sábado, 29 de setembro de 2012

"APERTE O CINTO, O PILOTO SUMIU" – O MUNDO EM TRANSE : A CRISE ECONÔMICA DESORGANIZA OS ESTADOS-NAÇÕES


Mais uma vez retomo no Blog a discussão sobre a crise econômica que afeta o capitalismo em boa parte do mundo. Principalmente entre os países mais ricos. Ainda podemos considerá-los assim, em função de suas riquezas, que determinam o Produto Interno Bruto (PIB). Contudo o agravamento da crise reduz suas reservas monetárias a um déficit que enfraquece a capacidade de quitar suas dívidas, mesmo considerando-se todas essas riquezas.
Os dados são estarrecedores, não vou listá-los aqui no corpo desse artigo, ao final irei inserir alguns links para matérias que dão números, que nos parecem consistentes, e expõe com clareza as dificuldades do sistema capitalista em seguir cambaleante na corda bamba.
Já abordei em outras oportunidades, em artigos que venho escrevendo desde quando a crise ainda estava sob um manto de esquecimento pela grande mídia, já no início desse blog. De lá para cá não se pode dizer que nada mudou. Até porque a dialética nos ensina que “tudo muda, o tempo todo, no mundo”. Embora essa seja uma frase da música de Lulu Santos, a quem eu chamo de “melô da dialética”.
Mas não é a filosofia que me chama a atenção nesse momento. Mas a economia. Ou, como pelos caminhos das contradições inevitáveis em uma lógica gananciosa e usurária, o capitalismo caminha celeremente para sua autodestruição. Conforme há mais de cem anos foi vaticinado pelo seu mais odiado inimigo: Karl Marx.
Alguns, e muitos aspiram atingir níveis de vida que os façam capazes de consumir próximos aos níveis da burguesia, duvidam dessa possibilidade. Mas não estou aqui a pregar o caos, como consequência da crise em curso. Necessariamente, contudo, o sistema precisará buscar novos mecanismos para impedir que o descontrole o faça seguir aceleradamente em direção ao abismo. E já passamos do meio do caminho.
Raciocinar como se o capitalismo fosse o fim da história, como equivocadamente alguns “filósofos” contemporâneos o fizeram, e abriram as portas do inferno para as ideias neoliberais, é se recusar a olhar para o passado, e conhecer, pela própria história, que nenhum sistema foi, nem nunca será eterno. Mas podemos voltar à poesia, e lembrar Vinícius de Morais, no “Soneto da Fidelidade”: que seja eterno enquanto dure.
Não podemos negar a capacidade, demonstrada até aqui, pelo capitalismo, que sempre conseguiu após crises graves, se reinventar. Mesmo tendo que adequar sua lógica liberal – caótica – do mercado livre, ao planejamento estatal, de cunho socializante, como foi feito no pós-depressão nos anos 30 do século XX.
Vemos no momento atual, e no cotidiano das pessoas tudo se passa como sendo uma crise econômica momentânea, como tantas outras já vividas, um embate entre as massas da população na luta por garantia de direitos trabalhistas a muito custo conquistados durante anos de lutas. Além da necessidade de defenderem a seus empregos, condição necessária para manter suas dignidades. Muitos, por vários dos países onde a crise é mais intensa, já perderam além de seus empregos, suas próprias moradias. Grécia, Portugal, Itália, Espanha, para citar onde a situação está mais grave, mas sem esquecer também os Estados Unidos e a França.
Mas a crise é estrutural. Somente podendo encontrar paralelo na Grande Depressão, chegada ao extremo com o grande “crash” da bolsa de valores de Nova Iorque, em outubro de 1929, há exatos 83 anos. Contudo, o caráter dessas duas crises são completamente diferentes, para não dizer antagônicos. A do século passado teve origem no acelerado processo produtivo, que gerou mercadorias em excesso e travou o sistema, na medida em que a população parou de gastar e passou a guardar seu dinheiro, ou poupá-lo, na medida em que suas demandas por consumo já estavam satisfeitas.
A crise atual, contudo, tem suas raízes na acentuada ganância, a obsessão crescente pela acumulação de riqueza a níveis de uma competição que termina por concentrar cerca de 50% de toda a riqueza offshore do mundo nas mãos de 0,001% das pessoas (essa é a riqueza produzida mundo afora). Isso dá em torno de pouco mais de 90.000 pessoas, que controlam, em espécie cerca de 9,8 trilhões de dólares. E menos de dez milhões de pessoas acumulam todo o volume de dinheiro em espécie existente no mundo, cerca de 21 trilhões de dólares, a maioria escondidas em paraísos fiscais.
Cartaz do Movimento
Occupy Wall
Street
Corresponde ao 1% duramente criticado pelo movimento “Occupy Wall Street”. Esses dados constam de um estudo da Tax Justice Network (Rede para a justiça tributária), coordenado por James S. Henry, ex-economista chefe em McKinsey & Co, autor do livro The Blood Bankers (Os banqueiros ensanguentados). Essas informações estão no artigo da jornalista Sarah Jaffe, e traz muito mais dados estarrecedores sobre a maneira como esses sanguessugas deslocam trilhões de dólares por paraísos fiscais para fugirem de taxações ou outras medidas que afetem essa vergonhosa acumulação. Insiro o link para o artigo da jornalista ao final desse texto.
Essa é a característica principal da crise atual. O sistema se depara com as dificuldades para controlar a fuga de capitais, sem controle, pelo mundo, em busca de países que não exercem nenhum tipo de fiscalização sobre depósitos feitos em seus sistemas financeiros. A jornalista cita Cingapura e a Suiça, mas a quantidade é maior, e envolve até mesmo o banco do Vaticano, onde recentemente alguns documentos foram divulgados após o mordomo do papa se apropriar desse material. Por esses dias ele está sendo julgado por esse “delito”, mas os órgãos da mídia informam sobre o julgamento, mas a grande maioria omite a real razão pela sua quase inevitável condenação. Trata-se de um banco, como tantos outros, que se dedica a lavar dinheiro até mesmo do tráfico de drogas
Recentemente a Receita Federal brasileira passou a considerar inclusive os Estados Unidos, numa lista de países com “regimes fiscais privilegiados”. Uma maneira diplomática de chamá-los de “paraísos fiscais”. Além dos EUA, recentemente foram incluídos em uma lista de 65 países, Luxemburgo, Uruguai, Dinamarca, Países Baixos, Espanha e Malta. Mas eles já eram considerados nessa tipificação de crime fiscal para o qual a punição é praticamente impossível, em uma lista internacional e mais abrangente.  (veja a lista completa neste site: http://www.financialsecrecyindex.com/2011results.html)
Frankfurt - Alemanha
Esses trilhões encontram-se distribuídos pelo mundo, escondidos das tributações de seus países de origem, enquanto os Estados ampliavam seus endividamentos para salvar o sistema financeiro de uma bancarrota que ainda ameaça o horizonte capitalista. Não solucionaram o problema e ampliaram a gravidade da crise, porque restam agora medidas desesperadas e arrocho sobre os trabalhadores para tentar cobrir os rombos gerados por essa matemática irresponsável e uma ganância criminosa.
Países como a França, na fila de países cuja quebradeira é inevitável (já tem comprometido com dívidas 91% do seu PIB), têm tomado medidas aparentemente radicais. No caso desse país, com um governo tido socialista. As medidas aumentam os impostos sobre as grandes empresas e taxam em até 75% os cidadãos mais ricos. Mas são medidas inócuas, porque há cerca de um ano o volume do dinheiro deslocado para esses paraísos fiscais cresceram substancialmente à medida que a crise se acentuava e as multidões e os movimentos sociais ocupavam as ruas protestando com aquele 1% que concentra a maior parte da riqueza mundial. Além do que, por meio “legal”, muitos desses milionários têm transferido suas residências, ou o centro de seus escritórios financeiros, para outros países europeus onde essas medidas não correm o risco de serem tomadas, como por exemplo, o Reino Unido, ou para alguns desses paraísos fiscais como a Suíça e o principado de Mônaco. Até jogadores, uma das peças mais utilizadas para lavagem de dinheiro, foram atingidos por essas medidas, cuja insatisfação foi demonstrada por uma dessas “celebridades”, Cristiano Ronaldo, cujo salário milionário entra em choque com uma sociedade altamente endividada e com quase metade dos jovens desempregados, a Espanha. Outro jogador, o brasileiro Hulk, cuja negociação bateu recorde mundial, tem sofrido discriminação na Rússia, por conta não somente dos valores negociados, mas também pelo alto salário que lhe é pago.
Vê-se assim, o desespero tomar conta das populações desses países, que veem as taxas de desemprego despencarem a níveis alarmantes. A estagnação econômica e o desemprego, ou vice-versa, essa é uma terrível relação dialética, afetam duramente a vida das pessoas, e um grande percentual se vê sem nenhuma perspectiva. Vivem dependendo de seguros pagos por Estados que já não tem de onde retirar mais recursos. Mas isso só endivida mais ainda esses países, que, como consequência só tem como alternativas aumentar impostos, o que leva a mais desemprego e reduz perigosamente a capacidade de o país produzir e, logicamente, consumir. Essa é a enorme contradição de um sistema que sempre dependeu das crises para ampliar as concentrações nas mãos dos que controlam os meios de produção. E mais recentemente, consequência da globalização, dos que vivem de investimentos de riscos no sistema financeiro. Riscos que afetam não somente seus capitais investidos, mas, principalmente, toda a sociedade.

Madri - Espanha
A situação é tão grave que a Espanha, país onde o índice de desemprego ultrapassa 25% (só para se ter uma ideia, aqui no Brasil esses percentual caiu a 5,5% segundo as mais recente informações do IBGE). Sendo que desse total a juventude é a mais sacrificada, com cerca de 40% dos jovens desempregados. Números que só se ampliam, na medida em que mais jovens entram nessa faixa, em uma idade que buscam seus primeiros empregos, mas não há oferta sequer para os que já tem experiência e aceitam qualquer salário.

A revista Samuel (http://revistasamuel.uol.com.br/), nova publicação que ainda não está á venda nas bancas de todos os Estados brasileiros, traz este mês uma reportagem sobre a situação de uma grande quantidade de casais, que sob os efeitos da crise terminam por se separem. Mas a mesma crise cria um perigoso constrangimento, porque só faz derrubar a autoestima das pessoas. É o que a matéria chama de “Coabitação indesejada - convivência forçada ”, ou a situação desses casais que, embora já separados, são forçados a conviverem sob o mesmo teto, como forma de dividirem despesas. Ficam, inclusive, impossibilitados de venderem imóveis quando são de suas propriedades, pois a desvalorização é crescente, na medida em que não existem demandas para eles, o que faz seus preços despencarem.
Paris - França
Mesmo na França, onde o governo resolveu taxar grandes fortunas, medidas também são tomadas para conter as despesas do Estado, levando a demissões em massa de funcionários públicos. Essas situações tem se espalhado por toda a Europa e Estados Unidos, e ameaçam se deslocarem para todos os continentes, na medida em que o sistema capitalista funciona cada vez mais em rede. Por isso se acentuam as medidas protecionistas em muitos países, como o Brasil, e veem os mais desenvolvidos, em crise aguda, reclamarem agora contra esses possíveis protecionismos. Quando por muito tempo foram os países periféricos que sempre reclamaram das altas tarifas alfandegárias impostas pelos países ricos aos seus produtos.
É fácil entender isso. Na medida em que a crise torna-se mais acentuada, os países “desenvolvidos” veem suas dificuldades serem ampliadas, e a capacidade produtiva reduzem-se consideravelmente. Mais grave, contudo, é a redução do potencial de consumo do mercado interno, em seus países, como decorrência do aumento crescente do desemprego. Restam como alternativa a exportação de seus produtos, que encontram um forte bloqueio nos países em desenvolvimento, agora com as indústrias sendo beneficiadas por medidas do Estado adotadas com o intuito de aumentar a competitividade e, logicamente, dificultar o crescimento das importações.
Mas, apesar de estarmos analisando um sistema em crise, como uma consequência de contradições que são inevitáveis em meio a uma lógica usurária e gananciosa, isso não significa dizer que os ricos estão em crise. Como dito anteriormente, aqueles que controlam a riqueza mundial mantém suas obsessões de acumular dinheiro e propriedades ao limite, menosprezando as desgraças que os cercam. E poucas são as medidas que podem ser adotadas dentro daquilo que não afronta o liberalismo capitalista. Aquelas que são necessárias, e condição para fechar um ciclo irremediavelmente já em seu final, só são possíveis no âmbito de Estados fortes, e com governos populares que tenham coragem suficiente de confiscar grandes fortunas e por fim ao direito de herança.
Lisboa - Portugal
Quando as crises, causadas por essas contradições atingem o seu limite, e deixam o sistema sem alternativa para contorná-las, os que controlam a produção se encarregam de apressarem na redução de seus gastos com os trabalhadores, demitindo-os, ou reduzindo seus salários. Enviam suas riquezas para paraísos fiscais, investem em ações e papéis no mercado financeiro, adquirem mercadorias de valor incomensurável, como obras de artes, e dividem suas fortunas entre seus herdeiros. Fogem das responsabilidades pela crise e não admitem reduzir seus lucros. Embora sempre contrários aos gastos do Estado para salvaguardar as populações mais pobres, recorrem a este para conter as quebradeiras de suas empresas e bancos, sob o argumento de que o sistema financeiro não pode quebrar, ou de que é a condição de manter o emprego dos trabalhadores.
Esse círculo vicioso, e criminoso, porque os resultados são sempre perversos para os mais pobres e desprotegidos, compõe um mosaico que reflete as contradições. Uma colcha de retalhos que simboliza os constantes remendos por que tem passado o sistema capitalista desde quando ele se torna mundial. Aos trabalhadores resta manifestarem-se nas ruas indignados, fazendo valer o que Karl Marx diz ao final do Manifesto Comunista, escrito em meados do século XIX, que esses já não têm mais nada a perder, a não ser as suas cadeias.


INDICAÇÕES DE LEITURAS:
1. Seis coisas que devemos saber sobre os 21 trilhões acumulados pelos mais ricos. http://www.pragmatismopolitico.com.br/2012/09/seis-mais-ricos-mundo-trilhoes-paraisos-fiscais.html
2. Não é a Grécia, é o capitalismo, estúpido: http://correiodobrasil.com.br/nao-e-a-grecia-e-o-capitalismo-estupido/268765/
4. As aves de rapina aplaudem a Espanha moribunda: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=20997
5. A supremacia das finanças, uma usina de pobres: http://grabois.org.br/portal/noticia.php?id_sessao=8&id_noticia=9955
7. Crises políticas econômicas afetam os países de diferentes maneiras: http://www.gramaticadomundo.com/2012/04/crises-politicas-e-economicas-afetam-os.html
8. Sobre a crise econômica e a manipulação da informação: http://www.gramaticadomundo.com/2011/12/sobre-crise-economica-mundial-e.html


FILMES:
1. O CORTE (França - 2004), Direção: Costa Gavras - Bruno Davert (José Garcia) é um executivo francês, que perde seu emprego. Dois anos depois ele continua desempregado, o que o leva ao desespero. Decidido a recuperar o antigo cargo, ele decide matar seu atual ocupante e todos os candidatos da empresa em que trabalhava com potencial para ocupá-lo.
2. GRANDE DEMAIS PARA QUEBRAR (EUA – 2011), Direção: Curtis Hanson - A trama gira em torno do secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Henry “Hank” Paulson (William Hurt, ganhador do Oscar), do presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke (Paul Giamatti, ganhador do Emmy pelo seu papel em “John Adams”, da HBO), e do presidente do Banco Central de Nova York, Timothy Geithner (Billy Crudup), que junto com funcionários do governo, integrantes do Congresso e os presidentes das maiores empresas do mundo, tentaram salvar a economia norte-americana do colapso.
3. WALL STREET, O DINHEIRO NUNCA DORME (EUA – 2010). Diretor: Oliver Stone - Nesta continuação do filme dirigido por Oliver Stone nos anos 1980, o personagem Gordon Gekko, interpretado por Michael Douglas, sai da prisão após cumprir pena por negociar ações com informações privilegiadas. Sua liberdade coincide com a fase inicial da crise do subprime, que começou nos Estados Unidos e contagiou o resto do mundo. O filme retoma parte das discussões da história anterior, sobre os limites e riscos do capitalismo selvagem defendido intensamente por Gekko. (Exame.com)
4. INSIDE JOB - TRABALHO INTERNO (EUA – 2010). Diretor: Charles Fergusson - Inside Job é um documentário em cinco partes, dirigido pelo cineasta Charles Ferguson, premiado com o Oscar em 2011. Trata-se de uma investigação e relatos sobre a crise financeira que começou no fim da década passada. A primeira parte, “Como chegamos até aqui”, conta como a indústria financeira nos EUA foi regulada entre 1940 e 1980. Em seguida, “A Bolha” explica o que aconteceu entre 2001 e 2007, durante o boom imobiliário no país. Na terceira parte (“A Crise”), o filme relembra o que aconteceu propriamente entre o fim de 2007 e 2008, quando os problemas financeiros vieram à tona. As duas últimas partes falam sobre os desdobramentos da quebra de importantes bancos e a situação mais recente da economia no país. (Exame.com)
5. MARGIN CALL - O DIA ANTES DO FIM (EUA – 2011) – Diretor: J. C. Chandor - Margin Call retrata 24 horas na vida de personagens-chave em um banco de investimentos nos Estados Unidos. A ação se passa nos estágios iniciais da crise mundial que começou em 2008. O analista Peter Sullivan (interpretado por Zachary Quinto) acessa informações financeiras que comprovam a queda da empresa e se vê diante de complexas decisões éticas e profissionais. (Exame.com)´
6. CAPITALISMO, UMA HISTÓRIA DE AMOR (EUA – 2009) – Diretor: Michael Moore - Michael Moore apresenta uma análise de como o capitalismo corrompeu os ideais de liberdade previstos na Constituição dos Estados Unidos, visando gerar lucros cada vez maiores para um grupo seleto da sociedade, enquanto que a maioria perde cada vez mais direitos.

sábado, 15 de setembro de 2012

A INTERMINÁVEL GUERRA SANTA – UM FILME DE ORIGEM CRISTÃ FAZ EXPLODIR NOVAS REVOLTAS DE POVOS ÁRABES E MUÇULMANOS.


Latuff - Site Opera Mundi
Mais uma onda de protestos toma conta de vários países árabes. Quase todos eles recentemente viveram situações turbulentas, com uma série de manifestações políticas que terminaram por derrubar vários governos que sustentavam tiranos por mais de duas décadas. Tão logo tais revoltas se iniciaram, apelidadas pela mídia ocidental como “Primavera Árabe”, os Estados Unidos prontamente se colocaram ao lado da população revoltosa.
Em algumas situações essa estratégia tinha claramente o objetivo de não perder a influência, com a ascensão de possíveis novos governos. Assim, em países como o Egito, onde claramente o poder se encaminhava para mudar de mãos, apesar de um tímido apoio a uma junta militar que tentou aplicar um golpe de estado, os EUA tiveram que engolir um novo governo comandado pela Irmandade Muçulmana, grupo islâmico com outras penetrações pelos demais países por onde se irrompiam as revoltas, como na Líbia e na Síria.
Muito embora a mídia ocidental tenha apresentado essas revoltas como meramente direcionadas para a conquista da “democracia”, e tais movimentos como sendo causado pelos desgastes das tiranias, isso não representava a única verdade. É fato que os desgastes de governos que já não tinham mais o que oferecer para uma população pobre, se deviam também à crise econômica mundial, que fez reduzirem os aportes de recursos que os EUA e algumas potências europeias enviavam para esses países. Até para evitar que a população desses países se dirigisse para uma Europa cada vez mais xenófoba e islamizada.
Khadafi e ex-secretária de Estado
dos EUA, Condolezza Rice
Em outros casos, como na situação da Líbia, a necessária execução de Moamar Khadafi se devia a “queima de arquivo”. Nos últimos anos, principalmente depois dos atentados do onze de setembro, às torres gêmeas do World Trade Center, o líder líbio se reaproximou da Europa e dos EUA, e suas prisões tornaram-se centros de torturas de prisioneiros suspeitos de pertencerem a grupos terroristas.
Segundo relatório da ONG Human Rights Watch, a CIA torturava islamitas líbios suspeitos de serem terroristas, opositores do regime sírio, e depois os entregava a Khadafi. Alguns eram levados para o Afeganistão e outros para a prisão de Guatánamo, na Ilha de Cuba. Tudo sob as ordens do presidente Bush, em conluiu com o presidente líbio. A morte de Khadafi, cujo comboio foi bombardeado por aviões da Otan, e assassinado após seu corpo ter sido seviciado, teve o claro objetivo de evitar que alguns segredos dessa relação pudesse ser desvendado. Muito embora isso esteja acontecendo, tanto por ONGs, como a Human Rigthts, como também pelo site Wikileakes, e por essa razão seu criador Julian Assange pode ser condenado à morte, caso seja extraditado para os Estados Unidos.
São esses comportamentos, aliado a uma política de conivência com o estilo agressivo e expansionista de Israel, que ao longo de décadas tornou o “Império americano”, persona non grata em muitas partes do Oriente Médio. Seus líderes só são suportados em função do forte aparato bélico que os protegem quando visitam esses países. Ainda que no Governo Obama a estratégia tenha mudado, e a própria relação com Israel tenha sido um pouco afetada, a cultura criada por anos de conflito, que opôs inegavelmente três grandes religiões (islamismo, judaísmo e cristianismo), mantém acesos estopins que explodem em intolerância e aglutinam multidões cegas pelos dogmas religiosos e pelo ódio ao ocidente criado por uma geopolítica perversa.
Mas, a par de existirem razões de sobras para que as populações desses países árabes se voltem contra o Ocidente, e especialmente contra os EUA, o foco da explosão que nesse momento espalha rebeliões por diversos países, é a religião. Agora não mais apenas no Oriente Médio, mas também na África central, Ásia central, Europa e até mesmo na Austrália. Inclusive em Israel, onde uma pequena população muçulmana reagiu com indignação a um filme, de quinta categoria, produzido nos Estados Unidos por um fanático diretor, membro de uma igreja cristã. Pelo menos até onde se sabe, já que a investigação está se dando sob sigilo.
“A Inocência dos Muçulmanos” é uma provocação barata profundamente desrespeitosa e com ofensas a Maomé, no estilo da tentativa de um pastor de outra pequena igreja daquele país, que ameaçou queimar o Alcorão. Sabe-se que, pelas leis islâmicas, não é permitido sequer a representação do “Profeta”, em quaisquer circunstâncias, muito menos de forma ofensiva. Assim como qualquer religião reage ao desrespeito aos seus símbolos sagrados. Aqui no Brasil, por exemplo, a igreja católica conseguiu a proibição para que a Escola de Samba Beija Flor não expusesse a imagem de Jesus Cristo no desfile carnavalesco em 1989. Mas os exemplos são muitos, e responsáveis por acirrarem os conflitos religiosos, em muitos casos levando a guerra, ou a situação de embates que duram décadas, como no confronto entre cristãos e católicos na Irlanda do Norte.
Há alguns meses escrevi aqui no Blog um artigo intitulado “As origens da intolerância e o fascismo moderno” (http://www.gramaticadomundo.com/2012/03/as-origens-da-intolerancia-e-o-fascismo.html). Nele eu fiz uma análise sobre o comportamento adotado por algumas lideranças religiosas, principalmente os de origem neopentecostais, mas não somente esses, cujos dogmas persistem em desconsiderar as transformações que ocorreram nas sociedades. Meu olhar volta-se para o histórico de situações que remontam décadas, e até mesmo séculos. Persistindo o tratamento de intolerância e a estupidez no tratamento de comportamentos sociais, inclusive com perseguições àqueles que não professam os seus credos. O que fere a liberdade constitucional de qualquer cidadão escolher se quer ou não ter uma religião.
Historianet
No caso de situações que envolvem os povos árabes e os EUA, ou alguns países europeus, esses traços de intolerância vêm acompanhados não somente de uma cultura ocidental que se impõe como superior aos comportamentos orientais, mas da política intervencionista que tem como objetivo o saque das riquezas petrolíferas existentes naquela região. Isso potencializa qualquer incidente que envolva valores religiosos, porque é imediatamente aproveitado por aqueles que combatem essa política, e a junção da intolerância religiosa e do sectarismo político transtorna a multidão, e o descontrole leva a ações radicais, mas também a repressões violentas causando dezenas de mortes de inocentes vítimas das manipulações sectárias.
Mas é evidente que a explosão de mais uma nova onda de rebeliões decorre de uma disputa secular que envolve as três religiões que tiveram origem em um mesmo território, a palestina. Cristãos, Muçulmanos e Judeus disputam o controle de lugares sagrados, mas também a hegemonia política e o poder sobre áreas cujos potenciais de riquezas são imensuráveis ou porque possuem uma enorme importância estratégica por sua localização.
Contudo a intolerância tem atingido níveis crescentes em função da crise econômica que se espalha pelos países que sempre abriram suas portas para receber imigrantes que se constituíam em mão de obra barata, mas que recentemente passaram a se tornarem inconvenientes, em função do aumento do desemprego a níveis jamais vistos, em especial na zona do Euro, mas também nos EUA. Além da maneira fortemente preconceituosa como a mídia ocidental tem tratado os adeptos da religião muçulmana, principalmente depois dos ataques ao Word Trade Center, em 2001.
Manifestação contra EUA no Cairo
(Foto: IstoÉ)
Ocorre que o Islamismo tem se constituído na religião que mais cresce no mundo. Espalha-se pela Europa, se expande nos Estados Unidos e se torna a cada dia mais hegemônica por todo o Oriente Médio, Asia Central e em boa parte da África. No Oriente Médio em muitos países o crescimento absoluto do islamismo se dá não somente pelo aumento de novos adeptos, mas porque há uma população ligada a outras religiões que, em função das mudanças políticas, com a ascensão de grupos islâmicos ao poder, tem preferido buscar outros países, principalmente na Europa, mas também na América, e o Brasil é um dos mais escolhidos.
O exemplo maior é o Líbano, onde há cerca de duas décadas em torno de 70% da população era composta por cristãos. Nos últimos anos, como decorrência de uma forte mobilidade de pessoas que fugiram de países em guerra, em sua maioria islâmicos, houve um forte aumento da população muçulmana. Em contrapartida, os católicos sentem crescer um ódio religioso e, não só porque se tornam minoria, mas porque as autoridades estatais não se esforçam, ou são submetidas à pressão sectária, para lhes garantir proteção contra uma intolerância crescente. A presença do Papa, nesse momento em que a população mais uma vez retorna às ruas em grandes manifestações, tem o objetivo de convencer os cristãos a não abandonarem suas terras de origem.
Onda de protestos se espalhou
rapidamente (Reuters)
A Síria, que se envolve em uma guerra civil sangrenta, é outro exemplo de país onde a diversidade religiosa era respeitada. Nesse momento, o governo de Bashar Al Assad acusado de reprimir violentamente os opositores, se encontra em fogo cruzado, tendo do outro lado a união dos países ocidentais que desejam sua destituição. Mas é uma situação que, caso ocorra, causará o mesmo efeito obtido na Líbia, ascendendo ao poder grupos islâmicos, dispostos a aplicar a Sharia e a submeter o novo governo aos dogmas contidos no Alcorão. Isso é o que mais teme a população cristã naquele país, bem como as demais minorias que ali vivem. Por isso esses setores continuam apoiando o dirigente sírio e temendo sua queda.
Mas, embora pela política que lhes desfavorece, em função dos interesses estratégicos, essa população tenha motivações de sobra para se rebelar, é lamentável que essa multidão seja manipulada por motivos de tão menor importância nessa realidade complexa em que vivem. Evidentemente que são inconcebíveis atos que visam desprezar ou ofender a fé de um povo. Embora isso seja feito indistintamente, ao longo de séculos de histórias. Melhor dizer, ao longo dos últimos dois milênios.
Então o que acontece é, na verdade, a utilização de um pretexto, a manipulação disso pelos setores sectários e pelos grupos organizados, principalmente a Al Qaeda que, paradoxalmente, ocuparam mais espaços nos países onde ocorreu a chamada “Primavera Árabe”.
O atentado ao consulado dos Estados Unidos na Líbia é um claro exemplo do oportunismo desse grupo, que viu nesse momento uma chance para desencadear novas manifestações, desta feita diretamente voltada contra os Estados Unidos, e afirmando ser uma vingança contra recentes assassinatos de seus líderes. A Líbia é um país que a mídia esqueceu, como se a morte do Khadafi o tivesse conduzido para o melhor dos mundos. Mas hoje está completamente dividido, com regiões dominadas por grupos que não foram desarmados logo após a queda do ditador líbio. No caso específico do atentado, que causou a morte do embaixador estadunidense e de outros três funcionários no dia 12/09, provavelmente já teria sido preparado antes do filme ofensivo ao Islã ter se tornado público. Mas contribuiu para inflamar a multidão, que criou coragem naquele país e em outros, principalmente no Egito, onde manifestantes carregavam cartazes com a imagem de Osama Bin Laden, e no Iêmen.
"Drones", aviões não tripulados,
utilizados para eliminar suspeitos
É nesse país onde as manifestações estão ocorrendo com maiores violências. E foi ali também que nos últimos dois meses os EUA assassinaram inúmeras pessoas suspeitas de serem militantes da Al Qaeda. Pelo menos um deles foi confirmado como sendo um dos mais procurados dessa organização. Os ataques que levaram à essas mortes foram realizadas por aviões não tripulados, os conhecidos “Drones”, cuja ações já eliminaram outros militantes islâmicos no Paquistão e Afeganistão, dentro da nova estratégia de “guerra silenciosa”, desencadeada pelo Pentágono desde a morte de Osama Bin Laden e a partir da chegada de Obama à Casa Branca. (Veja artigo publicado aqui no Blog: http://www.gramaticadomundo.com/2012/06/uma-guerra-silenciosa-o-ataque-dos.html)
Nessas ações violentas, que não se limitam ao Oriente Médio, mas que ali assumem uma relevância especial, vê-se claramente a presença de um grupo terrorista que se imaginava ser destruído com a morte de seu principal líder, em condições humilhantes. Um erro colossal, pois o que alimenta essa e outras organizações sectárias é a própria política das potências ocidentais naquela região, em especial os Estados Unidos (Leia também: http://www.gramaticadomundo.com/2011/05/bin-laden-esta-morto-mas-e-osama.html). Muito embora não possa ser imputada somente a esse grupo toda a revolta que se espalha e toma proporções perigosas, na medida em que embaixadas são atacadas, já que são considerados territórios livres, e controlados pelos países que estão ali representados.
Manifestantes carregam cartaz com
foto de Bin Laden no Egito
(Imagem: UOL)
O maior problema do Oriente Médio não é a religião, mas sim a enorme reserva de petróleo que existe em seu subsolo e também em limites territoriais marítimos de alguns países. Mas tanto lá, quanto em qualquer outra parte do mundo, a intolerância religiosa agudiza situações que já são, por questões geopolíticas, extremamente complicadas. O comportamento sectário potencializa essa situação e, como em outras épocas, pode levar a guerras que terminam acontecendo por motivos diferentes daqueles pelos quais alguns desses países estão se preparando. Podemos citar o embate entre Irã e Israel, em vias de se enfrentarem militarmente.
Não há dúvida que setores interessados nesses confrontos se aproveitarão desse momento para insuflarem em direção a um conflito de grandes proporções. Mas o que fica, em termos de preocupações quanto ao que pode ocorrer futuramente, é o potencial que a intolerância religiosa possui (como há séculos) para levar o mundo a uma guerra mundial. Pelo que estamos vendo, essa não é uma hipótese remota, pela simples razão de que há quem deseje isso, até pelas circunstâncias em que vive aquela região desde o final de 2010, e o mundo, como decorrência de uma crise econômica que se estende desde quando os Estados Unidos sofreu um ataque que mudou os rumos da geopolítica mundial em 11 de setembro de 2001.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

UMA ANÁLISE DA GREVE NAS UNIVERSIDADES: SE NÃO APRENDEMOS COM O PASSADO, O QUE PODEMOS ESPERAR DO FUTURO?


COMO PEQUENOS GRUPOS SECTÁRIOS PODEM COMANDAR MULTIDÕES
Eu já escrevi dois textos aqui neste blog, descrevendo comportamentos sectários e intolerantes, e analisando a maneira como pequenos grupos radicalizam em seus discursos e nos comportamentos agressivos.
No primeiro deles (http://www.gramaticadomundo.com/2012/03/as-origens-da-intolerancia-e-o-fascismo.html), sobre a intolerância religiosa, o meu foco é como a visão dogmática transmitida pela maioria das religiões, impõe certos comportamentos que desqualificam o outro e desrespeitam os que pensam e agem diferente daquilo que é ditado em suas igrejas.
No segundo (http://www.gramaticadomundo.com/2012/07/o-ovo-da-serpente.html) analiso a intolerância sob outro viés, e abordo a maneira como esse comportamento está presente nas redes sociais, principalmente em grupos que são criados para aglutinar um grande número de seguidores em uma comunidade específica. Fiz uma junção disso com as manifestações que têm reunido multidões por vários continentes, mas que carregam consigo uma característica interessante: abdicam da presença de partidos ou de entidades sociais. Nas redes e na multidão, cada um imagina ser todos, e, assim, tentam pela força impor sua concepção, sua visão de mundo, sua “verdade absoluta”. A maneira agressiva e desrespeitosa torna-se uma marca, porque assim se consegue intimidar seus opositores, ou silenciam aqueles que não têm por hábito ir para um enfrentamento político. O silêncio transforma-se em aceitação de comportamentos violentos e intolerantes.
Nos dois casos minha intenção era fazer uma relação com o surgimento do fascismo, e ir mais além. Na verdade esses comportamentos que analiso são responsáveis por levarem eventualmente ao comando segmentos que carregam um forte traço de autoritarismo, se impõe pela agressividade e, consequentemente pelo medo, e pela desinformação que é comum na maioria das pessoas. Quando em determinado momento a insatisfação se espalha em um lugarejo, cidade, ou em uma comunidade, o discurso radical, sectário e a criação de expectativas falsas, mediantes propostas mirabolantes, se impõe. O controle será mantido a partir de alguns elementos comuns a sociedades que se guiam por esses padrões autoritários: manipulação da informação, desqualificação das propostas alternativas, reduzindo-as a meras tentativas conciliatórias; agressão a adversários de forma a intimidá-los e fazê-los desistir de prosseguir no embate. E acima de tudo, a virulência nos seus comportamentos.
Mas há um elemento principal a conduzir tudo isso, a necessidade de convencer as pessoas de que tudo está sendo feito seguindo-se a ordem democrática. A democracia, desde que a burguesia soube encontrar nesse mecanismo um instrumento de controle da sociedade, passou também a servir pequenos grupos. Dessa maneira, em nome da democracia, uma multidão, ou uma sociedade, torna-se refém daqueles que dizem conduzi-los em nome da maioria (quanto a isso escrevi outro artigo: http://www.gramaticadomundo.com/2012/07/como-iludir-o-povo-com-slogan-de.html). Para isso, constrói-se uma estrutura uniforme, coesa, verticalizada, e elegem-se representantes mediante uma ordem estatutária, pela qual a maioria que se visa não é a da totalidade representada, mas dos que se apresentam em determinados momentos, nas chamadas assembleias “representativas”.
Paquidermicamente, a comunidade queda-se parcimoniosa, e aceita ser representada por “lideranças” eleitas pela maioria em meio a uma minoria, em nome de todos e de todas. Melhor não querer entender toda essa matemática “democrática”. Mas o certo é que isso é consequência da abdicação que cada um faz, nessa comunidade, em participar. Aceita-se o jogo, embora dele não participe, senão na condição de um mero espectador. À distância, realizando outros afazeres, além daqueles que a “greve” não permite.
Há uma esperança, vã, de que a radicalidade seja o caminho para aumentos mais robustos. Como todos querem, naturalmente, e, em alguns casos, como dos professores, o que é plenamente justo. Assim, entregues à boutade de in-trépidos e virulentos “comandantes”, o destino passa a ser conduzido de forma dirigida, por essas pessoas “combativas”. São os senhores absolutos do destino, e ai dos que divergirem de seus “encaminhamentos revolucionários”. Agem como Dom Quixotes, a dilacerar os dragões em uma guerra que é vista somente aos seus olhos. São moinhos, estúpidos!
Mas, essa aventura surreal chegou a um fim. Esperado, por quem estava vivendo no mundo real. Sem querer ser mais realista do que o rei, mas reconhecendo que nesse caso, um esforço pequeno em nossos neurônios seria suficiente para perceber a estupidez que estava a nos dirigir, escrevi também um texto criticando a estratégia “burra”, a teimosia latente e o aparelhamento de uma vontade, em benefício de uma “birra” política em meio a uma disputa sindical:  http://www.gramaticadomundo.com/2012/08/a-greve-nas-universidades-nenhuma.html.
ROMPENDO COM A ANDES, CONSTRUINDO UMA NOVA ALTERNATIVA
Por causa desses comportamentos, que já se estendem por décadas, foi que houve um rompimento dentro do movimento docente. Era impossível conviver com o sectarismo da direção da Associação Nacional dos Docentes, Andes, muito mais preparada para fazer greves que tinham objetivos de derrubar governos e reproduzir programas partidários em suas teses, de grupos cujas propostas caem em descrédito entre aqueles que as leem, mas tornam-se bandeiras aceitas entre professores universitários. Parece um paradoxo, já que a maioria da comunidade universitária está bem distante de adotar a defesa de alguma bandeira esquerdista. Nesse ponto retorno ao que já escrevi parágrafos acima. Essas teses e propostas não são lidas, e os professores se limitam a acreditar que a radicalização será o caminho para “dobrar” o governo, e abdicam de questionar o comportamento adotado pelos grupos que estão na condução do movimento.
Assim, vários professores que faziam parte de muitas Associações de Docentes, deram um basta a essa situação. A máquina construída em torno da Andes, para manter essa política em vigor era difícil de ser vencida. Começando pela quantidade de professores necessários para compor uma chapa que pudesse concorrer às eleições: mais de 60. Além do controle exercido sobre a maioria das associações, cujo poder sempre foi segurado à custa desse “cheque em branco” concedido pela ausência dos professores dos órgãos decisórios, e do forte aparelhamento a uma única linha ideológica.
A consequência foi a criação do Fórum de Professores das Instituições Federais de Ensino Superior (PROIFES), surgida como um embrião de uma futura federação dos professores, vista como o mecanismo ideal e mais democrático de estruturação de uma entidade que nos representasse de forma mais plural, abrangendo professores com concepções diversas, refletindo assim a composição da própria universidade.
A ênfase principal se daria sobre a necessidade de se buscar por todos os caminhos, desde a pressão até a articulação política via parlamentares, uma mesa de negociação com ministérios responsáveis por definir nossos destinos enquanto servidores públicos federais: o Ministério da Educação e o Ministério do Planejamento e Gestão.
Partia-se do pressuposto que somente dessa forma seria possível corrigir as distorções em nossas carreiras, e que os embates sectários e de radicalidade artificializada somente atrapalhavam as nossas negociações. Afinal, pudemos viver nos últimos anos com governos que, se não cedem em tudo que reivindicamos pelo menos se abrem a negociação e mantém canais de diálogos que têm sido explorados. Foi assim que conquistamos mais degraus em nossa carreira. Embora nem tudo seja perfeito, e alguns comportamentos mais excessivamente conciliatórios devam ser contidos.
Foi possível ver, com a criação do Proifes, e mais recentemente da Federação dos Professores nas IFES, o quanto as propostas apresentadas pela Andes eram, além de irreais, profundamente nocivas para uma carreira docente que deve se pautar, principalmente, pela valorização daqueles que se dedicam permanentemente por sua qualificação.
Porcentuais mirabolantes, claramente inaceitáveis pelos governos, vistos que os impactos momentâneos nas leis de diretrizes orçamentários seriam extremamente elevados, e propostas de carreiras absolutamente retrógradas, mirando na valorização maior das camadas de menor qualificação e nos que não se dedicam exclusivamente à universidade. Numa completa inversão da lógica que tem conduzido a universidade brasileira nos últimos anos, e tudo que se espera em uma instituição que aposte cada vez mais na qualificação de seus profissionais. Essa sempre foi a proposta da Andes para a universidade brasileira.
Professores em Brasília. A UFG está mesmo
morta, como faz crer alguns? (Foto publicada
na revista Veja, para atacar a Universidade)
É natural imaginar que em uma universidade, cuja maioria de seus professores atualmente encontra-se na condição de adjunto e associado, portanto já com doutorados, rejeitasse essas propostas. Mais é surpreendente ver que isso não acontece. Pelas razões já expostas, a meu ver. Entrega-se em mãos de quem tem comportamentos mais radicais o destino da categoria, além de, e talvez isso seja a razão principal, desconhecer completamente as propostas tais como elas são escritas e apresentadas nas pautas junto às mesas de negociações.
Assim, a maior parte dos colegas desconhece a real profundidade das propostas que, indiretamente, pela abstenção e concessão de suas vontades, eles estão apoiando. Se as lessem, certamente rejeitariam. Porque são bizarras, diante daquilo que temos construído nos últimos anos em nossas universidades, e na UFG, em particular. São retrógradas, se comparadas às necessidades de valorização das qualificações, conforme dito, mas que deve ser repetido.
Mas a ênfase nessas propostas, pois se sabe que elas não são conhecidas, segue uma estratégia adotada nessas assembleias em comunicados histriônicos dos comandos locais e nacional de greve. Para o “convencimento” ser mais convincente, com perdão da redundância, eleva-se os porcentuais de reajustes a níveis estratosféricos. Mais de cem por cento. Que beleza! Quem sabe pode ser, afinal, sempre desejamos tocar a lua.
COMO CONSTRUÍMOS NOSSOS DESTINOS?
Alguns poderão dizer que essa é uma opinião. Naturalmente, de quem está escrevendo. Mas desafio a discordarem do que está dito aqui, após analisarem todo o comportamento que guiou essa greve desde o seu começo até a última assembleia. O não esquecimento é o melhor remédio para o combate aos comportamentos mais pervertidos. E, principalmente, lerem a proposta de mudança em nossa carreira elaborada pela Andes e compará-la com aquela que foi negociada entre o governo e o Proifes. Se depois que isso for feito a opinião for diferente da minha, humildemente acatarei, mas me reservo também no direito de incluir o eminente “sábio” no grupo dos que precisam deixar de lado o surrealismo e se deparar rapidamente com o mundo real.
É uma característica da universidade, templo do conhecimento e da ciência, a busca permanente pela verdade – embora ela jamais seja absoluta –, através do caminho da ciência, da lógica, do método comparativo entre o que construímos em hipótese e aquilo que a realidade empírica nos impõe.
Então é isso que deve ser feito. Encerrada esse movimento que intitulei de “a greve dos maias” (já que se imaginava chegar a dezembro, a fim de ver comprovada a profecia dos povos Maias, do caos absoluto e do fim do mundo, para em seguida vir à redenção), é importante que cada professor tome conhecimento das propostas que foram apresentadas e, de per si, possam firmar uma compreensão equilibrada a respeito do que estávamos lutando, o que conquistamos, e o que nos faziam crer ser o começo de uma proposta de “universidade popular”.
Nenhum problema que isso seja feito lá pelo mês de janeiro ou fevereiro. Assim, em meio a um período em que deveríamos estar descansando, possa cada colega ver se valeu a pena a insistência por uma proposta previamente derrotada, porque jamais seria aceita em uma mesa de negociação com o governo, pelo próprio caráter antagônico ao projeto de universidade que foi construído nos últimos anos. E que possa se perguntar, em sendo assim, porque essa greve não acabou antes?
Espera-se então, depois de mais um ensinamento prático, que continuemos fortalecendo o nosso sindicato (em Goiás, a ADUFG), para que este possa cumprir o seu destino. Na linha daquilo que acreditamos ser mais apenso à realidade do que o que se pretendeu alguns aventureiros que buscaram aplicar um golpe, com uma radicalidade que beirou ao comportamento fascista, desde agressões a professores, intolerâncias e digressões psicológicas, à aceitação da condução infantilizada por séquitos de “radicalóides”, uma chusma para a qual o grupo Ultraje a Rigor já havia, na década de 1980 criado a sua trilha sonora, com a música “Rebelde sem causa”. Não generalizo. Mas isso que relato foi fato no começo dessa greve. E não somente em Goiás.
A lição é que a Universidade não pode abdicar de seus princípios e valores, em um ambiente que se caracterize pelo respeito à diversidade de ideias, mas que o debate consiga fluir de forma respeitosa e baseada em uma disciplina que respeite o papel que nela desempenha quem produz e transmite conhecimento. Ou despertamos para isso imediatamente, ou em breve nos depararemos com os mesmos problemas que enfrentam escolas de periferia (mas não somente elas), onde o desrespeito e a agressividade têm afastado muitos professores. Se prosseguirmos aceitando comportamentos como o que vimos no decorrer dessa greve, corremos o risco de nos tornarmos um grande escolão, sem disciplina, com inversões de valores e com a estupidez a nos comandar.
As coisas não ocorrem aleatoriamente, tudo está ligado por situações que determinam como será o nosso futuro. Ele é construído agora, a partir das decisões, ou vacilações, que definem o caminho por onde vamos seguir. É assim que construímos nossos destinos. Tudo decorre das escolhas que fazemos, e nada acontece por acaso. Então, fica a seguinte questão: que universidade queremos? Sua resposta, e o grau de engajamento para concretizá-la, definirá como poderemos ser amanhã.