quinta-feira, 15 de maio de 2014

FAKES, FALSÁRIOS E FASCISTAS: COMO DESPERTAR O LADO SOMBRIO DAS PESSOAS

Algo de podre está acontecendo nas redes sociais diretamente, e na grande mídia de forma dissimulada. Com a proximidade das eleições, estão despertando um lado perverso e canalha de algumas pessoas. Um comportamento que não se manifesta no contato interpessoal, mas encontra no mundo virtual a coragem de expor comentários virulentos, ofensivos e desrespeitosos. Além de acusações contra desafetos políticos sem que se apresente qualquer tipo de provas. Aliado a isso, o pessimismo, a descrença, o medo, vão sendo alardeados de tal forma que as pessoas se sentem vivendo dentro daquilo que está sendo construído por essas intervenções virtuais. As condições reais de nossas existências são tridimensionadas e elevadas a um patamar muito mais exagerado do que a própria realidade se apresenta. O sentimento de impotência e revolta surge naturalmente e torna as pessoas alvos fáceis das manipulações.
Esse sentimento tem sido despertado mediante uma estratégia que já foi adotada em outros países. Estou lendo o livro “A Segunda Guerra Fria”, de Moniz Bandeira, e os relatos são impressionantes. Recheados de dados e referências, o autor demonstra como a maioria das “revoluções”, ou revoltas, que derrubaram governos em várias partes do mundo, alguns eleitos legitimamente, iniciaram através de ações desenvolvidas por ONGs estadunidenses, e até mesmo órgãos oficiais daquele país, como a CIA  e  a USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional  - United States Agency for International Development).
Uma citação, à página 96, demonstra claramente isso:
“Intervir em eleições estrangeiras sob a máscara de interesse imparcial de ajudar a sociedade civil tornou-se o precedente do pós-moderno coup d’etat patrocinado pela CIA, no Terceiro Mundo, adaptado às condições pós-soviéticas”. Johathan Steele, do The Guardian de Londres, em novembro de 2004.
Dessa data para cá se intensificaram as ações que possibilitaram as chamadas “resistências pacíficas”, inspiradas nos ensinamentos de Gene Sharp, através de seu livro “Da ditadura à democracia”, todas elas devidamente apoiadas politicamente por uma infinidade de ONGs, todas elas financiadas pelo governo dos EUA ou por grandes financistas, como George Soros.
A situação vivida pela Venezuela é consequência dessa estratégia. Como também o foi na Ucrânia, na Síria, em Honduras etc. Seguramente, isso irá acontecer aqui no Brasil até as eleições e, acredito, se intensificará na eminência de continuidade do governo atual, com a reeleição da presidenta Dilma Roussef.
As análises sobre esses processos demonstra que ao não obter sucesso no processo eleitoral democrático, essas forças ampliam as pressões e instigam revoltas no intuito de desestabilizar os governos eleitos até o limite da repressão ocasionada pelas forças militares internas. Para isso é preciso construir uma sensação de desesperança e crença que a desordem e o caos estão imperando. Retira-se, assim, qualquer ímpeto de resistência a uma possível ação desestabilizadora.
O que estamos assistindo é um reposicionamento das forças geopolíticas mundiais em consequência do agravamento da crise econômica, escondida pela grande mídia e só divulgado en passant, quando no limite e com escassos comentários. Essa situação de crise tem gerado enormes dificuldades para os governos de países centrais, tanto os EUA como os principais países europeus, que nesse primeiro trimestre de 2014 não chegaram a 1% no crescimento de seus PIBs, com a maioria deles atingindo decrescimento. E o maior índice foi da Alemanha, com 0,8% (http://g1.globo.com/economia/noticia/2014/05/zona-do-euro-cresce-02-no-primeiro-trimestre-de-2014.html)
Isso força essas potências a ampliarem seus negócios, mediante o controle político dos países que estão fora de suas zonas de influência, de forma a pressionarem por mais abertura nos mercados e o controle de setores estratégicos, para que assim suas corporações possam agir mais livremente de acordo com seus interesses.
A desinformação, a preguiça de ir atrás da veracidade daquilo que está sendo divulgado, aliado à alienação peculiar, facilita a adoção desses mecanismos manipuladores, que repetidos à exaustão assume ares de verdades insofismáveis. Quando, em verdade, e realmente, são situações determinadas e localizadas, sem representar, como se apregoa, o declínio da civilização contemporânea, ou algo que o valha. Prato cheio para oportunistas, fascistas e para aqueles que desejam convencer as pessoas a ingressarem no mundo da ficção religiosa, de seitas que se deleitam com a desesperança e com o medo das pessoas.
Repercuti em minha página pessoal no Facebook essa percepção, e aqui a reproduzo.
Estou impressionado com a quantidade de pessoas que estão compartilhando postagens produzidas por páginas organizadas por "fakes". Matérias falsas, ou propagandas subliminares, são repercutidas sem que haja um mínimo de averiguação sobre a origem das notícias, em sua maioria, falsas. Algumas são boatos, e boa parte deturpações de notícias antigas. E o que é pior, muitos que repercutem isso estão na universidade ou tem curso superior. Por causa desse comportamento uma dona de casa foi linchada e assassinada em Guarujá, SP. Fico em dúvida se é desinformação, alienação, oportunismo ou má fé mesmo.
Vivemos, um tempo, de potencialidades de práticas antigas, mescladas com ares de modernidade tecnológica. O boato se dissemina virtualmente, e organiza em júbilo antros de acusadores odiosos, mas seu prólogo acontece nas formas tradicionais, da violência estúpida em grupo, nos justiceiros que assumem o papel de juízes, júri e carrascos. Sob os argumentos de ausências de autoridades, mas diante de situações que são reais, como o descontrole do aparato repressivo e a agressividade de um setor cada vez mais sob pressão: as polícias militares. Sob o medo, seduzido por ele e manipulado por outros, a multidão torna-se instrumento daqueles interesses que não se apresentam perceptivelmente.
Nas sombras, escondem-se os reais interesses, de grupos que disputam avidamente o poder político e desejam concentrar cada vez mais o poder econômico. Instigam e aproveitam-se dessas situações, para afinal dar o bote sobre as carcaças de uma sociedade onde as pessoas não se veem nela, mas apenas os outros. Nesse momento surgem os reformadores do caos, os mesmos, aqueles que por décadas e séculos controlam as riquezas, concentram rendas e constroem mundos partidos, sectarizados, mas que vivem protegidos em muralhas repetindo-se, sob novas conformações, mundos antigos e medievais. E as massas, como sempre, cumprem bem o papel de massa de manobra. Com o perdão da redundância.
Está na hora de construir uma brigada da desconstrução do pessimismo. Mas, como confrontar o grande poder midiático e o financiamento de grandes corporações e governos hostis, que se disseminam disfarçadamente nas redes sociais? This is the question!
Para os que consideram exagero as minhas conclusões, finalizo com a indicação de uma leitura. Um artigo escrito por Glenn Greenwald, baseado em documentos dos EUA, vazados pelo analista de sistema que atuava em uma empresa prestadora de serviços para órgãos de espionagem daquele país, Edward Snowden, atualmente sob proteção da Rússia, que lhe concedeu asilo.

domingo, 4 de maio de 2014

O CORAÇÃO DA TERRA PRESTES A SE INCENDIAR MAIS UMA VEZ


No ano de 1904, mais especificamente no dia 25 de janeiro, um texto, apresentado na Sociedade Geográfica Real, em Londres, transformou o britânico Halford Mackinder em uma figura de destaque na geopolítica moderna. Embora com livros publicados, sendo um deles também de grande importância, “Democratics ideals and Reality: A Study in Politics of Reconstruction” (Washington D.C.: National Defense University, 1919, 1942), foi o texto lido naquela data que o tornaria uma das proeminências na geopolítica. Entre as duas publicações uma grande guerra que alterou a ordem política mundial.
O Artigo em questão foi intitulado como “O Pivô Geográfico da História” (The Geographical Pivot of History), e por ele Mackinder identifica nas estepes asiáticas não somente a origem daqueles povos que foram responsáveis pela constituição da Europa, em toda a sua dimensão territorial e na constituição da maioria dos países que a compõe. Ele busca, pela geografia, identificar historicamente as razões para as dificuldades em se impor àquela região formas de controles que lhes fossem externas. E aponta ser aquela uma região propícia para a consolidação de um poder continental, condição pela qual garantiria a quem a controlasse a possibilidade de dominar o mundo.
            Kaplan[1] (2013, p. 64), diz que
Sua tese é que a Ásia Central, na medida em que é uma das partes constituintes do heartland eurasiano, é o pivô em torno do qual gira o destino dos grandes impérios mundiais, pois a própria disposição natural das artérias da terra, entre cordilheiras e vales, estimula a ascensão de impérios, declarados ou não, em vez de estados.
Para Mackinder, o poderio Russo era inabalável pelas condições geográficas, que lhes possibilitava não somente a proteção dificultando invasões externas, mas porque lhes garantiam com a organização de um poderoso exército, reforçar o poder terrestre, considerado mais apto a manutenção do controle daquelas vastas regiões, bem como expandi-la, em direção à Europa. Esse poder, poderia se reforçar perigosamente, caso se expandisse em direção à África, o que ele identifica como a “Ilha Mundial” (Eurásia e África). Além disso, ele ressaltava a importância do poder terrestre, condição que tornava Rússia mais impenetrável, principalmente depois que vastas extensões de ferrovias ligaram os milhares de quilômetros do seu território.
O Pivô Geográfico, para Mackinder era a Eurásia, identificada por ele como o “Heartland”, o “Coração Continental” ou o “coração do mundo”. E expressou em três pequenas frases o que ele considerava como estratégico, do ponto de vista da disputa pelo controle do poder mundial: “Quem controla o leste europeu, comanda o Heartland. Quem controla o Heartland comanda a Ilha Mundial. Quem controla a Ilha Mundial, comanda o mundo”.
“Fora da área pivô, em um amplo crescente interno, estão Alemanha, Áustria, Turquia, Índia e China, e em um crescente externo, Inglaterra, África do Sul, Austrália, Estados Unidos, Canadá e Japão. Na condição atual do equilíbrio de poder, o Estado Pivô, a Rússia, não é equivalente a quaisquer outros estados periféricos, e não há espaço para um equilíbrio com a França. (...) A definição do equilíbrio de poder, em favor do Estado Pivô, que resulta em sua expansão sobre as terras marginais da Eurásia, permitiria a utilização dos vastos recursos para a construção da frota continental, e o império do mundo, então, estaria à vista”.[2]
Contudo, um holandês que se radicou nos Estados Unidos, o geógrafo e geoestrategista Nicholas Spykman, que se tornará a principal referência geopolítica para os Estados Unidos no período da Segunda Guerra Mundial, partindo desse estudo de Mackinder expõe outra compreensão sobre o domínio do poder mundial.
Sem desconsiderar a principal tese de Mackinder, do Pivô Geográfico, e do Heartland, entendendo essa região como um forte poder estratégico, Spykman considera que a importância maior está no “crescente interior”, uma faixa de terras que se estende da Eurásia à América e inclui o Oriente Médio, que ele vai denominar de “Rimland”. Mais objetivo, e preocupado em definir uma política de contenção que impedisse a ampliação do poder do “heartland”, Spykman define como sendo a então União Soviética essa potência. Por sua teoria dominaria o “coração do mundo” não quem o controla diretamente, mas quem fosse capaz de cercá-lo.
Com base nas teorias de Spykman os Estados Unidos definirão toda a sua estratégia de atuação, tanto no período anterior à grande guerra, como, principalmente, após esse conflito, quando se estabelece a Guerra Fria. A “Estratégia de Contenção”, principal arcabouço teórico-geopolítico de Spykman, permeou todas as relações internacionais da política externa estadunidense. Desde o “Cordão Sanitário” interposto entre as duas grandes guerras, pelo qual se investiu no apoio a governos anti-soviéticos, apoiados pelos EUA, até a Guerra Fria, com a criação da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte).
Essa estratégia encontrará sua formulação adequada com uma doutrina de segurança nacional, pela qual os EUA imporá sua política intervencionista que vigora até os dias atuais. A identificação do inimigo externo passa a gerar uma reação imediata, antecipando-se a uma possível ação que lhe pudesse ser ameaçadora. Por toda a guerra fria essa política foi adotada, e foi também fundamental na atuação dos órgãos de espionagem, no sentido de desestabilizar os países que compunham a União Soviética, ou que lhes fossem aliados, durante a década de 1980. A Polônia e o Afeganistão, foram os principais alvos dessa estratégia. Com o apoio ao Sindicato Solidariedade na Polônia, reforçado em seguida com a ascensão do papa polonês Carol Wojtyla, ou João Paulo II, as ações surtiram efeito e eliminou um aliado estratégico do regime soviético na Europa. No Afeganistão, o apoio ao Talebã, na guerra para expulsar os soldados soviéticos impôs uma forte derrota e fragilizou uma parte importante da fronteira soviética em um momento já de desestabilização completa da União Soviética. As ideias de Spykman consolidavam uma estratégia que se impôs como vitoriosa, ampliou o poder da OTAN e abriu caminho para as políticas neoliberais e a globalização.
“Contenção” é o nome dado pelo poder marítimo periférico para o que o poder do Heartland chama de “cerco” (encirclement). A defesa da Europa Ocidental, de Israel, dos Estados árabes moderados, do Irã do Xá e as guerras do Afeganistão e do Vietnã giraram todas em torno da ideia de impedir que um império comunista estendesse seu controle do Heartland ao Rimland.[3]
Após o fim da guerra fria, com a decadência do poder soviético, os EUA e aliados reforçam o controle do poder nessa região, com a ampliação da área de influência da OTAN, incorporando antigos países que compunham a União Soviética à essa organização  e mantendo a Rússia numa situação humilhante de dominação, mediante o apoio a governos fracos e instáveis. O foco principal passava a ser o domínio de territórios estratégicos, com potenciais reservas de petróleo, óleo e gás.
 “Com essa perspectiva, o objetivo estratégico dos Estados Unidos consistiu em expandir a influência e o domínio sobre a Ásia Central, região com mais de 1,6 milhão de quilômetros quadrados, que compreende Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Turcomenistão e Usbequistão, países com enormes recursos naturais, e que é rodeado por China, Rússia, África do Sul e Oriente Médio.[4]
O objetivo, segundo o experiente e veterano professor Moniz Bandeira, doutor em Ciência Política e professor aposentado da UnB, atualmente residindo na Alemanha, era integrar os países do Cáucaso/Ásia Central, seja mediante o envolvimento militar ou através de ações de inteligência que possibilitasse a instalação de governos aliados, “que permitissem a economia de livre mercado, liberação do comércio e investimentos ocidentais, de forma que pudessem controlar as fontes de energias e as rotas de transporte do gás e do petróleo”.[5]
A década de 1990, com seus resultados negativos para o mundo socialista, pelo revés gerado pelo declínio e esfacelamento da União Soviética, representou, por outro lado, uma forte agressividade da política externa estadunidense, com influência destacada dos chamados “falcões”, que procuravam impor pela força o domínio ocidental e a expansão dos limites de atuação da OTAN. Reforçavam o controle do Rimland e avançavam em direção às franjas do heartland, trazendo para sua influência países que antigamente compunham a União Soviética.
Esses países outrora membros da República Soviética, partes do heartland euroasiático, tornaram-se alvos da política agressiva e rapace dos EUA.
Eram as repúblicas mais pobres da extinta União Soviética, mas possuíam vastas reservas de petróleo, iguais ou maiores do que as da Arábia Saudita, e as mais ricas reservas de gás natural do mundo, comprovadamente mais de 236 trilhões de metros cúbicos, praticamente fechadas.[6]
Essas ações prosseguiram, célere e agressivamente, visando bloquear qualquer tipo de influência da China, Rússia e Irã, avançando em seus objetivos estratégicos no Sul do Cáucaso e na Ásia Central. Uma série de projetos de gasodutos foram implementados e as rotas seguiam dessas regiões passando por esses territórios, países que se encontravam em tensões como consequência da transição em curso, e que tiveram esse processo acelerado por conta das ações de espionagem e da sedução de novos governantes que se erguiam distanciando-se da Rússia, mediante altos investimentos e atividades de grandes corporações petrolíferas. Moniz Bandeira (2013, pp. 68-69) cita alguns deles: O Consórcio Shah Deniz Production Sharing Agreement (PSA); o gasoduto Shah Deniz FFD: o South Caucasus Pipeline (SCP); o projeto Gasoduto Nabucco; e o Gazprom-Eni South Stream, além da atuação da British Petroleum e da Chevron/Texaco. As rotas tinham o Mar Cáspio como ponto estratético, de onde praticamente a maioria saia em direção à Turquia e daí para a Europa. Mas também partindo de Baku e do Azerbaijão.
Por trás dessas mexidas estratégicas, cujos objetivos eram as reservas energéticas de gás e petróleo, mas também agir com cada vez mais agressividade, seguindo ainda a estratégia de contenção, ampliando o domínio do Rimland, e avançando em direção ao Heartland, de forma a sufocar cada vez mais a Rússia, o centro do coração do mundo. Por todo o mundo, no entanto, a propaganda midiática centrava-se na necessidade de garantir a essa parte do mundo, o acesso à democracia e liberdade, com a ascensão de novos governos que pudessem defender a aproximação da União Européia e da OTAN. A defesa da Segurança Nacional passou a se constituir no pretexto mais forte, internamente, pelo qual tornava-se necessário combater com veemência os governos hostis aos valores ocidentais e estadunidenses. A “guerra ao terror”, motivada pela agressão sofrida pela ousadia de jihadistas da Al Qaeda, com o ataque ao World Trade Center, tornou essas ações fáceis de serem digeridas pela opinião pública. E os EUA saíram a caça dos terroristas, identificando nesses os inimigos externos e internos, menosprezando, sempre, a ordem política internacional.
Enquanto atacava o Iraque e Afeganistão, com armamentos pesados e grande contingente militar, os EUA, por meio de dezenas de Organizações Não-Governamentais (ONGs) e da presença explícita de assessores militares, iniciou um processo de desestabilização de alguns países extremamente estratégicos para seus objetivos de controlar a produção e distribuição de gás e petróleo da região, e manter o isolamento da Rússia. As chamadas “Revoluções Coloridas”, se apresentavam pela mídia como insatisfações populares contras governos autoritários, escondiam a atuação desses atores externos plantados naqueles países com o intuito de derrubar esses governos. A Revolução Rosa na Geórgia, em 2003; a Revolução Laranja, na Ucrânia em 2004; a Revolução dos Cedros, no Líbano, em 2005; e a Revolução das Tulipas no Quirguistão, em 2005.
Os recursos gastos para promoverem essas crises políticas e a queda desses governos, foram infinitamente menores do que o montante investido no Iraque. Por essa razão, a partir de então, a estratégia a ser adotada será de reforçar esse mecanismo, ampliando o papel dessas organizações e de mais investimentos em espionagem, seja por meio da presença de um número cada vez maior de agentes, ou do controle da mídia e por meio das novas tecnologias que seduziam a juventude e que seria por esses meios facilmente manipulada.
Não é segredo, portanto, que o Pentágono, através da United States Army Civil and Faires e do Psychological Operations Command (USACA-POC), o Departamento de Estado e várias organizações não-governamentais, entre as quais a Freedom House, (...) e a National Endowment for Democracy, investiram milhões de dólares para incentivar as “revoluções coloridas” na região da extinta União Soviética e cercar a Rússia. A Ucrânia configurou uma questão estratégica, não por causa de Moscou, mas por causa dos Estados Unidos, que, conforme o jornalista Jonathan Steele, se recusavam a abandonar a política da Guerra Fria de cercar a Rússia e buscar para o seu lado todas as antigas repúblicas soviéticas. Situada entre a Rússia e os novos membros da OTAN – Polônia, Eslováquia, Hungria e Romênia –, a Ucrânia adquiria realmente enorme significação estratégica para os Estados Unidos. (MONIZ BANDEIRA, 2013, pp. 97-98).

A UCRÂNIA FORA DE CONTROLE
Por esse tempo, contudo, nesse começo de século XXI, a Rússia aos poucos foi retomando seu papel estratégico nessa região e o protagonismo político em âmbito internacional, através de uma política agressiva de uma nova liderança nascida dos escombros da antiga polícia secreta soviética, a temida KGB (Komitet gosudarstvennoi bezopasnosti, Comité de Segurança do Estado): Vladimir Putin.
Demonstrando segurança e capacidade de lidar com situações adversas, Putin passou a se constituir em um perigoso estrategista, cercando os objetivos europeus e dos EUA nos avanços sobre as antigas repúblicas soviéticas, e agindo com firmeza para conter as lutas separatistas em países estratégicos, fomentadas e financiadas pelas potências ocidentais, destacadamente os EUA.
Como um Czar moderno, Putin passou a governar com punhos de ferro, reprimindo implacavelmente esses movimentos, passando a considerá-los também “terroristas”, além de realizar uma limpeza interna, perseguindo opositores, muitos dos quais novos ricos que amealharam suas riquezas em golpes de corrupção no processo de desestatização com fortes vínculos com alguns países europeus, para onde fugiram alguns daqueles que não foram presos nesse processo.
Dessa forma, algumas mexidas no tabuleiro de xadrez que representa essa região, fez com que Putin reagisse e obtivesse algumas vitórias sobre as políticas estadunidenses. Primeiro em relação às lutas separatistas na região, tanto na Geórgia, como na Ossétia do Sul, e uma reviravolta na revolução laranja na Ucrânia, retomando a influência nas eleições de 2010, com o retorno de Viktor Yanukovych à presidência, resultando em uma verdadeira queda de braço entre a Rússia e a União Européia, instigada pelos Estados Unidos, que disputavam a assinatura de acordos que pudessem tirar a Ucrânia de enormes dificuldades financeiras. Por fora da região Putin deu uma tacada de mestre na questão da Síria, quando negociou a destruição das armas químicas e eliminou o principal pretexto para uma ação militar da OTAN naquele país, onde se situa a única base militar russa na região do mediterrâneo.
Mas a Ucrânia era a situação mais emblemática, pelos motivos já citados acima, além da sua extensão territorial e sua dimensão populacional. Assim, nos últimos anos iniciou-se uma luta intensa pelo controle ucraniano, ora nos bastidores, ora nos embates políticos internos, mas, principalmente, nas ações executadas por grupos ultranacionalistas fascistas, organizações não-governamentais e agentes secretos infiltrados por todos os lados e de todos os lados, seja dos EUA ou da Rússia.
Euromaindan - revoltas em Kiev
Fragilizado politicamente como consequência de um governo fraco e marcado pela corrupção, Yanukovych terminou por ceder à pressão russa e recusou os acordos com a União Européia. Essa atitude se constituiu no estopim que levou às ruas centenas de milhares de manifestantes, em um movimento que, como todos os demais que marcaram as “revoluções coloridas”, começou despretensiosamente, até atingir seu ápice com a invasão de prédios públicos e o controle de setores importantes do governo, forçando o presidente à fugir para a Rússia. Nitidamente ocorreu ali um golpe de Estado, principalmente porque através de alguns acordos já se iniciava um processo de transição que atendia boa parte daquilo que era reivindicado nas ruas. Mas as ações agressivas de grupos radicais de direita prevaleceram levando a destituição de Viktor Yanukovych. Desta feita, os interesses russos foram contrariados, em uma região de importância estratégica fundamental já que aproximava a União Européia e as políticas estadunidenses perigosamente das fronteiras russas.
A primeira reação russa foi instigar o plebiscito na região da Criméia, pelo histórico de vinculação com aquele país de população majoritariamente de origem russa, mas, também, por se constituir em uma importante ligação da Rússia com o Mar Negro, através do Mar de Azov pelo Estreito de Kerch. Esse é um caminho estratégico que a Rússia tem para atingir o Mar Mediterrâneo, pelos Estreitos de Bósforo e Dardanelos (que dividem a Turquia da Europa). Outro elemento importante é o fato de ali situar-se uma base militar russa, incrustada na cidade de Sebastopol.
Por essas razões, e com o agravamento da crise ucarania, a República Autônoma da Criméia, após o plebiscito que contou com o apoio de 95,5% dos votantes, passou em março deste ano a fazer parte da Federação Russa.
Contudo as populações do leste ucraniano, também em sua maioria de origem russa, e inspirando-se na iniciativa da Criméia, passaram a se mobilizar de maneira ostensiva, opondo-se ao governo provisório da Ucrânia e reivindicando também plebiscito que as incorporem à Rússia. Duas das maiores cidades ucranianas também se inserem nesses protestos: Odessa e Donetsk. Historicamente são cidades que já compuseram o Império Russo, assim como todo o território ucraniano. Após a revolução bolchevique, em 1917, toda essa região compunha a extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
Manifestantes pró-Rússia em
Donestsk
O que tem se seguido à incorporação da Criméia pela Rússia e à aproximação do governo da Ucrânia aos governos ocidentais e aos EUA é uma reação em cadeia por parte de praticamente todas as cidades do leste ucraniano, situadas no litoral do mar negro e na fronteira com a Rússia. Os levantes assumiram características de guerra civil, e as manifestações, com ocupação de prédios públicos e a destituição de autoridades que se opunham ao separatismo, assemelham-se ao que aconteceu no início deste ano que levou à deposição pela força do presidente ucraniano Viktor Yanukovych.
Mas, as informações que os chegam, transmitidas em larga escala por poucas agências de notícias ocidentais, tomam um outro enfoque, diferente da maneira como as primeiras manifestações foram noticiadas. Apresentadas agora como revoltas conduzidas pro grupos pró-Rússia, com alegações do governo interino ucraniano que tratam-se de ações de grupos terroristas alimentados pelo governo russo, e assim reproduzido para todo o mundo e presente nos discursos das autoridades estadunidenses, embora guardem semelhanças com aquelas anteriores são distinguidas propositadamente a fim de justificar possíveis ações militares e intervenções da OTAN.
Presença de grupos nazi-fascistas
em Kiev. Fortes protagonistas
nas revoltas euromaidan
Os primeiros choques, naquilo que ficou conhecido como o Euromaidan (europraça), que tem ocupado a praça central de Kiev até os dias atuais, assumiram características semelhantes das atuais revoltas do Leste. Pior, porque foram comandadas por grupos neo-nazistas, que ascenderam depois ao governo, assumindo dois ministérios. Mas nem por isso foram noticiadas por essas agências de comunicações, como pró-europeias, muito embora estivessem presentes, infiltrados, centenas de agentes estadunidenses, interessados em destituir o então presidente, a fim de atrair a Ucrânia para sua zona de influência, aproximá-la da União Europeia e incluí-la na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). O objetivo, naturalmente, era reforçar o cerco ao Heartland russo, e, a meu ver, vingar-se das derrotas impostas pela diplomacia russa tanto nas ações da Síria, como na concessão de asilo a Eduard Snowden.
A solução para o problema ucraniano não é simples. A Rússia não abrirá mão de manter sob sua influência toda a região que lhes faz fronteira, não somente por ser constituída de uma enorme população de origem russa, mas pela necessidade de proteção dessas fronteiras, de forma a afastar possíveis ameaças ocidentais ao seu território.
A crise econômica mundial, que afeta duramente as principais potências europeias e os Estados Unidos, é um ingrediente a mais a preocupar os analistas políticos, em vista da necessidade de artificializar crises como estratégias de não somente desviar as atenções a esses problemas, mas porque historicamente as guerras têm se constituídos em saídas para crises que aconteceram em diversos momentos e que afetaram a economia mundial, ameaçando o equilíbrio geopolítico, e até mesmo efetivando mudanças consideráveis na hegemonia do poder mundial.
Odessa, começo do século XX,
retratada na revolta do Couraçado
Potenkim, no clássico filme de Eiseinstein
Mas, essa região, sempre disputada, desejada e jamais conquistada por forças externas a ela, tem na sua geografia o elemento mais forte a protegê-la. Dois grandes impérios, em duas guerras violentas, viram seus exércitos padecerem nas dificuldades enfrentadas pelo ambiente e pela reação fortemente nacionalista do povo russo. Tanto na tentativa de invasão durante as guerras napoleônicas, no começo do século XIX, como do exército alemão durante a segunda guerra mundial. Em seus momentos, o poderio francês, bem como no século XX o poderio alemão, eram infinitamente superior ao russo e soviético. Mas esbarraram nas dificuldades geográficas e na determinação desses povos.
É impossível fazer um prognóstico para o final dessa crise. O certo, no entanto, é que isso só se acalmará se ao fim, e ao cabo, puder se chegar a um acordo que leve a constituição de um governo na Ucrânia que possa manter o país fora da União Europeia e também livre da influência russa. Uma federação de estados autônomos independentes seria, portanto, o caminho adequado para pacificar a região, embora não se saiba até quando.
A extensão desse artigo se deve à necessidade de se mostrar com clareza, para além das manipulações dos meios de comunicação, e dos comunicados piegas de autoridades ocidentais, principalmente estadunidenses, como se fossem eles xerifes do mundo, a importância estratégica que toda essa região possui no contexto de uma disputa geopolítica pela manutenção do poder hegemônico mundial e na tentativa de cercar e impedir que outros atores possam vir a se constituir em ameaças a esse poder.
Odessa hoje. Com manifestantes
em lutas separatistas pró-Rússia
Criticar a maneira como essa crise está sendo apresentada não significa, necessariamente, defender o comportamento político do presidente russo Vladimir Putin, claramente aliado de uma forte oligarquia local que enriqueceu às custas da decadência do antigo regime soviético. Mas não se podem admitir as distorções nos enfoques que são dados a esses movimentos, levando a um claro desequilíbrio nas notícias e omitindo situações históricas e geográficas que explicam as dificuldades de se compreender todos esses conflitos.
O “pivô geográfico da história”, ou o heartland mackinderiano, pode explodir em novas guerras, incendiando mais uma vez coração do mundo. A população mundial assiste, impassível, a esses acontecimentos, impotentes diante de um embate que sempre opôs forças poderosas da geopolítica mundial. Seguiremos acompanhando, com um olhar geopolítico, procurando ser o mais isento possível, mas seguramente opondo-se à maneira rapace e dominadora, disfarçada em defesa de democracia e liberdade, com que EUA, Europa e OTAN tem avançado por toda a região euro-asiática, com intuito de expandir suas influências, ampliar seus mercados e derrubar governos hostis na linha da estratégia da contenção, de controle do rimland e de cerco aos povos das estepes asiáticas.
* Já quando eu estava finalizando este texto me deparei com um artigo no blog do jornalista Mauro Santayana, que tem elementos já das questões geopolíticas que estão em jogo nessa disputa. A proibição, por parte da Rússia, da exportação de alimentos que contenham modificações genéticas, ou, os chamados transgênicos. Ainda segundo Santayana, isso se dá no momento em que praticamente metade da produção agrícola da Ucrânia passa a ser controlada por duas grandes corporações, a Cargill e a Monsanto.[7]




NOTAS:
[1] Robert Kaplan, autor do livro citado, “A Vingança da Geografia”, é o principal analista geopolítico da Stratfor, uma empresa de inteligência privada global. No seu livro ele procura descrever as dificuldades impostas pela geografia àquelas ações imperialistas executadas pelos Estados Unidos nas últimas décadas. Percebe-se que o conteúdo exposto visa obter uma análise cuidadosa dos erros cometidos, e, a meu ver, com o intuito de alterar as estratégias adotadas, não mais de intervenções militares baseadas em enormes contingentes militares e bélicos, mas partindo para ações de inteligências, de desestabilizações de governos hostis e operações tecnologicamente sofisticadas. O objetivo, “ser (os EUA) um poder equilibrador na Eurásia e um poder unificador na América do Norte”
[2] MACKINDER, Halford. O Pivô Geográfico da História. In: Revista de Geopolítica. Natal-RN, v.2, n.2, pp. 17-18. Jul/dez de 2011.
[3] KAPLAN, Robert D. A Vingança da Geografia. A construção do mundo geopolítico a partir da perspectiva geográfica. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013.
[4] BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. A Segunda Guerra Fria. Geopolítica e dimensão estratégica dos EUA. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013. P. 65
[5] Idem, ibidem.
[6] Idem. P. 66
[7] Leia o artigo acessando o link: http://www.maurosantayana.com/2014/05/os-ogm-cobica-e-morte.html

quinta-feira, 1 de maio de 2014

A SERVIDÃO HUMANA MODERNA

“A desgraça deste mundo reside no fato de ser muito mais fácil abandonar os bons hábitos do que os maus”.
William Maugham

O livro “A Servidão Humana”, um clássico da literatura mundial, foi lançado há quase exatos cem anos, em 1915, e o seu autor Wiliam Somerset Maugham, vivia também, pessoalmente, frente a dilemas que ainda nos dias de hoje são corriqueiros. Assumir a sua homossexualidade. Mas o conteúdo dessa obra-prima não está centrada nisso, mas em um forte questionamento sobre as escolhas feitas pelo indivíduo, diante dos problemas que a vida lhe apresenta. O amor, a família, o destino, a riqueza, a morte, as deficiências físicas e morais. E os desejos e angústias que permeiam as nossas decisões, fundamentais para definir nossos destinos. Era o retrato do ser humano em uma época marcada por transformações cruciais. O início da segunda guerra mundial impunha ao mundo novas realidades, marcadas pela brutalidade da guerra, e pelo embate ideológico que redefiniria o mundo. Mas, ainda se discutia sentimentos como bondade, paixão e amor, com sensibilidade, muito embora a hipocrisia, traço de caráter coletivo da sociedade, já se manifestasse em atos e comportamentos.
Cem anos depois, o que me proponho aqui é discutir outro tipo de servidão, que tem definido comportamentos, hábitos e vícios, gerados por uma impressionante dependência tecnológica em um novo tipo de sociedade, onde nos tornamos consumistas compulsivos, e nos consumimos pelo grau de escravidão que nos impõem os objetos cada vez mais sofisticados que nos cercam.
Servidão e escravidão podem carregar elementos conceituais diferentes, quando analisamos as estruturas sociais ao longo de séculos de transformações da história humana. Mas, são palavras que podem tornar-se sinônimas quando procuramos estabelecer as relações construídas pelo sistema capitalista e o grau de dependência criada entre os indivíduos e as mercadorias.
Esse fenômeno foi estudado e identificado por Karl Marx já no século XIX. Segundo ele, nas relações sociais que são estabelecidas na sociedade capitalista o indivíduo ao consumir uma mercadoria desconhece, em absoluto, todo o processo de produção, no qual está embutida a exploração da força de trabalho, principal elemento a acarretar a acumulação de riquezas nas mãos dos poucos que controlam os meios de produção.
As mercadorias foram adquirindo, ao longo da consolidação do sistema capitalista, por sua lógica entranhada, de garantir por ela os lucros aos comerciantes e à burguesia, o caráter de um fetiche. Por um lado, à medida em que cada vez mais ela cria uma vida própria, deixando de ser adquirida simplesmente porque advinda de uma necessidade, tornando-se um objeto de desejo irrefreável pelo qual os indivíduos se tornam dependentes; e por outro lado porque nesse processo perde-se a percepção de que ela é fruto da exploração do trabalho alheio, e por ele se garante o lucro, e o seu valor passa a extrapolar sua significância real, adquirindo um valor artificial ao sabor das manipulações criadas pelo mercado, deixando de ser vista como algo criado pelo trabalho humano e pelo qual devesse ser medido.
Por esse processo, a vontade do ser humano sucumbe ao que Marx denominou como o “fetichismo da mercadoria”, invertendo-se a ordem natural das coisas, com as pessoas sendo subsumidas nessa lógica sistêmica e aceitando serem dominadas pelos objetos. Perde-se, pela dependência criada em relação às coisas, a capacidade de refletir criticamente sobre o processo de exploração na produção da mercadoria e substitui a necessidade real, pelo desejo de consumir, afetando duramente a capacidade do ser humano de controlar de forma consciente a maneira como se dá o processo da produção.
Dessa forma o dilema se nos apresenta como no enigma da esfinge: “decifra-me ou devoro-te”[1]. Na incapacidade do ser humano decifrar todo o processo produtivo, responsável pela ampliação desmedida de mercadorias, e a consequente destruição da natureza, torna-se impossível realizar seus desejos objetivado na frase que já se tornou muito mais o foco de marketing do que de realizações efetivas para sua concretização: o desenvolvimento sustentável.
Essa dependência, contudo, assume nos dias atuais (muito embora perpassando isso por épocas passadas desde o surgimento do capitalismo) um estágio preocupante, porque se aproxima do limite possível de ser tolerado pela natureza, e porque culturalmente consome a juventude, principalmente, transformando-a em zumbis modernos, espécie de seres inanimados cuja capacidade de comunicar-se por vias de tecnologias sofisticadas afasta-a do contato e do convívio natural.
Paradoxalmente, essa escravização aos objetos, notadamente os de forte atração tecnológica, distanciam as pessoas, quando essas estão próximas, e as aproximam quando estão distantes. A proximidade passa a ser um empecilho porque impede de usufruir dos desejos doentios de se comunicar pelos aparelhos sofisticados. Isso pode fazer com que a capacidade de dialogar presentemente torne as novas gerações frias no convívio social e insensíveis aos contatos humanos, que tendem a tornar-se fúteis e passageiros.
Não há dúvidas que a tecnologia facilita a vida humana, reduz as distâncias e coloca as pessoas mais próximas. Mas o preço a pagar por isso tem sido bastante elevado quando se fala das relações humanas. O mesmo objeto de deslumbre que nos lança no mercado em busca de novidades, não necessárias, mas desejáveis, torna-se também alvo da marginalidade, quase sempre oriunda de camadas sociais mais baixa. Cada vez mais aparelhos celulares e tabletes são visados em assaltos e roubos. Repassados e vendidos no mercado paralelo o baixo preço dessas mercadorias faz com que ela seja disputada também por pessoas pobres. Com isso, não somente a classe média e os mais ricos ficam reféns dessas tecnologias, e de mercadorias que não deveriam ser as mais importantes em suas vidas, cujas necessidades mais prementes são relegadas a planos inferiores. Some-se a isso as facilidades de créditos que garantem acesso fácil às mercadorias e instigam o consumo. A alienação gerada por essa lógica consumista e os vícios que dela advém, passam a se fazer presente também entre os mais pobres, que se veem em um mundo distante daquilo que é a realidade vivida.
Por todas as classes sociais a dependência tecnológica assume ares de uma epidemia. E aquilo que deveria ser algo facilitador das relações sociais, torna-se um enorme impedimento para que se tenha a clara noção dos mecanismos reais de produção e do processo de manipulação da realidade a fim de tornar cada jovem um consumista em potencial.
Podemos argumentar que tais tecnologias, e as redes sociais que elas criam, tem ultimamente contribuído para aglutinar milhares de jovens em manifestações que tem azucrinado a vida de governantes. Mas nessas redes sociais vê-se também o lado selvagem, estúpido e odiento de muitas pessoas, que passam a frequentar um ambiente onde podem tudo, ou pensam que podem, e o desrespeito passar a se constituir em uma regra que se dissemina numa velocidade impressionante.
Alimentada pela mídia, estamos construindo via esses mecanismos uma geração marcada pelo ódio. Mas nesse sentimento não há, infelizmente, uma capacidade crítica suficiente para distinguir a origem de suas frustrações. O fetichismo, embutido na mercadoria, espalha-se pela sociedade, e a coragem de se manifestar via redes sociais, bem como a virulência em que essa rebeldia se transforma em alguns casos, não tem objetividade. Esses jovens, em sua maioria, não se disporiam a enfrentar os seus piores demônios, pois são eles que produzem seus objetos de desejos. São alienados e, com esses comportamentos, não causam nenhum medo naqueles que controlam toda a riqueza, os meios de produção e a cada um deles, por intermédio das mercadorias que desejam.
Não defendo nenhum manifesto Ludista, anti-tecnologia. Mas me preocupa o caminho que estamos trilhando em direção ao futuro. Como sempre digo, o futuro não existe. Ele é uma construção idealizada. Quando imaginamos, contudo, aquele tempo que ainda virá, e no qual nos imaginamos nele, a menos que a morte nos tolha a vida, devemos olhar para o presente. Ele é que dirá que tipo de mundo estamos construindo.
Faltando um ano para o prazo estabelecido a fim de se resolver os principais problemas da humanidade, porque é tão difícil se atingir os “objetivos do milênio”?[2] Porque tudo isso depende do rompimento com as estruturas vigentes no sistema capitalista, cuja prioridade é produzir a uma meta lunar (ou lunática), sem limites, cada vez mais mercadorias.
Somos arrastados por um turbilhão midiático, de propaganda, que invade cada casa, indistintamente, a martelar em nossos desejos e a nos impor uma vontade. Sucumbimos a esse fetichismo, agora ampliado pelo marketing, e deixamos para depois a preocupação com os destinos da humanidade. Eles deixam de ser nossos quando atingimos essa capacidade consumista e passamos a querer resolver um problema somente quando ele nos incomoda particularmente. Somente a crítica, a capacidade de identificar as origens desses males, e rompendo com o fetichismo (o que não significa abrir mãos dos desejos, mas ter a consciência crítica de seus limites), pode-se corrigir o rumo que tem nos encaminhado em direção a um abismo.
Certamente essas poucas palavras não surtirão efeito, porque tem alcance limitadíssimo. E muitos daqueles que lerem isso que escrevo, já possuem essa consciência crítica formada, e sentem a mesma impotência diante desses problemas. Mas consigo assim me aliviar das culpas, visto ser um indivíduo do meu tempo, e também algumas vezes cego pelos desejos consumistas.
Exprimo dessa forma um sentimento que demonstra o quão contraditório é o mundo em que vivemos. Contudo, tenho a consciência da necessidade de mudar o mundo não pela cultura, pelos hábitos, mas rompendo com as relações sociais de produção que nos escraviza e limita nossa capacidade de construirmos um mundo mais solidário e menos egoísta. Somente assim, e destruindo essa tradição que está enraizada em nossas entranhas e acompanha a cada nova geração, poderemos criar outros valores que nos levem a consumir aquilo que é estritamente necessário para vivermos bem e com dignidade, com o olhar voltado para o passado, os pés firmes no presente e nossos sonhos utópicos realizáveis a desenhar nossos destinos.
Quem sabe a partir daí possa ser possível falar em desenvolvimento sustentável?
Vejam este vídeo. Fala sobre a maneira como estamos substituindo nossa maneira de interagir, nos submetendo à dominação dos objetos e da tecnologia. 




[1] “Diz uma antiga lenda grega que a deusa Hera enviou a Esfinge (uma besta com cabeça de mulher, asas e corpo de animal) para atormentar os moradores da cidade de Tebas. A Esfinge cruzava o caminho de todos os que se aproximavam da cidade e formulava um enigma para o viajante. Quem errava o enigma era devorado pelo monstro. Um dia, Édipo cruzou com a Esfinge, que lhe propôs o seguinte enigma: “O que durante a manhã tem quatro pernas, ao meio-dia tem duas e à noite tem três”. Édipo respondeu corretamente* e a Esfinge ficou tão furiosa que se lançou num precipício. Graças à façanha de derrotar a Esfinge, Édipo tornou-se rei de Tebas e ganhou a mão da rainha enviuvada, sua própria mãe.”.
(*) Resposta ao enigma: O ser humano. Representado em suas fases de recém-nascido, adulto e na velhice, quando necessita ser apoiado em uma bengala ou cajado.
[2] Em 2000, a ONU – Organização das Nações Unidas, ao analisar os maiores problemas mundiais, estabeleceu 8 Objetivos do Milênio – ODM, que no Brasil são chamados de 8 Jeitos de Mudar o Mundo – que devem (deveriam) ser atingidos por todos os países até 2015. 1. Acabar com a fome; 2. Educação básica de qualidade para todos; 3. Igualdade entre os sexos e valorização da mulher; 4. Reduzir a mortalidade infantil; 5. Melhorar a saúde das gestantes; 6. Combaer a Aids, a malária e outras doenças; 7. Qualidade de vida e respeito ao meio-ambiente; 8. Todo mundo trabalhando pelo desenvolvimento. (http://www.objetivosdomilenio.org.br/)