Mostrando postagens com marcador necropolítica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador necropolítica. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 28 de maio de 2021

CENÁRIOS SOMBRIOS E UM MUNDO SEM RUMO – BIOPODER, FASCISMO E HIGIENISMO

Quero começar a partir de uma formulação de Carl Sagan, contido no livro “O Mundo Assombrado pelos Demônios”:

Nós criamos uma civilização global em que os elementos mais cruciais – o transporte, as comunicações e todas as outras indústrias, a agricultura, a medicina, a educação, o entretenimento, a proteção ao meio ambiente e até a importante instituição democrática do voto – dependem profundamente da ciência e da tecnologia. Também criamos uma ordem em que quase ninguém compreende a ciência e a tecnologia.  É uma receita para o desastre. Podemos escapar ilesos por algum tempo, porém mais cedo ou mais tarde essa mistura inflamável de ignorância e poder vai explodir em nossa cara. (Pág. 39)

É impressionante nesse artigo (escrito em 1995) a perspicácia de Carl Sagan, ao analisar o descompasso entre a capacidade adquirida pela humanidade de avançar nas ciências, e o quanto essas se tornaram importantes para o mundo, mas ao mesmo tempo, e numa enorme contradição, ou paradoxo, com um aumento da ignorância e o desconhecimento da importância das ciências e das novas tecnologias, por parte da maioria das pessoas.

Minha preocupação é que especialmente com a proximidade do fim do milênio, a pseudociência e a superstição parecerão mais sedutoras a cada novo ano, o canto de sereia do irracional mais sonoro e atraente. Onde o escutamos antes? Sempre que nossos preconceitos étnicos ou nacionais são despertados, nos tempos de escassez, em meio a desafios à autoestima ou à coragem nacional, quando sofremos com nosso diminuto lugar e finalidade no Cosmos, ou quando o fanatismo ferve ao nosso redor – então, hábitos de pensamento conhecidos de eras passadas procuram se apoderar dos controles.

A chama da vela escorre. Seu pequeno lago de luz tremula. A escuridão se avoluma. Os demônios começam a se agitar. (IDEM, pág. 40)

Todo o deslumbramento tecnológico, que inclui inteligência artificial, robotização, sofisticações impressionantes que nos fazem chegar até Marte e de lá transmitir informações em tempo real para a terra, se depara com um mundo onde cresce assustadoramente o número de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza. Situação que foi impulsionada pela pandemia, mas que já vinha dando sinais claros de um caminho quase sem volta, dentro do sistema capitalista, de uma crise estrutural permanente.

Nesse novo mundo que se delineia, a partir desses caminhos que estão sendo construídos, que inclui até mesmo colonização de outros planetas, a maior parte da população está excluída. Passo a passo, os que detém o poder econômico, e controlam os meios de produção, ignoram a abissal distância entre os diversos segmentos sociais, e transformam o mundo virtual em um mundo real, a Matrix se consolida aqui na terra, e os meios de comunicação oferecem mercadorias deslumbrantes, ultrassofisticadas, para um percentual de 10% da população. Essas mesmas pessoas, capazes de se inserir nesse mundo consumista, se deleitam em compartilhar, ostensivamente, seus mundos, onde o deslumbramento ignora a miséria, achincalha a pobreza e milhões de pessoas que padecem na miséria e pouco tem para comer. E transformam a vida em um big brother perverso, ou melhor, de perversões.

Posto isso, quero pontuar os descaminhos pelos quais podemos apontar os rumos que a humanidade pode seguir. Nós não podemos afirmar que este ou aquele será o rumo, mas partimos das condições reais de nossas existências, dos conflitos, dessas características que são marcantes no sistema em que vivemos: ganância, usura, vaidade, egoísmo, individualismo e a crença em deuses perversos, aos quais alguns indivíduos se apegam para justificar seus pecados mortais. Tudo isso se baseia na forma como os que controlam a riqueza e o Poder estabelecem as leis e os mecanismos pelos quais essas estruturas se mantém, a despeito de todas essas misérias e desigualdades sociais. E, fundamentalmente, como essa riqueza é construída, por meios que oprimem e exploram forças de trabalhos cada vez mais mal pagas, restritas e, aos poucos, substituídas por novas tecnologias, para além da robotização, com o uso da Inteligência Artificial.

A globalização, ou mundialização, abriu a caixa de pandora do capitalismo no fim do século XX. Muita coisa mudou muito rapidamente. Aí entram as ciências, incluindo a Geografia tanto como ciência, como também um importante saber estratégico, fundamental nesse processo, de forma essencial e fundamental, no âmbito do conhecimento e dos avanços obtidos pela humanidade. Mas não são elas, as ciências, responsáveis pelo que veio a acontecer. Importa saber quais os destinos dados aos novos conhecimentos adquiridos por meio de avanços científicos que impulsionaram de forma impressionante, e novas tecnologias, nosso destino para o século XXI. Os que viveram nessa passagem de séculos, entre o final de um e o começo do outro, lembram-se dos deslumbramentos e de como a grande mídia indicava aquele momento e como seria o nosso futuro. Isso que é o nosso presente hoje.

Lembro-me de revistas com edições especiais que falavam desses novos tempos, marcados pela desregulamentação da economia, pela liberdade de comércio com o fim das imposições levadas a cabo por governos protecionistas e em seguida às pressões, as aberturas das fronteiras para as mercadorias e o capital. O mundo virou um enorme cassino global, e a pilantragem se transformou em desejos mórbidos, invertendo valores, princípios e ignorando o que com muito custo foi conquistado (embora pouco exercido) dos direitos iguais para todos e todas.

O cinismo passou a conduzir as finanças, a economia se abastardou em meio aos que esbanjavam dinheiro. E assim expunha abertamente um novo comportamento icônico, ser mau-caráter já não era mais algo que desmerecia alguém, mas a condição e garantia de que somente assim, e pela esperteza, seria possível ser incluído ou permanecer no altar de imolação, ou fogueira das vaidades. Onde a riqueza já não ardia mais em chamas como algo pecaminoso, mas a ser perseguido por todos, como a quem de direito, na certeza que o novo capitalismo globalizado garantiria a quem assim quisesse ser. Os neopentecostais ensinavam aos pobres que o caminho da submissão, da idolatria fundamentalista ao deus do capital, era duro mais possível de ser trilhado. Pelo esforço próprio, sem arengas e rebeldias, mas de firmeza na crença de que esse deus é fiel.

Abriram-se as portas do inferno. O capital financeiro jamais foi incensado por quem se julgasse protegido por algum deus. Sua proteção é o demônio, seguramente. E para combatê-lo não seria possível os chicotes pelos quais Jesus teria expulsado os vendilhões do templo. Já não são mais reles mercadores, mas representantes de enormes corporações, gigantescas transnacionais, que se agigantam a cada ano, por fusões que reduzem a força de trabalho, investe-se mais e mais em novas tecnologias, ampliam-se os ganhos em produtividade e, consequentemente os lucros.

Mas tudo isso não significa o fim do caminho, com o descanso necessário para usufruir desses ganhos, pois a ganância impede isso. Esses lucros movimentam o enorme cassino do sistema financeiro, as bolsas de valores, e ali se multiplicam por meio de ladroagens oficializadas, burlas de expertises, golpes e espionagens a envolverem os donos do dinheiro e agentes públicos, numa dança macabra de perversões em busca de mais riqueza e Poder sobre as desgraças e infortúnios de desempregados, miseráveis errantes que se transformam em nômades, favelados, pobres, que são absorvidos pelo comércio mais lucrativo das profundezas do sistema: as drogas.

Embora as mercadorias mais sofisticadas desse comércio sirvam exatamente aos eufóricos agentes do capital financeiro, movidos ao pó mais cobiçado que transita pelos arranhas céus e torres de luxos, e impulsiona o eletrizante cotidiano das corretoras, investidoras e bolsas de valores. Ali onde se realiza o capitalismo financeiro, e onde a riqueza gerada esnoba e dejeta estrume sobre bilhões de pobres por todo o mundo. Mas esse mundo, desse capital financeiro especulativo, improdutivo e pérfido, é disputado por poucos que dominam e controlam impérios, que possuem bilhões... de dólares.

E, pela lógica que movimenta o sistema, cuja característica é a expansividade, não pode ganhar amanhã, nem um centavo menos do que ganhou hoje. É uma corrida febril a mais dinheiro, não importa o quanto se tenha, nem o quanto isso torna a sociedade doente. Assim se chegou ao limite da globalização, escorada nas políticas perversas neoliberais, insensíveis à crescente desigualdade social.

O mundo, não poderia, e nem pode encontrar um destino saudável por esse caminho. De insensibilidade, arrogância, corrupção, injustiça, falta de empatia e desrespeito pelo outro. Tanto o mundo construído, e destruído, por quem por todo esse tempo teve o controle dos meios de produção; quanto o mundo natural, a natureza, desnaturalizada, artificializada, e posta abaixo, para servir a essa ânsia gananciosa e fazer girar a estrutura capitalista, baseada em mercadorias que se esgotam e são substituídas por outras, que envelhecem e precisam ser deixadas de lado, levando a que o sistema se reestruture, e se reinicie todo o processo de inserção de novos produtos e novas fontes energéticas, sob o pretexto de proteger a natureza, que seguirá sendo destruída para comprazer essa lógica expansiva. Não nos iludamos, o fantasma de Goebbells (Ministro da Propaganda do governo Nazista) não está levitando somente por sobre o Palácio do Planalto (*era o advento do governo Bolsonaro, época em que esse texto foi escrito). Ele está por toda a parte, e incorpora os discursos daqueles que controlam o Poder político, econômico, militar e são disseminados pelos grandes meios de comunicação.

Ora, a história nos ensina que por esses mesmos caminhos, em tempos outros, o resultado dessas loucuras levou a conflitos que geraram guerras, genocídios e o descontrole sobre uma população absolutamente abandonada e revoltada. Assim, cega e desprovida de consciência crítica, tanto lá, quanto nos dias de hoje, o caminho termina sendo a busca de falsos “messias”, protagonistas estúpidos que se colocam de forma invertida no lugar desses pobres e miseráveis, com discursos de ódio, intolerância, ressentimentos, medos e mentiras, reforçando a ignorância, o apego a crenças baseadas em construção de sentimentos de indiferença, raiva e construção de inimigos erigidos assim fundamentados em preconceitos, misoginia, racismo, em novas formas inquisitoriais e invertendo o foco sobre quem de fato se beneficia dessa estrutura. 

Mas precisamos ter claro qual é a estratégia que existe por trás desses comportamentos, daqueles que usufruem de privilégios, se impõe gananciosamente sobre corpos inertes, frágeis pela ausência de recursos para se manterem, ou mesmo sobre trabalhadores superexplorados, cujas reformas feitas retiram o pouco de si, mas ampliam os ganhos dos que controlam a riqueza.

Se já vínhamos de há muito tempo consolidando uma forma de Poder, definido por Michel Foucault, como Biopolítica e Biopoder, as circunstâncias delineadas nos últimos anos, e potencializadas pela pandemia, confirma a sofisticação daqueles mecanismos controladores seja sobre a população enquanto massa agregada, a partir da constituição do Estado moderno, seja sobre o corpo das pessoas individualmente, estabelecendo padrões e definindo regras e comportamentos. Quanto mais as crises surgem e se intensificam, mas se definem políticas e se constroem regras conservadoras para conter a expressão da individualização e da liberdade do corpo das pessoas e de suas vidas.

O controle da vida, pelas políticas do corpo, bem como por uma política (biopolítica) de exploração acentuada do esforço escravizado ou semi-escravizado, pela extorsão da liberdade ou pela exploração da força de trabalho, se constituiu nos elementos cruciais para a transformação do capitalismo no sistema que conhecemos hoje, e no qual nos tornamos engrenagens em sua lógica de absorção de nossos esforços para garantir os privilégios de uma minoria abastada.

A moral protestante definida como elemento fundamental das formas de desenvolvimento da sociedade capitalista, num olhar weberiano, não demorou a ser suplantado por novos elementos de controle de Poder, definido a partir da garantia da vida, na tentativa de controle da morte. Esse foco, expressado por Michel Foucault, como Biopoder, se encerra nos objetivos da burguesia e das classes dominantes, na descrição de uma sociedade liberal, cujos preceitos se encontram definidos em legislações criadas para garantir muito mais do que uma liberdade, mas o controle e a disciplina sobre o corpo, sobre a vida.

Essa política, decorrente das formas que foram delineadas pelo Poder dentro da estrutura dominante capitalista, por meio do Estado burguês, oferecido como fonte da civilização e do progresso, tudo isso feito dentro das normas legisladas pelas instituições formais da democracia, se entesa e emperra quando sob seu controle assumem-se indivíduos dotados dos piores desejos, pérfidos, desprovidos de caráter, de empatia e solidariedade. 

Políticos que saem das catacumbas e reacendem os piores pesadelos transformados em atos, reais, de situações em que a política do controle da vida se inverte na macabra política da morte. Os preconceitos disfarçados se apresentam ostensivamente, o ódio se reflete no olhar às diferenças. Os pretos, pobres, mulheres, velhos, os que possuem algum tipo de deficiência, ou aqueles que escolhem o tipo de prazer sobre os seus corpos e suas sexualidades e gênero, tornam-se alvos e, para além do biopoder, um novo tipo de higienismo se manifesta, e encontrou na pandemia do Covid19 um vírus mortal que lhes potencializou isso, a esse tipo de Poder, a completar o objetivo criminoso de olhares, vieses, ideologias e atitudes neonazistas e de um visível fascismo contemporâneo.

E nessa necropolítica os que comandam o Poder político, seguindo esses preceitos, se debruçam sobre um macabro e mórbido desejo de encolher a população para melhor definir suas estratégias perversas, mirando no que eles, por esses sentimentos fascistas, entendem como entraves ao desenvolvimento e a consolidação de uma sociedade puritana, pentecostal, ultraconservadora, para lentamente constituir o Estado como um instrumento totalitário, controlado por insanos, cínicos, milicianos, mercadores da fé e fascistas.

As mudanças que ocorrem aqui no Brasil, embora também em outras partes do mundo, decorrem de crises profundas nas estruturas capitalistas, que já estavam se desenvolvendo há anos, são sintomas de um estágio avançado da desintegração desse sistema já atingindo o limite de suas contradições. O século XXI abriu suas portas escancarando essa crise. O ano de 2001 (ataques às torres gêmeas nos EUA); 2008 (crise do subprime nos EUA) e a partir de 2020, com a pandemia do Covid19, se constituem em picos dessa crise, e, em seu ciclo constante, esses momentos disseminaram os medos, por todos os lados e de todos os tipos, despertando de suas profundezas, alguns demônios, que não são estranhos ao sistema, mas suas próprias crias, que viviam em estado criogênico.

Mais do que entender essa conjuntura, devemos identificar os caminhos e os possíveis cenários que nos esperam em um curto prazo, e, portanto, exige de nós a urgência em decisões e estratégias que nos impeçam de despencar do abismo que está à nossa frente. Nunca foi tão importante fazer a junção dentre as ciências humanas, onde se insere a Geografia, ultrapassar o simples diagnóstico da realidade, mas a partir da constatação das desgraças que nos afligem, e que isso se dá no mundo real, urgir mais do que a necessidade de esgrimir argumentos e coragem para se contrapor a esses demônios materializados e que perversamente buscam infernizar nossas vidas. Se trata, como já dito outrora por Marx, de mais do que interpretar a realidade, lutar para transformá-la. Ou para citar um geógrafo de renome, e responsável por um dos clássicos da geografia e da geopolítica, Yves Lacoste, a geografia deve nos ajudar a mais do que descrever o mundo, estabelecer um olhar crítico sobre essa realidade, compreender a dimensão das desigualdades, apontar por quais meios podemos identificar as contradições desse sistema, e não medir esforços para transformá-lo econômica e socialmente.

Estamos correndo contra o relógio.


(*) Palestra apresentada na Mesa Redonda: Geopolítica, Dinâmicas Populacionais e Biopoder, no II SIMPÓSIO INTEGRADO DE ESTUDOS TERRITORIAIS. Em 28/05/2021.

Disponível no Canal do Laboter no Youtube:

https://www.youtube.com/watch?v=E-Q-t-MSuuM&t=582s

Obra citada:

SAGAN, Carl. O Mundo assombrado pelos demônios - A ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras, 1996

 

 

 

 

segunda-feira, 22 de março de 2021

A ARQUITETURA DO CAOS

Foto: Site Poder360

Vamos aos fatos, e, naturalmente, é preciso entender toda a situação, como chegamos até aqui e porque estamos à beira do caos, numa das piores crises médicas, sanitárias e socioeconômicas da história de nosso país.

Segundo o presidente da República, "O povo não tem nem pé de galinha para comer mais. Agora, o que eu tenho falado, o caos vem aí. A fome vai tirar o pessoal de casa. Vamos ter problemas que nunca esperávamos ter problemas sociais gravíssimos”.[1] Vejam, essa é a fala do presidente do Brasil, não é de nenhum sindicalista ou militante que está lutando contra as desigualdades sociais. Mas de quem governa e, em tese, possui todos os elementos e as condições de adotar medidas que minimizem os graves problemas sociais gerados por essa pandemia. Só que ele não fará isso, por uma razão óbvia, estrangular a economia e disseminar medo, angústia e ansiedade, faz parte de um projeto de governo.

Evidente que tem razão ao dizer que estamos em meio a um caos. E isso condiz com uma estratégia adotada por seu governo, não somente durante a pandemia, mas mesmo antes de vivermos esse inferno viral. Claro, a Covid19 se incorporou a uma estratégia que já estava em curso: tornar a sociedade brasileira um caos.

Bolsonaro foi eleito no rastro de uma destruição da democracia, conforme a conhecemos por nossas bandas, e, principalmente da política. Embora ele fosse o azarão da história, serviu-se perfeitamente de toda uma onda gerada por perversos mecanismos midiáticos, de canais de televisão, jornais e emissoras de rádio, que apostaram desde 2015 na desconstrução de projetos políticos de cunhos sociais e de visões econômicas baseadas no desenvolvimentismo, para, por meio do ataque à política e projetando a ascensão da alienação derrubar um governo e apostar em políticas fortemente neoliberais, meritocráticas e antinacionais.

Mas o discurso levado a cabo, por meio do incentivo às manifestações, transmitidas ao vivo pelos canais de TV, por onde se disseminaram um comportamento de ódio e projetou o neofascismo, não atingiu o objetivo desejado pelos setores conservadores de partidos derrotados na eleição de 2014. Pois eles também se tornaram alvos da caça às bruxas, e na identificação do que se convencionou chamar de “velha política”. Foi tudo por água abaixo, inclusive caráter, seriedade, honestidade, esperança... Prevaleceu o cinismo, o banditismo miliciano e a hipocrisia religiosa. Se o que se pretendia era demonizar a política, o demônio soube entender e assumiu o controle. Assim, o caminho estava aberto para o caos. As redes sociais potencializaram isso, através das fake news, e a pandemia só veio para acelerar essa situação, já prevista e consolidada nas eleições de 2018.

Ora, já pude analisar neste blog e no meu canal no Youtube, como Bolsonaro chegou à presidência, no vácuo dessas desastrosas intervenções dos setores de centro-direita neoliberal. Despontou como um “mito”, na condição do que na geopolítica conhecemos como um “outsider”, desancando a política, com discurso anticorrupção (como sempre esse discurso antecede as crises políticas brasileiras e os movimentos golpistas) e aglutinando ao seu lado ressentidos, derrotados moralmente, despossuídos economicamente, frustrados e alienados. Embora a absoluta maioria desses aí adjetivados pudessem ser classificados no nível máximo de alienação. Além de uma burguesia estúpida e uma classe média oportunista. E, correndo por fora, de forma sutil e sibilina, porque nessa década esse movimento esteve ao lado de todos os governos, os segmentos evangélicos, neopentecostais principalmente, e os conservadores católicos da corrente carismática. Correram por fora num primeiro momento, porque depois incorporaram o discurso neofascista do presidente e se constituíram em sua principal base de apoio. Logicamente por traz disso a ambição pelo poder e a ganância como prática contumaz de seus principais líderes religiosos a extorquir os fiéis.

Mas Jair Messias Bolsonaro não caiu de paraquedas. Ele se tornou parte de um projeto desses segmentos reacionários religiosos e se incorporou a um movimento que tomava corpo mundialmente havia uma década, que gerou outra aberração política: Donald Trump. Mas que também estava em curso em diversos outros países, como Hungria, Itália, Reino Unido dentre outros, além dos EUA, de onde saiu toda essa inspiração perversiva.

Já citei em outros artigos que escrevi, baseado em alguns livros e documentários (que indico ao final desse texto), que esse projeto teve à frente um personagem que se tornou mais conhecido no ano passado, porque foi preso acusado de desvio de dinheiro numa arrecadação feita nos EUA para ajudar o governo Trump e construir um muro na fronteira com o México. Steve Bannon é o personagem por trás da “estratégia do caos”. Seu escritório foi responsável por dar assessoria aos “políticos” que surgiram das trevas, atraindo para seus lados todos esses indivíduos que carregavam algum tipo de frustração e ódio às condições sociais em que viviam.

No documentário “Privacidade Hackeada”, disponível na Netflix, chama a atenção uma frase dita por Christopher Wylie, Cientista de Dados, ao se referir a Steve Bannon (vice-presidente da Cambridge Analytica, e criador do site de notícias Breitbart), que seria a doutrina utilizada por essas empresas: “Se você quer mudar fundamentalmente a sociedade, primeiro tem de destruí-la. E somente depois de destruí-la é que pode remodelar os pedaços segundo sua visão de uma nova sociedade”.

Bingo! Eis porque Bolsonaro tem razão na frase dita, paradoxalmente sendo ele, como presidente, quem poderia adotar medidas que evitassem esse caos. Mas como eu já disse, isso ele não fará, porque faz parte de uma estratégia. Seu desejo é manter radicalizado um segmento que será muito prejudicado economicamente, para além das perdas de vidas, que se tornarão esquecidas pelo foco que está sendo adotado e pelas condições reais que ficarão milhões de pessoas. As mortes serão naturalizadas. Isso representa o que conhecemos hoje como “necropolítica”. Alienadas e corrompidas em seus desejos e olhares, essas pessoas seguem o discurso fácil, irresponsável e adredemente planejado pelos arquitetos do caos.

Mas o que falta para que aqueles responsáveis por abrir as porteiras dessas perversões, quando levaram a cabo uma outra estratégia, fracassada, de “reerguer o país destruído por Dilma Roussef” revejam seus comportamentos e percebam a gravidade dos acontecimentos que estão em curso e podem levar a que nosso país tenha mais de 500 mil mortos nessa pandemia, além de sua total destruição econômica? Enfim, esta semana divulgou-se um manifesto de banqueiros e economistas[2] que apoiaram essa loucura que empurrou o país para mãos inconsequentes.

Quem sabe um mea-culpa não abra caminho para recomposição de forças políticas que compreendam a gravidade da situação na qual eles nos meteram? É o que desejam aquelas pessoas que têm juízo, clamam pela vida, choram por seus mortos e anseiam por um país soberano, livre dos “mitos” que vagam por aí órfãos de seus manicômios. Que lutemos para recuperar nossa dignidade e saibamos compreender a importância de lutar por uma sociedade justa, menos desigual, e onde se dissemine valores como empatia, altruísmo e solidariedade. 

Ou fazemos isso ou prevalecerá pelo tempo que requer a destruição de um país, a estratégia do caos. O apocalipse por trás da necropolítica.

Está em nossas mãos, não somente os nossos destinos, como a determinação para provar a Bolsonaro que embora ele tenha razão hoje, o caos não prevalecerá e que toda maldade, perversão e vilania serão combatidas pelos que sobreviverão à sua hecatombe planejada. E seremos milhões!


DOCUMENTÁRIOS:

The Weekly S01E09: A Toca do Coelho (The Rabbit Hole) - https://www.youtube.com/watch?v=b3J7r1H4SYo

Privacidade Hackeada - Entenda como a empresa de análise de dados Cambridge Analytica se tornou o símbolo do lado sombrio das redes sociais após a eleição presidencial de 2016 nos EUA - https://www.netflix.com/br/title/80117542

Get Me Roger Stone - Observe a ascensão, queda e renascimento do operador político Roger Stone, um player influente da Equipe de Trump há décadas - https://www.netflix.com/br/title/80114666

Eles estão entre nós - O documentário explora a aliança política entre religiosos, oligarcas, Cambridge Analytica e suas empresas de fachada que mudaram o equilíbrio da política nos EUA. - https://globoplay.globo.com/eles-estao-entre-nos/t/wwppjgqzSJ/

LIVROS:

DA EMPOLI, Giuliano. Os engenheiros do caos. São Paulo: Vestígio, 2020

DOWBOR, Ladislau. O Capitalismo se desloca. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2020.

LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018

LIMA, Delcio Monteiro de. Os demônios descem do Norte. Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, 1987.

ARTIGOS DO BLOG:

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2020/04/como-chegamos-ate-aqui-e-como-sera-o_28.html

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2020/07/a-estrategia-da-destruicao-de-bolsonaro.html

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2020/08/tempos-perigosos-em-que-negam-as.html

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2020/08/o-despertar-das-bestas-3-parte.html

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2020/09/o-efeito-borboleta-ou-teoria-do-caos.html

 

CANAL ROMUALDO PESSOA: https://www.youtube.com/watch?v=UaAi8OuUojM


NOTA:

[1] https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2021/03/19/o-caos-vem-ai-a-fome-vai-tirar-o-pessoal-de-casa-diz-bolsonaro.htm

[2] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2021/03/banqueiros-e-economistas-pedem-medidas-efetivas-de-combate-a-pandemia-em-carta-aberta.shtml

 

 

domingo, 5 de abril de 2020

O COVID 19 E O MUNDO NA ENCRUZILHADA

Vivemos, inegavelmente, um dos momentos mais complexos da história da humanidade. Uma paralisação sistêmica que atinge praticamente todo globo terrestre, forçando quase uma estagnação no processo produtivo. Não existe precedentes, mesmo nos momentos mais críticos seja por questões de guerras, de depressão econômica, ou mesmo de outras pandemias que já nos atingiu. Se pegarmos cada um desses momentos, e analisarmos suas dinâmicas, veremos que por maiores que tenham sido os impactos, isso não gerou uma quase completa paralisação no sistema produtivo, de forma que afete a maioria das cadeias produtivas tal qual elas funcionam, desde a aquisição de matérias-primas até a circulação de mercadorias.
Somente essa constatação nos permite considerar as dificuldades que teremos de lidar com os momentos seguintes a essa pandemia e à quarentena necessária para conter a propagação do vírus “Sars-Cov-2” e a COVID19. Claro, ainda estamos no começo do inferno. Teremos de passar ainda por fortes labaredas para atingirmos um ponto seguro que permita a humanidade retomar o curso da história. Nesse processo, não podemos esperar que algum deus nos acuda. Essa não é uma tarefa para Deus, e muito menos deve ser atribuído a qualquer um deles que seja a responsabilidade por essa tragédia. Isso é parte de um processo que decorre das escolhas humanas pelo seu estilo de vida. Uso a referência ao inferno como uma metáfora, já que também não aponto para qualquer demônio que seja as diatribes responsáveis por esse vírus, ou tantos outros que nos atormenta.
Durante a propagação, e principalmente no combate à peste bubônica (conhecida como “peste negra”), na Idade Média, as crenças religiosas dogmáticas tornaram-se um forte empecilho para a superação da pandemia, com atribuições metafísicas ao problema. Isso se repete hoje, de certa forma, principalmente entre um segmento evangélico, de viés neopentecostal. Isso ocorre pelo caráter usurário da prática existente nesse segmento, motivado pelas cobranças exorbitantes dos dízimos de seus seguidores, baseado no medo, na culpa e no individualismo que prega a doutrina da prosperidade, portanto radicalmente distanciado dos princípios e valores fundamentais do cristianismo primitivo, o que é possível por uma leitura bem particular e distanciada do tradicionalismo das próprias igrejas protestantes, do livro sagrado do cristianismo, a bíblia.
Esse segmento tem sido, por um lado absolutamente refratário ao isolamento social, principalmente ao impacto que isso causa em suas igrejas, impedidas de realizarem cultos presenciais; por outro lado é a parcela da sociedade que, inspirada nesses ensinamentos dogmáticos, anticientíficos e metafísicos, aprofundam a ignorância e o distanciamento em relação à ciência, constituindo-se em uma forte base de apoio ao negacionismo científico e ao próprio poder destrutivo do vírus, propagado pelo presidente da república do Brasil. Junta-se a esse segmento do protestantismo uma parte dos católicos, seguidores da chamada renovação carismática cristã, que se aproximam por esses caminhos dogmáticos e conservadores. Certamente serão esses seguidores, não todos, mas em sua maioria, que acompanharão o presidente no seu chamamento para um jejum contra o vírus. Só não se sabe se o vírus entenderá isso como um ataque mortal à sua existência.
No entanto, majoritariamente, a sociedade tem se guiado pelos cuidados e orientações científicas, isso bem explicitado em pesquisas que apontam uma concordância com as orientações técnicas que têm permeado as decisões dos governadores, prefeitos e do Ministério da Saúde, escorados nos fundamentos apresentados pela Organização Mundial da Saúde.
Os embates existentes carregam elementos da rejeição à ciência, da religiosidade conservadora, da metafísica, mas também da política. Até porque há um projeto de poder subsumido nessas atitudes aparentemente idílicas, de preocupações com a necessidade de aquecer o espírito ou de combater o monstro que desde o século XIX atormentava a Europa e depois o mundo: o comunismo. Para tanto, o anticientificismo e a ignorância, como revés para comportamentos medievais, constituem-se em combustíveis para disseminar a mentira e acirrar ódios de vieses fascistas e neonazistas, trazendo para o noticiário e as análises sociológicas uma nova terminologia: a necropolítica.
Mas, desviando desse rumo, sem, no entanto, perder o fio da meada, faço junção dessa nova expressão, que tende cada vez mais a ser utilizada, a partir do momento em que se faz escolhas sobre quem deve morrer. Algo que já é costumeiro na estrutura social, não só brasileira, como de boa parte do mundo, e acompanha a própria maneira do sistema lidar com as desigualdades sociais, sem atacar o principal fundamento que a causa, a forte concentração de riqueza nas mãos de poucas pessoas. Essa expressão foi criada pelo filósofo camaronês Achille Mbembe[1], e se aproxima da elaboração dada por Michel Foucault para compreender a maneira como os Estados passaram a utilizar de certas metodologias de controle do corpo, da população, e suas formas de imposição e controle social. Segundo ele, isso acontece quando os governos passam das formas de utilização de mecanismos disciplinares para mecanismos de controle. A saúde, a sexualidade, a alimentação, os costumes... tudo isso leva a emersão do biopoder[2], e da governamentabilidade, como forma de garantir o controle social[3]. As tecnologias surgem e se desenvolvem, como reforço para essas novas formas de se estabelecer o controle por meio da biopolítica.
Tudo leva a crer que nos deparamos com essa realidade tal qual descrita por Foucault, e certamente poderá estar reforçada no pós-Covid19, se não houver reações por parte da sociedade, de forma organizada e na direção oposta ao rumo que a humanidade tem seguido até aqui.
O que poderá fazer com que os rumos sejam outros? A partir daqui o que podemos fazer é deduzir, com base naquilo que nossa experiência pode permitir e nos conhecimentos históricos que nos remetem a momentos, senão iguais, mas muito parecidos, cujas crises chegaram ao ápice, à exaustão da economia. Não se pode estabelecer comparações, porque como dito no início desse artigo, essa é uma situação de absoluta excepcionalidade que estamos atravessando.
No entanto, nos baseando no que ocorreu após a grande depressão, que se inicia no final de 1929 e atravessa toda a década de 1930, até desembocar na segunda guerra mundial, houve uma transformação radical na sociedade, um aumento considerável do papel do Estado na solução dos problemas econômicos e sociais, e da garantia de emprego para a população, bem como levou a mudança de hábitos, nesse caso quebrado pelo advento da guerra, que pode também ser incluída dentre as consequências dessa crise de proporções mundiais, mas cujos efeitos foram mais fortes nos EUA e na Europa. E, embora tenha havido um forte impacto nas estruturas do sistema capitalista, esse não foi tão intenso a ponto de paralisar as estruturas produtivas como consequência de uma imposição externa, aparentemente casual (embora se saiba que isso decorre da forma como a sociedade está organizada em grandes cidades, bem como a destruição da biodiversidade do planeta), mas podendo ser cientificamente demonstrada em suas causas fundamentais, inerentes ao próprio sistema.
Tomemos por base, portanto, uma forte crise econômica nas primeiras décadas do século XX, mas tendo como causa o excesso de produção do sistema e a redução do consumo, sem, contudo, ter havido forçosamente uma paralisação da economia, já que esta se deu na sequência da elevação produtiva. E estabeleçamos um relativo parâmetro com o que temos hoje, numa dimensão muito maior, já que a paralisia do processo produtivo se deu forçosamente, como necessidade para conter o poder viral, e aqui a expressão foge ao que comumente usávamos até há pouco tempo, quando nos referimos à ataques de vírus que afetam nossos computadores e smartfones.
Nessas circunstâncias, de uma absoluta impossibilidade das cadeias produtivas funcionarem, e uma paralisia no sistema afetando a quase totalidade das empresas, o que se prevê é um impacto muito mais forte na estrutura do sistema capitalista em comparação com o que ocorreu na depressão de 1929, ou mesmo na mais recente explosão de crise, em 2008, com a quase debacle do sistema financeiro mundial. Isso tenderá a jogar por terra toda e qualquer iniciativa de gerir a economia com base nas receitas neoliberais, pois a única possibilidade de conter um caos de dimensão planetária, são os estados investirem maciçamente na economia, fortalecendo as empresas, dando suporte aos micro e pequenos empreendedores, e garantindo fortes investimentos em infraestruturas por todo o país, como elemento gerador de empregos, tal qual foi feito na grande depressão, seguindo-se as orientações keynesianas. Necessariamente terá que haver um retorno ao estado de bem estar social, desmontando por completo todo esse aparato de reforma que levava a uma quase destruição do Estado naquilo que se tornava mais essencial a sua importância nas políticas sociais.
Isso inevitavelmente irá levar a uma mudança substantiva no poder político, tanto maior quanto mais próximas estejam os processos eleitorais nos países. Atentando-se para um elemento que pode ser motivador de reforçar governos de viés autoritário, de extrema-direita com intenções totalitárias, os possíveis adiamentos de eleições, sob argumento do caos gerado pelo Corona Vírus, mas que em essência pode significar a tentativa de implementação de projetos totalizantes, como aliás já ocorre em alguns países, por meios de medidas profundamente autoritárias e antidemocráticas.
Por fim, mas sem ser conclusivo, outro elemento que está fora das formas com que as demais crises se desencadearam. Focando aqui nas duas principais e mais assustadoras crises para a economia capitalista, a grande depressão de 1929 e a crise dos sub-primes de 2008. O isolamento social, o distanciamento das pessoas e o enclausuramento em circunstâncias as mais diversas, a depender da condição social e da dimensão habitacional onde cada família vive, é um elemento novo e diferencial nessa situação que estamos vivendo. Certamente, o pós-quarentena trará novos comportamentos sociais. Em primeiro lugar porque a crise imporá uma necessidade do estabelecimento de relações muito mais solidárias, em função do aumento da miséria e a disseminação da pobreza; em segundo lugar porque esse confinamento poderá trazer diversas reflexões sobre as formas como temos vivido em sociedade até então, com um distanciamento entre os próximos, e uma proximidade entre os distantes. Aquilo que nos transformou enquanto sociedade com o advento de novas tecnologias e das redes sociais, bem como dos mecanismos criados pela competição a qualquer custo e a necessidade de se garantir o primeiro lugar como condição de se ver inserido nos mecanismos inclusivos do sistema.
Penso que devemos resgatar aquilo posto pelo geógrafo Milton Santos em uma de suas últimas obras, e seguramente a de maior leitura: Por uma outra globalização. Não creio que devamos culpar a globalização pela disseminação do vírus, até porque outros vírus se disseminaram pelo mundo com alto grau de letalidade, embora não com a velocidade deste. Claro que nosso estilo de vida, nos últimos anos se acentuou muito fortemente pela forma como se deu a globalização, com o esvaziamento acelerado do campo e o crescimento exponencial das cidades, bem como uma forte destruição da nossa biodiversidade. Mas a globalização não é um sistema. Ela é apenas uma forma pela qual o sistema ampliou seu poder de contaminação da ganância, da usura, do acesso às novas tecnologias e das desigualdades sociais. No entanto esses são elementos inerentes ao sistema capitalista, em sua forma perversa, como descrito por Santos como uma das etapas, ou seja, da globalização como perversidade.[4]
Cumpre-nos enfatizar o aspecto final de seu livro, quando ele defende ser possível uma outra globalização, que possa primar pela solidariedade e pela necessidade de as pessoas por todo o mundo se ajudarem mutuamente, de forma a reduzir as desigualdades sociais. Porque não veremos, por mais que desejemos, o fim do capitalismo como consequência da disseminação da Covid19. Ainda teremos um processo lento e doloroso, de ampliação da crise, da miséria, do aumento das desigualdades sociais, da violência, da perseguição aos que lutam contra essas condições perversas, e o poder concentrado nas mãos dos representantes das grandes corporações, principalmente as financeiras, que podem sair dessa crise mais fortes e concentradas, na medida em que terão fortes injeções de recursos financeiros, como já está acontecendo e como aconteceu em 2008. Assim, suas garras podem se ampliar, através da aquisição de empresas em estado falimentar, levando as suas recuperações mediante a destruição de empregos, como se deu no final da década de 1980 na Europa e nos EUA, principalmente.
O que vai estar em jogo nos próximos meses pós-quarentena será a capacidade da sociedade não se abater com esse confinamento, e as organizações sociais e associações comunitárias conseguirem disputar contra o poder discriminatório do estado e das igrejas neopentecostais, o protagonismo no envolvimento das populações periféricas, apontando para elas a necessidade de seguir por um caminho de construção de relações solidárias e de comum união.