segunda-feira, 18 de maio de 2020

O ANTROPOCENO E COMO NOSSAS RELAÇÕES COM A NATUREZA AFETAM NOSSAS VIDAS E MULTIPLICAM AS DOENÇAS

Será que podemos falar algo neste momento, que não tenha a Covid19 como centro da preocupação? Muito difícil. Podemos tentar, mas, ao final, vamos terminar caindo nessa questão. Porque tudo que diga respeito ao nosso estilo de vida, e à maneira como nos relacionamos na sociedade, e como se dá a relação humana com a natureza, indubitavelmente nos levará a indagar sobre as consequências dessas relações. E a pandemia causada pelo vírus “Sars cov-2” tem uma razão de existir, ela não surge espontaneamente, suas causas estão sendo investigadas, e já é possível dizer que tem a ver com nossa forma de nos relacionarmos com o nosso meio, a natureza e a sociedade.
Mas aqui não vamos partir das consequências. O objetivo é analisar as questões relacionadas aos problemas ambientais, sob um foco diferente daquele que comumente a mídia costuma enfocar. Vou procurar inverter a maneira como as coisas são mostradas, e repetidas ad nauseam. Normalmente o foco das notícias são as consequências. Por exemplo: aquecimento global (considerando todas as polêmicas que existem em torno dessa expressão). Ora, que seja, suponhamos que de fato haja um “aquecimento global”, embora eu não goste dessa expressão. Mas de maneira nenhuma isso pode ser visto como o nosso parâmetro para considerarmos as condições do planeta Terra.
O que quero dizer é que as mudanças climáticas, ou os eventos climáticos extremos, geram efeitos diversos, e a elevação da temperatura da terra é uma delas(*). Mas essas não são as causas. E muito menos os eventos extremos se explicam por si sós. Primeiro, é preciso dizer (e não vou me estender porque fugiria da minha especialidade) que as transformações na natureza ocorrem desde milhões de anos atrás, de maneira sucessiva. É impossível determinar o tempo de duração da terra, mas conta-se em bilhões de anos, desde o que poderia ter sido a sua origem: o Big Bang. Compreende-se, por esses números, que nada que se possa falar sobre a terra, ou o universo de uma maneira geral, possa ser dito de maneira simplificada.
Contudo, não podemos fechar os olhos e desconsiderar todo esse processo que advêm de um longo tempo, e imaginarmos que nossas origens se contam a partir de uma ação de um ser divino, porque não vamos chegar ao começo, já que teríamos que buscar respostas sobre como surge esse Deus. E, certamente ficaríamos como vemos divertidamente um cachorro girando em círculo tentando morder o seu próprio rabo. Da mesma forma, o reducionismo da existência da terra vinculando ao surgimento do ser humano tornaria esse o Planeta dos Humanos[1], pressupondo que daí seria o início das transformações na terra.
Portanto, estamos diante de situações muito complexas, e da necessidade do entendimento de transformações que são potencializadas pela ação humana, ou poderíamos usar a palavra aceleradas, mas jamais podemos esquecer que, independente da ação humana mudanças acontecem na natureza, seguindo um ciclo normal, de um equilíbrio necessário que muitas vezes passou por processos de extinção em larga escala.
Mas não quero me aprofundar nos períodos que antecedem o atual, isso falando geologicamente, em milhões de anos. Queremos partir do antropoceno, provavelmente identificado temporalmente como tendo se iniciado a partir do século XVIII, portanto desde quando as atividades industriais assumem uma grande intensidade, criando uma classe forte, daqueles que passaram a controlar a partir dali os meios de produção não mais manufaturados, mas industrializados. Tempo em que também as ideias sofriam transformações revolucionária e o antropocentrismo passou a assumir a condição hegemônica na relação com o conhecimento, deixando para traz o período em que a igreja dominava as ideias e o teocentrismo era a base do entendimento de como o mundo funcionava.
Deixo em aberto aqui essa questão quanto ao surgimento do antropoceno, já que alguns estudiosos consideram que isso se deu desde o aparecimento do homo sapiens, quando a partir de então o ser humano passa a buscar formas de não somente se adaptar ao ambiente, mas com a capacidade que vai adquirindo de lidar com ferramentas ele  inicia um processo intenso de intervenção na natureza, acelerando essa relação de forma exponencial, mediante revoluções acentuadas nos meios de produção, e em sua capacidade de manusear e transformar objetos, até atingirmos esses tempos atuais, de uma enorme intensidade tecnológica.
Mas foi principalmente a partir dos fins da Idade Média que concepções filosóficas de base materialistas ampliaram o entendimento que já vinha desde a antiguidade, apesar do interstício medieval. Tivemos primeiro o Renascimento, um resgate das artes e ciências da Antiguidade esquecidas nos tempos sombrios medievais, e depois o Iluminismo, quando a humanidade se depara com filosofias que passam a expor de forma clara uma diferença essencial entre o homem e os demais animais, a sua capacidade de transformar o seu habitat, para além da capacidade adaptativa. O teocentrismo perde definitivamente lugar para o antropocentrismo, e o ser humano é guindado à condição de centro do universo. Kant, no século XVIII, vai ter um papel importante na diferença do ser humano com os demais animais, que por ser dotado de razão se tornaria superior à natureza bruta. (KANT, 2016, pp. 611-613)
Por sua importância na Geografia, Kant influenciou muitos geógrafos e suas concepções serão importantes no próprio embate existente entre os seguidores de Friederich Ratzel e os de Vidal de La Blache. Aquele tido como determinista por ver um forte processo adaptativo também no ser humano, e busca nisso a explicação para dar sentido e força à categoria território, advinda da própria maneira como os animais delimitam seus espaços, também numa clara influência darwinista. Já em La Blache, está mais fortemente marcada essa linha kantiana, de sobreposição da capacidade humana sobre a natureza, a partir de todo o processo produtivo que o leva a realizar transformações que modificarão seu habitat.
Embora as duas vertentes estejam cobertas de razões, no entendimento do que de fato acontece entre a relação homem-natureza, a forma como o ser humano é elevado quase a condição de Deus, pelo seu potencial de intervenção na natureza e de poder transformá-la, definirá os caminhos pelos quais as sociedades marcharão, elevando por esse mantra a condição de superioridade e de deificação de si mesmo, em uma atribuição recente por Yuri Harari, de “Homo-Deus”. (HARARI, 2019, p. 427)
Essa condição, de superioridade perante a natureza, e todo processo acelerativo que nos tira da condição de manusear primitivamente objetos à inserção de inteligências artificiais em objetos ultra tecnologicamente desenvolvidos, com capacidade de substituir o ser humano em tarefas tidas como essenciais em nossas vidas, tem sido fundamental para uma transformação radical em nossa forma de viver, e, consequentemente, em nossos comportamentos. A cultura segue, por aí, e define nossas atitudes e hábitos.
O deslumbramento com a tecnologia ao longo dos séculos, curto tempo em que a ciência assumiu o protagonismo, não ela espontaneamente enquanto sujeito, mas sim, como instrumento da ação humana, com objetivos definidos de ampliar sua capacidade de produção de mercadorias e de produtos sofisticados que objetivavam, sempre, ampliar o processo produtivo e adquirir inovações que impulsionassem as sociedades por caminhos da artificialização da vida, distanciando-se gradativamente de seu ambiente natural. Este também aos poucos sendo atingidos por essa onda de novas tecnologias, acelerando a destruição da natureza, de onde se extraem as principais matérias-primas a serem usadas nesses processos.
Devastada, a natureza foi se vendo atingida no elemento básico de sua existência: o equilíbrio ecológico. Condição pela qual qualquer ser vivo ou objeto existente se torna essencial para a vida, ou para a conformação do planeta, numa visão vista como dialética por um viés, ou holística, tal qual demonstrado no filme Avatar, explorando o mito de Gaia para dar também essa noção de totalidade e de interação entre todos elementos e seres vivos que habitam a terra. Essa concepção foi difundida no século XX, por James Lovelock.[2]
É certo, contudo, não importar muito as concepções que irão nortear essas teorias para o objetivo que queremos transmitir aqui, visto que cada uma delas considera que a interação na natureza, a forma com se dão as relações entre os seres vivos, e destes com o ambiente em que vivem, se dá por meio de um equilíbrio natural.
Pelo dito, a partir do que temos estudados, consideramos necessário e urgente abordar a aceleração destrutiva dessa relação que o ser humano estabelece com a natureza, de maneira intensa e cada vez mais sofisticada e por isso mais explosiva para esse equilíbrio ecológico. A chamada era antropocênica atinge o seu pico nos dias atuais, reduzindo a cada ano o intervalo entre velhas e novas tecnologias, levando a uma obsolescência rápida de inovações tecnológicas por curto tempo passado celebradas como novidades.
Essa aceleração é consequência da própria característica do sistema capitalista, por essência expansivo (MARQUES 2016). Isso leva a um rápido descarte de algo ainda utilizável, mas que deve ser superado tecnologicamente para permanecer elevado o ímpeto do consumo pelo que é moderno e novidade. Isso faz com que a maior parte das mercadorias existentes no mundo atualmente tenham surgido há menos de duas décadas, ou são sistemas que se atualizam permanentemente e trazem sempre novas cargas de inovações.
Com um mundo em previsão de atingir 9 bilhões de pessoas até os anos 2050, esse mecanismo tende a se manter num grau de obsessão por novas tecnologias e inovações cada vez mais acentuado. As consequências disso, principalmente porque o principal motor desse desenvolvimento são fontes de energias fósseis, mas também porque essas novidades tecnológicas exigem a exploração de recursos hídricos e minerais em larga escala, é a intensificação da destruição da natureza, porque é nela que se encontram as matérias primas necessárias para que isso tudo aconteça.
Nos últimos anos tem surgido um movimento mundial que exige um planeta verde, e que atualmente tem envolvido novas gerações, jovens que despertam para o perigo que o expansionismo capitalista representa para o presente e os dias futuros. Mesmo que não sendo movimentos em essência anti-capitalistas, eles não podem fugir à realidade de ser esse o sistema hegemônico, quase que exclusivamente dominante, que não se detém diante da necessidade de acumular cada vez mais riquezas nas mãos dos que controlam os meios de produção.
Tudo isso nos leva aos questionamentos que são feitos por pesquisadores que se interessam por compreender como se dá o processo evolutivo do planeta terra, e os momentos que por bilhões, milhões e milhares de anos, transformaram o planeta em toda a sua dimensão e o ecúmeno, por caminhos que levaram a pelo menos cinco extinções de espécies vivas, animais e vegetais. Neste momento estaríamos, então, diante da sexta extinção (MARQUES, 2016; KOLBERT, 2015).
Desta feita, acentuada pelos mecanismos gerados pelo agente responsável pela transformação acelerada do meio-ambiente, natural e artificial, o ser humano. Daí a indicação de vivermos em uma era antropocêntrica, na identificação da origem do termo.[3]
Assim, chegamos àquilo que nos angustia atualmente, uma pandemia causada por um vírus que se dissemina numa rapidez jamais vista antes. São dois aspectos importantes de serem abordados para estabelecermos uma ligação com o que quisemos dizer nas linhas acimas: o primeiro o tipo do vírus e a sua origem, certamente já próximos a obtermos uma resposta cem por cento correta, de ter surgido a partir das relações humanas com animais silvestres, fora de seus habitats; o segundo devido a maneira como nós nos estabelecemos nas cidades, superpopulosas e a facilidade com que nos deslocamos por distâncias enormes em curtos espaços de tempo, como consequência dos avanços tecnológicos nos meios de transportes.
Avatar
Somente esses dois aspectos, dentre tantos muitos outros que podemos citar, já nos coloca, a nós seres humanos, como os principais responsáveis pelas alterações dos ambientes naturais, causando um absoluto descontrole no equilíbrio ecológico, bem como construindo artificialmente formas de vida concentradas, em cidades que potencializam disseminação de doenças, e onde, pela absoluta ausência de condições de criarmos as condições de nossas próprias sobrevivências, nos habituamos a nos alimentar e nos vestir seguindo padrões gerados por processos industriais que são fontes por onde se originam todas as ações que são destrutivas para a natureza e a biodiversidade.
Por esse caminho, da agressão à natureza, e de ambientes criados por condições vergonhosamente desiguais, é que o caminho apontado como consequência do processo evolutivo sistêmico, produtor de mercadorias e destruidor de ambientes naturais, será da eliminação de uma quantidade enorme de espécies, que veem seus habitats destruídos. Algumas poucas dessas espécies, desesperadamente em busca de sobrevivência, encontram nos ambientes urbanos refúgios e um novo processo adaptativo. Mas trazem consigo vírus que são mortais para o organismo do ser humano e até mesmo de alguns animais criados em larga escala para atender a uma demanda alimentar de base carnívora.
Mito de Gaia
Compreendemos então, que a crise ambiental que vivenciamos nada mais é do que parte da crise sistêmica capitalista, pelo seu caráter eminentemente expansionista, e que nos leva aceleradamente para mais uma extinção em massa de espécies, a “sexta extinção”. A pandemia da COVID19 poderá não ser o maior processo de disseminação de vírus deste século. Se não mudarmos a forma como lidamos com a natureza, e não conseguirmos conter a ganância e obsessão com que se dão as relações capitalistas e a sua insensibilidade diante de um mundo terrivelmente desigual, iremos em espaços de tempos cada vez mais curtos, nos deparar com outras pandemias, e em muitos casos teremos que nos acostumar com a permanência entre nós de vírus que serão incapazes de serem contidos, transformando doenças epidêmicas em endêmicas, a infernizar principalmente a vida da maioria da população mais pobre e vivente em periferias desassistidas do poder público e entregues à uma miséria crescente.
Cabe-nos questionar se o ser humano também estará incluído na lista das espécies que desaparecerão com a “Sexta Extinção”.




NOTAS:

(*) Em conversas com um colega professor após a produção desse artigo, resolvi acrescentar essa nota explicativa, para melhor compreensão de conceitos que envolvem termos que hoje são ditos usualmente, mas muitas vezes, como eu fiz, de forma muito abrangente, mas nem sempre cientificamente correta: "mudanças climáticas", esse termo é amplo e usual, mas é errado sob o ponto de vista da Climatologia, mudanças climáticas são mensuráveis em intervalos iguais ou superiores a 100 mil anos, o que temos é "variabilidade climática", pois são intervalos curtos de uma ou mais décadas e causadas pelo ser humano. O mais adequado e que não gera problemas é a "ciclicidade climática", pois os eventos extremos se repetem, após décadas, séculos etc. É possível determinar a idade da Terra sim: 4,56 bilhões de anos. (...) o Big Bang ocorreu há 13,87 bilhões de anos, portanto a Terra não é derivada disso, mas sim de vários processos astrofísicos que ocorreram na galáxia Via Láctea até gerar o Sol e o Sistema Solar, por um período de aproximadamente 5 bilhões de anos após o Big Bang". (Prof. Dr. Paulo Henrique Azevedo Sobreira. Geógrafo (bacharelado e licenciatura) e Cosmógrafo. Mestre e Doutor em Geografia Física - Ensino de Astronomia em  Geografia. Professor Associado do Instituto de Estudos Socioambientais - IESA-UFG)
[1] Faço aqui um trocadilho não com o Planeta dos Macacos, o filme. Mas com um documentário, produzido por Michael Moore e lançado em 2019, “Planeta dos Humanos”, disponível no You Tube: https://www.youtube.com/watch?v=VKNTrFKju3g
[2]  Lovelock propôs a teoria Gaia. Esta teoria propõe a existência de um sistema cibernético de controle, que compreenderia a biosfera, a hidrosfera, a atmosfera, os solos e parte da crosta terrestre, e teria a capacidade de manter propriedades do ambiente, como a composição química e a temperatura, em estados adequados para a vida. https://www.ecodebate.com.br/2017/07/04/teoria-de-gaia-de-ideia-pseudocientifica-teoria-respeitavel-artigo-de-roberto-naime/
[3] Palavra formada a partir do Grego ANTHROPOS, “homem”, mais  GENEA, “geração, raça, ascendência”. https://www.dicio.com.br/antropogenico-2/
REFERÊNCIAS:
HARARI, Yuval Noah. Uma breve história da humanidade. Porto Alegre, RS: LP&M, 2019. 46ª edição.
KOLBERT, Elizabeth. A Sexta extinção. Uma história não natural. Rio de Janeiro, RJ: Editora Intrínseca, 2015. Edição Digital.
MARQUES, Luiz. Capitalismo e Colapso Ambiental. Campinas, SP: Editora Unicamp, 2016. 2ª edição.



terça-feira, 12 de maio de 2020

NÔ, A HISTÓRIA DE UMA GUERRILHEIRA A SER DESVENDADA


Leonor Carrato a Nô, falece duas semanas depois de ser encontrada, deixando uma história de militância para ser desvendada.
por Romualdo Pessoa
Publicado 12/05/2020 10:47

Publicado no Jornal do TO
Em um dos meus trabalhos de pesquisa eu afirmei que o pesquisador ao escolher o seu tema que o tornará especialista em uma área, faz com que cresça ao longo do tempo uma paixão que o acompanhará para o resto da vida. Aconteceu de eu escolher um tema que se liga à minha história de vida e engajamento político. Como historiador construí essa junção, cuja ligação me torna praticamente uma fonte recorrente quando se trata da história daqueles que viveram um tempo de combate tenso, no enfrentamento com uma ditadura peçonhenta, de atos vis e comportamentos criminosos.
Depois de 30 anos envolvido na história da Guerrilha do Araguaia, ainda continuo surpreendido com histórias que nos comovem e nos envolvem mais ainda em fatos passados, misturados com trajetórias incríveis e que fazem as ligações com o presente.
Há cerca de duas semanas recebi uma mensagem do jornalista Lailton Costa, do Jornal do Tocantins. Perguntava se poderia me ligar, pois tinha uma história impressionante de uma militante que dizia ter participado da Guerrilha do Araguaia, e estava morando em Colinas do Tocantins. Conversamos por um bom tempo. Ele me contou a história de Leonor Carrato, Nô, como era conhecida, de 100 anos de idade[1]. Rapidamente fiz uma busca em meus arquivos, e procurei também no relatório final da Comissão da Verdade. Não encontrei nenhuma referência ao seu nome.
Foto de Luciene Anacleto
Publicada no Jornal do TO
Maria Lídia, como passou a ser conhecida por todo esse tempo, disse ser uma antiga militante de esquerda, e que ajudara na reconstrução do Partido Comunista do Brasil, nos idos da década de 1960. Teria se deslocado para a região onde vivia para fazer parte da Guerrilha do Araguaia. O jornalista Lailton disse que ela aparentava lucidez, apesar de 100 anos de idade e de um aspecto físico bem fragilizado. A sua emersão teria se dado por circunstâncias ruins, que provavelmente fez acelerar sua fragilidade. Morando sozinha, em um pequeno casebre, ela teria sido vítima de um assalto, foi agredida e ao ser atendida por policiais civis ela revelou sua história.
Leonor Carrato, cujo nome verdadeiro ela ainda se lembrava, se identificou aos agentes, facilitando o contato com parte de sua família que vivia em Minas Gerais e que a levou para a cidade de Andrada naquele estado, onde, lamentavelmente, veio a morrer 14 dias depois de reencontrá-los, provavelmente ainda impactada pelo ataque que sofreu em Colinas do Tocantins.
Doc. publicado no UOL,
nele a família
de Leonor comunica
seu desaparecimento em 1979
A história de Maria Lídia-Leonor, logo teve grande repercussão, pela reportagem bem feita por Lailton, pela dimensão que sempre teve a história da  Guerrilha do Araguaia, e até mesmo pelo próprio momento político em que estamos vivendo, quando um presidente desequilibrado recebe no Palácio do Planalto um torturador e criminoso confesso, Sebastião de Moura Curió, responsável direto, e devidamente responsabilizado, pelo assassinato de dezenas de militantes mortos após terem sido presos com vida. Duas semanas depois a história de Leonor Carrato tomou conta de sites de notícias de dimensão nacional, sendo publicada no UOL-Folha de São Paulo.[2]
Assim, a notícia do aparecimento de mais uma militante, que vivera tanto tempo escondida, nos lembra histórias de outros personagens de guerras, reaparecidos somente décadas depois do final do evento. Mesmo em relação à Guerrilha do Araguaia, temos a história de Micheias Gomes de Almeida. Zezinho do Araguaia, como era conhecido, combateu na guerrilha e saiu de lá juntamente com Angelo Arroio, um de seus comandantes. Zezinho não conseguiu chegar a um ponto de encontro em tempo, e, como era orientação, desapareceu do local. Mas fez isso quase que também de sua própria personalidade, e viveu por mais de duas décadas sem que se soubessem de sua existência. Fui um dos primeiros a entrevistá-lo, juntamente com outro colega pesquisador, e a contar sua história em minha dissertação de mestrado, tornada livro com o título “Guerrilha do Araguaia, a esquerda em armas”.
Tão logo foi publicada a reportagem de Lailton, procurei fazer contato com a Fundação Maurício Grabois, que guarda um importante acervo documental tanto sobre a Guerrilha, como sobre o PCdoB. A situação de distanciamento social se tornou um empecilho para que pudéssemos ir a campo para agilizar essas investigações. Como sempre faço, mantenho contato com outros pesquisadores, e até mesmo com parentes daqueles que desapareceram e/ou foram assassinados durante e depois da guerrilha, em busca de alguma informação que porventura algum deles tivessem.
Nô, em casa,  Colinas do Tocantins
uma das últimas fotos -
Publicada no Jornal do TO.
Mas desde o começo tive dificuldades de aceitar que ela tivesse de alguma maneira feito parte da guerrilha. O jornalista me convenceu da lucidez com que ela falava de sua história de militância e do envolvimento com o PCdoB. A hipótese que passei a trabalhar era que ela poderia ter tido uma passagem pelo partido, em um momento de turbulência e de reorganização. No entanto supus que o caminho dela pudesse ter sido outro. Como era sabido, e eu tinha conhecimento, muitos militantes se deslocaram na direção do Bico do Papagaio, fronteira do hoje estado do Tocantins, do Maranhão e do Pará. E o foram motivados também por uma outra estratégia, que era para ser implementada pela ALN (Aliança Libertadora Nacional), em função de uma proposta de Carlos Marighela, em fazer uma guerrilha volante por toda a BR-153. Portanto, há uma forte probabilidade de ela ter se ligado à ALN e se deslocado para a região dentro dessa perspectiva. A outra hipótese seria dela ter se tornado membro do MOLIPO, (Movimento de Libertação Popular). Como outros fizeram e foram descobertos, com alguns sendo sepultados clandestinamente em algumas cidades da região, como Guaraí, onde foi morto e sepultado Jeová Assis Gomes, e como Arno Preis, preso em Paraíso do Tocantins, ambos membros do MOLIPO.
Seriam suposições, em que eu me dedicava a buscar algumas respostas e mantendo contato para isso. Como fazemos sempre, todas as vezes em que aparece um nome vinculado à história da Guerrilha do Araguaia, procuramos nos desdobrar para achar respostas para alguns mistérios infindáveis. Como em todos os conflitos e guerras, histórias parecidas se sucedem, e pessoas se isolam em um mundo criado para garantir suas sobrevivências, e dele tem dificuldades em sair, principalmente porque todos os seus contatos, ou morreram, ou desapareceram.
Foto de arquivo pessoal - Publicado
no Jornal do TO
Leonor Carrato possivelmente se inclui nesse rol de militantes que se entregaram à luta por um ideal, em um momento obscuro da história do nosso país. Em vida seria mais fácil buscar em suas memórias mais informações que nos ajudassem a desvendar toda a sua trajetória, certamente marcada por abnegação e dedicação à causa que ela acreditava. Com sua morte[3] caberá a nós, historiadores e historiadoras, nos debruçarmos sobre uma história de um final que poderia ter sido menos doloroso do que foram as últimas décadas de solidão em que ela viveu. Certamente, porém, ela não morreu esquecida, pois quis o destino que ela reencontrasse parte de sua família.
Espero poder encontrar os fios que enredam a história de Maria Lídia-Leonor Carrato, como consegui ajudar a refazer os laços separados de Amaro Lins, cuja história eu conto em meu livro, distanciado que ficou de sua família por ter escolhido ir para o Sul do Pará e se engajar na preparação do movimento guerrilheiro. Tendo sobrevivido, viveu escondido por muito tempo, sendo levado para o reencontro com suas filhas no Rio de Janeiro, após sua história ser mostrada no Fantástico da Rede Globo. Seu Amaro faleceu poucos anos depois, no ano de 2000.
Com certeza a Fundação Maurício Grabois irá nos ajudar nessa busca de informações em seus arquivos, e, se houver alguma relação com o PCdoB certamente isso será mostrado. Mas nos resta agora garimpar nos documentos históricos, para garantir que a memória de Leonor Carrato possa ser resgatada e a sua história devidamente contada.


NOTAS:

sábado, 9 de maio de 2020

PANDEMIA COVID19 – DESNUDANDO A REALIDADE SOCIAL

Imagem: Site Politize

Desde o início da decretação dessa pandemia, na qual ainda estamos metidos, e com o distanciamento social implementado pelos governos estaduais, venho produzindo artigos que nos provoquem reflexões sobre o entendimento de todo esse processo. Outros colegas da Universidade, com a suspensão das aulas, e o devido trabalho em home office, estão fazendo o mesmo, e produzindo materiais[1] que nos auxiliem a compreender a dimensão da Covid19,[2] cada um/a em sua área de especialização[3]. Assim, contribuímos para evitar a disseminação de informações falsas e/ou manipulações de realidades que tem sido cruéis e que ainda irão provocar muitas perdas de vidas e desespero familiares.
As consequências ainda são difíceis de serem previstas, mas o olhar na história e o quanto outras pandemias trouxeram fortes impactos sociais e econômicos, faz com que acreditemos que iremos ainda por muitos meses, e talvez anos, lidar com quedas brutais nos Produtos Internos Brutos nos países, um impacto terrível nos níveis de emprego em função da redução abrupta do processo produtivo e prováveis revoltas e insurreições populares diante do desespero que será conviver com fome e desesperança.
Instituto de Estudos Socioambientais
da UFG
Neste momento importa olharmos bem criticamente as condições em que o estado brasileiro tem deixado tanto os investimentos em saúde, como no aprimoramento das condições de vida daquelas pessoas mais fragilizadas socialmente. Quando analisamos os dados, e as vidas das pessoas se tornam estatísticas, infelizmente, nos debruçamos sobre realidades cruéis, passíveis de terem sido resolvidas, mas decorrentes da absoluta ausência de compromisso do governo brasileiro com as questões sociais, e amarrados a uma lei criminosa que limita os gastos do Estado, e impõe a áreas importantíssimas, como saúde, educação e ciência, uma redução absurda nos valores investidos, causando uma destruição dos sistemas que estruturam essas áreas de enorme valor estratégico para a Nação como um todo. Um estudo precioso tem sido elaborado por um grupo de professores do Instituto de Estudos Socioambientais da UFG, e pode ser pesquisado no acesso ao site do Observatório do Estado Social Brasileiro[4].
Observatório do Estado Social Brasileiro
Os artigos que tenho produzido objetivam desnudar essa realidade. Parto de outras análises, feitas durante todo esse período por diversos especialistas, cientistas da área de saúde, bem como também os cientistas sociais, para construir a elaboração de conteúdos que se afinem com uma visão crítica, de uma realidade perversa e que precisa ser demonstrada em toda a sua dimensão. Não é algo que surgiu neste momento. Este momento de uma epidemia terrível, que se espalhou por todo o mundo, a ponto de ser definida pela Organização Mundial de Saúde como uma pandemia, desnuda uma realidade que não é mostrada com frequência, em certos casos ela é escondida, e na contrapartida da virtualização de um mundo ultratecnológico, perde espaço nas mídias de uma maneira geral. Até mesmo nas mídias sociais, já que ao viajarmos buscamos aqueles lugares deslumbrantes, lúdicos, idílicos. Por uma necessidade compreensível de buscarmos descansar do stress e da escravidão ao trabalho. E, naturalmente, são as belezas naturais ou artificiais que fazem parte de nossas selfies.
Mas as cercanias das cidades, as favelas, periferias descuidadas e esquecidas pelo poder público, embora cheias de cidadãos e cidadãs (sem direitos de cidadania) que são procurados em épocas eleitorais, mas negligenciados no cotidiano de suas vidas. Esses são os principais alvos dessa e de outras epidemias, doenças que afetam os seus cotidianos, decorrentes da pobreza, falta de condições básicas de higiene, por causa da ausência de serviços básicos de saneamento, infraestruturas adequadas de moradias, enfim, um descaso absoluto, secular.
Imagem: BBC
Não ocorrerão transformações pós-pandemias se, junto com as preocupações de momento para conter a disseminação do vírus “sars cov-2”, não vierem um forte sentimento de indignação por essas condições. E que possamos dar mais e muita visibilidade a uma realidade cruel, que em muitos casos transformam seres humanos em ratos, pelos ambientes sujos e podres nos quais esses indivíduos vivem. Não porque desejam. Não porque não adquiriram méritos suficientes para viverem em outras condições. Mas porque estão submetidos a uma lógica perversa, um apartheid natural de um sistema que se transforma em duas direções. Em uma, do topo, ampliando a riqueza e reduzindo o percentual daqueles que a controla: e, do outro, da base de uma pirâmide onde situa-se a imensa maioria da população, sobrevivendo em meio à essas condições e garantindo a mão-de-obra necessária para satisfazer o luxo e a ostentação dos ricos.
Essa população, ao final do isolamento social, ela permanecerá no distanciamento social, pelas condições que a levaram à essas circunstâncias, e de políticas seculares de um país que se desenvolveu na separação estrutural opondo a casa grande à senzala. A maneira de forçar as mudanças, e que as lições dessa pandemia sejam aprendidas, é deixarmos bem claro essas condições, mostrarmos incessantemente a perversidade que é a realidade brasileira, e deixar de nos inebriar e nos deslumbrar com as maravilhas que as tecnologias produzem e nos fascinam, ignorando as condições em que vivem a maioria das pessoas.
Imagem: Portal Vermelho
Os artigos abaixo, com os links para acesso, procuram identificar as razões, as causas, os comportamentos, e a normalidade que faz nos cegar diante da realidade. Espero que ajudem a levantar bandeiras, e, mais do que isso, que motivem o máximo de pessoas a se imbuírem do desejo de ir à luta, para além do mundo virtual, tão logo saíamos dessa condição de quarenta na qual estamos colocados por absoluta necessidade de combater um vírus invisível aos nossos olhos, um microrganismo, mas de um poder destrutivo brutal. Após derrotá-lo, cabe-nos criar coragem de enfrentar esses outros desafios, com a certeza de que em breve iremos nos deparar com outros vírus e novas epidemias.
Controlar essas doenças só será possível, de forma plena, se nos anteciparmos à suas disseminações. O que significa mudar a lógica como a saúde é tratada, e de curativa transformar os atendimentos e a sua política em preventiva, passando por eliminar essas condições miseráveis em que vive uma enorme parcela da população.

ACESSEM, LEIAM E COMPARTILHEM:

1. MEU BLOQUEIO, O NOVO CORONA VÍRUS E COMO VEJO ESSA PANDEMIA – 24.03.2020
2. TUDO QUE É SÓLIDO DESMANCHA NO AR – O COVID19 E A CRISE CAPITALISTA MUNDIAL – 28.03.2020
3. O COVID 19 E O MUNDO NA ENCRUZILHADA – 05.04.2020
4. A DIMENSÃO DA GEOPOLÍTICA NO MUNDO ATUAL – 10.04.2020
5. COMO CHEGAMOS ATÉ AQUI E COMO SERÁ O MUNDO PÓS-PANDEMIA? – 28.04.2020
6. SOS SAÚDE: ESTAMOS ATINGINDO OS LIMITES DA NATUREZA HUMANA E DO ECOSSISTEMA – 04.05.2020
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[2] Platforma Covid Goiás - https://covidgoias.ufg.br/#/map
[4] Observatório do Estado Social Brasileiro - http://obsestadosocial.com.br/


segunda-feira, 4 de maio de 2020

ESTAMOS ATINGINDO OS LIMITES DA NATUREZA HUMANA E DO ECOSSISTEMA


Imagem: Fenafar
O momento que atingimos, em termos do desenvolvimento humano, e de ações antrópicas sobre a natureza, pode ter chegado a um ponto da curva de difícil retorno, a depender do tempo para reação. A aceleração marcante das inovações e transformações geradas por um novo ciclo do capitalismo, na virada do século XX para o XXI, indicam uma destruição imponderável do nosso ecossistema. Saímos, séculos atrás, da situação em vivermos numa sociedade contemplativa, teocêntrica, e avançamos rapidamente para um novo mundo onde a criatura humana se tornou ela própria deus de si mesma, e justificou o mito da religião ocidental, da representação divina como correspondente a figura humana. Mas o “homo-deus”, na expressão de Yuval Harari, suplantou qualquer poder divino, porque este é abstrato. Na concretude de seus atos, e do racionalismo que imperou na lógica antropocêntrica, cada vez mais, nos deparamos com uma rapidez estonteante nas técnicas, nas ciências, no desenvolvimento tecnológico e na facilidade de comunicação. Tornamos o tempo refém de nossos desejos, mas foi preciso nos acelerarmos pela imensidão de objetos que criamos e precisamos nos adaptar. E buscamos criar inteligências artificiais que podem nos superar em capacidade de construção de novos meios e formas de “vida”. Caminhamos para fazer de nós mesmos seres obsoletos, em essência.
Esse destino que tem sido construído a partir da obsessão por ganhos financeiros e pavimentou uma lógica sistêmica que sobrepõe a busca pelo lucro incessante, desvalorizando a vida e impondo pela ganância, que mecanismos de governanças determinem os custos da vida humana pelos padrões dos gráficos e algoritmos que dominam os mercados financeiros e o viés neoliberal da economia. A guerra, a disputa ao extremo pela riqueza, as estratégicas frias e calculistas para se obter ganhos a qualquer custo, tornou um dos clássicos da estratégia, o livro “A Arte da Guerra”, de Sun Tsu, escrito há mais de dois mil anos, como dos mais consumidos por administradores, CEOs de grandes empresas e os que lidam com grandes negócios. É um livro que se encontra mais nas prateleiras dessas áreas, do que no interesse dos estudiosos de História e Geopolítica, onde ele deveria estar.
Assim, atentos a esses processos, torna-se mais fácil entender as perigosas escolhas feitas pelos governantes em suas políticas e em quais setores estratégicos se investem mais, ou menos. As consequências batem à nossa porta, às vezes em forma de microrganismos difíceis de serem identificados e, principalmente, combatidos. Chega a hora, então, de escolher quem dentre os humanos serão sacrificados. A análise, pura e simples, dos mecanismos de funcionamento do sistema capitalista, nos dá facilmente essa resposta.
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As decisões políticas de um governo sobre ações, por exemplo, que afete a nossa biodiversidade de maneira extrema, sucumbindo à aceitação da devastação da natureza, por omissão ou por política deliberada, causa, inevitavelmente, reflexos e consequências devastadoras por toda uma cadeia de relacionamentos que nos conectam em fluxos complexos mas que estão umbilicalmente ligados. Há um equilíbrio natural que comanda a vida em nosso planeta, nos mais diversos biomas e ambientes diversificados que se espalham pelo globo terrestre. Qualquer quebra nesse equilíbrio afeta em um efeito dominó sequencialmente uma diversidade enorme, de seres vivos que se completam até mesmo nas suas incompatibilidades.
Para não discorrer muito nessa direção, basta citar o mal que se faz atualmente o uso descontrolado de agrotóxicos com alto poder de destruição sobre diversas espécimes, que tem afetado abelhas e, por consequência, impactado fortemente no processo de polinização de plantas, levando a ocorrência de desaparecimento da flora, e a própria dizimação das abelhas. Isso é indescritível para compreensão da dimensão que atinge esses processos danosos e devastadores. Imaginemos o quão destruidor é o desmatamento de matas e florestas, de destruição de biomas, e os desequilíbrios causados pela ausência de populações mais variadas de seres vivos, desde microrganismos até animais e árvores de grande portes. Deixamos de ser o que sempre fomos e construímos um mundo esgotado em termos de biodiversidade, de descontrole socioambiental e onde a ausência de predadores naturais de diversas espécies podem levar, e estão levando, a um ambiente totalmente descontrolado.
As cidades, por seus entornos destruídos, empurram espécies silvestres para convivência com seres humanos já debilitados em termos de capacidade imunológica, pelo afastamento com a natureza e pela vida em um ambiente disseminador de doenças pela absoluta ausência de estruturas adequadas de saneamento. A água, fonte da vida, torna-se um importante vetor de transmissão de doenças e geração de organismos destruidores, que afetam com destaque crianças e os mais velhos, mas não deixa ninguém imune. Principalmente os mais pobres, que representam a maioria da população mundial, e em alguns países correspondem a dois terços de suas populações.
Ter a dimensão dessa realidade é fundamental para compreendermos as decisões sobre os investimentos estatais, e para onde eles serão alocados. O que temos vistos nos últimos anos, embora tenha crescido muito fortemente as pressões sobre governos e governanças mundiais e nacionais, é uma negligência de atores principais, porque administram grandes nações ou aquelas mais poderosas economicamente. Uma absoluta falta de consenso sobre o que deve ser prioritário, e a necessidade de preservar o que ainda resta de uma natureza terrivelmente atingida pelas ações gananciosas de grupos insensíveis e insensatos, mas com objetivos claros e definidos na linha especificada anteriormente.
Imagem: Câmera Record
Entro aqui no elemento principal, objeto desse artigo: a saúde. Sabemos, e já abordamos isso em textos anteriores, que a cidade se tornou o polo atrativo no interesse do desenvolvimento de um sistema produtor de mercadorias. E essas se realizam, são produzidas, e circulam majoritariamente nas cidades. Os mercados consumidores exponencialmente cresceram a partir do desenvolvimento acelerado das cidades. As condições de vida, no entanto, não acompanharam o processo de urbanização. A utilização da mão de obra assalariada, cada vez mais disponível à medida em que as pessoas deslocavam-se do campo para cidade, beneficiava os proprietários dos meios de produção, e os baixos salários pagos se refletiam no crescimento de periferias, e nessas de bairros desprovidos de infraestruturas adequadas, principalmente sanitárias, com falta de água, higiene e saneamento básico. A pobreza se tornou uma doença, que potencializava a disseminação de outras doenças crônicas transmissíveis ou não-transmissíveis, endêmicas, epidêmicas, metabólicas etc. Seja ligada ao estilo de vida urbano ou às condições sanitárias inadequadas. Mas como o Estado passou a lidar com essa situação, de uma população fragilizada pela miséria, e que aumentava junto com as cidades, de forma desordenada e descontrolada?
O século XX, já vimos, passou por momentos cruciais, que exigiram do Estado a intervenção necessária para conter surtos epidêmicos ou crises econômicas graves, depressivas. Em cada um desses momentos o desafio principal foi como lidar com um número muito elevado de pessoas que viviam em condições de vida miseráveis. Foi preciso uma forte intervenção estatal para recompor empregos e ganhos salariais que garantisse a essa população consumir numa escala que viesse a tirar o sistema da crise, em função de paralisação da economia, nos dois cenários citados. A Europa agiu acertadamente, com base na aplicação de políticas keynesianas e com forte incremento financeiro a partir do Plano Marshall. Instituiu-se, assim, o que ficou conhecido como “Welfare State”, ou Estado de Bem-Estar Social. Naturalmente existia o interesse do bloco capitalista em demonstrar que havia também em seus interesses uma preocupação com as questões sociais, a fim de se contrapor no âmbito da guerra fria, ao socialismo representado pela União Soviética.
A Globalização, ou Mundialização, traria outras concepções, a partir da crise dos países socialistas, e da subjacente crise do sistema capitalista. Intensificou-se um outro viés na economia e uma inversão na maneira como o Estado até então agia, no sentido de manter a economia sob controle a partir da necessidade de garantir aos cidadãos o pleno emprego e níveis salariais que tornassem seus estilos de vida compatíveis com segurança social, saúde e educação.
A partir de então tornou-se mantra o discurso de retirar as amarras que os estados impunham as empresas. A desregulamentação da economia tornou-se o novo objetivo a ser alcançado, para limpar o caminho de controles que continham as possibilidades de ganhos, e, consequentemente impediam que as empresas pudessem crescer e oferecer melhores oportunidades àqueles trabalhadores mais capacitados, num mundo marcado pela necessária especialização em setores importantes que surgiam e se tornavam motores do crescimento. Um novo processo da revolução tecnológica capitalista se impôs, agora alimentando mais fortemente a ganância, erigida ao patamar de quase divindade, e apregoada como algo essencial para o desenvolvimento.
Essa nova valorização da ganância se tornou marcante em um filme clássico no final dos anos 1980, época em que começava a se desconstruir o estado de bem estar social na Europa e EUA: Wall Street – Poder e Cobiça, no discurso expressado pelo personagem central, um megainvestidor Gordon Gekko:
“A questão é, senhoras e senhores, que a ganância — na falta de uma palavra melhor — é boa. Ter ganância é certo. Ter ganância funciona. A ganância esclarece, separa e captura a essência do espírito evolucionário. A ganância, em todas as suas formas — ganância pela vida, pelo dinheiro, pelo amor, pelo conhecimento — marcou a evolução da humanidade. E a ganância — lembrem-se de minhas palavras — irá salvar não apenas a Teldar Paper, mas aquela outra empresa chamada Estados Unidos da América. Obrigado.”[1]
Essa redução da influência do papel do Estado na economia abriu caminho para um mais forte protagonismo das empresas, grandes corporações, em atividades antes controladas e, cujo objetivo, era garantir as condições básicas para que as pessoas fossem respeitadas em seus direitos de cidadania. Naturalmente o foco dessas empresas seriam aqueles setores caráter estratégico, e com maior demanda no mercado e potencial de crescimento pela incorporação de novas tecnologias.
Um desses setores, que pela própria característica da urbanidade teria um forte potencial de investimento e retorno lucrativo, era a indústria da saúde, principalmente a farmacêutica. Alguns países, pela própria característica de suas democracias, com uma maior e mais efetiva participação da população em reivindicações e na garantia de seus direitos, foram forçados a manterem muitos mecanismos conquistados no Walfare State, e a garantir proteção à saúde das pessoas, por meio de seguros ou planos bancados pelo Estado de forma universal. Evidente que com o tempo e as transformações geradas pela economia muitos desses serviços foram terceirizados, embora pleno e quase gratuito, eram administrados por empresas que recebiam do Estado para isso. Os modelos foram se diferenciando, mas em muitos países europeus se manteve o atendimento às pessoas à saúde como direito de cidadania.
Mas nos EUA isso se deu de forma diferente. A radicalidade gerada pela guerra fria opunha qualquer mecanismo de atendimento à população que pudesse ser caracterizado como controle do Estado. As vozes ultra-conservadoras elevavam o tom de seus discursos e atacavam essas propostas como sendo de caráter socializante. Evidente que por trás disso estavam interesses de grandes corporações farmacêuticas, de empresas que começavam a despontar com força na administração hospitalar e que aliavam essa atividade com a venda de planos de saúde, apresentadas como eficientes na proteção da vida.
Esse forte poder, que emergiu com muita força e se impôs, escondia uma perversidade que traria fortes consequências. O interesse econômico e a ganância presente na forma como esses planos de saúde se estruturavam desrespeitavam, assim como continuam fazendo até nos dias de hoje, a condição dos indivíduos em momentos em que suas vidas estavam necessitando urgentemente de internações hospitalares ou de acompanhamento de doenças crônicas. Isso foi muito bem abordado pelo cineasta estadunidense Michael Moore, no documentário premiado em 2008 com o Oscar, “Sicko – SOS Saúde”.[2]
Moore usa uma linguagem bem típica em seus documentários, onde mescla a crítica ferina ao estilo de vida “americano” (american way of live) com fortes ironias. Mas ele consegue construir bem a crítica ao sistema de saúde naquele país, e o forte discurso conservador que se impunha e se impõe, por meio de lobbies no Congresso e de uma política agressiva das corporações farmacêuticas. Em trechos onde percorre outros países, cujos sistemas de saúde são mais abrangentes, protecionistas e gratuitos, como Canadá, Reino Unido (cujo modelo em parte foi copiado para a constituição do Sistema Único de Saúde – SUS – no Brasil) e França na Europa; e Cuba, na América Central. Neste último, a exposição de como os prisioneiros da prisão de Guantánamo eram atendidos, com maior proteção e atenção que os estadunidenses que haviam participado dos resgate de corpos no Wall Trade Center, e não conseguiam ter um cuidado em suas saúdes protegidos pelo Estado, pode ser questionado pela forma como Moore se manifesta, mas o objetivo, creio, era demonstrar uma incoerência com a maneira como o governo de seu país tratava o seu povo. Em Cuba, Moore mostra um sistema de saúde com outro viés, não curativo, mas preventivo, e oferecido de forma universal e gratuita para a população.
Mas em relação à Europa alguns elementos de como isso passou a funcionar após a década de 1980, principalmente na segunda década do século XXI, não foram abordados, como o crescente processo de terceirização. E, até pela data em que o documentário foi produzido, não estão contempladas as mudanças que se tornaram constantes em diversos países, reduzindo os direitos de atendimento à saúde, previdenciários e de aposentadorias. Essas tem sido as principais batalhas que têm levado às ruas centenas de milhares de pessoas, principalmente na França, só contidas pela disseminação da Covid19.
As propostas dos governos tem sido de reduzir os impactos causados pelo que eles consideram “gastos” excessivos e rombos gerados por um desequilíbrio devido a um envelhecimento da população e à estagnação do crescimento demográfico. Esses são argumentos usados praticamente em todos os países que, após a crise de 2008 tiveram que lidar com forte déficit causado pelo custo de ter que intervir naquele momento para salvar os bancos e o sistema financeiro da bancarrota. Ao fim, e ao cabo, a corda quebra para o lado mais fraco, a não ser naqueles países que conseguiram realizar grandes manifestações populares e greves nacionais.
Nos EUA, em nenhum momento se consolidou um modelo padrão de atendimento à saúde que fosse universal e gratuito. Apesar de alguns programas voltados para atendimentos básicos às camadas mais pobres, isso não atingia o acompanhamento a doenças de alta complexidade. Aliás, algo que também terminava não ocorrendo em grande parte dos que possuíam planos de saúdes, que lá funciona de forma diferente. O paciente precisa ser atendido e depois os seus gastos serão restituídos pelas empresas, na maioria dos casos. Às vezes isso não acontece, porque determinadas enfermidades não são identificadas como incluídas nos contratos, levando a situações de falências pessoais ou de necessidade em se desfazer de algum bem para cobrir os custos hospitalares ou dos altos custos dos medicamentos.
Mais recentemente, após proposta de Barack Obama, em 2010, em criar um sistema de saúde que possibilitasse a todos um atendimento amplo e de caráter estatal, uma vez que cerca de 40 milhões de pessoas não possuem nenhum tipo de atendimento médico, gerou uma forte disputa com os setores conservadores, resgatando comportamentos radicais semelhantes aos que existiam durante a guerra fria, com acusações de ser um projeto estatizante e socializante. Obama passou a ser visto como defensor do Socialismo, em função dessas propostas. Apesar de aprovado o “Obama Care” como ficou conhecido, ou “Affordable care act” (Lei de Assistência Acessível) se tornou foco de uma forte disputa entre democrata e republicanos, até ser deformado por ação da justiça. Com a eleição de Trump o “Obama Care” foi mais ainda atacado, o que já estava acontecendo mesmo durante a campanha, e sua derrota se tornou uma das principais bandeiras do governo Trump.
Na essência, e de forma cruel, o que identificamos é a mais clara mercantilização da vida. O que, em verdade, tem acontecido nas últimas décadas, no âmbito de uma globalização perversa, é a ganância em sua forma mais acentuada, e, após a desregulamentação da economia a partir da década de 1990, uma transformação radical com praticamente todos os setores, inclusive aqueles onde o Estado ainda dava alguma cobertura social, sendo objeto de cobiça de grandes corporações. O adoecimento se espalhava celeremente em uma sociedade onde a cobrança por resultados e competências se davam de forma agressiva. O stress e a angustia potencializavam os sintomas de diversas outras doenças e elevava os riscos nas vidas das pessoas, impondo a elas o uso de alguma forma de droga, ou medicamento, que as fizessem lidar com as cobranças em um mundo onde o desemprego se acentuava e a meritocracia se impunha acentuando os desequilíbrios sociais.
No entanto, o outro lado dessa moeda, se fazia transparecer de forma mais nítida. A pobreza enfraquecia uma enorme população, desprovida de atendimentos básicos à saúde e vivendo em condições insalubres e miseráveis. Nesses ambientes a disseminação das doenças se alastrava rapidamente, ceifando vidas de crianças recém-nascidas e reduzindo o tempo de vida. Embora essas condições gerassem também altos custos ao Estado, a insensibilidade e a frieza daqueles que controlam a riqueza, termina por fazer surgir uma nova nomenclatura na abordagem e entendimento da política que negligencia a vida dessas pessoas pobres, malnutridas, idosas e que possuem doenças crônicas: a necropolítica. Afinal, suas mortes não seriam mais do que estatísticas em uma conjuntura que retirava dessas pessoas as mínimas condições de sobrevivência, por meio da exclusão de seus direitos a viver com dignidade e na velhice.
De dois modos o mundo se transformou e nos levou para situações como de pandemias como vivemos nos dias de hoje. Por um lado, a destruição dos biomas e de suas biodiversidades causou um forte impacto no equilíbrio ecológico, fazendo com que animais silvestres invadissem as cidades em busca de recolhimento e alimentação, e dessa forma trouxessem consigo vírus e bactérias potentes, com nossos anticorpos sendo incapazes de contê-los. Dentre outras coisas que são agravantes nessa nossa relação com a natureza, em parte citada no início desse texto.
Por outro lado as condições de vida nas cidades, com uma alta taxa demográfica e populações concentradas em cinturões de misérias em megalópoles com milhões de pessoas, em sua maioria vivendo em condições precárias e em meio a todo o tipo de podridão causada pela ausência de proteção do Estado e planejamento que ordenasse suas habitações e garantisse um mínimo de saneamento básico e água tratada.
Muito se diz atualmente que o mundo não será o mesmo depois dessa pandemia. É na verdade um sofisma. Porque “tudo muda o tempo todo, no mundo” (Lulu Santos). Vivemos em uma escalada de transformações e de mudanças, que nos dias atuais assume uma aceleração gerada pelos avanços tecnológicos, mas que determinam um novo tempo, marcado por fortes ações antrópicas, que serão determinantes no que alguns estudiosos já falam da “sexta extinção”, com o desaparecimento de uma quantidade muito grande de espécies, da fauna e da flora, que nos afetará sobremaneira, a partir do que já se evidencia nos grandes eventos climáticos extremos.
As transformações só advirão no sentido desejado àqueles que tem juízo e desejam a manutenção da harmonia ser humano-natureza, se houver uma mudança na lógica como o mundo está sendo governado. As desigualdades sociais, as diferenças existentes nas cidades e a destruição do ecossistema são os pontos cruciais que precisam ser atacados com políticas que sejam absolutamente contrárias àquelas que estão sendo implementadas por governantes de países que até então se constituem em empecilhos para a construção de um futuro mais harmônico e de respeito à vida humana.
O Covid19, por si só, e mesmo com a imensidão de mortes que ela carrega, não significará nenhuma postura sensível, ou de virada na política desses países e do conservadorismo que os conduzem. Será necessário muito protagonismo das pessoas que se guiam pela ciência, pelo sentimento de solidariedade e pelo desejo de construir um outro mundo, onde a cobiça e a ganância sejam substituídas pela resiliência e cooperação.



NOTAS:

[1] Filme: Wall Street Poder e Cobiça. Dirigido por Oliver Stone, 1987.
[2] Sicko – SOS Saúde. Dirigido por Michael Moore, 2007.

REFERÊNCIAS:

Ciência, saúde e doenças emergentes: uma história sem fim

SiCKO – SOS Saúde e a mercantilização da vida

Entenda a reforma no sistema de saúde dos EUA

A desindustrialização também colapsou a Saúde

''Se não mudarmos nosso estilo de vida, seremos vítimas de monstros ainda mais violentos que este coronavírus''

O discurso de Gordon Gekko, no filme Wall Street (1987)

Coronavírus não vai mudar a crença de que é possível vencer a morte, diz Harari