sábado, 26 de novembro de 2011

COMO CONHECER A VERDADE E EVITAR A JUSTIÇA?

Até que ponto a Comissão da Verdade será capaz de nos colocar de frente com o que a História tem para nos ensinar?
No dia 18 de novembro, em solenidade no Palácio do Planalto, a Presidenta Dilma Roussef sancionou a Lei que criou a Comissão da Verdade, mecanismo pelo qual o Estado brasileiro buscará investigar e identificar os vários casos de violação dos direitos humanos no Brasil, no período de 1946 a 1988.
Fui convidado para o evento pela contribuição que tenho dado na busca pela localização dos corpos dos guerrilheiros, como observador do Grupo de Trabalho Araguaia (GTA), sob a coordenação do Ministério da Justiça, Ministério da Defesa e Secretaria Nacional dos Direitos Humanos.
Participei por entender que a criação da Comissão da Verdade cumpre um papel importante na identificação dos graves crimes que se cometeu em nosso país, no período em que vigorou a ditadura militar. E impõe ao Estado a obrigação e responsabilidade de garantir as condições para que todas as informações que se encontram sob sigilo em diversos órgãos, sejam abertas e expostas para que se descubram as violações que ocorreram, em quais circunstâncias, bem como a identificação dos responsáveis.
Esse tipo de comissão também já foi criada em outros países, mas sob situações e expectativas diferentes, principalmente no Chile e na Argentina, dentre outros. O elemento diferencial no caso do Brasil é uma polêmica Lei da Anistia, auto-concedida pelos militares ainda enquanto vigorava o regime militar. Essa lei garantiu aos militantes de esquerda a condição para retorno ao país dos exilados, e dos que estavam presos e/ou processados pela famigerada Lei de Segurança Nacional, em esmagadora maioria por cometerem “crimes” de opiniões, ou por insistirem em se opor à ditadura, portanto nitidamente políticos.
Ocorre que a condição para isso foi assegurar que os agentes do Estado, envolvidos com crimes de torturas e assassinatos, também fossem cobertos por essa lei, impedindo que eventuais processos os condenassem, evitando assim que como conseqüência os bastidores de toda a sujeira dos porões da ditadura fosse exposto. Diferente do que aconteceu, e acontece, nos países citados, onde até mesmo generais envolvidos com crimes estão sendo condenados.
No Brasil, como historicamente acontece, as transições políticas se completam mediante arranjos entre as elites, ou entre essas e eventuais novos grupos que ascendem ao poder. Com o pretexto de garantir estabilidade política procura-se amenizar os eventuais abusos cometidos em períodos anteriores. Assim, deixam para a história as análises sobre possíveis violações de direitos humanos, abusos, assassinatos e crimes de torturas. Mas é essa mesma história que nos dá o testemunho de que esses arranjos, que em certos casos até premiam os responsáveis por alguns delitos tornando-os personagens de destaques nos panteões da política, reforçam a impunidade, não pune tais crimes e possibilitam que em poucas décadas à frente tudo possa se repetir.
Como a suprema corte, o mais alto órgão da justiça em nosso país é indicado pelo chefe do poder executivo, perde-se, assim, parte da isenção que se esperaria dessa instituição republicana. O que se vê, talvez por isso, é uma clara opção do judiciário por esse rearranjo, tomando decisões nitidamente políticas, numa afronta aos preceitos constitucionais que apontam para punições aos crimes de tortura, internacionalmente considerados como imprescritíveis e de caráter hediondo.
Ora, porque insistir em repetir em todos os discursos que a criação da Comissão da Verdade não tem o caráter de revanchismo. O que se pode dizer da ação de um procurador público? Que, em nome do estado, tem o papel de condenar todos aqueles que agem contra os interesses públicos? Ou do promotor? Que nos julgamentos de ações criminosas age também para punir, de acordo com a lei e em nome do Estado, quem porventura tenha cometido crime, e impondo de acordo com a lei as punições devidas? E os crimes de torturas se encontram entre aqueles cujas penas são as mais duras e têm que ser cumpridas em regimes fechados. Porque diferenciar esses casos dos absurdos cometidos, como no exemplo que cito no artigo “História e Verdade” (http://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2011/08/historia-e-verdade-para-nao-esquecer.html), extraído do depoimento de um torturador e citado no livro “Sem Vestígio”, de Taís Moraes? Como falar em revanchismo, quando se trata de punir crimes hediondos e monstruosos, que incluem abusos sexuais, decapitação e esquartejamento?
Ora, a busca pela verdade não pode se limitar a investigar os crimes, como eles foram produzidos e os seus graus de brutalidades. Deve também procurar identificar os responsáveis e apontar punições. Só assim a verdadeira democracia estará resguardada, já que cortará a até aqui quase eterna certeza da impunidade pelos crimes políticos, amenizados pelos conchavos e cordialidade de antigos adversários, em alguns casos tornados aliados nos rearranjos sempre possíveis num jogo político que se baseia mais no pragmatismo do que é mais importante para assegurar a manutenção do poder.
Embora defensor da Lei, entendo que esse comportamento pusilânime a tornará inócua. A tarefa que ela irá desempenhar poderia – e até que assim já ocorre – ser cumprida por historiadores, jornalistas e cientistas sociais. São inúmeras as pesquisas feitas e livros publicados que comprovam com bases empíricas e análises documentais, todos os abusos que foram cometidos, com indicação, inclusive, dos responsáveis. Até porque, alguns deles têm - sabe-se lá porque, provavelmente por desencargo de consciência, em função de envelhecimento e de proximidade da morte - assumidos seus crimes, mas sempre procurando proteger-se com o argumento de que cumpriam ordens. Ora, ninguém é obrigado a torturar e matar, se o faz, assume a responsabilidade e tem que ser punido com o rigor da lei. Esta não pode ser abrandada, nem para o executor, nem para quem ordenou o crime.
De outro modo o Estado brasileiro deverá, independentemente desta Lei, prestar contas à Corte Interamericana de Direitos Humanos, da Organização dos Estados Americanos (OEA), como já foi condenado no caso da Guerrilha do Araguaia. A impunidade, e a negação em prestar informações sobre os crimes cometidos, de tortura, execução e ocultação de cadáver, levaram a essa condenação. Embora a Corte tenha reconhecido os avanços, principalmente a partir da criação do Grupo de Trabalho como decorrência de decisão judicial (ver o artigo citado acima), a maneira como o estado brasileiro vem se submetendo a uma lei de anistia considerada inadequada e ilegítima, levará certamente a uma nova condenação do país na OEA.
O mais estranho, na análise da Lei que cria a Comissão da Verdade, é a absurda distensão temporal, ampliando as investigações a épocas anteriores ao golpe militar. Absolutamente desnecessária, que só dificulta os trabalhos de uma comissão que terá um prazo limitado a dois anos para apresentar resultados sobre investigações de milhares de fatos de violações de direitos humanos ocorridos entre 1964 e 1984. O período anterior merece tanto ser investigado quanto os abusos que continuam sendo cometidos desde 1984 até os dias atuais, com vários casos de torturas ocorrendo em quartéis, cadeias, penitenciárias e até mesmo em favelas e bairros periféricos nas grandes cidades. Mas não deveriam ser objetos da criação de uma comissão específica, que deve se concentrar num período recente, quando vigorou uma ditadura militar em nosso país. Deve ser parte das ações das estruturas existentes de um estado cujo governo eleito democraticamente, não tomou até então as medidas necessárias para fazer uma transformação radical na estrutura policial do Estado Brasileiro, que ainda se mantém formada por uma mentalidade que vê no cidadão um suspeito em potencial, principalmente os pobres, jovens, estudantes e negros.
Caberá então à sociedade, de forma organizada dar o apoio necessário aos trabalhos da Comissão da Verdade, mas exigir mais, principalmente que não abdique de punir criminosos. É imperativo uma mobilização para que se revise a Lei da Anistia, e que sejam eliminadas as restrições para as devidas condenações a torturadores e aos que praticaram crimes de mortes em nome de um Estado totalitário e de poder absoluto e discricionário. Tal como está ocorrendo em diversas partes do mundo.
Charge - Santiago
Essa é a condição para que o nosso olhar do passado, nos leve a entender o presente, e nos dê a certeza de que o nosso país não será mais submetido a uma ditadura que elimine aqueles que têm coragem de defender suas próprias opiniões e expressá-las publicamente. O combate à impunidade é condição sine qua non, para que a estabilidade democrática não seja passageira, e para que possamos criar uma nova cultura política no Brasil e na América Latina baseada na tolerância com as divergências ideológicas, e também a fim de evitar que as Forças Armadas nacional não sejam instrumentalizadas e se voltem contra os cidadãos de seu próprio país.
Não falamos aqui de revanchismo, vingança, ou qualquer termo que sirva de justificativa para evitar impunidades. O que se quer, verdadeiramente - além da Memória e da Verdade - é Justiça!

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

INDIGNADOS! PARA QUAL DIREÇÃO SEGUEM AS MUDANÇAS?

É interessante estarmos atentos à conjuntura política internacional, não somente naquilo que é possível de visualizar, como decorrência de manifestações que se espalham pelo mundo. Infelizmente, a revolta das pessoas decorrente de situações reais, de dificuldades que lhes afetam diretamente, ao não se traduzir em transformações imediatas (o que é praticamente impossível), criam desesperanças e jogam nas ruas milhares de pessoas sem a verdadeira percepção de como as estruturas do Estado funcionam. E, principalmente, de como aqueles que detém o poder, e a riqueza, trabalham nos bastidores para não perder o controle da situação.
Charge: Maringoni - site Carta Maior
A ingenuidade é a marca que acompanha a maioria das pessoas, quando o assunto é política. Suas revoltas são facilmente apropriadas pela mídia conservadora e as imagens que são transmitidas deformam os objetivos de suas lutas. Ao mesmo tempo, no submundo do poder,  por onde funcionam as articulações que não são visíveis ao cidadão comum, uma disputa ferrenha pelo controle do espólio de estruturas em crises, tomam dimensões de uma verdadeira guerra invisível.
Não se imagine em meio a uma situação em que o simples brado das ruas seja suficiente para alterar estruturas em crises. Quando percebeu uma situação de crise na antiga Rússia, Lênin, então no exílio, escreveu que não bastavam as condições objetivas apontarem no caminho de transformações revolucionárias. Naquela época, a Rússia convivia com uma crise econômica brutal, e se via perdida na frente de batalha da primeira guerra mundial, sem condições de garantir o mínimo de condições para que seus soldados suportassem os ataques inimigos.
Mas, mesmo nessas circunstâncias, o líder bolchevique considerava necessário que determinadas condições subjetivas fossem criadas para que o poder pudesse ser efetivamente trocado de mãos, e assim, mudar as estruturas sociais. Era preciso, segundo ele, criar as condições subjetivas, ou seja, construir os mecanismos que garantiriam o poder nas mãos dos bolcheviques. Esse poder passou a ser os sovietes, que terminou por se constituir em poder paralelo ao governo de transição sob o comando de Kerenski, um aliado da burguesia russa que ascendeu ao poder logo depois do fim do czarismo.
A estratégia era ter um partido revolucionário forte e organismos (que foi denominado células), espalhados por todos os cantos dos órgãos do Estado (exército, burocracia etc.) e nas grandes indústrias. Entendia Lênin, que se as condições subjetivas não estivessem devidamente preparadas, dificilmente se daria a tomada de poder e a consequente transformação nas estruturas do modo de produção capitalista.
Não quero aqui artificializar uma situação, aparentemente indicando que as condições objetivas estão criadas a ponto de se proceder uma possível mudança no capitalismo contemporâneo, localizadamente em alguns países que se encontram numa crise econômica insustentável.
Mas pretendo, sim, demonstrar como não é suficiente, embora seja necessário, que as multidões ocupem as ruas em protestos contra as injustiças geradas por um sistema que só faz acentuar as diferenças sociais e a concentração da riqueza.
IMPÉRIO E MULTIDÃO
Michael Hardt e Toni Negri, em dois livros que devem ser lidos, mas que tem passado nos últimos tempos sob um manto de indiferença, inexplicavelmente, tratam dessa situação com bastante pertinência, embora tenham em suas conclusões seguido por um caminho oposto ao daquele indicado por Lênin.
Primeiramente em “Império”(1), eles analisam toda a crise que envolve o poder hegemônico dos Estados Unidos, e a sua inevitável decadência, mas consideram que o poder imperial é muito mais abrangente do que todo o poder estadunidense. Para eles o cerne deste poder é o sistema capitalista mundial, e a condição para sua superação reside no papel que será desempenhado pela pessoas, num processo de revoltas permanentes sem que haja necessariamente um centro condutor disso.
Escorados nos conceitos de biopoder e biopolítica, de Michel Foucault, Hardt e Negri conseguiram com uma década de antecedência, prever toda uma conjuntura que viria na sequência do acirramento da crise, principalmente como consequência da ação intempestiva dos Estados Unidos na sequência dos ataques do 11 de setembro de 2001.
Já em “Império”, o papel da multidão já se descortinava dentro de um projeto de democracia global. A expressão “a multidão contra o império” definia, assim, como eles analisavam que transcorreriam os anos seguintes, como consequência não somente de crises econômicas, mas também da falência dos instrumentos tradicionais que dão suporte à democracia. Incluindo-se o conceito de soberania política, expresso nas formas rotineiras de disputa eleitoral pelo voto. Propunham, então, uma reinvenção da democracia e a necessidade de se destruir a separação entre sociedade civil e o estado, e sugerem que essa era um questão posta pela tradição marxista.
A “Multidão”(2), aí os elementos principais da análise sobre quem exerceria esse papel é exposto nesse segundo livro, cumpriria essa função de mediação entre a democracia e a prática política. A multidão em si não é a sociedade civil, ela se caracteriza como uma forma ininterrupta de relações cujas singularidades a colocam em movimento. Não se exigiria dela a transformação em um partido político, ou qualquer estrutura fixa de organização, mas ela é impulsionada por um desejo que a leva ao âmago da crise. Contudo, eles reconhecem que ela não compõe uma unidade, e isso a torna (a multidão), “uma espécie de organização social definida pela capacidade de agir em conjunto sem qualquer unificação”.(3)
Mas, embora até aqui as análises de Hardt e Negri estejam coincidindo com o que a realidade nos mostra, principalmente no que está exposto no primeiro livro, “Império”, não nos parece que o vaticínio extraído do segundo livro, “Multidão”, se confirme no que acontece na geopolítica mundial, apesar da presença como agente ativo, muito embora com uma subjetividade dispersa, das multidões que ocupam diversas praças e ruas por todo o mundo.
OCCUPY WALL STREET
Depois de várias semanas manifestando-se por várias partes dos Estados Unidos, com as maiores presenças em Nova Iorque, nas vizinhanças do maior centro financeiro do mundo, o movimento dos indignados naquele país passou a ser reprimido implacavelmente, não sendo poupado nem mesmo pessoas idosas, em cenas que dariam inveja às ditaduras mais truculentas do mundo. 
Comprova-se assim que a liberdade das pessoas se manifestarem tem limites, e este atinge o seu ápice quando as estruturas financeiras e o poder político se sentem ameaçados, independente de haver um não um sistema democrático. Isso nos remete também ao conceito de democracia, e possibilita reforçarmos a compreensão de que ela só é permitida enquanto não incomoda as forças que regulam o sistema capitalista.
Mas, na comparação do papel desempenhado pela multidão no centro financeiro dos Estados Unidos, e por outros Estados daquele país, com a situação política que advém dessas ações, percebemos claramente a absoluta falta de um projeto que possibilite resultados positivos que atendam as expectativas dos revoltosos. Como encaminhar as mudanças? Concretamente, o que se propõe com as manifestações? Ou se limitam elas a formas de protestos e indignação contra a ganância? Mas é essa a vitamina que dá vigor ao sistema, aliada a sua irmã gêmea, a usura. Então seria preciso propor a transformação do sistema e a superação do que é, em essência, a causa principal que dá suporte a tudo aquilo pelo qual se está lutando contra.
Não ocorrendo isso, faltando, portanto, aquilo que Lênin definia como os fatores subjetivos, e que são subestimados nas análises de Hardt e Negri, todas essas revoltas potencializadas hoje em dia pela capacidade de rapidez na informação, através das redes sociais, tornam-se insuficientes para transformar aquelas estruturas geradoras das crises econômicas e sociais. Mas há um reverso nessa história, e talvez seja o pior resultado. A possibilidade de esse descontentamento ser absorvido por grupos e partidos conservadores, à espreita do crescimento da desesperança que se seguirá à frustração inevitável daqueles que se entregam aos protestos, ao não verem resultados concretos nas suas revoltas.
Tem sido exatamente esse o caminho que está sendo tomado, não somente nos Estados Unidos, com o aumento da influência do Tea Party, braço direitista do Partido Republicano, mas também na Espanha, Itália, Grécia, certamente seguirá nessa linha por toda a Europa, e também nos países árabes, onde revoltas semelhantes ocorreram e continuam a acontecer.
Na Grécia, pressionado por Alemanha e França, o governo socialista, que ascendera ao poder com um forte apoio popular, recebeu voto de desconfiança, perdeu força e foi obrigado a sucumbir às pressões do centro da Europa. Na Itália, um primeiro-ministro que se mantinha no cargo à custa de uma forte manipulação dos poderes republicanos, principalmente da Justiça, e fazia troça das dezenas de processos que recaíam sobre seu comportamento político e moral, foi substituído por uma troupe de “técnicos”, economistas formados nas mesmas escolas daqueles que foram responsáveis pela crise dos “subprimes” nos Estados Unidos. Nome técnico que pode ser traduzido por excesso de ganância diante da especulação com hipotecas imobiliárias. Na Espanha o governo socialista foi vergonhosamente derrotado para um candidato conservador.
Segundo Eduardo Febbro, correspondente do site Carta Maior em Paris, “Mario Draghi, o atual presidente do Banco Central Europeu, Mario Monti, o presidente do Conselho Italiano que substituiu a Silvio Berlusconi, Lukas Papademos, o novo primeiro ministro grego, todos pertencem à galáxia do Goldman Sachs”. Mas esse controle, efetivado com mais força mesmo com toda a crise da qual eles tem parcelas significativa de culpas, não se restringe à Europa. “Henry Paulson, ex-presidente do Goldman Sachs, foi em seguida nomeado Secretário do Tesouro estadunidense, ao passo que William C. Dudley, outro alto funcionário do Goldman Sachs, é o atual presidente do Federal Reserve de Nova York. Mas o caso dos responsáveis europeus é mais paradigmático. A palma de ouro quem leva é Mario Draghi, o atual presidente do Banco Central Europeu, que foi vice presidente do Goldmann Sachs para a Europa entre os anos 2002 e 200”.(4)
PRAÇA TAHRIR REOCUPADA
Enfim, caiu a máscara por trás da qual a mídia escondeu toda a real situação do Egito. País com uma posição estratégica importante para os Estados Unidos, em sua indisfarçável obsessão por controlar regiões ricas em petróleo, devido à importância do Canal de Suez, bem como pela proximidade com a Arábia Saudita, jamais seria permitido que o descontrole político levasse à ascensão de algum governo anti-imperialista.
Com muita rapidez a diplomacia ocidental manipulou as peças de um xadrez intrincado, garantiu com que as vozes dos indignados enfraquecesse o governo de Hosni Mubarak, mas montou uma estratégia que garantisse a continuidade do poder nas mãos dos mesmos militares que davam sustentação a ele. Imediatamente espalhou-se pelo mundo que o clamor dos indignados havia possibilitado a derrubada de uma ditadura e a transição para a democracia, algo que deveria se suceder por todo norte da África e Oriente Médio. Nos fizeram crer que a “Primavera Árabe” começara pelo Egito e que, com a multidão nas ruas, a democracia sairia vitoriosa.
Tudo não passava de uma estratégia maquiavélica. Os espiões ocidentais já sentiam o pulsar das revoltas, trataram de repassar as informações às potencias ocidentais, á frente os Estados Unidos, e prepararam um plano para realizar as mudanças nos governos daquela parte do mundo, para que tudo continuasse como antes. Seguiu-se mais ou menos tal qual imaginou o então governador mineiro Antonio Carlos Ribeiro de Andrada, pouco antes da Revolução de 1930 aqui no Brasil: “Façamos a revolução antes que o povo a faça”.
Nos países onde seria mais difícil manipular essas manifestações, por terem regimes mais fortes e menos suscetíveis às revoltas populares, até pelo caráter mais ditatorial de seus governos, as ações tomariam uma proporção maior, de instigamento de revoltas armadas, incentivando-se grupos marginais, infiltrando os “falcões”, potencializando revoltas armadas, até possibilitar as ações da OTAN. Os casos mais possíveis de serem submetidos a esses tipos de ações seriam dos regimes da Líbia e da Síria.
Naqueles que, embora estivessem à beira da queda, pelas insatisfações populares, mas cujos interesses estratégicos (proteção da Arábia Saudita) envolviam não somente o petróleo, mas a existência de bases militares, como o Bahrein e o Iêmen, se tentaria, e isso prossegue até os dias de hoje, manter no poder os governos fragilizados. Dessa forma o controle sobre esses territórios seriam mais efetivos, pois deveriam sua continuidade à essa política sutil de definir quem cairia ou sobreviveria aos efeitos da “primavera árabe”.
Na Líbia o que ocorreu foi claramente um golpe internacional, patrocinado principalmente pela França e Inglaterra com o aval dos Estados Unidos, utilizando-se para isso do poder militar praticamente imbatível da OTAN. Sem isso dificilmente o governo de Muammar Kadafi teria sucumbido. Da mesma forma, sem essa ação militar será difícil derrubar o governo da Síria. Contudo, uma ação do mesmo tipo da que foi desencadeada na Líbia resultaria desastrosa, pelas relações que a Síria possui com o Irã e os grupos palestinos como o Hesbollah e o Hamas, e por suas complicadas fronteiras.
Nos últimos dias essa estratégia tem sido desmascarada, com a retomada das manifestações populares e a reocupação da praça Tahrir. Mas desta vez, ao contrário do que ocorreu quando do governo de Mubarak, as forças armadas, agora com o controle do poder, investiu a repressão militar contra a população, resultando em dezenas de mortos e centenas de feridos. Comprova-se, com essas ações, que havia um plano preparado nas primeiras manifestações, tanto para derrubar Mubarak, como para garantir que no poder permanecessem os militares, velhos aliados dos Estados Unidos.

A INDIGNAÇÃO DAS RUAS NÃO SE TRADUZEM EM MUDANÇAS
Porque o clamor popular se esvai por entre as redes e esgotam-se nas ruas? Retornamos ao começo, quando tentamos entender as questões postas por Hardt e Negri. A multidão, revoltada, carrega em suas entranhas uma infinidade de razões que justificam um comportamento de indignação e rebeldia, principalmente os mais jovens. Essa mistura de descontentamento, alia-se ao fato de não haver um centro que uniformize esse pulsar, caracterizando o movimento por sua desorganização e a mais absoluta ausência de instrumentos capazes de tornar real um sentimento que se fortalece cada vez mais na virtualidade das redes.
Por uma própria decisão do movimento os partidos são excluídos do seu meio, embora eventualmente algum partidário esteja presente. Até porque eles também são responsabilizados, juntamente com os instrumentos tradicionais da política e do poder, pela crise econômica. Ora, quando expõem o papel da Multidão, no trabalho que citamos aqui, os dois filósofos não consideram importante a busca por uma unidade, não sendo necessário um centro que lidere ou organize o movimento. Segundo eles, essa unidade pode ser extraída do próprio movimento e não necessariamente na inversão que traduz o tradicional formato da política, contra a qual se batem os movimentos dos indignados.
Mas o resultado desse hiato traz como consequência um certo niilismo, sem que ao final se consiga encontrar instrumentos capazes de operar as mudanças. Ou seja, renega-se as estruturas vigentes no capitalismo, inegavelmente reconhecidas como responsáveis pela situação de crise no mundo e pelo avanço das desigualdades sociais, mas espera-se que a simples presença da multidão nas ruas, em protestos carregados de subjetividades, possam levar a transformações. Imagina-se que do vazio, das ausências de perspectivas, contando-se somente com a rejeição ao sistema, possa vir o mundo a encontrar outro caminho. Se tudo está desprovido de sentidos, após o caos e a certeza de que vivemos em meio a muitos absurdos, certamente a morte por inanição do capitalismo forçará a humanidade a encontrar outro sistema. É como se Nietsche revivesse em meio á indignação da multidão.
Ora, mas tratamos também de poder, de como e por qual meio as estruturas do sistema permanecerão no pós-crise. Claro que aqueles que são responsáveis pelo caos econômico e pela crise sistêmica, jamais entregarão o poder econômico que possuem em suas mãos. São eles os responsáveis por transformar o oxigênio e até mesmo as paisagens em mercadorias. Tudo, em suas mãos, vira negócio, gera dinheiro, acumula riqueza. Obviamente, concentrada em suas mãos, uma minoria que detém o controle dos meios de produção por todo o mundo. Ilusão imaginar que todo esse poder lhe será tirado pela simples presença da multidão nas ruas.
O que observamos então, com um olhar criterioso e detalhista, é uma mudança de estratégia diante daquilo que não é possível ser negado. O establishment, procura então formas de transmitir à essa indignação uma opinião pública construída por mecanismos de marketing, criando um sentimento de aversão á política. Pois se a política, os políticos e as estruturas que compõem o Estado passam a também a fazerem parte da lista de condenados, juntamente com o sistema, o que restaria à multidão como instrumento para realizar as mudanças?
Com essa estratégia, os donos dos meios de produção, sob o controle de grandes corporações, e utilizando-se da grande mídia, que também lhes pertencem, transformam uma potencial revolta que poderia resultar em processos revolucionários, em meras estultices. As redes sociais se enchem da mesma forma, de discursos indignados e da repetição do que a mídia lhes incute; da aversão à política e da campanha anti-corrupção, como se isso fosse decorrente da falta de caráter do político, e não uma das pragas criadas pela ganância que movimenta o sistema, indistintamente. Embora mais frequentemente utilizada por este como decorrência da proximidade com o poder. O que não se pode, sob nenhuma circunstância, generalizar, pois que senão afastam os honestos da política e tornam ainda mais impossível por fim àquilo contra o qual se levantam os protestos. Deixando o campo aberto para a ação dos “testas de ferros” e “laranjas” que representam os interesses das grandes corporações.
De possíveis agentes das mudanças, os indignados, ao não aceitarem lutar para transformar as instituições por dentro delas, e abdicar de aceitá-las como canais para instituir uma verdadeira democracia, tornam-se instrumentos nas mãos dos setores conservadores, que através da mídia, de forma oportunista, dizem defender valores que não compõem suas pautas diárias. Transmitem à população a idéia de que defendem ética e honestidade, quando em verdade escolhem sob sua ótica quem deve ser execrado porque não lhes transmitem confiança e que podem ser sacrificados para ampliar o sentimento de revolta, justo, embora completamente afetado pela manipulação construída para que tudo mude, a fim de poder continuar do jeito que está.
Constroem, com a rejeição à política, e um sentimento de aversão às saídas institucionais, um caminho fértil para a intolerância e um porto seguro para o fascismo.



NOTAS:
1. Negri, Antonio; Hardt, Michael. Império. São Paulo: Record, 2004
2. Negri, Antonio; Hardt, Michael. Multidão - Guerra e Democracia na Era do Império. São Paulo: Record, 2005.
3 - “Questões para Michael Hardt e Toni Negri” – Novos Estudos, nº 75, julho de 2006 - http://www.scielo.br/pdf/nec/n75/a07n75.pdf
4 – “Goldman Sachs, como criar uma crise e governar o mundo” – Eduardo Febbro – Carta Maior - http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18998

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A USP, O MOVIMENTO ESTUDANTIL E A REPRESSÃO POLICIAL

Eu estava me preparando para escrever um artigo sobre o Irã, e a ameaça permanente de um ataque partindo de Israel, com o apoio de Grã Bretanha e Estados Unidos. Mas a semana que passou foi tomada por um fato — dentre tantos outros talvez até de maior importância — que poderíamos caracterizar como uma tragédia de erros.
Conflito na USP - R7
Refiro-me a toda confusão em torno das ações da Polícia Militar no Campus Universitário da mais importante universidade brasileira, a USP, Universidade de São Paulo. O estopim do problema foi a prisão de três estudantes no perímetro do Campus, supostamente sob o argumento dos mesmos estarem usando maconha. Não se sabe, pelas notícias (mal) divulgadas, se os mesmos portavam a erva em quantidade que é caracterizada como tráfico. Não obstante isso a reação que se seguiu, protagonizada pelos estudantes que protestavam contra o fato, deu início a uma série de confrontos que culminou com a invasão do prédio da Reitoria da USP.
Vou centrar as minhas análises em três aspectos, e daí tecer considerações que possam contribuir para o debate acerca da liberdade dentro da universidade, da autonomia dessa instituição e da capacidade de o movimento estudantil se reinventar.
Primeiro a ação da polícia foi desnecessária, o fato de fumar maconha não torna as pessoas marginais. Bom, para mim que nunca fumei, nem nunca precisei usar maconha ou outras drogas (a não ser aquelas receitadas por médicos para situações de depressão, e que viciam tanto quanto aquelas), considero que eles são vítimas, da mesma forma como os que são viciados em cigarros ou no alcoolismo, permitidos abertamente. No caso das bebidas com propaganda na TV, inclusive no horário do esporte. Aliás, são os maiores patrocinadores.
Polícia Militar, dentro de um campus universitário, mais cedo ou mais tarde dá em m... (para repetir um bordão do personagem do filme Tropa de Elite). É inevitável o confronto, não somente por lidar com um ambiente em que historicamente se contrapôs a uma estrutura repressiva utilizada discriminadamente, contra aqueles que se opunham às restrições da liberdade, à falta de democracia e à militarização da política.
Mas também porque é um território composto majoritariamente por jovens, avessos por características à força policial e a truculência que marca o jeito de agir dessas polícias aqui no Brasil. Carregam ainda a rebeldia de uma etapa de transição em suas vidas, em que, seguramente, qualquer ação que ameace a sua liberdade será enfrentada com destemor. Principalmente se for a polícia o oponente a lhe ameaçar. Isso acontece também em muitos conflitos entre policias e torcedores, onde são os jovens das torcidas organizadas que enfrentam de peito aberto policiais fortemente preparados para reprimir.
Eu usei a palavra “discriminadamente” alguns parágrafos atrás (embora pudesse utilizar indiscriminadamente), porque acredito que um policial já se previne quando tem que lidar com estudantes. Mas essa precaução não é no sentido positivo, de saber lidar com esse jovem, mas ao contrário, creio que há uma antipatia que é construída dentro da caserna, dos treinamentos e da estrutura construída para reprimir desde a época da ditadura militar. A juventude, os estudantes secundaristas e universitários, sempre estiveram presentes em grandes manifestações, e por muitas vezes peitaram o aparato repressivo sem medo. Por isso, quando a juventude toma as ruas, de forma organizada, sempre impõe temor àqueles que têm o poder e determinam políticas contra as quais os jovens se opõem e radicalizam em ações.
Ora, sendo assim, vai dar m... a presença da polícia militar em qualquer campus universitário. Mais cedo ou mais tarde o conflito será inevitável. Os gestores que não têm essa percepção, geralmente são movidos por uma estupidez típica de quem não deveria gerir uma universidade, ou porque carregam em sua ideologia um sentimento fascista, em que a intolerância é o remédio adotado contra toda e qualquer atitude que transgrida suas concepções. Em um caso, ou em outro, não estão capacitados para dirigir uma universidade, e muito menos para querer dar lição de democracia.
estadao.com.br
Em segundo lugar, a reação de um grupo de estudantes extrapolou o limite do bom-senso, tanto pela estratégia adotada, como pelo comportamento agressivo que possibilitou à mídia reproduzir imagens que os assemelhavam a bandos de marginais, com rostos cobertos e mascarados em um estilo que foge à coragem que sempre caracterizou a juventude estudantil.
Esse comportamento, aliado ao desrespeito à decisão majoritária de uma assembléia, transmitiu ao mesmo tempo uma certa semelhança com um estilo autoritário e antidemocrático, que possibilitou a perda de credibilidade e deu margem para uma  sequência de reportagens e artigos que procuravam transmitir a idéia de que suas lutas resumiam-se à defesa de um território livre para o consumo de drogas, consequentemente, para o tráfico.
Aliás, historicamente sempre foi um problema no movimento estudantil na Universidade de São Paulo o desrespeito à democracia. Por ser muito grande e haver um número majoritário de estudantes que não se envolvem, o movimento estudantil é muito dividido, o que faz com que a democracia do movimento não seja respeitada. São várias tribos, que não se entendem e agem comandadas por suas ideologias. Embora a imensa maioria considere-se de esquerda, não há uma empatia entre os vários grupos que assim são caracterizados. Ao contrário, em alguns casos tratam-se como inimigos ferozes. Isso dá o pretexto para que eles ajam independentemente do que a democracia do movimento decide majoritariamente.
Embora seja uma maioria de presentes, e não da totalidade dos estudantes. Também aí, a marca da intolerância está presente, o que invariavelmente tem aberto espaços para que os setores conservadores, ou à direita, ganhem a direção das entidades, como aconteceu recentemente na Universidade de Brasília. Ali, oito chapas concorreram às eleições do DCE, sendo que sete delas tinham vinculação a partidos e organizações de esquerda. Todas as sete foram derrotadas.
Não quero dizer que a conquista das entidades deva ser privilégio da esquerda, mas sempre foi assim desde a década de 1960. E as vitórias se davam pela coerência de suas bandeiras, pela defesa da democracia e da liberdade, e por incorporarem em seus programas a preocupação permanente com os direitos humanos. Temas que sempre foram muito bem aceitos pela quase totalidade dos estudantes, que assim se viam representados nessas entidades, muito embora não participassem em grande número. Mas sempre respondiam firmes e massivamente aos chamados das entidades e de suas lideranças.
Perdeu-se com o tempo, e com as transformações ocorridas dentro e fora da universidade, essas características. Na ausência de bandeiras que sejam suficientes para aglutinar os estudantes ou obterem seu apoio, alguns grupos partem para ações agressivas, isolam-se e terminam por causar danos à imagem do movimento estudantil.
Yahoo! Notícias
Contudo, malgrado o equívoco da estratégia adotada, no caso específico da ação na USP, esses grupos terminaram por contar com a pouca inteligência que invariavelmente acomete comandantes de ações policiais encarregadas de dispersar e reprimir estudantes. Certamente apoiada em uma concepção maior, que governa o Estado de São Paulo, a demonstração de força militar com um aparato digno de uma ação para conter perigosos traficantes (talvez o governo de São Paulo quisesse se antecipar ao que aconteceria em seguida com a ocupação da Rocinha, no Rio de Janeiro), terminou por gerar uma reação na comunidade universitária contra um espetáculo bisonho e uma demonstração de profundo desapreço com a comunidade universitária como um todo, seja uspiana ou não. Não havia nada que justificasse tal aparato, muito menos a desobediência civil, perpetrada pelo grupo que se recusou a aceitar a ordem judicial de desocupação de um espaço público. Até porque tudo caminhava para um entendimento pacífico da situação.
Assim, um comportamento obtuso, que não teria muitas conseqüências após o seu desenlace, se transformou — pela reação despropositada e desproporcional da repressão policial, do espetáculo dantesco de uma polícia habituada a tratar com marginais e desrespeitar direitos humanos — em um motivo que possibilitou a unificação da maior parte da comunidade universitária contra um estilo truculento e fascista de tratar com movimentos sociais e, principalmente, com um ambiente acadêmico cuja principal característica deve ser a convivência democrática com as divergências.
O que se seguiu, então, foi a manifestação de muitas pessoas da comunidade universitária, e até mesmo de entidades de fora dela, reagindo duramente ao aparato de guerra que invadiu a Universidade de São Paulo na noite do dia 08 de novembro, e com uma ocupação que se manteve nos dias seguintes.
Assembléia na USP - Site Carta Maior
Assim, a comunidade universitária, como reação à truculência militar, unificou-se praticamente no discurso em oposição à permanência da polícia dentro do campus universitário. Possibilitou, inclusive, uma unificação do movimento estudantil que respondeu com uma assembléia com mais de três mil estudantes e uma manifestação no centro de São Paulo com mais de cinco mil, pouco noticiado pela mídia.
Dessa forma a discussão sofreu uma mudança essencial. Não se trata mais de tentar acusar um movimento de querer manter um território livre para consumo de drogas e para ocorrência de vários crimes, como conseqüência da ausência de vigilância policial. Passou-se a discutir a absoluta incompatibilidade entre os métodos de uma polícia completamente despreparada para lidar com estudantes e um ambiente que não pode ser marcado por permanente tensão e vigilância fascista.
Na assembléia os estudantes aprovaram a convocação do reitor para uma espécie de audiência pública, ao mesmo tempo em que propunham a criação de uma guarda universitária, escolhida por concurso público e devidamente preparada para lidar com as características do ambiente universitário.
Isso termina por dar uma nova conotação ao movimento, na medida em que isola o atual reitor, por sinal nomeado pelo governador sem ter sido o mais votado pela comunidade universitária (isso, por si só, já explica toda ojeriza ao seu nome, além de suas atitudes). Espera-se que dessa forma a USP possa terminar bem o que começou mal, e isso significa de uma vez por todas por fim á uma verdadeira ocupação policial, a mando do governo paulista.
Mas acredito que essa discussão não se encerra na USP, e merece de uma análise que extrapole esse movimento. Não vejo a universidade como uma ilha, como muitos imaginam que seja. Esse, então é o terceiro aspecto que quero abordar.
Jornal da USP
Em um mundo, Brasil inclusive, onde a violência impera de várias formas, e cresce a militarização da sociedade, considero insuficiente a discussão sobre a maneira como se dá a ação da polícia, restringindo a indignação como ela atua às fronteiras da universidade. Os atos praticados no campus da USP ocorrem todos os dias, religiosamente, nas comunidades pobres, nas periferias das grandes cidades. A truculência, desrespeito à liberdade das pessoas, condenações por suspeitas e esquadrões que são organizados para eliminar suspeitos, fazem parte da maneira como se dá a atuação policial, principalmente com os mais pobres.
É fato que cresce a violência, e os crimes decorrentes do crescimento do tráfico de drogas torna a profissão de policial extremamente estressante e perigosa. Mas não são essas circunstâncias que tornam o policial agressivo, por exemplo, no trato com o movimento social. Trata-se de um comportamento construído por uma lógica repressora que advém do período do regime militar. Toda a estrutura das polícias militares por todos os estados brasileiros ainda é um resquício da estrutura montada pelo aparato repressivo fundado na famigerada Segurança Nacional. A base dessa ideologia determinava que o inimigo da nação era interno, os chamados subversivos, que não aceitavam o comportamento ditatorial e antidemocrático.
É necessário uma reformulação completa nessa estrutura policial, de forma a que aqueles que usem fardas para lidar com a segurança pública conheçam o necessário sobre como se deve respeitar os direitos humanos, os valores que determinam a condição de cidadania para cada indivíduo e a segurança de que ninguém pode ser visto como marginal sem que os seus direitos não sejam respeitados ou que um julgamento não o tenha condenado.
O trato com um marginal de alta periculosidade, assim reconhecido por seus atos e pelos crimes condenados pela justiça, não pode se comparar à maneira como se lida com multidões e com as ações do movimento social. É ato de acinte, de profundo desrespeito pelos direitos humanos e cria uma terrível anomalia, onde o cidadão paga imposto que serve para o Estado manter uma polícia que estará pronta não para defendê-lo, mas para ameaçá-lo e agredi-lo.
Mas não pode a universidade simplesmente fechar os olhos a essa realidade, e se manifestar somente quando essas agressões ocorrem nos limites dos seus campi. Significa aceitar que a polícia prenda um cidadão em um bairro pobre por possuir um cigarro de maconha, mas o mesmo não pode ocorrer nesses limites. Ou que as comunidades da periferia possam ser permanentemente submetidas ao terror imposto pela truculência policial, mas que isso seja evitado nas universidades.
Não pode haver tratamento diferenciado, sob o argumento de ser a universidade um ambiente acadêmico, de discussão e de idéias. Não há nada mais sagrado do que o ambiente familiar, o lugar de moradia das pessoas, onde o cidadão está constitucionalmente protegido. Se o tratamento a ser dado nas universidades deve ser baseado no respeito aos direitos humanos, e essa é uma assertiva verdadeira, o mesmo deve ocorrer também nos bairros pobres. Deve-se respeitar o princípio de que a ação policial nesses lugares se dê somente mediante a utilização de instrumentos judiciais.
É de bom termo, então, que o movimento estudantil não se imagine atuando em uma ilha, e que os intelectuais não se limitem a se indignarem tão somente quando os muros da universidade forem rompidos. Mas que possam discutir o quanto antes sobre a maneira como a sociedade está se tornando militarizada, pelos dois extremos, ou sob o comando do tráfico, ou em muitos casos por milícias de policiais, em alguns casos ex-policiais expulsos da corporação, mas que atuam abertamente dominando pelo medo as comunidades pobres.
Bem como se deve tratar não somente no âmbito do prazer, tipicamente burgueses ou pequeno-burgueses, da concessão de liberdade ao uso de drogas, mas também do potencial destrutivo desses vícios e dos crimes que estão por trás de um comércio ilícito que cresce assustadoramente. E é isso que torna cada vez mais possível criar as condições para a militarização da sociedade.
Que os acontecimentos da USP possam dar bons ensinamentos para o movimento estudantil. E que a comunidade universitária possa também perceber que não é uma ilha onde se queiram garantir imunidades, nem territórios livres para a ação de criminosos sem a ação de uma segurança capaz de intimidá-los. A Universidade não pode ser apartada da sociedade porque é parte dela, e deve exigir respeito aos direitos humanos de forma universal. Pois que senão, cada vez mais será reforçado o vaticínio de Milton Santos, também ele uspiano, de que somente os pobres anseiam por mudanças, e que a classe média aspira apenas manter seus privilégios.


segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O QUE FAZ VOCÊ FELIZ?

sindicatodosjornalistasmt.blogspot.com
Vivemos uma era de intolerância? A humanidade está fadada à se autodestruir a partir de um estilo de vida competitivo e estressante? A violência é inerente à “natureza” humana?
Temos ultimamente verificado uma profusão de reportagens nos meios de comunicação enfatizando a forma como a violência tem sido banalizada. São crimes praticados por motivos fúteis e reações intempestivas a pequenos e irrelevantes acidentes que geram um comportamento estúpido e irracional, fazendo com que até mesmo pessoas que jamais se conheceram tornem-se em frações de segundos inimigos mortais.
Como avaliar esses comportamentos? Eu, particularmente, não sou psicólogo, portanto vou analisar essa situação por um viés político e ideológico. Mas como fazer isso? Como podemos analisar os acontecimentos que permeiam o cotidiano de nossas vidas? É possível fazer isso somente com o olhar de uma vertente do conhecimento?
Não, obviamente, fazemos isso pela Política, Geografia, História, Sociologia, Filosofia, Economia Política e, claro, Psicologia, porque esta se preocupa mais diretamente nos estudos desses e de todos os tipos de comportamentos humanos.
Mas onde podemos buscar as origens para tais comportamentos? Vejam que a psicologia para tentar entender certas situações aflitivas em qualquer indivíduo, busca conhecer o seu passado, e através dele chegar ao âmago de sua vida, seus traumas, frustrações, fracassos, ou seja, o conjunto de eventos que determinaram como a sua memória está constituída. Enfim, sua história de vida.
Partimos, portanto, do pressuposto que para conhecer o presente é insofismável se aprofundar no passado. Como em qualquer terapia, para conhecermos a origem das angústias que afligem certa pessoa, é fundamental sabermos o que tal indivíduo acumulou de experiências negativas que causaram certas anomalias em seu comportamento, a ponto de provocar em determinado momento uma ira incontrolável, fazendo-o reagir violentamente contra aquele que cruzar seu caminho em um instante de fúria. Ou propiciar outro caminho, da introspecção, depressão, que o fará agir com brutalidade não somente contra o outro, mas para consigo mesmo. E, às vezes, sequer alguma reação esse indivíduo terá, esgotando em si mesmo a vontade de viver, sendo consumido pela desesperança e tristeza profunda.
abraceumalunoescritor.org
Essas são situações que crescem no cotidiano das grandes cidades, metrópoles aceleradas marcadas por sentimentos contraditórios, mas cuja lógica reside no fato de as pessoas precisarem sagrar-se vitoriosas em meio a uma competição desmedida, e na busca por um estilo de vida que as consagrem vencedoras. Nesse jogo, seguindo o que determina os valores construídos pelo sistema em que vivemos a vitória não é o fim de tudo, pois deve ser permanente para manter e ampliar o que foi conquistado; e a derrota enseja tais frustrações que forçam alguns por caminhos que imaginam ser um atalho também para atingir esses objetivos. Tais atalhos, de um jeito ou de outro, leva a desfechos indesejáveis, na medida em que se rompem valores e quebra-se a estrutura moral na qual está fundada a sociedade.
Podemos partir de uma frase muito repetida em uma propaganda da maior rede de supermercados do país: “o que faz você feliz?”. A resposta para isso, segundo o marketing apresentado, é consumir. Seguindo adiante no objetivo de atrair clientes, apresenta-se ainda um complemento: consumir, bem!
Significa, então, que a condição para estabelecermos relações fraternas, ponderadas, tranqüilas, é nos situarmos dentro de um padrão de vida que possibilite adquirir produtos que nos são oferecidos para consumo e massificados pela mídia de forma variada. Ao sairmos de casa, ligamos o som do carro e os programas têm o oferecimento de determinada marca; nos veículos, ônibus principalmente, uma bela donzela ou um jovem mancebo nos apresentam um produto apontado como responsável por suas formas; por todos os lados, outdoors de várias maneiras e estilos nos “vendem” todo o tipo de mercadorias. Na TV, internet, páginas de jornais e revistas, por todos os lados somos massacrados pela propaganda, de tal forma que no cotidiano de nossas relações, nos tornamos agentes propagadores desses produtos. Não são poucas as vezes que debatemos suas qualidades, e indicamos aquela marca que foi por nós aprovada. Remédios, então, nem se fala. Alguns imaginam conhecê-los melhor do que os médicos e repassam suas possíveis qualidades, num marketing indireto condicionado pela lógica consumista.
Em um ambiente carregado por esses valores, onde consumir “faz você ser feliz”, podemos encontrar a chave para as desilusões, frustrações e disputas violentas. Primeiro porque nos impõe um sentido de viver determinado pela necessidade de estarmos permanentemente em busca de melhores ganhos, já que nosso poder de consumo é incontrolado e infinito. Da mesma maneira como ao sistema capitalista não importa somente ganhar, é preciso ganhar sempre, e cada vez mais.
consumismo_01_ecopop.com.br
Imaginemos, nós que possuímos empregos regulares, a angústia e desespero de uma família cujo pai, ou mãe, aquele que dá sustentação financeira à família, encontra-se desempregado. Ou cujo salário, ao final do mês, é insuficiente para atender à necessidade, e à demanda de um grupo condicionado pelo marketing que perversamente invade sua casa pelos meios de comunicação. Como reagirá essa família ao assistir à propaganda citada, que não é a única, mas apenas um exemplo? O que está desempregado saberá na carne o que quero dizer. Mas mesmo com um salário, será ele suficiente para manter satisfeitos adolescentes cuja cultura cerca-o de desejos por produtos tecnologicamente sofisticados, ou roupas de grifes famosas? E, neste parágrafo, falo de exemplos e indago sobre questões que atingem a imensa maioria da população. O que facilita para nós a compreensão da pressão sob a qual está fundada a nossa sociedade.
Compreendendo essas contradições, e o estilo de vida que o sistema nos impõe sempre a buscarmos, podemos levar nossa análise para o âmbito da política, e nesse particular navegar melhor pelo universo de uma sociedade cujo elemento central é a competição. E, como numa disputa esportiva, a busca é permanente pelo recorde, também aqui jamais nos satisfazemos com o que ganhamos. Isso, independente do padrão de vida que analisarmos.
Simplesmente porque nossa cultura é formada a partir dos valores construídos pelo sistema capitalista, onde não há limite para o lucro, e a ganância é o motor principal a nos guiar em direção ao objetivo de sempre acumular mais. E isso independe do fato de envelhecermos, e pela lógica natural da vida em algum momento morrer. A herança, mecanismo inventado para perpetuar a busca obsessiva pela riqueza e garantia da propriedade, se encarrega de assegurar que os mortos determinem quem em vida continuará sua sina.
NO LIMITE!
Isso é o que faz das cidades mais particularmente, palco principal das neuroses e conflitos, ambientes cada vez mais carregados de estupidez, violência e atitudes bizarras. Porque cabe a cada um, seguindo a forma individualista determinada por essa lógica, brigar, com todas as suas forças, para superar o outro, numa disputa que determina quem é vitorioso e será escalado para atingir os melhores degraus da pirâmide social. Como no traçado geométrico dessa figura, também na sociedade vai diminuindo o percentual daqueles que atingem o pico, e os que lá chegarão quase sempre já se encontram na linha de ascendência de alguém “bem sucedido”, pouco ocorrendo a incidência de algum “cristão novo”.
Ou lutamos para alterar esse modelo, atacando na raiz a maneira como se transmite esses valores culturais, ou será insuficiente exigirmos garantias de segurança por parte do Estado. Porque também esses mecanismos estão corrompidos, seguindo o que descrevemos anteriormente. Nossas prisões já não são suficientes para conter uma marginalidade que cresce, na medida em que se atiça a onda consumista.
Portanto, antes de nos escandalizarmos com o grau de violência que assistimos, e que em alguns casos somos vítimas, devemos refletir sobre as causas disso. Não é, em absoluto, da essência humana. É, indubitavelmente, da condição humana.
Sugiro aos leitores do blog o filme “Crash, no limite!”. Suas histórias, que se entrelaçam e conduzem à surpresas e tragédias, mostram bem como funciona o cotidiano de uma cidade cujas pessoas encontram-se á beira de um ataque de nervos. Preconceito, intolerância, medo e insegurança são os elementos motivadores das tragédias ali relatadas e que se parecem com muitas das que acontecem na vida real.
INDIGNAI-VOS!
Em outros artigos tenho procurado analisar como o individualismo e o egoísmo vão sendo disseminados por alguns mecanismos de controle ideológico, apresentados como válvulas de escapes dessas neurastenias. Mas se são por um lado consequência dessa situação, por outro, configura-se como um objetivo calculado desse modelo de vida. Mais uma contradição a nos envolver num pântano movediço.
Mas não repito o pessimismo de muitos, influenciados pela profusão de imagens a nos deixar estarrecidos e assustados. Deveríamos temer um futuro caótico, se ao olharmos para trás não percebessemos o quanto a humanidade avançou. Estabeleceu regras, leis, limites à intolerância. Os casos que nos deixam espantados, disseminados pela mídia ad nauseam, tem por objetivo a espetacularização da violência com intuito de manter as pessoas anestesiadas, e presas a seus interesses mercadológicos. A própria violência assim mostrada fortalece a cada dia uma indústria de segurança, de exércitos particulares, de objetivos escusos das corporações e traficantes de armas.
Recorro ao filme “V de Vingança”, para argumentar o quanto a indústria do medo transforma-se numa poderosa estratégia para definir políticas totalitárias, ao criar um medo coletivo e impor nas pessoas a desconfiança de todos, gerando ao mesmo tempo uma desesperança. Essas ações abrem o caminho para o fascismo, e gradativamente irá restringir a nossa individualidade.
A máscara de “V”, nos dias atuais, tem servido para alimentar cada vez mais a revolta de jovens por todas as partes do mundo, numa luta contra as desigualdades sociais, essa sim, a maior das violências que deve nos deixar indignados.
Embora não queira negar um estado de violência latente em alguns territórios, principalmente nas periferias das grandes cidades, disseminada pelo tráfico de drogas cuja maior usuária é a burguesia, ela não pode ser vista como algo que sirva para traçarmos um perfil maléfico e cruel de todos. Muito menos da maioria das pessoas. Compõe apenas uma minoria no total da população, cujas ações transformadas em espetáculo pela mídia transmitem a sensação de ser majoritária na sociedade. E assim nos inspiram medo.
Tenho plena convicção de que é possível sair desse mundo, cuja violência é banalizada como decorrência da sua lógica, porque nele habita uma maioria que, mais cedo ou mais tarde, saberá lutar para transformá-lo e construir um caminho diferente, que não se baseie em perversão, usura, ganância, egoísmo...
Indignai-vos. Nosso destino não está traçado!



CRASH - NO LIMITE!
Título original: (Crash)
Lançamento: 2004 (EUA)
Direção: Paul Haggis
Atores: Karina Arroyave, Dato Bakhtadze, Sandra Bullock, Don Cheadle.
Duração: 113 min
Gênero: Drama

Sinopse

Jean Cabot (Sandra Bullock) é a rica e mimada esposa de um promotor, em uma cidade ao sul da Califórnia. Ela tem seu carro de luxo roubado por dois assaltantes negros. O roubo culmina num acidente que acaba por aproximar habitantes de diversas origens étnicas e classes sociais de Los Angeles: um veterano policial racista, um detetive negro e seu irmão traficante de drogas, um bem-sucedido diretor de cinema e sua esposa, e um imigrante iraniano e sua filha.

V DE VINGANÇA
Título original: (V for Vendetta)
Lançamento: 2006 (Alemanha, EUA)
Direção: James McTeigue
Duração: 132 min
Gênero: Ficção Científica

Sinopse

Em uma Inglaterra do futuro, onde está em vigor um regime totalitário, vive Evey Hammond (Natalie Portman). Ela é salva de uma situação de vida ou morte por um homem mascarado, conhecido apenas pelo codinome V (Hugo Weaving), que é extremamente carismático e habilidoso na arte do combate e da destruição. Ao convocar seus compatriotas a se rebelar contra a tirania e a opressão do governo inglês, V provoca uma verdadeira revolução. Enquanto Evey tenta saber mais sobre o passado de V, ela termina por descobrir quem é e seu papel no plano de seu salvador para trazer liberdade e justiça ao país.


Este artigo é uma adaptação de outro escrito originalmente em agosto de 2010 e publicado no Blog com o título: No Limite!