sábado, 23 de maio de 2020

O MUNDO PÓS-PANDEMIA: ENTRE A DISTOPIA E A UTOPIA

É muito arriscado querer prever como será o mundo pós-pandemia. Pode parecer um paradoxo essa frase com o título utilizado. Mas quando falo da dificuldade em tentar identificar por quais caminhos o mundo seguirá quando passar toda essa agonia causada pela disseminação do “Sars Cov-2”, me refiro à impossibilidade de termos algo concreto, neste momento, que nos garanta com uma margem tranquila de convencimento, desenhar o cenário no qual a humanidade entrará a partir de 2021.
Digo em termos concreto porque nos parece ser muito cedo para medir as consequências dessa hecatombe  epidemiológica, já que ainda estamos na metade da pandemia, principalmente aqui na América Latina e em especial, no Brasil, onde a situação se torna mais grave como decorrência do negacionismo criminoso e a abominação por parte do governo federal, e de sua legião de ignorantes que o apoia, em seguir protocolos médicos e científicos, a respeito de uma doença terrível, até então sem tratamento.
É possível, no entanto, antever algumas situações, mas que não representam novidades, senão um agravamento de condições anteriores, principalmente nos aspectos geopolíticos e econômicos. Esses dois aspectos andam juntos em muitas das circunstâncias, do que já vinha ocorrendo e das transformações que serão geradas por essa crise epidêmica. As relações EUA-China é uma delas, cujas divergências deverão se ampliar consideravelmente, tanto mais quanto se aproximarem as eleições dos EUA. A estratégia por trás do Poder nesse país se repete há décadas, seja com governos democratas ou republicanos. Criar uma crise internacional, seja com guerra ou ameaças de confronto, com países que lhes incomodam, e assim, dessa forma reforçar o discurso nacionalista, de defesa da segurança nacional, e atrair eleitores para a reeleição do mandatário em curso.
Foto: Envolverde - Carta Capital
Outra crise que se agravará é a que envolve as questões ambientais. Em nossa situação particular, e que está relacionado principalmente a Amazônia, isso já está no processo de estrangulamento e no limite das condições suportáveis. Mas assim será também em outros biomas e por toda parte do mundo. O modelo de sociedade que adveio com a era antropocêntrica atingiu o limite do suportável na relação com a natureza e atingiu o seu pico nessas duas primeiras décadas do século XXI.
Certamente a disputa pelo petróleo, principal fonte energética da matriz capitalista, também estará no topo dos conflitos, e seguirá no crescimento exponencial do enfrentamento entre os principais produtores e exportadores, como já estava acontecendo antes da pandemia e se agravou exatamente quando a disseminação do vírus se espalhou pela Europa e daí para todos os cantos do mundo. A oscilação do preço do petróleo pode quebrar economias, além de deixar por um fio as relações geopolíticas, em vias de gerar graves conflitos entre nações, semelhante ao que já tem acontecido historicamente, mas agora em outro patamar pelo agravamento da crise sistêmica capitalista.
Essas são questões que lideram nossas atenções, e que estarão no topo das preocupações estratégicas de todos os países, principalmente daqueles que disputam o poder hegemônico, seja econômico ou militar. Tudo indica que entraremos em uma fase muito parecida com o que foi a guerra fria no pós-guerra, e que vigorou até a década de 1980.
Imagem: Contee - Brasil 247
Mas o que também nos deve preocupar, e por isso centro minha abordagem aqui, são as condições psicossociais. Ou seja, como essa situação que nos envolve irá impactar nossas vidas, e se haverá um retorno ao antigo normal. E não podemos considerar somente os impactos gerados pela doença Covid19. A ausência de uma vacina seguirá impondo a todos nós um distanciamento necessário, mesmo depois que houver uma flexibilização dessas medidas de isolamento. Mas existem no caso brasileiro outros condicionantes, decorrentes de uma grave crise política, pelo fato de não termos um governo capaz de nos garantir segurança agora, durante a pandemia e muito menos depois, pela ausência de medidas capazes de atacar as demandas sociais, gerando caos em vez de procurar atender as necessidades do povo.
Isso tem causado insegurança e intranquilidade para enfrentar esse momento tão terrível e os meses que se seguirão. Há um desnorteio na sociedade, com choques entre decisões que são tomadas pelos governadores e os ataques que esses sofrem do presidente da República, que, absurdamente, nega, ou minimiza, o perigo que esse vírus carrega e as consequências de uma doença para a qual não há antídoto. Embora ele insista em prescrever remédios, como um charlatão, já que não é sua área, que não possuem eficácia comprovada cientificamente e, por isso, rejeitados pela comunidade médica e farmacêutica.
Imagem: asmetro-SN
Enquanto isso multiplicam-se o número de infectados e de mortos, que ainda irá crescer, na medida em que falta essa coordenação nacional e devido aos ataques dos negacionistas e as fake news criminosas que confundem perigosamente boa parte da população, entregue a boatos e informações falsas, que são consideradas em meio a ignorância e desinformação dos que se apegam cegamente à determinadas idolatrias religiosas ou às crenças nas simplificações dos tratos com as doenças, neste caso confundida propositadamente pelo próprio presidente e seus seguidores. As camadas mais pobres da sociedade descobrirão de maneira terrível as consequências dessa perigosa dúvida que lhe foi incutida, e o vírus se espalhará rapidamente pelas periferias e cidades interioranas.
Considerando que já vínhamos de pelo menos três anos de uma crise política e econômica, quando se deu a eleição de Jair Bolsonaro, podemos ter uma ampliação da desesperança que afetou a sociedade brasileira em função de uma luta encarniçada pelo Poder, que nos trouxe a esse quadro político de um governo absolutamente questionável quanto à sua capacidade de governar esse país. 
É natural considerarmos que esses breves elementos de análise nos dão a indicativa que teremos tempos difíceis pela frente. Desemprego e aumento da pobreza levarão ao desespero milhares de pessoas atingidas, e se tornará mais real em pleno século XXI, o que já fora escrito por Josué de Castro em meados do século XX: "Metade da humanidade não come; e a outra metade não dorme, com medo da que não come"[1]
Como evitar que o caminho da desesperança tire das pessoas a capacidade de lutar por seus direitos e para garantir que o Estado cumpra a função de proteger cada cidadão de seu país? Esse será um desafio pois os tempos de crises e a perda de perspectivas, principalmente por parte da juventude, destrói sonhos e constroem um futuro distópico. E se isso já era tema de discussões em debates nas universidades antes da pandemia, passa a tomar uma importância maior ainda quando estivermos saindo desse distanciamento social, que por ser caótico, diferente de outros países em decorrência do comportamento do presidente, tenderá a deixar as pessoas mais desnorteadas e fragilizadas, em um ambiente politicamente polarizado.
Alguns cenários futurísticos têm sido apresentados há anos em filmes ficcionais. Na maioria deles, projetando uma vida futura altamente dominada por avanços tecnológicos, concentrados nas mãos dos que possuem poder e riqueza, e ambientes urbanos confusos, desorganizados e superpovoados, com desigualdades sociais absurdas, mas com populações entregues à letargia e conformismo. É possível que tenhamos no mundo pós-pandemia cenários distópicos como apresentados em filmes e séries. Mas a distopia se completa na ação opressiva e tirânica tanto de governos, quanto dos que controlam a riqueza, que cada vez mais distanciam-se da realidade social.
O desespero, a privação, a desesperança, a amargura e o desencanto, são elementos que produzem nas pessoas a ausência de crença na vida material, distanciam uma das outras e as fragilizam, tornando-as presas fáceis de discursos salvacionistas seja de seitas fundamentalistas ou de políticos oportunistas de vieses autoritários. As condições econômicas, em uma crise crônica, que passa da recessão para uma situação de depressão, fratura a sociedade, e tende a tornar a depressão humana um dos maiores problemas psicossociais no pós-pandemia. Lutar contra essas sensações de frustrações e evitar um mundo distópico é um desafio somente capaz de ser enfrentado se conseguirmos manter a utopia como algo possível de ser alcançado.
A utopia não é algo palpável, ou alcançável. Mas é uma espécie de força como aquela contida na lei da gravitação universal, de Isaac Newton. É algo que nos atrai, e que imaginamos poder estar ali uma espécie de destino, de objetivo que desejamos atingir, portanto desejamos também atraí-la. E, claro, o que desejamos atingir sempre será aquilo que nos faz bem, e se pensarmos coletivamente, será algo que nos fará bem e a sociedade. Por isso pensamos em utopia como algo positivo. Mesmo que não seja, a utopia, tida como “lugar nenhum”, algo existente, mas puramente sonhado, ela difere da distopia por nos dar a oportunidade de acreditar em nossos melhores sonhos. Ela é essencial para não nos deixar desanimar e desistir de caminhar.
O importante, no entanto, é acreditar que nada disso que sonharmos, do que desejarmos utopicamente, será atingido se não nos municiarmos de força coletiva, e de fazer valer a nossa vontade, independente dos empecilhos que estarão à nossa frente. Não é possível também, pensarmos que seja possível construir uma sociedade justa e menos desigual com pensamentos individualistas ou imaginando ser possível atingir um outro patamar nos prostrando e esperando que algo nos seja dado aleatoriamente. E para isso é essencial transformarmos esse modelo de sociedade, onde a hipocrisia constrói valores culturais que impõe aos mais pobres e fragilizados a condição de coitadinhos, a ficar aguardando ações solidárias fortuitas, e inserindo em suas consciências a culpa por não terem se esforçados e não atingirem os méritos necessários para suas melhorias sociais.
É fundamental, para acreditarmos ser possível ter na utopia o encontro com nossos melhores desejos, conhecer profundamente as estruturas sociais nas quais estamos vivendo. E lutar, de todas as maneiras, para desconstruir os valores e destruir os pilares que lhes dão sustentação. Compreendermos que vivemos uma intensa luta de classes, e se almejamos na construção desse futuro utópico, uma sociedade verdadeiramente democrática, devemos começar fazendo valer o próprio sentido da palavra “demo-cracia”: “demos”=povo; “kratos”=poder. “O poder que emana do povo e em seu nome deve ser exercido”. Portanto, a não aceitação da dominação eterna a ser exercida pela minoria de abastados, ricos, milionários, bilionários, que representam um percentual insignificante da população mundial, muito embora controle a imensa maioria da riqueza.
Lutar por um mundo justo, levar adiante os sonhos utópicos de um mundo socialmente equilibrado, vê ao longe as luzes que nos fazem crer ser a utopia, é essencial para quebrarmos qualquer sentimento  distópico, porque este somente viria para nos fazer desistir de lutar. Nem esta pandemia, muito menos as atitudes perversas e egoístas dos que só desejam acumular riquezas sobre a pobreza, ou as diatribes de governos eleitos em momento de pânico forçado e de sujeições distópicas por seus linguajares e por suas ações, podem frear nossos sonhos de justiça e de vivermos em um mundo solidário. E isso não é algo possível de ser conquistado olhando para os céus, mas enfrentando os demônios que nos assombram na terra, e no enfrentamento de uma luta de classes que define as condições que escolheremos viver: Submetidos à opressão ou erguendo os punhos, nos alimentando de empatia, desafiando a distopia e seguindo em frente, em busca de nossa utopia.



[1] CASTRO, Josué. Geografia da Fome. Rio de Janeiro-RJ, Antares, 1980.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

O ANTROPOCENO E COMO NOSSAS RELAÇÕES COM A NATUREZA AFETAM NOSSAS VIDAS E MULTIPLICAM AS DOENÇAS

Será que podemos falar algo neste momento, que não tenha a Covid19 como centro da preocupação? Muito difícil. Podemos tentar, mas, ao final, vamos terminar caindo nessa questão. Porque tudo que diga respeito ao nosso estilo de vida, e à maneira como nos relacionamos na sociedade, e como se dá a relação humana com a natureza, indubitavelmente nos levará a indagar sobre as consequências dessas relações. E a pandemia causada pelo vírus “Sars cov-2” tem uma razão de existir, ela não surge espontaneamente, suas causas estão sendo investigadas, e já é possível dizer que tem a ver com nossa forma de nos relacionarmos com o nosso meio, a natureza e a sociedade.
Mas aqui não vamos partir das consequências. O objetivo é analisar as questões relacionadas aos problemas ambientais, sob um foco diferente daquele que comumente a mídia costuma enfocar. Vou procurar inverter a maneira como as coisas são mostradas, e repetidas ad nauseam. Normalmente o foco das notícias são as consequências. Por exemplo: aquecimento global (considerando todas as polêmicas que existem em torno dessa expressão). Ora, que seja, suponhamos que de fato haja um “aquecimento global”, embora eu não goste dessa expressão. Mas de maneira nenhuma isso pode ser visto como o nosso parâmetro para considerarmos as condições do planeta Terra.
O que quero dizer é que as mudanças climáticas, ou os eventos climáticos extremos, geram efeitos diversos, e a elevação da temperatura da terra é uma delas(*). Mas essas não são as causas. E muito menos os eventos extremos se explicam por si sós. Primeiro, é preciso dizer (e não vou me estender porque fugiria da minha especialidade) que as transformações na natureza ocorrem desde milhões de anos atrás, de maneira sucessiva. É impossível determinar o tempo de duração da terra, mas conta-se em bilhões de anos, desde o que poderia ter sido a sua origem: o Big Bang. Compreende-se, por esses números, que nada que se possa falar sobre a terra, ou o universo de uma maneira geral, possa ser dito de maneira simplificada.
Contudo, não podemos fechar os olhos e desconsiderar todo esse processo que advêm de um longo tempo, e imaginarmos que nossas origens se contam a partir de uma ação de um ser divino, porque não vamos chegar ao começo, já que teríamos que buscar respostas sobre como surge esse Deus. E, certamente ficaríamos como vemos divertidamente um cachorro girando em círculo tentando morder o seu próprio rabo. Da mesma forma, o reducionismo da existência da terra vinculando ao surgimento do ser humano tornaria esse o Planeta dos Humanos[1], pressupondo que daí seria o início das transformações na terra.
Portanto, estamos diante de situações muito complexas, e da necessidade do entendimento de transformações que são potencializadas pela ação humana, ou poderíamos usar a palavra aceleradas, mas jamais podemos esquecer que, independente da ação humana mudanças acontecem na natureza, seguindo um ciclo normal, de um equilíbrio necessário que muitas vezes passou por processos de extinção em larga escala.
Mas não quero me aprofundar nos períodos que antecedem o atual, isso falando geologicamente, em milhões de anos. Queremos partir do antropoceno, provavelmente identificado temporalmente como tendo se iniciado a partir do século XVIII, portanto desde quando as atividades industriais assumem uma grande intensidade, criando uma classe forte, daqueles que passaram a controlar a partir dali os meios de produção não mais manufaturados, mas industrializados. Tempo em que também as ideias sofriam transformações revolucionária e o antropocentrismo passou a assumir a condição hegemônica na relação com o conhecimento, deixando para traz o período em que a igreja dominava as ideias e o teocentrismo era a base do entendimento de como o mundo funcionava.
Deixo em aberto aqui essa questão quanto ao surgimento do antropoceno, já que alguns estudiosos consideram que isso se deu desde o aparecimento do homo sapiens, quando a partir de então o ser humano passa a buscar formas de não somente se adaptar ao ambiente, mas com a capacidade que vai adquirindo de lidar com ferramentas ele  inicia um processo intenso de intervenção na natureza, acelerando essa relação de forma exponencial, mediante revoluções acentuadas nos meios de produção, e em sua capacidade de manusear e transformar objetos, até atingirmos esses tempos atuais, de uma enorme intensidade tecnológica.
Mas foi principalmente a partir dos fins da Idade Média que concepções filosóficas de base materialistas ampliaram o entendimento que já vinha desde a antiguidade, apesar do interstício medieval. Tivemos primeiro o Renascimento, um resgate das artes e ciências da Antiguidade esquecidas nos tempos sombrios medievais, e depois o Iluminismo, quando a humanidade se depara com filosofias que passam a expor de forma clara uma diferença essencial entre o homem e os demais animais, a sua capacidade de transformar o seu habitat, para além da capacidade adaptativa. O teocentrismo perde definitivamente lugar para o antropocentrismo, e o ser humano é guindado à condição de centro do universo. Kant, no século XVIII, vai ter um papel importante na diferença do ser humano com os demais animais, que por ser dotado de razão se tornaria superior à natureza bruta. (KANT, 2016, pp. 611-613)
Por sua importância na Geografia, Kant influenciou muitos geógrafos e suas concepções serão importantes no próprio embate existente entre os seguidores de Friederich Ratzel e os de Vidal de La Blache. Aquele tido como determinista por ver um forte processo adaptativo também no ser humano, e busca nisso a explicação para dar sentido e força à categoria território, advinda da própria maneira como os animais delimitam seus espaços, também numa clara influência darwinista. Já em La Blache, está mais fortemente marcada essa linha kantiana, de sobreposição da capacidade humana sobre a natureza, a partir de todo o processo produtivo que o leva a realizar transformações que modificarão seu habitat.
Embora as duas vertentes estejam cobertas de razões, no entendimento do que de fato acontece entre a relação homem-natureza, a forma como o ser humano é elevado quase a condição de Deus, pelo seu potencial de intervenção na natureza e de poder transformá-la, definirá os caminhos pelos quais as sociedades marcharão, elevando por esse mantra a condição de superioridade e de deificação de si mesmo, em uma atribuição recente por Yuri Harari, de “Homo-Deus”. (HARARI, 2019, p. 427)
Essa condição, de superioridade perante a natureza, e todo processo acelerativo que nos tira da condição de manusear primitivamente objetos à inserção de inteligências artificiais em objetos ultra tecnologicamente desenvolvidos, com capacidade de substituir o ser humano em tarefas tidas como essenciais em nossas vidas, tem sido fundamental para uma transformação radical em nossa forma de viver, e, consequentemente, em nossos comportamentos. A cultura segue, por aí, e define nossas atitudes e hábitos.
O deslumbramento com a tecnologia ao longo dos séculos, curto tempo em que a ciência assumiu o protagonismo, não ela espontaneamente enquanto sujeito, mas sim, como instrumento da ação humana, com objetivos definidos de ampliar sua capacidade de produção de mercadorias e de produtos sofisticados que objetivavam, sempre, ampliar o processo produtivo e adquirir inovações que impulsionassem as sociedades por caminhos da artificialização da vida, distanciando-se gradativamente de seu ambiente natural. Este também aos poucos sendo atingidos por essa onda de novas tecnologias, acelerando a destruição da natureza, de onde se extraem as principais matérias-primas a serem usadas nesses processos.
Devastada, a natureza foi se vendo atingida no elemento básico de sua existência: o equilíbrio ecológico. Condição pela qual qualquer ser vivo ou objeto existente se torna essencial para a vida, ou para a conformação do planeta, numa visão vista como dialética por um viés, ou holística, tal qual demonstrado no filme Avatar, explorando o mito de Gaia para dar também essa noção de totalidade e de interação entre todos elementos e seres vivos que habitam a terra. Essa concepção foi difundida no século XX, por James Lovelock.[2]
É certo, contudo, não importar muito as concepções que irão nortear essas teorias para o objetivo que queremos transmitir aqui, visto que cada uma delas considera que a interação na natureza, a forma com se dão as relações entre os seres vivos, e destes com o ambiente em que vivem, se dá por meio de um equilíbrio natural.
Pelo dito, a partir do que temos estudados, consideramos necessário e urgente abordar a aceleração destrutiva dessa relação que o ser humano estabelece com a natureza, de maneira intensa e cada vez mais sofisticada e por isso mais explosiva para esse equilíbrio ecológico. A chamada era antropocênica atinge o seu pico nos dias atuais, reduzindo a cada ano o intervalo entre velhas e novas tecnologias, levando a uma obsolescência rápida de inovações tecnológicas por curto tempo passado celebradas como novidades.
Essa aceleração é consequência da própria característica do sistema capitalista, por essência expansivo (MARQUES 2016). Isso leva a um rápido descarte de algo ainda utilizável, mas que deve ser superado tecnologicamente para permanecer elevado o ímpeto do consumo pelo que é moderno e novidade. Isso faz com que a maior parte das mercadorias existentes no mundo atualmente tenham surgido há menos de duas décadas, ou são sistemas que se atualizam permanentemente e trazem sempre novas cargas de inovações.
Com um mundo em previsão de atingir 9 bilhões de pessoas até os anos 2050, esse mecanismo tende a se manter num grau de obsessão por novas tecnologias e inovações cada vez mais acentuado. As consequências disso, principalmente porque o principal motor desse desenvolvimento são fontes de energias fósseis, mas também porque essas novidades tecnológicas exigem a exploração de recursos hídricos e minerais em larga escala, é a intensificação da destruição da natureza, porque é nela que se encontram as matérias primas necessárias para que isso tudo aconteça.
Nos últimos anos tem surgido um movimento mundial que exige um planeta verde, e que atualmente tem envolvido novas gerações, jovens que despertam para o perigo que o expansionismo capitalista representa para o presente e os dias futuros. Mesmo que não sendo movimentos em essência anti-capitalistas, eles não podem fugir à realidade de ser esse o sistema hegemônico, quase que exclusivamente dominante, que não se detém diante da necessidade de acumular cada vez mais riquezas nas mãos dos que controlam os meios de produção.
Tudo isso nos leva aos questionamentos que são feitos por pesquisadores que se interessam por compreender como se dá o processo evolutivo do planeta terra, e os momentos que por bilhões, milhões e milhares de anos, transformaram o planeta em toda a sua dimensão e o ecúmeno, por caminhos que levaram a pelo menos cinco extinções de espécies vivas, animais e vegetais. Neste momento estaríamos, então, diante da sexta extinção (MARQUES, 2016; KOLBERT, 2015).
Desta feita, acentuada pelos mecanismos gerados pelo agente responsável pela transformação acelerada do meio-ambiente, natural e artificial, o ser humano. Daí a indicação de vivermos em uma era antropocêntrica, na identificação da origem do termo.[3]
Assim, chegamos àquilo que nos angustia atualmente, uma pandemia causada por um vírus que se dissemina numa rapidez jamais vista antes. São dois aspectos importantes de serem abordados para estabelecermos uma ligação com o que quisemos dizer nas linhas acimas: o primeiro o tipo do vírus e a sua origem, certamente já próximos a obtermos uma resposta cem por cento correta, de ter surgido a partir das relações humanas com animais silvestres, fora de seus habitats; o segundo devido a maneira como nós nos estabelecemos nas cidades, superpopulosas e a facilidade com que nos deslocamos por distâncias enormes em curtos espaços de tempo, como consequência dos avanços tecnológicos nos meios de transportes.
Avatar
Somente esses dois aspectos, dentre tantos muitos outros que podemos citar, já nos coloca, a nós seres humanos, como os principais responsáveis pelas alterações dos ambientes naturais, causando um absoluto descontrole no equilíbrio ecológico, bem como construindo artificialmente formas de vida concentradas, em cidades que potencializam disseminação de doenças, e onde, pela absoluta ausência de condições de criarmos as condições de nossas próprias sobrevivências, nos habituamos a nos alimentar e nos vestir seguindo padrões gerados por processos industriais que são fontes por onde se originam todas as ações que são destrutivas para a natureza e a biodiversidade.
Por esse caminho, da agressão à natureza, e de ambientes criados por condições vergonhosamente desiguais, é que o caminho apontado como consequência do processo evolutivo sistêmico, produtor de mercadorias e destruidor de ambientes naturais, será da eliminação de uma quantidade enorme de espécies, que veem seus habitats destruídos. Algumas poucas dessas espécies, desesperadamente em busca de sobrevivência, encontram nos ambientes urbanos refúgios e um novo processo adaptativo. Mas trazem consigo vírus que são mortais para o organismo do ser humano e até mesmo de alguns animais criados em larga escala para atender a uma demanda alimentar de base carnívora.
Mito de Gaia
Compreendemos então, que a crise ambiental que vivenciamos nada mais é do que parte da crise sistêmica capitalista, pelo seu caráter eminentemente expansionista, e que nos leva aceleradamente para mais uma extinção em massa de espécies, a “sexta extinção”. A pandemia da COVID19 poderá não ser o maior processo de disseminação de vírus deste século. Se não mudarmos a forma como lidamos com a natureza, e não conseguirmos conter a ganância e obsessão com que se dão as relações capitalistas e a sua insensibilidade diante de um mundo terrivelmente desigual, iremos em espaços de tempos cada vez mais curtos, nos deparar com outras pandemias, e em muitos casos teremos que nos acostumar com a permanência entre nós de vírus que serão incapazes de serem contidos, transformando doenças epidêmicas em endêmicas, a infernizar principalmente a vida da maioria da população mais pobre e vivente em periferias desassistidas do poder público e entregues à uma miséria crescente.
Cabe-nos questionar se o ser humano também estará incluído na lista das espécies que desaparecerão com a “Sexta Extinção”.




NOTAS:

(*) Em conversas com um colega professor após a produção desse artigo, resolvi acrescentar essa nota explicativa, para melhor compreensão de conceitos que envolvem termos que hoje são ditos usualmente, mas muitas vezes, como eu fiz, de forma muito abrangente, mas nem sempre cientificamente correta: "mudanças climáticas", esse termo é amplo e usual, mas é errado sob o ponto de vista da Climatologia, mudanças climáticas são mensuráveis em intervalos iguais ou superiores a 100 mil anos, o que temos é "variabilidade climática", pois são intervalos curtos de uma ou mais décadas e causadas pelo ser humano. O mais adequado e que não gera problemas é a "ciclicidade climática", pois os eventos extremos se repetem, após décadas, séculos etc. É possível determinar a idade da Terra sim: 4,56 bilhões de anos. (...) o Big Bang ocorreu há 13,87 bilhões de anos, portanto a Terra não é derivada disso, mas sim de vários processos astrofísicos que ocorreram na galáxia Via Láctea até gerar o Sol e o Sistema Solar, por um período de aproximadamente 5 bilhões de anos após o Big Bang". (Prof. Dr. Paulo Henrique Azevedo Sobreira. Geógrafo (bacharelado e licenciatura) e Cosmógrafo. Mestre e Doutor em Geografia Física - Ensino de Astronomia em  Geografia. Professor Associado do Instituto de Estudos Socioambientais - IESA-UFG)
[1] Faço aqui um trocadilho não com o Planeta dos Macacos, o filme. Mas com um documentário, produzido por Michael Moore e lançado em 2019, “Planeta dos Humanos”, disponível no You Tube: https://www.youtube.com/watch?v=VKNTrFKju3g
[2]  Lovelock propôs a teoria Gaia. Esta teoria propõe a existência de um sistema cibernético de controle, que compreenderia a biosfera, a hidrosfera, a atmosfera, os solos e parte da crosta terrestre, e teria a capacidade de manter propriedades do ambiente, como a composição química e a temperatura, em estados adequados para a vida. https://www.ecodebate.com.br/2017/07/04/teoria-de-gaia-de-ideia-pseudocientifica-teoria-respeitavel-artigo-de-roberto-naime/
[3] Palavra formada a partir do Grego ANTHROPOS, “homem”, mais  GENEA, “geração, raça, ascendência”. https://www.dicio.com.br/antropogenico-2/
REFERÊNCIAS:
HARARI, Yuval Noah. Uma breve história da humanidade. Porto Alegre, RS: LP&M, 2019. 46ª edição.
KOLBERT, Elizabeth. A Sexta extinção. Uma história não natural. Rio de Janeiro, RJ: Editora Intrínseca, 2015. Edição Digital.
MARQUES, Luiz. Capitalismo e Colapso Ambiental. Campinas, SP: Editora Unicamp, 2016. 2ª edição.



terça-feira, 12 de maio de 2020

NÔ, A HISTÓRIA DE UMA GUERRILHEIRA A SER DESVENDADA


Leonor Carrato a Nô, falece duas semanas depois de ser encontrada, deixando uma história de militância para ser desvendada.
por Romualdo Pessoa
Publicado 12/05/2020 10:47

Publicado no Jornal do TO
Em um dos meus trabalhos de pesquisa eu afirmei que o pesquisador ao escolher o seu tema que o tornará especialista em uma área, faz com que cresça ao longo do tempo uma paixão que o acompanhará para o resto da vida. Aconteceu de eu escolher um tema que se liga à minha história de vida e engajamento político. Como historiador construí essa junção, cuja ligação me torna praticamente uma fonte recorrente quando se trata da história daqueles que viveram um tempo de combate tenso, no enfrentamento com uma ditadura peçonhenta, de atos vis e comportamentos criminosos.
Depois de 30 anos envolvido na história da Guerrilha do Araguaia, ainda continuo surpreendido com histórias que nos comovem e nos envolvem mais ainda em fatos passados, misturados com trajetórias incríveis e que fazem as ligações com o presente.
Há cerca de duas semanas recebi uma mensagem do jornalista Lailton Costa, do Jornal do Tocantins. Perguntava se poderia me ligar, pois tinha uma história impressionante de uma militante que dizia ter participado da Guerrilha do Araguaia, e estava morando em Colinas do Tocantins. Conversamos por um bom tempo. Ele me contou a história de Leonor Carrato, Nô, como era conhecida, de 100 anos de idade[1]. Rapidamente fiz uma busca em meus arquivos, e procurei também no relatório final da Comissão da Verdade. Não encontrei nenhuma referência ao seu nome.
Foto de Luciene Anacleto
Publicada no Jornal do TO
Maria Lídia, como passou a ser conhecida por todo esse tempo, disse ser uma antiga militante de esquerda, e que ajudara na reconstrução do Partido Comunista do Brasil, nos idos da década de 1960. Teria se deslocado para a região onde vivia para fazer parte da Guerrilha do Araguaia. O jornalista Lailton disse que ela aparentava lucidez, apesar de 100 anos de idade e de um aspecto físico bem fragilizado. A sua emersão teria se dado por circunstâncias ruins, que provavelmente fez acelerar sua fragilidade. Morando sozinha, em um pequeno casebre, ela teria sido vítima de um assalto, foi agredida e ao ser atendida por policiais civis ela revelou sua história.
Leonor Carrato, cujo nome verdadeiro ela ainda se lembrava, se identificou aos agentes, facilitando o contato com parte de sua família que vivia em Minas Gerais e que a levou para a cidade de Andrada naquele estado, onde, lamentavelmente, veio a morrer 14 dias depois de reencontrá-los, provavelmente ainda impactada pelo ataque que sofreu em Colinas do Tocantins.
Doc. publicado no UOL,
nele a família
de Leonor comunica
seu desaparecimento em 1979
A história de Maria Lídia-Leonor, logo teve grande repercussão, pela reportagem bem feita por Lailton, pela dimensão que sempre teve a história da  Guerrilha do Araguaia, e até mesmo pelo próprio momento político em que estamos vivendo, quando um presidente desequilibrado recebe no Palácio do Planalto um torturador e criminoso confesso, Sebastião de Moura Curió, responsável direto, e devidamente responsabilizado, pelo assassinato de dezenas de militantes mortos após terem sido presos com vida. Duas semanas depois a história de Leonor Carrato tomou conta de sites de notícias de dimensão nacional, sendo publicada no UOL-Folha de São Paulo.[2]
Assim, a notícia do aparecimento de mais uma militante, que vivera tanto tempo escondida, nos lembra histórias de outros personagens de guerras, reaparecidos somente décadas depois do final do evento. Mesmo em relação à Guerrilha do Araguaia, temos a história de Micheias Gomes de Almeida. Zezinho do Araguaia, como era conhecido, combateu na guerrilha e saiu de lá juntamente com Angelo Arroio, um de seus comandantes. Zezinho não conseguiu chegar a um ponto de encontro em tempo, e, como era orientação, desapareceu do local. Mas fez isso quase que também de sua própria personalidade, e viveu por mais de duas décadas sem que se soubessem de sua existência. Fui um dos primeiros a entrevistá-lo, juntamente com outro colega pesquisador, e a contar sua história em minha dissertação de mestrado, tornada livro com o título “Guerrilha do Araguaia, a esquerda em armas”.
Tão logo foi publicada a reportagem de Lailton, procurei fazer contato com a Fundação Maurício Grabois, que guarda um importante acervo documental tanto sobre a Guerrilha, como sobre o PCdoB. A situação de distanciamento social se tornou um empecilho para que pudéssemos ir a campo para agilizar essas investigações. Como sempre faço, mantenho contato com outros pesquisadores, e até mesmo com parentes daqueles que desapareceram e/ou foram assassinados durante e depois da guerrilha, em busca de alguma informação que porventura algum deles tivessem.
Nô, em casa,  Colinas do Tocantins
uma das últimas fotos -
Publicada no Jornal do TO.
Mas desde o começo tive dificuldades de aceitar que ela tivesse de alguma maneira feito parte da guerrilha. O jornalista me convenceu da lucidez com que ela falava de sua história de militância e do envolvimento com o PCdoB. A hipótese que passei a trabalhar era que ela poderia ter tido uma passagem pelo partido, em um momento de turbulência e de reorganização. No entanto supus que o caminho dela pudesse ter sido outro. Como era sabido, e eu tinha conhecimento, muitos militantes se deslocaram na direção do Bico do Papagaio, fronteira do hoje estado do Tocantins, do Maranhão e do Pará. E o foram motivados também por uma outra estratégia, que era para ser implementada pela ALN (Aliança Libertadora Nacional), em função de uma proposta de Carlos Marighela, em fazer uma guerrilha volante por toda a BR-153. Portanto, há uma forte probabilidade de ela ter se ligado à ALN e se deslocado para a região dentro dessa perspectiva. A outra hipótese seria dela ter se tornado membro do MOLIPO, (Movimento de Libertação Popular). Como outros fizeram e foram descobertos, com alguns sendo sepultados clandestinamente em algumas cidades da região, como Guaraí, onde foi morto e sepultado Jeová Assis Gomes, e como Arno Preis, preso em Paraíso do Tocantins, ambos membros do MOLIPO.
Seriam suposições, em que eu me dedicava a buscar algumas respostas e mantendo contato para isso. Como fazemos sempre, todas as vezes em que aparece um nome vinculado à história da Guerrilha do Araguaia, procuramos nos desdobrar para achar respostas para alguns mistérios infindáveis. Como em todos os conflitos e guerras, histórias parecidas se sucedem, e pessoas se isolam em um mundo criado para garantir suas sobrevivências, e dele tem dificuldades em sair, principalmente porque todos os seus contatos, ou morreram, ou desapareceram.
Foto de arquivo pessoal - Publicado
no Jornal do TO
Leonor Carrato possivelmente se inclui nesse rol de militantes que se entregaram à luta por um ideal, em um momento obscuro da história do nosso país. Em vida seria mais fácil buscar em suas memórias mais informações que nos ajudassem a desvendar toda a sua trajetória, certamente marcada por abnegação e dedicação à causa que ela acreditava. Com sua morte[3] caberá a nós, historiadores e historiadoras, nos debruçarmos sobre uma história de um final que poderia ter sido menos doloroso do que foram as últimas décadas de solidão em que ela viveu. Certamente, porém, ela não morreu esquecida, pois quis o destino que ela reencontrasse parte de sua família.
Espero poder encontrar os fios que enredam a história de Maria Lídia-Leonor Carrato, como consegui ajudar a refazer os laços separados de Amaro Lins, cuja história eu conto em meu livro, distanciado que ficou de sua família por ter escolhido ir para o Sul do Pará e se engajar na preparação do movimento guerrilheiro. Tendo sobrevivido, viveu escondido por muito tempo, sendo levado para o reencontro com suas filhas no Rio de Janeiro, após sua história ser mostrada no Fantástico da Rede Globo. Seu Amaro faleceu poucos anos depois, no ano de 2000.
Com certeza a Fundação Maurício Grabois irá nos ajudar nessa busca de informações em seus arquivos, e, se houver alguma relação com o PCdoB certamente isso será mostrado. Mas nos resta agora garimpar nos documentos históricos, para garantir que a memória de Leonor Carrato possa ser resgatada e a sua história devidamente contada.


NOTAS:

sábado, 9 de maio de 2020

PANDEMIA COVID19 – DESNUDANDO A REALIDADE SOCIAL

Imagem: Site Politize

Desde o início da decretação dessa pandemia, na qual ainda estamos metidos, e com o distanciamento social implementado pelos governos estaduais, venho produzindo artigos que nos provoquem reflexões sobre o entendimento de todo esse processo. Outros colegas da Universidade, com a suspensão das aulas, e o devido trabalho em home office, estão fazendo o mesmo, e produzindo materiais[1] que nos auxiliem a compreender a dimensão da Covid19,[2] cada um/a em sua área de especialização[3]. Assim, contribuímos para evitar a disseminação de informações falsas e/ou manipulações de realidades que tem sido cruéis e que ainda irão provocar muitas perdas de vidas e desespero familiares.
As consequências ainda são difíceis de serem previstas, mas o olhar na história e o quanto outras pandemias trouxeram fortes impactos sociais e econômicos, faz com que acreditemos que iremos ainda por muitos meses, e talvez anos, lidar com quedas brutais nos Produtos Internos Brutos nos países, um impacto terrível nos níveis de emprego em função da redução abrupta do processo produtivo e prováveis revoltas e insurreições populares diante do desespero que será conviver com fome e desesperança.
Instituto de Estudos Socioambientais
da UFG
Neste momento importa olharmos bem criticamente as condições em que o estado brasileiro tem deixado tanto os investimentos em saúde, como no aprimoramento das condições de vida daquelas pessoas mais fragilizadas socialmente. Quando analisamos os dados, e as vidas das pessoas se tornam estatísticas, infelizmente, nos debruçamos sobre realidades cruéis, passíveis de terem sido resolvidas, mas decorrentes da absoluta ausência de compromisso do governo brasileiro com as questões sociais, e amarrados a uma lei criminosa que limita os gastos do Estado, e impõe a áreas importantíssimas, como saúde, educação e ciência, uma redução absurda nos valores investidos, causando uma destruição dos sistemas que estruturam essas áreas de enorme valor estratégico para a Nação como um todo. Um estudo precioso tem sido elaborado por um grupo de professores do Instituto de Estudos Socioambientais da UFG, e pode ser pesquisado no acesso ao site do Observatório do Estado Social Brasileiro[4].
Observatório do Estado Social Brasileiro
Os artigos que tenho produzido objetivam desnudar essa realidade. Parto de outras análises, feitas durante todo esse período por diversos especialistas, cientistas da área de saúde, bem como também os cientistas sociais, para construir a elaboração de conteúdos que se afinem com uma visão crítica, de uma realidade perversa e que precisa ser demonstrada em toda a sua dimensão. Não é algo que surgiu neste momento. Este momento de uma epidemia terrível, que se espalhou por todo o mundo, a ponto de ser definida pela Organização Mundial de Saúde como uma pandemia, desnuda uma realidade que não é mostrada com frequência, em certos casos ela é escondida, e na contrapartida da virtualização de um mundo ultratecnológico, perde espaço nas mídias de uma maneira geral. Até mesmo nas mídias sociais, já que ao viajarmos buscamos aqueles lugares deslumbrantes, lúdicos, idílicos. Por uma necessidade compreensível de buscarmos descansar do stress e da escravidão ao trabalho. E, naturalmente, são as belezas naturais ou artificiais que fazem parte de nossas selfies.
Mas as cercanias das cidades, as favelas, periferias descuidadas e esquecidas pelo poder público, embora cheias de cidadãos e cidadãs (sem direitos de cidadania) que são procurados em épocas eleitorais, mas negligenciados no cotidiano de suas vidas. Esses são os principais alvos dessa e de outras epidemias, doenças que afetam os seus cotidianos, decorrentes da pobreza, falta de condições básicas de higiene, por causa da ausência de serviços básicos de saneamento, infraestruturas adequadas de moradias, enfim, um descaso absoluto, secular.
Imagem: BBC
Não ocorrerão transformações pós-pandemias se, junto com as preocupações de momento para conter a disseminação do vírus “sars cov-2”, não vierem um forte sentimento de indignação por essas condições. E que possamos dar mais e muita visibilidade a uma realidade cruel, que em muitos casos transformam seres humanos em ratos, pelos ambientes sujos e podres nos quais esses indivíduos vivem. Não porque desejam. Não porque não adquiriram méritos suficientes para viverem em outras condições. Mas porque estão submetidos a uma lógica perversa, um apartheid natural de um sistema que se transforma em duas direções. Em uma, do topo, ampliando a riqueza e reduzindo o percentual daqueles que a controla: e, do outro, da base de uma pirâmide onde situa-se a imensa maioria da população, sobrevivendo em meio à essas condições e garantindo a mão-de-obra necessária para satisfazer o luxo e a ostentação dos ricos.
Essa população, ao final do isolamento social, ela permanecerá no distanciamento social, pelas condições que a levaram à essas circunstâncias, e de políticas seculares de um país que se desenvolveu na separação estrutural opondo a casa grande à senzala. A maneira de forçar as mudanças, e que as lições dessa pandemia sejam aprendidas, é deixarmos bem claro essas condições, mostrarmos incessantemente a perversidade que é a realidade brasileira, e deixar de nos inebriar e nos deslumbrar com as maravilhas que as tecnologias produzem e nos fascinam, ignorando as condições em que vivem a maioria das pessoas.
Imagem: Portal Vermelho
Os artigos abaixo, com os links para acesso, procuram identificar as razões, as causas, os comportamentos, e a normalidade que faz nos cegar diante da realidade. Espero que ajudem a levantar bandeiras, e, mais do que isso, que motivem o máximo de pessoas a se imbuírem do desejo de ir à luta, para além do mundo virtual, tão logo saíamos dessa condição de quarenta na qual estamos colocados por absoluta necessidade de combater um vírus invisível aos nossos olhos, um microrganismo, mas de um poder destrutivo brutal. Após derrotá-lo, cabe-nos criar coragem de enfrentar esses outros desafios, com a certeza de que em breve iremos nos deparar com outros vírus e novas epidemias.
Controlar essas doenças só será possível, de forma plena, se nos anteciparmos à suas disseminações. O que significa mudar a lógica como a saúde é tratada, e de curativa transformar os atendimentos e a sua política em preventiva, passando por eliminar essas condições miseráveis em que vive uma enorme parcela da população.

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1. MEU BLOQUEIO, O NOVO CORONA VÍRUS E COMO VEJO ESSA PANDEMIA – 24.03.2020
2. TUDO QUE É SÓLIDO DESMANCHA NO AR – O COVID19 E A CRISE CAPITALISTA MUNDIAL – 28.03.2020
3. O COVID 19 E O MUNDO NA ENCRUZILHADA – 05.04.2020
4. A DIMENSÃO DA GEOPOLÍTICA NO MUNDO ATUAL – 10.04.2020
5. COMO CHEGAMOS ATÉ AQUI E COMO SERÁ O MUNDO PÓS-PANDEMIA? – 28.04.2020
6. SOS SAÚDE: ESTAMOS ATINGINDO OS LIMITES DA NATUREZA HUMANA E DO ECOSSISTEMA – 04.05.2020
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[2] Platforma Covid Goiás - https://covidgoias.ufg.br/#/map
[4] Observatório do Estado Social Brasileiro - http://obsestadosocial.com.br/