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sábado, 15 de agosto de 2020

O DESPERTAR DAS BESTAS (3ª PARTE)

O-despertar-da-besta-1969- José Mogica Marins

Em dezembro de 2019 escrevi neste blog o segundo artigo, com o mesmo título acima, em que analiso as transformações que aconteceram no Brasil na segunda década deste século. Uma análise que venho fazendo já há muito tempo, em outros textos que podem ser aferidos numa simples pesquisa sobre o que já publiquei relacionado à política brasileira e ao “cavalo de pau” que aconteceu na geopolítica mundial nesse período. Enfim, essa loucura toda não estava restrita somente ao Brasil.

Mas 2020 nos traria muito mais surpresas. Despertadas, as bestas infernizaram, literalmente, a política brasileira. Jamais se viu em nossa história política atos tão tacanhos, comportamentos impressionantemente estúpidos e uso de expressões chulas, feitas e ditas por um dirigente político alçado ao maior cargo de nossa república. No entanto, nos espantaríamos mais saber que existia, e existe, dentre os mais de 200 milhões de habitantes desse país, um quantitativo inacreditável de pessoas que não somente apoiam esses comportamentos, como garantem a sustentação de um governo absolutamente irresponsável. Reforçam, assim, atitudes que facilmente nos permitem avaliar os traços de caráter dos que atualmente comandam o estado brasileiro.

Ora, se entendemos ser fácil definir os traços de caráter dos que estão à frente do Poder, achincalhando a nossa frágil república, como é possível explicar tantos seguidores a lhes dar apoio e a compartilhar, por meio das redes sociais, atitudes que podem ser consideradas desprezíveis?

Nos artigos anteriores analiso as conjunturas políticas em dois momentos. Do golpe institucional de 2016, contra a presidenta Dilma Roussef, que levou ao poder o seu vice Michel Temer, político de perfil oportunista, que ascendeu a esse cargo como resultado do jogo político brasileiro tradicionalmente manchado por um presidencialismo de coalizão corrompido, no qual a esquerda sucumbiu estimulada pelo pragmatismo político;[1] ao resultado inesperado, mas consequência de uma série de situações criadas por erros dos próprios governos de esquerda, mas principalmente pela guerra híbrida que se desenrolou também aqui no Brasil, impulsionado de maneira decisiva pela grande mídia, que gerou como resultado um personagem do baixo clero político do Congresso Nacional, absolutamente inexpressivo em suas duas décadas de “atuação” parlamentar e transformou a nossa política em um mosaico estilo franksteniano. Ou pelo menos deixou bem nítido que esse problema de caráter pode não ser exceção, e possibilitou o despertar das bestas. O significado dessa expressão eu explico no segundo artigo.[2]

No entanto, mais do que um comportamento que identifica as características do perfil de indivíduos reacionários, sem caráter e absolutamente desprovidos de qualquer empatia, o que se desenvolviam eram mecanismos construídos por uma estratégia planejada, onde a estupidez e a disseminação do ódio percorriam por caminhos psicossociais, e encontravam na outra ponta uma quantidade grande de pessoas aptas a assimilarem todos os engendramentos perversos de ações e atos que adequaram ao século XXI práticas utilizadas em outros momentos da história que culminaram em genocídios, ditaduras, fratricídios, racismo, homofobia, xenofobia, feminicídio e outras perversidades. Em meio a tudo isso, o uso da fé como componente forte a manipular e incorporar o ódio por meio de valores tradicionais milenares, transpostos de uma era para outra anacronicamente, a repetir dogmas que em outros tempos possibilitaram perseguições, julgamentos morais, inquisição e assassinatos impiedosos por questões de escolhas ideológicas.

É preciso, no entanto, que saibamos compreender a dimensão exata de porque houve uma mudança tão radical no comportamento da população, que em menos de uma década passa a assumir escolhas e posturas tão diferentes, indo de um extremo a outro no espectro político brasileiro. E, também como se deu a reação a esse comportamento por parte dos segmentos de esquerda e dos setores mais intelectualizados da sociedade, tanto nas universidades, quanto na área cultural. Ao mesmo tempo, a necessária compreensão de como a conjuntura se altera rapidamente, não somente como consequência de ações políticas, mas por outro fator que passa a afetar todo o mundo, e completa uma realidade caótica que já se delineara com essas mudanças políticas. Mais do que o despertar das bestas, o que se viu foi um verdadeiro cenário apocalíptico, pior do que a humanidade já vira na Idade Média, com a peste bubônica, e no começo do século XX, com o vírus influenza, gerador da “gripe espanhola”.

A Covid19, gerada por uma mutação de um velho conhecido, batizado agora de Sars Cov-2, trouxe desorganização sistêmica, confusão pandêmica, recessão econômica com um freio em boa parte das cadeias produtivas e ajudou a disseminar um caos político que, em parte já estava em curso, por meio da estratégia que transformou a política brasileira. Embora não atingindo somente o Brasil, a pandemia gerou situações caóticas principalmente naqueles países cujos governantes assumiram o poder apostando no caos, desconstruindo a política e desmoralizando a democracia.

Sobre isso já fiz algumas abordagens e escrevi artigos tanto nesse blog quanto em revistas eletrônicas. Quero me concentrar nos resultados gerados pelo caos social e econômico, e o revés político que tem particularidades que merecem ser devidamente estudadas. A estratégia do caos, nítida no comportamento do governo Jair Bolsonaro é evidente, apesar de uma estabilizada momentaneamente em suas falas desconexas e aparentemente estúpidas, principalmente desde que o Supremo Tribunal Federal abriu investigação contra grupos de extrema-direita, fascistas, que fizeram da mentira uma arma e das redes sociais mísseis a mirar instituições e adversários políticos. Assim como devido à crescente investigação sobre o mal feitos de seus filhos, até a prisão de um velho aliado, e verdadeiro capataz, administrador de um séquito de assessores fantasmas de toda sua família. Até o “cercadinho” dos horrores, em frente à residência oficial, se desfez, alterando o comportamento que até então era de bravatas, bazófias e estultices, devidamente compartilhadas.

Em meio a tudo isso, uma indiferença fria e desumana aos milhares de brasileiros e brasileiras mortos vítima de uma doença para a qual ainda não existe vacina, e o governo a trata de maneira insignificante, com desdém impressionante. Escorado num auxílio econômico emergencial, que tem chegado a dezenas de milhões de pessoas, em muitos casos, com um valor bem acima do que era pago pelo Bolsa Família, embora abaixo das necessidades das famílias de pessoas pobres e desempregadas, o que se viu foi uma inversão na curva de impopularidade que o ameaçava nos últimos meses.

Não era uma mudança impossível de se prever. É sabido que todo governante se mantém com popularidade mediante ações que atendam a situações extremas do povo em condições adversas. Esse é um aspecto, que teve também seus momentos de glórias nos governos de esquerda, quando da investigação do “mensalão” e uma situação econômica que favorecia o governo, reelegeu o presidente Lula e impulsionou a candidatura de Dilma Rousseff, até uma virada como consequência dos descontroles fiscais e equívocos cometidos nas políticas de desonerações para beneficiar setores importantes da economia brasileira. Como sempre, principalmente em sociedades marcadas por desigualdades vergonhosas, a dependência do Estado faz com que o sabor das escolhas políticas, principalmente entre os mais pobres, esteja condicionado às circunstâncias das políticas econômicas.

A crise econômica potencializada pelo Covid19, a confusão política protagonizada pela família Bolsonaro et caterva, o medo do desemprego, as fake-news a gerar um vôo cego em boa parte da população em relação à essa doença, a insensatez, insensibilidade e perversões de todas as formas, espalharam na sociedade um efeito dispersivo, um comportamento aleatório, que evidentemente, só poderia beneficiar os que viam, e veem, no caos, o caminho para se imporem no comando político do estado brasileiro.

Enquanto isso o comportamento dos setores de esquerda, mesmo das camadas mais intelectualizadas, e dos setores culturais, embora mantivessem o espírito de combatividade que lhes é peculiar, pecou por agir seguindo a onda aleatória e sucumbindo à estratégia do caos. Adotou os mecanismos de enfrentamento que eram utilizados pelo bolsonarismo, transformando a política em um nonsense, caindo na armadilha de ir para um enfrentamento, nitidamente numa postura defensiva, tendo como base a ironia, a negação dos erros cometidos e a indiferença em relação ao poder religioso evangélico, tradicional e reacionário, que se escondia por trás de líderes-pastores travestidos de políticos, camaleões, que se infiltraram nos governos anteriores, mas que mantinham um projeto de poder entrelaçado com suas pregações nos púlpitos.

A esquerda abdicou do debate ideológico e transformou as redes sociais em ambientes tóxicos, tal qual a direita já vinha fazendo há anos. A ponto de se disseminar um outro efeito, causado pelas lutas identitárias, de uma já chamada “cultura do cancelamento”, pelo qual se atinge quem porventura cometer algum deslize no trato das questões relacionadas à essas lutas, mesmo que sendo progressista e de esquerda. Até mesmo setores do movimento anarquista, libertário, também alinhado com as lutas populares, passaram a tecer críticas ao movimento antifascista, em meio a denúncias de dossiês sendo feito pelo Ministério da Justiça contra esses movimentos, para serem repassados à Agência Brasileira de Inteligência, e até mesmo sendo entregues a autoridades estadunidenses. Ou seja, para onde é possível a população olhar e enxergar uma luz no fim do túnel, que não seja de uma locomotiva vindo em sua direção?

Isso explica, em parte, o inesperado resultado da pesquisa Datafolha, publicada no dia 13.08, dando indicativas de um crescimento da aceitação do governo Bolsonaro, em praticamente quase todos os segmentos sociais. Em alguns desses segmentos, principalmente entre os mais pobres, com pico elevado de aumento da popularidade, de um presidente que se caracteriza por banalizar a política e fazer do ridículo o elemento condutor de seus comportamentos.

Não há acasos na história. Para tudo existem explicações e causas que nos ensinam como se dão os processos de transformações sociais, as crises econômicas e o caos político, que sempre leva estados a situações de enfrentamentos entre classes sociais, processos revolucionários ou ascensão de governos autoritários e de viés fascista. Como numa guerra, se não houver um enfrentamento organizado, com uma estratégia adequada a fazer do combate ao inimigo resultados promissores e vitórias parciais e definitivas, também na política jamais se obterá sucesso se não houver planejamento nas ações, com objetivos bem delineados e aglutinação de forças que se sobreponham ao poder adversário e imponham sucessivas derrotas. Nenhuma vitória será possível se não houver essa conjunção de fatores, e, principalmente, a adoção de atitudes, ações e proposições coerentes, que consigam levar à população uma confiança capaz de reverter os caminhos pelos quais ela está seguindo. Caso contrário, o adversário, mesmo apostando no caos, na ignorância e na estupidez, se sagrará vitorioso nesse embate de forças para conquistar apoio político e desencadear um processo de virada no espectro político no país.

Charge - Para além dos cérebros

Não me parece que, neste momento, a esquerda esteja conseguindo fazer isso. Pois não consegue se unificar, não possui uma estratégia adequada, os vícios da hegemonia na disputa do poder se mantêm como freio à qualquer aliança possível, e a ilusão eleitoral como saída dessa situação. É evidente, que em se tratando de uma democracia capitalista, o processo eleitoral é determinante. Mas ele não pode ser visto como um instrumento de transformação, senão como consequência das transformações que possam ser feitas a partir da organização e conscientização das massas populares e das camadas trabalhadoras. É o contrário do que está sendo feito, quando se busca obsessivamente por mandatos que possam influenciar a forma da população se comportar politicamente.

Infelizmente, as organizações sociais e entidades de trabalhadores transformaram-se em clubes de simpatizantes de causas, que embora justas, não agregam senão aqueles que já são militantes e/ou os que possuem uma postura crítica e de esquerda. Isso não é suficiente. As periferias das grandes cidades, e as pequenas cidades, estão sendo tomadas por forças conservadoras, neopentecostais, que destroem a capacidade crítica das pessoas, e as aprisionam em valores que são geradores de ódios e intolerância.

É claro que essa indiferença das pessoas em relação à importância de suas participações em sindicatos e associações, não se deve somente a erros de estratégia da esquerda. Mas também foi algo construído ao longo de tempo, com medidas cerceadoras contra essas entidades, mudanças que implicaram em reduzir suas finanças e leis que pulverizaram o sindicalismo, de forma a possibilitar sua divisão. Embora essa fratura tenha sido aceita por muitos da própria esquerda, como desejada, a fim de cada partido poder possuir uma central sindical como instrumento de suas lutas.

Restou à juventude manter sua unificação em torno de suas entidades nacionais, nos âmbitos secundaristas, universitário e pós-graduandos. Malgrado as diferenças que existem ideologicamente em seus meios, o que não é um problema em si, desde que as divergências não ajudem mais o inimigo do que à suas causas. Porque é a essa juventude que recairá o peso maior tanto das consequências dessas políticas nefastas que estão destruindo o estado brasileiro, e a educação como principal alvo, como também porque terá que sair dela, da juventude, a força que poderá fazer com que o futuro do nosso país não seja na direção de um estado fascista, guiado por uma sharia cristã neopentecostal a se contrapor a uma constituição laica e progressista.

Evidente que a esquerda brasileira não é um monolítico. Como também a direita não é. Mas a coesão quase sempre se dá quando uma conjunção de interesses, que mirem em objetivos coletivos e em prol da sociedade, se sobrepõe à posturas hegemônicas, individualistas, com preocupações focadas meramente na ampliação de suas organizações e que se imponha sobre vaidades de líderes que se cegam, e mantem a cegueira como uma doença transmissível para os seus seguidores, que passam a agir truculentamente contra os que não sigam as suas concepções políticas e interesses eleitorais.

Não pretendo carregar aqui o baú da verdade absoluta. São apenas visões, críticas, que acumulei ao longo desses anos, expressos em artigos críticos já publicados aqui neste blog, e que podem ser revistos, claro atentando-se para as datas em que foram escritos. Mas o que desejo é, mais do que querer ser lido compulsivamente, o que do alto de minha pequena modéstia sei ser impossível, é desabafar em relação à uma conjuntura que me aborrece, me intranquiliza e me deixa frustrado depois de quatro décadas de lutas, imaginando poder ver na minha velhice uma parte do nosso caminho pavimentado na direção de uma sociedade menos desigual, tolerante, crítica, avessa ao autoritarismo, defensora do livre debate e da aceitação das ideias divergentes e das concepções e posturas diferentes, como uma condição de ser humano.

Como já escrevi em outros momentos, o futuro não existe. Ele é uma construção do presente, que pode dar certo ou errado a depender dos ensinamentos adquiridos pelo passado. No momento, infelizmente, o futuro é sombrio, tendo como referência as condições em que estamos vivendo. Mas é evidente que é possível mudar, as mudanças estão em nossas mãos. No entanto, isso só será possível se aquelas pessoas que assim desejam, compreenderem que é necessário alterar o curso da história, e que isso só será capaz de acontecer, se mudarem também seus comportamentos, adotarem estratégias coerentes e criarem novas condições para que o nosso futuro possível seja melhor do que o presente.

Por fim, para não deixar a poesia de lado, insiro os versos de uma música de Caetano Veloso, que se encaixa bem nesse momento:[3]

“Enquanto os homens exercem seus podres poderes, motos e fuscas avançam os sinais vermelhos, e perdem os verdes... Somos uns boçais. Será que nunca faremos senão confirmar, a incompetência da América católica, que sempre precisará de ridículos tiranos? Será, será que será que será que será, será que essa minha estúpida retórica, terá que soar, terá que se ouvir, por mais zil anos?” 

 


terça-feira, 28 de abril de 2020

COMO CHEGAMOS ATÉ AQUI E COMO SERÁ O MUNDO PÓS-PANDEMIA?


Embora nos sintamos permanentemente instados a construir cenários sobre o que pode vir a acontecer no pós-pandemia, como estudioso da Geopolítica sinto que é necessário evitar precipitações. É bem verdade que podemos montar diversos cenários, sem querer até mesmo criar expectativas que haja 100% de acerto. O que nunca é possível. Mas uma criteriosa observação sobre o que tem acontecido no mundo, nos permite ver que há distinções na maneira como cada país, e dentro deles, cada região, tem se comportado no tratamento da Covid19.
Isso nos permite também deduzir que não está descartado uma segunda onda epidêmica, naqueles países que não souberem criar as condições para retomar as atividades normais pós-quarentena. Imagino ser necessário aguardar até o segundo semestre deste ano para podermos compreender melhor como as governanças globais, e cada governo em particular, vão se preparar para reconstruir nações devastadas, economicamente e psicologicamente. Certamente no decorrer desse artigo eu vá me contradizer, e aponte alguns elementos que, em minha opinião, comporão os novos cenários que definirão o que nos acostumamos a chamar de futuro.
Em outras oportunidades já escrevi aqui nesse blog textos que tinha como objetivo extrair de dentro de mim angústias que me acompanhavam, e ainda me acompanham. Naturalmente cada um de nós carregamos sentimentos angustiantes e lidamos com situações próximas ou distantes de nós que nos levam a rever nossos comportamentos e como vivemos até aquele momento em que um trauma, ou acontecimento impactante, nos afetou, ou a sociedade.
Esse momento em que vivemos, marcado por uma pandemia causada por um vírus que se tenta conhecer ainda, e que por isso inexiste medicamentos e vacina para lidar com a doença que ele causa, os traumas serão pessoais e coletivos. No âmbito de famílias, de grupos de amizades e das sociedades. São formas de se relacionar, de afetos e de comportamentos, que necessariamente pelas condições ainda indefinidas que persistirão enquanto não for possível conter esse vírus, irão transformar nossas condições sociais e a interatividade que construímos na forma de viver em sociedade.
Mas isso pode, e deve, nos possibilitar se não construir cenários que apontem como serão as sociedades em um futuro incerto, pelo menos questionar as formas de relacionamentos que construímos até aqui, e que geraram distorções por todo o mundo, entre nações e dentro de cada país, entre pessoas que se situam em condições absurdamente desiguais. E para isso é preciso em primeiro lugar parar de viver para um futuro que não somente é incerto, como inexiste.

UM MODELO DE SOCIEDADE CONSUMISTA E DESIGUAL

O modelo de sociedade, consumista e individualista, construído pela burguesia, em seu interesse ganancioso e usurário, gerou distorções criminosas. No entanto, essas distorções foram naturalizadas por outros elementos que vão além das condições materiais de existência das pessoas. São as ideias, crenças, concepções filosóficas e políticas, construídas no sentido de acomodar as pessoas, e fazerem com que elas aceitem desigualdades sociais impressionantes. Na medida em que os estados-nações foram sendo estruturados, o seu aparato ideológico também foi construído, e suas ideias e elaborações intelectuais foram sendo geradas para criar na sociedade a aceitação das diferenças. Formas de controles também foram sendo criadas, envolvendo escolas, igrejas, aparatos jurídicos, estruturas repressivas, a fim de manter as pessoas submetidas à lógicas que as condicionavam na aceitação de um sistema perverso e concentracionista, com a acumulação da riqueza em mãos de um percentual mínimo de pessoas. Cerca de 1% da população controla mais de 80% da riqueza.
O modelo de democracia inverteu a lógica determinada desde a antiguidade, em suas origens, que a definia como geradora de formas de governos que atendessem os interesses da maioria. Se disseminou princípios que caracterizava a democracia de forma simplificada, determinando que esse seria um regime definido por processos eleitorais, onde cidadãos teriam direito a escolher seus dirigentes. Nada mais falso. Construiu-se modelos de democracia que sucessivamente, desde que a burguesia assumiu o controle dos meios de produção e da riqueza, sempre elevou e manteve no Poder seus representantes diretos ou indivíduos que se corrompiam numa estrutura viciada, definida claramente para que não houvesse nenhuma possibilidade de alteração na ordem vigente. De valores democráticos falsos, onde o voto sempre foi definido pela manipulação e os eleitos jamais representaram estatisticamente o perfil da sociedade.
Para manter as pessoas submissas decantava-se mantras criados ideologicamente, mas estranhamente jamais vistos como sendo construções ideológicas. Ideologia passou a representar apenas aquilo que se contrapunha a esse formato de sociedade e a esse modelo de democracia. As notícias apresentadas pela imprensa, os cultos e celebrações religiosas, a cultura e suas representações burguesas, tudo isso, e muito mais, nunca foram vistos como formas por onde a ideologia dominante sempre penetraram e conformaram a maneira de viver das pessoas. Suas aceitações da miséria e a passividade diante dela se justificavam à espera de milagres ou que pela fé essa situação pudesse se reverter. Jamais essas pessoas inserem em seus objetivos lutar para destituir do poder os que lhes oprimem e reverter um modelo de sociedade profundamente desigual e absurdamente injusta.
Qualquer tentativa de construir cenários pós-pandemia necessariamente tem que levar em conta a maneira como essas pessoas se comportam e aceitam seus “sacrifícios”, pretensamente definidas por uma divindade que define os seus eleitos, a partir da dimensão de sua fé.
Lendo a história da rebelião dos escravos, antes da era cristã, no ótimo livro de Howard Fast,[i] construo o raciocínio (embora historiador não deva trabalhar com suposições, mas o faço para justificar meus argumentos) que Jesus se tornou a liderança que alimentou um exército de seguidores, de crescimento exponencial, porque um século antes dele despontar, Spartacus foi derrotado. A rebelião espetacular que levantou centenas de milhares de escravos e foi a duras custas derrotada pelo poderio romano, poderia ter alterado os rumos da humanidade. Mas, da necessidade de se libertar pela força de suas lutas e no enfrentamento com os opressores, em busca da liberdade, prevaleceu após a crucificação de Spartacus um outro caminho. Tempos depois a ideologia pregada, embora na defesa dos fracos e oprimidos, definia-se que se devia “dar a César o que é de César”, ou que era preciso oferecer a outra face ao ser agredido, em vez de reagir na mesma dimensão.[ii]
A história vai demonstrar como se deu o transcurso do tempo em que essa ideologia se impôs, após ser absorvida pelos imperadores, que espertamente se converteram ao cristianismo e impuseram a obrigatoriedade de que todos os seus súditos também o fizessem. Assim, de uma filosofia libertária, embora defensora da reação pacífica, o cristianismo se transformou em religião oficial com a decadência do Império Romano, momento em que as religiões politeístas e as divindades pagãs foram atacadas e destruídas. Dominou a Idade Média de forma contundente, controlando por meio de disciplinas rígidas e pelo medo uma população que vivia em situação caótica e desprovida de proteção de mecanismos estatais, até se ver em meio a uma forte disputa que se transformou em um grande cisma, dividindo-se em cristãos católicos e evangélicos.

A IDEOLOGIA CRISTÃ E A ACOMODAÇÃO SOCIAL

A ideologia cristã evangélica, foi representada a partir da elaboração de teses que foram afixadas às portas das igrejas católicas, confrontando o poder abusivo, a corrupção e o enriquecimento do alto clero católico. Ao enfraquecer o poder da igreja com esses ataques, e com a divisão que se concretizou, Martinho Lutero construiu outro caminho para os que queriam crer no deus cristão sem o controle de um alto clero corrompido. Mas esse outro caminho também se deparou com essas vaidades e com a submissão ao poder da nobreza. Lutero se aliou aos príncipes alemães na primeira revolta que despontou, com os camponeses à frente lutando contra a opressão em que viviam. Na guerra que se seguiu ele ficou ao lado dos príncipes, defendendo que os camponeses deveriam ser eliminados como cães.
Mas se deu nesse momento o começo da divisão que não pararia mais, e só cresceria entre essa nova vertente do cristianismo. Thomas Munzer rompe com Lutero e torna-se ferrenho defensor das revoltas camponesas, a liderando inclusive. Dessa divisão surgiu os anabatistas, em contraposição ao luteranismo. Logo depois João Calvino se integrou nesse movimento disseminando pela Europa valores que passaram a ser incorporados pela burguesia emergente e que nortearam os princípios do capitalismo. Principalmente porque não via pecado na acumulação de riqueza, mas desígnio divino, e que os ricos não deveriam se envergonhar dessa condição, estando aos demais se esforçarem pelo trabalho para ascenderem socialmente. A fé seria o mecanismo pelo qual cada um deveria entregar-se à adoração cristã, e os que conseguissem sucesso isso se deveria ao esforço individual e à escolha feita por Deus.
Figura que representou o Destino
Manifesto - Séc. XIX
A partir desse movimento inicial o protestantismo se espalhou por toda a Europa, dando origem a um grande número de outras correntes cristãs de origem evangélica. A crise econômica no Reino Unido, gerado pela segunda onda da peste bubônica, no século XVII, e após o grande incêndio que devastou Londres, acentuou as diferenças entre algumas dessas correntes. A dominante na Inglaterra era a Anglicana, criada praticamente como uma religião de Estado, em função do rompimento de Henrique VIII com o catolicismo, por questões de fórum íntimo. Boa parte da população pobre foi enviada para a América, em navios bancados pelo governo britânico.
Como resultado desse processo vamos ver a disseminação pela América, a partir dos EUA da influência de novas correntes, minoritárias na Europa, mas que irão se consolidar no continente americano: pentecostais, adventistas, mórmons, testemunhas de Jeová, metodistas, batistas e puritanos, dentre outras denominações religiosas, que se expandiram e constituíram um forte poder nacional com o chamado “Destino Manifesto”, pelo qual esse país estava designado por Deus para comandar o destino da América . E a partir do final do século XX, a influência crescente dos neopentecostais, inflados estrategicamente no interesse dos EUA em combater a teologia da libertação e o movimento de forte penetração popular exercido pelas comunidades eclesiais de base.[iii]
A Igreja Católica se refez do cisma que gerou o protestantismo e a enfraqueceu, pelo menos em termos quantitativos de seguidores, por alguns países europeus. Manteve sua influência na Itália, Espanha e Portugal. Na Grécia e Rússia uma nova divisão gerou a Igreja Católica Ortodoxa. Mas o movimento que levou ao seu ressurgimento foi escorado em linhas de caráter contemplativo e de rejeição à riqueza. Cumpriu papel importante as correntes franciscanas e os jesuítas, que comungavam praticamente dos mesmos valores. E foram essas correntes católicas, inspiradas na veneração à pobreza por Francisco de Assis, e no caráter missionário da Companhia de Jesus, que se deu a maior influência no que se denominou chamar de Novo Mundo: a América. Embora na última década tenha vigorado um pensamento católico conservador, com o fortalecimento de segmentos que usam práticas semelhantes aos evangélicos, como a corrente mais forte nesse aspecto, a carismática, e outros ultraconservadores a ponto de se oporem a certas ações do próprio papa Francisco, que tem adotado discursos que se contrapõem à lógica gananciosa capitalista.
Enfim, qualquer discussão sobre ideologia não pode menosprezar esses movimentos e como a história das religiões explicam a forma como foram se dando o processo de transformação das sociedades modernas. E podemos incluir nisso a influência e o crescimento exponencial do islamismo, na configuração das sociedades orientais, ou do hinduísmo e budismo em grandes populações asiáticas. Mas não é esse o caso, embora ilustre bem como as religiões se tornaram fatores de disseminação de ideologias que serão apropriadas pelos detentores do poder, notadamente por aqueles que avidamente disputavam as riquezas.
Ou seja, se quisermos compreender por quais caminhos, ou cenários, podemos seguir no pós-pandemia, o melhor que fazemos é olhar para o passado. “A história é um profeta com o olhar voltado para trás. Pelo que foi e contra o que foi, anuncia o que será” (Eduardo Galeano). O que aconteceu em épocas passadas após situações de caos atingirem as sociedades? Sobre quais suportes as pessoas se sustentaram para superarem as adversidades? É essencial conhecermos esses processos, para nos ensinar como superar o momento crítico em que estamos.

UM MUNDO PÓS-PANDEMIA OU PÓS-CAPITALISMO?

Mas em direção a que futuro? O que temos hoje como presente pode ser visto como o futuro pensado lá atrás, em circunstâncias parecidas, de crise e de caos? Se chegamos até aqui, com uma sociedade desigual, com dois terços das pessoas vivendo em condições de pobreza e um desiquilíbrio social vergonhoso, foi porque a forma como saímos dessas crises não se fundamentaram em perspectivas que fossem solidárias e coletivistas.
O que podemos encontrar em um mundo devastado? Seja em temos de guerra, de grave crise econômica ou em meio a uma pandemia, cuja doença não pode ser contida por medicamentos? Desespero, medo, descontrole social, agonia e sofrimento. Esse cenário, que é o atual, nos leva em direção ao aprisionamento doutrinário que as religiões comandam. Não à toa que houve toda uma pressão para que as igrejas não fechassem durante a pandemia. Haverá a corrida na disputa pelos desesperados. E a fé, convenhamos, constitui-se em um bálsamo em meio a situações desesperadoras, de perdas de entes queridos e falta de perspectivas para as pessoas.
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Por outro lado, aqueles que controlam os meios de produção e definem os caminhos por onde seguirá a economia, irão desesperadamente recuperar seu poder de riqueza. Já que não estão acostumados a ver escaparem por meio de seus dedos uma quantidade tão grande de ativos, de ações desvalorizadas e de redução de seus lucros. A fé no dinheiro soma-se aquela esbravejada nos templos, e conduzirão os rebanhos, em metáforas bíblicas, seus carneiros e ovelhas, sempre cordatos, pelos mesmos caminhos de aceitação das desgraças como desígnios divinos, tendo os sacrifícios como provação aos que têm fé. Como sempre, poucos serão os ungidos.
Evitar esse caminho não é fácil, mas é o cenário mais provável. Resta no entanto apostar na construção de meios que nos levem a romper com esses mecanismos, o que não necessariamente significa tornar-se ateus, mas reforçar o poder das comunidades, por alternativas solidárias e através da cooperação construir alternativas, que, inclusive, se contraponha a estrutura gananciosa de um sistema capitalista absolutamente perverso, e de combate a políticas perversas que obstruem qualquer caminho que não seja o determinado por uma lógica insana e individualista. Esse caminho inevitavelmente levará ao descontrole social.
É necessário tornar usual palavras como resiliência, solidariedade, comunidade, comum união. Se observarmos o comportamento deste governo que nos deixa apreensivos quanto ao que será o futuro desse país, veremos que suas ações se contrapõem ao que significam essas palavras. O atual presidente e seus seguidores, inclusive os que gritam dos púlpitos de templos acintosamente e estupidamente, de igrejas que pregam vidas em bolhas somente com aqueles que ali frequentam, possuem comportamentos centrados no ódio, no distanciamento da sociedade, na frieza dos relacionamentos e na insensibilidade com as pessoas mais vulneráveis. Por isso esse governo tem como estratégia principal a desunião. Não visa uma união nacional, não deseja o fortalecimento do país e o respeito à suas diferenças e diversidades.
O cenário mais provável do que virá pela frente não será muito diferente em termos ideológicos do que estamos deixando para trás. Poderá ser pior, porque em meio a um caos e uma enorme crise econômica, com milhões de desempregados, provavelmente com um percentual que chegará a um terço da população.
Como vejo o mundo hoje, e analiso o passado, me resta enfatizar a necessidade de buscarmos fortalecer os mecanismos que venham a aglutinar as pessoas vulneráveis, oprimidas, desempregados, enfim, principalmente aqueles que vivem nas periferias das grandes cidades. Em um forte movimento que garanta a essas pessoas terem à sua disposição entidades que lhes deem voz e a exigirem a presença do Estado em ações que lhes protejam, por direito. Para que possam lutar por esses direitos que mesmo antes da pandemia já estavam sendo destruídos e retirados. E a partir dessas organizações focar na busca por outro mundo, outra globalização, outra mundialização, em que a solidariedade, a cooperação e o bem comum, seja o objetivo alcançável, e que garanta à essas pessoas mesmo que em condições miseráveis de vida um sentimento de autoconfiança, de percepção da realidade e de possibilidade de adquirir capacidade crítica para compreenderem que o mundo em que vivemos é movido pela luta de classes. E somente sua organização e senso de comunidade garantirá conquistar esse novo mundo. Para além da pandemia do Covid19 e do capitalismo.



NOTAS:

[i] FAST, Howard. Spartacus. São Paulo: Círculo do Livro, 1979.
[ii] Aqui refiro-me à construção do mundo ocidental. O Império Romano do Oriente, e, principalmente após a sua queda, tomou outra direção e seguiu outros preceitos religiosos fundados no islamismo, cuja ideologia indicava reação diferente às agressões sofridas: olho por olho, dente por dente.
[iii] LIMA, Décio Monteiro de. Os demônios descem do Norte. Rio de Janeiro: Editora Francisco Alves, 1991.
Leitura complementar:
CAMPOS FILHO, R. (2020). A peste, a gripe espanhola e a covid19 – geografizando as pandemias pelo mundo. Élisée - Revista De Geografia Da UEG, 9(1), e912014. Recuperado de https://www.revista.ueg.br/index.php/elisee/article/view/10301

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

O DESPERTAR DAS BESTAS... (2ª PARTE)


Em 2016 publiquei um artigo aqui neste blog,[i] em que analisei o quadro político daquele momento, as instabilidades geopolíticas e tracei um desenrolar dos acontecimentos em direção a uma situação sombria para os anos seguintes. Procurei entender como a direita ascendeu tão rapidamente e os mecanismos adotados para aplicar o golpe e levar ao Poder a figura nefasta de Michel Temer. Mas também já havia identificado, e coloco isso no artigo, os movimentos trilhados por um personagem que por muito tempo, inclusive nos governos da esquerda, transitou livremente, adotando comportamentos fascistas e provocando com discursos e gestos as ações que eram feitas para resgatar a história pérfida de torturadores e criminosos durante a ditadura militar brasileira
O gabinete dessa figura torpe era a comprovação de que ali se instalava mais do que um indivíduo provocador, mas um elemento altamente nocivo para a democracia, que deveria ter sido cassado por seu comportamento. Lembro de ver, não somente em foto, mas percorrendo os corredores do Anexo IV da Câmara dos Deputados, um gabinete em que ostentava não somente a imagem dos ditadores militares brasileiros, como também ofendia os militantes de esquerda assassinados naqueles tempos tenebrosos. E um cartaz causava náusea, indicando provocativamente que quem procura osso é cachorro, numa relação ofensiva e macabra com os familiares dos militantes que procuravam resposta para os restos mortais daqueles que foram torturados e assassinados no combate ao movimento guerrilheiro do Araguaia.
Nada foi feito contra esse indivíduo, e ele se fortaleceu na medida em que se enraizava um ódio construído pela grande mídia contra o governo Dilma e o receio que depois dela viesse mais dois governos Lula. Deixar impune um defensor do fascismo e de torturadores, foi um erro imperdoável. Outro foi acreditar em uma possível redenção da burguesia urbana e dos latifundiários, e a aceitação da permanência da esquerda no Poder por quanto tempo a “democracia” permitisse. A elite, a burguesia rural e urbana, os “bem-nascidos”, não são democratas, a não ser nos limites permitidos pela “democracia capitalista”, logicamente desde que o Poder político não se afaste de suas mãos por não mais do que duas eleições. Mais do que isso os golpes são tradição que jamais deveriam ter sido negligenciados pela esquerda.
Mas, embora de relance eu tenha observado um movimento que se encaminhava para a periferia e já estava consolidado na classe média, a expansão do neopentecostalismo evangélico, não consegui observar atentamente e descobrir a dimensão do que estava acontecendo. Em relação à classe média sim, era nítido e perceptível pelos grandes templos luxuosos evangélicos construídos em bairros nobres das capitais.
No entanto, a disseminação de pequenas igrejas, iniciadas como “células” (ironicamente o adjetivo/substantivo que dávamos às nossas organizações de base quando atuávamos no movimento estudantil e militávamos clandestinamente) em alguns casos, ou como consequência das dissenções que ocorrem com frequência nesses grupos que faziam com que se espalhassem pelas periferias. Registre-se que de certa forma empoderadas politicamente, já que muitos de seus pastores-líderes, ou a cúpula que dominava o movimento evangélico, e se organizam em diversas associações, apoiaram ou fizeram parte dos governos da esquerda e após o golpe se tornaram mais fortes ainda, já que se tornaram base importante para derrubar a presidenta Dilma Roussef.
A conversão oportunista de Bolsonaro, justamente naquele ano de 2016, representava então uma estratégia adotada por integrantes do PSC – Partido Social Cristão, principalmente o pastor Everaldo, que havia sido candidato à presidência da República. Mas o perfil de Bolsonaro não indicava nenhuma fidelidade a este ou aquele líder evangélico, ele transitaria por todas as igrejas dessa linha cristã, e soube se aproveitar bem da cegueira de seus fiéis para despejar seu ódio ao sabor das disputas bíblicas, mas unindo “hebreus, filisteus, fariseus e seduceus” (me sirvo aqui de metáforas, naturalmente). Conseguindo até nessa loucura pérfida cristã, pelo discurso reacionário, ultrajante e odiento que representa o “mito”, envolver os grupos mais conservadores da igreja católica, dentre os quais o mais importante: renovação carismática católica.
Mas, o uso do adjetivo no primeiro artigo individualizava o termo, e tinha somente um único sentido, aquele dado na identificação religiosa com o “coisa ruim”. Besta no imaginário cristão é a representação demoníaca. Mas neste eu insiro o plural a fim de ampliar o seu sentido, principalmente depois do efeito manada na última eleição, com a surpreendente escolha eleitoral por um indivíduo cujo comportamento e discurso é completamente oposto ao sentido que sempre foi dado pelo cristianismo. Neste caso, o sentido de “besta” se enquadra também no adjetivo muito usado em diversas regiões do Brasil, identificando as pessoas tolas, bocós, ignorantes, e... estúpidas.
No quadro de uma população majoritariamente alienada e desprovida de senso crítico (algo que os governos de esquerda não se preocuparam em alterar, já que o olhar para a educação reproduziu o viés neoliberal que se espalhava pelo mundo e aportou aqui celeremente, anestesiando uma nova geração de doutores, igualmente alienados) a estratégia da falsificação da notícia e a repetição de frases tolas e estúpidas que reproduzem o que secularmente a cultura dominante impôs, por meio de discursos machistas, homofóbicos, misóginos e preconceituosos, comportamentos que se disseminaram rapidamente (porque era o olhar do espelho), se acelerando pela força dos púlpitos que se espalharam incentivados pelas políticas e pelo dinheiro dos EUA, dentro dos interesses geoestratégicos de combater o avanço da igreja progressista, identificada nas comunidades eclesiais de base. Essa corrente foi sufocada no final dos anos 1980 ao mesmo tempo em que crescia a influência e a força das igrejas pentecostais, depois das neopentecostais, no Brasil e na América Latina[2].
Esse público, “fiel”, se tornaria a base ideal para a ascensão de um candidato bufão. A estratégia foi a mesma adotada nos EUA, com Donald Trump, de perfil parecido, mas em um nível de estupidez mais sofisticado. E no Brexit, plebiscito que aprovou a saída da Grã-Bretanha da União Européia, e permitiu a ascensão de outro indivíduo que fica numa espécie de síntese desses dois primeiros, Bolsonaro e Trump: Boris Johnson.
O estrategista foi o mesmo, Steve Bannon, estrategista-chefe da Casa Branca e conselheiro de Trump. Sua aposta sempre foi a criação de fake news, facilmente assimilada por um público estúpido, avesso à política, com a exploração dos limites possíveis de estupidez existente em uma camada da população, com nítida deficiência intelectual e de compreensão da realidade em toda a sua dimensão. Isso pode ser atestado em um documentário disponível para acesso na internet, numa produção independente mostrada pela Globonews[3].
Mas essa estratégia se adequou também a uma realidade gerada por uma crise econômica sistêmica, estrutural, que afetou a economia de praticamente todos os países do mundo, gerando uma reação de comportamento, aversão à política, desânimo com as instituições e revolta contra tudo que representasse as crenças alimentadas por longos anos que demonizava o Estado. O neoliberalismo, que houvera destruído o estado de bem-estar social, por suas políticas de abrir o mercado para o livre trânsito das corporações e eliminar os mecanismos de defesa das camadas socialmente mais vulneráveis, de repente alimenta nessas pessoas o ódio àquilo que essa política econômica ajudara a enfraquecer.
O sintoma dessa nova realidade, absurda, porque foge do concreto e se prende em abstração, passou a ser denominada de “pós-verdade”. As pessoas, incapazes de compreender as contradições que as cercam, passam a acreditar naquilo que desejam, e direcionam suas revoltas não contra os causadores dos problemas, mas para as consequências dessas situações geradas pelas perversões dessas políticas. Paradoxalmente esse movimento, basicamente da classe média e de parte da população pobre que ascendera socialmente, se volta contra as políticas desenvolvidas por governos progressistas para amenizar a destruição neoliberal, embora usando em parte esse remédio nocivo. E abre caminho para que as estratégias da extrema-direita se encaixassem facilmente num ambiente de perplexidade, apreensão, medo e revolta, mas tudo isso potencializado e alimentado por corporações midiáticas, aliadas aos segmentos mais oportunistas da burguesia, que fomentaram essas insatisfações e a direcionaram contra os governos de esquerda, principalmente na América Latina.
Claro que no Brasil, especificamente, o tiro saiu pela culatra. Os artífices do golpe, capitaneados pelos tucanos (PSDB), imaginavam retomar o controle do Poder, e confiaram isso a uma figura decrépita moralmente, também presidente desse partido, que disparou a senha para desconsiderar o resultado da eleição de 2014. Primeiro sofreram uma rasteira do PMDB, e em seguida, como consequência de toda a propaganda midiática antipolítica, defenestrando a esquerda, culminou com uma polarização entre o PT e a figura nefasta que captara bem, por meio de uma assessoria não somente de Bannon, mas também de uma malta de figuras perversas, odientas e oportunistas, encravadas nos púlpitos de algumas igrejas evangélicas, mas que de algum tempo já tomavam espaços em outro templo, outrora representante da democracia, o Congresso Nacional.
O antipetismo foi mais forte do que o “ele não”. No meio do caminho, numa atitude tosca e irresponsável, um indivíduo, por meio de uma facada, definiu a eleição de um personagem que não tinha tempo na televisão, não aparecia nos debates e quando convidado pelas TVs agia grotescamente, acusando sem provas e ostentando bravatas irresponsáveis.
A aceitação desse discurso por meio de uma massa inebriada, conduzida pelo conservadorismo evangélico e pelo que de pior existe na política, um movimento fascista, praticamente neonazista, deu suporte para ações viscerais na destruição de conquistas históricas dos direitos dos trabalhadores, das populações pobres, das comunidades fragilizadas e historicamente destruídas em suas tradições e reduzidas pelas ações rapaces de grileiros e marginais que vestem ternos, usam togas e escondem-se por detrás de impunidades piores do que aquelas imputadas aos políticos acusados de corrupção.
Somente um tipo de corrupção tornou-se alvo, aquela praticada por um mecanismo que por décadas foi aceito e passado em branco pela justiça eleitoral: o caixa 2, e suas consequências, por meio do beneficiamento a empresas que financiavam as eleições. Mas a corrupção disseminada por outros setores, polícia, judiciário e até mesmo nos costumes, foi naturalizada pela população, que a vê com menos importância, até mesmo porque se serve dela em alguns momentos.
Esse ambiente criado é absolutamente refratário a mudanças rápidas. Estamos num dilema que necessariamente impõe preocupações para além das lutas eleitorais imediatas, porque essas prosseguirão contaminadas por essa polarização e pelo uso e abuso da incapacidade cognitiva de boa parte da população. Aliás, a luta eleitoral só acentua a polarização e, consequentemente, cria uma espécie de blindagem mental, que dificulta a essas pessoas perceberem o abismo enorme que elas têm pela frente.
A conjuntura política, ao contrário do que possa parecer quando analisamos o erro de cálculo da direita e centro-direita, não é hostil à burguesia e aos latifundiários. Pelo contrário. O ambiente de anestesia que se abateu sobre a sociedade e atingiu até mesmo os segmentos organizados, tem facilitado o desmonte acelerado das estruturas de proteção social inseridas por meio de muita luta por longos anos. Isso tem sido feito numa rapidez impressionante, por meio de um rolo compressor de um congresso majoritariamente conservador, com bancadas perversas como as da “bala, da bíblia e do boi”, que agem nas áreas estratégicas, de segurança, da produção agrícola e dos costumes, inserindo aí um forte ataque à cultura e à educação, com desmonte impressionante de segmentos que são responsáveis por consolidar saber e defender valores culturais que são formadores de nossa identidade nacional.
Mais do que pensar em disputar eleições, embora isso seja essencial para mudar principalmente a correlação de forças nos parlamentos, o que é preciso, necessário e urgente, é retomar o protagonismo que está nas mãos das igrejas, seja por meio de pastores evangélicos e do clero católico conservador, e procurar incutir nas mentes das camadas mais desprotegidas e vulneráveis, os trabalhadores, que estão vendo seu direitos serem retirados, e a população da periferia, que imaginam pela fé, construir algo de bom em suas situações econômicas. Uma ilusão de quem desconhece os mecanismos de funcionamento do capitalismo, principalmente agora, neste momento de transição, em que uma transformação tecnológica impõe uma ampliação da destruição de empregos, como consequência do uso de inteligência artificial e da robotização crescente da força de trabalho.
A organização e conscientização dessa massa alienada é algo bastante difícil, levará tempo, mas contará com a situação de desespero que tende a se acentuar, na medida em que essas mudanças aplicadas contra os trabalhadores começarem a serem sentidas no dia a dia, que transformará o cotidiano dessas pessoas, principalmente dos mais jovens, em um verdadeiro inferno aqui na terra. Isso é inevitável, mas cabe as forças progressista se anteciparem e construírem os bunkers para se defenderem dos ataques da extrema-direita, mas sem se colocarem somente numa posição defensiva, procurando construir táticas de ações ofensivas. Possíveis com arma da organização e da conscientização política desses segmentos. Talvez a Venezuela nos ajude a entender como fazer para resistir, ofensivamente, à escalada de destruição da democracia que parte dos demônios do Norte.
Creio ter me alongado, mas esse ambiente tóxico, de perversão e de mudança rápida de conjuntura, nos obriga a ir bem a fundo na compreensão das causas (é preciso saber onde erramos, e porque erramos), na dimensão do problema e na necessária indicação de que é preciso planejar uma forte reação às investidas que estão destruindo e consumindo a sociedade brasileira, incluídos aí povos originários e comunidades tradicionais, principais alvos dessas perversões, pela cobiça das riquezas que existem em suas terras.



NOTAS:
[2] LIMA, Décio Monteiro de. Os demônios descem do Norte. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1987. https://issuu.com/juliocesarpedrosa/docs/delcio-de-lima-os-demonios-descem-d
[3]Fake News – Baseado em fatos reais -  https://vimeo.com/239115794