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quarta-feira, 10 de março de 2021

O MILITAR NÃO FAZ SUA PARTE

Por Manuel Domingos Neto*

10.03.2021

Foto: Nelson Almeida_AFP

Todos ligados na incompetência do militar na pandemia. E quanto à defesa armada do Brasil?

O país precisa, pode e deve dispor de instituições militares com missões definidas, apropriadamente equipadas e obedientes ao princípio de que todo o poder emana do povo e só em seu nome pode ser exercido.

Nunca dispusemos de corporações assim. A disjunção entre o Estado e a sociedade não permitiu. O Estado nasceu obediente a um príncipe português e não superou sua índole vassala. Foi capturado por oligarquias e estamentos que promoveram o desenvolvimento socialmente excludente.

Descolado dos anseios da maioria, o Estado se expôs aos instrumentos de força que criou para se proteger. O militar empenhou-se em ditar-lhe os rumos. O Exército, deslumbrado com a própria força, imaginou-se até fundador da nação, também chamada de pátria, que deriva de “terra dos pais”.

O militar não entendeu que pátria é elaboração simbólica coletiva. Emerge de confrontações e negociações entre variados atores. Não resulta de deliberações corporativas. Outorgando-se a paternidade da pátria, o militar menospreza a sociedade e avilta o Estado. Da janela do quartel, só vê qualidade no “paisano” que o corteje.

O militar precisa contribuir para a defesa do Brasil. Não pode, usando artificiosos expedientes, pretender papel que não lhe cabe. Sem perder a mania de mandar em tudo e de policiar brasileiros não faz sua parte.

Para o Brasil se defender, é fundamental distinguir os “assuntos da defesa” e os “assuntos militares”. Os primeiros compreendem vasto e intrincado rol de políticas públicas; os segundos dizem respeito a estruturação, funcionamento e manejo das corporações armadas. O militar deve subordinar-se aos ditames do Estado, não pretender conduzi-lo.

Apenas o Estado, entendido como um pacto entre interesses conflitantes, tem autoridade e capacidade para conceber e conduzir assuntos de defesa. Percepções e vontades corporativas não traduzem os interesses do Estado e da sociedade. Ao poder político cumpre definir as forças armadas necessárias ao Brasil.

Dispomos de ministério específico para tratar dos assuntos da defesa. Ministérios são braços executivos do poder político. Do contrário, prevaricam. Expressando dilemas existenciais e gana de mando, o militar, por ignorância ou má fé, pretende que esse ministério lhe “represente”.

Foto: outraspalavras.net

Comandante prepara a tropa para atender ao mando político. Arrebatando o lugar do político, subverte a ordem democrática e deixa o país vulnerável.

Para dispormos de defesa nacional, a primeira condição é promover a coesão entre os brasileiros. Quanto mais fragmentados por iniquidades, mais vulneráveis seremos. Divididos por preconceitos e discriminações, não teremos a defesa de que precisamos. 

Potências estrangeiras procuram sabotar nossa coesão estimulando a percepção de “inimigos internos”. Assim fizeram os franceses que modernizaram o Exército na primeira metade do século XX e os estadunidenses ao longo da guerra fria. Assim ocorre hoje quando defensores da inclusão social são tratados como inimigos.

Quem rejeita mudanças sociais de premência indiscutível trai a pátria. Apresenta-se como defensor de “tradições” sabendo que há tradições e valores que são cadáveres insepultos.

O militar que só tem olhos para a ordem interna parou no tempo colonial. É um anacrônico. Não percebe a pátria como uma sociedade em mudança permanente, unificada pelo sonho de uma vida melhor para todos. A pátria é antes de tudo uma poderosa e imaginária comunhão de destino. Sacrossanta, não aceita registro de nascimento em cartório, mas na alma comunitária. Como disse Ernest Renan há mais de um século, é uma opção cotidiana. Castrense vive apartado, não capta suas pulsações. Quando ávido de butins, atravessa o Rubicão fantasiado de patriota.

Caçador de “inimigos internos”, o militar desrespeita a sociedade e subverte o Estado. O patriotismo castrense é mesquinho, nega solidariedade aos mais sofridos. Alimenta guerra sem fim contra quem lhe garante o soldo.

A segunda condição para a defesa do Brasil é o cultivo da amizade com os vizinhos. Sólida coesão da América do Sul e laços estreitos com a África Ocidental constituem barreiras contra as pretensões de agressores poderosos. Os potenciais inimigos do Brasil sabem disso, daí alimentarem falsas rivalidades entre nações condenadas à irmandade.

Para justificar sua existência e obter recursos públicos, o militar vê nossos vizinhos como inimigos perigosos. Assim, sabota uma das condições essenciais à defesa do Brasil.

Exemplo pouco conhecido de sabotagem da integração sul-americana foi o trabalho do general Maurice Gamelin, um francês que o Brasil contratou a peso de ouro, em 1919, para modernizar o Exército. Habilidoso vendedor de armas (adorava nos empurrar sucatas), esse general preparou o militar brasileiro para guerrear contra nossos vizinhos, em particular contra a Argentina, que recebia armamento alemão.

Essa rivalidade fabricada começou a ser desfeita no final do século passado, quando as ditaduras militares foram derrotadas. Iniciando a construção da vizinhança fraterna, o político cuidou da defesa. Hoje, ocupando o governo, o militar destroça num piscar de olhos o trabalho realizado.

A terceira condição para nossa defesa é o estabelecimento de sólidas parcerias estratégicas que nos ofereçam o máximo de soberania. Estas parcerias são aquelas que não se desfazem ao sabor de circunstâncias fortuitas. Parceiros estratégicos firmam colaboração favorecedora de seus respectivos interesses.

Os Estados Unidos sempre obstaram tais parcerias. A lista de casos é infindável, mas caberia lembrar o boicote ao domínio da tecnologia nuclear, da exploração do petróleo e do programa espacial.

Quando a perspectiva de multipolaridade surgiu no horizonte, o militar se empenhou em favorecer um governo vassalo de Washington. Agiu contra a defesa do Brasil.

Outra condição irrecorrível para a nossa defesa é a mobilização e a articulação eficiente das capacidades nacionais.

Instituições dedicadas à pesquisa científica e à inovação tecnológica são indispensáveis à defesa. A comunidade acadêmica é componente de máxima valia. O sequestro de cérebros alemães no pós-guerra mostra bem isso. Sem cientistas, permaneceremos na eterna dependência dos produtores de armas e equipamentos. Hoje, não podemos agir militarmente sem o aval do fornecedor de armas e equipamentos. Quem elege o mundo acadêmico como inimigo trai o Brasil.

Empresas públicas e privadas competentes para desenvolver projetos de alta complexidade e grande porte constituem elementos fundamentais do aparato de defesa nacional. O estrangeiro cobiçoso alegrou-se com o desmonte injustificável de empresas brasileiras indispensáveis à estratégia de defesa.

Foto: Diário do Centro do Mundo (DCM)

A destruição de nossa diplomacia é outro crime inominável. O mesmo se pode dizer das instituições responsáveis por políticas públicas de proteção do meio ambiente e da sociedade. A pandemia que destrói vidas brasileiras revela o quanto estas instituições são indispensáveis para nossa comunidade. 

Militar que desmonta instituições públicas desserve a pátria. Não cabe apenas deter Bolsonaro. Para a defesa do Brasil, é preciso um basta no ativismo deletério do político castrense.


* Doutor em História pela Universidade de Paris. Ex-presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED). Foi vice-presidente do CNPq.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

O DESPERTAR DAS BESTAS... (2ª PARTE)


Em 2016 publiquei um artigo aqui neste blog,[i] em que analisei o quadro político daquele momento, as instabilidades geopolíticas e tracei um desenrolar dos acontecimentos em direção a uma situação sombria para os anos seguintes. Procurei entender como a direita ascendeu tão rapidamente e os mecanismos adotados para aplicar o golpe e levar ao Poder a figura nefasta de Michel Temer. Mas também já havia identificado, e coloco isso no artigo, os movimentos trilhados por um personagem que por muito tempo, inclusive nos governos da esquerda, transitou livremente, adotando comportamentos fascistas e provocando com discursos e gestos as ações que eram feitas para resgatar a história pérfida de torturadores e criminosos durante a ditadura militar brasileira
O gabinete dessa figura torpe era a comprovação de que ali se instalava mais do que um indivíduo provocador, mas um elemento altamente nocivo para a democracia, que deveria ter sido cassado por seu comportamento. Lembro de ver, não somente em foto, mas percorrendo os corredores do Anexo IV da Câmara dos Deputados, um gabinete em que ostentava não somente a imagem dos ditadores militares brasileiros, como também ofendia os militantes de esquerda assassinados naqueles tempos tenebrosos. E um cartaz causava náusea, indicando provocativamente que quem procura osso é cachorro, numa relação ofensiva e macabra com os familiares dos militantes que procuravam resposta para os restos mortais daqueles que foram torturados e assassinados no combate ao movimento guerrilheiro do Araguaia.
Nada foi feito contra esse indivíduo, e ele se fortaleceu na medida em que se enraizava um ódio construído pela grande mídia contra o governo Dilma e o receio que depois dela viesse mais dois governos Lula. Deixar impune um defensor do fascismo e de torturadores, foi um erro imperdoável. Outro foi acreditar em uma possível redenção da burguesia urbana e dos latifundiários, e a aceitação da permanência da esquerda no Poder por quanto tempo a “democracia” permitisse. A elite, a burguesia rural e urbana, os “bem-nascidos”, não são democratas, a não ser nos limites permitidos pela “democracia capitalista”, logicamente desde que o Poder político não se afaste de suas mãos por não mais do que duas eleições. Mais do que isso os golpes são tradição que jamais deveriam ter sido negligenciados pela esquerda.
Mas, embora de relance eu tenha observado um movimento que se encaminhava para a periferia e já estava consolidado na classe média, a expansão do neopentecostalismo evangélico, não consegui observar atentamente e descobrir a dimensão do que estava acontecendo. Em relação à classe média sim, era nítido e perceptível pelos grandes templos luxuosos evangélicos construídos em bairros nobres das capitais.
No entanto, a disseminação de pequenas igrejas, iniciadas como “células” (ironicamente o adjetivo/substantivo que dávamos às nossas organizações de base quando atuávamos no movimento estudantil e militávamos clandestinamente) em alguns casos, ou como consequência das dissenções que ocorrem com frequência nesses grupos que faziam com que se espalhassem pelas periferias. Registre-se que de certa forma empoderadas politicamente, já que muitos de seus pastores-líderes, ou a cúpula que dominava o movimento evangélico, e se organizam em diversas associações, apoiaram ou fizeram parte dos governos da esquerda e após o golpe se tornaram mais fortes ainda, já que se tornaram base importante para derrubar a presidenta Dilma Roussef.
A conversão oportunista de Bolsonaro, justamente naquele ano de 2016, representava então uma estratégia adotada por integrantes do PSC – Partido Social Cristão, principalmente o pastor Everaldo, que havia sido candidato à presidência da República. Mas o perfil de Bolsonaro não indicava nenhuma fidelidade a este ou aquele líder evangélico, ele transitaria por todas as igrejas dessa linha cristã, e soube se aproveitar bem da cegueira de seus fiéis para despejar seu ódio ao sabor das disputas bíblicas, mas unindo “hebreus, filisteus, fariseus e seduceus” (me sirvo aqui de metáforas, naturalmente). Conseguindo até nessa loucura pérfida cristã, pelo discurso reacionário, ultrajante e odiento que representa o “mito”, envolver os grupos mais conservadores da igreja católica, dentre os quais o mais importante: renovação carismática católica.
Mas, o uso do adjetivo no primeiro artigo individualizava o termo, e tinha somente um único sentido, aquele dado na identificação religiosa com o “coisa ruim”. Besta no imaginário cristão é a representação demoníaca. Mas neste eu insiro o plural a fim de ampliar o seu sentido, principalmente depois do efeito manada na última eleição, com a surpreendente escolha eleitoral por um indivíduo cujo comportamento e discurso é completamente oposto ao sentido que sempre foi dado pelo cristianismo. Neste caso, o sentido de “besta” se enquadra também no adjetivo muito usado em diversas regiões do Brasil, identificando as pessoas tolas, bocós, ignorantes, e... estúpidas.
No quadro de uma população majoritariamente alienada e desprovida de senso crítico (algo que os governos de esquerda não se preocuparam em alterar, já que o olhar para a educação reproduziu o viés neoliberal que se espalhava pelo mundo e aportou aqui celeremente, anestesiando uma nova geração de doutores, igualmente alienados) a estratégia da falsificação da notícia e a repetição de frases tolas e estúpidas que reproduzem o que secularmente a cultura dominante impôs, por meio de discursos machistas, homofóbicos, misóginos e preconceituosos, comportamentos que se disseminaram rapidamente (porque era o olhar do espelho), se acelerando pela força dos púlpitos que se espalharam incentivados pelas políticas e pelo dinheiro dos EUA, dentro dos interesses geoestratégicos de combater o avanço da igreja progressista, identificada nas comunidades eclesiais de base. Essa corrente foi sufocada no final dos anos 1980 ao mesmo tempo em que crescia a influência e a força das igrejas pentecostais, depois das neopentecostais, no Brasil e na América Latina[2].
Esse público, “fiel”, se tornaria a base ideal para a ascensão de um candidato bufão. A estratégia foi a mesma adotada nos EUA, com Donald Trump, de perfil parecido, mas em um nível de estupidez mais sofisticado. E no Brexit, plebiscito que aprovou a saída da Grã-Bretanha da União Européia, e permitiu a ascensão de outro indivíduo que fica numa espécie de síntese desses dois primeiros, Bolsonaro e Trump: Boris Johnson.
O estrategista foi o mesmo, Steve Bannon, estrategista-chefe da Casa Branca e conselheiro de Trump. Sua aposta sempre foi a criação de fake news, facilmente assimilada por um público estúpido, avesso à política, com a exploração dos limites possíveis de estupidez existente em uma camada da população, com nítida deficiência intelectual e de compreensão da realidade em toda a sua dimensão. Isso pode ser atestado em um documentário disponível para acesso na internet, numa produção independente mostrada pela Globonews[3].
Mas essa estratégia se adequou também a uma realidade gerada por uma crise econômica sistêmica, estrutural, que afetou a economia de praticamente todos os países do mundo, gerando uma reação de comportamento, aversão à política, desânimo com as instituições e revolta contra tudo que representasse as crenças alimentadas por longos anos que demonizava o Estado. O neoliberalismo, que houvera destruído o estado de bem-estar social, por suas políticas de abrir o mercado para o livre trânsito das corporações e eliminar os mecanismos de defesa das camadas socialmente mais vulneráveis, de repente alimenta nessas pessoas o ódio àquilo que essa política econômica ajudara a enfraquecer.
O sintoma dessa nova realidade, absurda, porque foge do concreto e se prende em abstração, passou a ser denominada de “pós-verdade”. As pessoas, incapazes de compreender as contradições que as cercam, passam a acreditar naquilo que desejam, e direcionam suas revoltas não contra os causadores dos problemas, mas para as consequências dessas situações geradas pelas perversões dessas políticas. Paradoxalmente esse movimento, basicamente da classe média e de parte da população pobre que ascendera socialmente, se volta contra as políticas desenvolvidas por governos progressistas para amenizar a destruição neoliberal, embora usando em parte esse remédio nocivo. E abre caminho para que as estratégias da extrema-direita se encaixassem facilmente num ambiente de perplexidade, apreensão, medo e revolta, mas tudo isso potencializado e alimentado por corporações midiáticas, aliadas aos segmentos mais oportunistas da burguesia, que fomentaram essas insatisfações e a direcionaram contra os governos de esquerda, principalmente na América Latina.
Claro que no Brasil, especificamente, o tiro saiu pela culatra. Os artífices do golpe, capitaneados pelos tucanos (PSDB), imaginavam retomar o controle do Poder, e confiaram isso a uma figura decrépita moralmente, também presidente desse partido, que disparou a senha para desconsiderar o resultado da eleição de 2014. Primeiro sofreram uma rasteira do PMDB, e em seguida, como consequência de toda a propaganda midiática antipolítica, defenestrando a esquerda, culminou com uma polarização entre o PT e a figura nefasta que captara bem, por meio de uma assessoria não somente de Bannon, mas também de uma malta de figuras perversas, odientas e oportunistas, encravadas nos púlpitos de algumas igrejas evangélicas, mas que de algum tempo já tomavam espaços em outro templo, outrora representante da democracia, o Congresso Nacional.
O antipetismo foi mais forte do que o “ele não”. No meio do caminho, numa atitude tosca e irresponsável, um indivíduo, por meio de uma facada, definiu a eleição de um personagem que não tinha tempo na televisão, não aparecia nos debates e quando convidado pelas TVs agia grotescamente, acusando sem provas e ostentando bravatas irresponsáveis.
A aceitação desse discurso por meio de uma massa inebriada, conduzida pelo conservadorismo evangélico e pelo que de pior existe na política, um movimento fascista, praticamente neonazista, deu suporte para ações viscerais na destruição de conquistas históricas dos direitos dos trabalhadores, das populações pobres, das comunidades fragilizadas e historicamente destruídas em suas tradições e reduzidas pelas ações rapaces de grileiros e marginais que vestem ternos, usam togas e escondem-se por detrás de impunidades piores do que aquelas imputadas aos políticos acusados de corrupção.
Somente um tipo de corrupção tornou-se alvo, aquela praticada por um mecanismo que por décadas foi aceito e passado em branco pela justiça eleitoral: o caixa 2, e suas consequências, por meio do beneficiamento a empresas que financiavam as eleições. Mas a corrupção disseminada por outros setores, polícia, judiciário e até mesmo nos costumes, foi naturalizada pela população, que a vê com menos importância, até mesmo porque se serve dela em alguns momentos.
Esse ambiente criado é absolutamente refratário a mudanças rápidas. Estamos num dilema que necessariamente impõe preocupações para além das lutas eleitorais imediatas, porque essas prosseguirão contaminadas por essa polarização e pelo uso e abuso da incapacidade cognitiva de boa parte da população. Aliás, a luta eleitoral só acentua a polarização e, consequentemente, cria uma espécie de blindagem mental, que dificulta a essas pessoas perceberem o abismo enorme que elas têm pela frente.
A conjuntura política, ao contrário do que possa parecer quando analisamos o erro de cálculo da direita e centro-direita, não é hostil à burguesia e aos latifundiários. Pelo contrário. O ambiente de anestesia que se abateu sobre a sociedade e atingiu até mesmo os segmentos organizados, tem facilitado o desmonte acelerado das estruturas de proteção social inseridas por meio de muita luta por longos anos. Isso tem sido feito numa rapidez impressionante, por meio de um rolo compressor de um congresso majoritariamente conservador, com bancadas perversas como as da “bala, da bíblia e do boi”, que agem nas áreas estratégicas, de segurança, da produção agrícola e dos costumes, inserindo aí um forte ataque à cultura e à educação, com desmonte impressionante de segmentos que são responsáveis por consolidar saber e defender valores culturais que são formadores de nossa identidade nacional.
Mais do que pensar em disputar eleições, embora isso seja essencial para mudar principalmente a correlação de forças nos parlamentos, o que é preciso, necessário e urgente, é retomar o protagonismo que está nas mãos das igrejas, seja por meio de pastores evangélicos e do clero católico conservador, e procurar incutir nas mentes das camadas mais desprotegidas e vulneráveis, os trabalhadores, que estão vendo seu direitos serem retirados, e a população da periferia, que imaginam pela fé, construir algo de bom em suas situações econômicas. Uma ilusão de quem desconhece os mecanismos de funcionamento do capitalismo, principalmente agora, neste momento de transição, em que uma transformação tecnológica impõe uma ampliação da destruição de empregos, como consequência do uso de inteligência artificial e da robotização crescente da força de trabalho.
A organização e conscientização dessa massa alienada é algo bastante difícil, levará tempo, mas contará com a situação de desespero que tende a se acentuar, na medida em que essas mudanças aplicadas contra os trabalhadores começarem a serem sentidas no dia a dia, que transformará o cotidiano dessas pessoas, principalmente dos mais jovens, em um verdadeiro inferno aqui na terra. Isso é inevitável, mas cabe as forças progressista se anteciparem e construírem os bunkers para se defenderem dos ataques da extrema-direita, mas sem se colocarem somente numa posição defensiva, procurando construir táticas de ações ofensivas. Possíveis com arma da organização e da conscientização política desses segmentos. Talvez a Venezuela nos ajude a entender como fazer para resistir, ofensivamente, à escalada de destruição da democracia que parte dos demônios do Norte.
Creio ter me alongado, mas esse ambiente tóxico, de perversão e de mudança rápida de conjuntura, nos obriga a ir bem a fundo na compreensão das causas (é preciso saber onde erramos, e porque erramos), na dimensão do problema e na necessária indicação de que é preciso planejar uma forte reação às investidas que estão destruindo e consumindo a sociedade brasileira, incluídos aí povos originários e comunidades tradicionais, principais alvos dessas perversões, pela cobiça das riquezas que existem em suas terras.



NOTAS:
[2] LIMA, Décio Monteiro de. Os demônios descem do Norte. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1987. https://issuu.com/juliocesarpedrosa/docs/delcio-de-lima-os-demonios-descem-d
[3]Fake News – Baseado em fatos reais -  https://vimeo.com/239115794


segunda-feira, 24 de julho de 2017

UMA VISÃO DA CRISE ATUAL - ENTREVISTA

Entrevista concedida ao Jornalista Renato Dias, do Diário da Manhã - Goiânia/GO, em julho de 2017. Uma tentativa de compreender a instabilidade política, social e econômica no momento atual. Publicado na edição de 22.07.2017 (https://impresso.dm.com.br/edicao/20170722/pagina/11). Edição integral.

Diário da Manhã - Michel Temer cai?
Romualdo Pessoa Campos Filho – É imprevisível. A votação no Congresso não será baseada em respeito às questões éticas. O jogo é de cartas marcadas, e o atual presidente, que assumiu o posto por meio de um golpe de estado jurídico-parlamentar, está fazendo de tudo para comprar votos que o mantenha no poder. Ele sabe que se perder o cargo será preso. Com esse jogo pesado de compra de votos, é difícil prever o resultado.
DM - Qual acusação teria maior peso: corrupção, formação de quadrilha ou obstrução da Justiça?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Creio que corrupção. Ela é que dá margem para que tudo a seguir seja feito para manter a estruturas por onde jorram os recursos ilícitos.
 DM - O PSDB desembarca do Governo Federal?
Romualdo Pessoa Campos Filho – O PSDB ajudou a construir esse cenário caótico da política brasileira. Apostou no tudo ou nada e agora está sem saída. Qualquer que seja a posição a tomar já se maculou e está condenado a carregar nas costas o peso de posturas inconsequentes motivadas pela absoluta recusa em aceitar o resultado eleitoral. Não lhe restou nenhum patrimônio moral nesse processo.
DM - Existem indicadores de recuperação da economia?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Absolutamente. O que acontece é por osmose. Se não tivesse o Michel no comando talvez o crescimento fosse maior. O país inegavelmente consolidou suas estruturas neste século, por meio de fortes investimentos estatais, ampliou seu mercado externo e potencializou o mercado interno. Poderia estar numa situação confortável no cenário político internacional, se não fosse a mediocridade da política rasa posta em curso de um lado por quem não aceitava ficar na oposição, e de outro, por quem tornou essas estruturas viciadas e ampliou a corrupção.
DM - Rodrigo Maia acalma o mercado?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Se o fizer será por força do poder da grande mídia. Mas será por pouco tempo. Suas ações seriam na mesma direção das medidas adotadas por Michel Temer, que ampliará a recessão e trará mais desemprego e tornará a sociedade inseguro devido ao aumento da violência e da instabilidade social.
DM - Qual a sua análise da carta-manifesto divulgada por Aldo Rebelo [PC do B - SP]?
Romualdo Pessoa Campos Filho – A meu ver ele reflete uma posição que procura ampliar o leque de forças que possa ajudar o país a sair da crise. O foco que ele dá é a necessidade de fortalecer o sentimento nacional e recuperar as condições que fortaleçam o país. Mas de forma mais ampla do que outros setores apresentam. Acho que é uma alternativa interessante, só não sei com quem se pode contar no atual quadro político para ampliar essa aliança. O documento mais se aproxima da “Carta aos Brasileiros” do primeiro governo Lula, com um foco mais específico em relação ao papel democrático das forças armadas no processo de consolidação do poder nacional.
DM - Qual a sua análise da Reforma Trabalhista aprovada no Senado Federal?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Uma reforma feita por um governo ilegítimo. Não foi eleito, não apresentou à sociedade uma proposta que pudesse ser discutida e aceita pela maioria. São medidas tomadas para facilitar a vida daqueles que controlam a riqueza nesse país e vão de encontro às aspirações dos trabalhadores. Tornarão mais precárias as condições de trabalho e deixarão os trabalhadores nas mãos dos donos das empresas. Se não for refeita em curto prazo gerará muitas revoltas e tornará o clima socialmente instável.
DM - O que esperar da Reforma da Previdência Social?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Vai na mesma direção. Procura aplicar doses cavalares ao paciente. O que se propõe, na prática, é acabar com aposentadoria por tempo de serviço. Um indivíduo irá trabalhar a vida toda e não irá se aposentar. O déficit da previdência decorre de uma escandalosa sonegação por parte das empresas, que não repassam ao Estado os valores devidos. Todo o rompo poderia ser coberto se fossem cobradas essas dívidas.
DM - Geopolítica: qual a sua análise dos passos de Donald Trump?
Romualdo Pessoa Campos Filho – O que marca as ações de Trump é a imprevisibilidade. Não se pode dizer que ele tenha definido uma estratégia política confiável. Os EUA nunca viveram uma instabilidade política tão grande, e em tão pouco tempo após uma eleição. Certamente ele procurará tomar atitudes belicistas para conter a insatisfação interna. Essa tem sido uma medida tomada por todos os governos estadunidenses sempre que cai sua popularidade. O mundo poderá passar por momentos tensos, decorrentes da eleição de Trump, mas, fundamentalmente, como consequência  de uma crise estrutural que não tem saída.
DM - OS EUA atacarão a Coreia do Norte e a Síria?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Duvido muito que isso ocorra de forma aberta. Principalmente a Coréia do Norte, pelo potencial nuclear que ela possui. Mas certamente ações de desestabilizações internas, como tem sido prática dos EUA nas últimas décadas, deverão acontecer. O grande problema para o mundo é que a maneira como esses países têm entrado em crise só potencializam mais ainda problemas estruturais que se espalham por todo o mundo. Os efeitos colaterais dessas políticas externas inconsequentes tem sido perversos para todos os países, principalmente os que são mais fracos economicamente. A Síria, a Libia, o Iêmen, dentre tantos outros, até mesmo a Venezuela, são países destruídos por meio de ações políticas que os desestabilizaram internamente e os levaram a guerra ou à instabilidade social.
DM - A China ultrapassará os EUA na Economia?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Creio que isso já vem acontecendo. Essa teria sido a razão da escolha por Trump como presidente. Desde sua campanha vê-se uma tentativa de se aproximar da Rússia para tentar frear a influência que a China tem adquirido por todo o mundo. O grande equívoco é imaginar que o Putin irá embarcar nessa estratégia. Duvido muito. A tendência é a China continuar ampliando sua influência e os EUA procurarem formas de solapar esse processo, o que poderá levar a conflitos sérios não somente diplomáticos, mas com a possibilidade de enfrentamentos bélicos localizados no Pacífico.
DM- Há, hoje, uma onda conservadora em ascensão no mundo contemporâneo?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Sim, como consequência da crise estrutural. Como pela esquerda as alternativas não são sustentáveis, porque estão também dentro do mecanismo de funcionamento de um sistema em crise, os discursos radicais à direita ou a saída por meio de medidas neoliberais (não há outra para a burguesia mundial) terminam se apresentando como alternativas para uma população desiludida e desesperançosa. Não são propostas aprovadas por maiorias. O número dos que estão desistindo de comparecerem nos processos eleitorais só cresce. Na França a abstenção foi a maior da história, cerca de 57% das pessoas não compareceram para votar. Essa desilusão, por outro lado, pode levar a explosões de descontentamentos, principalmente entre a juventude, e as sociedades viverão momentos de terríveis enfrentamentos entre grupos sociais distintos. Esse é um sintoma de uma estrutura social em crise, mas que não há ainda uma luz no final do túnel. A luz que se vê é a de uma locomotiva que se aproxima e que pode atropelar quem estiver pela frente.
DM - Qual a sua análise da eleição para reitor na UFG?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Já publiquei também em meu blog uma análise sobre esse processo. A Universidade mudou muito, em todos os sentidos, para o bem e para o mal. Cresceu, se fortaleceu, ampliou sua capacidade de produção científica com o aumento de cursos de pós-graduação, mas relegou o ensino de graduação à uma posição de inferioridade e se tornou uma instituição conservadora, fortemente focada no sucesso e na alimentação de egos e vaidades de grupos. Isso se demonstrou na campanha. Fiz um diagnóstico que se demonstrou, ao final, correto. A acomodação, o medo de mudar, a aceitação da normalidade de uma instituição que deveria ser crítica e inquieta, prevaleceu. Mas fizemos um bom debate, ético e respeitoso. Colocamos os problemas abertamente, sem preocupação se isso resultaria em voto, era preciso fazer isso, e vamos continuar fazendo. Não é possível que num momento tão crítico de nosso país, a universidade se feche numa redoma. Não tivemos receio de enfrentar essa discussão, mas quebrar paradigmas não é fácil. O que a Universidade precisa entender é que a lógica que impulsionou as mudanças no mundo nas últimas décadas, está em crise, e não encontra saída nos mecanismos que a impulsionaram. Nós, na universidade, entramos também nessa lógica, mas há dificuldade de sair disso e perceber que precisamos apontar saídas inclusive no âmbito das políticas públicas e na identificação de alternativas a esse sistema. O conhecimento que produzimos só tem importância se ele se concretizar por meio de saberes que transformem a sociedade. É o saber que faz com que o conhecimento tenha validade. O conhecimento, pelo conhecimento, não tem relevância, se esgota em si próprio até ser superado.
DM – Como você vê a condenação do Lula?
Romualdo Pessoa Campos Filho - A condenação de Lula neste momento de destruição dos direitos sociais e trabalhistas, e quando se discute os crimes de uma quadrilha que deu um golpe na democracia deste pais, tem o claro objetivo político de desviar a atenção e evitar a revolta da população. É preciso dizer em bom tom, que tudo isso é parte do mesmo processo que está jogando o país no buraco e ampliando o fosso que separa os ricos dos pobres. Nitidamente o que se fez nesse país foi brecar todas as mudanças democráticas e mudar o rumo do país para atender os interesses de banqueiros, grandes empresários e latifundiários do agronegócio. A indignação à condenação de Lula não pode ser passional, ela deve ser uma reação política apontando para a organização popular a fim de reverter por meios democráticos, ou pela força do poder das massas populares trabalhadoras, que sentirão duramente as consequências dessas reformas.
DM - Projeto de novo livro?

Romualdo Pessoa Campos Filho – Produzi ao longo dos últimos anos uma série de artigos que publiquei em meu Blog, Gramática do Mundo. Estou fazendo uma seleção daqueles que considero mais relevantes e os colocarei em três sessões: da geopolítica mundial, da conjuntura política brasileira e de discussão sobre a universidade. Espero neste semestre publicá-lo. E para o ano seguinte, talvez num pós-doutorado, pretendo dar continuidade sobre a luta pela terra no Sul do Pará, e completar a trilogia sobre os conflitos naquela região que tem se acentuado. Agora abordando do ano 2000 até os dias atuais.