quarta-feira, 9 de junho de 2021

CAÇADORES DE NASCENTES – ONDE NASCEM OS RIOS?

Algum tempo atrás publiquei um artigo no blog Gramática do Mundo, intitulado “Enquanto a chuva cai, a água se esvai”.[i] O objetivo do título era impactar criticamente logo antes de adentrar no assunto, de forma a chamar a atenção para a maneira como se observa os problemas hídricos em nosso país. Fazendo uma analogia às condições de boa parte dos rios brasileiros, principalmente no Nordeste, mas situação que já avança em direção ao Centro-Oeste, as notícias sobre a crise hídrica têm sido apresentadas de forma intermitentes, quando deveria se dar de maneira perenes. Esse era um dos focos que eu abordava, diante do fato de somente nos períodos secos se começar a tratar da falta de água, principalmente para o consumo urbano, de forma alarmante.

Por outro lado, o título impunha uma atenção a um outro fenômeno, também pouco observado, embora sempre gerador de alertas em áreas urbanas, notadamente naquelas com ocupação irregular de áreas de riscos. O alto volume de chuvas, nas cidades, termina por passar uma visão equivocada, diante de diversos cataclismas. A de que as chuvas estão caindo em quantidades excessivas, pelas tragédias que elas causam, quase sempre nas comunidades pobres das periferias dessas cidades. As imagens de verdadeiros rios urbanos em ruas, arrastando violentamente o que vê pela frente, naturalmente causam comoções, pelos estrago, vítimas e as condições a que relega a população daqueles lugares. E mais do que isso, porque comoção se sente por fora da tragédia, pela empatia das pessoas, mas efetivamente esses desastres terminam por levar muitas famílias a perderem suas casas, e em muitos casos carregam vidas, ou pelas enxurradas, ou pelos deslocamentos de encostas.

Mas, para além disso e do que essas tragédias significam, há o outro lado. Findo o período de chuvas a preocupação passa a ser outra. E isso se repete incessantemente, em um efeito borboleta, como na teoria do caos. É sabido que, nas cidades, ao contrário do que diz o velho ditado popular, depois da tempestade não vem a bonança. O que virá, em um curto período, que cada vez se encurta mais, é a ausência de chuvas e a intensificação de um outro drama, a ser vivido pela estiagem e consequente escassez de água.

Fonte: Senado Federal

Vou me atentar para o problema hídrico urbano, embora a crise não se limite a isso, visto que o uso de água pelas populações urbanas, no Brasil, não ultrapassa 12% do total de água potável disponível em nosso território nacional. O que significa também dizer que os rios, que abastecem as cidades, principalmente as enormes metrópoles, antes de entrar no perímetro urbano, ou das regiões metropolitanas, tem suas águas extraídas para uso na agricultura e pecuária (60%) e indústrias (próximo a 30%). Esses percentuais variam de estado para estado. Mas o problema é mais grave, e vai longe. E temos estudado também os problemas que advêm do uso da água, principalmente para a agricultura. O fio da meada se perde em suas origens. No entanto, os problemas ao longo de todo o trajeto das artérias hídricas que serpenteiam nosso planeta terra, não podem ser simplificados. Porque é um todo complexo.

Voltemos aos problemas hídricos urbanos. De onde vem as águas que abastecem nossas grandes cidades? Quantos se perguntam isso? Aonde vão as águas que serpenteiam por ruas e avenidas, sob pontes e viadutos, em aquedutos e canais? Onde surgem, brotam, as nascentes que se tornam mananciais que cortam nossa cidade? E no que eles se transformam tão logo derivem um córrego até se encontrar com um rio onde vai compor com este uma bacia hidrográfica? O uso do verbo transformar, no caso, não está posto equivocadamente. Explico.

Nascente do córrego Cascavel

Lamentavelmente sempre se negligenciou o cuidado com nossas nascentes e com os mananciais gerados por elas. Nos últimos anos passou a haver um cuidado maior com as nascentes, diante de uma política de investimento em parques urbanos, nitidamente com o intuito de favorecer o mercado especulativo imobiliário. Houve resultados, parques importantes surgiram e se tornaram opção de lazer para a população. Na maioria dos casos, no entanto, em se tratando das nascentes que se encontram nesses parques a preocupação com suas manutenções não seguem uma rotina adequada. E para além delas, das nascentes, os mananciais que surgem e seguem por diversas direções, seja para o Córrego Botafogo, para o Ribeirão Anicuns e daí para o Rio Meia Ponte, tornam-se canais e consequentemente depósitos de dejetos, esgotos domésticos ou industriais. Por isso eles se transformam, deixam de ser rios, córregos, no sentido adequado dados a eles, para se tornarem esgotos, abandonados pelo poder público e ignorados pela população.

Embora os parques – onde quase sempre existe um lago – sejam um atrativo, com o espaço sendo utilizado pela população para prática desportivas e lazer, as pessoas não se indagam sobre de onde vem suas águas, por onde elas seguem e para onde irão. Há uma total indiferença, porque assim fomos habituados a conviver na cidade com esses elementos, que se tornam mais do que meras paisagens, quase que uma mercadoria pela qual desfrutamos, porque seu esmero paisagístico atende aos interesses de incorporadoras, com o intuito de valorização de imóveis em seus entornos.

Córrego Capim Puba

E desconhece-se a importância que essas nascentes possuem para a bacia hidrográfica que garante o abastecimento hídrico em nossas cidades, bem como irriga uma grande produção de hortifrutis em todo o entorno da região metropolitana, de Goiânia e diversas outras capitais. Cada uma com o seu perfil diferenciado, mas necessariamente sendo servidas por essas águas, que se tornam turvas pela suas transformações em esgotos, sem que haja políticas de saneamentos adequados para nos salvar de uma hecatombe que poderá nos atingir pela escassez permanente de água.

Incomodado com essas questões, a partir de análises feitas com o objetivo de compreender os constantes problemas com o consumo de água e os racionamentos sistemáticos e constantes, sempre que acaba o período chuvoso, cada vez mais irregular, me debrucei sobre esse tema. Isso devido a minha atuação como professor de geopolítica e atento às questões da biodiversidade e hídrica por um olhar estratégico, visto que lidamos com recursos de suma importância para nossas vidas, de valores imensuráveis, embora sendo constantemente objeto de ganância de especuladores e investidores, que passam a ver na água muito mais do que um bem comum, mas uma mercadoria por onde eles podem lucrar investindo e exercendo controle, sob pretexto da inoperância do poder público. Naturalmente, a velha estratégia de deixar de atender uma demanda que seja da responsabilidade dos estados, tornar esse atendimento insuficiente e, assim, entregar em mãos de corporações, cujas preocupações atendem aos lucros de seus acionistas e não o bem-estar da população.

Mas para fugir do lugar comum, da crítica costumeira que fazemos ao que já é sabido, essa inoperância do poder público, resolvi ir em busca de respostas para compreender as condições em que se encontram nossas nascentes e mananciais. Para isso incorporei como atividade aos meus alunos e alunas, trabalhos de campo para identificação das nascentes que estão na região metropolitana de Goiânia e transformei isso em um seminário, por onde, por muito bons trabalhos, eles puderam expor as condições em que elas se encontram, bem como no que se transformam os seus mananciais. Em seguida resolvi cadastrar um projeto junto à Pró-Reitoria de Extensão e Cultura da UFG, denominado “CAÇADORES DE NASCENTES – ONDE NASCEM OS RIOS QUE CORTAM A REGIÃO METROPOLITANA DE GOIANIA”.[ii]

Inspirado em trabalhos já existentes em São Paulo e outros lugares, o objetivo é encontrar as nascentes, verificar suas condições, acompanhar o percurso dos mananciais e como ele chega até o rio principal. Quase sempre o Meia Ponte, que forma a principal bacia responsável pelo abastecimento de nossa capital e da cidade de Aparecida de Goiânia, segunda maior cidade do Estado.

Ao mesmo tempo, em sintonia com escolas de ensino médio e fundamental, estabelecer programas paralelos de acompanhamento dessas nascentes, próximas a essas escolas, e também em conjunto com a comunidade adotá-las, como forma de protegê-las, exigir a devida atenção do poder público e educar as novas gerações com um olhar diferente do que aqueles que a minha geração olhava para esses rios, córregos, riachos e nascentes, que faziam parte do nosso universo juvenil, mas sem o reconhecimento da devida importância para a sua preservação, cuidados e necessidades advindas do fato de estarmos lidando com o recurso mais fundamental para a vida, humana, animal e vegetal.

A par de esclarecer sobre esse trabalho, instigo os que me leem, ou me ouvem, a incorporar esse universo de combatentes, defensores de nossas nascentes. Tão logo as escolas reabram para as atividades presenciais, as visitaremos, especialmente aquelas em bairros cortados por mananciais ou onde situam-se algumas dessas nascentes. Já temos trabalhos feitos pelos alunos e alunas da disciplina “Geopolítica das Águas”, que apontam essas condições. Precisamos ampliar esses estudos, publiciza-los e envolver escolas, associações de moradores, ONGs, empresas, e todos que desejem reverter o situação que afetam esses mananciais, como condição necessária para proteger nossas vidas.

As cidades, como estão, por suas condições de administrações negligentes na questão da proteção hídrica e saneamento, assim como há também as responsabilidades da administração estadual, estão matando nossos mananciais e levando ao esgotamento as nascentes que se encontram espalhadas, e esquecidas, por toda a região metropolitana. É preciso cobrar responsabilidades pela elaboração de políticas de estado, de ações permanentes que revertam uma situação que se aproxima do caos e que levará a racionamentos permanentes até a escassez completa de água. E por fim a um cruel paradoxo, de haver tantas nascentes esquecidas ou abandonadas, e mananciais transformados em esgotos a céu abertos, enquanto falta água para a população.

Enquanto isso, nobres edis, que deveriam fiscalizar a administração municipal, e exigir projetos e planejamento adequados, bem como investimentos estatais a fim de permanentemente cuidar de nossas nascentes, se dedicam a elaborar projetos que visa punir a população pelo desperdício de água. Ora, essa é uma questão de educação e informação, cabe aos vereadores exigir do prefeito responsabilidade no trato desse problema, e não jogar a culpa nas costas das pessoas, que são vítimas, e não culpadas, pela negligência e incompetência dos gestores públicos.

Esse é o meu recado. Água é vida, é um bem comum, não é mercadoria, nem deve servir aos objetivos de empresários do setor da construção para valorizar seus imóveis. Aos que desejarem somar conosco nessa árdua, mas necessária tarefa, o convite está feito. Venha compor o exército dos “caçadores de nascentes”, e façamos nossa parte nessa luta em defesa da água, das nascentes e dos nossos rios.

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sexta-feira, 28 de maio de 2021

CENÁRIOS SOMBRIOS E UM MUNDO SEM RUMO – BIOPODER, FASCISMO E HIGIENISMO

Quero começar a partir de uma formulação de Carl Sagan, contido no livro “O Mundo Assombrado pelos Demônios”:

Nós criamos uma civilização global em que os elementos mais cruciais – o transporte, as comunicações e todas as outras indústrias, a agricultura, a medicina, a educação, o entretenimento, a proteção ao meio ambiente e até a importante instituição democrática do voto – dependem profundamente da ciência e da tecnologia. Também criamos uma ordem em que quase ninguém compreende a ciência e a tecnologia.  É uma receita para o desastre. Podemos escapar ilesos por algum tempo, porém mais cedo ou mais tarde essa mistura inflamável de ignorância e poder vai explodir em nossa cara. (Pág. 39)

É impressionante nesse artigo (escrito em 1995) a perspicácia de Carl Sagan, ao analisar o descompasso entre a capacidade adquirida pela humanidade de avançar nas ciências, e o quanto essas se tornaram importantes para o mundo, mas ao mesmo tempo, e numa enorme contradição, ou paradoxo, com um aumento da ignorância e o desconhecimento da importância das ciências e das novas tecnologias, por parte da maioria das pessoas.

Minha preocupação é que especialmente com a proximidade do fim do milênio, a pseudociência e a superstição parecerão mais sedutoras a cada novo ano, o canto de sereia do irracional mais sonoro e atraente. Onde o escutamos antes? Sempre que nossos preconceitos étnicos ou nacionais são despertados, nos tempos de escassez, em meio a desafios à autoestima ou à coragem nacional, quando sofremos com nosso diminuto lugar e finalidade no Cosmos, ou quando o fanatismo ferve ao nosso redor – então, hábitos de pensamento conhecidos de eras passadas procuram se apoderar dos controles.

A chama da vela escorre. Seu pequeno lago de luz tremula. A escuridão se avoluma. Os demônios começam a se agitar. (IDEM, pág. 40)

Todo o deslumbramento tecnológico, que inclui inteligência artificial, robotização, sofisticações impressionantes que nos fazem chegar até Marte e de lá transmitir informações em tempo real para a terra, se depara com um mundo onde cresce assustadoramente o número de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza. Situação que foi impulsionada pela pandemia, mas que já vinha dando sinais claros de um caminho quase sem volta, dentro do sistema capitalista, de uma crise estrutural permanente.

Nesse novo mundo que se delineia, a partir desses caminhos que estão sendo construídos, que inclui até mesmo colonização de outros planetas, a maior parte da população está excluída. Passo a passo, os que detém o poder econômico, e controlam os meios de produção, ignoram a abissal distância entre os diversos segmentos sociais, e transformam o mundo virtual em um mundo real, a Matrix se consolida aqui na terra, e os meios de comunicação oferecem mercadorias deslumbrantes, ultrassofisticadas, para um percentual de 10% da população. Essas mesmas pessoas, capazes de se inserir nesse mundo consumista, se deleitam em compartilhar, ostensivamente, seus mundos, onde o deslumbramento ignora a miséria, achincalha a pobreza e milhões de pessoas que padecem na miséria e pouco tem para comer. E transformam a vida em um big brother perverso, ou melhor, de perversões.

Posto isso, quero pontuar os descaminhos pelos quais podemos apontar os rumos que a humanidade pode seguir. Nós não podemos afirmar que este ou aquele será o rumo, mas partimos das condições reais de nossas existências, dos conflitos, dessas características que são marcantes no sistema em que vivemos: ganância, usura, vaidade, egoísmo, individualismo e a crença em deuses perversos, aos quais alguns indivíduos se apegam para justificar seus pecados mortais. Tudo isso se baseia na forma como os que controlam a riqueza e o Poder estabelecem as leis e os mecanismos pelos quais essas estruturas se mantém, a despeito de todas essas misérias e desigualdades sociais. E, fundamentalmente, como essa riqueza é construída, por meios que oprimem e exploram forças de trabalhos cada vez mais mal pagas, restritas e, aos poucos, substituídas por novas tecnologias, para além da robotização, com o uso da Inteligência Artificial.

A globalização, ou mundialização, abriu a caixa de pandora do capitalismo no fim do século XX. Muita coisa mudou muito rapidamente. Aí entram as ciências, incluindo a Geografia tanto como ciência, como também um importante saber estratégico, fundamental nesse processo, de forma essencial e fundamental, no âmbito do conhecimento e dos avanços obtidos pela humanidade. Mas não são elas, as ciências, responsáveis pelo que veio a acontecer. Importa saber quais os destinos dados aos novos conhecimentos adquiridos por meio de avanços científicos que impulsionaram de forma impressionante, e novas tecnologias, nosso destino para o século XXI. Os que viveram nessa passagem de séculos, entre o final de um e o começo do outro, lembram-se dos deslumbramentos e de como a grande mídia indicava aquele momento e como seria o nosso futuro. Isso que é o nosso presente hoje.

Lembro-me de revistas com edições especiais que falavam desses novos tempos, marcados pela desregulamentação da economia, pela liberdade de comércio com o fim das imposições levadas a cabo por governos protecionistas e em seguida às pressões, as aberturas das fronteiras para as mercadorias e o capital. O mundo virou um enorme cassino global, e a pilantragem se transformou em desejos mórbidos, invertendo valores, princípios e ignorando o que com muito custo foi conquistado (embora pouco exercido) dos direitos iguais para todos e todas.

O cinismo passou a conduzir as finanças, a economia se abastardou em meio aos que esbanjavam dinheiro. E assim expunha abertamente um novo comportamento icônico, ser mau-caráter já não era mais algo que desmerecia alguém, mas a condição e garantia de que somente assim, e pela esperteza, seria possível ser incluído ou permanecer no altar de imolação, ou fogueira das vaidades. Onde a riqueza já não ardia mais em chamas como algo pecaminoso, mas a ser perseguido por todos, como a quem de direito, na certeza que o novo capitalismo globalizado garantiria a quem assim quisesse ser. Os neopentecostais ensinavam aos pobres que o caminho da submissão, da idolatria fundamentalista ao deus do capital, era duro mais possível de ser trilhado. Pelo esforço próprio, sem arengas e rebeldias, mas de firmeza na crença de que esse deus é fiel.

Abriram-se as portas do inferno. O capital financeiro jamais foi incensado por quem se julgasse protegido por algum deus. Sua proteção é o demônio, seguramente. E para combatê-lo não seria possível os chicotes pelos quais Jesus teria expulsado os vendilhões do templo. Já não são mais reles mercadores, mas representantes de enormes corporações, gigantescas transnacionais, que se agigantam a cada ano, por fusões que reduzem a força de trabalho, investe-se mais e mais em novas tecnologias, ampliam-se os ganhos em produtividade e, consequentemente os lucros.

Mas tudo isso não significa o fim do caminho, com o descanso necessário para usufruir desses ganhos, pois a ganância impede isso. Esses lucros movimentam o enorme cassino do sistema financeiro, as bolsas de valores, e ali se multiplicam por meio de ladroagens oficializadas, burlas de expertises, golpes e espionagens a envolverem os donos do dinheiro e agentes públicos, numa dança macabra de perversões em busca de mais riqueza e Poder sobre as desgraças e infortúnios de desempregados, miseráveis errantes que se transformam em nômades, favelados, pobres, que são absorvidos pelo comércio mais lucrativo das profundezas do sistema: as drogas.

Embora as mercadorias mais sofisticadas desse comércio sirvam exatamente aos eufóricos agentes do capital financeiro, movidos ao pó mais cobiçado que transita pelos arranhas céus e torres de luxos, e impulsiona o eletrizante cotidiano das corretoras, investidoras e bolsas de valores. Ali onde se realiza o capitalismo financeiro, e onde a riqueza gerada esnoba e dejeta estrume sobre bilhões de pobres por todo o mundo. Mas esse mundo, desse capital financeiro especulativo, improdutivo e pérfido, é disputado por poucos que dominam e controlam impérios, que possuem bilhões... de dólares.

E, pela lógica que movimenta o sistema, cuja característica é a expansividade, não pode ganhar amanhã, nem um centavo menos do que ganhou hoje. É uma corrida febril a mais dinheiro, não importa o quanto se tenha, nem o quanto isso torna a sociedade doente. Assim se chegou ao limite da globalização, escorada nas políticas perversas neoliberais, insensíveis à crescente desigualdade social.

O mundo, não poderia, e nem pode encontrar um destino saudável por esse caminho. De insensibilidade, arrogância, corrupção, injustiça, falta de empatia e desrespeito pelo outro. Tanto o mundo construído, e destruído, por quem por todo esse tempo teve o controle dos meios de produção; quanto o mundo natural, a natureza, desnaturalizada, artificializada, e posta abaixo, para servir a essa ânsia gananciosa e fazer girar a estrutura capitalista, baseada em mercadorias que se esgotam e são substituídas por outras, que envelhecem e precisam ser deixadas de lado, levando a que o sistema se reestruture, e se reinicie todo o processo de inserção de novos produtos e novas fontes energéticas, sob o pretexto de proteger a natureza, que seguirá sendo destruída para comprazer essa lógica expansiva. Não nos iludamos, o fantasma de Goebbells (Ministro da Propaganda do governo Nazista) não está levitando somente por sobre o Palácio do Planalto (*era o advento do governo Bolsonaro, época em que esse texto foi escrito). Ele está por toda a parte, e incorpora os discursos daqueles que controlam o Poder político, econômico, militar e são disseminados pelos grandes meios de comunicação.

Ora, a história nos ensina que por esses mesmos caminhos, em tempos outros, o resultado dessas loucuras levou a conflitos que geraram guerras, genocídios e o descontrole sobre uma população absolutamente abandonada e revoltada. Assim, cega e desprovida de consciência crítica, tanto lá, quanto nos dias de hoje, o caminho termina sendo a busca de falsos “messias”, protagonistas estúpidos que se colocam de forma invertida no lugar desses pobres e miseráveis, com discursos de ódio, intolerância, ressentimentos, medos e mentiras, reforçando a ignorância, o apego a crenças baseadas em construção de sentimentos de indiferença, raiva e construção de inimigos erigidos assim fundamentados em preconceitos, misoginia, racismo, em novas formas inquisitoriais e invertendo o foco sobre quem de fato se beneficia dessa estrutura. 

Mas precisamos ter claro qual é a estratégia que existe por trás desses comportamentos, daqueles que usufruem de privilégios, se impõe gananciosamente sobre corpos inertes, frágeis pela ausência de recursos para se manterem, ou mesmo sobre trabalhadores superexplorados, cujas reformas feitas retiram o pouco de si, mas ampliam os ganhos dos que controlam a riqueza.

Se já vínhamos de há muito tempo consolidando uma forma de Poder, definido por Michel Foucault, como Biopolítica e Biopoder, as circunstâncias delineadas nos últimos anos, e potencializadas pela pandemia, confirma a sofisticação daqueles mecanismos controladores seja sobre a população enquanto massa agregada, a partir da constituição do Estado moderno, seja sobre o corpo das pessoas individualmente, estabelecendo padrões e definindo regras e comportamentos. Quanto mais as crises surgem e se intensificam, mas se definem políticas e se constroem regras conservadoras para conter a expressão da individualização e da liberdade do corpo das pessoas e de suas vidas.

O controle da vida, pelas políticas do corpo, bem como por uma política (biopolítica) de exploração acentuada do esforço escravizado ou semi-escravizado, pela extorsão da liberdade ou pela exploração da força de trabalho, se constituiu nos elementos cruciais para a transformação do capitalismo no sistema que conhecemos hoje, e no qual nos tornamos engrenagens em sua lógica de absorção de nossos esforços para garantir os privilégios de uma minoria abastada.

A moral protestante definida como elemento fundamental das formas de desenvolvimento da sociedade capitalista, num olhar weberiano, não demorou a ser suplantado por novos elementos de controle de Poder, definido a partir da garantia da vida, na tentativa de controle da morte. Esse foco, expressado por Michel Foucault, como Biopoder, se encerra nos objetivos da burguesia e das classes dominantes, na descrição de uma sociedade liberal, cujos preceitos se encontram definidos em legislações criadas para garantir muito mais do que uma liberdade, mas o controle e a disciplina sobre o corpo, sobre a vida.

Essa política, decorrente das formas que foram delineadas pelo Poder dentro da estrutura dominante capitalista, por meio do Estado burguês, oferecido como fonte da civilização e do progresso, tudo isso feito dentro das normas legisladas pelas instituições formais da democracia, se entesa e emperra quando sob seu controle assumem-se indivíduos dotados dos piores desejos, pérfidos, desprovidos de caráter, de empatia e solidariedade. 

Políticos que saem das catacumbas e reacendem os piores pesadelos transformados em atos, reais, de situações em que a política do controle da vida se inverte na macabra política da morte. Os preconceitos disfarçados se apresentam ostensivamente, o ódio se reflete no olhar às diferenças. Os pretos, pobres, mulheres, velhos, os que possuem algum tipo de deficiência, ou aqueles que escolhem o tipo de prazer sobre os seus corpos e suas sexualidades e gênero, tornam-se alvos e, para além do biopoder, um novo tipo de higienismo se manifesta, e encontrou na pandemia do Covid19 um vírus mortal que lhes potencializou isso, a esse tipo de Poder, a completar o objetivo criminoso de olhares, vieses, ideologias e atitudes neonazistas e de um visível fascismo contemporâneo.

E nessa necropolítica os que comandam o Poder político, seguindo esses preceitos, se debruçam sobre um macabro e mórbido desejo de encolher a população para melhor definir suas estratégias perversas, mirando no que eles, por esses sentimentos fascistas, entendem como entraves ao desenvolvimento e a consolidação de uma sociedade puritana, pentecostal, ultraconservadora, para lentamente constituir o Estado como um instrumento totalitário, controlado por insanos, cínicos, milicianos, mercadores da fé e fascistas.

As mudanças que ocorrem aqui no Brasil, embora também em outras partes do mundo, decorrem de crises profundas nas estruturas capitalistas, que já estavam se desenvolvendo há anos, são sintomas de um estágio avançado da desintegração desse sistema já atingindo o limite de suas contradições. O século XXI abriu suas portas escancarando essa crise. O ano de 2001 (ataques às torres gêmeas nos EUA); 2008 (crise do subprime nos EUA) e a partir de 2020, com a pandemia do Covid19, se constituem em picos dessa crise, e, em seu ciclo constante, esses momentos disseminaram os medos, por todos os lados e de todos os tipos, despertando de suas profundezas, alguns demônios, que não são estranhos ao sistema, mas suas próprias crias, que viviam em estado criogênico.

Mais do que entender essa conjuntura, devemos identificar os caminhos e os possíveis cenários que nos esperam em um curto prazo, e, portanto, exige de nós a urgência em decisões e estratégias que nos impeçam de despencar do abismo que está à nossa frente. Nunca foi tão importante fazer a junção dentre as ciências humanas, onde se insere a Geografia, ultrapassar o simples diagnóstico da realidade, mas a partir da constatação das desgraças que nos afligem, e que isso se dá no mundo real, urgir mais do que a necessidade de esgrimir argumentos e coragem para se contrapor a esses demônios materializados e que perversamente buscam infernizar nossas vidas. Se trata, como já dito outrora por Marx, de mais do que interpretar a realidade, lutar para transformá-la. Ou para citar um geógrafo de renome, e responsável por um dos clássicos da geografia e da geopolítica, Yves Lacoste, a geografia deve nos ajudar a mais do que descrever o mundo, estabelecer um olhar crítico sobre essa realidade, compreender a dimensão das desigualdades, apontar por quais meios podemos identificar as contradições desse sistema, e não medir esforços para transformá-lo econômica e socialmente.

Estamos correndo contra o relógio.


(*) Palestra apresentada na Mesa Redonda: Geopolítica, Dinâmicas Populacionais e Biopoder, no II SIMPÓSIO INTEGRADO DE ESTUDOS TERRITORIAIS. Em 28/05/2021.

Disponível no Canal do Laboter no Youtube:

https://www.youtube.com/watch?v=E-Q-t-MSuuM&t=582s

Obra citada:

SAGAN, Carl. O Mundo assombrado pelos demônios - A ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras, 1996

 

 

 

 

domingo, 9 de maio de 2021

O MITO DE SÍSIFO E O COMPADECIMENTO, EM CONTRAPOSIÇÃO À RAZÃO, À INDIGNAÇÃO E À REVOLTA SOCIAL

“Se dou pão aos pobres, todos me chamam de santo. Se mostro por que os pobres não têm pão, me chamam de comunista e subversivo” (D. Hélder Câmara)


Vamos falar de solidariedade. Já tratei disso aqui, de forma mais ampla, quando me referi à empatia, simpatia, cooperação e solidarismo. Mas dessa vez venho falar com uma verve mais afiada, e talvez incomode algumas pessoas, bem-intencionadas, e, creio, verdadeiramente solidárias. Mas de um espírito cristão, tradicional, que tem uma limitação no enfrentamento da realidade. Não é por acaso que começo esse artigo com a frase do então arcebispo de Recife, Dom Hélder Câmara. Essa é a questão.

Se habituar a oferecer esmolas, como na tradição que perdura séculos, isso mais como uma prática das camadas mais pobres da sociedade, ou da classe média. Ou tornar-se um filantropo, nome pomposo para basicamente a mesma ação, só que das camadas mais ricas, daqueles que possuem muito dinheiro. Embora seja um ato que possa demonstrar empatia, se constitui muito mais como um desencargo de consciência, ou no caso dos ricos, puro marketing, que em parte lhe é devolvido pelo “bondoso” Estado, por meio da restituição do Imposto de Renda. Um Estado bondoso para os ricos, naturalmente.

Mesmo sendo uma prática solidária, e na maioria dos casos praticadas por pessoas que tem sensibilidade frente a uma realidade perversa, portanto de boa vontade, e absolutamente necessária, devido às condições de miséria que vive boa parte da população, ela não garante uma transformação na vida dessas pessoas, de forma a conduzi-la por caminhos que a liberte da pobreza crônica. Ora, eu não pretendo propor que diante dessas circunstâncias de pobreza e miséria crescente, deixemos de compartilhar com essa parte excluída da sociedade um mínimo de doações, que seja, para que ajude essas pessoas a sobreviverem.

Mas não irá nos salvar. Nem o doador, e muito menos o recebedor. Só manterá os que assim procedem, com todas as boas vontades, como no mito de Sísifo, condenado a rolar morro acima uma enorme pedra, que ao chegar no topo irá rolar ladeira abaixo. E Sísifo, assim, foi condenado a passar o resto de sua vida, nesse estranho devir, por ter desafiado os deuses. Mas essa história, ou fábula mítica, foi melhor apregoada por Albert Camus (1930-1960)*, escritor de origem argelina e que viveu na França, para se referir à sociedade contemporânea. Por suas obras, expressadas pelo existencialismo, ele busca abordar os absurdos existentes, que geram anseios e uma abissal relação entre felicidade e sofrimento, no que ele vai chamar de “estética do absurdo”. 

Certamente a comparação entre essa atitude não significa considerar, como ele faz na representação ao mito de Sísifo como de uma inutilidade da vida. Mas sim, de se buscar uma resposta para qual o sentido disso tudo? Será que existe, já que optamos por continuar a viver? Essa normalização do sofrimento, a aceitação da perversidade social e a idolatria aos que, no sofrimento, são reconhecidos como heróis ou heroínas, por sobreviverem, nos faz bem? Não será isso muito pouco, quando olhamos em volta e no giro do mundo e verificamos a existência de bilhões de miseráveis, enquanto poucas centenas controlam uma imensidão de riqueza e esnobam cotidianamente isso?

Então, se nos compadecemos com a situação perversa em que milhões de pessoas vivem, num antagonismo absurdo e absolutamente desigual e revoltante com uma minoria de privilegiados que controlam a grande maioria da riqueza do mundo, por que se criminalizam aqueles que bradam contra esses absurdos e essas desigualdades, vistos como subversivos ou pejorativamente como “comunistas”, embora ser comunista signifique exatamente a essência da não aceitação dessas desigualdades? Porque não se apoiam impostos sobre fortunas, em muitos casos adquiridas de maneira criminosa ou sem que se invista em algo produtivo que possa gerar distribuição de rendas? Porque muitos recusam, e isso já existe em alguns países, impostos elevados sobre heranças, de forma a que o Estado distribua esses recursos para investir em programas sociais voltados para tirar as pessoas da miséria (embora não se deva mantê-las permanentemente nessa dependência)?

Vejo nesses dias de tormentos, de sofrimentos, um aumento acelerado da miséria e na outra ponta os bilionários se tornando mais ricos. E no patamar de baixo desse sistema absurdamente desigual e injusto, a correria para conter o desespero e ajudar os que estão desemparados pelo Estado e ignorados pela perversão burguesa da lógica gananciosa e usurária capitalista.

Não adianta inserir nos pacotes solidários livretos religiosos, como observei em reportagens sensacionalistas televisivas, que flertam com a fragilidade daquelas pessoas absolutamente despossuídas. Isso não salvará essas pessoas do inferno em que vivem aqui na terra, nem as incentivará a lutar e se rebelar contra essa condição de miséria em que foram metidos pelos mecanismos que fazem girar a roda do sistema capitalista. Ao contrário, só as manterá submissas, lenientes, obedientes e crentes de que aquela condição se deve a uma possível incapacidade meritocrática, ou a desígnio sabe-se lá de qual deus perverso, que beneficia poucos em detrimento de muitos.

Devemos, sim, sermos solidários, termos empatia, e nos ombrearmos com quem deseja amenizar o sofrimento dessas pessoas. Mas se queremos que tal situação não seja normal, e que não tenhamos a cada ano repetir ações de solidariedades por meio de doações de parcos mantimentos para sobreviverem um dia de cada vez, que botemos no pacote graus elevados de consciência política, de capacidade de discernimento da realidade, de olhares críticos, e, principalmente, de indignação, revolta, sentimento de poder se bater de frente contra aqueles que controlam esse sistema injusto, e que os leve, na conjunção desses sentimentos, a se organizarem, como em muitos outros momentos da história, e resgatarem suas dignidades e direitos na vontade, na luta, certos de que não há muito mais a perder em suas vidas, a não ser suas cadeias.

As pessoas não devem viver de esmolas, isso lhes corrompem a dignidade, as transformam em objetos, as desumanizam. Como canta Caetano Veloso, “Gente quer comer. Gente quer ser feliz. Gente quer respirar ar pelo nariz; Gente lavando roupa, amassando pão. Gente pobre arrancando a vida com a mão... Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome”.

Mas, se nos apresentamos como indignados com essa situação, que deveria gerar revolta coletiva, de imediato surgem os mecanismos ideológicos que criminalizam quem assim se sente e deseja mudar. Por que é perigoso lutar pelo bem comum? Por qual razão pessoas despossuídas de bens, escravos assalariados, gente que vive para trabalhar e mesmo assim sobrevive em meio à pobreza, se apegam a dogmas religiosos e se prostram a olhar para os céus de onde jamais sairá o solução de seus problemas? E por que reagem negativamente a um clamor por se opor firmemente aos que lhes exploram?

Porque assim foram condicionados pelo aparato jurídico, religioso, midiático e repressivo, que os manipulam, a favor dos interesses de quem domina meios de produção e o dinheiro. No entanto, ao se opor pela força ao grito não meramente dos “excluídos”, mas de quem adquire consciência de classe e se levanta de punhos erguidos e disposto a lutar por uma vida digna, nem que seja pelo enfrentamento revolucionário, esses são repelidos por sicofantas, fascistas, mercadores e traficantes da fé e os que controlam a grande mídia. Essa mesma mídia que finge se indignar com a pobreza e exalta o caráter solidário que se desdobra cotidianamente para apaziguar a fome de muitos. Esmolas, são esmolas que eles recebem, mesmo que tenhamos que dar outros nomes. Porque se repete, é estrutural, e não os salvam da miséria. Excluídos por quê? Por quem? E de que estão excluídos?

Esse rompante/desabafo que faço aqui, não é menos sensível do que aqueles que se irmanam através de corporações religiosas para praticar essas atitudes solidárias, mas é mais incisivo porque aponto a necessidade de romper com esses vícios, esses mecanismos abstratos, esses usos da miséria do outro. E de maneira revolucionária nos levantarmos contra o sistema causador de todo esse quadro desolador. Apontando as causas, criando consciência crítica e estimulando esse povo a acreditar que por meio de sua luta, e da indignação justa, é possível construir um outro mundo.

É isso que deve conter em cada cesta básica que entregarmos. Mais do que livretos religiosos, que exploram a fé e os mantém alienados, devemos inserir manifestos contra a desigualdade social, e estímulos para que se organizem, se revoltem e lutem contra o sistema e contra aqueles que controlam a riqueza e os mantém nessas condições de pobreza e miséria crônica, da qual dificilmente conseguirão sair porquanto perdurar o capitalismo. Mas pode ser também livretos religiosos, desde que apontem ser aqui na terra onde cada um de nós devemos viver com dignidade e respeito, como se pregavam nas comunidades eclesiais de base, por meio da teologia da libertação. Era por assim reivindicar justiça social que esse movimento foi perseguido, depois de muito ser caracterizado como comunista, como na expressão da frase de D. Hélder Câmara.

Empatia e solidariedade devem significar colocar-se no lugar do outro, e, portanto, desejar que as condições em que essa pessoa vive seja digna como as que cada um deseja para si mesmo. E mais do que conceder esmolas, precisamos lutar para que a melhoria das condições de vida seja real, efetiva e permanente. Nossa luta não deve ser somente contra governos insensíveis e elitistas, mas também para que o Estado seja efetivamente um instrumento a serviço dos segmentos majoritários da sociedade. E talvez não seja possível realizar isso somente nos iludindo com processos eleitorais que mantém esse ciclo vicioso.

Creio que já atingimos aquele limite, o auge das contradições de um sistema perverso, desigual e destruidor de vidas, cada vez mais desumanizado e violento com os que vivem na pobreza. Na falta de pão a burguesia não oferecerá brioches, mas repressão. E será assim, enquanto não fizermos como os comunardos de Paris, há 150 anos, tomando “os céus de assalto”. Sabendo que é preciso agir de forma implacável contra os algozes do povo, para que as mudanças sejam definitivas. Em muitos lugares a multidão está nas ruas, e é preciso que aqui no Brasil também isso aconteça, mas é preciso agir com estratégia, organização e política. Se assim for, a força do povo será incontrolável, e poderemos gritar, “basta de injustiça e de miséria”!


(*) CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2018.

quarta-feira, 31 de março de 2021

1964 - 2021: "EU NÃO VIVO DO PASSADO, O PASSADO VIVE EM MIM"

A longa noite de 21 anos, consumiu uma geração e usurpou vidas de pessoas valiosas. Mas o que temos atualmente, além de um aprendiz medíocre de Nero, é uma tempestade perfeita a nos sucumbir, e nuvens cinzentas, como se bilhões de vírus sobrevoassem nossas cabeças levando embora boa parte daquela geração que viveu tempos perversos, ditatoriais, sob a cruel (in)governabilidade de militares que usurparam o Poder. O Nero pós-moderno, uma fake news da política, louco ou não, deve ser nossa maior preocupação atualmente. Porque ele, como presidente desse país, é responsável pela mais incompetente, criminosa e irresponsável condução de um país diante de uma pandemia terrível. 

Omisso, cínico, desequilibrado, menospreza vidas da nação que governa. Nada há de mais repugnante na política do que a traição de um governante ao seu povo. A História já nos deu a dimensão exata do que foi o golpe militar de 1964, bem como definiu o perfil dos psicopatas, ou sociopatas, que estiveram à frente do estado (militar) brasileiro naquele período tenebroso. Nos cabe hoje, para além de reconhecer, e jamais deixar esquecer, o que foi aquele período, nos voltarmos para essa realidade absurdamente surreal, mas terrivelmente, e realisticamente perversa, que estamos vivendo.

Não podemos seguir a estratégia diversionista do insuportável Nero pateta tresloucado, que usa de todos os artifícios para desviar a atenção dessa tragédia que nos consome. Ele, e a Covid19, representam os males dessas novas gerações, e simboliza, por suas ações, uma espécie de vingança pérfida sobre as gerações que reconstruíram a democracia e redefiniu o papel dos militares no Estado brasileiro.

Expelido da Força, por essas mesmas características que carrega ainda hoje, prossegue eu seu intento de sublevar os militares e quebrar a hierarquia, como fez quando foi condenado por insubordinação e expulso por seus atos e atitudes desequilibradas. Enquanto o nosso país desaba moralmente, tornando-se um pária internacional, e o povo brasileiro sucumbe aos milhares, diariamente, por um vírus trazido das profundezas, sabe-se lá se do mesmo lugar de onde surgiu esse personagem nefasto, e ambos se tornam protagonista de um dos piores momentos da história brasileira.

É para hoje, e para esses personagens, que nossos olhares e nossas preocupações devem se voltar, sem esquecer a história, mas sabendo que as perversidades atuais também serão história amanhã. E não podemos ser vistos como quem caiu nas armadilhas diversionistas de um personagem medíocre. Foco no presente, nas perversidades que nos governam e na forte compreensão que a história não se repete, mas que por meio de farsas ela pode nos dar a indicação da tragédia que nos assombra, nos cerca e nos atinge.

Como diz Paulinho da Viola, compositor, "Eu não vivo do passado, o passado vive em mim". E é com as cicatrizes daquele tempo, da noite que durou 21 anos, que devemos olhar para o que acontece hoje, e imbuído da força que moveu milhares de brasileiros e brasileiras que se entregaram a uma causa justa, contra a violência injusta que nos governava durante a ditadura militar, temos que resistir, numa defensiva estratégica, e impedir que o que vivemos hoje se prolongue por um longo tempo, como o que se estendeu com a ditadura militar.

A luta é hoje, e que 2022 seja o limite da insensatez. Daqui para a frente precisamos sair da defensiva estratégica para a ofensiva que nos fará retomar esse país e reconstruí-lo em toda a sua plenitude. Para que se complete o ciclo de nossa história de resgate da memória de luta dos que tombaram vitimados pela perversão criminosa de uma ditadura militar que nos consumiu por 21 anos.

Thiago de Melo, do alto de seus 95 anos completados neste mês, em seus poemas brilhantes, e engajados, nos aponta o rumo: “Não tenho caminho novo/ o que tenho de novo é o jeito de caminhar./ Mas com a dor dos deserdados/ e o sonho escuro da criança que dorme com fome/ aprendi que o mundo não é só meu./ Mas sobretudo aprendi/ que na verdade o que importa/ antes que a vida apodreça/ é trabalhar na mudança do que é preciso mudar/ cada um na sua vez/ cada qual no seu lugar”. E assim finalizo esse pequeno artigo, na certeza de que precisamos ter foco, estratégia e força para lutar, escolhendo o caminho certo e o jeito de caminhar.

DITADURA NUNCA MAIS!!

segunda-feira, 22 de março de 2021

A ARQUITETURA DO CAOS

Foto: Site Poder360

Vamos aos fatos, e, naturalmente, é preciso entender toda a situação, como chegamos até aqui e porque estamos à beira do caos, numa das piores crises médicas, sanitárias e socioeconômicas da história de nosso país.

Segundo o presidente da República, "O povo não tem nem pé de galinha para comer mais. Agora, o que eu tenho falado, o caos vem aí. A fome vai tirar o pessoal de casa. Vamos ter problemas que nunca esperávamos ter problemas sociais gravíssimos”.[1] Vejam, essa é a fala do presidente do Brasil, não é de nenhum sindicalista ou militante que está lutando contra as desigualdades sociais. Mas de quem governa e, em tese, possui todos os elementos e as condições de adotar medidas que minimizem os graves problemas sociais gerados por essa pandemia. Só que ele não fará isso, por uma razão óbvia, estrangular a economia e disseminar medo, angústia e ansiedade, faz parte de um projeto de governo.

Evidente que tem razão ao dizer que estamos em meio a um caos. E isso condiz com uma estratégia adotada por seu governo, não somente durante a pandemia, mas mesmo antes de vivermos esse inferno viral. Claro, a Covid19 se incorporou a uma estratégia que já estava em curso: tornar a sociedade brasileira um caos.

Bolsonaro foi eleito no rastro de uma destruição da democracia, conforme a conhecemos por nossas bandas, e, principalmente da política. Embora ele fosse o azarão da história, serviu-se perfeitamente de toda uma onda gerada por perversos mecanismos midiáticos, de canais de televisão, jornais e emissoras de rádio, que apostaram desde 2015 na desconstrução de projetos políticos de cunhos sociais e de visões econômicas baseadas no desenvolvimentismo, para, por meio do ataque à política e projetando a ascensão da alienação derrubar um governo e apostar em políticas fortemente neoliberais, meritocráticas e antinacionais.

Mas o discurso levado a cabo, por meio do incentivo às manifestações, transmitidas ao vivo pelos canais de TV, por onde se disseminaram um comportamento de ódio e projetou o neofascismo, não atingiu o objetivo desejado pelos setores conservadores de partidos derrotados na eleição de 2014. Pois eles também se tornaram alvos da caça às bruxas, e na identificação do que se convencionou chamar de “velha política”. Foi tudo por água abaixo, inclusive caráter, seriedade, honestidade, esperança... Prevaleceu o cinismo, o banditismo miliciano e a hipocrisia religiosa. Se o que se pretendia era demonizar a política, o demônio soube entender e assumiu o controle. Assim, o caminho estava aberto para o caos. As redes sociais potencializaram isso, através das fake news, e a pandemia só veio para acelerar essa situação, já prevista e consolidada nas eleições de 2018.

Ora, já pude analisar neste blog e no meu canal no Youtube, como Bolsonaro chegou à presidência, no vácuo dessas desastrosas intervenções dos setores de centro-direita neoliberal. Despontou como um “mito”, na condição do que na geopolítica conhecemos como um “outsider”, desancando a política, com discurso anticorrupção (como sempre esse discurso antecede as crises políticas brasileiras e os movimentos golpistas) e aglutinando ao seu lado ressentidos, derrotados moralmente, despossuídos economicamente, frustrados e alienados. Embora a absoluta maioria desses aí adjetivados pudessem ser classificados no nível máximo de alienação. Além de uma burguesia estúpida e uma classe média oportunista. E, correndo por fora, de forma sutil e sibilina, porque nessa década esse movimento esteve ao lado de todos os governos, os segmentos evangélicos, neopentecostais principalmente, e os conservadores católicos da corrente carismática. Correram por fora num primeiro momento, porque depois incorporaram o discurso neofascista do presidente e se constituíram em sua principal base de apoio. Logicamente por traz disso a ambição pelo poder e a ganância como prática contumaz de seus principais líderes religiosos a extorquir os fiéis.

Mas Jair Messias Bolsonaro não caiu de paraquedas. Ele se tornou parte de um projeto desses segmentos reacionários religiosos e se incorporou a um movimento que tomava corpo mundialmente havia uma década, que gerou outra aberração política: Donald Trump. Mas que também estava em curso em diversos outros países, como Hungria, Itália, Reino Unido dentre outros, além dos EUA, de onde saiu toda essa inspiração perversiva.

Já citei em outros artigos que escrevi, baseado em alguns livros e documentários (que indico ao final desse texto), que esse projeto teve à frente um personagem que se tornou mais conhecido no ano passado, porque foi preso acusado de desvio de dinheiro numa arrecadação feita nos EUA para ajudar o governo Trump e construir um muro na fronteira com o México. Steve Bannon é o personagem por trás da “estratégia do caos”. Seu escritório foi responsável por dar assessoria aos “políticos” que surgiram das trevas, atraindo para seus lados todos esses indivíduos que carregavam algum tipo de frustração e ódio às condições sociais em que viviam.

No documentário “Privacidade Hackeada”, disponível na Netflix, chama a atenção uma frase dita por Christopher Wylie, Cientista de Dados, ao se referir a Steve Bannon (vice-presidente da Cambridge Analytica, e criador do site de notícias Breitbart), que seria a doutrina utilizada por essas empresas: “Se você quer mudar fundamentalmente a sociedade, primeiro tem de destruí-la. E somente depois de destruí-la é que pode remodelar os pedaços segundo sua visão de uma nova sociedade”.

Bingo! Eis porque Bolsonaro tem razão na frase dita, paradoxalmente sendo ele, como presidente, quem poderia adotar medidas que evitassem esse caos. Mas como eu já disse, isso ele não fará, porque faz parte de uma estratégia. Seu desejo é manter radicalizado um segmento que será muito prejudicado economicamente, para além das perdas de vidas, que se tornarão esquecidas pelo foco que está sendo adotado e pelas condições reais que ficarão milhões de pessoas. As mortes serão naturalizadas. Isso representa o que conhecemos hoje como “necropolítica”. Alienadas e corrompidas em seus desejos e olhares, essas pessoas seguem o discurso fácil, irresponsável e adredemente planejado pelos arquitetos do caos.

Mas o que falta para que aqueles responsáveis por abrir as porteiras dessas perversões, quando levaram a cabo uma outra estratégia, fracassada, de “reerguer o país destruído por Dilma Roussef” revejam seus comportamentos e percebam a gravidade dos acontecimentos que estão em curso e podem levar a que nosso país tenha mais de 500 mil mortos nessa pandemia, além de sua total destruição econômica? Enfim, esta semana divulgou-se um manifesto de banqueiros e economistas[2] que apoiaram essa loucura que empurrou o país para mãos inconsequentes.

Quem sabe um mea-culpa não abra caminho para recomposição de forças políticas que compreendam a gravidade da situação na qual eles nos meteram? É o que desejam aquelas pessoas que têm juízo, clamam pela vida, choram por seus mortos e anseiam por um país soberano, livre dos “mitos” que vagam por aí órfãos de seus manicômios. Que lutemos para recuperar nossa dignidade e saibamos compreender a importância de lutar por uma sociedade justa, menos desigual, e onde se dissemine valores como empatia, altruísmo e solidariedade. 

Ou fazemos isso ou prevalecerá pelo tempo que requer a destruição de um país, a estratégia do caos. O apocalipse por trás da necropolítica.

Está em nossas mãos, não somente os nossos destinos, como a determinação para provar a Bolsonaro que embora ele tenha razão hoje, o caos não prevalecerá e que toda maldade, perversão e vilania serão combatidas pelos que sobreviverão à sua hecatombe planejada. E seremos milhões!


DOCUMENTÁRIOS:

The Weekly S01E09: A Toca do Coelho (The Rabbit Hole) - https://www.youtube.com/watch?v=b3J7r1H4SYo

Privacidade Hackeada - Entenda como a empresa de análise de dados Cambridge Analytica se tornou o símbolo do lado sombrio das redes sociais após a eleição presidencial de 2016 nos EUA - https://www.netflix.com/br/title/80117542

Get Me Roger Stone - Observe a ascensão, queda e renascimento do operador político Roger Stone, um player influente da Equipe de Trump há décadas - https://www.netflix.com/br/title/80114666

Eles estão entre nós - O documentário explora a aliança política entre religiosos, oligarcas, Cambridge Analytica e suas empresas de fachada que mudaram o equilíbrio da política nos EUA. - https://globoplay.globo.com/eles-estao-entre-nos/t/wwppjgqzSJ/

LIVROS:

DA EMPOLI, Giuliano. Os engenheiros do caos. São Paulo: Vestígio, 2020

DOWBOR, Ladislau. O Capitalismo se desloca. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2020.

LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018

LIMA, Delcio Monteiro de. Os demônios descem do Norte. Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, 1987.

ARTIGOS DO BLOG:

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2020/04/como-chegamos-ate-aqui-e-como-sera-o_28.html

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2020/07/a-estrategia-da-destruicao-de-bolsonaro.html

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2020/08/tempos-perigosos-em-que-negam-as.html

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2020/08/o-despertar-das-bestas-3-parte.html

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2020/09/o-efeito-borboleta-ou-teoria-do-caos.html

 

CANAL ROMUALDO PESSOA: https://www.youtube.com/watch?v=UaAi8OuUojM


NOTA:

[1] https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2021/03/19/o-caos-vem-ai-a-fome-vai-tirar-o-pessoal-de-casa-diz-bolsonaro.htm

[2] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2021/03/banqueiros-e-economistas-pedem-medidas-efetivas-de-combate-a-pandemia-em-carta-aberta.shtml