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segunda-feira, 4 de maio de 2020

ESTAMOS ATINGINDO OS LIMITES DA NATUREZA HUMANA E DO ECOSSISTEMA


Imagem: Fenafar
O momento que atingimos, em termos do desenvolvimento humano, e de ações antrópicas sobre a natureza, pode ter chegado a um ponto da curva de difícil retorno, a depender do tempo para reação. A aceleração marcante das inovações e transformações geradas por um novo ciclo do capitalismo, na virada do século XX para o XXI, indicam uma destruição imponderável do nosso ecossistema. Saímos, séculos atrás, da situação em vivermos numa sociedade contemplativa, teocêntrica, e avançamos rapidamente para um novo mundo onde a criatura humana se tornou ela própria deus de si mesma, e justificou o mito da religião ocidental, da representação divina como correspondente a figura humana. Mas o “homo-deus”, na expressão de Yuval Harari, suplantou qualquer poder divino, porque este é abstrato. Na concretude de seus atos, e do racionalismo que imperou na lógica antropocêntrica, cada vez mais, nos deparamos com uma rapidez estonteante nas técnicas, nas ciências, no desenvolvimento tecnológico e na facilidade de comunicação. Tornamos o tempo refém de nossos desejos, mas foi preciso nos acelerarmos pela imensidão de objetos que criamos e precisamos nos adaptar. E buscamos criar inteligências artificiais que podem nos superar em capacidade de construção de novos meios e formas de “vida”. Caminhamos para fazer de nós mesmos seres obsoletos, em essência.
Esse destino que tem sido construído a partir da obsessão por ganhos financeiros e pavimentou uma lógica sistêmica que sobrepõe a busca pelo lucro incessante, desvalorizando a vida e impondo pela ganância, que mecanismos de governanças determinem os custos da vida humana pelos padrões dos gráficos e algoritmos que dominam os mercados financeiros e o viés neoliberal da economia. A guerra, a disputa ao extremo pela riqueza, as estratégicas frias e calculistas para se obter ganhos a qualquer custo, tornou um dos clássicos da estratégia, o livro “A Arte da Guerra”, de Sun Tsu, escrito há mais de dois mil anos, como dos mais consumidos por administradores, CEOs de grandes empresas e os que lidam com grandes negócios. É um livro que se encontra mais nas prateleiras dessas áreas, do que no interesse dos estudiosos de História e Geopolítica, onde ele deveria estar.
Assim, atentos a esses processos, torna-se mais fácil entender as perigosas escolhas feitas pelos governantes em suas políticas e em quais setores estratégicos se investem mais, ou menos. As consequências batem à nossa porta, às vezes em forma de microrganismos difíceis de serem identificados e, principalmente, combatidos. Chega a hora, então, de escolher quem dentre os humanos serão sacrificados. A análise, pura e simples, dos mecanismos de funcionamento do sistema capitalista, nos dá facilmente essa resposta.
Imagem: Irgur.com
As decisões políticas de um governo sobre ações, por exemplo, que afete a nossa biodiversidade de maneira extrema, sucumbindo à aceitação da devastação da natureza, por omissão ou por política deliberada, causa, inevitavelmente, reflexos e consequências devastadoras por toda uma cadeia de relacionamentos que nos conectam em fluxos complexos mas que estão umbilicalmente ligados. Há um equilíbrio natural que comanda a vida em nosso planeta, nos mais diversos biomas e ambientes diversificados que se espalham pelo globo terrestre. Qualquer quebra nesse equilíbrio afeta em um efeito dominó sequencialmente uma diversidade enorme, de seres vivos que se completam até mesmo nas suas incompatibilidades.
Para não discorrer muito nessa direção, basta citar o mal que se faz atualmente o uso descontrolado de agrotóxicos com alto poder de destruição sobre diversas espécimes, que tem afetado abelhas e, por consequência, impactado fortemente no processo de polinização de plantas, levando a ocorrência de desaparecimento da flora, e a própria dizimação das abelhas. Isso é indescritível para compreensão da dimensão que atinge esses processos danosos e devastadores. Imaginemos o quão destruidor é o desmatamento de matas e florestas, de destruição de biomas, e os desequilíbrios causados pela ausência de populações mais variadas de seres vivos, desde microrganismos até animais e árvores de grande portes. Deixamos de ser o que sempre fomos e construímos um mundo esgotado em termos de biodiversidade, de descontrole socioambiental e onde a ausência de predadores naturais de diversas espécies podem levar, e estão levando, a um ambiente totalmente descontrolado.
As cidades, por seus entornos destruídos, empurram espécies silvestres para convivência com seres humanos já debilitados em termos de capacidade imunológica, pelo afastamento com a natureza e pela vida em um ambiente disseminador de doenças pela absoluta ausência de estruturas adequadas de saneamento. A água, fonte da vida, torna-se um importante vetor de transmissão de doenças e geração de organismos destruidores, que afetam com destaque crianças e os mais velhos, mas não deixa ninguém imune. Principalmente os mais pobres, que representam a maioria da população mundial, e em alguns países correspondem a dois terços de suas populações.
Ter a dimensão dessa realidade é fundamental para compreendermos as decisões sobre os investimentos estatais, e para onde eles serão alocados. O que temos vistos nos últimos anos, embora tenha crescido muito fortemente as pressões sobre governos e governanças mundiais e nacionais, é uma negligência de atores principais, porque administram grandes nações ou aquelas mais poderosas economicamente. Uma absoluta falta de consenso sobre o que deve ser prioritário, e a necessidade de preservar o que ainda resta de uma natureza terrivelmente atingida pelas ações gananciosas de grupos insensíveis e insensatos, mas com objetivos claros e definidos na linha especificada anteriormente.
Imagem: Câmera Record
Entro aqui no elemento principal, objeto desse artigo: a saúde. Sabemos, e já abordamos isso em textos anteriores, que a cidade se tornou o polo atrativo no interesse do desenvolvimento de um sistema produtor de mercadorias. E essas se realizam, são produzidas, e circulam majoritariamente nas cidades. Os mercados consumidores exponencialmente cresceram a partir do desenvolvimento acelerado das cidades. As condições de vida, no entanto, não acompanharam o processo de urbanização. A utilização da mão de obra assalariada, cada vez mais disponível à medida em que as pessoas deslocavam-se do campo para cidade, beneficiava os proprietários dos meios de produção, e os baixos salários pagos se refletiam no crescimento de periferias, e nessas de bairros desprovidos de infraestruturas adequadas, principalmente sanitárias, com falta de água, higiene e saneamento básico. A pobreza se tornou uma doença, que potencializava a disseminação de outras doenças crônicas transmissíveis ou não-transmissíveis, endêmicas, epidêmicas, metabólicas etc. Seja ligada ao estilo de vida urbano ou às condições sanitárias inadequadas. Mas como o Estado passou a lidar com essa situação, de uma população fragilizada pela miséria, e que aumentava junto com as cidades, de forma desordenada e descontrolada?
O século XX, já vimos, passou por momentos cruciais, que exigiram do Estado a intervenção necessária para conter surtos epidêmicos ou crises econômicas graves, depressivas. Em cada um desses momentos o desafio principal foi como lidar com um número muito elevado de pessoas que viviam em condições de vida miseráveis. Foi preciso uma forte intervenção estatal para recompor empregos e ganhos salariais que garantisse a essa população consumir numa escala que viesse a tirar o sistema da crise, em função de paralisação da economia, nos dois cenários citados. A Europa agiu acertadamente, com base na aplicação de políticas keynesianas e com forte incremento financeiro a partir do Plano Marshall. Instituiu-se, assim, o que ficou conhecido como “Welfare State”, ou Estado de Bem-Estar Social. Naturalmente existia o interesse do bloco capitalista em demonstrar que havia também em seus interesses uma preocupação com as questões sociais, a fim de se contrapor no âmbito da guerra fria, ao socialismo representado pela União Soviética.
A Globalização, ou Mundialização, traria outras concepções, a partir da crise dos países socialistas, e da subjacente crise do sistema capitalista. Intensificou-se um outro viés na economia e uma inversão na maneira como o Estado até então agia, no sentido de manter a economia sob controle a partir da necessidade de garantir aos cidadãos o pleno emprego e níveis salariais que tornassem seus estilos de vida compatíveis com segurança social, saúde e educação.
A partir de então tornou-se mantra o discurso de retirar as amarras que os estados impunham as empresas. A desregulamentação da economia tornou-se o novo objetivo a ser alcançado, para limpar o caminho de controles que continham as possibilidades de ganhos, e, consequentemente impediam que as empresas pudessem crescer e oferecer melhores oportunidades àqueles trabalhadores mais capacitados, num mundo marcado pela necessária especialização em setores importantes que surgiam e se tornavam motores do crescimento. Um novo processo da revolução tecnológica capitalista se impôs, agora alimentando mais fortemente a ganância, erigida ao patamar de quase divindade, e apregoada como algo essencial para o desenvolvimento.
Essa nova valorização da ganância se tornou marcante em um filme clássico no final dos anos 1980, época em que começava a se desconstruir o estado de bem estar social na Europa e EUA: Wall Street – Poder e Cobiça, no discurso expressado pelo personagem central, um megainvestidor Gordon Gekko:
“A questão é, senhoras e senhores, que a ganância — na falta de uma palavra melhor — é boa. Ter ganância é certo. Ter ganância funciona. A ganância esclarece, separa e captura a essência do espírito evolucionário. A ganância, em todas as suas formas — ganância pela vida, pelo dinheiro, pelo amor, pelo conhecimento — marcou a evolução da humanidade. E a ganância — lembrem-se de minhas palavras — irá salvar não apenas a Teldar Paper, mas aquela outra empresa chamada Estados Unidos da América. Obrigado.”[1]
Essa redução da influência do papel do Estado na economia abriu caminho para um mais forte protagonismo das empresas, grandes corporações, em atividades antes controladas e, cujo objetivo, era garantir as condições básicas para que as pessoas fossem respeitadas em seus direitos de cidadania. Naturalmente o foco dessas empresas seriam aqueles setores caráter estratégico, e com maior demanda no mercado e potencial de crescimento pela incorporação de novas tecnologias.
Um desses setores, que pela própria característica da urbanidade teria um forte potencial de investimento e retorno lucrativo, era a indústria da saúde, principalmente a farmacêutica. Alguns países, pela própria característica de suas democracias, com uma maior e mais efetiva participação da população em reivindicações e na garantia de seus direitos, foram forçados a manterem muitos mecanismos conquistados no Walfare State, e a garantir proteção à saúde das pessoas, por meio de seguros ou planos bancados pelo Estado de forma universal. Evidente que com o tempo e as transformações geradas pela economia muitos desses serviços foram terceirizados, embora pleno e quase gratuito, eram administrados por empresas que recebiam do Estado para isso. Os modelos foram se diferenciando, mas em muitos países europeus se manteve o atendimento às pessoas à saúde como direito de cidadania.
Mas nos EUA isso se deu de forma diferente. A radicalidade gerada pela guerra fria opunha qualquer mecanismo de atendimento à população que pudesse ser caracterizado como controle do Estado. As vozes ultra-conservadoras elevavam o tom de seus discursos e atacavam essas propostas como sendo de caráter socializante. Evidente que por trás disso estavam interesses de grandes corporações farmacêuticas, de empresas que começavam a despontar com força na administração hospitalar e que aliavam essa atividade com a venda de planos de saúde, apresentadas como eficientes na proteção da vida.
Esse forte poder, que emergiu com muita força e se impôs, escondia uma perversidade que traria fortes consequências. O interesse econômico e a ganância presente na forma como esses planos de saúde se estruturavam desrespeitavam, assim como continuam fazendo até nos dias de hoje, a condição dos indivíduos em momentos em que suas vidas estavam necessitando urgentemente de internações hospitalares ou de acompanhamento de doenças crônicas. Isso foi muito bem abordado pelo cineasta estadunidense Michael Moore, no documentário premiado em 2008 com o Oscar, “Sicko – SOS Saúde”.[2]
Moore usa uma linguagem bem típica em seus documentários, onde mescla a crítica ferina ao estilo de vida “americano” (american way of live) com fortes ironias. Mas ele consegue construir bem a crítica ao sistema de saúde naquele país, e o forte discurso conservador que se impunha e se impõe, por meio de lobbies no Congresso e de uma política agressiva das corporações farmacêuticas. Em trechos onde percorre outros países, cujos sistemas de saúde são mais abrangentes, protecionistas e gratuitos, como Canadá, Reino Unido (cujo modelo em parte foi copiado para a constituição do Sistema Único de Saúde – SUS – no Brasil) e França na Europa; e Cuba, na América Central. Neste último, a exposição de como os prisioneiros da prisão de Guantánamo eram atendidos, com maior proteção e atenção que os estadunidenses que haviam participado dos resgate de corpos no Wall Trade Center, e não conseguiam ter um cuidado em suas saúdes protegidos pelo Estado, pode ser questionado pela forma como Moore se manifesta, mas o objetivo, creio, era demonstrar uma incoerência com a maneira como o governo de seu país tratava o seu povo. Em Cuba, Moore mostra um sistema de saúde com outro viés, não curativo, mas preventivo, e oferecido de forma universal e gratuita para a população.
Mas em relação à Europa alguns elementos de como isso passou a funcionar após a década de 1980, principalmente na segunda década do século XXI, não foram abordados, como o crescente processo de terceirização. E, até pela data em que o documentário foi produzido, não estão contempladas as mudanças que se tornaram constantes em diversos países, reduzindo os direitos de atendimento à saúde, previdenciários e de aposentadorias. Essas tem sido as principais batalhas que têm levado às ruas centenas de milhares de pessoas, principalmente na França, só contidas pela disseminação da Covid19.
As propostas dos governos tem sido de reduzir os impactos causados pelo que eles consideram “gastos” excessivos e rombos gerados por um desequilíbrio devido a um envelhecimento da população e à estagnação do crescimento demográfico. Esses são argumentos usados praticamente em todos os países que, após a crise de 2008 tiveram que lidar com forte déficit causado pelo custo de ter que intervir naquele momento para salvar os bancos e o sistema financeiro da bancarrota. Ao fim, e ao cabo, a corda quebra para o lado mais fraco, a não ser naqueles países que conseguiram realizar grandes manifestações populares e greves nacionais.
Nos EUA, em nenhum momento se consolidou um modelo padrão de atendimento à saúde que fosse universal e gratuito. Apesar de alguns programas voltados para atendimentos básicos às camadas mais pobres, isso não atingia o acompanhamento a doenças de alta complexidade. Aliás, algo que também terminava não ocorrendo em grande parte dos que possuíam planos de saúdes, que lá funciona de forma diferente. O paciente precisa ser atendido e depois os seus gastos serão restituídos pelas empresas, na maioria dos casos. Às vezes isso não acontece, porque determinadas enfermidades não são identificadas como incluídas nos contratos, levando a situações de falências pessoais ou de necessidade em se desfazer de algum bem para cobrir os custos hospitalares ou dos altos custos dos medicamentos.
Mais recentemente, após proposta de Barack Obama, em 2010, em criar um sistema de saúde que possibilitasse a todos um atendimento amplo e de caráter estatal, uma vez que cerca de 40 milhões de pessoas não possuem nenhum tipo de atendimento médico, gerou uma forte disputa com os setores conservadores, resgatando comportamentos radicais semelhantes aos que existiam durante a guerra fria, com acusações de ser um projeto estatizante e socializante. Obama passou a ser visto como defensor do Socialismo, em função dessas propostas. Apesar de aprovado o “Obama Care” como ficou conhecido, ou “Affordable care act” (Lei de Assistência Acessível) se tornou foco de uma forte disputa entre democrata e republicanos, até ser deformado por ação da justiça. Com a eleição de Trump o “Obama Care” foi mais ainda atacado, o que já estava acontecendo mesmo durante a campanha, e sua derrota se tornou uma das principais bandeiras do governo Trump.
Na essência, e de forma cruel, o que identificamos é a mais clara mercantilização da vida. O que, em verdade, tem acontecido nas últimas décadas, no âmbito de uma globalização perversa, é a ganância em sua forma mais acentuada, e, após a desregulamentação da economia a partir da década de 1990, uma transformação radical com praticamente todos os setores, inclusive aqueles onde o Estado ainda dava alguma cobertura social, sendo objeto de cobiça de grandes corporações. O adoecimento se espalhava celeremente em uma sociedade onde a cobrança por resultados e competências se davam de forma agressiva. O stress e a angustia potencializavam os sintomas de diversas outras doenças e elevava os riscos nas vidas das pessoas, impondo a elas o uso de alguma forma de droga, ou medicamento, que as fizessem lidar com as cobranças em um mundo onde o desemprego se acentuava e a meritocracia se impunha acentuando os desequilíbrios sociais.
No entanto, o outro lado dessa moeda, se fazia transparecer de forma mais nítida. A pobreza enfraquecia uma enorme população, desprovida de atendimentos básicos à saúde e vivendo em condições insalubres e miseráveis. Nesses ambientes a disseminação das doenças se alastrava rapidamente, ceifando vidas de crianças recém-nascidas e reduzindo o tempo de vida. Embora essas condições gerassem também altos custos ao Estado, a insensibilidade e a frieza daqueles que controlam a riqueza, termina por fazer surgir uma nova nomenclatura na abordagem e entendimento da política que negligencia a vida dessas pessoas pobres, malnutridas, idosas e que possuem doenças crônicas: a necropolítica. Afinal, suas mortes não seriam mais do que estatísticas em uma conjuntura que retirava dessas pessoas as mínimas condições de sobrevivência, por meio da exclusão de seus direitos a viver com dignidade e na velhice.
De dois modos o mundo se transformou e nos levou para situações como de pandemias como vivemos nos dias de hoje. Por um lado, a destruição dos biomas e de suas biodiversidades causou um forte impacto no equilíbrio ecológico, fazendo com que animais silvestres invadissem as cidades em busca de recolhimento e alimentação, e dessa forma trouxessem consigo vírus e bactérias potentes, com nossos anticorpos sendo incapazes de contê-los. Dentre outras coisas que são agravantes nessa nossa relação com a natureza, em parte citada no início desse texto.
Por outro lado as condições de vida nas cidades, com uma alta taxa demográfica e populações concentradas em cinturões de misérias em megalópoles com milhões de pessoas, em sua maioria vivendo em condições precárias e em meio a todo o tipo de podridão causada pela ausência de proteção do Estado e planejamento que ordenasse suas habitações e garantisse um mínimo de saneamento básico e água tratada.
Muito se diz atualmente que o mundo não será o mesmo depois dessa pandemia. É na verdade um sofisma. Porque “tudo muda o tempo todo, no mundo” (Lulu Santos). Vivemos em uma escalada de transformações e de mudanças, que nos dias atuais assume uma aceleração gerada pelos avanços tecnológicos, mas que determinam um novo tempo, marcado por fortes ações antrópicas, que serão determinantes no que alguns estudiosos já falam da “sexta extinção”, com o desaparecimento de uma quantidade muito grande de espécies, da fauna e da flora, que nos afetará sobremaneira, a partir do que já se evidencia nos grandes eventos climáticos extremos.
As transformações só advirão no sentido desejado àqueles que tem juízo e desejam a manutenção da harmonia ser humano-natureza, se houver uma mudança na lógica como o mundo está sendo governado. As desigualdades sociais, as diferenças existentes nas cidades e a destruição do ecossistema são os pontos cruciais que precisam ser atacados com políticas que sejam absolutamente contrárias àquelas que estão sendo implementadas por governantes de países que até então se constituem em empecilhos para a construção de um futuro mais harmônico e de respeito à vida humana.
O Covid19, por si só, e mesmo com a imensidão de mortes que ela carrega, não significará nenhuma postura sensível, ou de virada na política desses países e do conservadorismo que os conduzem. Será necessário muito protagonismo das pessoas que se guiam pela ciência, pelo sentimento de solidariedade e pelo desejo de construir um outro mundo, onde a cobiça e a ganância sejam substituídas pela resiliência e cooperação.



NOTAS:

[1] Filme: Wall Street Poder e Cobiça. Dirigido por Oliver Stone, 1987.
[2] Sicko – SOS Saúde. Dirigido por Michael Moore, 2007.

REFERÊNCIAS:

Ciência, saúde e doenças emergentes: uma história sem fim

SiCKO – SOS Saúde e a mercantilização da vida

Entenda a reforma no sistema de saúde dos EUA

A desindustrialização também colapsou a Saúde

''Se não mudarmos nosso estilo de vida, seremos vítimas de monstros ainda mais violentos que este coronavírus''

O discurso de Gordon Gekko, no filme Wall Street (1987)

Coronavírus não vai mudar a crença de que é possível vencer a morte, diz Harari

domingo, 30 de junho de 2019

É A GEOPOLÍTICA, ESTÚPIDO!

Chefes de Estado do G20.
Difícil é encontrar o brasileiro.
Este artigo foi sendo escrito ao final do encontro da “Cúpula do G20”, em Osaka no Japão. Evento que reúne as maiores economias do mundo. Para além de todas as polêmicas que envolveram as discussões nesse encontro de repercussões mundiais, e não poderia ser diferente, há um substrato, para mim importante, que gostaria de destacar. É o que envolve a importância da geopolítica, cada vez sendo mais referenciada nas discussões, acordos e análises sobre as transformações que acontecem no mundo.
O comunicado oficial, final, do G20 se refere explicitamente a “intensificação de tensões comerciais e geopolíticas” no mundo. Consequência de uma situação de crise internacional, que afeta a economia mundial, coloca muitos países em condição de recessão, espalha medo e temor por todo o mundo em função de atritos gerados por políticas protecionistas e unilaterais de alguns países, em especial os EUA, além dos potenciais conflitos que envolvem nações que situam-se em posições estratégicas, particularmente no Oriente Médio, mas, principalmente aquelas que possuem grandes reservas petrolíferas. Além de outros fatores, como os problemas ambientais, o deslocamento de populações, o aumento da pobreza, até mesmo nos países desenvolvidos, e as trasnformações geradas pelo crescimento do gigante chinês, seja nos avanços tecnológicos e na ousada constituição da nova Rota da Seda.
Uso aqui, no título, uma expressão muito conhecida internacionalmente, transformada quase em um mantra, proferida por um assessor de Bill Clinton, num período eleitoral, quando ele dizia que a economia é o elemento principal a definir a política, e, no caso específico, uma eleição presidencial. Procura, assim, dizer que as questões mais sensíveis de um estado-nação estão ligadas à situação econômica, e que isso implica num embate eleitoral, naturalmente.
Faço um paralelo aqui com a geopolítica. Desde que a economia se tornou globalizada, mas não somente depois disso, as questões geopolíticas tornaram-se determinantes nas relações internacionais. Isso se compreendemos, como é natural que façamos, que a geopolítica é o olhar estratégico, tanto analítico, como do ponto de vista das ações governamentais e até mesmo do cotidiano e da vida de qualquer pessoa que deseje focar em seus objetivos e poder alcançá-los definindo os caminhos que a levará a atingir seus desejos e planos adredemente definidos.
No entanto, o que desejo aqui neste artigo é provocar uma discussão, ou prolongar uma discussão que tenho feito ao longo desses anos, que pode ser comprovado aqui em artigos já escritos neste blog. Porque a Geografia não valoriza a Geopolítica, mesmo diante da importância que ela tem tomado desde o final do século XX? Por um lado compreendo, assim como o faz Yves Lacoste, e é nele que me espelho, que a Geopolítica e a Geografia são a mesma coisa. Deixou de ser a partir do momento em que, após a segunda guerra mundial a geopolítica foi estigmatizada, não somente porque ela foi sabidamente utilizada no aparato belicista da ascensão nazista (embora fosse também utilizada por todos os demais países envolvidos naquele e em todos os outros conflitos). Mas houve outro elemento determinante nessa separação da Geopolítica da Geografia. Os embates entre duas escolas acadêmicas na área da Geografia, a lablacheana, francesa; e a ratzeliana, alemã. Os franceses, vitoriosos na segunda guerra, ao lado dos aliados, impulsionou uma desavença bem anterior, fomentada por historiadores que buscavam uma “revisão” historiográfica, e fizeram surgir a “história dos annales”. Assim, buscaram desacreditar essa vertente importante da geografia, de forma a evitar que viesse se sobrepor à história, e, ao mesmo tempo, seguir por um caminho que pudesse reduzir a abordagem política das interpretações geográficas, focadas a partir de então, prioritariamente no cotidiano das relações sociais.
Essa armadilha feita para a Geografia funcionou perfeitamente, e, paradoxalmente, constituiu-se em uma estratégia vitoriosa nessa construção historiográfica. Espalhou-se pelo mundo uma compreensão de Geografia focada naquilo que os franceses compreendiam como elementar para projetar o estado-nação, os estudos regionais. E o planejamento, muito embora devesse necessariamente partir de uma visão estratégica, se constituiu no olhar essencial a partir de divisões regionais que acompanhavam a constituição física e geomorfológica, definindo a partir daí os estudos que orientavam as administrações estatais os tipos de investimentos que devem ser feitos, constituídos a partir dessas características locais e regionais.
Isso é algo absolutamente correto, não há o que negar nesses aspectos, que se constituem nos dias de hoje elementos essenciais para planejamentos urbanos, regionais e ambientais. No entanto, o elemento crucial, e a essência da geografia, deixou de ser observado. Sua importância estratégica, o olhar político que possibilita a ampliação da capacidade crítica e o equilíbrio na identificação dos interesses que estão por trás de qualquer decisão que envolva as questões de Estado. Enfim, a Geopolítica, como elemento fundamental para que possamos ter a compreenssão macro e micro que circunda a própria Geografia como aquilo que muitos chamam de “a ciência dos lugares”, o que nos possibilita compreender tudo aquilo que está à nossa volta, a ligação inevitável que existe entre todos os lugares, nossas vidas e o ecúmeno.Somos movidos pela política, a capacidade de nos entendermos em sociedades cada vez mais complexas (embora se tente desconstruir a política nos dias atuais, mas isso é também um objetivo político). Portanto, é impossível pensar a Geografia sem a política, pois é ela, essa ciência, ou esse saber como desejam alguns, que explica a nossa existência em toda essa dimensão compreendida por milhões de quilômetros quadrados em um planeta esférico, embora a alienação e estupidez de alguns a vejam como plana. Mas os que pensam assim, somente refletem também a forma de seus cérebros.
A Geografia sem a política, é nula de entendimento da realidade. Abstrai-se nas especificidades, e somente serve às vaidades de quem foca seus conhecimentos de maneira limitada, desconsiderando a necessidade de junção de todas as partes que compõem o conhecimento geográfico. Prender-se somente a essas especificidades é reduzir a importância da Geografia, na verdade negá-la, e assumir-se enquanto condutor de uma parte que desconexa-se de um eixo. Os caminhos trilhados pela pós-graduação, seguindo a força imposta pelo globalismo neoliberal, consolidou esse viés, difícil de ser desfeito, principalmente por vivermos um tempo de negação da política.Contudo, isso não impede de reconhecer na Geografia, e na Geopolítica, aqueles elementos que nos dão a possibilidade de conhecer, em toda a essência de uma dialética que é real, como se dão as transformações que ocorrem no mundo, seja econômica, ambiental, da escasse hídrica, de alimentos, portanto não somente no que se convencionou imaginar como sendo o único elemento a se entender pela geopolítica: a guerra. Algo já há décadas desmistificado por um movimento de resgate da geopolítica, melhor dizendo, de retomada da política na Geografia, liderado por Lacoste. Mas o que veio depois, a onda neoliberal globalizante, em pouco tempo levou ao esquecimento desse resgate e prevaleceu a fragmentação e, se não a negação, a quase absoluta indiferença em relação a inserção da política como parte essencial e necessária da compreensão geográfica.,
Isso não muda somente com a referência permanente à Geopolítica na mídia ou nesses encontros de chefes de Estados, depende de novas compreensões, de reorientação e reconstrução de uma Geografia que retome a visão de totalidade e compreenda que nesses novos tempos de negação de conhecimentos elementares transmitidos pela universidade, a força desse saber está exatamente em poder dar resposta concretas aos dilemas que angustiam o mundo. Não sozinha, porque também vivemos no tempo de uma necessária multidisciplinaridade, mas jamais conseguirá ser forte como é preciso se se mantiver fragmentada e negligenciando a sua essência fundamental, a política. Que as novas gerações de geógrafos consigam romper com esse viés que acompanha boa parte das gerações que lhes orientam, formadas numa era neoliberal e fragmentária, e resgate para a geografia a importância do saber estratégico que lhe deve ser inerente.



segunda-feira, 21 de maio de 2018

GEOPOLÍTICA DO CERRADO: NATUREZA, POLÍTICA E ECONOMIA


GEOPOLÍTICA DO CERRADO - Participei da Reunião Regional da SBPC na úttima sexta-feira pela manhã. Uma boa discussão para analisar um complexo e contraditório problema: “Cerrado: Ciência, Inovação, Crescimento Econômico, Desenvolvimento Sustentável e Sociedade”. O evento, muito bem organizado, ocorreu no Instituto Federal Goiano, Campus de Rio Verde. Minha conferência teve como tema> GEOPOLÍTICA DO CERRADO: NATUREZA, POLÍTICA E ECONOMIA. Creio ter deixado mais dúvidas do que certezas. Mas é como estamos convivendo com essa contradição de nos depararmos com regiões próspera economicamente, com uma grande concentração de riqueza e com um desenvolvimento econômico em cidades pujantes cercadas por áreas produtivas onde antes era o Cerrado. Sem o equilíbrio ecológico, dependendo de fortes pulverizações de venenos para eliminar as pragas cujos predadores foram extintos, escasseando a água, mas dando a dimensão de uma realidade fugidia, que não se sustenta ambientalmente e pode trazer profundas complicações para as gerações futuras. A academia está desafiada a contribuir com os rumos dessa história. Abaixo segue um resumo do que apresentei em minha exposição. (Romualdo Pessoa)

Nos últimos anos o mundo se deparou com um desafio, muito além das preocupações malthusianas, mas que nos força a relembrar das teorias de Thomas Malthus.  A análise que indicava a impossibilidade da humanidade poder garantir produção de alimentos para uma população que crescia vertiginosamente, praticamente perde força quando passamos a conviver com a capacidade tecnológica que o mundo alcançou ao final do século XX, inclusive na possibilidade de produzir alimentos nas situações mais adversas. Técnicas de lidar com o solo, inovações tecnológicas que aceleram o ritmo do plantio e da colheita, insumos que aumentam a capacidade produtiva, e o crescimento da indústria química utilizada no combate às pragas (para o bem ou para o mal, veremos mais adiante), colocaram por terra boa parte das questões postas por Malthus.
Mas, por outro lado, há uma lógica que impede essa capacidade tecnológica de vir suprir a contento a necessidade que existe em quase todos os continentes, mas principalmente África e Ásia, de reduzir o número de indivíduos que vivem na mais absoluta miséria e com boa parte deles, principalmente crianças, morrendo de desnutrição. Não tem acesso aos alimentos básicos que possam garantir suas sobrevivências.
Essa lógica é a maneira como o capitalismo transforma toda essa capacidade tecnológica em potencial produtivo visando exclusivamente a ampliação dos lucros. Assim, existe sim, uma enorme potencialidade decorrente de todas as inovações que revolucionaram incessantemente os meios de produção, mas toda essa capacidade termina servindo aos interesses mais gananciosos de acumulação e concentração de rendas.
Produzir alimentos, principalmente as chamadas commodities, mercadorias que tem os seus preços fixados no mercado internacional tem atraído muitos investidores. Traduzindo em miúdos, são mercadorias, principalmente minerais e produtos agrícolas, com pouca ou nenhuma industrialização, consequentemente com baixíssima agregação de valor, permanentemente monitoradas pelas bolsas de valores.
Esses produtos agrícolas têm seus preços fixados em dólares em nível internacional, com uma produção de larga escala, como característica principal o fato de serem produzidos em grandes propriedades e quase sempre monoculturas. Seus preços são, portanto, variáveis não somente em função da cotação do dólar, moeda padrão de referência internacional, mas também porque termina também sendo submetidas às oscilações das bolsas de valores, e, consequentemente, estão sujeitas às manipulações tradicionais que ocorrem no mercado financeiro. O Brasil tem se destacado nesse setor, tornando-se a partir deste ano no maior produtor de Soja, superando os EUA. A soja, assim, soma-se ao café, suco de laranja, açúcar e carne bovina. ii
Obviamente, esses mecanismos que movem o sistema capitalista global, não possuem a menor preocupação em transformar toda a capacidade tecnológica em investimentos para conter o aumento da fome em várias partes do mundo, notadamente naquelas citadas. Em alguns lugares, como na região da Somália e todo o seu entorno, a situação aproxima-se de uma enorme catástrofe, com milhões de pessoas deslocando-se para outras regiões e boa parte delas sucumbindo à fome e perdendo suas vidas nesses trajetos.
Portanto, o interesse é meramente especulativo, com base na ganância e na garantia de lucros crescentes, como de resto é a maneira como o sistema funciona. Isso significa dizer que os investimentos possíveis de serem feitos obedecem à lógica do mercado mundial, e, portanto, a crise econômica pode alterar os rumos do capital.
Mas é sempre bom considerar que o mercado de alimentos é potencialmente lucrativo, ou, melhor dizendo, das commodities agrícolas, já não mais somente como produtos que visem atender apenas às necessidades alimentares da população, mas também porque boa parte deles passa a se constituir em matéria-prima para produção de energia, como no caso da cana-de-açúcar (embora o etanol não seja ainda uma commoditie, o açúcar o é), o milho e outros que podem passar também a serem produzidos com esse objetivo. Além de boa parte da produção de soja atender ao mercado de ração para alimentar o gado que em boa parte do mundo, principalmente Europa é criado em confinamento.
A crise econômica, que persiste na maior parte dos países, tende a ampliar a crise alimentar em algumas partes do mundo, mas a tendência deve se manter, de os investimentos continuarem sendo feitos naqueles produtos marcados como commodities porque são os que garantem mais divisas para os países como o Brasil e possibilitam maiores lucros a quem investe no mercado de produtos agrícolas. Mesmo que isso signifique uma crescente concentração de rendas, por serem produtos de baixo valor agregado. Para o Estado Brasileiro o que mais importa é o fato de essa atividade ser a principal responsável pelo superávit na balança comercial.
Como esse é um espaço com enorme potencial produtivo e com ainda uma área cultivável imensa a ser explorada, se for desconsiderado, como tem sido, a importância da biodiversidade, provavelmente poucas alterações acontecerão em relação ao crescente interesse pela aquisição de terras em áreas desse bioma, como também na Amazônia e na região de transição entre o Cerrado e a Caatinga. Essa nova fronteira agrícola já atende pelo nome de MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí, e Bahia), que tende a se acelerar quando a ferrovia Norte-Sul entrar em funcionamento.
A delineação desse quadro, já em curso, tem levado à aquisição de grandes quantidades de terras por empresas, e até mesmo governos estrangeiros, e passa a se constituir em um excelente investimento, principalmente em regiões de expansão agrícola como o Cerrado.iii
Consequentemente os impactos que decorrerão de tudo isso tende a ampliar o processo de degradação ambiental e de aceleração da devastação desse bioma. Por mais que as pesquisas desenvolvidas nas Universidades ou ONGs sérias focadas na enorme contradição presente da expressão “desenvolvimento sustentável com preservação ambiental”, possa indicar todo o rico potencial da biodiversidade do Cerrado, a resposta para investimentos e o quantitativo de lucro que advirá em atividades exploradas pelas populações tradicionais, não são suficientes para se contrapor a essa lógica gananciosa e destrutiva. Especulação, grilagem de terras e violência, tendem a aumentar, seguindo uma lógica perversa que afeta há décadas a população da Amazônia.
Cabe a todos aqueles que vivem no Cerrado e os que estudam sua riqueza natural e importância da sua biodiversidade, insistir em apontar os riscos que isso causa e a possibilidade de futuramente boa parte do bioma se tornar improdutiva e desertificada. O uso excessivo da água para irrigação, por exemplo, com a utilização de grandes pivôs centrais, a esgotarem rios, córregos e lençóis freáticos, é um bom exemplo dos desatinos que se cometem sem levar em conta os desgastes inevitáveis desses excessos, como por exemplo, a salinização do solo.
Acrescente-se a isso os interesses que estão por trás desse modelo de produção agrícola. Refiro-me agora às essas disputas exercidas por corporações gananciosas, e criminosas, que inundam o campo com produtos químicos responsáveis pela ampliação dos casos de câncer no Brasil e no mundo. São os agrotóxicos, venenos que eliminam pragas, mas que trazem junto um efeito perverso e profundamente destrutivo para as pessoas e todo o meio ambiente.iv Agora, que os representantes latifundiários tomaram o Congresso de assalto, já se discute a mudança da legislação para facilitar a comercialização desses venenos.v
Essas corporações, quase todas multinacionais, usam de todos os tipos de praticas deliquentes para burlar legislações e buscar apoio em setores políticos conservadores com o intuito de conter proibições – como ocorre em outros países – mesmo para certos produtos claramente comprovados como extremamente nocivos à vida humana. Calcula-se que cada brasileiro, em média, por ano consuma em torno de 5,2 litros de agrotóxicos, embora existam estudos que apontem para uma maior quantidade. vi
E essas Corporações atuam não somente na área de alimentos, como é de suas características, mas em outros setores geradores de disputas internacionais e guerras como o petróleo, indústria farmacêutica e de produtos veterinários. São gigantes que possuem fortes influências em poderosos Estados, principalmente os de suas origens, como os Estados Unidos, Inglaterra, França, Alemanha etc. Muitas delas tem seus produtos também fabricados aqui no Brasil, como Basf, Bayer, Syngenta, DuPont e Monsanto.
Como defender o Cerrado em um tempo em que todos os olhares gananciosos e geopolíticos estão voltados para esses imensos chapadões de uma paisagem que dá uma impressão de pobreza, mas que esconde uma enorme riqueza? Se todas as transformações que são visíveis nos Estados centrais, ou do imenso sertão brasileiro, se deram às custas de grandes investimentos agrícolas, e com isso possibilitou um forte crescimento econômico, como frear nos dias de hoje a continuidade de um processo que se agigantou e ameaça a riqueza natural de um importante bioma?
Esse é um desafio que se apresenta para todos aqueles que são estudiosos do Cerrado, mas que compreendem também todo o processo de desenvolvimento socioeconômico de uma região até pouco tempo marginalizada. Um progresso também, notadamente conseguido à custa de uma enorme concentração de riqueza, como decorrência do modelo agrícola utilizado, que causou outros efeitos colaterais. Um deles, a expulsão de quase toda uma população rural para as cidades, potencializando um crescimento desordenado das mesmas e um cinturão de miséria em suas periferias responsáveis em grande parte pelo aumento da criminalidade e do consumo de drogas que destrói o futuro de boa parte da sua juventude e mantém as pessoas refém da violência e do medo.
Assim, são as condições criadas pela acelerada penetração em direção ao heartland brasileiro, desde a marcha para o Oeste na época varguista, até a instalação da capital federal, seccionando o território goiano, e todo o projeto de integração nacional visando o controle estratégico da grande Amazônia posto em prática por Juscelino Kubitscheck no final da década de 1950 e consolidada pelos governos da ditadura militar.
Mas foi mesmo a revolução tecnológica na agricultura o principal responsável pela transformação acelerada de um solo seco em terreno de ótimo potencial produtivo. Aliado à característica climática sem muitas alterações, dividida em duas estações, a seca e a chuvosa, propícia à atividade agrícola e à pecuária.
Desfazer essa visão do cerrado como meramente um território somente adequado à instalação do grande agronegócio, e buscar outros caminhos alternativos de desenvolvimento, que se preocupe com a conservação da biodiversidade e de outros modelos sustentáveis de produção agrícola, é a tarefa do momento da universidade, dos pesquisadores e de todos aqueles que lutam pela exploração democrática e não destrutiva das riquezas que a natureza possui, em benefício da maioria e em prol da construção de um mundo com outra compreensão a respeito da vida.

i Romualdo Pessoa Campos Filho. Professor do Instituto de Estudos Socioambientais da UFG, Historiador, Doutor em Geografia, especialista em Geopolítica Contemporânea, Geopolítica da Biodiversidade, Geopolítica das Águas. Esse texto é um resumo, atualizado, de alguns artigos já publicados aqui no Blog.


sexta-feira, 20 de maio de 2011

O CÓDIGO FLORESTAL - A DIALÉTICA DA NATUREZA E A SOBREVIVÊNCIA HUMANA

“Quode magis cogito magis dubito” - 
Quanto mais penso, mais duvido
(Francisco Sanches, pensador português, sec. XIV-XV)

Não é a primeira vez que abordo essa temática aqui neste blog. Logo ao final vou inserir os links para todos os textos que tem os problemas ambientais como tema. Mas, diferentemente dos fundamentalismos e maniqueísmos que conduzem a luta ecológica, e dos interesses oportunistas e políticos de algumas (poucas, mas bem estruturadas) ONGs internacionais, não abdico em meus artigos de considerar a dialética como elemento essencial para que possamos entender toda a situação que nos envolve.
A discussão do momento gira em torno do relatório do novo Código Florestal, elaborado pelo deputado federal Aldo Rebelo, do PCdoB, a pedido das lideranças e do governo, à época tendo à frente o presidente Lula. Equilibrado, e bem racional, a meu ver, o relatório do deputado é um texto que antes de ser combatido deveria ser estudado e discutido.
Nas universidades, como percebo e tenho informações, aqueles que são críticos do texto deixam-se conduzir pela maneira como a mídia dá o enfoque e como as entidades ambientais constroem seus argumentos.
No primeiro caso não se distribui o relatório em sua íntegra para que todos tomem conhecimento, e paralelo a isso, as várias opiniões a respeito, contrárias e favoráveis. Enfim, essa não é uma prática, infelizmente, na universidade. Alguns colegas limitam-se a construir um discurso e assim convencerem seus alunos daquilo que ele defende. Parece que há um medo do contraditório, como a tentar impedir aquilo que é incontrolável: nossa vida transforma-se dialéticamente, e o seu impulso, o que possibilita essas transformações são as contradições. Negar-se, e afirmar-se, no choque das forças que se opõem. Não há, na vida, nada que se construa, sem que isso implique algum tipo de destruição. Ao que Engels chamava de “negação da negação”.
No segundo caso, o maniqueísmo presente nos argumentos ambientalistas e o discurso do medo, que têm sido a tônica no mundo nas últimas décadas, transformam um tema que deveria ser conduzido pela racionalidade em uma espécie de dogma fundamentalista, para o qual todos que vierem a defender o progresso social deveriam ser queimados no fogo do inferno. Muito embora tenhamos também consciência que o significado dessa palavra, “progresso”, pode ter vários sentidos. Mais uma vez a contradição.
Particularmente, eu tenho plena noção dos problemas ambientais. E aqui não confundo a palavra “ambiental” com natureza, como muitos fazem. O ambiente (ou o meio-ambiente) inclui não somente a natureza natural, mas também todo o habitat, o espaço onde se inserem animais, plantas, o ser humano, e tudo que por eles tenha sido construído.
Alguns desses “problemas” decorrem da própria maneira como a vida evolui, e como o espaço vai se transformando para se adaptar às necessidades dos seres vivos, e, obviamente às mudanças geradas por eles próprios. Mas também outros fatores abióticos impõem algumas transformações que fazem com que, permanentemente, o nosso planeta, a terra, altere sua configuração, eixo, rotação e outros aspectos aparentemente imutáveis. O espaço transforma-se permanentemente, com ou sem a ação humana. E isso, dialeticamente, reage sobre nós, provocando todos os tipos de alterações e de necessidade de nos readaptarmos. Assim, o organismo vivo se adapta e se altera, como uma condição para sua própria sobrevivência. Ave, Darwin!
A maneira de não transformarmos idéias em dogmas é exatamente partirmos do princípio que a vida é marcada por contradições. E não há contradição maior, no mundo que o ser humano construiu, do que nos depararmos com uma população de mais de 6 bilhões de pessoas, em muitos casos vivendo em cidades que ultrapassam 10 milhões de habitantes. Isso mais do que triplica se incluirmos também no ambiente citadino os demais bichos que nos fazem companhia. Alguns dos quais nos dias atuais são melhores cuidados do que gente.
Ocorre, também, que nos movemos por interesses. O jogo desses interesses transformou-se ao longo de nossa história na base política que construiu a nossa sociedade, a cultura, a indiosincrasia, a religião etc. A disputa econômica pelo controle dos meios de produção, da riqueza, da terra, e... do Poder! Assim, como nos ensina Raffestin(1), inspirado em Michel Foucault(2), com “P” maiúsculo, para se diferenciar de outros poderes, com “p” minúsculo. Aqueles pequenos poderes que nos acompanham em nossas relações cotidianas, desde a família, até a escola, o trabalho etc.
Então, para entendermos que por trás dos discursos existe “muito mais coisas do que imagina nossa vã filosofia” (parafraseando Shakespeare), precisamos ir além das palavras e frases, muitas delas com forte impacto, como das orações que afetam a fé e faz com que as pessoas as tomem por verdades absolutas, porque são carregadas de simbolismos e, pela repetição, tornam-se dogmas inquebrantáveis. Os que discordarem são transformados em entes do mal, seguindo-se o princípio maniqueísta do gnosticismo primitivo do filósofo persa Mani: a luz e as trevas, o bem e o mal.
Vade retro, maniqueus!
Assim, melhor inspirar-se nas idéias de Voltaire e lembrar-se de uma frase a ele atribuída: “discordo do que dizes, mas defenderei até a morte o direito de dizê-lo”. Dessa forma nos aproximamos daquele sentido dado pelos filósofos antigos, pelo qual somente pelo embate das idéias e das contradições que as mesmas carregam, é possível se atingir o conhecimento em plenitude. Evidentemente jamais como uma verdade tida como absoluta.
Todo esse rodeio filosófico que fiz decorre das dificuldades em se analisar os problemas ambientais do mundo contemporâneo, sem ser rotulado pelos mais engajados ativistas ecológicos como um ente do mal, preparando-se para tocar fogo sobre a terra e transformá-la em um deserto, pela hecatombe que se aproxima em razão das ações maléficas causadas por nós mesmos.
Tudo pode acontecer, ou vai acontecer, pois também a terra não é eterna. Mas precisamos entender que isso que está sendo citado como uma possibilidade, de uma aceleração no processo de destruição de nosso meio-ambiente, decorre na maneira como nós, seres humanos, construímos o nosso habitat. E todos nós, mesmo os mais ácidos críticos ecologistas, não abrimos mão de usufruir das regalias construídas por nossa imensa capacidade criativa. E tudo isso às custas da natureza.
Principalmente a partir do século XIX, quando se consolida o sistema capitalista, fundado na irrefreável sofreguidão em produzir mercadorias a uma velocidade cada vez maior, e transformar as nossas necessidades em ânsia de consumo. Transformamos-nos ao longo dos séculos seguintes em animais consumistas. Consumir e curtir as novidades mercadológicas e os novos produtos cada vez mais sofisticados tornou-se mais do que uma vaidade, passou a representar um vício que em alguns casos atingem a condição de uma verdadeira dependência. Em outras situações, essa lógica baseada no consumo empurrou aquelas pessoas deprimidas, doentes pelo stress causado pelas loucuras da vida moderna, a ir com sofreguidão aos shoppings, templos que passam também a ser uma espécie de depositório da catarse coletiva da cidade grande.
Claro, além disso, o estilo de vida construído dentro dessa lógica de consumo, inspirado naquilo que nos Estados Unidos passou a se chamar “american way of life”, acentuou a obsessão nos indivíduos em buscar permanentemente a ascensão social. De forma a atingir um padrão de vida que se caracterizasse pela garantia de possuir, sempre, os produtos que surgem como novidades no mercado. Acontece que o mecanismo que faz girar o capitalismo impede que isso tenha um limite, é preciso ter cada vez mais para não somente usufruir desses produtos sofisticados, mas também se apresentar na sociedade como vitorioso, porque capaz de poder comprar o que existe de melhor e mais sofisticado.
Tudo nos empurra para as cidades, e foi nelas que o capitalismo se realizou. Enquanto ali se aglomeravam exércitos cada vez maiores de pessoas, em sua maioria pobre, com condições econômicas sofríveis, fora delas consolidou-se um sistema concentrador baseado no latifúndio, na posse da grande propriedade e na utilização dessas terras para produção de monocultura. Principalmente de commodities, cujo preço vem a ser determinado pela moeda de referência internacional nos mercados mundiais.
Sem subsídios do Estado, e com financiamentos parcos também concentrados nas grandes propriedades, os pequenos agricultores abandonaram gradativamente suas terras, seguindo os passos dos filhos que em muitos casos já se dirigira para as cidades em busca de melhores oportunidades.
Assim, enquanto nas cidades concentravam-se uma enorme população de despossuídos, no campo uma quantidade pequena de proprietários concentrava infindáveis hectares de terras, produzindo não somente o que é necessário – como na antiga produção agrícola – mas fundamentalmente aquilo que vai possibilitar um lucro maior. Nas cidades, os milhões de citadinos vão a busca de empregos, conseguem salários, tentam ganhar cada vez mais para consumir as mercadorias que lhes seduzem, e, logicamente precisam para se alimentar. Já não mais produzem para si, mas para aqueles que possuem os meios de produção e determinam o que deve ser produzido.
As cidades modificaram-se espetacularmente em formas e linhas que comprovam a capacidade ilimitada do ser humano em transformar objetos e criar maravilhas tecnológicas. Só que para alimentar esses bilhões de pessoas, e saciar a necessidade de consumir mercadorias, o sistema capitalista acelerou de forma monumental a sua capacidade de inovar, de forma a tornar obsoleta o mais rapidamente possível a sua última invenção.
Ora, mas porque nos espantamos? Ao analisarmos as condições de vida nas sociedades em volta do mundo, e em nosso país particularmente, veremos que há um percentual ainda muito elevado de pessoas que estão fora desse mercado consumidor. No entanto, quando somamos a população daqueles países que somente agora estão acelerando seu desenvolvimento, chegamos a um número que corresponde a mais da metade da população mundial.
Estaremos próximo do limite dessas contradições? Essa é uma pergunta de difícil resposta, já que enquanto há vida a tendência é de sempre ampliarmos nosso grau de contradição. Mas o que fazer se na humanidade mais da metade de sua população ambiciona atingir a condição de vida semelhante à daqueles que vivem nos chamados países desenvolvidos? Porque todo esse alarmismo catastrófico, e ameaças de hecatombes, se intensificaram nos últimos anos, no momento em que os países ricos entraram em uma grave crise econômica e quando outros que estavam fora do "clube" iniciam uma escalada de crescimento e de desenvolvimento social?
De repente soam os sinos a indicar a hora em que a terra explodirá. E nos propõem, os que vêm dos trópicos, que por aqui devemos manter nossas matas, florestas e rios, para que por lá eles possam produzir mercadorias, agregar valor, vender suas mercadorias para nós, os velhos “subdesenvolvidos” e, assim, continuar enriquecendo a eles mesmos. Agora mediante uma nova forma de dominação: o colonialismo verde.
A palavra é CONSERVAÇÃO. Mas o que mais se fala é preservação. Há uma diferença substancial entre essas duas palavras quando o tema é a natureza. O conservacionismo possibilita que utilizemos da natureza os produtos necessários para a nossa sobrevivência, compreendendo que seu esgotamento impede que a vida humana possa prosseguir por mais tempo adiante. Esse é o desafio diante da contradição em que nos encontramos. São milhões de novas pessoas que adentram o mercado de consumo, ascendem a outras classes sociais e adquirem a capacidade de consumir mais e viver melhor. Não se pode negar a essas pessoas terem acesso a produtos que facilitem suas vidas nas cidades, mas isso implicará em mais e mais degradações à natureza.
Então, quando levantamos uma bandeira, por exemplo, de cuidados com a água, devemos ter em conta que a luta não é somente para manter a água límpida e perene. Mas garantir que mais pessoas possam usufruir de um bem que é condição essencial para a manutenção da vida. Devemos olhar para os dois lados da moeda, e não somente imaginar que o discurso de preservar a natureza encerra-se em si só. A natureza sempre vai servir ao ser humano, como serve a todos os outros seres vivos que a compõe e forma um equilíbrio que se sustenta em contradições.
O Código Florestal deve carregar essa compreensão. Num mundo em que um dos maiores problemas que se aproxima é a produção de alimentos, e a especulação em torno disso já produz inflação por todo o mundo, criar dificuldades para que pequenos e médios produtores possam produzir mais é consolidar o modelo concentracionista latifundiário, na medida em que esses agricultores continuarão a abandonar suas terras, deixando-as serem incorporadas pelo grande fazendeiro. Este interessado em produzir apenas commodities.
Ah, mas argumenta-se, os grandes latifundiários estão a defender o relatório do Código. Sim, eles se beneficiarão também. Mas esses sempre encontraram meios para isso e continuarão fazendo, independente do que o código determinar. Melhor seria, e acredito que isso é o mais justo, insistir no questionamento que motivou os movimentos sociais até esse modismo verde entrar em cena, combater o sistema de latifúndios, por fim a essa estrutura agrária arcaica e concentracionista. Não será através de uma legislação ambiental que isso acontecerá, mas com mais luta pela reforma agrária e pelo fim desse modelo. Gostaria de ver quantos se engajariam sinceramente nessa luta, principalmente as grandes ONGs, muitas delas financiadas por grandes corporações que investem fortemente na aquisição de mais terras em nosso país e inundam a produção agrícola com toneladas de venenos agrotóxicos.
Espero ter sido entendido, mas saberei me defender dos fundamentalistas, e não tenho receio em repetir uma frase do filósofo esloveno, Slavoj Zizek: “a ecologia é o ópio do povo”. Diz ele, numa entrevista à revista Magis(3): “É precisamente no terreno da ecologia que podemos delinear a demarcação entre a política da emancipação e a política do medo na sua forma mais pura. De longe, a versão predominante da ecologia é a da ecologia do medo – medo da catástrofe, humana ou natural, que pode perturbar profundamente ou mesmo destruir a civilização humana. Essa ecologia do medo tem todas as oportunidades de se converter na forma ideológica predominante do capitalismo global, um novo ópio das massas que sucede o da religião”.
A gritaria maior em relação ao código se dá, e aí com justa razão, pela provável anistia que isentará todos aqueles que desmataram ilegalmente até o ano de 2008. Mas é absolutamente irreal a possibilidade dessas ações, que atingiram inclusive áreas de reservas florestais, virem a ser punidas com multas. Sabe-se muito bem que isso não acontecerá, e se acontecer recairá sobre os mais fracos, os pequenos e médios agricultores. Melhor será lutar para que o novo código seja efetivamente cumprido, e isso passa em primeiro lugar pela ampliação da estrutura que garante a fiscalização de um território que tem a 5ª maior extensão entre todos os países do mundo. Talvez decuplicar o número de fiscais e ampliar consideravelmente os recursos financeiros para que esse trabalho possa ser feito, com infraestruturas modernas e tecnologias avançadas, investimentos plenamente possíveis se houver vontade política para tal.
Caso contrário, seja qual for o relatório aprovado ele se tornará letra morta, como no caso da lei que pune crimes do colarinho branco, e, no entanto, não se vê nenhum grande executivo preso, a começar pelo banqueiro Daniel Dantas. Ele também proprietário de grandes extensões de terras no Estado do Pará e segundo a investigação comandada pelo delegado Protógenes Queiroz, na operação Satiagraha, culpado por vários crimes. Mas do que uma lei é necessário a determinação para fazê-la funcionar.


NOTAS:

1. RAFFESTIN, Claude. Por uma Geografia do Poder. São Paulo: Editora Ática, 1993
2. FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. São Paulo: Editora Graal, 2007
3. ZIZEK, Slavoj. A Ecologia é o Ópio do Povo. In: Mágis - Revista da Unisinos, no. 05, dez 2009-jan 2010

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