Mostrando postagens com marcador empatia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador empatia. Mostrar todas as postagens

domingo, 9 de maio de 2021

O MITO DE SÍSIFO E O COMPADECIMENTO, EM CONTRAPOSIÇÃO À RAZÃO, À INDIGNAÇÃO E À REVOLTA SOCIAL

“Se dou pão aos pobres, todos me chamam de santo. Se mostro por que os pobres não têm pão, me chamam de comunista e subversivo” (D. Hélder Câmara)


Vamos falar de solidariedade. Já tratei disso aqui, de forma mais ampla, quando me referi à empatia, simpatia, cooperação e solidarismo. Mas dessa vez venho falar com uma verve mais afiada, e talvez incomode algumas pessoas, bem-intencionadas, e, creio, verdadeiramente solidárias. Mas de um espírito cristão, tradicional, que tem uma limitação no enfrentamento da realidade. Não é por acaso que começo esse artigo com a frase do então arcebispo de Recife, Dom Hélder Câmara. Essa é a questão.

Se habituar a oferecer esmolas, como na tradição que perdura séculos, isso mais como uma prática das camadas mais pobres da sociedade, ou da classe média. Ou tornar-se um filantropo, nome pomposo para basicamente a mesma ação, só que das camadas mais ricas, daqueles que possuem muito dinheiro. Embora seja um ato que possa demonstrar empatia, se constitui muito mais como um desencargo de consciência, ou no caso dos ricos, puro marketing, que em parte lhe é devolvido pelo “bondoso” Estado, por meio da restituição do Imposto de Renda. Um Estado bondoso para os ricos, naturalmente.

Mesmo sendo uma prática solidária, e na maioria dos casos praticadas por pessoas que tem sensibilidade frente a uma realidade perversa, portanto de boa vontade, e absolutamente necessária, devido às condições de miséria que vive boa parte da população, ela não garante uma transformação na vida dessas pessoas, de forma a conduzi-la por caminhos que a liberte da pobreza crônica. Ora, eu não pretendo propor que diante dessas circunstâncias de pobreza e miséria crescente, deixemos de compartilhar com essa parte excluída da sociedade um mínimo de doações, que seja, para que ajude essas pessoas a sobreviverem.

Mas não irá nos salvar. Nem o doador, e muito menos o recebedor. Só manterá os que assim procedem, com todas as boas vontades, como no mito de Sísifo, condenado a rolar morro acima uma enorme pedra, que ao chegar no topo irá rolar ladeira abaixo. E Sísifo, assim, foi condenado a passar o resto de sua vida, nesse estranho devir, por ter desafiado os deuses. Mas essa história, ou fábula mítica, foi melhor apregoada por Albert Camus (1930-1960)*, escritor de origem argelina e que viveu na França, para se referir à sociedade contemporânea. Por suas obras, expressadas pelo existencialismo, ele busca abordar os absurdos existentes, que geram anseios e uma abissal relação entre felicidade e sofrimento, no que ele vai chamar de “estética do absurdo”. 

Certamente a comparação entre essa atitude não significa considerar, como ele faz na representação ao mito de Sísifo como de uma inutilidade da vida. Mas sim, de se buscar uma resposta para qual o sentido disso tudo? Será que existe, já que optamos por continuar a viver? Essa normalização do sofrimento, a aceitação da perversidade social e a idolatria aos que, no sofrimento, são reconhecidos como heróis ou heroínas, por sobreviverem, nos faz bem? Não será isso muito pouco, quando olhamos em volta e no giro do mundo e verificamos a existência de bilhões de miseráveis, enquanto poucas centenas controlam uma imensidão de riqueza e esnobam cotidianamente isso?

Então, se nos compadecemos com a situação perversa em que milhões de pessoas vivem, num antagonismo absurdo e absolutamente desigual e revoltante com uma minoria de privilegiados que controlam a grande maioria da riqueza do mundo, por que se criminalizam aqueles que bradam contra esses absurdos e essas desigualdades, vistos como subversivos ou pejorativamente como “comunistas”, embora ser comunista signifique exatamente a essência da não aceitação dessas desigualdades? Porque não se apoiam impostos sobre fortunas, em muitos casos adquiridas de maneira criminosa ou sem que se invista em algo produtivo que possa gerar distribuição de rendas? Porque muitos recusam, e isso já existe em alguns países, impostos elevados sobre heranças, de forma a que o Estado distribua esses recursos para investir em programas sociais voltados para tirar as pessoas da miséria (embora não se deva mantê-las permanentemente nessa dependência)?

Vejo nesses dias de tormentos, de sofrimentos, um aumento acelerado da miséria e na outra ponta os bilionários se tornando mais ricos. E no patamar de baixo desse sistema absurdamente desigual e injusto, a correria para conter o desespero e ajudar os que estão desemparados pelo Estado e ignorados pela perversão burguesa da lógica gananciosa e usurária capitalista.

Não adianta inserir nos pacotes solidários livretos religiosos, como observei em reportagens sensacionalistas televisivas, que flertam com a fragilidade daquelas pessoas absolutamente despossuídas. Isso não salvará essas pessoas do inferno em que vivem aqui na terra, nem as incentivará a lutar e se rebelar contra essa condição de miséria em que foram metidos pelos mecanismos que fazem girar a roda do sistema capitalista. Ao contrário, só as manterá submissas, lenientes, obedientes e crentes de que aquela condição se deve a uma possível incapacidade meritocrática, ou a desígnio sabe-se lá de qual deus perverso, que beneficia poucos em detrimento de muitos.

Devemos, sim, sermos solidários, termos empatia, e nos ombrearmos com quem deseja amenizar o sofrimento dessas pessoas. Mas se queremos que tal situação não seja normal, e que não tenhamos a cada ano repetir ações de solidariedades por meio de doações de parcos mantimentos para sobreviverem um dia de cada vez, que botemos no pacote graus elevados de consciência política, de capacidade de discernimento da realidade, de olhares críticos, e, principalmente, de indignação, revolta, sentimento de poder se bater de frente contra aqueles que controlam esse sistema injusto, e que os leve, na conjunção desses sentimentos, a se organizarem, como em muitos outros momentos da história, e resgatarem suas dignidades e direitos na vontade, na luta, certos de que não há muito mais a perder em suas vidas, a não ser suas cadeias.

As pessoas não devem viver de esmolas, isso lhes corrompem a dignidade, as transformam em objetos, as desumanizam. Como canta Caetano Veloso, “Gente quer comer. Gente quer ser feliz. Gente quer respirar ar pelo nariz; Gente lavando roupa, amassando pão. Gente pobre arrancando a vida com a mão... Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome”.

Mas, se nos apresentamos como indignados com essa situação, que deveria gerar revolta coletiva, de imediato surgem os mecanismos ideológicos que criminalizam quem assim se sente e deseja mudar. Por que é perigoso lutar pelo bem comum? Por qual razão pessoas despossuídas de bens, escravos assalariados, gente que vive para trabalhar e mesmo assim sobrevive em meio à pobreza, se apegam a dogmas religiosos e se prostram a olhar para os céus de onde jamais sairá o solução de seus problemas? E por que reagem negativamente a um clamor por se opor firmemente aos que lhes exploram?

Porque assim foram condicionados pelo aparato jurídico, religioso, midiático e repressivo, que os manipulam, a favor dos interesses de quem domina meios de produção e o dinheiro. No entanto, ao se opor pela força ao grito não meramente dos “excluídos”, mas de quem adquire consciência de classe e se levanta de punhos erguidos e disposto a lutar por uma vida digna, nem que seja pelo enfrentamento revolucionário, esses são repelidos por sicofantas, fascistas, mercadores e traficantes da fé e os que controlam a grande mídia. Essa mesma mídia que finge se indignar com a pobreza e exalta o caráter solidário que se desdobra cotidianamente para apaziguar a fome de muitos. Esmolas, são esmolas que eles recebem, mesmo que tenhamos que dar outros nomes. Porque se repete, é estrutural, e não os salvam da miséria. Excluídos por quê? Por quem? E de que estão excluídos?

Esse rompante/desabafo que faço aqui, não é menos sensível do que aqueles que se irmanam através de corporações religiosas para praticar essas atitudes solidárias, mas é mais incisivo porque aponto a necessidade de romper com esses vícios, esses mecanismos abstratos, esses usos da miséria do outro. E de maneira revolucionária nos levantarmos contra o sistema causador de todo esse quadro desolador. Apontando as causas, criando consciência crítica e estimulando esse povo a acreditar que por meio de sua luta, e da indignação justa, é possível construir um outro mundo.

É isso que deve conter em cada cesta básica que entregarmos. Mais do que livretos religiosos, que exploram a fé e os mantém alienados, devemos inserir manifestos contra a desigualdade social, e estímulos para que se organizem, se revoltem e lutem contra o sistema e contra aqueles que controlam a riqueza e os mantém nessas condições de pobreza e miséria crônica, da qual dificilmente conseguirão sair porquanto perdurar o capitalismo. Mas pode ser também livretos religiosos, desde que apontem ser aqui na terra onde cada um de nós devemos viver com dignidade e respeito, como se pregavam nas comunidades eclesiais de base, por meio da teologia da libertação. Era por assim reivindicar justiça social que esse movimento foi perseguido, depois de muito ser caracterizado como comunista, como na expressão da frase de D. Hélder Câmara.

Empatia e solidariedade devem significar colocar-se no lugar do outro, e, portanto, desejar que as condições em que essa pessoa vive seja digna como as que cada um deseja para si mesmo. E mais do que conceder esmolas, precisamos lutar para que a melhoria das condições de vida seja real, efetiva e permanente. Nossa luta não deve ser somente contra governos insensíveis e elitistas, mas também para que o Estado seja efetivamente um instrumento a serviço dos segmentos majoritários da sociedade. E talvez não seja possível realizar isso somente nos iludindo com processos eleitorais que mantém esse ciclo vicioso.

Creio que já atingimos aquele limite, o auge das contradições de um sistema perverso, desigual e destruidor de vidas, cada vez mais desumanizado e violento com os que vivem na pobreza. Na falta de pão a burguesia não oferecerá brioches, mas repressão. E será assim, enquanto não fizermos como os comunardos de Paris, há 150 anos, tomando “os céus de assalto”. Sabendo que é preciso agir de forma implacável contra os algozes do povo, para que as mudanças sejam definitivas. Em muitos lugares a multidão está nas ruas, e é preciso que aqui no Brasil também isso aconteça, mas é preciso agir com estratégia, organização e política. Se assim for, a força do povo será incontrolável, e poderemos gritar, “basta de injustiça e de miséria”!


(*) CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2018.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

ALTRUÍSMO E EMPATIA – O QUE NOS FAZ EGOÍSTAS OU SOLIDÁRIOS

Em recente discurso, o presidente da Organização Mundial de Saúde, Tedros Adhanom, fez um apelo emocionado e deixou uma indagação que merece toda a reflexão: “Porque é tão difícil para os humanos se unirem?”
Pois bem, esse é o assunto que trago para discussão. Embora essa temática já tivesse sido escolhida bem antes de ler sobre o desabafo do presidente da OMS, no momento em esta organização está sob pressão dos EUA e de outros países governados por políticos de extrema-direita, inclusive o Brasil. E por isso a minha abordagem vai além da análise política.
São nesses tempos de crises que se escancaram comportamentos que podem definir as condições pelas quais as pessoas se posicionam na relação com os demais. Em tipos de sociedades como a que vivemos, fundadas em elementos que nos dividem e segregam, onde os preconceitos e a intolerância, acompanhados de discursos de ódios, se somam à busca egoísta pela riqueza individual, isso fica evidente mesmo em períodos de normalidade, ou de estabilidade política e econômica. As crises só escancaram e desnudam esses comportamentos, a ponto de descobrirmos haver um alto índice de sociopatas com os quais dividimos até mesmo os espaços familiares. Isso não é genético, é cultural.
Mas precisamos entender como isso funciona. Muitas vezes nos espantamos, e ficamos indignados, com determinadas ações de indivíduos, isoladamente ou em grupos, e nos irritamos com atitudes mesquinhas, desprovidas de um mínimo sentimento de solidariedade, ou de respeito às diferenças sociais, e de origens, em relação à outras pessoas. Só que isso sempre é visto com um viés particularista. Ou seja, imagina-se ser um traço do caráter daquele indivíduo que pratica esse tipo de ato.
Sim, é verdade. Isso reflete um perfil de caráter, que se expõe em atos perversos. No entanto, não é isolado. É resultado de atitudes acumuladas em padrões de comportamentos sociais. Porque isso está ligado às condições de classe social, por um lado, e por outro lado pela assimilação de valores culturais da classe dominante, que afetam pessoas de segmentos da sociedade das camadas baixas da pirâmide social. Ou seja, mesmo entre os pobres, em cuja faixa se mostra mais presente atitudes solidárias, esse padrão de comportamento se manifesta, de forma cada vez mais intensa e com grau de radicalidade que beira o fascismo.

O ALTRUÍSMO

Um dos livros mais importante em minha trajetória como professor, graduado em história e doutorado em geografia, foi “O povo do lago”[1], escrito pelo paleoantropólogo Richard Leakey e o biólogo Roger Lewin. Tendo como cenário o lago Turkana, localizado nas fronteiras do Quênia e da Etiópia, na África, onde um importante sítio arqueológico – Koobi Fora – possibilitou que inúmeros vestígios sobre nossas origens fossem descobertos, esses pesquisadores conseguiram transmitir, de forma simples, em um relato de fácil compreensão até para os mais leigos, como nos constituímos enquanto seres humanos, nossa relação com a natureza e os caminhos em direção ao futuro.
Um de seus capítulos, e no qual foco meu olhar para essa abordagem, faz referência à forma como os hominídeos, nossos ancestrais primitivos, conseguiram sobreviver em meio a ambientes inóspitos, selvagens, embora fossem mais frágeis que seus adversários em uma natureza livre, onde se impunha a força e a condição de sobrevivência adequada à capacidade adaptativa.
É importante destacar como esses autores se referem, ao contrário do que tradicionalmente se via na história, à coleta como elemento mais importante na consolidação da vida sedentária, em comparação com a caça. Porque esta não era garantia de sucesso por todo o tempo, já que nos primórdios a ausência de instrumentos eficazes impedia que os grupos humanos, notadamente os machos, retornassem ao grupo trazendo animais abatidos. A coleta, desenvolvida pelas mulheres, tornou-se, assim, a garantia de alimentos diariamente, fazendo com que surgissem também os primeiros utensílios, as sacolas, para transportá-los. Constituía-se, portanto, como sociedade de coletoras-caçadores.
Mas, tanto em relação à caça, em muitos casos somente com obtenção de carniças, ou seja, dos restos de carcaças deixadas para trás por grandes animais, como também na coleta, o elemento primordial a se destacar, e seguramente o que garantiu a sobrevivência humana, foi o altruísmo.
O altruísmo, ou essa capacidade de compartilhamento e cooperação, adquirida pelos hominídeos, se tornou o elemento mais importante para explicar a nossa sobrevivência em cenários complexos e adversos. Pode-se dizer que o altruísmo foi a condição necessária para que pudéssemos evoluir nos protegendo em grupos e nos ajudando mutuamente.
Isso em grande medida saiu do caminho natural, espontâneo e de sobrevivência, para se tornar disperso entre grupos sociais, sendo mais forte naqueles segmentos mais pobres, nas periferias das cidades, ou nas igrejas e instituições criadas por essas, na medida em que a caridade se constituía como uma maneira de amenizar os pecados individuais.
Evoluímos para formas de organizações sociais que se fundamentaram na propriedade privada da terra, e depois dos meios de produção e da escravização dos indivíduos através da necessária venda de sua força de trabalho, condição a partir do advento do capitalismo para a própria sobrevivência individual. Com essa nova formação econômica e social a cooperação e a visão coletiva foram substituídas pela busca do sucesso individual, numa sociedade marcada cada vez mais pela competição, e nos tempos globalizantes, pela competitividade.
O altruísmo além de nos garantir a sobrevivência por viver em grupo e compartilhar o fruto do trabalho oriundo da caça e da coleta, foi também um forte elemento na constituição da família, e dos sentimentos de pertencimentos não só pelo lugar, pelo território, mas pelo outro. É no princípio desse sentimento que o ser humano aprende a cuidar de seus mortos e a dar aos seus corpos um destino que não fosse aquele de deixá-los ao tempo para ser consumido por aves de rapinas. O altruísmo foi fundamental na nossa formação enquanto núcleo social-familiar.

EMPATIA, SIMPATIA E ALTERIDADE

O altruísmo nos legou a empatia, algo que se manteve no ser humano, homens e mulheres, imbuídos do sentimento de poder sentir as dificuldades e os sofrimentos da outra pessoa, e, mais do que isso, saber compreender suas escolhas, seu jeito de ser, de colocar-se no seu lugar sem querer que esta assimile seu modo de ser e de pensar.
“A empatia implica a capacidade de nos posicionarmos no lugar do outro para compreendermos a sua realidade interna, independentemente da pessoa em questão, de estarmos ou não de acordo com ela ou de simpatizarmos ou não com ela. A empatia genuína está ao serviço da comunhão emocional, da aceitação e do respeito pelo outro e pela sua realidade, o que implica uma atitude de não julgamento e de despojamento de preconceitos do próprio”[2]
Empatia não é sinônimo de altruísmo, embora sejam palavras próximas uma da outra, porque, afinal, elas significam a necessária compreensão do entendimento com o outro. Se o altruísta se dispõe a ajudar, sob quaisquer circunstâncias, um semelhante por ver que há uma fragilidade que precisa ser apoiada, e ele pode fazer isso, a empatia garante que isso seja feito sem que se queira modificar o jeito de ser daquele indivíduo. A empatia significa que temos a capacidade de ajudar as pessoas independente de conhecê-las, ou de ter afinidades com ela, compreendendo o seu jeito de ser e se colocando no lugar desse outrem, mesmo sendo diferente de você, ou que pense diferente.
Uma pessoa que tenha empatia consegue sentir a dor da outra pessoa, buscando se colocar no lugar dela, e não tentando transferir para ela o seu jeito de lidar com aquela dor, procurando imaginar como essa pessoa está se sentindo nas condições dela, com as percepções e compreensões que ela tenha. É o transpor-se para o lugar do outro, sem querer trazê-lo para a maneira de você pensar. Isso é comum nas perdas de entes queridos. O sentimento de uma pessoa é único, a dor é irreparável e intransferível. Mas as vezes muitas pessoas, por suas crenças e fé, tentam transferir isso e procuram confortar o outro à sua maneira de ser e de ver aquele sentimento.
Nesse ponto é preciso encontrar a verdadeira relação que se estabelece. Se alguém não se coloca no lugar do outro e busca expressar um sentimento de carinho, solidariedade e respeito, e extrai isso de dentro de si por uma relação construída com base na amizade, o que temos é uma simpatia.
“Podemos entender a simpatia como um sentimento de afinidade com determinada pessoa, que leva o indivíduo a estabelecer uma harmonia no encontro com ela. Simpatizamos com amigos e com as pessoas com quem partilhamos afinidades, interesses e valores e nas quais reconhecemos alguma compatibilidade e complementariedade com o nosso funcionamento”.[3]
São portanto duas situações diferentes, em que uma requer uma relação construída por afinidades, ou mesmo uma característica própria de determinada pessoa que transborda em gentileza e deseja compartilhar esse sentimento, o que denota simpatia; e na outra situação, de empatia, uma transposição da condição e do seu jeito de ser e sentir, para outra pessoa que não necessariamente você a conheça, mas sente a necessidade de ajudá-la, ou de compreendê-la em suas posições, colocando-se no lugar dela, entendendo as circunstâncias na qual ela vive e aceitando a maneira dela viver e pensar. Nem sempre, pois, uma pessoa simpática tem empatia. Por que sua gentileza e afabilidade é uma característica própria que essa pessoa tenta transferir para o outro, mas ela pode ser incapaz de demonstrar sensibilidade com as condições em que o outro vive e aceitar a maneira como o outro é.
Entre esses dois sentimentos seria importante incluirmos outro, a alteridade. Esse é o sentimento que garante a aceitação do outro do jeito que ele é, por suas escolhas, por mais que seja diferente de você. A alteridade é o que nos garante respeito pelas diferenças e, por extensão, esse sentimento nos possibilita sermos tolerantes.
A empatia faz com que você se coloque no lugar da outra pessoa; a alteridade é a garantia de que respeitaremos aquela pessoa por mais diferente que ela seja de nós, ou para nós; e simpatia é o que nos faz ser afável e querido pela nossa amabilidade, por uma característica pessoal.

POR QUE ESSES SENTIMENTOS IMPORTAM EM NOSSO TEMPO

Ao olharmos para trás e analisarmos cada momento da história, veremos sempre desigualdades, riquezas acumuladas em meio a muita pobreza, o controle do poder por uma minoria e a política de pão e circo para aplacar a ira da maioria e mantê-la inerte. Mas o que nos faz diferente a cada uma dessas épocas, comparando grosso modo com a nossa maneira de viver nos dias de hoje? Seguramente vamos encontrar respostas diferentes e análises sociológicas e filosóficas que destoam uma da outra, mas que na junção delas podemos encontrar coerência. Principalmente se identificarmos sob qual olhar, dimensão ideológica, essa análise está sendo feita.
O olhar que tivermos desse espectro que nos rodeia indicará o tipo de sentimento que nutrimos, o grau de empatia que carregamos e se nos portamos, ou não, de maneira altruísta. A simpatia transita livremente entre essas situações. E a alteridade, normalmente vem acompanhada da empatia e do altruísmo.
O sistema capitalista é incapaz de potencializar esses sentimentos – empatia, altruísmo, alteridade – entre as camadas mais ricas da sociedade. Porque a base do enriquecimento, com raras exceções, embora elas existam, é a usura, a ganância e o egoísmo. A caridade, ou filantropia, advém de um sentimento religioso, uma condição criada pelos dogmas cristãos para transmitir a sua máxima de “amar a deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”.
Isso perpassou ao longo de séculos, milênios, mas se mantém dentro desses princípios até os dias de hoje. E os seus atos representam muito mais um alívio para a alma de um cristão, ou quem pratica o espiritismo, do que uma reparação diante das condições de miséria que tantos se encontram. Tanto que você pode, e deve, ser caridoso, mas jamais pode se atrever a defender a distribuição da riqueza a fim de reduzir as desigualdades sociais.
Mas, há exceção, naturalmente. Aos que assim se comportam restará o uso, tornado “pejorativo”, do termo “comunista”. Cuja palavra advém, aliás, de “comum união”, ou “comum unidade”, muito dito e difundido nos primórdios do cristianismo, entre as comunidades pobres. Isso levou a uma frase de indignação e espanto, do arcebispo católico pernambucano, D. Hélder Câmara (1909-1999), diante da hipocrisia e falta de empatia da sociedade: “Quando dou comida aos pobres me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, me chamam de comunista”.
O altruísmo e a empatia são elementos que compõe a natureza da forma de viver solidariamente, em distribuir o produto do trabalho como ele foi feito e desenvolvido em cooperação, por meio de trocas e de respeito mútuo à condição de ser de cada um.
Alguém que destila o ódio, arrota intolerância, destrata os mais fragilizados socialmente e não aceita a condição de ser do outro, não possui o mínimo de empatia. Se é um governante, então, essa característica fica visível em seus atos governamentais, nas ações e políticas que se opõe à aceitação dessas diferenças e de maneira de viver que sejam distintas daquelas padronizadas culturalmente por uma sociedade abjeta (por ser hipócrita) e desigual. Esse indivíduo, escolhido pelo próprio povo para lhe representar, traduz o comportamento e os valores culturais de quem o escolheu.
E isso nos desafia a compreender as razões pelas quais as pessoas pobres, que vivem em ambientes horríveis, insalubres, despossuídas de qualquer condição humana digna, se apega aos sentimentos que são opostos às suas condições nessa sociedade. E como aqueles que se apegam ao deus do cristianismo se opõem a tudo que originalmente fez nascer uma das maiores religiões do mundo, a busca por um mundo solidário e de comum união?
Seria incompreensível se não soubéssemos que esses valores são adquiridos, por meio de instrumentos culturais, pela religião, pelas condições de existência dessas pessoas, fragilizadas e entregues a messianismos e charlatanismos. A escolha advém desses mecanismos ideológicos que os conformam e extraem de si aqueles elementos que podiam fazer a diferença e os levarem para uma luta que mirasse uma sociedade fundada no cooperativismo, no solidarismo, na empatia, na alteridade e no altruísmo. Nem sempre a lógica funciona nesses casos, não estamos tratando de ciências exatas, mas de ciências humanas, da sociabilidade e dos instrumentos que nos cerceiam e nos amarram enquanto cidadãos coletivos.
Quero finalizar com duas frases que cito sempre. Uma de Heráclito de Éfeso, filósofo da antiguidade que primeiro soube apresentar a maneira dialética de olhar o mundo: O CARÁTER DE UM INDIVIDUO É O SEU CAMINHO. Compreendendo que o caráter é moldado pelos valores que são incorporados à sociedade por mecanismos criados pela classe dominante.
Ou podemos romper com esses valores e seguir por outro caminho. Isso vai depender do caráter que construirmos em nós mesmos. Aí servirá a frase dita por Karl Marx: "Não é a consciência dos homens que determina seu ser, mas, pelo contrário, seu ser social é que determina sua consciência". Daí porque adquirir consciência de classe é tão importante. Por aí traçamos nosso caminho, e o nosso destino.
O que nos leva a constatar que nem tudo se resume a uma questão de caráter.




NOTAS:

[1] LEAKEY, Richard e LEWIN, Roger. O Povo do Lago. Brasília: Editora UnB, 1996.
[3] IDEM

OUÇA TAMBÉM O TEXTO EM VÍDEO NO MEU CANAL NO YOU TUBE:

https://www.youtube.com/watch?v=acTmtps9wvc&t=3s

segunda-feira, 8 de junho de 2020

GRAMÁTICA DO MUNDO - DEZ ANOS DEPOIS

Primeira publicação do Blog Gramática do Mundo - 05 de junho de 2010. Seus objetivos se mantêm, a realidade mudou, sempre muda, mas, infelizmente, nossos dias estão contaminados por vírus que nos adoecem corporalmente, e outros vírus que contaminam cérebros, desorganizam a sociedade e destroem nossas relações, impregnando-as de ódio provocados por atitudes medíocres e perversas, desigualdades sociais, intolerância e medo. Saibamos combater tudo isso, mas com solidariedade e empatia, e, acima de tudo, compreendermos que nossa razão de viver não pode ser fundamentada pelo individualismo e negação das nossas diferenças. Combater o fascismo, o racismo, a intolerância, o ódio e a sociopatia, deve fazer parte do nosso cotidiano. Mas viver a vida, acima de tudo, tendo presente que o amanhã se constrói hoje, e o futuro dependerá das atitudes que tomarmos agora. Assim, ele poderá ser melhor ou pior, para cada um de nós particularmente, e para toda a sociedade.


CARPE DIEM - APROVEITE O DIA, CONFIA O MÍNIMO NO AMANHÃ

Há muito tempo venho tentando encontrar um canal de expressão para as minhas angústias, dúvidas, análises e questionamentos que tenho, da minha vida, da sociedade e do mundo no qual vivemos. Nesse primeiro post vou ser mais intimista, navegar por entre as incertezas que compõe o meu "eu" e identificar as fragilidades que transformam nossas vidas em cristais. Por mais vigorosos que julguemos ser, cada um de nós, estamos sempre tendo que lidar com momentos que negam veementemente todas as certezas que temos da vida. Somos frágeis diante do imponderável, incapazes frente ao acaso, impotentes diante da morte, mas poderíamos ter mais tolerância diante das adversidades e das diferenças que nos cercam se conseguíssemos entender melhor as complexidades e contradições que compõem a nossa vida.
Dois anos e meio atrás, vivi até então um dos piores momentos de minha vida. Perdi minha filha, Ana Carolina (minha bela, meiga e esperta Carol), aos dez anos de idade. E isso, como não poderia ser diferente, transtornou minha vida. Desde então - e continuo tendo ao meu lado meu filho e esposa, pessoas que eu amo intensamente, como amava Carol - passei a observar as coisas com um outro olhar. Mantendo minha concepção de mundo, firmada pelo aprendizado de anos de estudos e análises das idéias marxistas, e de uma militância efetiva para transformar essas idéias em realidade, acrescentei uma outra verve à maneira de entender o mundo. Ou até mesmo de como lutar para transformá-lo. Senti que mais importante do que idealizar o futuro é compreender o presente. Entendê-lo e vivê-lo intensamente, sabendo que nossa vida é tênue e que a brusca morte, presença constante na vida, pode impedir que qualquer sonho se realize.
Não proponho apagarmos nossos sonhos, pois isso é o que faz o ser humano acreditar em sua capacidade de criar além do real, e dá esperança de seguir em frente superando adversidades. Mas sonhar, partindo do real, entendendo o mundo em toda a sua dimensão, belezas, misérias, contradições, de uma natureza exuberante, e dentro dela, inerente a ela e dependente dela, o ser humano. Não um super-homem ou super-mulher, para os quais, ou as quais, o dinheiro, a riqueza e o luxo possam torná-los imortais, mas a entender que, no real e em nossos sonhos, somos mortais, passageiros de uma imensa nau, em alguns momentos comandadas por indivíduos insensíveis, arrogantes e inescrupulosos. Mas às vezes não. Podem surgir pessoas que não nos decepcionem, que sejam honestas e que tenham sensibilidade com a pobreza humana.
Que possamos sonhar abstraindo o egoísmo, a intolerância e a vilania na construção de um novo mundo, sem perder de vista a percepção que jamais isso se concretizará se no instante presente não buscarmos construir as bases sólidas que possibilitarão essas transformações. Senão, o sonho se esfumará e se dissipará quando abrirmos os olhos à realidade. Pois o futuro é somente uma imagem que fazemos, na perspectiva que o presente vivido seguirá em frente.
Mas isso depende de nossas escolhas, de compreendermos que o mundo, a sociedade, a nossa vida, não se constrói em círculos fechados, em redomas inexpugnáveis. Depende de entendermos que cada vez mais vivemos enredados em relações e situações que por mais distantes que pareçam de nós, compõem um estágio da humanidade, que nos afetam, nos atingem e transformam nosso estilo de vida. De nada adianta defendermos uma vida monástica, contemplativa. Devemos buscar a satisfação individual e daqueles que compõem nosso círculo mais íntimo, compreendendo que nossos momentos felizes dependem das circunstâncias e do ambiente que nos cercam.
Carpe diem... Sim, viver intensamente cada momento. Mas entendendo o mundo, lutando contra as injustiças, fazendo do nosso lugar e dos lugares do mundo ambientes seguros e toleráveis para viver. Viver o presente. Olhá-lo criteriosa e criticamente. Fazer do agora, do aqui, deste momento, os degraus seguros que iremos escalar. Tornar nossas vozes as vozes dos outros, dos injustiçados, dos desesperançados, daqueles que desprovidos de tudo já não acreditam no presente. E por assim viverem, jamais terão futuro.
Com esse BLOG o que pretendo é vi-ver, com o olhar descrito anteriormente, ler, compreender e d-escrever o mundo. Um olhar político geo-histórico, filosoficamente dialético, mas sensível diante de imensas contradições. Pretendo pelo menos diariamente postar um comentário sobre um tema relevante do momento, denunciando as falsidades que existem por trás dos discursos que invadem nosso cotidiano, banalizam nossas relações e artificializam nossos sentimentos. Principalmente, tentando desconstruir o que é elaborado pela mídia através de informações que encobrem os verdadeiros objetivos e os interesses do poder econômico, ao mesmo tempo que constroem mitos, celebridades, santidades e demônios aos seus interesses. Lutamos contra titãs, mas se é verdade que cada um de nós deve fazer sua parte, eis aqui, minhas idéias, minha luta, minha vida, minha palavra como arma dessa guerra.
Acima de tudo, dedico essa iniciativa à minha filha, eternamente ao meu lado, para sempre comigo, embora seu futuro tenha sido desconstruído em um presente contido no passado recente. Em meus sonhos, não do futuro, mas do passado, sua imagem me incentiva a lutar por um mundo presentemente melhor.
CARPE DIEM! FAÇA VALER O SEU FUTURO. LUTE POR UM PRESENTE REAL, JUSTO E MENOS DESIGUAL.