERVIDORES BUSQUEM ALTERNATIVAS DE LUTAS QUE NÃO CAUSEM PREJUÍZOS À FORMAÇÃO DA JUVENTUDE.
·   QUE A GESTÃO SEJA PARTICIPATIVA, EM CORRESPONSABILIDADE, ENVOLVENDO ESTADO-ESCOLA-COMUNIDADE.

· PELO FORTALECIMENTO E O RESPEITO ÀS ENTIDADES ESTUDANTIS SECUNDARISTAS.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

QUANDO CHEGA DEZEMBRO*

Há uma música, cantada por Geraldo Azevedo, feita em parceria com Fausto Nilo, que incluo entre as mais belas da MPB, e ela faz me lembrar de tempos agitados em meu período de militância política estudantil e das odisseias nas quais me envolvia, aos finais de semana, percorrendo bares onde amigos musicais cantavam. Essa era, seguramente, uma das músicas mais pedidas: Chorando e Cantando. “Quando Fevereiro chegar/ Saudade já não mata a gente/ A chama continua/ No ar/ O fogo vai deixar semente/ A gente ri a gente chora...”. Some-se a isso o fato de eu ter nascido no mês de fevereiro, e eu me deparava com a música que mexia comigo, sob vários aspectos. O tempo passou, e essa música permanece, mais ainda, a mexer com meus sentimentos, e acentua as minhas lembranças. Consequentemente a saudade de um tempo que, naturalmente, não volta mais. A não ser em nossa memória.
Desde há oito anos, quando perdi minha filha, num fatídico dia 13 de dezembro, muita coisa mudou. Por mais de três anos, a dor profunda gerou angústia, depressão, tristeza, um enorme vazio como se um pedaço de mim tivesse se separado – e foi –, me manteve anestesiado. A perda de uma filha gera uma dor que não tem cura. Carregamos para o resto da vida.
Foram dez anos que não se apagam, o tempo em que ela viveu, e se manifestam de formas diferentes em uma infinidade de lembranças. As músicas, os programas de TV, as fotografias, o quarto, a casa como um todo por onde a alegria, e a bagunça, sempre são marcas de crianças, tudo isso são situações, objetos e instantes que agem como flashes em nossa memória.
Nada, contudo se compara ao se aproximar do mês de dezembro. Daí a relação com a música de Fausto Nilo e Geraldo Azevedo. Parafraseio, inverto a letra, e aplico-a na realidade que vivemos todos os anos: “quando dezembro chegar, saudade já não mata a gente, a gente ri, a gente chora, a chama continua, no ar”.
Dezembro é um mês torturante para mim. Para nós, que perdemos Carol nessa data, mas, creio, para todos que passam por situação semelhante a nossa. Porque dezembro não é um mês comum, como fevereiro, embora tenha sido esse o mês que nasci, e que tem um simbolismo pessoal presente nele. Até porque nasci no dia em que meu pai fazia aniversário.
Mas o mês de dezembro carrega todo um simbolismo, reforçado por uma cultura consumista, mas cujos valores e tradição já vêm de outros séculos, ou milênios. O capitalismo potencializa isso, e mexe estressantemente com os desejos, criados pela necessidade do mercado em fazer explodir a explosão de consumo. Um frenesi toma conta das pessoas, liberando uma alegria naqueles que conseguem se enquadrar nessa lógica e fazer realizar seus desejos de gastança. Mas, por outro lado, gera um enorme desconforto, e causa depressão, quando esse sentimento é tolhido impossibilidade de gastar, ou, mesmo que movido por um sentimento honesto, compartilhar presentes entre as pessoas das quais se gostam.
Essa realidade presente nesse mês transformou-se em um imenso vazio. Dezembro não desaparece, seria impossível isso, mesmo se o desejássemos, mas ele tornou-se torturante em nossas vidas, e para mim ele não se faz, se desfaz. A cada dia que se aproxima da data em que minha filha morreu, sinto aumentar minha tristeza. O dia 13 deixou de existir por todos os anos que se seguem à sua morte. Ele sempre será aquele 13 de dezembro de 2007, quando de forma brutal pudemos observar pela última vez, materialmente, nossa pequena Carol. A sua última imagem, em vida, a qual não gostaria jamais de lembrar, e por muito tempo apaguei de minha memória, embora ela sempre volte à minha lembrança, foi em seus últimos momentos e suspiros, num leito da UTI do Hospital da Criança. A leucemia ceifara sua vida, sem que lhe fosse dado tempo para lutar e tentar reverter uma situação pela qual muitas crianças passam e conseguem superar. Mas, no caso dela, foi fulminante. E apagou para sempre o dia 13.
Eu já não me empolgava muito com as festividades deste mês, embora me envolvesse em comemorações com familiares e amigos. Depois da morte da Carol dezembro tornou-se um mês chato, insuportável, triste e depressivo. Nos três anos em que me vi tolhido por uma depressão, meu comportamento era sofrível, e me via acuado pelos cantos a chorar, revoltava-me com a vida e com a insuportável inversão de ter visto minha filha ser sepultada. Superei isso, me recuperei da depressão, mas não da tristeza que me invade o coração nessa época, mais do que nos demais meses do ano. Talvez mais próximo da tristeza que sinto no mês de março, quando ela nasceu.
O que mudou foi a forma de explicitar isso. Com o tempo, as lembranças vão ficando somente nossas, alguns parentes, amigos e amigas, que naturalmente vivem suas rotinas e realidades pessoais e familiares, já não compartilham como antes esses momentos tristes que sentimos. Isso torna mais silenciosa a nossa dor. Mas ela não é menor, apenas sabemos melhor controlá-la, por entender que nossa vida continua. Contudo, a tristeza, que não pode ser confundida com depressão, é um sentimento que carregamos sempre que perdemos alguém que amamos muito. Mas a dor de perder um filho ou uma filha é muito profunda, somente quem passa por um trauma desses tem a noção de tamanha dor. E isso é algo que não imaginamos para ninguém.
Por isso a contradição presente nesse mês torna-o muito amargo. Se não posso apagá-lo, não desejo sua proximidade, e desejaria que o tempo que o faz passar fosse mais acelerado do que para os demais. E se o dia 13 é tão somente uma repetição de um único, que não se apagará jamais de nossa memória, o dezembro e suas festas consumistas capitalistas, é torturante. Não há alegria para mim, por esses dias. Sinto-me mal quando circulo pelas ruas, repletas de correrias das pessoas ávidas por consumirem. Sou tomado por mais contradições, pois sinto ser um pouco egoísta na minha dor. É como se eu invejasse a alegria desses momentos que tomam conta delas.
Mas não é o que eu desejo. Cada um vive a sua vida, a sua maneira, com seus valores culturais, impulsionados pela religiosidade, ou pela lógica que o sistema capitalista impõe. E é preciso vivê-la, intensamente, malgrado as circunstâncias e a lógica que nos move. A minha dor não pode ser sentida por outros, não posso desejar isso, e não desejo. Apenas preciso desabafar. A proximidade com a data da morte de minha filha me angustia e me entristece. Conviver com isso, em meio a uma data que resplandece, por qualquer que seja a razão, alegria e outros sentimentos positivos, só faz aumentar esse dilema e tornar dezembro um mês insuportável.
Por isso digo sempre aos amigos, que o ano acaba para mim, sempre, quando começa dezembro. Desejo que ele se encerre o mais rápido possível, embora isso não resolva o problema das lembranças, das saudades, e da falta que sinto da Carol. Só é algo irrefreável em meus sentimentos. Por mais que em determinados momentos eu procure me cercar de amigos, e demonstrar alegrias, o recolhimento em minha casa, onde por todos os cantos suas lembranças estão presente, faz com que em me transporte para aquele mês de 2007, quando em seu começo os dias de minha filha foram se encurtando, até desaparecer definitivamente no dia 13.
Foi sozinho em minha casa em um domingo chuvoso e escuro, quando escrevi essas palavras,  e isso era o que me povoava a mente. Vejo em minha frente o retrato de minha filha, mas a reforma em minha casa impede que uma árvore de natal que ela ajudava a montar desde quando meu pai era vivo, até 2001, possa nos animar um pouco. Sempre seguimos a tradição de montar a velha árvore mesmo depois da morte dele, e jamais desejei substituí-la. E, em seguida, após a morte dela mantivemos o hábito. Procuro ainda algum canto para colocá-la. Porque, mais do que a mística que cerca esse objeto, e com todas as minhas objeções, para mim ela representa a alegria que minha filhinha sentia ao montá-la. Por isso ela esteve sempre enfeitando nossa casa, nesse mês que não mais acontece, mas existe, por quanto tempo for isso possível.
2ª Edição, lançada em 13/12/2014
Essa crônica, como tantas que escrevi ao longo desses anos, está incluída no livro que escrevi para minha filha e que reeditei e lancei no dia 13 de dezembro 2014, “Depois que você partiu”, durante o Bazar do Instituto Ana Carol. Neste ano de 2015, no dia 12, véspera de se falecimento, estaremos mais uma vez realizando esse evento, para o qual convidamos a todos(as). Como sempre, o Bazar do IAC será na Associação dos Moradores do Conjunto Caiçara, a partir das 9 horas da manhã, até às 17 horas.

Finalizo me lembrando de mais uma música:
“Oh, pedaço de mim/ Oh, metade adorada de mim/ Lava os olhos meus/ Que a saudade é o pior castigo/ E eu não quero levar comigo/ A mortalha do amor/ Adeus” (Chico Buarque, “Pedaço de mim”).



Ao final, acrescento um dos poucos vídeo que tenho gravado, de minha filha, em um momento descontraído ao lado de uma tia, também já falecida, na cidade de Salvador, no verão de 2006, em nossa última viagem antes de sua morte. É a primeira vez que compartilho esse vídeo. Por muito tempo, custava-me assisti-lo. E sempre lamentei não ter outros que pudesse me fazer aplacar a saudade que sentimos da pequena Carol.


* Esse artigo foi publicado no final de novembro de 2014. Reedito agora, em dezembro de 2015, com algumas pequenas atualizações.




sexta-feira, 27 de novembro de 2015

MEUS CAMINHOS PELA UNIVERSIDADE – ENTRE A EXPERIÊNCIA E AS NOVAS EXIGÊNCIAS

No final de 2015 o Programa de Pós-Graduação em Geografia finalizou o prazo constante em seu edital para novos cadastramentos de professores. Eu aguardei esse momento, embora estivesse em dúvidas quanto a me credenciar, pelas críticas que tenho em relação aos critérios adotados pela Capes, para avaliar aqueles que atuam nesses programas, ou que desejam deles participar. Não é algo que nos motive por questões salariais, muito pelo contrário, além de não propiciar nenhum aumento em nossos salários, eleva, consideravelmente, nossa carga de trabalho, na medida em que se ampliam nossas atividades ligadas à acompanhamento e pesquisa dos alunos que orientamos e das aulas a mais que teremos que ministrar. Mas é necessário e fundamental em nossa formação acadêmica, numa Universidade que requer atividades no ensino, na extensão e na pesquisa. Muito embora não seja preciso estar numa pós-graduação para ser um pesquisador. Mas a pós-graduação é um fator importante de fortalecimento da pesquisa, indubitavelmente, bem como pela necessária qualificação a jovens recém-saídos da graduação.
Como os critérios são estabelecidos pela Capes, não cabe muito aos professores que coordenam o Programa, acrescer outros critérios que garantam à inserção de novos doutores, principalmente os oriundos de áreas, ou de subáreas, que não estejam contempladas no corpo de professores. Mas é preciso haver flexibilidade, e uma preocupação com a abrangência de áreas que são importantes à Geografia. Este é o meu caso, haja vista não haver dentre os docentes que compõem a pós-graduação em Geografia nenhum que atue com a Geopolítica. Evidente que reconheço a dificuldade da flexibilidade, decorrente de critérios rígidos, mas creio haver certa burocratização, e também pouca preocupação na identificação desse profissional, que possa vir a completar o conhecimento geográfico, absolutamente frágil sem a inserção da política, da geopolítica ou da geografia política, como queiram. Discuto esse problema com meus alunos, no âmbito da disciplina Geopolítica, com base no livro de Yves Lacoste, “A Geografia, isso serve em primeiro lugar para fazer a guerra”, atualizado em 1985.
Evidentemente, sem cair no anacronismo, percebe-se que pouco se alterou, de lá para cá, em termos dessa preocupação. Até porque, seguimos sendo dirigidos por critérios que não foram criados aqui no Brasil, mas são frutos da inserção da universidade brasileira na lógica de uma nova forma de liberalismo, que atendesse às necessidades de um mundo que se globalizava. Tanto quanto este mundo, a universidade também entrou no processo de identificação dos melhores, não pela experiência ou pela qualidade do que se produz, mas pela quantidade, tido como necessário para forçar a produção. Ademais, era preciso fragmentar o conhecimento, menosprezando nele determinados conteúdos por demais questionadores desse modelo. Que, embora desgastado e fragilizado por seus erros em todo o mundo, se mantém nas formulações das políticas educacionais brasileiras. Principalmente no campo das pesquisas. Seus formuladores, e seus seguidores, naturalmente, são frutos dessas mudanças, em curso desde o começo dos anos 1990, portanto, tempo suficiente para que surgisse uma grande quantidade de novos doutores, formados e adequados para implementar esses critérios, sem muitos questionamentos. Principalmente, porque tudo isso é imposto com formas bem elaboradas, e crenças inabaláveis, nesses métodos quantitativistas de medir quem são os melhores.
Compreendo que essa seja uma condição de chegar-se à qualidade, através da quantidade, algo afirmado pelo primado da dialética. Só que pela dialética, a alteração qualitativa, a partir da mudança da quantidade, pode ocorrer também na redução dos elementos que compõem uma dada matéria. No que se propõe em termos da política de investimento na pesquisa e na pós-graduação, com tais critérios, desperdiça-se muito e cria-se pouco, porque há um enrijecimento da capacidade criativa, presa à burocratização e rigidez do sistema.
Dedico-me a analisar um caso específico, embora isso seja apenas um mote para que eu possa, mais uma vez,[1] estabelecer novos argumentos críticos ao tipo de universidade no qual nós estamos metidos, uma redoma aparentemente bem protegida de novas alternativas em um tempo de pouca criatividade e de ausência de debates e discussões sobre outras possibilidades, e a necessidade de transformarmos muito do que produzimos em conteúdos críticos quanto à realidade deste mundo e desse modelo em vias falimentar. O caminho que seguimos é o da alienação, reforçado pela fragmentação de conhecimentos, que perde em essência, quando o conteúdo apresentado limita-se a dar respostas a um modelo que deseja ver resultados imediatos em termos de quantidade, e pouco se valoriza, na qualidade daquilo que se pesquisa e se produz. Embora haja diferenças quanto às áreas,[2] naturalmente, esse formato faz escoar pelo ralo uma boa parte dos recursos que se investe, na medida em que, muitas das pesquisas não terão visibilidade, não serão publicadas em sua totalidade, pois o que importa é dividi-las em partes para publicação em artigos, em revistas eletrônicas que tem pouca divulgação. Salva-se de importante, na maioria dos casos, somente a validade da qualificação, principalmente em nível de doutorado, o que mais importa a quem está se qualificando.
Seguindo-se esses critérios rígidos, impostos pela Capes, que por sua vez os copia de agências internacionais, mas que são impositivos também nesse âmbito, e, repito, seguem um modelo tornado necessário para acompanhar as transformações de um mundo que se globalizava, a pós-graduação brasileira cresceu celeremente. Embora ainda não tanto quanto o necessário, para atingir os números proporcionais a países que se encontram em condições de desenvolvimento econômico bem inferior a nós. E nisso, inclui-se também, a pesquisa. Portanto, não desconsidero a necessidade de que haja um forte incentivo a esse crescimento. Mas critico a forma como isso se dá, e até mesmo a desqualificação de áreas importantes para capacitar criticamente quem está se qualificando (com perdão do trocadilho), de forma, inclusive, a dar-lhe liberdade para que possa exercer a criatividade, apresentar algo de novo, além de meras repetições baseadas em infinitas citações já conhecidas por séquitos de especialistas naquela área. Pouco se cria, muito se reproduz. Muitos diagnósticos e poucas proposições que sejam alternativas aos modelos que se está investigando e criticando. Mas essas também são exigências que se baseiam muito mais no argumento da autoridade, do que na autoridade do argumento, na problematização, na busca pela identificação de contradições que possibilitem questionar o que já foi apresentado e encontre o caminho para identificar o que é novo. Por isso, outros critérios são acrescidos, sempre quantitativos, do número de citações de seu trabalho. Isso se tornou uma indústria, foge do objetivo central, garantir uma produção, em alta escala, de pesquisas e trabalhos científicos que dê ao país visibilidade, do ponto de vista da inovação, da capacidade crítica e da criatividade. Embora os critérios de avaliação nesse ranking não fujam desses padrões, seria o caso de se perguntar: se isso está dando certo, porque as universidades brasileiras caíram no ranking dos países que compõem os BRICS?[3]
Aprofundei-me nesses comentários sobre o modelo, porque ele está no cerne da crítica que faço aqui ao edital da pós-graduação da unidade em que trabalho. Porque não é exclusivo dela. Mas ele resultou, em larga medida, na minha exclusão e impossibilidade de entrar no programa. Abriu-se uma vaga para a área de humanas, que deveria contemplar a geopolítica, mas éramos dois recém-doutores no Instituto. Abdiquei de concorrer, deixei caminho aberto para um colega, bem mais novo, de idade e de universidade, mas com capacidade para se destacar e com mais tempo a percorrer.
Tornei-me doutor recentemente, há três anos. Depois de circunstâncias extremamente complicadas do ponto de vista pessoal. No primeiro momento, no começo da primeira década deste século, tentei ingressar na pós-graduação da Universidade de São Paulo. Também em Geografia. Busquei como orientador o Prof. Dr. Antonio Carlos Robert Moraes, falecido recentemente, seguindo uma linha de pesquisa que procurava identificar os caminhos da ocupação do centro-oeste, no rastro das tropas e boiadas. No entanto, a vida me impôs o primeiro sacrifício nesse caminho: interrompi esse meu intento devido à doença de meu pai, que passou a sofrer e a se debilitar celeremente com um câncer que o levou à morte. O fato de morarmos juntos, e pela própria necessidade de, enquanto filho, acompanhá-lo nesse longo sofrimento, me fez desistir naquele momento da pós-graduação.
Retomei o projeto de fazer o doutorado em 2007, logo no primeiro semestre, quando eu finalizava minha gestão como presidente da ADUFG (2005-2007). Desta feita em outra área da geopolítica, o estudo dos conflitos pela água. Mas outra fatalidade, desta vez mais terrível, porque alterava a ordem natural da vida: a doença de minha filha, desde meados daquele ano, e o seu falecimento em dezembro, num fatídico dia 13, há oito anos. Por muito tempo sucumbi a dor, e, afetado por depressão e enorme tristeza, fiquei sem nenhuma projeção de porvir. Não havia ânimo para tocar nenhum projeto.
Em 2010, estimulado por colegas retomei o projeto de geopolítica das águas e entrei como doutorando na pós-graduação da Geografia na UFG. Mas, outros percalços me fariam mudar de projeto de pesquisa. Meu envolvimento com a equipe multiministerial, encarregada de identificar os locais onde possivelmente estariam enterrados os guerrilheiros do Araguaia, levou-me de volta à temática que eu havia trabalhado no mestrado, e que originara um livro que se tornou referência na área, por ter sido o primeiro fruto de uma pesquisa acadêmica sobre o assunto: a Guerrilha do Araguaia.
Participação no Grupo de Trabalho
Araguaia
Mantive-me firme no doutorado, embora com outro projeto de pesquisa, em acerto prévio com minha orientadora, a prof. Drª. Celene Barreira. E, já por esses anos, o meu ânimo começava a retornar, me dando mais estímulo para produzir. Aliás, produzir foi o caminho que encontrei pra empurrar a depressão para um canto distante de mim. Criei um blog, que denominei “Gramática do Mundo”, inspirado na obra de Fernand Braudel, “Gramática das Civilizações” e comecei a produzir artigos relativos à geopolítica, à política, à economia, e também como forma de catarse, crônicas sobre minha filha. Já são mais de duzentos artigos e quase três centenas de milhares de acessos.[4] Nada disso, naturalmente, por essa lógica criticada, tem validade enquanto produção apta a ser considerada em nossas pontuações. Muito embora o acesso ao meu blog, em muitos artigos, seja amplamente em maior quantidade do acesso a alguns artigos publicados em revistas indexadas. E, por esses artigos, faço discussão com meus alunos em sala de aula, e tenho sido convidado a debater em escolas onde os estudantes estão sendo preparados para entrarem na universidade.
Nesse período, entre a minha entrada no doutorado e a conclusão, pude reeditar meu livro que já estava esgotado, ampliando-o e atualizando-o; tornei-me membro da Comissão de Altos Estudos do Centro de Referência das Lutas Políticas (1964-1985) – Memórias Reveladas, vinculado ao Arquivo Nacional; participei das expedições do Grupo de Trabalho Araguaia, à região da Guerrilha e de diversos documentários sobre o movimento guerrilheiro, alguns disputando com destaque mostra de cinema, como no caso de “Camponeses do Araguaia. A Guerrilha vista por dentro”.[5] Outro, "Araguaia" foi lançado após ter sido apresentado na Mostra de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA 2015).[6] E, o documentário “Osvaldão”, já exibido nos cinemas.[7] Isso pouco importa, em termos de “pontuação” nos critérios adotados. Muito menos a experiência adquirida por longos anos de atividade e de pesquisa, com amplo reconhecimento fora da universidade.
Como resultado desse meu envolvimento, pude, já no decorrer da minha pesquisa, negociar a publicação do meu trabalho em livro, o que se concretizou rapidamente, seis meses depois da defesa da tese. Ter prosseguido na mesma temática deu mais visibilidade à minha pesquisa e projeção ao meu livro. Mas aí entra outro elemento nesse formato de pontuação exigida pela Capes, relacionado ao que publicamos. Inexplicavelmente, livro perdeu a importância dentro desses critérios. Isso, ao meu ver, segue o menosprezo à noção de totalidade, prevalecendo a fragmentação também do que se é produzido, compartimentando-se uma tese para que a mesma possa ser publicada em partes, garantindo número de publicação que possam ser devidamente pontuadas, em um mecanismo que concede a um livro a mesma quantidade de pontos concedida a um artigo Qualis A-1, ou dois artigos em periódico Qualis B-1.
O entendimento do todo, resultado da pesquisa que partiu de uma tese e seguiu por caminhos complexos de comprovação e/ou negação das hipóteses levantadas, quando há, naturalmente (ou pelo menos deveria haver), fica evidentemente prejudicado.
Optei por publicar o livro, pois sempre alimentei o desejo de ter livros publicados, influenciado pelo aprendizado que tive com meu pai, que assinava seus livros com a frase “o amigo dos livros”. Não quis dividir o resultado de minha pesquisa e isso resultou no livro “Araguaia: depois da guerrilha, outra guerra – A luta pela terra no Sul do Pará, impregnada pela Ideologia da Segurança Nacional (1975-2000)”.
No final de 2014, após dois anos da 2ª edição do livro “A Guerrilha do Araguaia – a esquerda em armas” este livro mais uma vez se esgotou. Sua reedição foi finalizada no segundo semestre de 2015 e comprova o sucesso do trabalho, que embora publicado por editoras de pouca penetração no mercado, conseguiu ser reconhecido como pioneiro no tema e sempre procurado pelos que desejam conhecer a história de um fato por muito tempo omitido oficialmente.
Receio que esses critérios estejam condenando ao ostracismo as publicações completas, dando mais importância a livros organizados com diversos autores, semelhantes às revistas ou aos artigos em periódicos. Mantém-se interessados em publicar livros aqueles que sempre sonharam com isso, já que pelos critérios capesianos o melhor é fatiar em diversos artigos o resultado de seu mestrado ou doutorado.
São questões polêmicas, mas que devem ser debatidas, embora deva se considerar as diferenças de produção e de trabalhos científicos entre as diversas áreas. Até por ser a universidade um ambiente que deve necessariamente ser marcado pela polêmica, pelo debate, pelas contradições, enfrentadas de forma civilizada e de maneira a possibilitar, sempre, os questionamentos, de forma a tirá-la da mesmice que a tem caracterizado nos últimos anos.
Essa rotina de permanentemente ter que nos reinventarmos, já que nossa produção só tem validade por três anos, leva ao esquecimento do passado, ou apenas a referências ocasionais em citações de pé de página. Talvez por essa razão valha menos a experiência acumulada após anos de atividades docentes, de conhecimento e participação nos destinos da Universidade, do que a dedicação em se produzir artigos, que tem sua importância a depender da relevância do trabalho que está por trás, mas que não deveria, jamais, apagar o que o tempo consolidou na somatória de conhecimentos adquiridos na junção de nossa vida acadêmica e de nossa vivência social.
Se precisamos a cada três anos nos reinventarmos em novas produções, e isso deve fazer parte da renovação do conhecimento, naturalmente, faz-se necessário também resgatarmos nosso passado, pois ele é essencial para identificarmos nos tempos atuais mecanismos que possam nos levar a evitar erros que porventura tenhamos cometidos. Ou a corrigir rumos na Universidade, resgatando princípios e valores pelos quais tanto lutamos. E que nos fez, sempre, repetir por todos os momentos de embates e lutas que travamos: “UFG para que? E para quem?” (Ou, Universidade Pública para que? e para quem?).
Não sei se terei tempo para novo cadastramento no Programa de Pós-Graduação em Geografia, mas já comuniquei meu interesse. Mas, embora com trinta anos de UFG não estou me afastando da rotina desta Universidade, pretendo encarar outros projetos, que possam, de maneira ativa e contundente, contribuir com as transformações que a Universidade está precisando, não somente em termos de seu crescimento físico, mas da necessidade de reviver dentro dela elementos que são fundamentais para a formação de profissionais com visão crítica, focados na abrangência e complexidade do mundo, e não somente nas exigências perversas do mercado. Mesmo que esse seja um destino inevitável. Mas o mundo está a exigir muito mais criatividade, inovação e discussão sobre os rumos que a humanidade tem pela frente, e a Universidade deve ser um ponto de referência que possa nos fazer acreditar que outro mundo é possível, ao invés de referendarmos uma lógica pautada em consensos que nos impõem a aceitação de regras cujos valores já foram negados em suas aplicações práticas. O conhecimento da Universidade, e a experiência vivida, são fatores importantes para atingir esses objetivos.




[2] Segundo critérios da CAPES: Ciências Exatas e da Terra; Ciências Biológicas; Engenharias; Ciências da Saúde; Ciências Agrárias; Ciências Sociais Aplicadas; Ciências Humanas; Linguística, Letras e Artes.
[3] http://www.valor.com.br/brasil/4126734/universidades-brasileiras-caem-em-ranking-entre-paises-do-brics
[4] http://www.gramaticadomundo.blogspot.com.br/
[5] [5] Disponível no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=UhpO4I2O0zs
[6] Documentário “Araguaia”, será lançado no IX SEMINÁRIO MÍDIA E CIDADANIA e VII SEMINÁRIO MÍDIA E CULTURA -  http://ficufg.blog.br/semic/programacaosemic2015.pdf

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

SÍRIA: UM ESTADO FALIDO. MAS POR QUEM?

Por: Matheus Hoffmann Pfrimer[1] 
Há meses atrás, em entrevista para esse jornal, afirmei que a estratégia americana para o combate ao Estado Islâmico de armar os rebeldes na Síria corria grave risco de armar dissidências entre os rebeldes. O que se costuma chamar de rebeldes não se trata de um grupo monolítico que procura derrubar o regime de Bashar Al-Assad, mas sim uma pletora de grupos e movimentos político-religiosos com diversos interesses na luta ao regime.
Passados alguns meses do discurso oficial do presidente estadunidense Barak Obama anunciando a decisão pelo treinamento e armamento dos “rebeldes” na Síria e do exército iraquiano, nos cabe, então, fazer uma nova reflexão das consequências e resultados daquela decisão na conjuntura atual, tendo em vista o desenrolar dos últimos acontecimentos: crise humanitária, intervenção russa na Síria e o mais recente atentado em Paris.
É provável que parte do armamento oferecido pelos Estados Unidos ao exército iraquiano, e especialmente aqueles oferecido aos “rebeldes”, acabou nas mãos das milícias do Estado Islâmico. O documentário “Fugindo do Estado Islâmico”, muito bem apresenta várias evidências de que isso tenha realmente acontecido.  Adicionando a isso o fato de que a crise humanitária vem se aprofundando, o que se pode vislumbrar no horizonte à curto prazo é uma situação em que clérigos radicais islâmicos em países europeus consigam atrair a atenção de migrantes insatisfeitos bem como de nacionais europeus, principalmente aqueles não integrados e discriminados às sociedades europeias.
Para além das armas e intervenções, os estados europeus necessitarão colocar em prática uma enorme força-tarefa com intuito de integrar essa enorme leva de migrantes às suas sociedades. Porém, essa empreitada não será fácil, pois após os últimos atentados em Paris a tendência é que partidos da extrema direita, a exemplo do Front National de Marine Le Pen, ganhem maior influência sobre o eleitorado europeu. Tal acontecimento colocaria em cheque as políticas assistencialistas a imigrantes e estrangeiros e ofereceria oportunidade ao ressurgimento do nacionalismo radical.
Partindo do âmbito da política doméstica para o âmbito internacional, percebe-se que o conflito da Síria que inicialmente poderia ser caracterizado em seu início como uma Guerra Civil, ganha cada vez mais dimensões de um conflito internacionalizado. Cabe ressaltar que os conflitos acontecem com o intuito não apenas de combater um suposto “Estado Islâmico”, que ao final sequer pode ser considerado como Estado, já que não dispõe de reconhecimento oficial e jurídico da comunidade internacional.
O conflito gira em diversas órbitas de interesses. A intervenção russa não apenas combate as milícias do Estado Islâmico, mas em algumas circunstancias atacou postos de outras milícias rebeldes com o intuito de defender o regime de Al-Assad. A Turquia também atacou postos do Estado Islâmico, mas também se aproveitou da situação para atacar os separatistas curdos. As potências europeias e os Estados Unidos vêm apoiando parte dos rebeldes com o intuito de derrubar o regime de Al-Assad e derrotar os fundamentalistas do Estado Islâmico. É certo que há uma convergência em derrocar o Estado Islâmico, porém não há um alinhamento entre essas diversas partes envolvidas no conflito, o que o torna cada vez mais complexo e cheio de nuances.
As intervenções armadas podem ter efeito paliativo em curto prazo, mas estudos comprovam que em longo prazo sem que haja um comprometimento de desarmamento, estabilização e reconstrução, possivelmente a região em conflito continuará sendo assolada por problemas relacionados à ausência de infraestrutura básica à saúde, desnutrição, miséria etc... O que possivelmente ceifará mais vidas do que os enfrentamentos durante o conflito. Nas Relações Internacionais quando um Estado encontra-se em uma situação análoga, utiliza-se o termo Estado Falido... mas por quem?  
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[1] Matheus Hoffmann Pfrimer é Doutor e Pós-doutor em Geografia Política pela Universidade de São Paulo (USP) e professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Goiás (UFG). Artigo publicado no jornal O Popular, edição de 20.11.2015, pág. 14.

domingo, 15 de novembro de 2015

O ATENTADO EM PARIS E OS MONSTROS E MONSTRUOSIDADES GERADOS POR ESTRATÉGIAS PERVERSAS

Há uma guerra no Oriente Médio. Há muito tempo. Promovida por grandes potências visando desestabilizar governos com interesses estratégicos. Desde 2001, no pós 11 de setembro, a estratégia dos EUA e aliados foi de derrubar governos de diversos países. Sete, segundo o general Wesley Clark.[1] A loucura disso tudo, além do absurdo de se intervir em países de forma violenta, foi a estratégia de se deflagrar uma “guerra ao terror”, como se fosse possível, numa guerra convencional, atingir inimigos invisíveis. Inimigos esses gerados por um comportamento geopolítico, não somente da desestabilização dos governos, mas da geração de uma quantidade enorme de pessoas vitimadas por essas ações, de radicalidades crescentes na mesma proporção do ódio contra os que invadiam seus territórios e destruíam suas vidas. Nesse ambiente horrível, de bombardeios, destruições e humilhação de povos, germinaram e se fortaleceram grupos sectários, que se espalharam por toda a região, potencializando-se com a chamada “primavera árabe”, tornada um inverno tenebroso. Al Qaeda, Talibã, Al Nusra e ISIS, ou Estado Islâmico, são criaturas geradas por estratégias burras, ou não. Provavelmente, como diz o general, elas tenham sido criadas intencionalmente, com o propósito de gerar o caos numa região rica em petróleo, onde a democracia, seguramente, tornaria esse produto algo a ser fortemente controlado por um estado nacional forte. Houve loucura nessa estratégia.
Os armamentos adquiridos pelos grupos sectários que usam da barbárie e do terror não são de tudo roubados. Boa parte foram conseguidos pelo financiamento dos países ocidentais (inclusive os EUA), além da Arábia Saudita aos grupos que lutavam (e ainda lutam) contra o governo sírio, entre esses a Al Qaeda e o Estado Islâmico. Esses recursos foram enviados (e continuam sendo) através das monarquias árabes aliadas (Arábia Saudita, Qatar etc.). Por todo esse tempo ouvimos que os trabalhos dos jornalistas estavam sendo impedidos por ação do ditador sírio. Na verdade, eram esses grupos sectários que estavam sequestrando jornalistas, muito embora alguns , de fato, tenham encontrado dificuldades criadas pelo governo sírio, o que sempre acontece em meio a uma guerra. Sabe-se que pelo menos mais vinte jornalistas estão desaparecidos. Há pouco tempo, por uma estranha intervenção do governo do Qatar um desses jornalistas foi solto, demonstrando uma influência desse país com os grupos terroristas que agem na Síria. Enfim, esse crescimento de ações de barbáries, assassinatos e execuções em massa, e o fortalecimento desses grupos sectários, são efeitos colaterais das guerras promovidas pelos EUA, seja diretamente por meio de intervenções (Iraque e Afeganistão), ou indiretamente, por meio do apoio a esses agrupamentos (Líbia e Síria). O Estado islâmico, assim como os Talibãs, são criaturas pérfidas criadas para se constituírem em instrumentos a serviço de interesses estratégicos dos EUA no Oriente Médio desde o período da guerra fria. Para melhor conhecimento dessas estratégias estúpidas aconselho a leitura do livro de Moniz Bandeira, "A Segunda Guerra Fria".[2]
Logo após o EI controlar boa parte dos territórios sírios e iraquianos, os EUA, e até mesmo a Alemanha, defenderam o envio de armas para o Iraque, a fim de ajudar no combate ao grupo sectário do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (o comércio de armamentos bélicos é sempre uma boa saída para a crise econômica). Ou seja, depois de armá-los para derrotar o governo sírio, pretendem agora armar os que se opõem a eles para derrotá-los(?). Talvez não haja mesmo outra coisa a fazer, já que enviar tropas incorreria na morte de soldados, impactando na opinião pública. Mas o e feito colateral, esperado e inesperado, fortaleceu um monstro.
No entanto, as potencias ocidentais não assumem suas responsabilidades nesses erros crassos, de estratégias absolutamente malsucedidas, e de escolhas completamente erradas. Como porta-voz, uma mídia enviesada desinforma a população, criando comoções em tornos de atentados que ocorrem em territórios europeus, e ao mesmo tempo ignora a brutalidade como essas violências se abatem corriqueiramente contra países asiáticos, no Oriente Médio e na África.
Atentado no Líbano em 12/11.
pouca repercussão e nenhuma comoção
Dois dias antes dos ataques de Paris mais de cinquenta libaneses foram mortos em um ataque terrorista assumido pelo mesmo Estado Islâmico, e mais de duzentas pessoas ficaram feridas. Não houve comoção nem ninguém usando as cores da bandeira libanesa no facebook. Houve uma tragédia, um crime abominável e monstruoso, patrocinado por grupos intolerantes e fascistas. Mas os cidadãos franceses não podem ser tratados de maneira diferente dos libaneses, líbios, iraquianos, afegãos, paquistaneses, somalis, sudaneses... essa comoção ocidental esconde as origens desses monstros. Portanto, é preciso mais indignação mas que ela não seja guiada pela seletividade da grande mídia.
A França está pagando o preço de dominação e guerras imperialistas,  o seu povo torna-se vítima dessas estratégias de dominação e espoliação. Esses monstros foram criados por Estados Unidos e Europa. A maioria dos mortos por atentados terroristas estão no oriente médio e África. Mas tragédias nesses lugares só se tornam notícias quando seus povos, cansados de tanta violência, fogem para a Europa. Mesmo assim somente 10% deles vão para os países europeus. A maioria vive refém, em campos de refugiados, nas fronteiras de seus próprios países.
Repercussão dos atentados terroristas
em Paris -  13/11
Destruíram o Iraque, o Afeganistão, a Líbia, agora a Síria. E de cada um desses países saíram os grupos que estão assassinando pessoas no Oriente Médio, África, Ásia e Europa: ISIS, Al Qaeda, Talibã, Al Nusra e tantos outros. A perversidade desses grupos é algo monstruoso e horrível. Mas eles foram criados para derrotar os que eram (e são) considerados inimigos dos EUA e dos países europeus. A estratégia para combatê-los, depois de tê-los criados, continua equivocada. Pois enquanto eles bombardeiam por cima, e matam indiscriminadamente, o EI e a Al Qaeda recrutam parentes das vítimas desses bombardeios por baixo. Essa loucura não terá fim sem uma estratégia diferente, sem combates por terra, com o apoio da Síria, Irã, Iraque e Turquia, e deveria ser a ONU a comandar essa coalizão.
Ao mesmo tempo, não se pode atribuir essas loucuras ao Islamismo de forma genérica. Também no cristianismo existem setores fundamentalistas que adotam comportamentos fascistas e radicais no ataque a costumes que fujam de seus dogmas. Basta ver as mudanças que estão fazendo no congresso nacional. São os fundamentalistas que estão presentes em todas as religiões, assim como na direita e até mesmo na esquerda.
"Quem com ferro fere, com ferro será ferido". Colonialismo, arrogância, humilhação, apoio a grupos sectários para derrotar seus inimigos, seguindo a lógica absurda de "o inimigo do meu inimigo é meu amigo", a disputa por territórios estratégicos para os interesses imperialistas, tudo isso, e muito mais, criaram essas aberrações e possibilitaram essas ações terroristas. A religião, como sempre, é também um elemento motivador dessa estupidez, controlada por um fundamentalismo cego e tresloucado. O Brasil, certamente, não está no alvo dessas ações pois envolvem aqueles países que se dedicaram em sua história a explorar as riquezas de outros povos.
Dois milhões de sírios vivem em
fronteiras com países vizinhos em
campos de refugiados.
Enfim, esses atentados são absolutamente condenáveis sob todos os aspectos, mas a história não pode ser esquecida em momentos de grande comoção. O que está se vendo é uma guerra. Mas contra inimigos que só se fortaleceram desde 11 de setembro de 2001. E, como sempre tem acontecido desde então, só aumenta o número de civis mortos seja na Europa, como na Ásia, Oriente Médio e África. E que não se esqueça: o número de mortes no Oriente Médio é infinitamente superior a esses de Paris.
E já que o Facebook disponibilizou cores da França para ser usadas em fotos do perfil, porque não disponibilizar também cores de países onde há décadas sistematicamente acontecem atentados e genocídios, e em alguns casos o próprio estado desapareceu? Somália, Sudão, Iêmen, Afeganistão, Iraque, Líbia, Palestina, Líbano, Síria... e a Argélia, por sua história de resistência ao imperialismo francês, e Ruanda, cujos facões utilizados para massacrar quase um milhão de ruandeses por seus próprios compatriotas, foram repassados por franceses. "Je suiz" todos eles. Solidariedade a todos os povos, inclusive os franceses (e qualquer um outro vítima do terror de grupos ou de estados), vítimas de terrorismos, invasões de seus territórios, genocídios, barbárie, guerras e intolerância seculares.
A Paz é a unica saída. Mas, com respeito à soberania das nações e às escolhas políticas dos povos de cada país. E, acima de tudo, que a ONU tenha voz e seja protagonista nesse processo, ao invés de um mero instrumento controlado por poucas potencias.
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Vejam a seguir uma entrevista com o linguísta estadunidense, Noam Chomski, na TV Nacional Portuguesa em maio de 2015, sobre as origens do terrorismo no Oriente Médio.





[1] Nessa entrevista de 02 de Março de 2007, o General Wesley Clark, aposentado de 4 estrelas do Exército dos EUA e Comandante Supremo Aliado da OTAN durante a Guerra do Kosovo, relata um encontro com militares do Pentágono e a conversa que se estabeleceu a respeito da guerra no Oriente Médio: https://www.youtube.com/watch?v=sCDRWEpz5d8

[2] BANDEIRA, Luiz Aberto Moniz. A Segunda Guerra Fria. São Paulo: Civilização Brasileira, 2013.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

A GREVE... O ANDAR DA CARRUAGEM... E O PRECIPÍCIO!

“É salutar e estrategicamente importante, mantermos o movimento coeso, centrado nessas duas reivindicações (o reajuste e o repasse de verbas para a universidade), até que sejam encerradas as negociações, que provavelmente ocorrerá até 31 de agosto. Feito isso, podemos aí, em Assembleia, ou/e por meio de consulta eletrônica (já que é um instrumento estatutário de nosso sindicato), a fim de ampliar a participação dos docentes, dizer se aceitamos ou não a proposta final, e, em seguida, decidirmos pelo fim, ou não, do movimento grevista”.
Com essas palavras, um chamamento à racionalidade do movimento em função de posições radicalmente antagônicas, encerrei meu artigo, publicado no Blog Gramática do Mundo na última semana de agosto (http://www.gramaticadomundo.blogspot.com.br/2015/08/a-greve-na-ufg-e-o-andar-da-carruagem.html).
Nele eu teci críticas ao comportamento adotado por aqueles que não desejavam greve, e ansiavam por rapidamente botar fim ao movimento; e pelos que desejam greve ad infinitum, sem preocupação com o tempo que o movimento perdurará, o que alguns chamam de “greve até o fim do mundo”.
Não pretendo, absolutamente, adotar um comportamento arrogante. Não me coloco como senhor da verdade, até porque não acredito em verdades absolutas. Mas, me exponho sempre, e assim me caracterizei desde que criei este blog, apresentando minha opinião para debate, com analises que considero, naturalmente, as mais corretas dentro de uma determinada realidade. Procuro sempre ser coerente entre atos e opiniões. Por isso, e pelo que aconteceu entre a data que publiquei o texto citado e esta última semana, é que decidi complementar aquele artigo, com a análise que se segue.
SOBRE O QUE É SER RESPONSÁVEL NUMA GREVE
Nossa última assembleia se iniciou com intervenções questionando a responsabilidade na deflagração da greve. Particularmente me vi criticado, uma vez que defendi nas primeiras assembleias a necessidade de entrarmos em greve, como resposta aos cortes de verbas nas universidades, bem como para mostrarmos nossa insatisfação com a proposta de fatiamento de nosso reajuste por longos quatro anos, em um momento de grave crise fiscal, política e econômica.
Com a perspectiva de as negociações se encerrarem no dia 31 de agosto, prazo definido nas mesas de negociações entre federações, sindicatos e o Ministério de Planejamento, Orçamento e Gestão, naturalmente a greve se colocava, sim, como um instrumento radical de pressão, já que nossa categoria é incapaz de se movimentar de outras maneiras. Vivemos na Universidade as rotinas de nossos espaços restritos, nos laboratórios aos quais estamos ligados, sobre nossas pesquisas ou dos aspectos relativos àquilo que diz respeito particularmente a cada um. O questionamento sobre a realidade que nos cerca e que nos envolve cada vez mais, na medida em que tudo se conecta, constitui-se tão somente em um bate-papo de corredores ou nos intervalos de almoço. Não se debate com profundidade os problemas da Universidade. Há uma aceitação passiva das decisões administrativas e das políticas adotadas pelo governo. Sequer as conhecemos em profundidade. Deixamos isso a cargo dos nossos representantes nos conselhos universitários, mas pouco lemos a respeito do que se decide. Ou seja, nosso futuro na universidade pouco importa, a não ser quando aperta no bolso.
Essas questões, e a normalidade que nos cerca e da qual nos habituamos, já me motivaram a escrever alguns artigos em meu Blog. Entendi que a paralisação, de uma maneira ou de outra deveria servir não somente para pressionar o governo às vésperas de finalizar as negociações sobre nosso reajuste, mas também para fazer com que os colegas despertassem da letargia que tem afetado a universidade há muitos anos. Acostumamos-nos com as melhorias que inegavelmente aconteceram e perdemos a capacidade de perceber o abismo adiante de nós.
Claro que há outras motivações por parte de alguns colegas que veem a greve também como instrumento de desgaste político do governo, ou como um mecanismo para ampliar influência de grupos políticos entre os professores, além de conquistar espaços na disputa sindical, principalmente na tentativa de fazer o nosso sindicato retornar à influência da Andes. Nada, contudo, que não esteja dentro do jogo das disputas democráticas. Pelo menos dentro dos limites do permitido. Se é aceitável, somente a força de cada lado, dentro do processo de eleições sindicais, irá dizer.
Mas esse é exatamente o grande problema. Tentar descobrir qual é o limite do aceitável de uma greve na Universidade. Aqui me refiro a essa luta específica, de momento, nossa greve que já dura quase dois meses. É claro que não se pode, de forma inconsequente, levar uma paralisação até ao extremo de prejudicar um semestre letivo e, assim, adiar por seis meses a formação dos nossos alunos. Muito menos, é aceitável o estrangulamento da universidade, por inanição. Contraditório, já que criticamos o comportamento de governos que, ao não nos atender, estariam apostando no enfraquecimento dessa instituição. Pelo menos muitos acreditam nisso. Ocorre que a política é, principalmente por nossas bandas, extremamente instável. Quando se imagina haver certa tranquilidade institucional, a disputa pelo poder descamba para um processo autofágico, e se exige, para além da democracia, a rotatividade dos partidos no poder. Mas essa é outra discussão, embora seja uma das razões da crise.
O fato objetivo, para não nos perdermos em subjetividades, é que o momento político brasileiro é, nesse momento, extremamente crítico. Uma crise econômica internacional, um descontrole fiscal que fez com que pela primeira vez fosse enviado ao Congresso Nacional um orçamento deficitário, e uma crise política que vem acompanhada de radicalidade na disputa pelo poder, mas também da visibilidade de velhos esquemas corruptos que tradicionalmente corroem as estruturas do Estado brasileiro e já desde muito denunciado, mas somente agora investigado e punido: uma crise moral e ética enfraquecem a política, o governo e nos deixa em meio a uma ambiente de incertezas.
Como diz um velho ditado popular, é impossível extrair água de uma pedra. E não me refiro às rochas porosas que são características dos aquíferos. O que quero dizer é da impossibilidade de conseguirmos resultados positivos e vitórias dentro daquilo que desejamos e reivindicamos, em meio a um ambiente de caos fiscal e de intensa crise política que corrói o Estado brasileiro, a ponto da atual presidenta da República correr o risco de sofrer um impedimento para concluir o seu mandato. Afinal, golpes institucionais se tornaram práticas corriqueiras em diversos países latino americanos, e os exemplos mais concretos são os de Hondura e do Paraguai. Embora se tenha tentado também isso na Argentina, na Bolívia, no Equador e na Venezuela por diversas vezes.
Mas também, para contrariar o slogan de um comediante que se tornou deputado federal, “pior do que está, pode ficar”. Nós, que estamos há mais tempo na universidade, sabemos o que pode nos aguardar em um governo conservador. Os mais novos deveriam recorrer à história, e assim saberiam o quanto a Universidade sofreu com políticas conservadoras, excessivamente neoliberais, nos anos 1990 e anteriores. Assim, estrategicamente, o melhor que o movimento docente pode fazer é adotar a tática de recuar momentaneamente, para poder acumular forças e torcer para que a situação econômica do país melhore. Não deve nos interessar o “quanto pior melhor”, tão repetido pela presidenta, mas que, na política é algo permanente na linha política daqueles que estão na oposição e fora das mordomias do poder. Muito embora também faça parte de iniciativas tresloucadas de grupos sectários de extrema esquerda, que, nesse particular, aproxima seus discursos aos interesses e objetivos da extrema direita. O caos como objetivo, facilitaria a aglutinação de novos “combatentes”.
Um passo atrás, dois à frente. Essa deve ser a estratégia inteligente que devemos adotar. Encerrarmos a greve e manter negociações visando uma reformulação em nossa carreira. Além da necessidade de discutirmos e debatermos com intensidade, o que não temos feito, os rumos e destinos da universidade, a meu ver, completamente invertido com o abandono da graduação e a preocupação excessiva e determinante para o financiamento dessas instituições, nas melhorias das notas dos cursos de pós-graduação.
Nesse sentido podemos falar de responsabilidades. Com o conhecimento de nossas possibilidades, do entendimento da complexidade da realidade econômica, fiscal e política do país e da preocupação com o futuro, nos cabe tomar uma decisão coerente com nossa capacidade de discernimento. É o momento de encerrarmos o movimento grevista, mas de continuarmos nossa luta pela garantia dos repasses necessários à universidade e de melhorias em nossa carreira em um curto espaço de tempo, no máximo até 2017.
Mas os professores não podem, simplesmente, votar pelo fim da greve e voltar a acomodar-se, como se nada tivesse acontecido, e a destilar as frustrações contra os que estão à frente de nossa entidade. A força que podemos ter depende do fortalecimento de nossas instituições que nos representam enquanto uma categoria, o sindicato e a federação. Não basta nos contentarmos com gratificações e bolsas obtidas por meio de projetos de pesquisas e de extensão. Isso é provisório, e farão falta mais adiante, na medida em que se incorporam aos nossos gastos e estilo de vida. É preciso estarmos presentes na discussões sobre nossa carreira, defender melhorias em nossas condições de trabalho e cobrarmos da reitoria manifestação firme em defesa de nossa autonomia, uma luta antiga mas que parece distante das preocupações dos colegas professores.

Enfim, o que acredito ser uma atitude responsável é, além de encerrarmos a greve, sabermos que nossas conquistas futuras estão umbilicalmente ligadas ao nosso envolvimento nas discussões sobre os destinos da nossa universidade, e da universidade pública e gratuita de maneira geral. Fora isso, outras atitudes, movidas pelo discurso extremo e radical ou pela acomodação e insensibilidade diante dos problemas que é de todos, só nos empurrarão em direção ao precipício.