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quarta-feira, 9 de junho de 2021

CAÇADORES DE NASCENTES – ONDE NASCEM OS RIOS?

Algum tempo atrás publiquei um artigo no blog Gramática do Mundo, intitulado “Enquanto a chuva cai, a água se esvai”.[i] O objetivo do título era impactar criticamente logo antes de adentrar no assunto, de forma a chamar a atenção para a maneira como se observa os problemas hídricos em nosso país. Fazendo uma analogia às condições de boa parte dos rios brasileiros, principalmente no Nordeste, mas situação que já avança em direção ao Centro-Oeste, as notícias sobre a crise hídrica têm sido apresentadas de forma intermitentes, quando deveria se dar de maneira perenes. Esse era um dos focos que eu abordava, diante do fato de somente nos períodos secos se começar a tratar da falta de água, principalmente para o consumo urbano, de forma alarmante.

Por outro lado, o título impunha uma atenção a um outro fenômeno, também pouco observado, embora sempre gerador de alertas em áreas urbanas, notadamente naquelas com ocupação irregular de áreas de riscos. O alto volume de chuvas, nas cidades, termina por passar uma visão equivocada, diante de diversos cataclismas. A de que as chuvas estão caindo em quantidades excessivas, pelas tragédias que elas causam, quase sempre nas comunidades pobres das periferias dessas cidades. As imagens de verdadeiros rios urbanos em ruas, arrastando violentamente o que vê pela frente, naturalmente causam comoções, pelos estrago, vítimas e as condições a que relega a população daqueles lugares. E mais do que isso, porque comoção se sente por fora da tragédia, pela empatia das pessoas, mas efetivamente esses desastres terminam por levar muitas famílias a perderem suas casas, e em muitos casos carregam vidas, ou pelas enxurradas, ou pelos deslocamentos de encostas.

Mas, para além disso e do que essas tragédias significam, há o outro lado. Findo o período de chuvas a preocupação passa a ser outra. E isso se repete incessantemente, em um efeito borboleta, como na teoria do caos. É sabido que, nas cidades, ao contrário do que diz o velho ditado popular, depois da tempestade não vem a bonança. O que virá, em um curto período, que cada vez se encurta mais, é a ausência de chuvas e a intensificação de um outro drama, a ser vivido pela estiagem e consequente escassez de água.

Fonte: Senado Federal

Vou me atentar para o problema hídrico urbano, embora a crise não se limite a isso, visto que o uso de água pelas populações urbanas, no Brasil, não ultrapassa 12% do total de água potável disponível em nosso território nacional. O que significa também dizer que os rios, que abastecem as cidades, principalmente as enormes metrópoles, antes de entrar no perímetro urbano, ou das regiões metropolitanas, tem suas águas extraídas para uso na agricultura e pecuária (60%) e indústrias (próximo a 30%). Esses percentuais variam de estado para estado. Mas o problema é mais grave, e vai longe. E temos estudado também os problemas que advêm do uso da água, principalmente para a agricultura. O fio da meada se perde em suas origens. No entanto, os problemas ao longo de todo o trajeto das artérias hídricas que serpenteiam nosso planeta terra, não podem ser simplificados. Porque é um todo complexo.

Voltemos aos problemas hídricos urbanos. De onde vem as águas que abastecem nossas grandes cidades? Quantos se perguntam isso? Aonde vão as águas que serpenteiam por ruas e avenidas, sob pontes e viadutos, em aquedutos e canais? Onde surgem, brotam, as nascentes que se tornam mananciais que cortam nossa cidade? E no que eles se transformam tão logo derivem um córrego até se encontrar com um rio onde vai compor com este uma bacia hidrográfica? O uso do verbo transformar, no caso, não está posto equivocadamente. Explico.

Nascente do córrego Cascavel

Lamentavelmente sempre se negligenciou o cuidado com nossas nascentes e com os mananciais gerados por elas. Nos últimos anos passou a haver um cuidado maior com as nascentes, diante de uma política de investimento em parques urbanos, nitidamente com o intuito de favorecer o mercado especulativo imobiliário. Houve resultados, parques importantes surgiram e se tornaram opção de lazer para a população. Na maioria dos casos, no entanto, em se tratando das nascentes que se encontram nesses parques a preocupação com suas manutenções não seguem uma rotina adequada. E para além delas, das nascentes, os mananciais que surgem e seguem por diversas direções, seja para o Córrego Botafogo, para o Ribeirão Anicuns e daí para o Rio Meia Ponte, tornam-se canais e consequentemente depósitos de dejetos, esgotos domésticos ou industriais. Por isso eles se transformam, deixam de ser rios, córregos, no sentido adequado dados a eles, para se tornarem esgotos, abandonados pelo poder público e ignorados pela população.

Embora os parques – onde quase sempre existe um lago – sejam um atrativo, com o espaço sendo utilizado pela população para prática desportivas e lazer, as pessoas não se indagam sobre de onde vem suas águas, por onde elas seguem e para onde irão. Há uma total indiferença, porque assim fomos habituados a conviver na cidade com esses elementos, que se tornam mais do que meras paisagens, quase que uma mercadoria pela qual desfrutamos, porque seu esmero paisagístico atende aos interesses de incorporadoras, com o intuito de valorização de imóveis em seus entornos.

Córrego Capim Puba

E desconhece-se a importância que essas nascentes possuem para a bacia hidrográfica que garante o abastecimento hídrico em nossas cidades, bem como irriga uma grande produção de hortifrutis em todo o entorno da região metropolitana, de Goiânia e diversas outras capitais. Cada uma com o seu perfil diferenciado, mas necessariamente sendo servidas por essas águas, que se tornam turvas pela suas transformações em esgotos, sem que haja políticas de saneamentos adequados para nos salvar de uma hecatombe que poderá nos atingir pela escassez permanente de água.

Incomodado com essas questões, a partir de análises feitas com o objetivo de compreender os constantes problemas com o consumo de água e os racionamentos sistemáticos e constantes, sempre que acaba o período chuvoso, cada vez mais irregular, me debrucei sobre esse tema. Isso devido a minha atuação como professor de geopolítica e atento às questões da biodiversidade e hídrica por um olhar estratégico, visto que lidamos com recursos de suma importância para nossas vidas, de valores imensuráveis, embora sendo constantemente objeto de ganância de especuladores e investidores, que passam a ver na água muito mais do que um bem comum, mas uma mercadoria por onde eles podem lucrar investindo e exercendo controle, sob pretexto da inoperância do poder público. Naturalmente, a velha estratégia de deixar de atender uma demanda que seja da responsabilidade dos estados, tornar esse atendimento insuficiente e, assim, entregar em mãos de corporações, cujas preocupações atendem aos lucros de seus acionistas e não o bem-estar da população.

Mas para fugir do lugar comum, da crítica costumeira que fazemos ao que já é sabido, essa inoperância do poder público, resolvi ir em busca de respostas para compreender as condições em que se encontram nossas nascentes e mananciais. Para isso incorporei como atividade aos meus alunos e alunas, trabalhos de campo para identificação das nascentes que estão na região metropolitana de Goiânia e transformei isso em um seminário, por onde, por muito bons trabalhos, eles puderam expor as condições em que elas se encontram, bem como no que se transformam os seus mananciais. Em seguida resolvi cadastrar um projeto junto à Pró-Reitoria de Extensão e Cultura da UFG, denominado “CAÇADORES DE NASCENTES – ONDE NASCEM OS RIOS QUE CORTAM A REGIÃO METROPOLITANA DE GOIANIA”.[ii]

Inspirado em trabalhos já existentes em São Paulo e outros lugares, o objetivo é encontrar as nascentes, verificar suas condições, acompanhar o percurso dos mananciais e como ele chega até o rio principal. Quase sempre o Meia Ponte, que forma a principal bacia responsável pelo abastecimento de nossa capital e da cidade de Aparecida de Goiânia, segunda maior cidade do Estado.

Ao mesmo tempo, em sintonia com escolas de ensino médio e fundamental, estabelecer programas paralelos de acompanhamento dessas nascentes, próximas a essas escolas, e também em conjunto com a comunidade adotá-las, como forma de protegê-las, exigir a devida atenção do poder público e educar as novas gerações com um olhar diferente do que aqueles que a minha geração olhava para esses rios, córregos, riachos e nascentes, que faziam parte do nosso universo juvenil, mas sem o reconhecimento da devida importância para a sua preservação, cuidados e necessidades advindas do fato de estarmos lidando com o recurso mais fundamental para a vida, humana, animal e vegetal.

A par de esclarecer sobre esse trabalho, instigo os que me leem, ou me ouvem, a incorporar esse universo de combatentes, defensores de nossas nascentes. Tão logo as escolas reabram para as atividades presenciais, as visitaremos, especialmente aquelas em bairros cortados por mananciais ou onde situam-se algumas dessas nascentes. Já temos trabalhos feitos pelos alunos e alunas da disciplina “Geopolítica das Águas”, que apontam essas condições. Precisamos ampliar esses estudos, publiciza-los e envolver escolas, associações de moradores, ONGs, empresas, e todos que desejem reverter o situação que afetam esses mananciais, como condição necessária para proteger nossas vidas.

As cidades, como estão, por suas condições de administrações negligentes na questão da proteção hídrica e saneamento, assim como há também as responsabilidades da administração estadual, estão matando nossos mananciais e levando ao esgotamento as nascentes que se encontram espalhadas, e esquecidas, por toda a região metropolitana. É preciso cobrar responsabilidades pela elaboração de políticas de estado, de ações permanentes que revertam uma situação que se aproxima do caos e que levará a racionamentos permanentes até a escassez completa de água. E por fim a um cruel paradoxo, de haver tantas nascentes esquecidas ou abandonadas, e mananciais transformados em esgotos a céu abertos, enquanto falta água para a população.

Enquanto isso, nobres edis, que deveriam fiscalizar a administração municipal, e exigir projetos e planejamento adequados, bem como investimentos estatais a fim de permanentemente cuidar de nossas nascentes, se dedicam a elaborar projetos que visa punir a população pelo desperdício de água. Ora, essa é uma questão de educação e informação, cabe aos vereadores exigir do prefeito responsabilidade no trato desse problema, e não jogar a culpa nas costas das pessoas, que são vítimas, e não culpadas, pela negligência e incompetência dos gestores públicos.

Esse é o meu recado. Água é vida, é um bem comum, não é mercadoria, nem deve servir aos objetivos de empresários do setor da construção para valorizar seus imóveis. Aos que desejarem somar conosco nessa árdua, mas necessária tarefa, o convite está feito. Venha compor o exército dos “caçadores de nascentes”, e façamos nossa parte nessa luta em defesa da água, das nascentes e dos nossos rios.

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sexta-feira, 26 de junho de 2020

NASCENTES: O BERÇO DAS ÁGUAS – ONDE TUDO COMEÇA

Imagem, CPT
Quando nos debruçamos sobre os estudos a respeito da questão hídrica, sob quaisquer aspectos, independente de estarmos falando de crise ou não, mesmo que seja para o simples entendimento de um (quase) mistério que cerca a importância da água em nossa vida, passa despercebido algo que é crucial para termos o entendimento necessário sobre esse líquido vital. Sabemos por um deslumbramento natural para onde vão as águas. Ou para os grandes rios, essa é uma resposta óbvia, mas, também sabemos que dos grandes rios o destino final das águas são os oceanos.
Mas, de onde vem a água? Mais do que um mistério, porque se torna evidente ao mínimo estudo sobre o ciclo da água, isso representa um aspecto da cultura que se criou a respeito desse líquido essencial para nossas vidas. Talvez por estar correndo livremente, pelo menos é o que se imagina, e ser considerado um bem comum (ao menos até então), há uma certa ignorância natural sobre a necessidade e importância de sabermos qual é o ponto de partida dos mananciais, córregos, rios... e até mesmo para se ter uma compreensão em sua origem da formação de lagos, lagoas, açudes, barragens, mares fechados, oceanos. Talvez a questão não seja a indiferença, e até mesmo é lícito considerar que não há ignorância a respeito disso. Mas é fato, que se negligencia o quão é crucial sabermos a origem da água, o conhecimento do ciclo hidrológico, e, naturalmente, a necessidade de protegermos as nascentes, por onde ela retorna à superfície nesse deslumbrante e permanente ciclo que não é infinito, como também não é o fogo, o vento, o ar... a vida.
Óbvio em tudo isso, também, é que sem água não há vida. O que torna esse líquido vital para o ser humano e para todos os seres vivos, de todos os gêneros e espécies.
Na verdade, não se pode falar em um início, de onde se originaria a água, visto que o ciclo, que por seu próprio significado compreende uma permanente rotatividade e renovação, nesse caso por sua essência, não nos permite apontar por onde ele começaria. Naturalmente estamos falando de uma dinâmica que não é meramente repetitiva, mas que devemos observá-la dialeticamente, pois carrega em si mesmo mais do que elementos da matemática. Estamos falando de contradições e de situações que envolvem a natureza como um todo, e, exatamente por isso as condições que são criadas pelas ações antrópicas, terminam por quebrar essa relação, afetando todo um processo que deveria ser permanente e completo em toda a sua complexidade.
É possível, no entanto, apontar um começo de uma brotação da água, por onde ela passa a circular pela superfície da terra, para além de toda a sua dinâmica subterrânea, como parte de seu ciclo. O ponto de partida das águas superficiais é, portanto, uma nascente, por onde a água irá brotar para seguir o seu curso formador de mananciais, rios até desembocar no oceano, e depois evaporar para reiniciar o ciclo. E nesse percurso a vida, em toda a sua essência, se servirá para sobrevivência. Fauna, flora, seres humanos, constroem seus habitats em ambientes que possam lhes garantir água para sobreviver. Mesmo que de forma desequilibrada, com regiões em escassez, ou em estresse hídrico, nenhum ser vivo pode prescindir desse líquido vital para suas vidas.
Nascente - Córrego Vaca Brava - Goiânia
Ocorre que a humanidade, de forma geral, e em nosso caso, o Brasil, com toda a abundância de água, se veem diante de uma situação alarmante quando se trata de recursos hídricos. Entender como isso acontece poderia parecer banal, visto que basta olhar para o ciclo hidrológico para compreender que esse processo precisa ser completado no tempo definido pela natureza. Mas como é possível faltar água, quando ela está disponível? Elementar, seu ciclo tornou-se incompleto, porque foi abortado por ação humana, decorrente das formas de organização, das escolhas dos lugares que fizemos por séculos e milênios, para habitarmos, e pela necessidade de produzirmos em alta escala a fim de alimentarmos uma população que cresceu demasiadamente, e mais ainda a sua capacidade de consumir. Ao exportarmos água, embutida nos produtos (água virtual), quebramos em parte esse círculo.
Contraditoriamente isso se deu exatamente pela capacidade que adquirimos de produzir alimentos a partir do desenvolvimento tecnológico, mas essencialmente por termos controlado esse líquido essencial para vivermos. Na lógica de cada sistema em seu tempo, a água foi se tornando um “bálsamo”, para utilizarmos uma palavra de origem meio asiática e meio africana, mas oriental em seu sentido clássico, como algo que causa conforto, alivia e consola.
Porém dois aspectos devem ser ressaltados para encontrarmos as razões que nos levam a uma encruzilhada, decorrente dessas ações predatórias, ou mesmo que se diga equilibradas quando se faz da tecnologia um mecanismo para ampliar produtividade, e que se aplica também no uso das águas, principalmente na agricultura e na indústria.
Um deles é o crescimento demográfico exponencial, em enormes cidades superpopulosas com péssimos recortes urbanísticos, onde sobressai a destruição de mananciais que foram fundamentais em seus inícios para abastecimento de uma população que cresceu aceleradamente, ao passo em que o recurso hídrico para atender a essa demanda foi se deteriorando pela absoluta ausência de preocupação em mantê-lo disponível para uso dessas cidades que se expandiam, tanto em termos populacionais quanto com o aumento de indústrias.
Nascente: Córrego Beija Flor - Setor Jaó (Gyn)
Nas cidades, outrora surgidas sempre próximas a córregos ou rios, o desprezo por esses mananciais tornou-se uma constante nas políticas desenvolvidas por inúmeros gestores, e pela própria população, que farta das inoperâncias administrativas transformaram esses cursos d’águas em esgotos abertos.
O resultado disso, e suas consequências são visíveis, e óbvias em seus resultados perversos, que se volta contra a própria população. E, para sermos mais diretos e objetivos, contra quase todo o tipo de vida, excluindo-se aqueles microrganismos que se proliferam em função dessas condições de falta de higiene e saneamento básico: fungos, bactérias e até mesmo vírus (embora exista uma polêmica sobre se esses são seres vivos ou não), mas que encontram nesses ambientes os hospedeiros para suas reproduções terrivelmente aceleradas.
Mas não são somente as águas superficiais, mananciais que cortam as cidades ou seus entornos, que se tornam condutores de doenças, motivados pela sujeira e poluição de toda espécie. As fossas, cavadas para dar suporte às necessidades que não encontram suportes em ações de órgãos públicos, ou a ausência de saneamento básico, carregam para os lençóis freáticos todo o tipo de microrganismos que contaminam as águas subterrâneas. Acrescente-se a isso diversos produtos químicos que fazem parte de nosso estilo de vida, tanto em áreas urbanas quanto em seus entornos e zonas rurais, com um enorme contingente de agrotóxico que causa um sem-número de doenças fatais, como diversos tipos de câncer, ou que deixam sequelas, com crianças nascendo com malformações genéticas.
Nascente: Córrego Botafogo
Goiânia
Outro aspecto reside na absoluta ausência de capacidade dos órgãos públicos no atendimento a uma quantidade enorme de bairros periféricos, a partir de um forte crescimento horizontal, que se espalha pelas grandes cidades, e agora com mais força em função de uma quantidade enorme de condomínios fechados, acentuando um problema sério: o esgotamento dos lençóis freáticos.
Se investigarmos encontraremos facilmente locais onde antes brotavam nascentes, e em alguns casos logo adiante poderíamos encontrar um pequeno lago. Mas atualmente vamos nos deparar com um ressecamento dessas nascentes e o gradativo desaparecimento desses lagos, que só retornam a acumular água quando o período chuvoso reaparece. Há naturalmente uma razão, dentre outras, para isso. A ampliação dessa população periférica, e de residências não servidas pelo abastecimento público, leva a que, seja individualmente ou via administrações de uma enorme quantidade de condomínios, a alternativa para que se tenha água a servir-lhes se dê pela utilização da água dos lençóis freáticos, por meio de poços artesianos. Tanto na dimensão de atender a toda uma comunidade, ou com os minipoços artesianos sendo construídos individualmente. E podemos ainda colocar nessa conta, com um consumo ainda maior, as grandes empresas, seja indústrias ou grandes atacadistas, que buscam as proximidades das rodovias e pontos distantes do centro urbano, naturalmente não servidos pelo poder público para o abastecimento hídrico.
As consequências de todo esse processo nos trás de volta ao começo: as nascentes. Com o nível dos lençóis freáticos diminuindo gradativamente pelo uso acentuado desses poços artesianos, e uma distribuição pluviométrica aleatória, a recomposição obedecendo o ciclo hidrológico se torna mais lenta do que naturalmente deveria ocorrer. Assim falta força nesses lençóis para trazer a água de volta para a superfície, por meio das nascentes. Ou, se não quisermos usar essa expressão, podemos dizer que por uma questão natural, o volume dos lençóis freáticos deixam de ser suficientes para trazer a água de volta, via nascentes, para a superfície, ressecando lagos, mananciais (que se tornam intermitentes) e provocando estresse hídricos, ou levando a situações de escassez permanente, caminho para o qual parece estarmos indo.
Não nos parece, diante de todo essa incapacidade pública de lidar com o problema, que as medidas que estão sendo pensadas venham para resolver os problemas. A recente aprovação de um projeto de lei que retira do poder público a responsabilidade com isso, e divide com a ânsia gananciosa das empresas privadas, não nos permite sermos otimistas quanto ao que acontecerá em um futuro próximo.
Nascente: Córrego Capim Puba - Goiânia
Incapaz de compreender a dimensão de uma realidade perversa, criada pela própria inépcia em lidar com essa questão, o estado abdica de assumir o protagonismo para adotar medidas urgentes e transfere para empresários sequiosos de lucros as ações tanto na gestão da água, quanto do saneamento. Não é preciso ser muito inteligente para perceber que tudo isso resultará em uma maior desigualdade no atendimento à essas demandas, como já aconteceu em outras partes do mundo, levando a que alguns governos recuassem nesses processos perversos de privatização desses serviços.
Se o poder público, abre mão de suas responsabilidades, e joga isso para o poder usurário, só restará às comunidades se juntarem, resistir e defender a todo o custo a manutenção de medidas que preservem as nascentes, que protejam os mananciais e que se preocupem em recompor uma natureza destruída pelo nosso estilo de vida, e pela lógica do funcionamento do sistema em que vivemos.
Como está acontecendo em outros países, está nas mãos dessas comunidades uma reação a tudo isso, pelo bem de suas sobrevivências. E não será exagero dizermos que estamos entrando numa era em que as próximas guerras, ou conflitos internos, se darão pela necessidade de defender os recursos hídricos, isso em meio a todos os tipos de desequilíbrios que já enfrentamos, como consequência de nossa incapacidade de lidarmos com o óbvio: a natureza é viva, permeada de contradições, e destruí-la é meio caminho andado para acabar com a nossa existência. Sem água, não há vida. E são pelas nascentes que elas devem retornar aos seus caminhos naturais.
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(*) As fotos, com exceção da primeira, foram feitas por alun@s da disciplina Geopolítica das Águas (2019), em um trabalho de grupo e seminário que visava avaliar as condições das nascentes na cidade de Goiânia e Aparecida de Goiânia.

domingo, 30 de junho de 2019

É A GEOPOLÍTICA, ESTÚPIDO!

Chefes de Estado do G20.
Difícil é encontrar o brasileiro.
Este artigo foi sendo escrito ao final do encontro da “Cúpula do G20”, em Osaka no Japão. Evento que reúne as maiores economias do mundo. Para além de todas as polêmicas que envolveram as discussões nesse encontro de repercussões mundiais, e não poderia ser diferente, há um substrato, para mim importante, que gostaria de destacar. É o que envolve a importância da geopolítica, cada vez sendo mais referenciada nas discussões, acordos e análises sobre as transformações que acontecem no mundo.
O comunicado oficial, final, do G20 se refere explicitamente a “intensificação de tensões comerciais e geopolíticas” no mundo. Consequência de uma situação de crise internacional, que afeta a economia mundial, coloca muitos países em condição de recessão, espalha medo e temor por todo o mundo em função de atritos gerados por políticas protecionistas e unilaterais de alguns países, em especial os EUA, além dos potenciais conflitos que envolvem nações que situam-se em posições estratégicas, particularmente no Oriente Médio, mas, principalmente aquelas que possuem grandes reservas petrolíferas. Além de outros fatores, como os problemas ambientais, o deslocamento de populações, o aumento da pobreza, até mesmo nos países desenvolvidos, e as trasnformações geradas pelo crescimento do gigante chinês, seja nos avanços tecnológicos e na ousada constituição da nova Rota da Seda.
Uso aqui, no título, uma expressão muito conhecida internacionalmente, transformada quase em um mantra, proferida por um assessor de Bill Clinton, num período eleitoral, quando ele dizia que a economia é o elemento principal a definir a política, e, no caso específico, uma eleição presidencial. Procura, assim, dizer que as questões mais sensíveis de um estado-nação estão ligadas à situação econômica, e que isso implica num embate eleitoral, naturalmente.
Faço um paralelo aqui com a geopolítica. Desde que a economia se tornou globalizada, mas não somente depois disso, as questões geopolíticas tornaram-se determinantes nas relações internacionais. Isso se compreendemos, como é natural que façamos, que a geopolítica é o olhar estratégico, tanto analítico, como do ponto de vista das ações governamentais e até mesmo do cotidiano e da vida de qualquer pessoa que deseje focar em seus objetivos e poder alcançá-los definindo os caminhos que a levará a atingir seus desejos e planos adredemente definidos.
No entanto, o que desejo aqui neste artigo é provocar uma discussão, ou prolongar uma discussão que tenho feito ao longo desses anos, que pode ser comprovado aqui em artigos já escritos neste blog. Porque a Geografia não valoriza a Geopolítica, mesmo diante da importância que ela tem tomado desde o final do século XX? Por um lado compreendo, assim como o faz Yves Lacoste, e é nele que me espelho, que a Geopolítica e a Geografia são a mesma coisa. Deixou de ser a partir do momento em que, após a segunda guerra mundial a geopolítica foi estigmatizada, não somente porque ela foi sabidamente utilizada no aparato belicista da ascensão nazista (embora fosse também utilizada por todos os demais países envolvidos naquele e em todos os outros conflitos). Mas houve outro elemento determinante nessa separação da Geopolítica da Geografia. Os embates entre duas escolas acadêmicas na área da Geografia, a lablacheana, francesa; e a ratzeliana, alemã. Os franceses, vitoriosos na segunda guerra, ao lado dos aliados, impulsionou uma desavença bem anterior, fomentada por historiadores que buscavam uma “revisão” historiográfica, e fizeram surgir a “história dos annales”. Assim, buscaram desacreditar essa vertente importante da geografia, de forma a evitar que viesse se sobrepor à história, e, ao mesmo tempo, seguir por um caminho que pudesse reduzir a abordagem política das interpretações geográficas, focadas a partir de então, prioritariamente no cotidiano das relações sociais.
Essa armadilha feita para a Geografia funcionou perfeitamente, e, paradoxalmente, constituiu-se em uma estratégia vitoriosa nessa construção historiográfica. Espalhou-se pelo mundo uma compreensão de Geografia focada naquilo que os franceses compreendiam como elementar para projetar o estado-nação, os estudos regionais. E o planejamento, muito embora devesse necessariamente partir de uma visão estratégica, se constituiu no olhar essencial a partir de divisões regionais que acompanhavam a constituição física e geomorfológica, definindo a partir daí os estudos que orientavam as administrações estatais os tipos de investimentos que devem ser feitos, constituídos a partir dessas características locais e regionais.
Isso é algo absolutamente correto, não há o que negar nesses aspectos, que se constituem nos dias de hoje elementos essenciais para planejamentos urbanos, regionais e ambientais. No entanto, o elemento crucial, e a essência da geografia, deixou de ser observado. Sua importância estratégica, o olhar político que possibilita a ampliação da capacidade crítica e o equilíbrio na identificação dos interesses que estão por trás de qualquer decisão que envolva as questões de Estado. Enfim, a Geopolítica, como elemento fundamental para que possamos ter a compreenssão macro e micro que circunda a própria Geografia como aquilo que muitos chamam de “a ciência dos lugares”, o que nos possibilita compreender tudo aquilo que está à nossa volta, a ligação inevitável que existe entre todos os lugares, nossas vidas e o ecúmeno.Somos movidos pela política, a capacidade de nos entendermos em sociedades cada vez mais complexas (embora se tente desconstruir a política nos dias atuais, mas isso é também um objetivo político). Portanto, é impossível pensar a Geografia sem a política, pois é ela, essa ciência, ou esse saber como desejam alguns, que explica a nossa existência em toda essa dimensão compreendida por milhões de quilômetros quadrados em um planeta esférico, embora a alienação e estupidez de alguns a vejam como plana. Mas os que pensam assim, somente refletem também a forma de seus cérebros.
A Geografia sem a política, é nula de entendimento da realidade. Abstrai-se nas especificidades, e somente serve às vaidades de quem foca seus conhecimentos de maneira limitada, desconsiderando a necessidade de junção de todas as partes que compõem o conhecimento geográfico. Prender-se somente a essas especificidades é reduzir a importância da Geografia, na verdade negá-la, e assumir-se enquanto condutor de uma parte que desconexa-se de um eixo. Os caminhos trilhados pela pós-graduação, seguindo a força imposta pelo globalismo neoliberal, consolidou esse viés, difícil de ser desfeito, principalmente por vivermos um tempo de negação da política.Contudo, isso não impede de reconhecer na Geografia, e na Geopolítica, aqueles elementos que nos dão a possibilidade de conhecer, em toda a essência de uma dialética que é real, como se dão as transformações que ocorrem no mundo, seja econômica, ambiental, da escasse hídrica, de alimentos, portanto não somente no que se convencionou imaginar como sendo o único elemento a se entender pela geopolítica: a guerra. Algo já há décadas desmistificado por um movimento de resgate da geopolítica, melhor dizendo, de retomada da política na Geografia, liderado por Lacoste. Mas o que veio depois, a onda neoliberal globalizante, em pouco tempo levou ao esquecimento desse resgate e prevaleceu a fragmentação e, se não a negação, a quase absoluta indiferença em relação a inserção da política como parte essencial e necessária da compreensão geográfica.,
Isso não muda somente com a referência permanente à Geopolítica na mídia ou nesses encontros de chefes de Estados, depende de novas compreensões, de reorientação e reconstrução de uma Geografia que retome a visão de totalidade e compreenda que nesses novos tempos de negação de conhecimentos elementares transmitidos pela universidade, a força desse saber está exatamente em poder dar resposta concretas aos dilemas que angustiam o mundo. Não sozinha, porque também vivemos no tempo de uma necessária multidisciplinaridade, mas jamais conseguirá ser forte como é preciso se se mantiver fragmentada e negligenciando a sua essência fundamental, a política. Que as novas gerações de geógrafos consigam romper com esse viés que acompanha boa parte das gerações que lhes orientam, formadas numa era neoliberal e fragmentária, e resgate para a geografia a importância do saber estratégico que lhe deve ser inerente.



domingo, 12 de novembro de 2017

ENQUANTO A CHUVA CAI A ÁGUA SE ESVAI - ESCASSEZ E ESTRESSE HÍDRICO

Enfim, a chuva chegou! E como no velho niilismo nietzschiano nos vemos preso a um fim que não se acaba e estará de volta em um eterno retorno de um discurso que retomará seu recomeço no próximo período de estiagem.
É impressionante como recorrentemente o problema hídrico é tratado somente no limite da necessidade. Há um provérbio popular que sintetiza bem isso: “Só percebemos o valor da água depois que a fonte seca”. Naturalmente, o interesse da grande mídia comercial está na criação de um sentimento de perplexidade, e da geração de temores e medos que compõem o universo dos jornais e telejornais sensacionalistas, em sua maioria. Às vezes até aparecem boas reportagens sobre o assunto. Mas pecam pela superficialidade, e pela insistência em tratar o problema da falta de água como decorrente dos gastos abusivos, ou excessivos, por consumidores urbanos.
Podem acontecer abusos, e certamente acontecem, no uso da água nas cidades. Mas longe está desta ser a principal razão da grave crise hídrica que ameaça não somente a economia, mas como nossas próprias vidas, humanos, animais ou plantas. O mesmo pode-se dizer da forma como aparece na abordagem dos problemas climáticos, insistentemente focado no discurso do aquecimento global com um viés voltado para o interesse da reestruturação capitalista e favorecimento das grandes corporações. Desvia-se do eixo central, das questões que são, de fato, as responsáveis pela forma com a falta de água se tornará, provavelmente tendo seu auge em 2050, no pior problema da humanidade para o século XXI.
A literatura acadêmica, focada em pesquisas sobre esse tema, tem apontado há mais de uma década, não somente os diagnósticos que indicam as causas da crise hídrica seja escassez ou estresse, como também indicam as necessárias medidas para amenizar esse problema. Mas, tanto o diagnóstico, quanto as medidas a serem tomadas, esbarram na forma perversa como funciona o sistema capitalista, ou decorrente da escolha de um estilo de vida altamente urbanizado, exageradamente marcado pelo consumismo, mas, principalmente devido ao fato de todos citadinos necessitarem adquirir os alimentos necessários à sua sobrevivência. Ao contrário de sistemas anteriores, por séculos e milênios passados, em nossa época os bilhões de pessoas que vivem nas cidades não produzem seus próprios alimentos. Essa equação, aliada à lógica gananciosa e usurária que marca a vida contemporânea, dificulta a tomada de decisões que são essenciais para conter essa crise.
Com algumas indagações, que o levam a iniciar a discussão sobre o problema da escassez de água, Laurence Smith é um daqueles que veem na falta de água uma ameaça para o futuro da humanidade. Em sua obra “O mundo em 2050”, ele dedica boa parte a essa discussão.
O que nos reserva o futuro? Nossa água está acabando, a exemplo do que acontecerá com o petróleo? Nos últimos 50 anos, dobramos nossas terras cultivadas irrigadas e triplicamos o consumo de água para atender à demanda global de alimentos. Nos próximos 50 anos, teremos de dobrar mais uma vez a produção de alimentos. Será que haverá água para tudo isso?i
Apesar de, diferentemente do petróleo, retornar à superfície por meio de um ciclo hidrológico que a renova permanentemente, a celeridade com que se dá o consumo esgota rapidamente a água superficial, ou mesmo os lençóis freáticos, o que levará inevitavelmente à escassez, ou ao estresse hídrico.
Mas há uma cegueira ideológica na identificação dos problemas, ou melhor, das causas que são geradoras de um consumo elevado e com intenso desperdício desse recurso. Como questiona Smith, até onde será possível ir a nossa capacidade de produzir alimentos para abastecer cidades com milhões, ou dezenas de milhões de habitantes? Mas não somente alimentos. Tudo o que se produz depende da água, na indústria, na construção, nos usos diversificados urbanos. 
Em um dos artigos que produzi aqui neste blog, e que tinha também a água como referência, abordei esse tema diante da grave situação que passa o bioma cerrado.ii Desta feita, embora ainda procurando reforçar esse problema, por ser este o bioma que concentra uma enorme quantidade de nascentes que formam as principais bacias brasileiras, vou dar mais amplitude ao tema. Embora não seja a primeira vez que faço isso. O fiz também quando a cidade de São Paulo correu um sério risco de desabastecimento, em decorrência da diminuição do volume de água do sistema Cantareira, conjunto de barragens que abastecem aquela cidade, por meio de dois outros textos.iii De lá para cá, o problema tem se agravado, muito embora no caso específico do Estado de São Paulo, o governo tenha iniciado um conjunto de obras visando a transposição do rio Paraíba do Sul. Só que são soluções que não atingem o problema da redução dos níveis de água, e gerarão outros efeitos colaterais. No caso deste rio a situação já está crítica em alguns pontos, de diminuição do volume de águas, em função da destruição de suas margensiv e da poluição que tem afetado a reprodução de diversas espécies de peixes, alguns já à beira da extinção.v
É correto agir para evitar desabastecimentos nas grandes cidades, em todas as aglomerações urbanas, obviamente, até porque constitucionalmente a prioridade do uso da água deve ser para atender as necessidades humanas. Mas a gestão que os governos aplicam quando a questão é a água, se limita somente a isso. E não de forma preventiva, com algumas exceções, mas as medidas são tomadas quase sempre quando o problema atinge o seu ponto crucial, de estresse ou de escassez hídrica.
É bom que se diga, antes de qualquer aprofundamento nas razões dessa crise, que o estresse hídrico ocorre quando há água, mesmo que em quantidade elevada, mas é insuficiente para atender a demanda, tanto do uso urbano, quanto na indústria e agropecuária.
Pode-se definir o estresse hídrico como resultado da relação entre o total de água utilizado anualmente e a diferença entre a pluviosidade e a evaporação (a água renovada) que ocorre em uma unidade territorial, em geral, definida por um país.vi
Já a escassez decorre pela absoluta falta de água numa determinada região, que pode vir a ocorrer também como consequência dos usos abusivos e da consequente diminuição do volume de água. Ou seja, o estresse hídrico pode vir a se transformar, futuramente, numa escassez crônica.
A escassez hídrica é uma das medidas de avaliação geográfica de uma unidade territorial. Ela pode ser física e econômica. Quando a quantidade disponível de água de um país não é suficiente para prover as necessidades de sua população, existe uma escassez física de água. Se um país não tem recursos financeiros para levar água de qualidade e em quantidade suficiente à sua população, apesar de ela ocorrer em seu território, a escassez é econômica.(idem)
Objetivamente pode-se encontrar resposta para as dificuldades de diversas regiões do mundo em ter acesso à água potável, seguindo-se o processo produtivo, os mecanismos que levam à produção industrial, à criação de gado e, principalmente à agricultura, com uso intensivo de irrigação, completamente fora de controle. Neste último caso, embora a irrigação seja um elemento essencial para garantir produção de alimentos suficiente para alimentar a população, a preços acessíveis, a ausência de fiscalização sobre os métodos adotados, muitos deles feitos de forma clandestina, tem sido um fator de destruição de importantes rios. Aqui no Brasil isso é nítido, é sabido, mas não é fiscalizado como deveria. E quando há fiscalização e multas os punidos não pagam, em função do poder exercido pelos grandes produtores rurais, absenteístas em sua maioria, latifundiários e que são responsáveis por produção em larga escala de monocultura.
Canal ilegal desvia água para irrigação
 - Rio Araguaia - G1
Recentemente no Estado de Goiás, como consequência de uma forte seca provocada por uma prolongada estiagem, e que teve como efeito colateral o esvaziamento de rios importantes para o abastecimento (veremos mais adiante que a seca é consequência, não causa), levou a intensificação da fiscalização em diversas bacias, como as bacias dos rios Meia Ponte e Araguaia, a fim de garantir o direito da água à população urbana, mas esse é um problema antigo, sem que haja punição aos que desviam água sem licença, ou quando a tem extrapola o limite do que lhe é permitido.
O que se vê, de forma impune, embora sob investigação do Ministério Público, é uma série de irregularidades praticadas por grandes produtores rurais, com desvios de águas do rio Araguaia por meio de extensos canais.vii No entanto isso já ocorre há tempos, e mesmo na reportagem citada isso é dito como se fosse natural, pois há abertura de processos, a indicação de multas, mas esse setor consegue por meio de forte articulação política, concentrada numa bancada poderosa no Congresso Nacional, se livrar de qualquer punição. E seguem cometendo irregularidades no uso da água. Não são poucos os que assim o fazemviii, e, embora essas últimas ações estejam concentradas no Rio Araguaia, elas se estendem por todo o Estado de Goiás e por diversos outros estados brasileiros, levando destruição a rios importantes da hidrografia brasileira, e ressecando pequenos córregos e riachos também por meio de outras ações destrutivas.
Captação irregular de água
 do rio Meia Ponte - GO
Poderíamos listar aqui diversos outros casos de irregularidades na captação de água para irrigação, bem como o desperdício gerado pelo uso de velhos pivôs centrais. Na região de Cristalina, muito embora haja em algumas propriedades técnicas mais sofisticadas, com uso de tecnologias modernas que controlam a emissão de água e até mesmo o horário em que isso ocorre, elas compõem uma minoria. Soma-se a esses fatores a disputa entre irrigantes e investidores de Pequenas Centrais Elétricas (PCHs), bem como de obras mais suntuosas para geração de energias, barragens que prejudicam o curso normal das águas do rio São Marcos e de outros, e afetam também espécies da fauna fluvial, em alguns casos de forma irreversível.
Mas a discussão em torno do problema da escassez de água, bem como da seca gerada pela irregularidade além do natural, do ciclo das chuvas, se dá, a meu ver, de forma enviesada. Nada, no entanto, que não siga um roteiro pré-elaborado por quem controla setores que tem interesses na criação de uma opinião consensual, no caso mais em conta o “aquecimento global”, a fim de proceder a transformações na matriz energética e prosseguir na reestruturação do capitalismo.
As mudanças climáticas estão a ocorrer, naturalmente. E não há dúvida que a ação humana contribui para acentuar desequilíbrios e potencializar transformações que, pelo tempo, demorariam mais a ocorrer, ou não se dariam com a intensidade com que acontece. Portanto, as alterações climáticas são fato, acontecem, e a ação humana tem reflexo nisso.
Contudo, a dimensão que se dá ação humana tem mais a ver com questões da geopolítica do que com a climatologia, por exemplo. Mas seja por aí, ou pela física, oceanografia, geografia, ecologia, biologia… etc… etc… etc... Explico.
Pivôs ilegais captam água
do rio araguaia
É importante considerar que as duas questões estão ligadas. As discussões em torno da crise hídrica, bem como a que envolve as mudanças climáticas.
A insistência em centrar no consumo urbano o problema da água, ou de considerar que o aquecimento global se deve principalmente a efeitos colaterais da industrialização, esconde a essência do problema, as reais causas que estão deteriorando nossa qualidade de vida no Planeta Terra. O interesse em desviar o foco, ou em construir versões sobre as causas, tem o objetivo de amenizar as responsabilidades sobre a maneira como o sistema capitalista esgota nossos recursos, destrói a natureza e impacta perversamente no clima, principalmente nas regiões com altos índices de urbanização, como decorrência de um estilo de vida que implica em consumir além daquilo que o planeta pode oferecer para produzir mercadorias.
As interferências das atividades humanas no ciclo hidrológico ocorrem em todos os continentes e em muitos países. Os impactos dessa intervenção no ciclo variam para cada região ou continente. De modo geral esses impactos são:
a) construção de reservatórios para aumentar as reservas de água e impedir o escoamento;
b) uso excessivo de águas subterrâneas;
c) importação de água e transposição de águas entre bacias hidrográficas.ix
Complexo de represas em fazend
a na cidade de Inhumas
 - águas do meia ponte - O Popular
O que aponta Tundisi é o resultado desastroso de ações que são feitas sem a devida adoção de mecanismos protetivos, bem como ausência de planejamento para garantir que um bem imprescindível não corra o risco de se acabar. A gestão dos recursos hídricos somente acontece na contracorrente das necessidades. Ou seja, não estabelece a priori políticas que antevejam os riscos da escassez hídrica. As medidas somente são tomadas quando se está no limite da utilização da água, mormente em períodos de estiagem.
Inevitavelmente, esse descontrole afetará o ciclo hidrológico, que por sua vez implicará em desequilíbrios climáticos e oscilação acentuada de temperaturas. Na situação atual, de aquecimento sucessivo em algumas regiões, mas o efeito não é global, já que ele ocorre de forma diferente porque a própria distribuição da água é desigual no planeta e cria desequilíbrios naturais.
O fato é que há uma relação dialética entre a crise hídrica, as constantes mudanças climáticas, em um tempo mais acelerado que o normal e o intenso desenvolvimento capitalista. No entanto, é necessário ter a compreensão exata de quais são os elementos nesse processo que são responsáveis por esse desequilíbrio.
Mesmo que não houvesse mudança climática, o mundo continuaria enfrentando o declínio no abastecimento de água per capita por causa do desenvolvimento econômico e do crescimento da população. Mesmo que pudéssemos congelar o crescimento populacional, a modernização significa maior consumo de carne, bens acabados e energia; tudo isso eleva o consumo de água per capita. Contrariando a crença popular, o crescimento populacional e a industrialização representam ao suprimento de água global um desafio ainda maior do que a mudança climática.x
Ou seja, é exatamente as condições criadas por um modo de produção acentuadamente predatório, na medida em que constitui um estilo de vida consumista baseado no crescimento econômico concentrador, reprodutor de mercadorias em larga escala, bem como em uma urbanização acelerada, e que leva a necessidade de suprir populações concentradas aos milhões em centros urbanos, que torna difícil a solução dos problemas.
Desvio de água - Rio Descoberto
- You tube
Mas, tem sido mais difícil identificar essas soluções porque o foco dos possíveis motivos geradores desses desequilíbrios se concentram nas consequências, e não nas causas. E a forma como a grande mídia comercial trata esses problemas gera mais dificuldades na identificação das causas reais. Por um lado espetaculariza a informação e por outro não responsabiliza como deve os principais agentes causadores das condições que aceleram destruição de ecossistemas e biomas.xi
Volto a insistência como se trata do fenômeno que se tornou midiático, o “aquecimento global”. Ele (o discurso, e/ou a preocupação) surge por efeito da crise econômica e do deslocamento do centro produtor de mercadorias, e naturalmente, concentrador do dinheiro, dos Estados Unidos e Europa para a Ásia. Ao mesmo tempo, o crescimento de outras economias regionais, de menor porte, que foram colocadas na condição de, agora, serem responsáveis pela intensificação da emissão de gases gerados pelo forte desenvolvimento industrial e pelo uso de matrizes que potencialmente impactariam nos efeitos climáticos, gerando um aumento da temperatura em todo o globo.
Portanto, todo o discurso que há por trás dessa questão envolve elementos de geopolítica, e ao mesmo tempo, o que é cruel a meu ver, encobre as razões naturais tanto dos desequilíbrios climáticos regionais como da escassez e estresses hídricas. Porque visivelmente abrange interesses estratégicos, tanto econômicos como na disputa por recursos naturais.
Trocando em miúdos. O problema que se acentua gravemente no Brasil, mas que afeta também outras partes do mundo por diversos continentes, a deficiência hídrica, é causada por essa forma de desenvolvimento que destrói a natureza. E as medidas, ou repercussões dessa crise, só aparecem nos períodos em que ocorre ausências de precipitações pluviométricas.
Vou ficar no exemplo do Bioma Cerrado. Esse que já foi considerado por Guimarães Rosa como “a caixa d’água do Brasil”. E que de fato pode ser assim chamado, por ser por meio de suas nascentes, córregos e rios, que se formam algumas das principais bacias brasileiras. Mas, que sabemos, o problema não se resume a um único bioma, afeta os demais de forma diferente, pela especificidade em suas características geomorfológicas.
Ocorre que nos últimos anos houve uma intensificação acelerada da produção agrícola e criação de gado, impactando fortemente nesse Bioma. A redução do mesmo decorre da exploração predatória, baseada na grande produção de monocultura em propriedades latifundiárias que usam fartamente, por meio de grandes pivôs centrais, a irrigação como forma de aumentar suas produtividades. E o Estado é o financiador dessa situação, muito embora não o faça na mesma proporção, em termos de importância na cadeia de produção alimentar, com os pequenos produtores e com a agricultura familiar (que recebeu uma certa atenção na primeira década do século XX, mas que vê isso retroceder diante da crise que afetou o país e que levou à deposição da presidenta legitimamente eleita).
Mas além de citarmos a irrigação, é preciso identificar um problema anterior. O desmatamento, que destrói aceleradamente o Cerrado e leva ao fim, além de uma rica biodiversidade, as veredas, principais fontes de água, por cujas nascentes formam-se córregos e rios. Tanto o desmatamento, como o pisoteio do gado, são fatores destrutivos que vão reduzindo a capacidade de recarga e consequentemente tornarão córregos e rios de perenes a intermitentes. Registre-se que o Centro-Oeste é o maior produtor de gado bovino do Brasil, e somando-se com a região Norte, concentram mais da metade dessa produção. Justamente as regiões que atualmente mais são afetadas pelo desmatamento.xii
UHE_batalha - rio são marcos go-mg
É óbvio que a consequência disso será a diminuição do volume de águas que verterá para os principais rios que formam grandes bacias. Aliado a isso, as intervenções que são feitas para construção de barragens, seja para Pequenas Centrais Elétricas, ou para Grandes Centrais Elétricas, causam fortes impactos também sobre a fauna fluvial e gradativamente reduzindo o tamanho e a importância daquele rio. A destruição de suas margens, ou matas ciliares, consequência do desmatamento, da extração descontrolada de areia e em muitos casos devido a garimpos clandestinos, são outros fatores que transformam a paisagem por todo o percurso de montante à jusante e vão reduzindo o volume desses rios até que em alguns casos eles cheguem à sua foz na condição de um pequeno riacho.
Essas ações predatórias são as principais razões pela redução da capacidade hídrica de uma determinada região. E isso tem acontecido numa escala criminosa no Bioma Cerrado, a ponto de, pela primeira vez a capital federal, construída bem no coração desse bioma, passar pela primeira grande crise de escassez, levando a necessidade de rodízio na distribuição a fim de evitar uma situação mais drástica de absoluta falta de água para toda a capital federal.
Nascente do córrego Santa Clara
- Araguaína TO Assentamento Gurgueia
- Desvio de água por fazendeiro
Mas embora seja óbvio para os que estudam os problemas hídricos, inclusive da gestão, onde estão as origens dos problemas, os lobbies organizados que reforçam o poder dos grandes proprietários de terras, representados por uma forte bancada de parlamentares no Congresso Nacional, pressionam os governos para que isentem as dívidas daqueles produtores flagrados em ilicitudes na exploração da água. E, sob o argumento de que a produção de alimentos é uma necessidade para alimentação de uma população crescente, reivindicam mais investimentos para ampliar a área irrigada, sob o pretexto de que há ainda no Brasil um enorme potencial hídrico a ser explorado. O que pesa, na verdade, para além dos rumos que pode ir nossa capacidade hídrica, é a ganância e os lucros que são gerados para manter a opulência de uns poucos, que estão sempre protegidos desses infortúnios, já que a escassez de água afeta principalmente a população mais pobre.
Infelizmente, os governos dos Estados que compõem o bioma Cerrado, cometem desatinos quando desviam recursos que deveriam ser investidos na prevenção dessas irregularidades e punição de criminosos que não só destroem mananciais e fontes por onde nascem o líquido essencial à vida. Além de acobertarem, juntamente com uma justiça venal e uma incompetente Agência Nacional de Águas, as recorrentes irregularidades praticadas por grandes produtores, em muitos casos uma casta da qual eles próprios fazem parte. Banalisam a importância de cuidar bem dos recursos hídricos e estupidamente se escoram na ilusão de que a água é infinita.
Outro aspecto, de certa forma também de difícil solução, haja vista a incompetência dos gestores na administração pública, cujo foco é sempre a eleição seguinte, é a absoluta ausência de um planejamento adequado que identifique quais setores são estratégicos para a manutenção e fortalecimento do espaço vital seja nacional, ou regional. E no caso das grandes cidades, principalmente as capitais, as condições de crescimento levaram a uma absoluta inoperância na preocupação com o abastecimento de água na mesma proporção e aceleração com que se dava o crescimento populacional. Enquanto isso, nascentes eram aterradas, córregos transformavam-se em canais e a quase totalidade dos que cortam as zonas urbanas foram transformados em depósitos de descargas de dejetos de casas e indústrias, constituindo-se em verdadeiros esgotos a céu abertos. As águas que por ali circulam em tempos de grandes pluviosidades perdem-se na podridão e não são aproveitadas para consumo. Em tempos de estiagem o que prevalece são os líquidos que saem dos esgotos.
Esgoto no meia ponte
(Domício Gomes - O Popular)
No entorno das cidades, os cinturões verdes, de produção de hortifrutícolas, disputam boa parte dessa água e a usam para irrigação. Até aí se pode dizer ser um uso tolerado, na medida em que são produtores que abastecem as feiras e centrais que distribuem frutas e verduras essenciais em nossa alimentação. O problema é que não há fiscalização adequada, nem se busca usar de novas tecnologias para amenizar os gastos de água. Invariavelmente o poder público prefere grandes financiamentos para empreendimentos de produção para exportação, menosprezando a importância do pequeno produtor. Que de outra forma não consegue adequar seu sistema de irrigação às necessidades de controle do consumo de um recurso em absoluta escassez. Sem contar que alguns usam águas poluídas e produzem alimentos contaminados geradores de doenças para a população.
Mas, dessa forma, e sem o devido planejamento, a água que cruza as cidades são impróprias para o uso, e as que as circundam, ou mesmo que estão prestes a serem captadas pelos sistemas de abastecimentos, vão tendo o volume reduzido pelo uso que se faz dela para irrigação a montante. Só que essa é uma situação absolutamente previsível. Assim como é a previsibilidade de que após o período chuvoso, já que a água que escorre por esses mananciais torna-se imprópria para consumo e perde-se rapidamente nas vias impermeabilizadas, um novo período de estiagem, sempre com maior intensidade, virá para preocupar e gerar pânico e revolta entre as pessoas.
Rio Meia Ponte - Goiânia - O Popular
A alternativa encontrada por muitos, os que tem condições para isso, naturalmente, inclusive condomínios horizontais e empresas, é recorrer às empresas que instalam poços artesianos. Ora, como a cidade cresce acentuadamente, e se espalha por uma periferia cada vez mais distante do centro, o abastecimento de água demora a atender a essa crescente demanda. A retirada de água dos lençóis subterrâneos assume assim a condição de prover inúmeras residências do abastecimento necessário, obviamente. O que resulta disso? O aumento da retirada de água desses canais subterrâneos faz com que os mesmos se esgotem gradativamente, reduzam o volume dessas águas e forçando a que cada vez mais seja necessário aprofundar os poços para atingi-los. Ao mesmo tempo, isso vai afetar o processo de recarga de água e será também gerador do esgotamento de inúmeras nascentes, cujas águas desaparecem como decorrência da diminuição da quantidade que existem nesses lençóis e aquíferos.
E, para voltar a um tema espinhoso, que continuará por muito tempo gerando polêmica e repercussão, o “aquecimento global”, suponhamos que os céticos estejam errados, e, de fato se possa considerar essa expressão para se referir às transformações climáticas que acontecem no mundo. Não será, contudo, repito, por causa dos efeitos gerados pela industrialização, e consequentemente pela atual matriz energética, que esses desequilíbrios ocorrem. Mas pela destruição acelerada da natureza, pelo desmatamento em larga escala e a consequente destruição de nascentes, córregos, riachos e rios.xiii O maior perigo do mundo, inegavelmente, está na possibilidade de uma escassez geral da água, por não haver nenhuma alternativa para a humanidade com o fim de um líquido que é vital para a vida.
Canal clandestino de desvio de água
Não me parece que tudo que aqui escrevi seja novidade. Como já disse, eu mesmo já publiquei alguns artigos neste blog alertando para os problemas que advirão devido à incapacidade de lidar com o controle do uso da água. Acontece que, e aí termino da forma como comecei, sempre que a situação chega num ponto crônico em função do aumento do período de estiagem, soa o alarme, a mídia se alvoroça e confunde na explicação, cria um pânico que é natural, já que a falta de água é a pior coisa que existe para a vida. Aí temos alguns momentos de preocupação, e vemos as autoridades se debaterem com uma situação que não poderá ser resolvida no auge de uma escassez real.
O que estou a propor, portanto, é que devemos urgentemente encontrar o eixo correto para identificar as causas que estão nos levando por um caminho que pode tornar-se difícil de recompor o que se está a destruir. Claro que ainda é possível corrigir esses rumos, a ciência ajuda, com certeza. Mas é na gestão, no planejamento estatal e fiscalização severa, que devem se concentrar as principais correções.
Mas, de repente, vem a chuva! É como o soar dos sinos, alertando para um novo tempo. População, meios de comunicação (com exceções) e autoridades se quedam aliviados. Eis que a preocupação passa a ser a quantidade e a força com que cai a água, e as atenções agora voltam-se para aquelas populações, as mesmas vítimas principais da estiagem ou da seca, que vivem em áreas de riscos e correm o perigo de serem arrastadas por enchentes causadas pelas péssimas condições da arquitetura das cidades. E boa parte desta água, como visto, não poderá ser aproveitada.
Enquanto a chuva cai, a água se esvai.
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NOTAS:
i SMITH, Laurence C. O Mundo em 2050: Como a demografia, a demanda de recursos naturais, a globalização, a mudança climática e a tecnologia moldarão o futuro. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011. Pág. 71.
iv http://ranoticias.com/2017/10/29/o-paraiba-agoniza-pois-e-sangrado-em-varios-pontos-ate-chegar-onde-deveria-repousar/
vi RIBEIRO, Wagner Costa. Geografia Política da Água. São Paulo: Annablume Editora, 2008. Pág. 62.
vii https://g1.globo.com/goias/noticia/mpf-e-mp-entram-com-acao-para-proibir-que-fazendeiro-retire-agua-do-rio-araguaia-para-agricultura.ghtml
ix TUNDISI, José Galizia. Água no Século XXI: Enfrentando a escassez. São Carlos: RiMa, IIE, 2003. Pág. 14-15.
x SMITH, Laurence C. Op. Cit. Pág. 74
xi O que é um Ecossistema e um Bioma. Dicionário Ambiental. ((o))eco, Rio de Janeiro, jul. 2014. Disponível em: . Acesso em: XX (dia) xxx. (mês) XXXX (ano).

xiii https://g1.globo.com/to/tocantins/noticia/nascente-de-corrego-seca-apos-desmatamento-e-povoado-fica-sem-agua.ghtml