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segunda-feira, 22 de março de 2021

A ARQUITETURA DO CAOS

Foto: Site Poder360

Vamos aos fatos, e, naturalmente, é preciso entender toda a situação, como chegamos até aqui e porque estamos à beira do caos, numa das piores crises médicas, sanitárias e socioeconômicas da história de nosso país.

Segundo o presidente da República, "O povo não tem nem pé de galinha para comer mais. Agora, o que eu tenho falado, o caos vem aí. A fome vai tirar o pessoal de casa. Vamos ter problemas que nunca esperávamos ter problemas sociais gravíssimos”.[1] Vejam, essa é a fala do presidente do Brasil, não é de nenhum sindicalista ou militante que está lutando contra as desigualdades sociais. Mas de quem governa e, em tese, possui todos os elementos e as condições de adotar medidas que minimizem os graves problemas sociais gerados por essa pandemia. Só que ele não fará isso, por uma razão óbvia, estrangular a economia e disseminar medo, angústia e ansiedade, faz parte de um projeto de governo.

Evidente que tem razão ao dizer que estamos em meio a um caos. E isso condiz com uma estratégia adotada por seu governo, não somente durante a pandemia, mas mesmo antes de vivermos esse inferno viral. Claro, a Covid19 se incorporou a uma estratégia que já estava em curso: tornar a sociedade brasileira um caos.

Bolsonaro foi eleito no rastro de uma destruição da democracia, conforme a conhecemos por nossas bandas, e, principalmente da política. Embora ele fosse o azarão da história, serviu-se perfeitamente de toda uma onda gerada por perversos mecanismos midiáticos, de canais de televisão, jornais e emissoras de rádio, que apostaram desde 2015 na desconstrução de projetos políticos de cunhos sociais e de visões econômicas baseadas no desenvolvimentismo, para, por meio do ataque à política e projetando a ascensão da alienação derrubar um governo e apostar em políticas fortemente neoliberais, meritocráticas e antinacionais.

Mas o discurso levado a cabo, por meio do incentivo às manifestações, transmitidas ao vivo pelos canais de TV, por onde se disseminaram um comportamento de ódio e projetou o neofascismo, não atingiu o objetivo desejado pelos setores conservadores de partidos derrotados na eleição de 2014. Pois eles também se tornaram alvos da caça às bruxas, e na identificação do que se convencionou chamar de “velha política”. Foi tudo por água abaixo, inclusive caráter, seriedade, honestidade, esperança... Prevaleceu o cinismo, o banditismo miliciano e a hipocrisia religiosa. Se o que se pretendia era demonizar a política, o demônio soube entender e assumiu o controle. Assim, o caminho estava aberto para o caos. As redes sociais potencializaram isso, através das fake news, e a pandemia só veio para acelerar essa situação, já prevista e consolidada nas eleições de 2018.

Ora, já pude analisar neste blog e no meu canal no Youtube, como Bolsonaro chegou à presidência, no vácuo dessas desastrosas intervenções dos setores de centro-direita neoliberal. Despontou como um “mito”, na condição do que na geopolítica conhecemos como um “outsider”, desancando a política, com discurso anticorrupção (como sempre esse discurso antecede as crises políticas brasileiras e os movimentos golpistas) e aglutinando ao seu lado ressentidos, derrotados moralmente, despossuídos economicamente, frustrados e alienados. Embora a absoluta maioria desses aí adjetivados pudessem ser classificados no nível máximo de alienação. Além de uma burguesia estúpida e uma classe média oportunista. E, correndo por fora, de forma sutil e sibilina, porque nessa década esse movimento esteve ao lado de todos os governos, os segmentos evangélicos, neopentecostais principalmente, e os conservadores católicos da corrente carismática. Correram por fora num primeiro momento, porque depois incorporaram o discurso neofascista do presidente e se constituíram em sua principal base de apoio. Logicamente por traz disso a ambição pelo poder e a ganância como prática contumaz de seus principais líderes religiosos a extorquir os fiéis.

Mas Jair Messias Bolsonaro não caiu de paraquedas. Ele se tornou parte de um projeto desses segmentos reacionários religiosos e se incorporou a um movimento que tomava corpo mundialmente havia uma década, que gerou outra aberração política: Donald Trump. Mas que também estava em curso em diversos outros países, como Hungria, Itália, Reino Unido dentre outros, além dos EUA, de onde saiu toda essa inspiração perversiva.

Já citei em outros artigos que escrevi, baseado em alguns livros e documentários (que indico ao final desse texto), que esse projeto teve à frente um personagem que se tornou mais conhecido no ano passado, porque foi preso acusado de desvio de dinheiro numa arrecadação feita nos EUA para ajudar o governo Trump e construir um muro na fronteira com o México. Steve Bannon é o personagem por trás da “estratégia do caos”. Seu escritório foi responsável por dar assessoria aos “políticos” que surgiram das trevas, atraindo para seus lados todos esses indivíduos que carregavam algum tipo de frustração e ódio às condições sociais em que viviam.

No documentário “Privacidade Hackeada”, disponível na Netflix, chama a atenção uma frase dita por Christopher Wylie, Cientista de Dados, ao se referir a Steve Bannon (vice-presidente da Cambridge Analytica, e criador do site de notícias Breitbart), que seria a doutrina utilizada por essas empresas: “Se você quer mudar fundamentalmente a sociedade, primeiro tem de destruí-la. E somente depois de destruí-la é que pode remodelar os pedaços segundo sua visão de uma nova sociedade”.

Bingo! Eis porque Bolsonaro tem razão na frase dita, paradoxalmente sendo ele, como presidente, quem poderia adotar medidas que evitassem esse caos. Mas como eu já disse, isso ele não fará, porque faz parte de uma estratégia. Seu desejo é manter radicalizado um segmento que será muito prejudicado economicamente, para além das perdas de vidas, que se tornarão esquecidas pelo foco que está sendo adotado e pelas condições reais que ficarão milhões de pessoas. As mortes serão naturalizadas. Isso representa o que conhecemos hoje como “necropolítica”. Alienadas e corrompidas em seus desejos e olhares, essas pessoas seguem o discurso fácil, irresponsável e adredemente planejado pelos arquitetos do caos.

Mas o que falta para que aqueles responsáveis por abrir as porteiras dessas perversões, quando levaram a cabo uma outra estratégia, fracassada, de “reerguer o país destruído por Dilma Roussef” revejam seus comportamentos e percebam a gravidade dos acontecimentos que estão em curso e podem levar a que nosso país tenha mais de 500 mil mortos nessa pandemia, além de sua total destruição econômica? Enfim, esta semana divulgou-se um manifesto de banqueiros e economistas[2] que apoiaram essa loucura que empurrou o país para mãos inconsequentes.

Quem sabe um mea-culpa não abra caminho para recomposição de forças políticas que compreendam a gravidade da situação na qual eles nos meteram? É o que desejam aquelas pessoas que têm juízo, clamam pela vida, choram por seus mortos e anseiam por um país soberano, livre dos “mitos” que vagam por aí órfãos de seus manicômios. Que lutemos para recuperar nossa dignidade e saibamos compreender a importância de lutar por uma sociedade justa, menos desigual, e onde se dissemine valores como empatia, altruísmo e solidariedade. 

Ou fazemos isso ou prevalecerá pelo tempo que requer a destruição de um país, a estratégia do caos. O apocalipse por trás da necropolítica.

Está em nossas mãos, não somente os nossos destinos, como a determinação para provar a Bolsonaro que embora ele tenha razão hoje, o caos não prevalecerá e que toda maldade, perversão e vilania serão combatidas pelos que sobreviverão à sua hecatombe planejada. E seremos milhões!


DOCUMENTÁRIOS:

The Weekly S01E09: A Toca do Coelho (The Rabbit Hole) - https://www.youtube.com/watch?v=b3J7r1H4SYo

Privacidade Hackeada - Entenda como a empresa de análise de dados Cambridge Analytica se tornou o símbolo do lado sombrio das redes sociais após a eleição presidencial de 2016 nos EUA - https://www.netflix.com/br/title/80117542

Get Me Roger Stone - Observe a ascensão, queda e renascimento do operador político Roger Stone, um player influente da Equipe de Trump há décadas - https://www.netflix.com/br/title/80114666

Eles estão entre nós - O documentário explora a aliança política entre religiosos, oligarcas, Cambridge Analytica e suas empresas de fachada que mudaram o equilíbrio da política nos EUA. - https://globoplay.globo.com/eles-estao-entre-nos/t/wwppjgqzSJ/

LIVROS:

DA EMPOLI, Giuliano. Os engenheiros do caos. São Paulo: Vestígio, 2020

DOWBOR, Ladislau. O Capitalismo se desloca. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2020.

LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018

LIMA, Delcio Monteiro de. Os demônios descem do Norte. Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, 1987.

ARTIGOS DO BLOG:

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2020/04/como-chegamos-ate-aqui-e-como-sera-o_28.html

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2020/07/a-estrategia-da-destruicao-de-bolsonaro.html

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2020/08/tempos-perigosos-em-que-negam-as.html

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2020/08/o-despertar-das-bestas-3-parte.html

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2020/09/o-efeito-borboleta-ou-teoria-do-caos.html

 

CANAL ROMUALDO PESSOA: https://www.youtube.com/watch?v=UaAi8OuUojM


NOTA:

[1] https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2021/03/19/o-caos-vem-ai-a-fome-vai-tirar-o-pessoal-de-casa-diz-bolsonaro.htm

[2] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2021/03/banqueiros-e-economistas-pedem-medidas-efetivas-de-combate-a-pandemia-em-carta-aberta.shtml

 

 

quarta-feira, 10 de março de 2021

O MILITAR NÃO FAZ SUA PARTE

Por Manuel Domingos Neto*

10.03.2021

Foto: Nelson Almeida_AFP

Todos ligados na incompetência do militar na pandemia. E quanto à defesa armada do Brasil?

O país precisa, pode e deve dispor de instituições militares com missões definidas, apropriadamente equipadas e obedientes ao princípio de que todo o poder emana do povo e só em seu nome pode ser exercido.

Nunca dispusemos de corporações assim. A disjunção entre o Estado e a sociedade não permitiu. O Estado nasceu obediente a um príncipe português e não superou sua índole vassala. Foi capturado por oligarquias e estamentos que promoveram o desenvolvimento socialmente excludente.

Descolado dos anseios da maioria, o Estado se expôs aos instrumentos de força que criou para se proteger. O militar empenhou-se em ditar-lhe os rumos. O Exército, deslumbrado com a própria força, imaginou-se até fundador da nação, também chamada de pátria, que deriva de “terra dos pais”.

O militar não entendeu que pátria é elaboração simbólica coletiva. Emerge de confrontações e negociações entre variados atores. Não resulta de deliberações corporativas. Outorgando-se a paternidade da pátria, o militar menospreza a sociedade e avilta o Estado. Da janela do quartel, só vê qualidade no “paisano” que o corteje.

O militar precisa contribuir para a defesa do Brasil. Não pode, usando artificiosos expedientes, pretender papel que não lhe cabe. Sem perder a mania de mandar em tudo e de policiar brasileiros não faz sua parte.

Para o Brasil se defender, é fundamental distinguir os “assuntos da defesa” e os “assuntos militares”. Os primeiros compreendem vasto e intrincado rol de políticas públicas; os segundos dizem respeito a estruturação, funcionamento e manejo das corporações armadas. O militar deve subordinar-se aos ditames do Estado, não pretender conduzi-lo.

Apenas o Estado, entendido como um pacto entre interesses conflitantes, tem autoridade e capacidade para conceber e conduzir assuntos de defesa. Percepções e vontades corporativas não traduzem os interesses do Estado e da sociedade. Ao poder político cumpre definir as forças armadas necessárias ao Brasil.

Dispomos de ministério específico para tratar dos assuntos da defesa. Ministérios são braços executivos do poder político. Do contrário, prevaricam. Expressando dilemas existenciais e gana de mando, o militar, por ignorância ou má fé, pretende que esse ministério lhe “represente”.

Foto: outraspalavras.net

Comandante prepara a tropa para atender ao mando político. Arrebatando o lugar do político, subverte a ordem democrática e deixa o país vulnerável.

Para dispormos de defesa nacional, a primeira condição é promover a coesão entre os brasileiros. Quanto mais fragmentados por iniquidades, mais vulneráveis seremos. Divididos por preconceitos e discriminações, não teremos a defesa de que precisamos. 

Potências estrangeiras procuram sabotar nossa coesão estimulando a percepção de “inimigos internos”. Assim fizeram os franceses que modernizaram o Exército na primeira metade do século XX e os estadunidenses ao longo da guerra fria. Assim ocorre hoje quando defensores da inclusão social são tratados como inimigos.

Quem rejeita mudanças sociais de premência indiscutível trai a pátria. Apresenta-se como defensor de “tradições” sabendo que há tradições e valores que são cadáveres insepultos.

O militar que só tem olhos para a ordem interna parou no tempo colonial. É um anacrônico. Não percebe a pátria como uma sociedade em mudança permanente, unificada pelo sonho de uma vida melhor para todos. A pátria é antes de tudo uma poderosa e imaginária comunhão de destino. Sacrossanta, não aceita registro de nascimento em cartório, mas na alma comunitária. Como disse Ernest Renan há mais de um século, é uma opção cotidiana. Castrense vive apartado, não capta suas pulsações. Quando ávido de butins, atravessa o Rubicão fantasiado de patriota.

Caçador de “inimigos internos”, o militar desrespeita a sociedade e subverte o Estado. O patriotismo castrense é mesquinho, nega solidariedade aos mais sofridos. Alimenta guerra sem fim contra quem lhe garante o soldo.

A segunda condição para a defesa do Brasil é o cultivo da amizade com os vizinhos. Sólida coesão da América do Sul e laços estreitos com a África Ocidental constituem barreiras contra as pretensões de agressores poderosos. Os potenciais inimigos do Brasil sabem disso, daí alimentarem falsas rivalidades entre nações condenadas à irmandade.

Para justificar sua existência e obter recursos públicos, o militar vê nossos vizinhos como inimigos perigosos. Assim, sabota uma das condições essenciais à defesa do Brasil.

Exemplo pouco conhecido de sabotagem da integração sul-americana foi o trabalho do general Maurice Gamelin, um francês que o Brasil contratou a peso de ouro, em 1919, para modernizar o Exército. Habilidoso vendedor de armas (adorava nos empurrar sucatas), esse general preparou o militar brasileiro para guerrear contra nossos vizinhos, em particular contra a Argentina, que recebia armamento alemão.

Essa rivalidade fabricada começou a ser desfeita no final do século passado, quando as ditaduras militares foram derrotadas. Iniciando a construção da vizinhança fraterna, o político cuidou da defesa. Hoje, ocupando o governo, o militar destroça num piscar de olhos o trabalho realizado.

A terceira condição para nossa defesa é o estabelecimento de sólidas parcerias estratégicas que nos ofereçam o máximo de soberania. Estas parcerias são aquelas que não se desfazem ao sabor de circunstâncias fortuitas. Parceiros estratégicos firmam colaboração favorecedora de seus respectivos interesses.

Os Estados Unidos sempre obstaram tais parcerias. A lista de casos é infindável, mas caberia lembrar o boicote ao domínio da tecnologia nuclear, da exploração do petróleo e do programa espacial.

Quando a perspectiva de multipolaridade surgiu no horizonte, o militar se empenhou em favorecer um governo vassalo de Washington. Agiu contra a defesa do Brasil.

Outra condição irrecorrível para a nossa defesa é a mobilização e a articulação eficiente das capacidades nacionais.

Instituições dedicadas à pesquisa científica e à inovação tecnológica são indispensáveis à defesa. A comunidade acadêmica é componente de máxima valia. O sequestro de cérebros alemães no pós-guerra mostra bem isso. Sem cientistas, permaneceremos na eterna dependência dos produtores de armas e equipamentos. Hoje, não podemos agir militarmente sem o aval do fornecedor de armas e equipamentos. Quem elege o mundo acadêmico como inimigo trai o Brasil.

Empresas públicas e privadas competentes para desenvolver projetos de alta complexidade e grande porte constituem elementos fundamentais do aparato de defesa nacional. O estrangeiro cobiçoso alegrou-se com o desmonte injustificável de empresas brasileiras indispensáveis à estratégia de defesa.

Foto: Diário do Centro do Mundo (DCM)

A destruição de nossa diplomacia é outro crime inominável. O mesmo se pode dizer das instituições responsáveis por políticas públicas de proteção do meio ambiente e da sociedade. A pandemia que destrói vidas brasileiras revela o quanto estas instituições são indispensáveis para nossa comunidade. 

Militar que desmonta instituições públicas desserve a pátria. Não cabe apenas deter Bolsonaro. Para a defesa do Brasil, é preciso um basta no ativismo deletério do político castrense.


* Doutor em História pela Universidade de Paris. Ex-presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED). Foi vice-presidente do CNPq.

sábado, 15 de agosto de 2020

O DESPERTAR DAS BESTAS (3ª PARTE)

O-despertar-da-besta-1969- José Mogica Marins

Em dezembro de 2019 escrevi neste blog o segundo artigo, com o mesmo título acima, em que analiso as transformações que aconteceram no Brasil na segunda década deste século. Uma análise que venho fazendo já há muito tempo, em outros textos que podem ser aferidos numa simples pesquisa sobre o que já publiquei relacionado à política brasileira e ao “cavalo de pau” que aconteceu na geopolítica mundial nesse período. Enfim, essa loucura toda não estava restrita somente ao Brasil.

Mas 2020 nos traria muito mais surpresas. Despertadas, as bestas infernizaram, literalmente, a política brasileira. Jamais se viu em nossa história política atos tão tacanhos, comportamentos impressionantemente estúpidos e uso de expressões chulas, feitas e ditas por um dirigente político alçado ao maior cargo de nossa república. No entanto, nos espantaríamos mais saber que existia, e existe, dentre os mais de 200 milhões de habitantes desse país, um quantitativo inacreditável de pessoas que não somente apoiam esses comportamentos, como garantem a sustentação de um governo absolutamente irresponsável. Reforçam, assim, atitudes que facilmente nos permitem avaliar os traços de caráter dos que atualmente comandam o estado brasileiro.

Ora, se entendemos ser fácil definir os traços de caráter dos que estão à frente do Poder, achincalhando a nossa frágil república, como é possível explicar tantos seguidores a lhes dar apoio e a compartilhar, por meio das redes sociais, atitudes que podem ser consideradas desprezíveis?

Nos artigos anteriores analiso as conjunturas políticas em dois momentos. Do golpe institucional de 2016, contra a presidenta Dilma Roussef, que levou ao poder o seu vice Michel Temer, político de perfil oportunista, que ascendeu a esse cargo como resultado do jogo político brasileiro tradicionalmente manchado por um presidencialismo de coalizão corrompido, no qual a esquerda sucumbiu estimulada pelo pragmatismo político;[1] ao resultado inesperado, mas consequência de uma série de situações criadas por erros dos próprios governos de esquerda, mas principalmente pela guerra híbrida que se desenrolou também aqui no Brasil, impulsionado de maneira decisiva pela grande mídia, que gerou como resultado um personagem do baixo clero político do Congresso Nacional, absolutamente inexpressivo em suas duas décadas de “atuação” parlamentar e transformou a nossa política em um mosaico estilo franksteniano. Ou pelo menos deixou bem nítido que esse problema de caráter pode não ser exceção, e possibilitou o despertar das bestas. O significado dessa expressão eu explico no segundo artigo.[2]

No entanto, mais do que um comportamento que identifica as características do perfil de indivíduos reacionários, sem caráter e absolutamente desprovidos de qualquer empatia, o que se desenvolviam eram mecanismos construídos por uma estratégia planejada, onde a estupidez e a disseminação do ódio percorriam por caminhos psicossociais, e encontravam na outra ponta uma quantidade grande de pessoas aptas a assimilarem todos os engendramentos perversos de ações e atos que adequaram ao século XXI práticas utilizadas em outros momentos da história que culminaram em genocídios, ditaduras, fratricídios, racismo, homofobia, xenofobia, feminicídio e outras perversidades. Em meio a tudo isso, o uso da fé como componente forte a manipular e incorporar o ódio por meio de valores tradicionais milenares, transpostos de uma era para outra anacronicamente, a repetir dogmas que em outros tempos possibilitaram perseguições, julgamentos morais, inquisição e assassinatos impiedosos por questões de escolhas ideológicas.

É preciso, no entanto, que saibamos compreender a dimensão exata de porque houve uma mudança tão radical no comportamento da população, que em menos de uma década passa a assumir escolhas e posturas tão diferentes, indo de um extremo a outro no espectro político brasileiro. E, também como se deu a reação a esse comportamento por parte dos segmentos de esquerda e dos setores mais intelectualizados da sociedade, tanto nas universidades, quanto na área cultural. Ao mesmo tempo, a necessária compreensão de como a conjuntura se altera rapidamente, não somente como consequência de ações políticas, mas por outro fator que passa a afetar todo o mundo, e completa uma realidade caótica que já se delineara com essas mudanças políticas. Mais do que o despertar das bestas, o que se viu foi um verdadeiro cenário apocalíptico, pior do que a humanidade já vira na Idade Média, com a peste bubônica, e no começo do século XX, com o vírus influenza, gerador da “gripe espanhola”.

A Covid19, gerada por uma mutação de um velho conhecido, batizado agora de Sars Cov-2, trouxe desorganização sistêmica, confusão pandêmica, recessão econômica com um freio em boa parte das cadeias produtivas e ajudou a disseminar um caos político que, em parte já estava em curso, por meio da estratégia que transformou a política brasileira. Embora não atingindo somente o Brasil, a pandemia gerou situações caóticas principalmente naqueles países cujos governantes assumiram o poder apostando no caos, desconstruindo a política e desmoralizando a democracia.

Sobre isso já fiz algumas abordagens e escrevi artigos tanto nesse blog quanto em revistas eletrônicas. Quero me concentrar nos resultados gerados pelo caos social e econômico, e o revés político que tem particularidades que merecem ser devidamente estudadas. A estratégia do caos, nítida no comportamento do governo Jair Bolsonaro é evidente, apesar de uma estabilizada momentaneamente em suas falas desconexas e aparentemente estúpidas, principalmente desde que o Supremo Tribunal Federal abriu investigação contra grupos de extrema-direita, fascistas, que fizeram da mentira uma arma e das redes sociais mísseis a mirar instituições e adversários políticos. Assim como devido à crescente investigação sobre o mal feitos de seus filhos, até a prisão de um velho aliado, e verdadeiro capataz, administrador de um séquito de assessores fantasmas de toda sua família. Até o “cercadinho” dos horrores, em frente à residência oficial, se desfez, alterando o comportamento que até então era de bravatas, bazófias e estultices, devidamente compartilhadas.

Em meio a tudo isso, uma indiferença fria e desumana aos milhares de brasileiros e brasileiras mortos vítima de uma doença para a qual ainda não existe vacina, e o governo a trata de maneira insignificante, com desdém impressionante. Escorado num auxílio econômico emergencial, que tem chegado a dezenas de milhões de pessoas, em muitos casos, com um valor bem acima do que era pago pelo Bolsa Família, embora abaixo das necessidades das famílias de pessoas pobres e desempregadas, o que se viu foi uma inversão na curva de impopularidade que o ameaçava nos últimos meses.

Não era uma mudança impossível de se prever. É sabido que todo governante se mantém com popularidade mediante ações que atendam a situações extremas do povo em condições adversas. Esse é um aspecto, que teve também seus momentos de glórias nos governos de esquerda, quando da investigação do “mensalão” e uma situação econômica que favorecia o governo, reelegeu o presidente Lula e impulsionou a candidatura de Dilma Rousseff, até uma virada como consequência dos descontroles fiscais e equívocos cometidos nas políticas de desonerações para beneficiar setores importantes da economia brasileira. Como sempre, principalmente em sociedades marcadas por desigualdades vergonhosas, a dependência do Estado faz com que o sabor das escolhas políticas, principalmente entre os mais pobres, esteja condicionado às circunstâncias das políticas econômicas.

A crise econômica potencializada pelo Covid19, a confusão política protagonizada pela família Bolsonaro et caterva, o medo do desemprego, as fake-news a gerar um vôo cego em boa parte da população em relação à essa doença, a insensatez, insensibilidade e perversões de todas as formas, espalharam na sociedade um efeito dispersivo, um comportamento aleatório, que evidentemente, só poderia beneficiar os que viam, e veem, no caos, o caminho para se imporem no comando político do estado brasileiro.

Enquanto isso o comportamento dos setores de esquerda, mesmo das camadas mais intelectualizadas, e dos setores culturais, embora mantivessem o espírito de combatividade que lhes é peculiar, pecou por agir seguindo a onda aleatória e sucumbindo à estratégia do caos. Adotou os mecanismos de enfrentamento que eram utilizados pelo bolsonarismo, transformando a política em um nonsense, caindo na armadilha de ir para um enfrentamento, nitidamente numa postura defensiva, tendo como base a ironia, a negação dos erros cometidos e a indiferença em relação ao poder religioso evangélico, tradicional e reacionário, que se escondia por trás de líderes-pastores travestidos de políticos, camaleões, que se infiltraram nos governos anteriores, mas que mantinham um projeto de poder entrelaçado com suas pregações nos púlpitos.

A esquerda abdicou do debate ideológico e transformou as redes sociais em ambientes tóxicos, tal qual a direita já vinha fazendo há anos. A ponto de se disseminar um outro efeito, causado pelas lutas identitárias, de uma já chamada “cultura do cancelamento”, pelo qual se atinge quem porventura cometer algum deslize no trato das questões relacionadas à essas lutas, mesmo que sendo progressista e de esquerda. Até mesmo setores do movimento anarquista, libertário, também alinhado com as lutas populares, passaram a tecer críticas ao movimento antifascista, em meio a denúncias de dossiês sendo feito pelo Ministério da Justiça contra esses movimentos, para serem repassados à Agência Brasileira de Inteligência, e até mesmo sendo entregues a autoridades estadunidenses. Ou seja, para onde é possível a população olhar e enxergar uma luz no fim do túnel, que não seja de uma locomotiva vindo em sua direção?

Isso explica, em parte, o inesperado resultado da pesquisa Datafolha, publicada no dia 13.08, dando indicativas de um crescimento da aceitação do governo Bolsonaro, em praticamente quase todos os segmentos sociais. Em alguns desses segmentos, principalmente entre os mais pobres, com pico elevado de aumento da popularidade, de um presidente que se caracteriza por banalizar a política e fazer do ridículo o elemento condutor de seus comportamentos.

Não há acasos na história. Para tudo existem explicações e causas que nos ensinam como se dão os processos de transformações sociais, as crises econômicas e o caos político, que sempre leva estados a situações de enfrentamentos entre classes sociais, processos revolucionários ou ascensão de governos autoritários e de viés fascista. Como numa guerra, se não houver um enfrentamento organizado, com uma estratégia adequada a fazer do combate ao inimigo resultados promissores e vitórias parciais e definitivas, também na política jamais se obterá sucesso se não houver planejamento nas ações, com objetivos bem delineados e aglutinação de forças que se sobreponham ao poder adversário e imponham sucessivas derrotas. Nenhuma vitória será possível se não houver essa conjunção de fatores, e, principalmente, a adoção de atitudes, ações e proposições coerentes, que consigam levar à população uma confiança capaz de reverter os caminhos pelos quais ela está seguindo. Caso contrário, o adversário, mesmo apostando no caos, na ignorância e na estupidez, se sagrará vitorioso nesse embate de forças para conquistar apoio político e desencadear um processo de virada no espectro político no país.

Charge - Para além dos cérebros

Não me parece que, neste momento, a esquerda esteja conseguindo fazer isso. Pois não consegue se unificar, não possui uma estratégia adequada, os vícios da hegemonia na disputa do poder se mantêm como freio à qualquer aliança possível, e a ilusão eleitoral como saída dessa situação. É evidente, que em se tratando de uma democracia capitalista, o processo eleitoral é determinante. Mas ele não pode ser visto como um instrumento de transformação, senão como consequência das transformações que possam ser feitas a partir da organização e conscientização das massas populares e das camadas trabalhadoras. É o contrário do que está sendo feito, quando se busca obsessivamente por mandatos que possam influenciar a forma da população se comportar politicamente.

Infelizmente, as organizações sociais e entidades de trabalhadores transformaram-se em clubes de simpatizantes de causas, que embora justas, não agregam senão aqueles que já são militantes e/ou os que possuem uma postura crítica e de esquerda. Isso não é suficiente. As periferias das grandes cidades, e as pequenas cidades, estão sendo tomadas por forças conservadoras, neopentecostais, que destroem a capacidade crítica das pessoas, e as aprisionam em valores que são geradores de ódios e intolerância.

É claro que essa indiferença das pessoas em relação à importância de suas participações em sindicatos e associações, não se deve somente a erros de estratégia da esquerda. Mas também foi algo construído ao longo de tempo, com medidas cerceadoras contra essas entidades, mudanças que implicaram em reduzir suas finanças e leis que pulverizaram o sindicalismo, de forma a possibilitar sua divisão. Embora essa fratura tenha sido aceita por muitos da própria esquerda, como desejada, a fim de cada partido poder possuir uma central sindical como instrumento de suas lutas.

Restou à juventude manter sua unificação em torno de suas entidades nacionais, nos âmbitos secundaristas, universitário e pós-graduandos. Malgrado as diferenças que existem ideologicamente em seus meios, o que não é um problema em si, desde que as divergências não ajudem mais o inimigo do que à suas causas. Porque é a essa juventude que recairá o peso maior tanto das consequências dessas políticas nefastas que estão destruindo o estado brasileiro, e a educação como principal alvo, como também porque terá que sair dela, da juventude, a força que poderá fazer com que o futuro do nosso país não seja na direção de um estado fascista, guiado por uma sharia cristã neopentecostal a se contrapor a uma constituição laica e progressista.

Evidente que a esquerda brasileira não é um monolítico. Como também a direita não é. Mas a coesão quase sempre se dá quando uma conjunção de interesses, que mirem em objetivos coletivos e em prol da sociedade, se sobrepõe à posturas hegemônicas, individualistas, com preocupações focadas meramente na ampliação de suas organizações e que se imponha sobre vaidades de líderes que se cegam, e mantem a cegueira como uma doença transmissível para os seus seguidores, que passam a agir truculentamente contra os que não sigam as suas concepções políticas e interesses eleitorais.

Não pretendo carregar aqui o baú da verdade absoluta. São apenas visões, críticas, que acumulei ao longo desses anos, expressos em artigos críticos já publicados aqui neste blog, e que podem ser revistos, claro atentando-se para as datas em que foram escritos. Mas o que desejo é, mais do que querer ser lido compulsivamente, o que do alto de minha pequena modéstia sei ser impossível, é desabafar em relação à uma conjuntura que me aborrece, me intranquiliza e me deixa frustrado depois de quatro décadas de lutas, imaginando poder ver na minha velhice uma parte do nosso caminho pavimentado na direção de uma sociedade menos desigual, tolerante, crítica, avessa ao autoritarismo, defensora do livre debate e da aceitação das ideias divergentes e das concepções e posturas diferentes, como uma condição de ser humano.

Como já escrevi em outros momentos, o futuro não existe. Ele é uma construção do presente, que pode dar certo ou errado a depender dos ensinamentos adquiridos pelo passado. No momento, infelizmente, o futuro é sombrio, tendo como referência as condições em que estamos vivendo. Mas é evidente que é possível mudar, as mudanças estão em nossas mãos. No entanto, isso só será possível se aquelas pessoas que assim desejam, compreenderem que é necessário alterar o curso da história, e que isso só será capaz de acontecer, se mudarem também seus comportamentos, adotarem estratégias coerentes e criarem novas condições para que o nosso futuro possível seja melhor do que o presente.

Por fim, para não deixar a poesia de lado, insiro os versos de uma música de Caetano Veloso, que se encaixa bem nesse momento:[3]

“Enquanto os homens exercem seus podres poderes, motos e fuscas avançam os sinais vermelhos, e perdem os verdes... Somos uns boçais. Será que nunca faremos senão confirmar, a incompetência da América católica, que sempre precisará de ridículos tiranos? Será, será que será que será que será, será que essa minha estúpida retórica, terá que soar, terá que se ouvir, por mais zil anos?” 

 


quarta-feira, 22 de julho de 2020

A ESTRATÉGIA DA DESTRUIÇÃO E OS CAVALEIROS DO APOCALIPSE

Nos últimos anos, ou melhor nas últimas décadas, as plataformas das redes sociais (You Tube, Facebook, Instagram, twitter...) foram sendo instrumentalizadas pelos segmentos de extrema-direita, e por meio de muitos canais que eles criaram, passaram a atingir um público muito diversificado. E foi dessa forma que conseguiram romper um bloqueio que a mídia tradicional cria. Ela exclui a esquerda e a extrema-direita, e claro, coloca somente aquelas informações que estão alinhadas com a sua linha editorial.
Não vamos, contudo nos esquecer, que a grande mídia tem uma grande responsabilidade na destruição da política, ao causar achaque à democracia, e potencializar uma visão apocalítica da realidade absolutamente manipulada e desvirtuada, impulsionando manifestações que espalharam o ódio e atacaram o governo de uma presidenta legitimamente eleita e alimentaram uma perseguição e um espetáculo grotesco no Congresso Nacional, no processo de impeachment que sabe-se claramente hoje ter se tratado de um golpe institucional. Naquele momento abriu-se a “caixa de Pandora”, libertando todos os males enrustidos nos subterrâneos do parlamento e da sociedade brasileira.
Feito essa observação necessária, já que nosso foco aqui são as redes sociais, e plataformas de vídeos, voltamos ao eixo da nossa avaliação. A extrema-direita descobriu, antes que a esquerda, que por esses canais, por essas plataformas, via redes sociais, havia uma possibilidade enorme de atingir um público que eles chamam de “maioria silenciosa”.
Pois bem, essas plataformas funcionam por meio de algoritmos, que destacam determinada abordagem, por meio de expressões (palavras) ou fatos, que tenham relação com aquilo que uma parcela muito grande da sociedade termina sendo atraída: violência, discurso de ódio, homofobia, racismo e diversos outros temas que esses algoritmos definem no perfil de cada um, que eles possuem armazenados, com os nossos dados que autorizamos as suas visibilizações e ficam em controle dessas empresas, e selecionadas por meio de inteligências artificiais. Isso é potencializado com esses algoritmos, com essas expressões, e atingem milhões de pessoas, escolhidas para terem acesso a essas informações.
Esses segmentos da extrema-direita compreenderam o papel que isso pode desempenhar, e a capacidade que esses canais têm de atingir cada vez um número maior de pessoas. Inicialmente eles começam falando de coisas fúteis, corriqueiras, e assim atraíam essas pessoas, passando depois para uma discussão política, que na verdade transformava-se em ataques à política e disseminava sentimentos antipolítica. Essas questões, envolvendo principalmente o You Tube, foram bem demonstradas em um dos episódios do documentário “The Weekly”, na temporada 1, episódio 9, “Toca do Coelho”.[1]
Portanto, todo esse processo, que advêm do começo desse século, foi pensado estrategicamente. O que quero dizer é o que o “Brexit” não foi acidente, o Donald Trump não foi acidente, assim como também Jair Bolsonaro. Houve, e há, estratégias por trás da maneira como muitos passaram a seguir aquilo que para uma grande parte da sociedade são discursos estúpidos, coisas ditas de forma odiosas, aberrações, esdrúxulas. Mas porque tantos seguem essas ações, esses atos e esses comportamentos, considerados estúpidos por outros tantos? Exatamente porque, por meio desses estudos que tiveram acesso, eles passaram a utilizar essas plataformas, e esses algoritmos seguindo-se expressões definidas como do gosto de inúmeros perfis, eles passaram a ser ouvidos por milhões de pessoas, que por suas próprias condições estavam propensas a acreditar. Sendo que muitas das informações que eles levaram são falsas, essas ondas de fake news. Mas, pelos perfis atingidos isso não fazia diferença, visto que eram, e são pessoas, dispostas a acreditarem naquilo que elas desejam que seja “a verdade”. O que desde há alguns anos se convencionou chamar de Pós-Verdade.
Eu gostaria de sugerir mais dois documentários, que estão disponíveis na Netflix. O primeiro é “Privacidade Hackeada”[2], produzido com base nas investigações sobre a Cambridge Analytica, uma empresa que se tornou um escândalo depois das denúncias de que ela roubara milhões de dados do Facebook (há suspeitas sobre a conivência deste), e esses dados foram utilizados de diversas maneiras, tanto na campanha do “Brexit” na Inglaterra, quanto na campanha de Donald Trump, nos EUA. Isso levou a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito no parlamento britânico, no ano de 2018.
Nesse mesmo documentário, é dito uma questão importante, relevante, que as pessoas tem que ter muita clareza disso. Uma ex-diretora da Cambridge Analytica, Brittany Kayser, que foi fundamental nas denúncias apresentadas, disse o seguinte: “As empresas mais ricas são as de tecnologia. Google, Facebook, Amazon, Tesla... No ano passado dados superaram o petróleo em valor. Dados são os recursos mais valorizados da terra”
Ainda nesse documentário, outra frase que destacamos, foi dita por Christopher Wylie, Cientista de Dados, ao se referir  a Steve Bannon (vice-presidente da Cambridge Analytica, e criador do site de notícias Breitbart), que seria a doutrina utilizada por essas empresas: “Se você quer mudar fundamentalmente a sociedade, primeiro tem de destruí-la. E somente depois de destruí-la é que pode remodelar os pedaços segundo sua visão de uma nova sociedade”.
Isso é, portanto, uma estratégia do caos, que foi utilizada no “Brexit”, na eleição do Trump, e tem sido também utilizada aqui no Brasil desde antes da campanha de Bolsonaro. E a forma como é utilizada para atingir esses objetivo é exatamente por meio da desconstrução da política, da desmoralização da democracia, e da tentativa de destruição das instituições que compõem o Estado. O objetivo é destruir instituições que permitem um mínimo de garantias democráticas e constitucionais, e afetar a sua credibilidade, atingindo diretamente algumas personalidades, e depois, claro, recompô-las seguindo as linhas ideológicas desejadas.
Então são essas informações, via esses canais, plataformas e aplicativos, mesmo esses que funcionam como divertidos entretenimentos, seja no Facebook, whatsapp, instagram, com a captura de nossos dados, que são utilizados de diversas maneiras, rompendo compromissos de confidencialidade. Por meio de conivência que garantem aos seus proprietários e acionistas lucrarem escandalosamente. E isso tomou uma grande relevância nessas estratégias de obterem acesso a milhões de dados das pessoas, e assim disseminar mentiras, discursos de ódios e destruição de reputações, que fariam Goebbels parecer um discípulo, embora ele seja a origem dessas perversões.
O outro documentário é “Get me Roger Stone”[3]. Assistam esse documentário e vocês verão que as diatribes, os comportamentos tresloucados, as ações que se repetem e que para muitos de nós, normais, parecem maluquices, loucuras, são na verdade atitudes pensadas, dentro de uma estratégia que visa apostar em comportamentos bizarros, mas sabidamente aceito por uma grande parcela da sociedade. Como o que foi mostrado recentemente, agora no último final de semana pelo portal de notícias UOL, quase que um culto, assim foi a manchete, do Bolsonaro à Cloroquina e o deslumbramento de seus seguidores em ato em frente ao Palácio do Planalto. E que pode ser visto assim mesmo, dessa maneira, porque a manifestação foi chamada pelos segmentos conservadores de algumas igrejas, a maioria evangélicos.
Eles têm noção que esse remédio não serve para combater Covid19, serve para outras doenças, e disso eles têm clareza. Claro. Mas porque eles continuam insistindo nisso? Porque a estupidez, e esses comportamentos meio amalucados fazem parte da estratégia que é da desmoralização. É uma estratégia de levar ao caos. Eles são profetas do caos. Nesse documentário, esse personagem, Roger Stone, demonstra, com as suas próprias palavras, que não há importância nenhuma em falar mal dele. Ele repete uma frase corriqueira, que na política se diz muito, “falem mal, mas falem de mim”. E o seu comportamento é o tempo inteiro desafiador, ofensivo e com gestos e atitudes bizarras e com o intuito de atingir o oponente/adversário, ou alguém que ele deseja destruir sua reputação. Porque isso também dá muita visibilidade, e, claro, por meio dessas loucuras que são apresentadas, eles terminam, e isso inclui o Trump e o Bolsonaro, conduzindo as informações que viram manchetes. Por meio dessas loucuras deles, os jornais proliferam essas maluquices. Então eles se mantêm no centro das atenções e conseguem atrair aquele público de seguidores que lhes ouvem e lhes seguem cegamente, e vão ao êxtase com essas posturas que fogem por completo ao padrão da política.
Mas tudo isso foi construído e consolidado por meio da utilização dessas plataformas e desses canais: Facebook, instagram, twitter, you tube... Eles descobriram como podiam fazer isso. O que é necessário agora é que essas plataformas sejam utilizadas não para rebater discursos de ódio, porque seguir por esse caminho é fazer exatamente aquilo que eles desejam. E eles vão nos pautar. Não podemos ir por esse discurso de violência. Por exemplo, de que vão armar o povo. Que armar o povo? O povo não tem dinheiro para comprar armas. Ele deseja armar um séquito de gente maluca, da classe média, que o segue com as mesmas atitudes irresponsáveis e violentas. Ou de milicianos, que foram e são bases de apoio desse grupo que chegou ao Palácio do Planalto, ao alguns governos estaduais e ao parlamento brasileiro.
Não é esse o discurso do ódio que devemos focar. Claro, não podemos esquecer o que eles estão dizendo. Isso tem que ser combatido. Mas nas entrelinhas de questões que são muito mais importantes, por meio do debate político sério e responsável. Eles ascenderam ao poder com a desconstrução da política, com a desmoralização da democracia e das instituições. Nós sabemos para que serve o Estado. É claro que o Estado se organiza para servir a classe dominante. É preciso tomar esse Estado e fazer dele um instrumento para atender às camadas sociais oprimidas. Isso não é fácil, nós assistimos nos últimos anos golpes e ataques à um mínimo de estrutura que se criou para amenizar os problemas sociais.
Mas, há um caminho enorme a se percorrer, até atingir esse objetivo. Até lá, nós vamos ter que ir lidando com essas situações de conviver com governos que oscilam entre a centro-esquerda, a centro-direita e o centro. E vamos precisar de ter canais democráticos para nos comunicar, pois é preciso levar ao povo a importância que é a política, a filosofia, a história, a sociologia, a geografia, que são as ciências humanas, e estão sendo atacadas nessa aberração de guerra cultural que está destruindo a educação e o ensino brasileiro.
Claro que isso se dá porque é por essas ciências que adquirimos a capacidade de pensar, de raciocinar e de ter compreensão política da realidade e de ter uma visão crítica das condições em que nós vivemos. E adquirindo consciência crítica ser possível fazer outro tipo de ação política. Por meio de ações comunitárias, de envolvimento da juventude. Caso contrário essa juventude se perde seja para o tráfico, seja para as milícias, ou para um fundamentalismo reacionário evangélico.
Não desejo generalizar, todas as igrejas têm suas nuances, suas diferenças, e evidentemente existe uma parcela de irresponsáveis que usam os cultos para propagar também essas perversões. Incrivelmente em nome de Deus, em nome de Cristo, o que é uma aberração quando se sabe das origens do cristianismo. Existem muitas pessoas sérias nessas igrejas.  Mas essa juventude está sendo contaminada por esse vírus dessa fé malévola fundamentalista, neopentescostal.
Então é preciso fazer com que essa juventude adquira capacidade crítica. Esses canais aos quais tenho me referido, essas plataformas, são usadas em larga escala pela juventude, e na maioria dos casos para assistir coisas fúteis, diversões. Não podemos criticá-los por isso. Nós também gostamos disso. Muitas vezes a maioria de nós se perde assistindo esses programas, afinal, precisamos nos divertir, nós precisamos também disso. Mas precisamos da política, da boa política. Porque se nós não nos envolvermos na política vamos deixando o poder para esses indivíduos que pregam o ódio, intolerância, perversões, destruição do meio-ambiente, destruição da sociedade, dos valores democráticos, e nos impõem dificuldades para atender as necessidades terríveis, e urgentes, para resolver graves problemas causados pelas desigualdades sociais que estão aí e que vão piorar depois dessa pandemia. E esse governo não fez, e não faz nada para resolver os problemas sociais, muito pelo contrário. Um ano e meio – nós temos mais dois anos e meio desse governo – imobilizado, somente fazendo esses espetáculos horríveis de manifestações odiosas.
Então é por isso, para finalizar, que devemos dar visibilidades aos canais progressistas que existem nas redes sociais, daqueles que desejam trazer o Brasil de volta para uma realidade que não seja a dessas perversões que estão aí. Claro que isso somente não basta. A luta deve se dar em diversas frentes, e principalmente em amplas manifestações de ruas, algo que no momento é impossível, diante das dificuldades causadas pela pandemia, e preservar vida nos impõe um distanciamento social.
Mas nessas condições esses mecanismos estão à disposição, e se não usamos para o bem, eles serão usados, como tem sido para pregarem o mal, as perversões de uma política segregacionista, fascista, perversa e absolutamente nefasta para a sociedade, na medida em que atende as necessidades de uma minoria reacionária, que se aproveitou de brechas no sistema democrático para inserir vírus que corroem as relações sociais, dissemina o ódio e entroniza a violência como condutora da política. O que significa a destruição da política.
“Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse são personagens descritos na terceira visão profética do Apóstolo João no livro bíblico de Revelação ou Apocalipse. Os quatro cavaleiros do apocalipse são respectivamente peste, guerra, fome e morte, que para os cristãos irão acontecer antes do fim de todas as coisas”. Esse é um trecho copiado da Wikipédia, no verbete destacado. Esses personagens, fictícios, se tornam imagináveis quando olhamos para a família que ocupa a sede central do Poder brasileiro. Não porque eles sejam a representação desses cavaleiros, mas porque eles se julgam exatamente isso, e são incensados por uma malta de fiéis alienados que apregoam o “fim dos tempos”, e para isso precisam naturalizar esses elementos que representam, e como na estratégia identificada e citada anteriormente, desejam destruir essa sociedade para reconstruí-la no formato que desenham suas mentes doentias.
Enfim, eu poderia terminar dizendo que estamos combatendo forças malignas, mas o que são, em verdade, se explica quando analisamos o Poder e os interesses que estão por trás dos objetivos para alcançá-los. São na verdade farsantes, fraudes, como todos aqueles que se apresentam como profetas e se deslumbram em serem chamados de mitos. No entanto não podem ser menosprezados, pois sabemos o que fazem e o que querem, e não têm limites éticos e morais para atingir seus objetivos, assim como todos que lhes dão suporte em seus atos irresponsáveis e inconsequentes.
Mas é preciso se levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima. E aí, poder dizer como na música de Geraldo Vandré, que será “a volta do cipó de aroeira, no lombo de quem mandou dar”. E ao longe, é possível ver a luz da utopia. É preciso ir em frente, em sua direção. Sempre.
(*) ASSISTA NO YOU TUBE: COMO COMBATER OS PROFETAS DO CAOS E A ESTRATÉGIA DA DESTRUIÇÃO DE BOLSONARO E CIA - https://www.youtube.com/watch?v=Ele_LvYiGlc




NOTAS:
[1] The Weekly S01E09: A Toca do Coelho (The Rabbit Hole)  -https://www.youtube.com/watch?v=b3J7r1H4SYo&feature=youtu.be
[2] Privacidade Hackeada - Entenda como a empresa de análise de dados Cambridge Analytica se tornou o símbolo do lado sombrio das redes sociais após a eleição presidencial de 2016 nos EUA - https://www.netflix.com/br/title/80117542
[3] Get Me Roger Stone - Observe a ascensão, queda e renascimento do operador político Roger Stone, um player influente da Equipe de Trump há décadas - https://www.netflix.com/br/title/80114666