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segunda-feira, 22 de março de 2021

A ARQUITETURA DO CAOS

Foto: Site Poder360

Vamos aos fatos, e, naturalmente, é preciso entender toda a situação, como chegamos até aqui e porque estamos à beira do caos, numa das piores crises médicas, sanitárias e socioeconômicas da história de nosso país.

Segundo o presidente da República, "O povo não tem nem pé de galinha para comer mais. Agora, o que eu tenho falado, o caos vem aí. A fome vai tirar o pessoal de casa. Vamos ter problemas que nunca esperávamos ter problemas sociais gravíssimos”.[1] Vejam, essa é a fala do presidente do Brasil, não é de nenhum sindicalista ou militante que está lutando contra as desigualdades sociais. Mas de quem governa e, em tese, possui todos os elementos e as condições de adotar medidas que minimizem os graves problemas sociais gerados por essa pandemia. Só que ele não fará isso, por uma razão óbvia, estrangular a economia e disseminar medo, angústia e ansiedade, faz parte de um projeto de governo.

Evidente que tem razão ao dizer que estamos em meio a um caos. E isso condiz com uma estratégia adotada por seu governo, não somente durante a pandemia, mas mesmo antes de vivermos esse inferno viral. Claro, a Covid19 se incorporou a uma estratégia que já estava em curso: tornar a sociedade brasileira um caos.

Bolsonaro foi eleito no rastro de uma destruição da democracia, conforme a conhecemos por nossas bandas, e, principalmente da política. Embora ele fosse o azarão da história, serviu-se perfeitamente de toda uma onda gerada por perversos mecanismos midiáticos, de canais de televisão, jornais e emissoras de rádio, que apostaram desde 2015 na desconstrução de projetos políticos de cunhos sociais e de visões econômicas baseadas no desenvolvimentismo, para, por meio do ataque à política e projetando a ascensão da alienação derrubar um governo e apostar em políticas fortemente neoliberais, meritocráticas e antinacionais.

Mas o discurso levado a cabo, por meio do incentivo às manifestações, transmitidas ao vivo pelos canais de TV, por onde se disseminaram um comportamento de ódio e projetou o neofascismo, não atingiu o objetivo desejado pelos setores conservadores de partidos derrotados na eleição de 2014. Pois eles também se tornaram alvos da caça às bruxas, e na identificação do que se convencionou chamar de “velha política”. Foi tudo por água abaixo, inclusive caráter, seriedade, honestidade, esperança... Prevaleceu o cinismo, o banditismo miliciano e a hipocrisia religiosa. Se o que se pretendia era demonizar a política, o demônio soube entender e assumiu o controle. Assim, o caminho estava aberto para o caos. As redes sociais potencializaram isso, através das fake news, e a pandemia só veio para acelerar essa situação, já prevista e consolidada nas eleições de 2018.

Ora, já pude analisar neste blog e no meu canal no Youtube, como Bolsonaro chegou à presidência, no vácuo dessas desastrosas intervenções dos setores de centro-direita neoliberal. Despontou como um “mito”, na condição do que na geopolítica conhecemos como um “outsider”, desancando a política, com discurso anticorrupção (como sempre esse discurso antecede as crises políticas brasileiras e os movimentos golpistas) e aglutinando ao seu lado ressentidos, derrotados moralmente, despossuídos economicamente, frustrados e alienados. Embora a absoluta maioria desses aí adjetivados pudessem ser classificados no nível máximo de alienação. Além de uma burguesia estúpida e uma classe média oportunista. E, correndo por fora, de forma sutil e sibilina, porque nessa década esse movimento esteve ao lado de todos os governos, os segmentos evangélicos, neopentecostais principalmente, e os conservadores católicos da corrente carismática. Correram por fora num primeiro momento, porque depois incorporaram o discurso neofascista do presidente e se constituíram em sua principal base de apoio. Logicamente por traz disso a ambição pelo poder e a ganância como prática contumaz de seus principais líderes religiosos a extorquir os fiéis.

Mas Jair Messias Bolsonaro não caiu de paraquedas. Ele se tornou parte de um projeto desses segmentos reacionários religiosos e se incorporou a um movimento que tomava corpo mundialmente havia uma década, que gerou outra aberração política: Donald Trump. Mas que também estava em curso em diversos outros países, como Hungria, Itália, Reino Unido dentre outros, além dos EUA, de onde saiu toda essa inspiração perversiva.

Já citei em outros artigos que escrevi, baseado em alguns livros e documentários (que indico ao final desse texto), que esse projeto teve à frente um personagem que se tornou mais conhecido no ano passado, porque foi preso acusado de desvio de dinheiro numa arrecadação feita nos EUA para ajudar o governo Trump e construir um muro na fronteira com o México. Steve Bannon é o personagem por trás da “estratégia do caos”. Seu escritório foi responsável por dar assessoria aos “políticos” que surgiram das trevas, atraindo para seus lados todos esses indivíduos que carregavam algum tipo de frustração e ódio às condições sociais em que viviam.

No documentário “Privacidade Hackeada”, disponível na Netflix, chama a atenção uma frase dita por Christopher Wylie, Cientista de Dados, ao se referir a Steve Bannon (vice-presidente da Cambridge Analytica, e criador do site de notícias Breitbart), que seria a doutrina utilizada por essas empresas: “Se você quer mudar fundamentalmente a sociedade, primeiro tem de destruí-la. E somente depois de destruí-la é que pode remodelar os pedaços segundo sua visão de uma nova sociedade”.

Bingo! Eis porque Bolsonaro tem razão na frase dita, paradoxalmente sendo ele, como presidente, quem poderia adotar medidas que evitassem esse caos. Mas como eu já disse, isso ele não fará, porque faz parte de uma estratégia. Seu desejo é manter radicalizado um segmento que será muito prejudicado economicamente, para além das perdas de vidas, que se tornarão esquecidas pelo foco que está sendo adotado e pelas condições reais que ficarão milhões de pessoas. As mortes serão naturalizadas. Isso representa o que conhecemos hoje como “necropolítica”. Alienadas e corrompidas em seus desejos e olhares, essas pessoas seguem o discurso fácil, irresponsável e adredemente planejado pelos arquitetos do caos.

Mas o que falta para que aqueles responsáveis por abrir as porteiras dessas perversões, quando levaram a cabo uma outra estratégia, fracassada, de “reerguer o país destruído por Dilma Roussef” revejam seus comportamentos e percebam a gravidade dos acontecimentos que estão em curso e podem levar a que nosso país tenha mais de 500 mil mortos nessa pandemia, além de sua total destruição econômica? Enfim, esta semana divulgou-se um manifesto de banqueiros e economistas[2] que apoiaram essa loucura que empurrou o país para mãos inconsequentes.

Quem sabe um mea-culpa não abra caminho para recomposição de forças políticas que compreendam a gravidade da situação na qual eles nos meteram? É o que desejam aquelas pessoas que têm juízo, clamam pela vida, choram por seus mortos e anseiam por um país soberano, livre dos “mitos” que vagam por aí órfãos de seus manicômios. Que lutemos para recuperar nossa dignidade e saibamos compreender a importância de lutar por uma sociedade justa, menos desigual, e onde se dissemine valores como empatia, altruísmo e solidariedade. 

Ou fazemos isso ou prevalecerá pelo tempo que requer a destruição de um país, a estratégia do caos. O apocalipse por trás da necropolítica.

Está em nossas mãos, não somente os nossos destinos, como a determinação para provar a Bolsonaro que embora ele tenha razão hoje, o caos não prevalecerá e que toda maldade, perversão e vilania serão combatidas pelos que sobreviverão à sua hecatombe planejada. E seremos milhões!


DOCUMENTÁRIOS:

The Weekly S01E09: A Toca do Coelho (The Rabbit Hole) - https://www.youtube.com/watch?v=b3J7r1H4SYo

Privacidade Hackeada - Entenda como a empresa de análise de dados Cambridge Analytica se tornou o símbolo do lado sombrio das redes sociais após a eleição presidencial de 2016 nos EUA - https://www.netflix.com/br/title/80117542

Get Me Roger Stone - Observe a ascensão, queda e renascimento do operador político Roger Stone, um player influente da Equipe de Trump há décadas - https://www.netflix.com/br/title/80114666

Eles estão entre nós - O documentário explora a aliança política entre religiosos, oligarcas, Cambridge Analytica e suas empresas de fachada que mudaram o equilíbrio da política nos EUA. - https://globoplay.globo.com/eles-estao-entre-nos/t/wwppjgqzSJ/

LIVROS:

DA EMPOLI, Giuliano. Os engenheiros do caos. São Paulo: Vestígio, 2020

DOWBOR, Ladislau. O Capitalismo se desloca. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2020.

LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018

LIMA, Delcio Monteiro de. Os demônios descem do Norte. Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, 1987.

ARTIGOS DO BLOG:

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2020/04/como-chegamos-ate-aqui-e-como-sera-o_28.html

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2020/07/a-estrategia-da-destruicao-de-bolsonaro.html

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2020/08/tempos-perigosos-em-que-negam-as.html

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2020/08/o-despertar-das-bestas-3-parte.html

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2020/09/o-efeito-borboleta-ou-teoria-do-caos.html

 

CANAL ROMUALDO PESSOA: https://www.youtube.com/watch?v=UaAi8OuUojM


NOTA:

[1] https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2021/03/19/o-caos-vem-ai-a-fome-vai-tirar-o-pessoal-de-casa-diz-bolsonaro.htm

[2] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2021/03/banqueiros-e-economistas-pedem-medidas-efetivas-de-combate-a-pandemia-em-carta-aberta.shtml

 

 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

TREZE ANOS SEM CAROL. O QUE MUDOU NO MUNDO. O QUE MUDOU EM MIM.

13 de dezembro de 2020. Reescrevo e atualizo esse texto a cada dois anos, desde 2016 quando o publiquei pela primeira vez no Blog Gramática do Mundo. E agora inserindo também em vídeo no meu Canal do You Tube. É uma necessidade, uma catarse, escrever algo sobre minha filha nessa época. Gosto quando muitos o leem, compartilho alguns sentimentos necessários, principalmente nesses tempos turbulentos, mas fico aliviado somente por escrever.

Há 13 anos vivíamos o pior momento de nossas vidas. A pequena Carol falecia aos dez anos de idade em 13 de dezembro de 2007. Tudo mudou para nós, e por muito tempo passamos a conviver com a necessidade de lidar com uma situação absolutamente cruel. Ver a morte de uma filha, ou quando acontece a um filho, nos empurra para o fundo de um poço, e temos assistido tantos pais e mães a perderem seus filhos, isso é cruel, seja qual for a razão. A depressão é praticamente inevitável, e evitá-la é muito difícil, só possível se buscarmos nos envolver em alguma atividade que tenha relação com aquele ente falecido, para que a lembrança de sua presença fique latente desde os momentos iniciais de sua morte. O sentimento da ausência, porquanto durar, somente nos faz despencar cada vez mais no abismo de um vazio que se transforma em doença.

É muito difícil equacionar essa perda. Tive muitas dificuldades em sentir a presença de minha filha em sua ausência. É uma dialética perversa, o limite de uma contradição presente sempre por todo o tempo em que vivemos. Podemos conviver com a ideia da morte, sabendo que ela naturalmente nos atinge, dentro de uma lógica inevitável. Mas nossas forças não são suficientes para suportar a perda de uma filha, ou de um filho. É uma sensação de fracionamento de seu corpo, de tal forma que somos acometidos de uma enfermidade denominada no ambiente da medicina como “síndrome do coração partido”.

Uma das formas de suportar essa dor foi me dedicar a escrever. Neste blog, e, antes dele na edição de um livro de crônicas dedicadas à minha filha e que intitulei, “Depois que você partiu”. Assim o fiz por um ano, logo depois da morte dela. E, nos anos seguintes, sempre que a angústia me tomava conta, ou naqueles dias cujas datas são marcantes, porque elevam a saudade a patamares insuportáveis. A proximidade do dia em que, fatidicamente perdemos nossa pequena Carol, sempre nos deixa reflexivos, tristes. Isso ter acontecido no final do ano torna as festas deste período menos alegres do que antes, quando ela vivia entre nós. Esses momentos perderam parte de seus brilhos, tornaram-se, pelo menos para mim, até mesmo sombrios. Fico torcendo para que os dias de dezembro passem mais depressa.

O tempo ameniza a dor, aprendemos sempre isso. É verdade. Porque também precisamos encontrar formas de continuar vivendo. Sempre digo que a melhor maneira de ter minha filha ao meu lado continuamente, em boas lembranças de sua presença em vida, é estar vivo e saudável.

Mas aprendi a sair das tristezas e, aos poucos, fui reforçando cada vez mais a sensação de tê-la comigo, em meu coração, em minhas lembranças, ao meu lado. Aprendi que tristeza e alegria convivem mutuamente, e que felicidade é um conceito muito relativo, que se adéqua somente a momentos precisos, nunca a felicidade pode ser algo permanente em nossas vidas.

Como posso ser feliz, sem minha filha? Não sou. Tenho alegrias e tristezas, e aprendi a viver dessa maneira, porque minha vida segue ao lado das pessoas que eu amo. E minha filha segue comigo, bem apegada ao meu peito, do lado esquerdo, e a sinto na pulsação das minhas veias e nas batidas do meu coração.

Depois que minha filha partiu muita coisa mudou em minha vida. Se já não somos os mesmos à medida que envelhecemos, deixamos de ser muito mais, quando perdemos uma filha. Nos tornamos mais emotivos, sensíveis com a realidade que nos cerca, a presença dos familiares e amigos, em gestos solidários a nos confortar, desperta uma sensação altruísta, um sentimento que sempre nos acompanhou enquanto humanos, apesar de esquecido em algum canto nos dias atuais.

Afastei-me por um tempo de diversas atividades, profissionais e políticas. A condição depressiva me desestimulava. Somente a sala de aula, onde por diversas vezes me emocionei em frente a meus alunos e alunas, me dava algum alento. O prazer de dar aulas me aliviava das angústias, paradoxalmente tratando nelas as contradições de um mundo em transe. Aos poucos, os anos, o tempo, diminuiu meu desalento. A não ser em datas específicas, quando não podemos fugir da amargura, da angústia e da ansiedade. As lembranças vêm com muita força. A pandemia causada pela Covid19, essa doença perversa que nos isola e nos distancia torna mais difícil reviver aqueles momentos de treze anos atrás, que sempre retornam nos finais de ano. Nessas condições em que nos encontramos, a distância dos amigos e amigas, até mesmo dos parentes, de quem sempre nos encontramos para reconfortar das angústias, deixa os dias mais tristes ainda.

São treze anos que parecem uma eternidade, mas, paradoxalmente, parece que foi ontem que nos debruçamos pela última vez sobre o corpo de nossa filha, já sem vida, numa imagem que ficará retida em nossas mentes até o último dia de nossas vidas. Cada momento, cada segundo, daqueles infortúnios desde quando soubemos de sua morte, em que o chão se abriu para nós, e, que alguns creem, os céus se abriram para ela, se repetem como flashes em nossa memória, ou, como no linguajar das novas tecnologias das redes sociais, como “gif”. Imagens em movimento que se repetem. Somente no cotidiano de nossas atividades, a nos ocupar pelo que necessariamente precisamos fazer, encontramos lapsos de tempo, que nos distraem, e seguimos o curso de nossas vidas. Mas, jamais, como antes. Perdemos um pouco de nosso corpo e de nosso jeito de ser. Como diz Antoine de Saint-Exupéry: “Aqueles que passam por nós não vão sós, não nos deixam sós, deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”.

Mas, parafraseando Chico Buarque, em uma das tantas músicas que nos lembram da Carol, o tempo passou na janela, e ela não mais estava aqui para ver as transformações aceleradas de um mundo e um tempo que deveria ser seu, que certamente lhe traria dissabores, mas que inevitavelmente a faria se incorporar às lutas contra as injustiças sociais, por liberdade, respeito e tolerância. Essa sempre foi nossa luta, e por dez anos ela conviveu conosco em ambientes de debates, discussões e lutas sociais.

Quando a Carol faleceu o nosso país vivia momentos de expectativas positivas. As esperanças deixavam as pessoas animadas com as possibilidades de adentrarmos em um outro mundo, de desenvolvimento e de redução de desigualdades sociais. Apesar de já naquele momento, escândalos de corrupção também serem a tônica dos noticiários, era nítido uma mudança no país, que crescia em termos de aumentos de empregos, de sensação de melhorias nas condições de vida das pessoas, de perspectivas positivas. Em 2007 já se estremeciam por todo o mundo os alicerces de um sistema econômico que avançou o sinal, e onde a ganância expôs as debilidades de uma estrutura que era tênue, porque escorada numa especulação financeira desenfreada.

Por todo aquele ano alertei em minhas aulas para o desastre que se apresentava como eminente, apesar de escondido pela grande mídia. Mas isso já era abordado por especialistas e publicado inclusive em livros. O ano em que minha filha morreu, pode-se dizer, foi o último ano tranquilo do resto de nossas vidas. E isso não é uma análise amarga causada pela perda que tivemos com sua morte. O ano de 2008, que nos levou a uma imensa escuridão, por ser o primeiro ano sem a presença dela entre nós, foi também o momento de uma grande virada na conjuntura econômica e geopolítica mundial. Tudo seria diferente a partir de então.

Como a acompanhar nosso calvário, naquele sentimento de dor, que ainda nos acomete, mas sufocado pelo tempo e superado por nossas forças de viver, também nossas expectativas de um mundo melhor, de um país diferente, começou gradativamente a se desvanecer. Diferente de nosso infortúnio, repentino e aos poucos restrito a parentes próximos, mas fundamentalmente a mim, como pai, e a minha esposa, como mãe, as desgraças que afetaram o mundo e o país foi, pouco a pouco ampliando e atingindo um número cada vez maior de pessoas.

E, ao passo em que fui me transformando pela minha dor e sensibilizado pelo número grande de pessoas amigas que demonstravam sempre o afeto e a solidariedade com nosso sofrimento, percebendo cada vez mais a importância de entendermos o sentido de alteridade por todos os momentos de nossas vidas, o mundo e o nosso país caminhava num sentido oposto, marcado pela disseminação do ódio, do preconceito, da rivalidade política extremamente agressiva (antessala do fascismo), pelo aumento perigoso da intolerância e na incapacidade de entender, compreender e escutar o outro. A crise econômica, num ambiente de consumismo exacerbado e de disputa cada vez mais individualista, arduamente e duramente competitiva, jogou a sociedade humana num enorme poço de dimensões profundas e cada vez mais impossível de se enxergar a luz.

Procurei por esse período ser compreensivo com as diferentes opiniões e formas das pessoas se manifestarem e escolherem suas maneiras de viver e se comportar. Até porque, imerso em minha dor, pouco ânimo eu tive nos primeiros anos depois que perdemos a Carol, de me envolver com qualquer tipo de embates e polêmicas que pudessem significar um confronto com alguém por simples divergências quanto às suas escolhas de vida, política e ideológica.

Mas, aos poucos fui me reencontrando com o meu passado, tristemente sem a minha filha, mas que, sem resgatá-lo eu me afundaria mais e mais na depressão. A sensação de tê-la presente, conforme muito me orientou a psicanálise, foi aos poucos me tirando da letargia e me trazendo de volta para a realidade e para resgatar a impulsividade que me marcou por toda a minha militância política, estudantil e sindical. Ainda assim, muito mais compreensivo no entendimento das diferenças, e tendo aprendido muito com as manifestações de solidariedade e carinho de amigos, amigas e até mesmo pessoas distantes que passaram a conhecer nossas histórias, pelo livro que escrevi e pelo projeto criado por minha esposa, Celma Oliveira, concretizado hoje na existência do Instituto Ana Carol, e, através dele, mas que se tornou maior, a Cooperativa de Bordadeiras – Bordana.

Assim como pelo amadurecimento na luta, e com uma formação política inteligente que nos enche de orgulho, de nosso filho Iago, atualmente presidente da União Nacional dos Estudantes, entidade da qual participei em meus tempos de estudante. Embora orgulhosos com isso, o que certamente nos motiva vê-lo seguindo nossos passos e se destacando, mesclamos esse sentimento com outro, a preocupação com a situação de indefinição que ronda o nosso país e a necessidade de ele precisar se enquadrar em um mercado de trabalho que se tornará cada vez mais competitivo e excludente pelo ambiente de crise e desemprego crescente. São sentimentos naturais, de pais que se preocupam com o futuro de seu filho, agora único, mas, como já disse em outras oportunidades, que carrega duas vidas pela consequência do acaso e do destino.

Vivemos, portanto, nesses treze anos uma luta intensa contra a dor de perder uma filha. Superar tornou-se o verbo que passou a ser por nós expressado intensamente, e superação o substantivo que nos impedia de chegar ao limbo. Isso é algo permanente, que nos acompanhará para sempre. Mas, tendo conseguido nos reencontrarmos com a intensidade que a vida nos impõe em realidade, e sendo uma característica que sempre me acompanhou, percebi que mais do que viver essa realidade eu deveria lutar para melhorá-la, mesmo que como uma gota d’água em um oceano de problemas que nos afetam em nossas vidas particulares, no país e no mundo. 

Assim, juntamos nossas lutas, sem por nenhum momento nos esquecermos de nossa pequena Carol, uma estrela que nos ilumina, um raio de sol que aponta os nossos caminhos. Iago cada vez mais se afirmando como uma liderança estudantil nacional, essencial para levantar a parcela da população que mais grita e impõe medo aos governos, a juventude; Celma com seus projetos de economia solidária e cooperativismo, se capacitando com uma pós-graduação nessas área; e eu, imerso em um mundo que representa um microcosmo da sociedade, mas que exerce uma enorme importância sobre ela: a universidade. Apesar dos ataques toscos e da estúpida “guerra ideológica” escarnecida por um governo medíocre adepto da necropolítica, sem nenhum respeito à vida, à ciência e ao conhecimento.

Treze anos depois, (desde o dia 14 de dezembro de 2007, treze anos do sepultamento da nossa pequena, em que entramos na contagem desses anos sem ela), certamente somos os mesmos, embora diferentes. Eu me sinto muito mais tolerante no tratamento de situações em que o nosso julgamento só pode atingir apenas uma superficialidade do acontecimento. Porque no mais, ir além da superficialidade, impõe que eu conheça a realidade do outro, sua forma de pensar e de viver, suas crenças e escolhas de caminhos por vezes diferentes do meu. O que digo nessas últimas frases representa o sentido de alteridade, aquela necessidade que temos, ou que deveríamos ter sempre, de nos vermos no outro, para que isso facilite cada vez mais a nossa condição de vivermos em sociedade aceitando o jeito diferente de cada um ser, sem preconceitos e mais tolerantes. Caminho natural para adquirirmos empatia e sabermos lidar com as diferenças.

Mas isso não tem sido fácil nos tempos atuais. As recorrentes crises econômicas, que afetam as estruturas do sistema capitalista, esse que se impôs hegemonicamente de forma unipolar a partir da última década do século passado, acentuou embates terríveis dentro da sociedade, seja na disputa pelo poder, seja na necessidade de se conquistar um lugar a fim de adentrar o universo do consumismo. Se qualificar e ganhar muito bem, tornou-se uma obsessão, que se descortinou como uma onda, principalmente pela maneira como a burguesia mundial, por meio de seus mecanismos ideológicos de imposição dos valores, via globalização e políticas neoliberais, consolidou na maior parte do mundo. Mas fracassou.

Isso foi bem e criou uma fantasia de um mundo deslumbrante mediado pela concorrência e pelo mercado, mas por pouco tempo. Só que o tempo suficiente para o despontar de uma época marcada por esses valores de forma tão intensa, em função dos meios tecnológicos que se desenvolveram nesse período, que disseminou entre as pessoas um valor das coisas de forma absolutamente fútil, e uma inversão daquilo que antes importava mais. Os sentimentos se diluíram muito mais do que antes, embora já existisse, como uma tendência que só era controlada devido à existência de um mundo socialista que se apresentava como alternativa ao capitalismo egoísta e usurário. Quando aquele mundo ruiu soterrou boa parte das esperanças, enquanto despertou neste a ganância, a usura e o individualismo. Tudo isso em meio a uma crise imensurável.

A pandemia gerada pela Covid19 chegou e nos atingiu em meio a uma situação de fragilidade do mundo, de desespero gerado pelo crescimento de desemprego e ampliação das desigualdades sociais. O distanciamento social, tornado uma necessidade pela ferocidade da contaminação do vírus SARS-COV2, aliado a negacionismos no trato de uma doença terrível pela desconstrução da ciência, justamente a única capaz de apontar saídas para essa tragédia, bem como o menosprezo por parte de um governo obtuso, que desvaloriza a vida, nos deixou à mercê de incertezas piores do que aquelas que vivenciávamos nos momentos mais difíceis da perda de nossa filha.

Karl Marx, a quem recorro sempre, possui frases que, mesmo destacadas do contexto em que abordou, são emblemáticas porque se aplicam, filosoficamente compreendendo-as, a diversas épocas. E uma que eu destaquei consta do Manifesto do Partido Comunista: “Tudo o que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar com serenidade sua posição social e suas relações recíprocas”.

Iago - Manifestação pela educação
(Curitiba - PR)

O mundo sem minha filha é esse em que, diante de uma crise crônica, sistêmica, somos obrigados a compreender as condições sociais em que estamos e como as relações estão sendo destruídas em ambientes onde se fortalece o egoísmo, a ganância, a intolerância, a perversidade e o uso pérfido e em vão de Deus, com a utilização da fé como instrumento de guerras santas contra fantasmas criados e construídos por sicofantas hipócritas, vendilhões de templos e aproveitadores de crenças alheias. Assim, meu desalento teima em voltar, e torna mais tristes esses momentos que nos trazem memórias terríveis.

Contudo, fui percebendo que depois de tantos anos me debatendo contra as injustiças sociais, estudando-as e participando ativamente de lutas para combatê-las, isso se tornou um alimento que me fortalece e me dá ânimo para encarar tempos tão difíceis, mas diante dos quais não podemos nos entregar. Mesmo com o coração pesado por carregar tamanha dor e tristeza.

Neste dia 13 iremos ao cemitério mais uma vez, como fazemos todos os anos, e, silenciosamente estabelecerei um monólogo com suas lembranças, também como sempre faço, reforçando nossas saudades, e refletirei sobre como ela se situaria neste mundo. Se seus desejos, enquanto criança poderiam ter se concretizado, se meus sentimentos seriam diferentes caso não tivesse passado por tamanha dor, se seus beijos e afagos por tantas vezes repetidos manteriam a mesma singeleza num tempo de tantas incertezas, se suas vontades se encontrariam com os verdugos da liberdade, se bateriam contra os arautos da intolerância e encontrariam forças para gritar, como seu irmão, contra as injustiças sociais. Cremos, com toda convicção, que ela carregaria nesses tempos as mesmas indignações e desejos de transformações que correm em nosso sangue, e estão presente no Iago, pois esses valores sempre nos acompanharam em nosso cotidiano, na realidade que vivíamos no passado e vivemos no presente.

E, dentre tantas músicas que nos fazem sentir tanta falta dela, quando as escutamos, “Você é linda”; “Jardim da Fantasia”; “Carolina”; “Gostava tanto de você”; “Com a perna no mundo”; “Velha Infância”... uma recitarei sempre de forma especial, porque como tantas sempre nos emociona, e às vezes nos faz chorar, “Pedaço de Mim”: “Oh, pedaço de mim/ Oh, metade adorada de mim/ Lava os olhos meus/ Que a saudade é o pior castigo/ E eu não quero levar comigo/ A mortalha do amor/ Adeus”.

Nesse monólogo surdo com minha filha, como uma oração de um ateu, crente que irá algum dia encontrá-la, “seja onde for, pra falar de amor”, assim, eu expressarei em pensamento:

Celma e Carol - 1997

“Treze anos depois sem você, Carol, em seus vinte e três anos construídos em nossas fantasias, nosso amor se mantém como nos dez anos em que a tivemos ao nosso lado, presencialmente, com afeto, com carinho e com alegria. Nossa vida terá sempre você ao nosso lado, a nos dar forças para encarar os infortúnios, as incertezas e o tempo que nos encaminha para a velhice. E você está sempre presente quando olhamos seu irmão, porque ali estão juntos também seus traços, suas vontades, seus desejos de justiça, seus clamores por um mundo mais justo e solidário e o coração repleto de bondade, empatia e da luta pelo comum. Por um novo mundo, mais solidário.

E assim, a cada ano em que passamos mais tempo sem você, nos leva a estarmos mais próximos do dia em que, quem sabe, possamos estar para sempre ao seu lado. Beijos. Seu pai”.

______________________________

(*) Este artigo foi escrito originalmente em dezembro de 2016. Atualizei-o, porque, em essência, continua a representar o pensamento que me acompanha neste momento em que se completam treze anos da morte de Ana Carolina Oliveira Campos, nossa eterna Ana Carol.

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2016/12/nove-anos-sem-carol-o-que-mudou-em-mim.html

terça-feira, 13 de outubro de 2020

O CORONAVÍRUS E O IMPACTO DA CRISE NAS CONTRADIÇÕES DO SISTEMA CAPITALISTA

Foram muitas, ao longo da história, as epidemias, ou ações de vírus e bactérias que causaram temor em governantes e insegurança na população neste e em outros séculos. Peste bubônica, cólera, varíola, sarampo, poliomielite, dengue, zika, chicungunha etc, colocaram, e ainda colocam, à prova a capacidade dos estados saberem lidar com essas doenças, em meio a circunstâncias que apontam em outra direção, como decorrência do sucateamento do sistema de saúde e redução a cada ano maior dos percentuais necessários para atender as necessidades mínimas do combate não somente aos microrganismos causadores dessas doenças, mas as condições nas quais eles encontram o campo ideal para agirem e se proliferarem. Além de, aqui no Brasil, o estabelecimento de uma lei que criou um teto – limite – aos gastos públicos, trava qualquer possibilidade de modernização e ampliação da rede pública de saúde, como também da educação, das políticas sociais e do desenvolvimento científico e tecnológico.

Por outro lado, no intervalo de tempo de um século, outras formas de crises colocaram a prova não somente o sistema, mas a capacidade de superar as dificuldades das próprias pessoas. Se as crises epidêmicas deixaram rastros de absolutos caos econômicos, outras decorrentes de desequilíbrios estruturais, ou até mesmo das consequências daquelas, estremeceram os alicerces do capitalismo: a grande depressão de 1929 e a crise dos sub-primes de 2008.

No entanto, nos baseando no que ocorreu após a grande depressão, que se inicia no final de 1929 e atravessa toda a década de 1930, até desembocar na segunda guerra mundial, houve uma transformação radical na sociedade, um aumento considerável do papel do Estado na solução dos problemas econômicos e sociais, e da garantia de emprego para a população, bem como levou a mudança de hábitos, nesse caso quebrado pelo advento da guerra, que pode também ser incluída dentre as consequências dessa crise de proporções mundiais, mas cujos efeitos foram mais fortes nos EUA e na Europa.

Embora tenha havido um forte impacto nas estruturas do sistema capitalista, esse não foi tão intenso a ponto de paralisar as estruturas produtivas como consequência de uma imposição externa, aparentemente casual. Mas isso pode ser cientificamente demonstrada em suas causas fundamentais, como sendo inerentes ao próprio sistema, visto que isso decorre da forma como a sociedade está organizada em grandes cidades, assim como pela destruição acelerada da biodiversidade do planeta.

Tentemos fazer uma comparação, com os devidos cuidados para não incorrermos em anacronismos, entre a grande depressão, tendo como causa o excesso de produção do sistema e a redução do consumo, sem, contudo, ter havido forçosamente uma paralisação da economia, já que essa se deu na sequência da elevação produtiva; com o que temos hoje, numa dimensão muito maior, já que a paralisia do processo produtivo se deu forçosamente por meses, como necessidade para conter o poder viral.

Nessas circunstâncias, de uma absoluta impossibilidade das cadeias produtivas funcionarem adequadamente, e uma semiparalisia no sistema afetando a quase totalidade das empresas, o que se pode observar é um impacto muito mais forte na estrutura do sistema capitalista em comparação com o que ocorreu na depressão de 1929, ou mesmo na mais recente explosão de crise, em 2008, com a quase quebra do sistema financeiro mundial.

Isso poderia jogar por terra toda e qualquer iniciativa de gerir a economia com base nas receitas neoliberais, pois só se poderia conter um caos de dimensão planetária, com os estados investindo maciçamente na economia, fortalecendo as empresas, dando suporte aos micro e pequenos empreendedores, e garantindo fortes investimentos em infraestruturas por todo o país, como elemento gerador de empregos, tal qual foi feito na grande depressão, seguindo-se as orientações keynesianas.

Seria preciso haver um retorno ao estado de bem estar social, desmontando por completo todo esse aparato de reforma que pode levar a uma quase destruição do Estado naquilo que o torna mais essencial, a sua importância nas políticas sociais, principalmente com a necessidade de criação de uma renda mínima para populações carentes, a ser mantidas pelo Estado. Muito embora o auxílio emergencial, aprovado pelo Congresso Nacional tenha aberto um caminho nessa direção, criando um dilema a ser resolvido por um governo ultra direitista e com uma política econômica radicalmente neoliberal.

O isolamento social, o distanciamento das pessoas e o enclausuramento em circunstâncias as mais diversas, tem causado fortes impactos, a depender da condição social e da dimensão habitacional onde cada família vive. Certamente, o pós-quarentena trará novos comportamentos sociais. Em primeiro lugar porque a crise imporá uma necessidade do estabelecimento de relações mais solidárias, em função do aumento da miséria e a disseminação da pobreza; em segundo lugar porque esse distanciamento já está gerando diversas reflexões sobre as formas como temos vivido em sociedade até então, com um distanciamento entre os próximos, e uma proximidade entre os distantes. Será preciso repensar aquilo que nos transformou enquanto sociedade com o advento de novas tecnologias e das redes sociais, bem como dos mecanismos criados pela competição a qualquer custo e a necessidade de se garantir o primeiro lugar como condição de se ver inserido nos mecanismos inclusivos do sistema.

Precisamos resgatar aquilo posto pelo geógrafo Milton Santos em uma de suas últimas obras, e seguramente a de maior leitura: Por uma outra globalização. Não creio que devamos culpar a globalização pela disseminação do vírus, até porque outros vírus se disseminaram pelo mundo com alto grau de letalidade, embora não com a velocidade deste. Claro que nosso estilo de vida, nos últimos anos se acentuou muito fortemente pela forma como se deu a globalização, com o esvaziamento acelerado do campo e o crescimento exponencial das cidades, bem como uma forte destruição da nossa biodiversidade. Mas a globalização não é um sistema. Ela é apenas uma forma pela qual o sistema ampliou seu poder de contaminação da ganância, da usura, do acesso às novas tecnologias e das desigualdades sociais. No entanto esses são elementos inerentes ao sistema capitalista, em sua forma perversa, como descrito por Milton Santos como uma das etapas, ou seja, da globalização como perversidade. (SANTOS, 2001)

Cumpre-nos enfatizar o aspecto final de seu livro, quando ele defende ser possível uma outra globalização, que possa primar pela solidariedade e pela necessidade de as pessoas por todo o mundo se ajudarem mutuamente, de forma a reduzir as desigualdades sociais. Porque não veremos, por mais que desejemos, o fim do capitalismo como consequência da disseminação da Covid19, muito embora isso amplie consideravelmente as suas contradições.

Ainda teremos um processo lento e doloroso, de ampliação da crise, da miséria, do aumento das desigualdades sociais, da violência, da perseguição aos que lutam contra essas condições perversas, e o poder concentrado nas mãos dos representantes das grandes corporações, principalmente as financeiras, que podem sair dessa crise mais fortes e concentradas, na medida em que terão fortes injeções de recursos financeiros por meio dos estados, como já está acontecendo e como aconteceu em 2008. Assim, suas garras tendem a se ampliar, através da aquisição de empresas em estado falimentar, possibilitando as suas recuperações mediante a destruição de empregos, como se deu no final da década de 1980 na Europa e nos EUA, principalmente. Aqui no Brasil a reforma da legislação trabalhista já garante aos empresários as condições para imprimirem regras mais flexíveis, já que as garantias dos direitos dos trabalhadores foram fragilizadas, beneficiando as empresas em detrimento da força de trabalho.

Mas, será possível fazer com que os rumos sejam outros? A partir daqui o que nos resta é deduzir, com base naquilo que nossa experiência pode permitir, e nos conhecimentos históricos que nos remetem a momentos, senão iguais, mas muito parecidos, cujas crises chegaram ao ápice, à exaustão da economia.


CRIAR NOVAS FORMAS DE ORGANIZAÇÕES, À MARGEM DO ESTADO


Isso inevitavelmente vai levar a uma mudança substantiva no poder político, tanto maior quanto mais próximas estejam os processos eleitorais nos países. Atentando-se para um elemento que pode ser motivador de reforçar governos de viés autoritário, de extrema-direita, que em essência representam a tentativa de implementação de projetos totalitários, como aliás já ocorre em alguns países, por meios de medidas profundamente antidemocráticas.

Mas o mundo pós-pandemia não será muito diferente do que já estava em curso. Uma guinada conservadora, cujas concepções reacionárias e anti-democráticas se espalharam por meio de manipulações, fake-news e o despertar de sentimentos por muito tempo contidos. Frustrações, ressentimentos, decepções, fracassos, perda de perspectivas diante de realidades sociais perversas, raiva pela política e desesperança.

O desemprego tem aumentado, e necessitará da intervenção do Estado. Isso sendo feito por um governo ultra conservador, tenderá a ampliar entre as camadas mais pobres a ilusão do acesso a programas sociais que não virão acompanhados de medidas que lhes garantam emprego e dignidade, mas que surtirá o efeito de fortalecer um falso populismo, e poderá estender por mais um governo, políticas antissociais, fortemente focadas no atendimento das benesses e privilégios das classes dominantes, na destruição de diversos biomas e suas transformações em pastos e agricultura, e submissão vergonhosa aos interesses dos EUA. Colocará também os segmentos progressistas num dilema, fruto das contradições, que é ter que defender um programa social mais forte para as camadas mais baixas economicamente da sociedade e ver o governo Bolsonaro se fortalecer com isso.

O que vai estar em jogo nos próximos meses pós-quarentena será a capacidade da sociedade não se abater com esse confinamento, e as organizações sociais e associações comunitárias conseguirem disputar contra o poder discriminatório do estado e das igrejas neopentecostais, o protagonismo no envolvimento das populações periféricas, apontando para elas a necessidade de seguir por um caminho de construção de relações solidárias e de comum união. Combatendo fortemente a intolerância, o ódio e a mentira, elementos que tem causado fraturas na sociedade e não nos permite proceder a debates produtivos sobre o caminho que precisamos trilhar e a escolha do melhor modelo de desenvolvimento que consiga eliminar vergonhosas desigualdades sociais. 

Há uma estratégia por trás da insistência em desconstruir a política e gerar desesperanças nas pessoas. É uma arquitetura perversa e invertida, que aposta na destruição das relações sociais, na dependência espiritual por meio do medo e do controle de suas crenças, e, do ponto de vista das estruturas sociais o foco, nitidamente é transformar a sociedade no caos, e de suas cinzas implementar políticas completamente opostas àquelas que colocaram o Brasil no topo das nações com mais avanços democráticos e sociais na primeira década do século XX.

O desafio é como resistir a isso, sem que os segmentos progressistas se coloquem numa postura eterna de defesa, em função dos ataques perversos por meio de desconstrução de reputações, de lawfares (o uso e manipulação de leis para perseguir opositores) e fake-news. É preciso reforçar os alicerces dos movimentos sociais, das associações comunitárias e organizações não governamentais. Mas acima de tudo, é preciso ter a clareza que a democracia tradicional está sob ataques, não porque essa tenha solucionado os problemas cruciais e as desigualdades criadas pelo sistema capitalista, mas porque nas duas décadas do século XXI políticas de inclusões sociais se ampliaram, garantiram inserções de segmentos por muito tempo oprimidos em patamares mais elevados na estrutura social e empoderaram setores secularmente discriminados, fazendo elevar suas vozes e os fazendo se assumirem e se destacarem, sobrepondo-se às amarras impostas por uma sociedade hipócrita e conservadora.

E se a velha democracia está sendo  carcomida, por dentro, pelos próprios beneficiários de suas artimanhas, é preciso encontrar outras formas de se implementar as políticas e até mesmo de questionar até que ponto nos levará a nossa paciência em achar que esse estado, dominado por uma burguesia estúpida, banqueiros gananciosos, latifundiários exterminadores da vida, e uma classe média alta empedernida, insensível e idiotizada, conseguirá solucionar os problemas graves geradores de desigualdades sociais que pode nos levar para uma guerra civil planetária. 

Talvez não tenhamos tempo para esperar que esse estado, ilusoriamente, seja capaz de atender aos nossos mais banais e simplórios desejos. E pensemos, o quanto antes, ser melhor elaborarmos uma estratégia que bote abaixo essas estruturas, o quanto mais rápido melhor, embora isso possa demorar décadas. A crise da pandemia pode acelerar esse processo... ou não. Dependerá do caminho que o povo seguirá. Em sendo assim, talvez seja melhor criar as condições para destruir esse estado, e sobre seus escombros construir novas relações sociais de produção, baseadas na cooperação, no comunitarismo e no socialismo. 

Não creio que as eleições possam ajudar, muito embora seja um caminho forçosamente necessário. Mas as transformações sociais, se desejamos construir algo novo, não deverão seguir na ilusão do caminho institucional. É preciso criar novas formações, contrapondo-se às estruturas do poder político do estado capitalista, dominado pelas corporações. Como numa espécie de ações em paralelo e desobediências civis, por um lado; e por outro lado reforçando-se o caminho das organizações populares, gerando uma dualidade de poderes, que possa assim desorganizar as forças tradicionais conservadoras e se instaure poderes comunitários locais. Isso é urgente, antes que as milícias assumam essa condição de controle sobre as comunidades, alinhando-se, como já estão, com o poder militar e uma estrutura de estado corrompida.

Os desafios estão postos, já nos iludimos bastante, o mundo virtual se assume como uma miragem que nos fornece o ópio. O mundo real é profundo, perverso e desigual, e o fosso que se abre e se amplia, suga para o fundo das profundezas a desesperança e o melhor que a juventude e os trabalhadores poderiam oferecer, com consciência política, para construir caminhos por onde possamos materializar as nossas utopias. Resgatemos as esperanças, e construamos nas periferias das grandes e médias cidades, e no grande sertão interiorano, organizações comunitárias que se estruturem à margem do Estado, com moedas próprias e formas de estruturar o poder que tenha na organização do povo, e nos conselhos comunitários, os pilares para a construção de um estado socialista.

Rebeldia e ofensividade, não a defensiva eterna, é o que nos fará acreditar ser possível construir um outro mundo. E, como dizia Lênin, “Sonhos, acreditemos neles, com a certeza de realizarmos, escrupulosamente, as nossas fantasias”.



(*) Esse texto é uma versão atualizada e ampliada de parte de um artigo publicado na Revista de Geografia da UEG, Eliseé:

Campos Filho, R. (2020). A peste, a gripe espanhola e a covid19 – geografizando as pandemias pelo mundo. Élisée - Revista De Geografia Da UEG9(1), e912014. Recuperado de https://www.revista.ueg.br/index.php/elisee/article/view/10301 

sexta-feira, 3 de julho de 2020

OS DESAFIOS DOS(AS) DOCENTES EM TEMPOS DE PANDEMIA E DE NOVAS TECNOLOGIAS DE ENSINO

Estamos vivendo um período de ebulição, em todos os setores da sociedades e que envolve indistintamente a todos os segmentos sociais. Quero me dedicar aqui a analisar as condições pelas quais estão passando nós, professores universitários, em meio a um distanciamento social que fechou as escolas, universidades, institutos tecnológicos, enfim, todos os ambientes de ensino presencial. E isso tem nos jogado para uma realidade inesperada, embora a humanidade já venha se deparando com transformações tecnológicas que impõe a todos nós, homens e mulheres, a tarefa de estarmos acompanhando essas mudanças. Sob pena de ficarmos ultrapassados no tempo e nos enquadramos no perfil de “analfabetos digitais”.
Como consequência disso tudo, e da necessidade de seguirmos cumprindo nossos objetivos, enquanto profissionais do ensino, que é dar aulas, sermos professores, mestres, no sentido literal que essas palavras carregam em suas origens, precisamos saber como transmitir o conhecimento necessário àqueles jovens que estão nas escolas. E, no nosso caso particular, visto que sou professor de ensino superior, como nos comunicamos em tempos de isolamento social, de pandemia que nos aflige e nos impõe o distanciamento, nas universidades.
Nós temos três desafios em um só. Somos docentes de universidades públicas, que se sustentam em um tripé que compõe o arcabouço de nossas atividades na busca pelo melhor conhecimento científico: o ensino, a pesquisa e a extensão.  Ou seja, o que ensinamos deve ter bases científicas e estar conectado com a sociedade, servir a esta, com aquilo que produzimos e comprovamos eficiente para que consigamos atingir um grau de civilização mais inclusiva, solidária e com melhores índices de igualdade social.
A crise sanitária que atravessamos, e que potencializa uma crise econômica tanto conjunturalmente como estruturalmente, nos deixa em meio a indagações sobre quais as melhores estratégias para superar situações que nos limitam em nossas atividades didáticas e pedagógicas. Há, no entanto, uma constatação para mim óbvia, precisamos de todas as maneiras encontrar alternativas que nos permitam ministrar nossas aulas. Não somente porque foi para isso que nos tornamos professores, como também porque não podemos considerar aceitável que dezenas de milhares de jovens que adentraram a universidade atrasem o seu tempo de formação e consigam atingir logo seus objetivos, que é obter um diploma de curso superior.
Sabemos, e pesquisas indicam isso, que o pós-pandemia nos trará um ambiente de fortes disputas no mercado de trabalho, como consequência do desemprego em massa que decorrerá da falência de muitas empresas, principalmente de pequenos negócios onde se concentram a maioria dos empregos. Isso acentuado pela incompetência e incapacidade de um governo que desdenha da vida humana e nitidamente se omite diante da necessidade de agir com urgência, mediante a intervenção do Estado, para salvar essas empresas. O que se vê, infelizmente, vai na direção contrária. Com uma atitude que denominamos de “necropolítica”, o obscurantismo e o negacionismo são os condutores de uma política irresponsável e criminosa que deixará o país em péssimas condições políticas, econômicas e sociais, ao final dessa pandemia.
Nesse cenário provável, a formação acadêmica será um diferencial para a juventude na disputa por um mercado de trabalho absolutamente em forte disputa. Por isso, para além das preocupações com as dificuldades que enfrentamos, esse olhar para mim é o mais importante, e o que deve ser motivador de nossas buscas por saídas que possam amenizar esses desesperos que estão afetando uma legião de jovens que olham para o futuro com mais incertezas do que naturalmente já acontece.
Mas como podemos fazer isso? Nesse aspecto as discussões são intensas e não há consensos. Tenho participado delas, e por características não me omito e defino claramente minhas posições. Embora isso não signifique, necessariamente, discordar de argumentos que colidem com a maneira como vejo a saída para essa situação. Procuro partir, no entanto, desse aspecto que para mim é o mais importante: não podemos estender o tempo de formação dos nossos alunos e alunas indefinidamente. Embora devamos fazer isso tendo sempre presente que a qualidade dessa formação é essencial não somente para eles, mas para que as universidades cumpram aquilo que vem desempenhando em nosso país, formar jovens com qualidade acadêmica e imbuídos de valores éticos.
A discussão mais importante que temos enfrentado gira em torno do trabalho remoto nas universidades públicas. Ou, da necessidade, em função de uma indefinição quanto à volta à normalidade, de encontrarmos uma saída para oferecermos a essas dezenas de jovens que estão sem aulas. O ensino remoto tem sido oferecido já por algumas universidades, inclusive as mais importantes, como a USP e Unicamp, assim como caminha para isso a UFRJ e outras que já estão nesse processo de discussão. Naturalmente isso implica em várias questões, tanto do ponto de vista tecnológico, e aí inclusivo, em função da necessidade de não deixarmos ninguém de fora, como também que isso não seja considerado como uma substituição em definitivo de aulas presenciais. Mas que se torne somente uma alternativa para o tempo em que durar a pandemia, e enquanto a ciência trabalha para encontrar uma vacina que nos livre desse maldito vírus. Embora saibamos que muita coisa do que aprendemos a lidar agora se tornará no pós-pandemia também partes de nossas rotinas.
Creio que a Universidade precisa sair da condição de uma instituição conservadora, no tocante à aceitação às novidades que lhe cerca. Por muito tempo venho criticando um comportamento refratário do mundo acadêmico às inovações, mesmo em se tratando de aspectos metodológicos e pedagógicos, que nos coloca numa espécie de redoma, que termina nos distanciando das transformações tecnológicas em curso.
Por exemplo, estamos testemunhando uma nova geração surgindo já adequada às ferramentas digitais, e se nos anos 70 e 80 a televisão era o instrumento que distraía a atenção das crianças, e as faziam se comportar enquanto estivessem em frente aos programas infantis e desenhos animados que desfilavam pelos canais de tv, hoje são os smartfones que dividem com as chupetas as preferências desde os berços. São incontáveis o número de adolescentes, ou pré-adolescentes, ainda na faixa de dez anos de idade, que se tornam destaques em redes sociais, os famosos “youtubers”, que já demonstram enorme facilidade em lidar com as plataformas tecnológicas virtuais.
Ora, seguindo-se esse processo, que só se acentua na direção de novas e mais sofisticadas tecnologias, como estarão as cabeças desses jovens quando entrarem em um curso superior, nas universidades? Com quais ferramentas estaremos lidando para não tornar esse período em que os teremos como alunos e alunas, entediante e sem ânimo para prosseguir em suas escolhas? Temo que, caso não nos adequemos às novas realidades que já existiam e que despontarão agora com muito mais força no pós-pandemia, não conseguiremos enfrentar o desafio de formar as novas gerações adequadas às suas formas de se situarem e conviverem em uma sociedade tecnologicamente desenvolvida.
Claro, que no meio disso tudo a preocupação com a inclusão social não pode ser enfraquecida, muito pelo contrário. Naturalmente essa é uma luta que vai se tornando difícil na medida em que a escolha da sociedade recai sobre governos ultraconservadores, de extrema-direita, que tem essas instituições como alvo para travar uma guerra cultural a fim de impor valores egoístas, meritocráticos e no interesse de uma elite perversa e entreguista. Mas é preciso que saibamos travar essas lutas simultaneamente, caso contrário poderemos perder essas próximas gerações para os discursos vazios de uma empolgação envolvida por novidades tecnológicas deslumbrantes, e inteligências artificiais, desconectadas de uma realidade social perversa.
Posto isso, não tenho dúvidas que devemos implementar urgentemente novas formas de lidarmos com o ensino nesses tempos de isolamento social. As universidades federais não podem se limitar, por sua importância na formação de uma grande massa de jovens, a desenvolver atividades de pesquisas (sem dúvidas o suporte do desenvolvimento científico nacional) ou de extensão (na sua relação necessária com a sociedade por meio de projetos e programas que envolvam comunidades), mas esquecendo o principal suporte de sua existência: o ensino. Que não deve ter na pós-graduação o elemento principal, porque este é a continuação do processo formativo que se inicia na graduação, onde estão envolvidos o contingente da comunidade universitária que corresponde praticamente a dois terços do que somos enquanto universidade.
Compreendo as preocupações de boa parte dos nossos colegas, em relação à algumas dificuldades que certamente advirão e que não podem significar uma sobrecarga em nossas atividades, à medida em que comprovadamente o trabalho remoto docente impõe muito mais envolvimento, além da confusão que passamos a conviver entre nossa atividade profissional e nosso cotidiano familiar. Além disso será necessário nos capacitarmos em plataformas digitais com as quais não possuímos afinidades. Essas são questões que precisam estar bem definidas e com necessário suporte das administrações/reitorias, mas não me parecem que sejam empecilhos para compreendermos a importância de oferecermos alternativas aos estudantes, e isso passa por aulas remotas, que se atentem à qualidade de ensino e metodologias adequadas.
Resta, no entanto, apresentar soluções para aquelas disciplinas, e áreas, que requerem o uso de laboratórios como condição necessária do aprendizado em algumas formações, bem como as aulas de campo, que não podem ser negligenciadas. A alternativa, nessas situações, é concentrar as aulas teóricas no período em que vigorar as atividades remotas, para nos semestres seguintes ao retorno à normalidade serem oferecidas essas demais disciplinas, que requerem metodologias que extrapolam as salas de aulas.
Tudo isso, contudo, não será possível se as instituições de ensino federais não disponibilizarem para todos, o aparato necessário para o acompanhamento das aulas. Isso significa dizer que, além da disponibilização de redes de dados gratuitos para acesso à internet, também a garantia de empréstimos de equipamentos que a universidade possui, em suas unidades e laboratórios – notebook e tabletes – mediante termos de concessão de uso, para alunos e alunas que comprovadamente se insiram em camadas sociais que não lhes possibilitam a aquisição desses equipamentos. Principalmente quem entrou na universidade pelo mecanismo de cotas étnicas e sociais. Algo que, me parece, já está em curso com um levantamento sendo feito para atender essas necessidades.
Que possamos assim, ir nos adequando a uma situação inusitada, imprevisível, e que tem nos causado enormes transtornos, afetando gravemente toda a nossa rotina de atividades, seja no trabalho, ou em nossas vidas sociais. Isso não significa dizer, no entanto, apesar de todos os transtornos e desconfortos que essa realidade nos causa, ficarmos inertes diante de uma situação que pode significar um atraso de dois semestres letivos (ou mais) na vida de dezenas de milhares de jovens.
Podemos fazer sim, essa flexibilização, o que não significa defendermos como definitivo a metodologia de aulas remotas. As universidades não podem prescindir do velho e bom debate presencial, na secular rotina que transpõe o tempo e nos leva à antiguidade, quando nas Ágoras os mestres provocavam seus discípulos no embate dialético, na confrontação dos contrários, e na necessária junção entre habilidade do conhecimento e a ânsia presente na juventude pelo descoberta do mundo que lhe cerca. Nos dias de hoje acompanhado da necessária preocupação com a formação profissional, condição essencial para se preparar para o mercado de trabalho.
O que a universidade não pode perder, e nós, docentes, mestres e doutores, devemos garantir, é uma formação universitária a essa juventude fundamentada em valores éticos, em princípios humanistas e, principalmente pelas adversidades que nos colocam à prova nesse momento, do altruísmo e da cooperação como elementos essenciais para a construção de uma sociedade mais justa, equânime, verdadeiramente democrática e com inclusão social.