sábado, 18 de abril de 2015

A SANHA GOLPISTA E A HISTÓRIA COMO TRAGÉDIA. ASSISTIMOS AGORA UMA FARSA.

CRÔNICAS DE UM MUNDO EM TRANSE
“A história se repete, a primeira vez como tragédia,
 e a segunda como farsa”.
Karl Marx

Vou iniciar este artigo, reafirmando o que disse nos dois anteriores, que completam com este uma trilogia sobre a situação política brasileira. Não há uma crise econômica brasileira, há uma crise capitalista, na qual o Brasil se insere por fazer parte de um sistema global. E a crise política se encontra agudizada porque há fortes interesses geopolíticos, que estão desejosos, e agem diretamente para isso, em desestabilizar o governo brasileiro e ferir de morte o principal partido de esquerda. Tudo isso faz parte de um projeto, que tem por trás a necessidade de reafirmação dos interesses hegemônicos dos EUA, bem como a garantia de que não prosseguirá, no Brasil e na América Latina, os rumos de uma política focada em projetos sociais regionais, alinhados com os BRICS.
Posto este parágrafo concluirei essa assertiva pedindo que os céticos, que divergem desse posicionamento, revejam a situação vivida pelo Brasil no período que antecedeu ao golpe militar de 1964. E mais, o que se tentou negar por décadas, o envolvimento dos EUA em toda a sorte de manobras visando atingir o auge do desgaste de Jango, e até mesmo oferecendo suporte militar aos golpistas,[1] terminou por ser confirmado quando se abriram os arquivos estadunidenses sobre aquele período, as responsabilidades daquele país na desestabilização do governo brasileiro,[2] que caminhava para a esquerda e se alinhava com a China.[3]
Presidente Lindon Johson, conversa
com o embaixador estadunidense no
Brasil. Apoio ao golpe.
Mais recentemente, espalhando-se desde o começo do século XXI, são nítidas e comprováveis, a participação dos EUA em diversas ações de desestabilizações de governos hostis a seus pensamentos e que buscam outras alternativas para consolidar alianças políticas regionais e globais.[4] As chamadas revoluções coloridas nos países da Europa Oriental e Ásia Central, as tentativas de derrubar os governos da Venezuela e da Bolívia, os “golpes constitucionais” aplicados em Honduras e no Paraguai, mais uma vez a “revolução” ucraniana (duas em uma década), as revoltas em Hong Kong, na China, a eterna tentativa de desestabilizar o governo argentino, e agora o Brasil. Por trás disso, uma estratégia difundida por Gene Sharp. Um livro elaborado aparentemente para servir como instrumento às iniciativas de se lutar contra as ditaduras (o alvo era, naturalmente, os países da antiga União Soviética), terminou por se constituir em uma cartilha utilizada por ONGs e partidos financiados por corporações, megaespeculadores, como Georges Soros, e governos interessados em alterar a correlação de forças políticas de alguns países de importância estratégicas. O livro de Sharp, e o documentário sobre ele, constituíram-se em instrumentos ideais para orientar os grupos que foram criados e que passaram a agir com escritórios de representações em todo o mundo. Disfarçados em Organizações cujos objetivos seriam propagar e defender a democracia. Segundo BANDEIRA (2013),
From Dictatorship to Democracy, traduzido para mais de 24 idiomas, foi distribuído através do Cáucaso por Freedom House, Open Society Institute, International Republican Institute (IRI), National Endowment for
Democracy (NED) e CIA, e serviu de manual para as “revoluções coloridas”, inclusive no Azerbaijão, onde quatro grupos – YOKH! (Não!), YENI FIKIR (Novo Pensamento), MAGAM (É tempo) e Movimento Laranja do Azerbaijão – estabeleceram conexão com PORA, KMARA e OTPOR e empregaram os mesmos métodos de não violência defendidos pelo professor Gene Sharp e aplicados na Sérvia, Geórgia e Ucrânia. [5]
Em abril de 2002, uma das tantas tentativas de golpe contra o governo de Hugo Chavez, terminou fracassando e possibilitando que fossem denunciados os grupos internos e externos, que procuraram desestabilizar o governo, com manifestações populares, utilizando da mesma estratégia apontada por Moniz Bandeira para os países da Europa Oriental. Em programas de TV, e depois no documentário, disponível no You Tube, “A Revolução não será televisionada”,[6] Chavez apontou os interesses dos EUA por trás da tentativa de golpe, e denunciou a ingerência dessas ONGs, criadas com esses objetivos. 
Um desses grupos, o OTPOR-CANVAS, surgido na Sérvia e transformado em uma organização transnacional com o objetivo de desestabilizar governos,[7] agiu na Venezuela, Peru, Bolívia e Brasil. Em 2014, nos protestos contra Nicolas Maduro, a Otpor-Canvas se fez representar pela JAVU (Juventude Ativa Venezuela Unida), relação explicitada pela utilização do mesmo símbolo.  Após séries de artigos e publicações, essas ONGs mudam de estratégia e passam a oferecer cursos a grupos de jovens, financiados por corporações e pelos EUA, adotando denominações diferentes, muito embora vários deles prosseguissem utilizando suas marcas tradicionais, o punho fechado erguido.
A estratégia do professor Gene Sharp pautou em larga medida a política de regime change, incrementada pelo presidente George W. Bush, de acordo com o Project for the New American Century (PNAC). Ela consistia em fomentar o Political defiance, i.e., o desafio político, termo usado pelo coronel Robert Helvey, especialista da Joint Military Attaché School (JMAS), operada pela Defense Intelligence Agency (DIA), para descrever como derrubar um governo e conquistar o controle das instituições, mediante o planejamento das operações e a mobilização popular no ataque às fontes de poder nos países hostis aos interesses e valores do Ocidente. [8]
O governo Obama, diante da necessidade de mudar o comportamento explicitamente mais agressivo de Bush, impôs como nova agenda democrata, a velha estratégia do regime change, mediante o uso dos mecanismos apontados por Sharp, dando continuidade a esse comportamento sutil, de financiamento de “revoltas populares” pacíficas. E a transformação disso em golpes, com destituição de governos eleitos democraticamente, mas não alinhados aos interesses dos EUA.
Naturalmente o Brasil não ficaria fora dessa estratégia e todas as condições, semelhantes às situações ocorridas em países que passaram por processos de desestabilização, foram criadas com o intuito de abrir caminho para os desgastes da presidente Dilma. Em todas as demais situações aqui citadas, os mecanismos adotados foram os mesmos, e quase sempre ocorrendo depois de um processo eleitoral, mesmo que democrático, de resultados apertados, mas com derrota daqueles candidatos que representavam os interesses dos EUA.[9] Basta que se recorra às notícias, não aquelas transmitidas pelos grandes meios de comunicação, porque esses são instrumentos fundamentais para a implementação dessa estratégia de criar desordem institucional mediante pressões populares, cujas insatisfações vão sendo alimentadas gradativamente, mediante um pessimismo criado por uma overdose de más notícias.
Obviamente a situação econômica interna é um elemento forte para dar o primeiro passo gerador de insatisfações. Mas, no caso brasileiro, essa não é uma situação irreversível. Ao contrário dos governos FHC, quando a crise naquele período impôs submissões humilhantes do governo brasileiro ao FMI, por três vezes recorrendo a empréstimos e tendo que aceitar ingerências dessa organização na definição das políticas internas brasileiras, a condição atual não requer isso.[10]
No entanto, a crise fiscal e o necessário ajuste na economia, principalmente em relação aos gastos do governo, foram o mote para que as informações fossem manipuladas, e as manchetes de TV e jornais conservadores injetassem medo e desânimo na população. Entre os grandes empresários, esse comportamento é oportunista. Alinhados com as políticas conservadoras, o locaute (lockout), mesmo que disfarçado, constitui-se em mais um instrumento para gerar desestabilização, porque termina por reduzir a produção e automaticamente elevar os preços. Mas, principalmente, forçar os trabalhadores a aceitarem redução de seus salários ou justificar demissões em massa, responsabilizando o governo. A crise, forjada ou não, se torna também um elemento a garantir maiores lucros a gananciosos empresários.
Outro elemento, sempre muito utilizado para justificar destituições de governos, são as investigações de corrupção. O que acontece atualmente no Brasil, com foco na principal empresa estatal, uma das maiores exploradoras de petróleo do mundo, envolve os velhos corruptos e corruptores de sempre, adicionados na lista um pequeno grupo de novos personagens, cuja sedução do poder e a cooptação pelos agentes que corrompem, azedam a situação para o governo, mesmo que este esteja a apoiar todas as medidas de investigações sobre os malfeitos em relação à coisa pública (res pública).
Ora, mas qualquer governo está sujeito a ser jogado na mesma lama das corrupções que ele próprio instiga a serem investigadas. Porque se torna um forte instrumento nas mãos da oposição, via mecanismo tradicional da hipocrisia política, pelo qual os mesmos que denunciam constituem-se, eles próprios, em investigados,[11] e, eventualmente, réus em processos pouco difundidos ou mostrados pela mídia tradicional, em função de serem aliados no objetivo principal: derrubar o governo legitimamente eleito. Para isso, uma investigação já instrumentalizada por agentes de um judiciário também corrompido e com interesses políticos claros, torna-se direcionada não somente para a identificação dos ilícitos, mas para constituir provas que possam servir como pretexto para abertura de pedidos de impedimentos daquele governante. Daí, com a legitimidade da investigação sendo posta à prova, pelo desvio de suas funções, nos deparamos com os arremedos constitucionais, bem peculiar no âmbito do juridiquês político, que passaria a justificar o golpe fatal, transformando a história, de tragédias passadas, em atos farsescos nos dias de hoje, à semelhança das acontecidas desde as calendas gregas.
Tal se torna obsessiva essa trama, que a cada dia órgãos onde se situam agentes conservadores, ou pelas páginas de uma imprensa reacionária, buscam demonstrar incessantemente situações que possam dar vazão ao instinto golpista presente em partidos conservadores, fiéis e submissos aos interesses hegemônicos dos EUA.
Não resta dúvidas, agora com a mudança de foco para o TCU, que os opositores ao verem as manifestações se esvaziarem e não identificarem nada através da Operação Lava Jato que pudesse atingir a Presidenta, buscam se agarrar a qualquer pretexto para tentarem entrar com processo de impeachment. Deixam cada vez mais claro que por trás dessas ações está a contrariedade pela derrota sofrida nas últimas eleições, e temem uma recuperação do governo que possa projetar com mais força do que naturalmente já tem, o nome do ex-presidente Lula à sucessão de Dilma Roussef. De um lado, apostam no quanto pior melhor, e se escoram numa mídia venal que trata a cada dia de injetar mais pessimismo na sociedade, e, por outro lado, garimpam em meio a artifícios oportunistas motivos que venham a satisfazer suas sanhas golpistas.
Ao mesmo tempo procuram aplicar um golpe de morte no Partido dos Trabalhadores, responsável pelas quatro últimas campanhas vitoriosas e, em que pese os erros cometidos e os envolvimentos de alguns dos seus em atos ilícitos e de corrupção para angariar recursos com o intuito de bancar caixa 2 em campanhas eleitorais, algo comum no ambiente político brasileiro até então, não é por isso que tem angariado um ódio crescente de fascistas, direitistas e conservadores. Ou tudo isso junto e misturado.
O ódio crescente, alimentado pela mídia, aos três últimos governos, se deve a ações e políticas de cunho sociais que em pouco tempo, embora ainda muito incipiente para resgatar a herança perversa de séculos de desigualdades sociais, conseguiram deslocar milhões de brasileiros e brasileiras da condição de miséria absoluta para uma convivência mais decente, inserindo-os no mercado de consumo. A elevação do poder de compra do salário mínimo, por exemplo, esteve presente no momento de duas outras graves crises brasileiras. Quando do assassinato do presidente Getúlio Vargas, juntamente com outras garantias trabalhistas, e no governo João Goulart, que com outras questões sociais colocadas em pauta pelo governo gerou um alvoroço conservador que abriu caminho para o golpe de estado e a instalação de uma ditadura militar.
Tudo isso considerando o fato que tudo que se fez ainda representa um percentual irrisório, diante daquilo que precisa ser feito no Brasil, para recompor a sociedade diante das mazelas geradas pelas inexistências de políticas públicas sociais por tantos anos, até a virada do século XXI. Por exemplo, um dos temas mais polêmicos desde sempre aqui no Brasil, a questão da terra, a Reforma Agrária, teve avanços pífios nessas últimas décadas. Tema este que esteve dentre os mais polêmicos na pauta de medidas que seriam adotadas por Jango nas famosas Reformas de Base, e que foi um dos fatores que levaram os partidos conservadores brasileiros a apoiarem o golpe militar. 
Da mesma forma, quando da realização da Assembleia Nacional Constituinte, em 1985, cujo embate com as forças progressistas levou os setores da burguesia agrária a criarem a famigerada UDR, cujo adjetivo “democrático” no nome escondia milhares de cadáveres de camponeses, assassinados por milícias de pistoleiros. E esses criminosos, estão aí, desfilando em praça pública, arrotando “liberdade” e, com comportamentos fascistas, pregando abertamente golpes. Como o seu ex-presidente, Ronaldo Caiado, recentemente acusado pelo ex-senador cassado, Demóstenes Torres de ser, ele também, um grande corrupto, tendo sido financiado por dinheiro de contravenção. Senador por Goiás, essa figura lidera a bancada do boi, que aglutina centenas de parlamentares, que por todo o país, desde décadas e séculos, roubam e grilam terras nesse país.
Em um trabalho de investigação que desenvolveu, com base nas análises das declarações de bens de diversos parlamentares, o jornalista Alceu Luis Castilho faz uma radiografia dessa realidade. (CASTILHO, 2012)
A primeira parte do livro (“O território”) traz uma radiografia da posse de terra por políticos. Tanto nas Unidades de Federação em que eles foram eleitos, mas também fora delas. O levantamento mostra como os políticos latifundiários detém uma parcela significativa do país; e como eles migram sistematicamente suas posses para as fronteiras agrícolas.
A segunda parte do livro (“O dinheiro”) esmiúça histórias dessa relação entre políticos e a terra. Uma história nem sempre republicana. Vão se delineando melhor os personagens dessa conquista do território: dos prefeitos de pequenos municípios no interior a governadores e senadores. Alguns, famosos – e enriquecidos.
Na terceira parte (“A política”) temos detalhes sobre a famosa bancada ruralista. Como ela vota, como os congressistas têm suas eleições financiadas por grandes grupos agropecuários. Porque políticos com campanhas financiadas por empresas votaram a favor do novo Código Florestal?[12]
Portanto, pouco se mexeu nos últimos anos nessa estrutura montada com base no saque e roubo de milhões de hectares de terras. A cada ano mais concentrada nas mãos de uma minoria, que junto com a alta burguesia, poucos elementos deitados em berços esplêndidos no topo da pirâmide, controlam os meios de produção, tendo ao lado os banqueiros, também contumazes achacadores e acumuladores da riqueza dos brasileiros. Embora tendo continuado se locupletando cada vez mais mesmo nesses anos de governos do Partido dos Trabalhadores, isso ainda é pouco para o que eles representam. Desejam o Poder político, o comando do Estado e o controle da Nação, para nos manter debruçados, ajoelhados, diante do “big brother”, que a todos espionam, controlam e ameaçam: os EUA.
Não que o PT fosse seus aliados, ou cúmplices, mas porque, dado as próprias características e origens desse partido, com base na social-democracia europeia, e no engajamento cristão das Comunidades de Base, não se propunha acabar com o capitalismo, nem com as estruturas que garantem essa concentração de rendas. Portanto, mesmo com as políticas de inclusão social, concentrada em programas importantes como o Bolsa Família, os ganhos da burguesia se ampliaram consideravelmente, aumentando suas riquezas. Mas o simples fato de haver políticas sociais voltadas para o atendimento da população mais pobre, já é suficiente para despertar o ódio desses segmentos. O velho, conhecido e estudado desde Marx, ódio de classe. Pois, ao contrário do que imaginavam os velhos neoliberais, ou os intelectuais acovardados que se renderam à ideologia da globalização, a luta de classes não acabou. E não acaba, porquanto o capitalismo prevalecer.
Passadas essas turbulências, espera-se que o Partido dos Trabalhadores, e demais partidos de esquerda, reflitam sobre a radicalidade do comportamento dos partidos conservadores e da direita. E busquem por meio da unidade de ação, o que não significa que cada um abra mão de seus projetos, que possam fortalecer as principais bandeiras dos trabalhadores, das entidades de classes e organizações sociais sérias. É preciso ter a clareza que esses setores não se conformam com a perspectiva de viverem numa sociedade que caminhe para um ambiente mais democrático, com melhores garantias de vida para a maioria da população, com distribuição mais equitativa da riqueza e com uma reforma agrária que garanta acesso a terra para milhões de camponeses dela deserdados. Eles temem perder as regalias conquistadas à custa da pobreza, não admitem a perspectiva do pobre poder atingir um patamar de vida mais decente.
Contudo, por deter os principais meios de comunicação de massa, esses setores conseguem converter os mais pobres, com o apoio de um neopentecostalismo reacionário crescente, e deixá-los cegos diante da simples realidade que mostram onde se concentram a riqueza. Por todo esse tempo, de massacre midiático sobre o governo, pouco a pouco, com mentiras, boatos e manipulação da notícia, a base que elegeu a presidenta foi sendo minada. Consequência de mais um dos equívocos cometidos pelo governo durante todos esses anos, desde o primeiro mandato do presidente Lula. A ausência de coragem para adotar medidas semelhantes às que foram tomadas na Venezuela, na Argentina e Equador, com leis que viessem a controlar os órgãos de imprensa, jornais, rádios e televisão. 
Não se trata de censura, como eles fazem crer, numa defesa típica de um ataque, pelo que nossa sociedade viveu no período da ditadura. Mas se trata de garantir que, essas concessões públicas, não se constituam em um poder paralelo, um quarto poder como é denominado, pela dimensão e alcance que tem no meio da população, sem nenhum tipo de controle e agindo de acordo com seus interesses, e em benefício de seus aliados. Isso é necessário pelo simples fato: é preciso democratizar esses órgãos, pois a liberdade que eles defendem pra eles, e que existe, constitucionalmente, não é garantida por meio de informação honesta e com espaços iguais a setores sociais que são submetidos à opressão e repressão dos que detém o poder econômico.
Por fim, embora ainda haja muito a ser dito, um governo de esquerda, embora tenha a necessidade de fazer composições com os partidos de centro, para ter garantia de governabilidade, não pode, jamais, abdicar de bandeiras que sempre foram fundamentais para aglutinar os movimentos sociais, e que foram responsáveis pelos últimos resultados eleitorais. Não se pode esconder da população, a verdade. É preciso estabelecer canais de comunicação com as camadas mais pobres e oprimidas, auscultá-las, sentir seus problemas e não ter medo de tomar posições firmes e decididas, que requer escolhas de políticas radicais, não somente progressistas. Mais do que isso. Porque só assim será possível reverter um terrível quadro de desigualdades sociais. Além da necessidade de jamais deixar de estar perto do povo, e de organizá-lo, de formá-lo política e ideologicamente, de transmitir a esse povo confiança em suas ações.
Assim sendo feito, nos momentos de crise como esse, de nítida luta de classes, esse povo saberá de que lado ficará. Os círculos bolivarianos na Venezuela são um exemplo disso. Mas o que foi feito aqui no Brasil, em termos de fortalecimento dos movimentos sociais? Pouco se fez o que, em parte, explica o fato de haver insatisfações mesmo entre aqueles que melhoraram de vida como decorrência das ações dos três últimos governos, e que até pouco tempo votaram na presidenta Dilma para mais um mandato.
É preciso combater a direita, os setores fascistas, os falsos democratas que se recusam a aceitar a derrota nas urnas. Mas é preciso tomar atitudes e explicitar, com medidas concretas e mais duras, de que lado está o governo. Isso não é fácil, leva a embates, mas é preciso fazer. Ademais, como estamos vendo, mesmo não fazendo isso esses setores mexem-se nas catacumbas buscando inspirações em velhos fantasmas, e tentam apregoar mais um golpe contra a frágil democracia brasileira.
Embora tudo isso, é inegável que o Brasil mudou, e de forma visível, neste século. Mas ainda falta muito, para que possamos atingir um estágio mais avançado em termos de recomposição das desigualdades sociais. Por isso, esse momento é crucial, é preciso avançar mais, e jamais permitir qualquer tipo de retrocesso. Devem-se corrigir os erros, dar a volta por cima, e acreditar, como dizia o poeta e escritor Eduardo Galeano, falecido nessa semana, que se a utopia se afasta, devemos estar consciente de que é para isso que ela nos serve, para que possamos caminhar, seguir em frente, podendo vê-la no horizonte. Cada vez que caminhamos ela se afasta, aí é preciso caminharmos mais.




[1] O Papel dos Estados Unidos no golpe de 1964 – Luis Nassif. (http://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/o-papel-dos-eua-no-golpe-de-64)
[3] 1964: A CIA e a técnica de golpe de estado – Luiz Alberto Moniz Bandeira - http://www.espacoacademico.com.br/034/34ebandeira.htm
[4] As revoluções coloridas: os golpes do século 21 – Por Natália Viana. http://www.viomundo.com.br/denuncias/publica-como-funcionam-as-revolucoes-de-veludo.html
[5] BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. A Segunda Guerra Fria. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013. Pp. 108-109
[6] A Revolução não será televisionada – O golpe na Venezuela. https://www.youtube.com/watch?v=MTui69j4XvQ
[7] O Negócio da Revolução – https://www.youtube.com/watch?v=tJE91Cm1oYc
[8] BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Idem. P. 107.
[9] “EUA promovem desestabilização de democracias na América Latina”, diz Moniz Banderia - http://www.revistaforum.com.br/blog/2015/03/eua-promovem-desestabilizacao-de-democracias-na-america-latina-denuncia-moniz-bandeira/
[10] FHC fechou três acordos com o FMI; confira o histórico. http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u53074.shtml

[11] Os defensores do Impeachment na operação “Puxando a Capivara”. http://www.vermelho.org.br/noticia/262445-1#.VTEfyxVHGo8.facebook

[12] CASTILHO, Alceu Luís. O Partido da Terra. São Paulo: Contexto, 2012. Pág. 10.

domingo, 12 de abril de 2015

BRASIL: DA CRISE REAL AO PÂNICO MIDIÁTICO

CRÔNICAS DE UM MUNDO EM TRANSE - (Continuação)

No artigo anterior que postei aqui no Blog, procurei analisar a conjuntura internacional nos últimos anos e as transformações que aconteceram em várias partes do mundo. Penso que é impossível compreender a crise brasileira fora do contexto internacional. As mudanças que aconteceram aqui e na América Latina estão diretamente relacionadas às mudanças na geopolítica mundial desde o 11 de setembro de 2001, com o ataque às torres gêmeas do World Trade Center.
Mais uma vez recorro à série de artigos que escrevi em 2012, denominada “Crônicas de um Mundo em Transe”. Os links encontram-se na postagem citada.[1] Assim, posso aqui fazer referências pontuais a elementos chaves da política desenvolvida pelos Estados Unidos, e seguidas por dezenas de países aliados, no auge da comoção pelo atentado que matou mais de três mil pessoas, na ação mais ousada em solo estadunidense desde a Segunda Guerra Mundial, com os ataques de aviões kamikazes japoneses à base de Pearl Harbor.
As retaliações que vieram a seguir com uma estupenda movimentação de tropas e a invasão de dois países, o Afeganistão e o Iraque, completamente destruídos e com seus governos destituídos, trouxe também um forte efeito colateral. O enorme gasto militar para dar sustentação a deslocamentos de soldados e armas, e o desvio das atenções em relações às políticas da América Latina, foram cruciais para gerar um forte abalo econômico e geopolítico nos interesses estadunidenses. Alie-se a isso forte impacto financeiro causado pela destruição de um símbolo econômico do poder imperial daquele país, e a quase falência da indústria de securitização, uma vez que nas torres encontravam-se escritórios de representação financeira de empresas de vários países, bancos e até mesmo matrizes das próprias grandes seguradoras.
O impacto foi grandioso, pouco medido, mas difícil de ser contestado. Os dois fatores somados, as consequências econômicas geradas pelos atentados e as ações de guerras no Afeganistão e no Iraque, abalaram a maior economia do mundo. Por extensão afetaram boa parte dos países, notadamente os de maiores influências nos mercados internacionais.
Os anos subsequentes foram de profunda insegurança, medo e de endurecimento na vigilância dos cidadãos estadunidenses e, principalmente, de outras partes do mundo. O ambiente gerado por essas medidas afastou a população de centros e áreas importantes, o temor de novos atentados trouxe intranquilidade e fez com que houvesse uma significativa redução do consumo. Isso levou a medidas de incentivos por parte do governo Bush, com redução de taxas de juros, a fim de fazer com que a economia voltasse a funcionar dentro dos padrões da normalidade existente antes de 2001.[2]
Por outro lado, já que as atenções voltavam-se para o Oriente Médio e a Ásia Central, a América Latina deixou de ser uma importante preocupação na geopolítica estadunidense naquele momento. Com isso possibilitou que coalizões de esquerda conseguissem derrotar governos neoliberais, alinhados com os EUA, e seguissem o caminho que a Venezuela trilhara ainda no final do século XX, com a eleição de Hugo Chavez. O Século XXI iniciava-se com uma profunda reviravolta no espectro político internacional, e afetaria os anos seguintes, culminando com a crise econômica que atingiu mundialmente o sistema capitalista e que estourou no ano de 2008.
Mas deixou consequências na Ordem Mundial que viria a tornar o mundo mais inseguro e com uma quantidade maior de conflitos espalhados por praticamente todos os continentes. A América, naturalmente não foi exceção, pelo ambiente tenso gerado pelas alterações de poder, levando muitos governos a adotarem políticas desenvolvimentistas, em contraposição ao forte neoliberalismo que vigorara nos anos 1990. E possibilitou a derrota de um projeto de criação de uma área de livre comércio que reforçaria a influência dos Estados Unidos, a ALCA. Não somente isso, como também uma inversão com o fortalecimento do MERCOSUL, o surgimento da ALBA (Aliança Bolivariana para as Américas) e, principalmente, da UNASUL.
Nenhum impacto foi maior, contudo, dentro do contexto da geopolítica mundial, e não somente regional, do que o surgimento do BRICS, bloco econômico, e geopolítico, que passou a aglutinar o Brasil, a Rússia, a Índia, a China, e, posteriormente, a África do Sul.
Enquanto os EUA se enrolavam cada vez mais em um novelo bélico de difícil saída e fartos gastos econômicos, a geopolítica mundial tomava uma nova direção com o surgimento de novos protagonistas, que cresciam e buscavam estabelecer relações cada vez mais sólidas, tanto política quanto econômica.
Nem mesmo a crise econômica foi capaz de frear o ímpeto desse novo bloco. As políticas de proteção social e de distribuição de rendas, em que o Brasil foi o principal país a formular ações fundamentais que as consolidaram, garantiram um forte aquecimento na economia e deram tranquilidade para passar a turbulência daquele ano. Ao contrário do que acontecia no resto do mundo e, em especial nos EUA. Foi essa a razão do então presidente Luis Inácio Lula da Silva ter utilizado a palavra “marolinha”, para se referir à crise, advogando a certeza de que ela não afetaria o Brasil.
O que fez a diferença para que a crise não afetasse o Brasil? Seguramente o otimismo injetado na sociedade com uma fase de confiança jamais vista na sociedade brasileira. Isso aliado ao forte aquecimento de uma economia que vicejava internamente, impulsionada por programas sociais de transferências de rendas com maior destaque para o Bolsa Família. Aí, com certeza, encontra-se a razão do acirramento do ódio da classe dominante e dos setores conservadores. Não somente porque reforçava o poder dos setores de esquerda, liderados pelo Partido dos Trabalhadores, mas também porque esse programa quebrava a velha instrumentalização da pobreza, com as chamadas políticas dos grotões, reminiscência do período pós-colonial e da estruturação da política tradicional que tornava em favores o que deveria ser obrigatoriamente políticas públicas.
Com isso, criava-se a dependência dos mais pobres aos “coronéis” que dominava o poder político regional, bem como a subserviência com que essas populações tratavam os mais ricos. Hábitos enraizados que se mantêm até os dias atuais, com os tratamentos de “doutor” a médicos, advogados, engenheiros, sem que os mesmos tivessem, de fato, essa titularidade. Doutores eram aqueles que se situavam no topo da pirâmide, a quem era devido uma subimissão secular, e que por todo esse tempo representou um forte componente para o preconceito, despertado na última campanha eleitoral e potencializado pelas medidas de inclusão social. O resgate da cidadania das empregadas domésticas inclui-se nesse rol, mas também uma razão a mais da insatisfação da classe média alta e burguesia brasileira.
Pelo interior do Brasil, nas pequenas e médias cidades, essas mudanças eram visíveis. Os investimentos em obras públicas, através dos Programas de Aceleração de Crescimento (PAC), Luz para todos, Minha casa minha vida, e da distribuição de centenas de unidades de ensino tecnológico, aliado a fortes investimentos em educação superior, com ampliação de estruturas, aumento do número de cursos e novas universidades que surgiram em locais distantes dos grandes centros urbanos, foram fatores que deram forte impulso ao desenvolvimento interno brasileiro.
A abertura de inúmeras linhas de créditos nos bancos públicos, BNDES, Banco do Brasil e Caixa, com taxas bem abaixo das cobradas no mercado, constituíram-se em mecanismos eficazes de financiamento para que a população pudesse incrementar a economia via consumos de produtos tecnológicos e de utensílios domésticos. Ao mesmo tempo, esses setores tiveram suas cargas tributárias diminuídas, com a redução do imposto sobre produtos industrializados. O mesmo foi feito em relação à indústria automobilística (neste caso com o IPI chegando a zero), um dos setores de maior geração de empregos em toda a sua cadeia produtiva. Ao lado da indústria da construção civil, esta impulsionada pelos programas habitacionais e pelos fortes investimentos via PAC.
Essas iniciativas deram certo durante os três mandatos, de Lula e Dilma Roussef , muito embora os avanços tivessem sido significativos, o combate a essas medidas, mesmo com aprovação internacional e repercussão positiva na própria ONU para muitos programas sociais brasileiros, principalmente o Bolsa Família, a reação internamente era muito forte por parte dos setores conservadores e da grande mídia tradicional. Agregue-se a tudo isso o aumento do salário mínimo, sempre acima da inflação, portanto com ganhos reais e a recomposição do valor em níveis comparáveis com o governo de João Goulart, embora estando ainda distante do que valia durante o período de Getúlio Vargas, quando foi criado.
No entanto, a crise econômica mundial não retrocedeu. Mas era previsível que ela não recuasse. A gravidade dessa crise só é menor do que a que acarretou a grande depressão, e se estendeu do final da década de 1920 até a década de 1930. Foi preciso a estupidez da guerra para salvar o capitalismo da grande depressão, apesar das políticas intervencionistas keynesianas aplicadas antes dela. Mas o fundamental foi a indústria da guerra e a reconstrução da parte do mundo destruída que recolocou a locomotiva capitalista de volta aos trilhos.
A atual crise não apresenta perspectiva de solução. A meu ver, nem a curto nem médio prazo. E em longo prazo penso que poderemos encontrar uma alternativa para essa estrutura falida, completamente dominada pelo poder das grandes corporações e conglomerados financeiros.
O erro do governo Dilma foi apostar alto em medidas que visaram desonerar folhas de pagamento, isentar de impostos sobre produtos industrializados setores considerados estratégicos para a manutenção do índice de emprego, reter o preço dos combustíveis em situação de alta no mercado internacional (além de suspender a cobrança da CIDE – Contribuições de Intervenções no Domínio Econômico), cobrada sobre a importação de petróleo e seus derivados, e baixar a bíceps os preços da energia elétrica em detrimento do reforço da rede de distribuição e da melhoria das infraestruturas do setor.
Tornou-se um erro porque não deram certo, a não ser por um curto tempo. Mas as intenções foram boas, e teriam outro efeito não fosse a persistência de uma crise econômica avassaladora, que tem feito com que a maioria dos países reduzam seu poder de compra, alterando substancialmente a balança comercial brasileira. Por esse tempo, as consequências da crise, e do menor impacto dela no Brasil, sempre vendemos mais do que compramos. Mas o vento virou. A capacidade de investimentos brasileiros alterou a balança comercial, e enquanto prosseguíamos comprando no mercado internacional, os países diminuíam seus gastos e aquisições, fazendo a balança comercial tornar-se deficitária.
Internamente, os efeitos da crise passou a se refletir na oscilação do dólar, consequência da política dos Estados Unidos, que, na medida em que os dados apontavam uma recuperação do emprego, o mercado apostava na alta de seus juros. Como efeito os especuladores buscavam garantir seus investimentos naquele que é visto como o mercado mais seguro, apesar dos abalos. A retirada de dólar, aliado com a retração nos investimentos estrangeiros, elevaram o valor da moeda, repercutindo nos preços internos. Sendo, contudo, celebrado pelos setores exportadores, principalmente pelos que lidam com commodities.
Ao mesmo tempo, passamos a conviver com a mais grave crise hídrica da história brasileira, porque passa a atingir outras regiões, e não mais somente o Nordeste. O Centro-Oeste, e principalmente, o Sudeste, onde se concentra a maior parte do parque industrial brasileiro, impunha restrições ao uso de água, ao mesmo tempo em que afetou a produção de alimentos básicos, como frutas, legumes e hortaliças. Naturalmente, para não fugir à regra, a grande mídia conservadora tirou a responsabilidade dos governos estaduais (e omitiu algumas verdades sobre suas incompetências, como no caso de São Paulo e Minas Gerais), e produziu reportagens sub-reptícias, jogando nas costas do governo federal todos os males dos pífios gerenciamentos hídricos, de responsabilidades de Estados e Municípios.
O golpe mortal, que levou à lona o governo, no entanto, veio de cima para baixo. O que já deveria ser esperado. As denúncias de esquemas de corrupção para  composição de caixas 2, cujos recursos  teriam sido destinados à financiamento de campanhas. Algo sempre presente na história da política brasileira, e atividade desenvolvida em qualquer grande estatal federal ou estadual, em benefício de todos os grandes partidos. Por um ano, completado no mês de março, todos os dias, em todos os noticiários, de manhã, tarde e noite, na grande imprensa escrita ou televisada, uma verdadeira ação de guerrilha, com fustigamentos implacáveis, numa perfeita sintonia entre investigação policial, ação do judiciário e vazamentos de informações seletivas para os meios de comunicação. No foco, a principal empresa brasileira e uma das maiores do mundo no ramo de exploração de petróleo, responsável pela descoberta e extração de uma das maiores reservas de petróleo descobertas em tempos recentes: a Petrobrás. A mesma que nos governos do presidente Fernando Henrique Cardoso, se tentou a privatização, a começar com a alteração de seu nome, para Petrobrax, retirando a referência ao Brasil.[3] Era o que se pretendia, mas fracassou. Esse objetivo, no entanto, não está esquecido.[4]
Evidente que a manutenção de um esquema que funcionava há muito tempo, desde antes do Governo Lula, fazendo-se, no mínimo, vistas grossas às ações de verdadeiros abutres que por décadas assaltaram os cofres da empresa, em mais de um bilhão de dólares, foi no mínimo um grande deslize, mas foi algo pior dentro de uma visão estratégica. A responsabilidade do governo federal, nesse caso, está em ter permitido a atuação livre de elementos corruptos, muito embora isso, necessariamente, não represente um atestado de cumplicidade. Mas decorrem das imposições de partidos da base aliada, que impõem em escolhas, exatamente aqueles cargos possíveis de serem geradores de propinas. Ora, isso é uma verdade irrefutável e antiga na estrutura do Estado brasileiro. E não somente aqui no Brasil. Essa é uma preocupação muito atual na União Européia, e pesquisas recentes indicam que cerca de 75% dos europeus acreditam que a corrupção é generalizada em seus países, e 56% consideram que isso tem se agravado nos últimos três anos (a pesquisa é de 2014)[5]
O que não poderia ser permitido, além do combate intrínseco à corrupção, com a autonomia dos órgãos policiais federais e Ministério Público, é que a empresa de maior importância estratégica fosse alvo de tamanho ataque e da consequente perda de credibilidade. Desde o surgimento do Pré-Sal, e da alteração do processo de exploração, para o sistema de partilha, era evidente que a Petrobrás seria alvo dos interesses corporativos e de governos estrangeiros, notadamente os EUA. O mínimo que o governo federal deveria ter feito era acompanhar de perto toda a lisura do funcionamento dessa importante estatal, a fim de impedir qualquer ataque que pudesse desmoralizá-la, de dentro e por fora. E, para isso, deveria colocar a ABIN (Agência Brasileira de Informação) a serviço de descobrir qualquer irregularidade e atos lesivos a esse importante patrimônio do povo brasileiro.
Ao contrário, o que se viu foi o envolvimento de pessoas ligadas a partidos da base do governo indicadas para cargos chaves, de relações diretas com as grandes empreiteiras, useiras e veseiras em práticas de corromper agentes públicos com o intuito de lucrarem mais do que os editais lhes oferecem. O governo não poderia ter perdido o controle do que acontecia ali. A Petrobrás sempre foi alvo de cobiça internacional e desejo de se desfazer dela dos grandes entreguistas, subservientes aos interesses estrangeiros. Primeiro o petróleo, depois a Petrobrás. Com o Pré-sal isso se intensificou, e era esperado que isso acontecesse, pois já existiam situações em outros países que nos deveriam servir de exemplos.
A “Operação Lava-Jato”, com todos os seus vícios e direcionamentos políticos, não resta dúvidas, desmontou um enorme esquema de corrupção de altas somas de recursos públicos, enriquecendo muitos desses agentes corruptos e desviando outras quantias para rechear caixas 2 de campanhas políticas.
Com isso, e sob fogo cruzado, numa situação que impunha uma grande defensiva ao governo, a presidenta Dilma inicia seu segundo mandato. Crise econômica mundial, crise fiscal do estado brasileiro, descontrole inflacionário, denúncias de corrupção e estagnação da economia decorrente de todas essas situações. Tudo isso, amplificado pela forma como a grande mídia conservadora explora essas situações, fomentando um enorme pessimismo na população e revertendo toda a auto-estima conseguida nos últimos anos, principalmente nos Governos Lula. O receio de perder o que já conquistara, e esquecendo que seus ganhos foram possíveis mediante as ações implementadas pelos governos Lula e também no Governo Dilma, fez com que uma grande parte da população caísse na armadilha montada desde há muitos anos pelos conservadores, devidamente representados pelo Sistema Globo (TV Globo, jornal O Globo, revista Época), os jornais Folha de São Paulo e Estado de São Paulo, e a pestilenta revista Veja.
Sim, a crise econômica que estourou em 2008, não passou de uma marolinha aqui no Brasil até 2010, quando o crescimento do PIB chegou a 7,5%, e em média nos governos Lula chegou a 4,06%.[6] Contudo, os últimos meses, e o que se aponta adiante, dão a indicação de que fomos atingidos por um furacão de proporções médias, transformado pela grande mídia em um tsunami.
Os ajustes fiscais podem significar uma correção nos rumos, e uma retomada dos investimentos? Quais os verdadeiros objetivos por trás das ações dos setores conservadores? E como o governo Dilma enfrentará um Congresso dominado por dois personagens que desejam verem-se livres das páginas policiais, já que são também investigados na Operação Lava Jato, e apostam em uma agenda conservadora para ficarem de bem com a grande mídia e os partidos de oposição?
Analisaremos essas questões, a radicalidade do discurso fascista saído do armário, ou melhor, das catacumbas e fossos de torturas, e as margens de manobras que possui o governo para não se tornar alvo da ira dos movimentos sociais e sindicais, no próximo artigo dessa série.
Leiam e debatam. O momento é de discussão, resgate da história e de engajamento na luta para garantir que direitos trabalhistas, duramente conquistadas pelos trabalhadores, não sejam retiradas em benefício das hienas conservadoras que dominam a política. E dos setores empresariais sempre em busca de maiores lucros à custa das desigualdades sociais.




[4]Venda da Petrobrás estará madura em 5 anos, diz ANP -  http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi20059909.htm
[5] A luta da União Européia contra a fraude e corrupção -  http://europa.eu/pol/pdf/flipbook/pt/fight_fraud_pt.pdf

segunda-feira, 6 de abril de 2015

CRÔNICAS DE UM MUNDO EM TRANSE – A LOUCURA CONTINUA

Em 2012, no seu começo, escrevi uma série de seis artigos denominados “Crônicas de um mundo em transe”. Neles analisei o Brasil em meio à crise econômica; o mundo dominado pelas grandes corporações;  o limite das contradições capitalistas;  a guerra como saída para a crise mundial; e, a guerra silenciosa, com a ação de espiões e a tecnologia dos drones. Os links para esses artigos seguem no final do texto [1].
Relendo-os, no geral não creio ter me equivocado na análise da crise que se espalhava pelo mundo naquele momento. De lá para cá o que vimos foi a radicalização de um comportamento gerado pelas dificuldades, principalmente dos grandes Estados em sair do imbróglio econômico, causado pela necessidade que eles tiveram de salvar grandes corporações da bancarrota, numa situação em que ameaçava todo o sistema financeiro. A crise se espalhou, contaminou depois dos EUA a Europa, o Japão e seguiu em direção à América Latina e a Ásia. Em meio aos desequilíbrios econômicos, a necessidade de manter a hegemonia do império estadunidense, levou a que a estratégia dos “falcões” da era Bush fosse substituída pelo “soft Power” (poder brando), onde a diplomacia e as ações de ingerências políticas e culturais assumem uma relevância maior nas relações internacionais, a fim de manter a influência e a hegemonia.
AS LOUCURAS DO IMPÉRIO
Por trás desse abrandamento explícito das ações militares (não mais invasões de grandes contingentes de soldados), no entanto, o poder estadunidense, juntamente com seus aliados, ou às vezes também contra eles, escondia forte atuação no âmbito das atividades de espionagens, de controle das informações por mecanismos ilegais de escutas e monitoramento de redes de internet, dos assassinatos seletivos sem julgamentos praticados com o uso de drones, e do financiamento de ONGs e de grupos armados para desestabilizar governos que não fossem subservientes aos seus interesses.
O mundo, assim, entrou em uma espiral perigosa, e a disseminação da crise econômica seguiu acompanhada por crises políticas, desestabilização de governos, falências de Estados e ampliação da rede terrorista no Oriente Médio, África e Europa. A guerra ao terrorismo não passou de uma estratégia dos Estados Unidos para gerar instabilidades em alguns países, cujos governos não eram confiáveis e se localizavam em áreas ricas em recursos energéticos, ou por sua localização. A chamada “Primavera Árabe”, expressão equivocada que procurava se inspirar no simbolismo das revoluções burguesas do século XIX, passou a fazer parte do objetivo estadunidense de abalar as estruturas políticas dos países do Oriente Médio, gerar o caos e alimentar a indústria de guerra. Parece inacreditável, é um paradoxo, mas é fato denunciado até mesmo por quem já fez parte do oficialato do exército dos Estados Unidos, o General Wesley Clark.[2]
O que a política externa estadunidense preparou para o Oriente Médio e África, seria também implementada na fronteira da Rússia e na América Latina. O Soft Power do governo Obama, contudo, encobria ações de espionagem e o financiamento de revoluções, revoltas e radicalizações populares, com o intuito de criar dificuldades políticas para países selecionados dentre aqueles que possuem importâncias estratégicas na grande política global. Ou pelo seu poder de força e influência, ou pelo possível crescimento econômico e catalisação de liderança regional.
Essa estratégia dos EUA não é nova, baseia-se na teoria da contenção, pela qual as ações bélicas e as relações internacionais devem se antecipar ao surgimento e crescimento de governos inamistosos e de inimigos que venham a ameaçar a sua integridade territorial. Ela segue os elementos contidos na Doutrina de Segurança Nacional, reforçados em 2001 com o Patriot Act. As neuroses criadas a partir do ataque ao World Trade Center impuseram uma radicalização nessas posições, contudo elas já eram aplicadas desde antes da Guerra Fria, e foram elaboradas por Nicholas Spykman com o objetivo de isolar a União Soviética. Constituía-se em criar uma área em torno do Cáucaso e na região denominada Eurásia que fosse refratária à influência do poder soviético.
Essa política reforçou a crescente indústria da guerra e levou à proliferação de bases militares estadunidenses por todo um arco denominado “Rimland”. Era preciso isolar o “Heartland”, assim denominado por Halford Mackinder, geopolítico britânico, que identificava aquela região como potencialmente geradora de um poder que faria com que, quem a controlasse, dominasse o mundo. Spykman, sem negar a teoria de Mackinder, afirmava que bastava isolar o “heartland”, e para tanto seria necessário aos Estados Unidos impor pela força o controle de fronteiras estratégicas ao seu redor.
As estratégias da Guerra Fria, já sem a presença viva de Spykman, tiveram prosseguimento com suas teorias geopolíticas, desta feita sendo aplicadas por outro estrategista que esteve presente em alguns governos democratas estadunidenses, embora com influência no governo do republicano Richard Nixon, principalmente em relação à estratégia de apoio aos mujahedins afegãos: Zbigniew Brzezinski.
Ao fim da Guerra Fria, e nas sucessivas quedas de governos socialistas, executaram-se ações que visavam trazer para a influência ocidental a lealdade dos novos governantes. O financiamento desses governos, mediante empréstimos que deveriam seguir compromissos firmados com o recém criado Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e a União Européia, os mantinham sob controle político. A inserção desses países na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), completava militarmente esse controle. Aqueles que ousassem se recusar, e tentassem seguir por uma linha independente, ou de proximidade com a Rússia, passavam a sofrer sucessivas ações de desestabilizações, mediante revoltas populares incendiadas por grupos financiados por ONGs que atuavam a serviços desses objetivos geopolíticos. Aparentemente essas revoltas eram creditadas às insatisfações populares e vistas como atos democráticos, cujas populações manifestavam-se contra governos impopulares.
O MUNDO COM MAIS GUERRAS, CAÓTICO E MENOS SEGURO
Essa estratégia desmedida não poderia fazer do mundo um lugar mais seguro. A disseminação de revoltas por todos os continentes, a fim de atender os interesses de uma potência hegemônica em decadência, obviamente traria efeitos colaterais perversos, pois seria impossível controlar tantos países em débâcles. Assim como era previsível o fracasso da chamada “guerra ao terror”, na medida em que visava um alvo invisível, espalhado por várias partes do mundo, e disseminado no ódio gerado pelas consequências das políticas agressivas, acentuadas pela crise econômica.
Na medida em que agia segundo a liturgia de uma política externa que apresentava agendas positivas, de negociações com inimigos históricos, como o Irã e Cuba, os Estados Unidos jogavam duro, e baixo, para derrubar dezenas de governos. Em algumas situações, países simplesmente tornaram-se ambientes caóticos, desprovidos de Estados-Nações, e o desgoverno passou a fazer parte de uma realidade onde proliferam grupos armados regionais, que se fortalecem, se unificam ao lado da Al Qaeda ou do Exército Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS). Na obsessão de derrotar governos visados por essas políticas, e seguindo-se as estratégias geopolíticas citadas acima, os EUA, juntamente com seus aliados europeus, armaram grupos sectários, cientes de suas periculosidades e das proximidades com a Al Qaeda. A regra adotada nesses casos foi a velha máxima popular, “o inimigo de meu inimigo é meu amigo”.
"o equivalente moral de nossos fundadores"
(Ronald Reagan, sobre os mujahedins)
Assim, e ao mesmo tempo em que conseguia diminuir o impacto da crise econômica com a velha e oportuna indústria da guerra, vendendo armas para os grupos incitados com o objetivo de derrubar os governos indesejáveis, os EUA deram poder excessivo a quem não devia e não poderia controlar. Repetiram os mesmos erros cometidos quando armaram o Talibã para derrubar os Soviéticos no Afeganistão e a Al Qaeda como suporte para essa ação. Tornaram-se responsáveis pelo surgimento do ISIS e pelo fortalecimento da Al Qaeda na península arábica, onde uma franquia dessa organização tomou o controle do Iêmen, assim como entregou o poder a grupos armados, alguns também ligados à Al Qaeda na Líbia, destruindo o poder estatal daquele país, hoje fatiado e dominado regionalmente por esses grupos.
E prosseguem no mesmo equívoco, armando agora o exército curdo, povo apátrida, que lutam por um território há décadas, e se espalham entre o Irã, Iraque, Síria e Turquia. A sequência dessa situação, será a desestabilização da Turquia, onde milhões de curdos são oprimidos pelo governo daquele país, majoritariamente muçulmano.[3]Embora convivam com uma grande diversidade religiosa, os curdos também são em sua maioria adeptos do Islã. Os embates se dão mais por aspectos étnicos do que religiosos. O resultado dessas ações no Oriente Médio será uma nova redivisão territorial, mas isso deve demorar. Até lá o que irá marcá-la será o caos, e a absoluta ausência de governos e Estados debilitados sob o controle de grupos tribais armados e sectários.
Estados caóticos parecem ser mais úteis aos objetivos estratégicos dos EUA, do que dominados por grupos hostis à sua política internacional. A democracia percebe-se, passa longe de ser o objetivo a ser alcançado, e a tentativa de desestabilizar governos latino-americanos, seguindo-se essa mesma estratégia, parece comprovar isso.
Numa crise que amplia sua dimensão, da falência econômica das maiores potências mundiais, para um quadro de redefinições geopolíticas e de crescentes tensões, é impossível compreender a atual crise política e econômica brasileira sem inseri-la nesse contexto maior. O Brasil, país com maior dimensão territorial da América do Sul, uma potência emergente que possui uma enorme vastidão de riquezas e abriga a maior floresta do mundo, rica em biodiversidade e recursos hídricos e minerais, cuja influência regional cresceu nas duas últimas décadas, jamais passaria imune às investidas dos interesses estratégicos geopolíticos dos EUA.
Mais ainda quando o Brasil passa a entrar no seleto grupo de países com enormes reservas de petróleo e quando toma medidas para manter essa riqueza sob controle do Estado. Não somente o Brasil, mas o grupo BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), passa a ser objeto de preocupações do poder imperial estadunidense, pois começam a adotar políticas e estabelecerem relações que ameaçam a sua hegemonia mundial. A crise brasileira será analisada a seguir, dentro desse contexto de crise mundial.



Nessa entrevista de 02 de Março de 2007, o General Wesley Clark, aposentado de 4 estrelas do Exército dos EUA e Comandante Supremo Aliado da OTAN durante a Guerra do Kosovo, relata um encontro com militares do Pentágono e a conversa que se estabeleceu a respeito da guerra no Oriente Médio.

[3] Os Curdos, uma peça esquecida no xadrez do Oriente Médio -