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segunda-feira, 8 de junho de 2020

GRAMÁTICA DO MUNDO - DEZ ANOS DEPOIS

Primeira publicação do Blog Gramática do Mundo - 05 de junho de 2010. Seus objetivos se mantêm, a realidade mudou, sempre muda, mas, infelizmente, nossos dias estão contaminados por vírus que nos adoecem corporalmente, e outros vírus que contaminam cérebros, desorganizam a sociedade e destroem nossas relações, impregnando-as de ódio provocados por atitudes medíocres e perversas, desigualdades sociais, intolerância e medo. Saibamos combater tudo isso, mas com solidariedade e empatia, e, acima de tudo, compreendermos que nossa razão de viver não pode ser fundamentada pelo individualismo e negação das nossas diferenças. Combater o fascismo, o racismo, a intolerância, o ódio e a sociopatia, deve fazer parte do nosso cotidiano. Mas viver a vida, acima de tudo, tendo presente que o amanhã se constrói hoje, e o futuro dependerá das atitudes que tomarmos agora. Assim, ele poderá ser melhor ou pior, para cada um de nós particularmente, e para toda a sociedade.


CARPE DIEM - APROVEITE O DIA, CONFIA O MÍNIMO NO AMANHÃ

Há muito tempo venho tentando encontrar um canal de expressão para as minhas angústias, dúvidas, análises e questionamentos que tenho, da minha vida, da sociedade e do mundo no qual vivemos. Nesse primeiro post vou ser mais intimista, navegar por entre as incertezas que compõe o meu "eu" e identificar as fragilidades que transformam nossas vidas em cristais. Por mais vigorosos que julguemos ser, cada um de nós, estamos sempre tendo que lidar com momentos que negam veementemente todas as certezas que temos da vida. Somos frágeis diante do imponderável, incapazes frente ao acaso, impotentes diante da morte, mas poderíamos ter mais tolerância diante das adversidades e das diferenças que nos cercam se conseguíssemos entender melhor as complexidades e contradições que compõem a nossa vida.
Dois anos e meio atrás, vivi até então um dos piores momentos de minha vida. Perdi minha filha, Ana Carolina (minha bela, meiga e esperta Carol), aos dez anos de idade. E isso, como não poderia ser diferente, transtornou minha vida. Desde então - e continuo tendo ao meu lado meu filho e esposa, pessoas que eu amo intensamente, como amava Carol - passei a observar as coisas com um outro olhar. Mantendo minha concepção de mundo, firmada pelo aprendizado de anos de estudos e análises das idéias marxistas, e de uma militância efetiva para transformar essas idéias em realidade, acrescentei uma outra verve à maneira de entender o mundo. Ou até mesmo de como lutar para transformá-lo. Senti que mais importante do que idealizar o futuro é compreender o presente. Entendê-lo e vivê-lo intensamente, sabendo que nossa vida é tênue e que a brusca morte, presença constante na vida, pode impedir que qualquer sonho se realize.
Não proponho apagarmos nossos sonhos, pois isso é o que faz o ser humano acreditar em sua capacidade de criar além do real, e dá esperança de seguir em frente superando adversidades. Mas sonhar, partindo do real, entendendo o mundo em toda a sua dimensão, belezas, misérias, contradições, de uma natureza exuberante, e dentro dela, inerente a ela e dependente dela, o ser humano. Não um super-homem ou super-mulher, para os quais, ou as quais, o dinheiro, a riqueza e o luxo possam torná-los imortais, mas a entender que, no real e em nossos sonhos, somos mortais, passageiros de uma imensa nau, em alguns momentos comandadas por indivíduos insensíveis, arrogantes e inescrupulosos. Mas às vezes não. Podem surgir pessoas que não nos decepcionem, que sejam honestas e que tenham sensibilidade com a pobreza humana.
Que possamos sonhar abstraindo o egoísmo, a intolerância e a vilania na construção de um novo mundo, sem perder de vista a percepção que jamais isso se concretizará se no instante presente não buscarmos construir as bases sólidas que possibilitarão essas transformações. Senão, o sonho se esfumará e se dissipará quando abrirmos os olhos à realidade. Pois o futuro é somente uma imagem que fazemos, na perspectiva que o presente vivido seguirá em frente.
Mas isso depende de nossas escolhas, de compreendermos que o mundo, a sociedade, a nossa vida, não se constrói em círculos fechados, em redomas inexpugnáveis. Depende de entendermos que cada vez mais vivemos enredados em relações e situações que por mais distantes que pareçam de nós, compõem um estágio da humanidade, que nos afetam, nos atingem e transformam nosso estilo de vida. De nada adianta defendermos uma vida monástica, contemplativa. Devemos buscar a satisfação individual e daqueles que compõem nosso círculo mais íntimo, compreendendo que nossos momentos felizes dependem das circunstâncias e do ambiente que nos cercam.
Carpe diem... Sim, viver intensamente cada momento. Mas entendendo o mundo, lutando contra as injustiças, fazendo do nosso lugar e dos lugares do mundo ambientes seguros e toleráveis para viver. Viver o presente. Olhá-lo criteriosa e criticamente. Fazer do agora, do aqui, deste momento, os degraus seguros que iremos escalar. Tornar nossas vozes as vozes dos outros, dos injustiçados, dos desesperançados, daqueles que desprovidos de tudo já não acreditam no presente. E por assim viverem, jamais terão futuro.
Com esse BLOG o que pretendo é vi-ver, com o olhar descrito anteriormente, ler, compreender e d-escrever o mundo. Um olhar político geo-histórico, filosoficamente dialético, mas sensível diante de imensas contradições. Pretendo pelo menos diariamente postar um comentário sobre um tema relevante do momento, denunciando as falsidades que existem por trás dos discursos que invadem nosso cotidiano, banalizam nossas relações e artificializam nossos sentimentos. Principalmente, tentando desconstruir o que é elaborado pela mídia através de informações que encobrem os verdadeiros objetivos e os interesses do poder econômico, ao mesmo tempo que constroem mitos, celebridades, santidades e demônios aos seus interesses. Lutamos contra titãs, mas se é verdade que cada um de nós deve fazer sua parte, eis aqui, minhas idéias, minha luta, minha vida, minha palavra como arma dessa guerra.
Acima de tudo, dedico essa iniciativa à minha filha, eternamente ao meu lado, para sempre comigo, embora seu futuro tenha sido desconstruído em um presente contido no passado recente. Em meus sonhos, não do futuro, mas do passado, sua imagem me incentiva a lutar por um mundo presentemente melhor.
CARPE DIEM! FAÇA VALER O SEU FUTURO. LUTE POR UM PRESENTE REAL, JUSTO E MENOS DESIGUAL.

sábado, 26 de janeiro de 2019

TEMPOS INSIDIOSOS – COMO COMBATER OS VÍRUS QUE CORROEM CÉREBROS.

Retomo a minha verve. Gosto de escrever, criei esse blog para isso, em meio às circunstâncias que me jogaram em depressão com a morte de minha filha. De lá para cá, e já se vão quase dez anos (o blog foi criado em 2010), fui gradativamente substituindo os textos de caráter mais intimistas, uma maneira que encontrei de extravasar minhas emoções, por análises geopolíticas gerais e aqui do Brasil. Já que essa é uma condição do meu trabalho como professor de geopolítica na Universidade Federal de Goiás. Mantenho em alguns deles, como este que inicio aqui, um tom bem pessoal como se fora mais do que um artigo analítico. Assim, identifico-os como crônicas de um cotidiano no qual estou envolvido, mas que vejo pelo olhar crítico de um especialista e estudioso dessa área. Mais do que isso, de um historiador e doutor em Geografia, especializado nesse campo do conhecimento que aborda as relações internacionais e as questões políticas locais e para além-fronteira. Mas que abrange também as formas de funcionamento das sociedades e suas relações, a nossa especialmente, muito embora isso esteja mais restrito a sociólogos e antropólogos. Compreendo, mesmo assim, que há cada vez mais elementos da geopolítica em nosso cotidiano, já que a sociedade capitalista ao mesmo tempo em que centraliza, pulveriza o poder. Uma contradição, naturalmente mais uma de tantas que marcam esse sistema controverso, embora vitorioso até aqui diante de outros já tentados.
Quero neste ano poder publicar mais crônicas. Um problema, no entanto, me manteve em um breve silêncio dos últimos meses do ano passado para este começo de ano: As redes sociais. Em especial o Facebook, já que o whats app cumpre mais o papel de distribuir as informações, em sua maior parte falsas ou distorcidas, se encarregaram de conceber a cada indivíduo uma espécie de dom do conhecimento geral e genérico. Apesar disso ser algo que pode identificar uma ampliação da democracia, com a liberdade de cada um poder se manifestar e opinar livremente, numa sociedade desigual do ponto de vista do conhecimento, ou onde uma classe média e ricos se julgam superiores não pelo que sabem, mas pelo que possuem, a ignorância e estupidez assumem uma relevância estonteante e dificulta uma compreensão da verdade e da realidade.
Não se pode conhecer a realidade sem que se tenha uma capacidade de discernimento sobre as dimensões do Poder e dos poderes. O Poder com “P” maiúsculo, na identificação do que envolve as questões de Estado, das grandes governanças globais e das empresas multinacionais, enormes corporações que comandam a economia e as finanças mundiais. Ao não terem a dimensão disso e ficarem submetidos à informações ideológicas, apresentadas como anti-ideologia, feita por políticos obtusos e sem formação intelectual, demagogos, conservadores e oportunistas, bem como por dogmas difundidos por indivíduos mal-intencionados, incorrem-se em terríveis equívocos e passa-se a disseminar discursos toscos, racistas, xenófobos e intolerantes em relação às escolhas individuais, seja no tocante à sexualidade, à liberdade de crença e de não-crença em divindades, e, principalmente a não aceitação do empoderamento das mulheres. O conservadorismo assume, assim, pelo caminho da ignorância e da estupidez uma direção que nos levará ao abismo.
Igrejas espalham-se celeremente, pelas periferias e até mesmo bairros nobres, aproveitam-se do desespero, angústia e, principalmente, dos medos que povoam nossas vidas numa sociedade violenta e desigual. Não pregam o fim das desigualdades. Fazem do medo um instrumento de dominação, de mentes e de corpos. Não usam da solidariedade como forma de construir uma sociedade mais altruísta, ao contrário, estimulam frases ditas há milênios, como se as mesmas se adequassem a todas as formas de sociedades por todos os tempos, acentuando a intolerância e o desrespeito quanto às diferenças. Nos últimos anos, com a ampliação de uma crise econômica mundial, a que mais tem sido representada pelos discursos políticos e vieses conservadores que saem dos púlpitos e tomam conta das bravatas políticas tem sido “olho por olho, dente por dente”, além do crescente sentimento xenófobo, de um nacionalismo pérfido e intolerante. Naturalmente, este é o caminho da barbárie.
Nos deparamos em verdade, com um tempo em que disseminam-se informações curtas e superficiais por um lado, e, por outro lado, em função de todo um processo de desconstrução das ideias que se firmaram na primeira década do século e que levaram a esquerda ao poder, surgiram alguns arautos da inconformidade, do caos, resgatando discursos medievais, fomentando o medo e disseminando perversões em nome de deus e do resgate do sentido tradicional de família. Me fez lembrar da malfadada TFP (Tradição Família e Propriedade), que nos anos sessenta e setenta desfilava suas loucuras pelas ruas com estandartes em que pregavam a salvação pelos céus e abominavam o comunismo. Eram os tempos da guerra fria e vivíamos sob o domínio de uma ditadura militar. Não é uma repetição da história, mas até isso já se pode ver novamente pelas ruas. Loucura, estupidez, burrice, intolerância, ódio e um absoluto esvaziamento dos cérebros por meio de repetição de frases bíblicas, de anacronismo, e de força de um neopentecostalismo que nos faz lembrar de um dos momentos que se conta da história de Jesus Cristo, em que ele tomado por uma fúria surpreendente, expulsa do templo os “vendilhões”, aqueles que faziam nesse ambiente um espaço de perversão, usura e negócios que extrapolavam o que se pregava da fé cristã.
Dentre as aberrações que se diz nos dias de hoje, e que se tornou um mantra repetido ad nausean, tem sido “desideologizar” “sem viés ideológico”. Os que acreditam haver nessas viradas políticas que o país passa, com a eleição inusitada de um parlamentar inexpressivo, do “baixo-clero” e de postura obtusa, uma realidade onde a ideologia desaparecerá, só confirmam a incapacidade de reconhecer como funcionam as coisas nas sociedades capitalistas. Mas não somente nessas, como em qualquer outra já construída pelo ser humano. Ideologia é o elemento que as move, e nada mais é do que o conjunto de ideias que determinam as formas como se dão as relações sociais. Pode haver uma ou mais ideologias dominantes, bem como outras que são expressas por grupos que não estão vinculados às classes dominantes, sejam economicamente ou politicamente. Assim, é impossível haver qualquer forma de governo, ou qualquer tipo de sociedade, que não seja organizada a partir de ideologias. Elas se apresentam na forma de religião, na constituição de organizações políticas e sociais, em agrupamentos que se opõem ao establishment e defendem o fim do estado e de todas as formas de dominação, estão nas igrejas e em todas as formas filosóficas que representam hábitos e estilos de viver e de contemplar a realidade e o que pode existir para além dela. Ideologia faz parte de nossas vidas, não há como viver sem uma. Acreditar que um governo comandará um estado “sem viés ideológico” só exprime total ignorância e desconhecimento da própria realidade em que se vive.
Assim, diante de um comportamento completamente avesso ao conhecimento científico por parte daqueles que assumiram o poder nesse contexto caótico em que nosso país foi metido, pelas “fake news” e pela estratégia goelbesiana adotada pela grande mídia, torna-se difícil tentar racionalizar um debate. O próprio debate já inexiste, substituído por ironias, zombarias, ridicularização, menosprezo, escárnio etc. Desse ambiente, gestado nos últimos cinco anos aqui no Brasil, mas adredemente construído há, pelo menos, uma década desde que os EUA deu uma guinada na escolha de seu presidente, elegendo um negro de viés liberal. Que pela sua postura era visto naquele país como um esquerdista, além da sua própria cor incomodar uma elite branca perversamente intolerante com a diversidade étnica.
A partir daí, e em um ambiente de uma grave crise econômica, a política deixou de ser aquele elemento que serve para aplacar as crises, e passou ela própria a fabricar crises, ao sabor de interesses conservadores, de ideologias reacionárias no combate aos comportamentos libertários e de ampliação do poder das igrejas neopentecostais, cada vez mais envolvidas na disputa do Poder político e na disseminação de frases bíblicas visando desconstruir as mudanças de comportamentos celeremente em curso e representativas de uma época de forte mudança e de transição. A política foi derrotada, e em meio a essa onda nefasta de estupidez, tem levado junto a democracia. As duas perderam validade e confiança. No choque desses elementos, envolvendo a força dos avanços dos direitos sociais com os freios conservadores e o viés religioso e dogmático que se ampliaram em meio ao medo gerado pela crise e alimentado pelos púlpitos e pela mídia, abriu-se um enorme abismo que se amplia indiferente à possibilidade disso se transformar em um enorme caos. É o tempo da cegueira que se conta pelas páginas bem descritas de José Saramago. Impossível saber onde vamos parar, já que fica cada vez mais impossível enxergar saídas e alternativas para esses dilemas.
Do lado de cá, preparado para brandir como arma uma ideologia que preze pela solidariedade, pela comum união e pelo respeito à diversidade, sigo enxergando ao longe a utopia. E ela me ajuda a seguir em frente, embora a vejo cada vez mais distante à medida que me afasto dos tempos em que meu corpo me garantia mais energia e força para lutar por aquilo que acredito. No momento insisto em escrever, torcendo para que as novas gerações consigam chegar ao fim do último parágrafo, nessa época de informações parciais, curtas e abstratas. A minha geração fez o que pôde, acreditou que era real o que ainda era utopia, e cabe aos mais novos construir com solidez outros caminhos, que levem na mesma direção do que acreditávamos ser a construção de uma sociedade mais justa, solidária e menos desigual.


segunda-feira, 10 de setembro de 2018

UM PAÍS À DERIVA: QUE TEMPO É ESSE? PARA ONDE ESTAMOS INDO?


O Grito de Edvard Munch.
Obra expressionista
Não podemos achar que vivemos em uma ilha, onde as coisas acontecem independentemente da realidade que reflete os fatos que se sucedem no mundo. Evidente que não. O que nos afeta é consequência de transformações que foram geradas pelo fracasso daquilo que se convencionou chamar de globalização. E das políticas neoliberais que formaram as condições necessárias para que tais políticas fossem implementadas.
Fracassados os modelos tentados por essa onda de desregulamentação e destruição dos Estados o mundo se depara com uma crise, que não advém de 2008 como muitos possam imaginar. Ela é um processo cíclico que se inicia, se é que há um início ali, na década de 1970. Mas somente na década de 1990 as soluções desejadas pelo capitalismo conseguiram ser plantadas, como decorrência da decadência dos países que seguiam pelo socialismo, e em especial a União Soviética.
Passou-se a um ambiente de absoluta ausência de regulamentações, a não ser aquelas definidas por um ente abstrato, erigido à condição de sujeito: o mercado. Naturalmente isso significa dizer que não havia nenhum tipo de regulação. Em termos, claro. Porque muitos países se aproveitaram dessas circunstâncias, se incluíram no mundo globalizado sem abdicar de ter o Estado como instrumento necessário para transformar o desenvolvimento econômico e social em algo mais palatável em relação à sociedade. Ou seja, sem o Estado como instrumento regulador as classes sociais mais baixas estariam entregues a um sistema claramente marcado pela selvageria da lei do mais forte. E assim ocorreu, em muitos casos. Em outros não. E para onde foi o mundo quase ao final da segunda década do século XXI?
Essa lógica foi desastrosa. Sob diversos aspectos. No econômico levou a uma poder descontrolado das corporações, principalmente aquelas que estão na ponta dos conglomerados: os bancos. A concentração de riquezas chegou a níveis escandalosos. Houve um processo de saneamento das empresas, motivado pela lógica inerente ao sistema capitalista, da necessidade de lucros, levando a uma escalada de desempregos por diversos países, principalmente aqueles que se encontravam em fortes conflitos, seja guerras com inimigos externos, seja por desestabilizações políticas internas, acrescidos das ações de agentes que executavam a chamada “guerra híbrida”.
Para tornar a situação mais complexa o capitalismo, como é comum acontecer diante do agravamento de suas crises crônicas, cíclicas, busca um processo de reestruturação, acelerando transformações tecnológicas cada vez mais sofisticadas, por meio da robotização acentuada e da inteligência artificial. Naturalmente isso garante maior lucratividade para empresas e a redução do uso de mão de obra humana, alimentando uma crise social de proporções crescentes, trazendo junto com isso desemprego, mais problemas sociais, uma juventude cooptada pela criminalidade, desestruturação familiar, intolerância, ódio e xenofobia.
Por outro lado, governos conservadores, alguns alçados à condição de dirigentes por meio de golpes institucionais, programam medidas austeras em relação aos gastos do Estado, prejudicando as camadas mais baixas, ao mesmo tempo em que seguem mantendo subsídios às grandes empresas, ou as beneficiando por meio de isenções fiscais e garantia de infraestruturas para seus aportes e instalações.
No Brasil não foi diferente. As circunstâncias de uma situação política que levou o país a uma forte crise fiscal serviu de pretexto para a derrubada em 2016 de um governo eleito legitimamente, mediante acusações nitidamente farsescas, embora com a anuência de um judiciário carregado de mágoas por causa de decisões que feriram seus interesses corporativos.
A crise política, econômica e institucional se agravou ao longo dos anos seguintes, e deixou numa situação caótica o quadro político e social brasileiro. Um governo incompetente e imoral, completamente distanciado dos interesses da Nação, até porque não foi eleito democraticamente, adotou medidas que sufocaram mais ainda os trabalhadores e empurrou o país para uma das maiores recessões de sua história. Mas o aspecto moral foi o que mais se deteriorou, potencializado pelo crescimento da criminalidade, da insegurança, da violência e do discurso que projeta mais um sentimento de vingança do que a sensação que a justiça prevalecerá. Um vale-tudo se instalou no país disseminado por fake-news nas redes sociais que toma proporções parecidas com o que aconteceu nas eleições dos EUA e no plebiscito do Brexit na Inglaterra.
Inquisição medieval
Nesse quadro a sociedade vive a expectativa de um processo eleitoral. Numa conjuntura em que a população se vê perdida diante dessa manipulação de fatos e da utilização dos mecanismos que foram adotados em outros países, da falsificação da verdade e de informações distorcidas, aliado à perseguição comandada por um Ministério Público de uma parcialidade irritante, embora reforçado por comportamentos semelhantes do judiciário.
Assim, tudo é feito, até por meios desleais no âmbito de uma justiça que se desmoraliza, aprofundando a sensação de parcialidade explícita para que o poder político não retorne às mãos dos partidos de esquerda. À medida que os principais candidatos dos segmentos conservadores não conseguem deslanchar, destaca-se como representante do ódio alimentado ao longo desse tempo, um candidato da extrema-direita. Como característica desses perfis de candidaturas por todas as partes do mundo, seu discurso é baseado na intolerância, na descriminação ao outro sem respeito às diferenças e na alimentação do ódio, sob todos os aspectos. Um discurso que pode ser caracterizado sem erro de neonazista. Paradoxalmente, ao tempo em que professa esse sentimento intolerante, alicerça-se em crenças evangélicas, cristãs, e diz falar em nome de deus.
Cenas da Inquisção
Mas, porque esse indivíduo chegou a essa situação? Basta olharmos para a história e veremos muitos trágicos exemplos de como uma população fica refém de discursos de ódio, na medida em que perde a esperança, não vê perspectivas em curto prazo, principalmente os jovens, e são nesse desespero capturados pelo discurso fácil, enganador, manipulador. São conduzidos pelo medo, e pela forma como culturalmente foram sendo constituídos os valores e a ideologia de uma sociedade conservadora.
Submersos em momentos de avanços sociais, como na primeira década deste século, um sentimento conservador se libertou das profundezas, alimentando o medo e iludindo as pessoas com versículos bíblicos escritos há mais de dois mil anos. Seria impossível crer que um discurso de ódio e perversidade encontrasse guaridas em páginas religiosas? Não é bem assim. A história nos levará a outros tempos, e nos veremos diante de fatos por épocas passadas, onde o discurso religioso se tornou instrumento de fascistas, farsantes e até mesmo de fanáticos que levaram centenas de seguidores à morte, ou a tornarem-se, eles próprios, armas contra quem eles sequer jamais chegaram a conhecer. Porque o ódio cega, e o ódio do sectarismo fanático religioso se alimenta da ilusão e da crença de que determinado indivíduo se torna ungido e destacado por deus para libertá-lo das angústias e dos medos. E os que professam desse ódio e desse sentimento perverso, matam e se matam em nome de deus.
Marcha da Família com Deus
Pela Liberdade, em apoio
ao golpe militar - 1964
Numa situação de crise grave, de desemprego que se conta a dezenas de milhões, em que uma juventude se perde na ausência de esperança e de perspectiva, esse discurso farsesco se espalha rapidamente. E, por mais paradoxo que possa parecer, mesmo sendo os que assim propagam como sendo o escolhido, representante das camadas ricas, que defende abertamente a eliminação dos pobres pela execução daqueles que os deveriam proteger, muitos pobres, alienados, e/ou dominados pelas crenças sectárias religiosas, são facilmente convencidos por esses discursos de ódio, por esse ambiente no qual eles vivem e que a crise o aprofunda. Foi assim que surgiram os personagens mais perversos e genocidas da história mundial.
Muito embora isso, no espectro político que define a disputa eleitoral em curso, tem valido mais a disputa do Poder e da projeção partidária desconectada da preocupação com o futuro que nos aflige. Seria de esperar que num quadro assim delineado tivéssemos uma junção de pensamentos, e de partidos, que se opõem a esse perigo eminente de caminharmos para uma fascistização aberta da sociedade. Mas seguimos um enredo já visto no passado, e isso parece não despertar uma sensação de risco, ou talvez venha acompanhado de um sentimento de que uma derrota agora pode ser revertida nas próximas eleições. Provavelmente alguns estrategistas imaginam que da eleição de um desastroso e pérfido projeto levará as pessoas a se arrependerem, e imaginam um fenômeno semelhante ao sebastianismo ocorrido em Portugal, país que viu seu rei perder-se em meio a uma guerra, sem que jamais se soubesse qual foi o seu destino. A expectativa do retorno de um salvador ilude a sociedade e transfere para um futuro incerto um destino que estará sendo definido neste momento.
Podemos dizer que a história julgará aqueles que se omitirem ou manipularem um processo à custa de um jogo perigoso que envolve toda uma nação. Mas ainda temos tempo de alterar o curso dos acontecimentos. Praticamente vai se definindo uma disputa que colocará de um lado uma candidatura nesse perfil aqui analisado, que representará a destruição de tudo que se construiu e que se avançou na sociedade. Agora, a menos de um mês da eleição é preciso recuperar o tempo perdido de forma a garantir uma candidatura de esquerda na contraposição a essa onda de perseguição e intolerância que tomou conta do Brasil. A rejeição a esse projeto reacionário está num patamar bastante elevado, indicando a possibilidade de uma derrota efetiva em um segundo turno das eleições. Temos que ter foco e saber definir bem claramente quem é o alvo a ser derrotado e quais propostas o povo rejeitará nas urnas, porque trariam mais incertezas para o nosso país. Neste momento virar as baterias contra possíveis aliados no segundo turno é uma estupidez. O "fogo amigo" só ajuda o adversário.
Mas o tempo não para. E as pessoas vão se definindo, em meio a uma confusão inédita na história dos processos eleitorais brasileiro.
Não temos tempo a perder. “Nosso suor sagrado, é bem mais belo que esse sangue amargo. E tão sério… temos nosso próprio tempo” (Legião Urbana).

domingo, 15 de outubro de 2017

REFLEXÕES SOBRE O NOSSO TEMPO E O COMPORTAMENTO HUMANO

Fiquei um tempo afastado das postagens no Blog, em função de duas seleções de textos que estive fazendo, com o objetivo de lançar dois livros com artigos aqui já publicados. Mas nesse período não deixei de estar atento às polêmicas e situações políticas que afetam o nosso cotidiano. Expressei em alguns momentos nas redes sociais algumas opiniões, embora bem pontuais, sobre polêmicas que se disseminaram rapidamente. Situações tornadas mais complexas em função da condição em que estamos vivendo, com uma radicalidade política que tem feito explodir comportamentos estúpidos e intolerantes. Contudo, as questões nas quais me senti estimulado a comentar, tem a ver com o objetivo que me propus a voltar às crônicas neste blog.
Como historiador que analisa as sociedades com base na dialética percebo que estamos vivendo uma crise estrutural, sistêmica, consequência do choque de contradições na forma de funcionamento das relações de produção capitalistas. Em outros tempos, em outras formações sociais, situações parecidas também aconteceram, levando a transições longas e dolorosas, porque são situações que intensificam como num efeito dominó, diversas outras crises por todos os setores da sociedade. Inclusive no crescimento da violência, da intolerância, do individualismo, do messianismo e dos atos e gestos tresloucados, individuais ou coletivos. A grande diferença, comparando-se com outros momentos da história, é a rapidez com que os acontecimentos chegam ao nosso conhecimento, gerando medo e histeria coletiva numa intensidade muito maior. Além de existirem atualmente mecanismos de comunicação que dão vozes a qualquer um, disseminando crenças, boatos e ampliando a dimensão dos fatos a níveis bem maiores do que os normais. Ou do que se poderia considerar normais em determinadas circunstâncias. É o que vem sendo chamado de "pós-verdade". O que nos assusta, para além dos medos que nos agrilhoam, é saber que noutros tempos as sociedades só conseguiram sair dessas mesmas crises por meio de grandes guerras. Para confirmar meu olhar dialético, concluo com uma frase atribuída a Karl Marx, por Vladimir Saflatle (não consegui encontrar a fonte, por isso atribuo a este): "A situação desesperadora da época na qual vivo me enche de esperanças". (http://www.ihu.unisinos.br/540154-enfim-o-desespero).
Atenção! Tudo é perigoso.
Acompanhei também, equidistane, a polêmica em torno do “homem nu no museu”, e a reação conservadora eivada de intolerância que se seguiu. Considero uma aberração estabelecer censuras a museus.  Nos leva de volta para o passado, em tempos nos quais as liberdades individuais foram sumariamente suprimidas. A diversidade que se apresenta nos museus e teatros refletem as diferenças que existem em nossa sociedade. Não é segredo, não pode ser escondida. Aliás, as camadas pobres já não são estimuladas a frequentarem e ver um mundo diferente daqueles que eles habitualmente vêem e vivem, sejam em museus ou em teatros. Portanto, manifesto apoio a toda e qualquer forma de luta contra mais esse ataque retrógrado às liberdades.
No entanto eu também tenho minha opinião, e o que desejo é exatamente essa liberdade de expressá-la. Corpo nu, não é arte pra mim, nem em museu nem nas páginas da playboy ou outras revistas do gênero, seja masculina, feminina ou LGBT. É simplesmente um corpo nu, objeto de curiosidades e desejos numa sociedade em que o hábito é andar com alguma roupa. Isso é tão estranho quanto o fato de não poder andar de biquinis ou sungas pelas ruas, mas poder usar e ser visto/a assim nas praias. Tudo questão cultural. De liberdades outras que se permitem em campos de nudismo, mesmo que com regras. As performances feitas com corpo nu podem ser feitas com roupas íntimas, de ceroulas, saias, bermudas ou de qualquer jeito. A arte está nas performances. Mas essa é a minha opinião. Por isso eu quero ter a liberdade de poder analisar e opinar, de ver ou de não querer ver. Impor censura nos leva a práticas ditatoriais e totalitárias. É precedente perigosíssimo, como tantos outros estão acontecendo. É melhor nos ligarmos no grito contido na música de Caetano: "Atenção: Tudo é perigoso. Tudo é divino maravilhoso. Atenção para o refrão. É preciso estar atento e forte..."
(https://www.letras.mus.br/caetano-veloso/44718/)

MENTES ESCRAVIZADAS E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Para além dessas polêmicas, tenho me batido também contra um vício, que para nós professores, tem sido um golpe mortal na possibilidade de conseguirmos chegar ao final de uma aula com o prazer de ter cumprido o nosso papel, podendo receber como feed back uma demonstração de interesse por mergulhar em busca e transmissão do conhecimento. Refiro-me à dependência tecnológica que tem afetado a juventude, mas não somente esta, como também às pessoas de uma maneira geral.
E, quando nós professores, perdemos um bom tempo de nossas aulas, ralhando com alunos e alunas, insistentemente, para que não usem seus smart-fones em sala de aulas, significa que chegamos a um ponto de difícil retorno à nossa condição humana.
No livro, “Eu Robô”, escrito em meados do século XX, Isaac Asimov cria, em ficção, diversas situações que demonstram os avanços da robótica e o desenvolvimento, até mesmo no campo da inteligência, de máquinas que substituiriam os humanos. No clássico “Blade Runner”, de Philip K. Dick (1968), os humanos são substituídos por androides, chamados replicantes, que gradativamente também vão adquirindo inteligência, sensibilidade e a capacidade de sentir prazer. Para completar os clássicos, também Stanley Kubrick avançou nessa direção, praticamente afirmando a possibilidade de robôs/andróides serem capazes de desenvolverem suas inteligências, a partir de protótipos criados por corporações. Todos esses livros ou roteiros foram transpostos com sucesso para o cinema, este último amplificado por Steven Spielberg (A. I. 2001). A Inteligência Artificial, elemento presente em todas essas obras de ficção, hoje já ultrapassa essa condição, e se torna algo objetivamente real, com o desenvolvimento dessa capacidade em computadores e já também em robôs.
Mas o que tem isso a ver com a minha decepção em relação ao uso desmedido de smart-fones, inclusive em horário de aula? Porque isso demonstra que, gradativamente, e de forma mais acentuada com as mais novas gerações, o cérebro vai aos poucos tendo partes descartadas por falta de uso, já que não somente isso é um objeto de distração, como vai sendo substituído pouco a pouco pela “inteligência” artificial. E propositadamente coloco a expressão entre aspas, porque não se trata, enfim de inteligência que possa adquirir capacidade crítica, na medida em que cada vez mais o uso desses aparelhos desvia a atenção da juventude, anestesia sua capacidade de reflexão de forma mais aprofundada, retira-os implacavelmente do mundo real e contribui para a disseminação de atos de estupidez e intolerância, na medida em que o poder de discernimento vai, pouco a pouco, perdendo-se em meio a uma infinidade de informações mal processadas e não verificadas em suas autenticidades. Com as devidas e raras exceções.
Claro, os aparelhos são os transmissores, os equipamentos que permitem a determinados programas cumprir esses objetivos. As redes sociais disseminam-se celeremente, afetam rapidamente a rotina e o cotidiano das pessoas. Parecemos cada vez mais com zumbis, inclusive em plenas vias urbanas e até mesmo no trânsito, absolutamente distraídos em relação ao mundo real que nos cerca, e completamente absortos em um mundo virtual, distante e desatento do nosso lócus.
O uso excessivo de smart-fones já se constitui em um vício. Algo devidamente diagnosticado como uma patologia, inclusive com tipos de tratamentos semelhantes àquelas pessoas viciadas em drogas fortes. Naturalmente, como tantos outros vícios, as pessoas não tem essa percepção. Informam-se, divertem-se, trabalham, leem, estudam, e dessa forma encontram sempre uma justificativa para o uso exagerado desses aparelhos. Ora, muitos fazem tudo isso. Confesso que também eu. Mas devemos ter a capacidade de saber dos nossos limites, ou até onde podemos sucumbir às máquinas. Algo que aliás, o geógrafo Milton Santos, morto em 2001, já alertava para esse caminho que a humanidade estava seguindo, em que estávamos sendo dominados pelas máquinas, ou pelos objetos.
Acredito que o limite disso tudo chega a um nível perigoso quando as novas gerações trocam o saber pelo instrumental, o conhecimento pela informação, a objetividade pela superficialidade, e o real pelo virtual. Ao nos depararmos com jovens que diante de seus professores, em plena sala de aula e durante a exposição do seu mestre, prefere acessar esses aparelhos, começamos a nos sentir derrotados naquilo para o qual dedicamos boa parte de nossas vidas. Já não faz mais sentido, mesmo que por enquanto ainda não seja uma maioria a fazer isso. Mas se não impomos restrições essa maioria aparece rapidamente.
Creio que um filme (três, na verdade) nos possibilita discutir isso com precisão. Mais um desses filmes, naturalmente. Embora tenha sido produzido atemporalmente. Ou seja, antecipou uma realidade que veio despontando ano a ano depois de sua produção: a trilogia Matrix. Talvez esse seja um filme de grande relevância para debater com a nova geração, mas duvido que consigamos convencer aqueles que já estão numa dependência doentia na relação com esses aparelhos.
Ademais, e isso é fato, a maneira como esses aparelhos possibilitam os contatos virtuais, encurtam as distâncias entre as pessoas, muito embora as distanciem fisicamente, tem possibilitado a difusão de mentiras, boatos, notícias falsas, “fakes” (que pode ser tudo isso), e potencializado a disseminação de ódios, preconceitos, intolerância e atos estúpidos, pois criam condições que encorajam pessoas que não se manifestariam, e não se manifestam, presencialmente.
São caminhos perigosos que trilhamos nesse momento de insensatez, visível nos atos e gestos do boquirroto que assumiu a condição de presidente da maior potência econômica e militar do planeta, fazendo bom uso dessas tecnologias e desses mecanismos geradores de estupidez. Sua campanha foi um exemplo de como nossos destinos estão submetidos às neuroses coletivas provocadas por “verdades” produzidas em laboratórios de marketings. Somos, cada um de nós, cobaias de novos experimentos que analisam comportamentos e criam inteligências artificiais mais espertas do que a maioria dos mortais, entregues que nem zumbis aos deslumbramentos tecnológicos.
Ainda há tempo para adquirir capacidade crítica, resistir e combater.  Um outro mundo é possível! Mas estamos perdendo batalhas importantes. 

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

NO LIMITE!

Vivemos uma era de intolerância? A humanidade está fadada à se autodestruir a partir de um estilo de vida competitivo e estressante? A violência é inerente à “natureza” humana?
Temos ultimamente verificado uma profusão de artigos nos meios de comunicação enfatizando a forma como a violência tem se tornado banalizada. São crimes praticados por motivos fúteis e reações intempestivas a pequenos e irrelevantes acidentes que geram um comportamento estúpido e irracional, fazendo com que até mesmo pessoas que jamais se conheceram tornem-se em frações de segundos inimigos mortais.
Como avaliar esses comportamentos? Eu, particularmente, não sou psicólogo, portanto vou analisar essa situação, nessas poucas linhas, por um viés geopolítico. Mas como fazer isso? Será que todo e qualquer conflito, mesmo no mero cotidiano de nossas vidas, pode ser estudado a partir da geografia?
Sim, não somente da Geografia Política, mas também pela História, Sociologia, Filosofia, Economia Política e, claro, Psicologia, porque esta se preocupa mais diretamente nos estudos desses e de todos os tipos de comportamentos humanos. Mas onde podemos buscar as origens para tais comportamentos? Vejam que a psicologia para tentar entender certas situações aflitivas em determinado indivíduo, busca conhecer o seu passado, e através dele chegar ao âmago de sua vida, seus traumas, frustrações, fracassos, ou seja, o conjunto de eventos que determinaram como a sua memória está constituída. Enfim, sua história de vida.
Partimos, portanto, do pressuposto que para conhecer o presente é insofismável se aprofundar no passado. Como em qualquer terapia, para conhecermos a origem das angústias que afligem certa pessoa, é fundamental sabermos o que tal indivíduo acumulou de experiências negativas que causaram certas anomalias em seu comportamento, a ponto de provocar em determinado momento uma ira incontrolável, fazendo-o reagir violentamente contra aquele que cruzar seu caminho em um instante de fúria. Ou propiciar outro caminho, da introspecção, depressão, que o fará agir com brutalidade não somente contra o outro, mas para consigo mesmo. E, às vezes, sequer alguma reação esse indivíduo terá, esgotando em si mesmo a vontade de viver, sendo consumido pela desesperança e tristeza profunda.
Essas são situações que crescem no cotidiano das grandes cidades, metrópoles aceleradas marcadas por sentimentos contraditórios, mas cuja lógica reside no fato de as pessoas precisarem sagrar-se vitoriosas em meio a uma competição desmedida, e na busca por um estilo de vida que os consagrem vencedores. Nesse jogo, seguindo o que determina os valores construídos pelo sistema em que vivemos a vitória não é o fim de tudo, pois deve ser permanente para manter e ampliar o que foi conquistado; e a derrota enseja tais frustrações que forçam alguns por caminhos que imaginam ser um atalho também para atingir esses objetivos. Tais atalhos, de um jeito ou de outro, leva a desfechos indesejáveis, na medida em que se rompem valores e quebra-se a estrutura moral na qual está fundada a sociedade.
Podemos partir de uma frase muito repetida em uma propaganda da maior rede de supermercados do país, na voz de um dos nossos melhores compositores: “o que faz você feliz?”**. A resposta para isso, segundo o marketing apresentado, é consumir. Seguindo adiante no objetivo de atrair clientes, apresenta-se ainda um complemento: consumir, bem!
Significa, então, que a condição para estabelecermos relações fraternas, ponderadas, tranqüilas, é nos situarmos dentro de um padrão de vida que possibilite adquirir produtos que nos são oferecidos para consumo e massificados pela mídia de forma variada. Ao sairmos de casa, ligamos o som do carro e os programas têm o oferecimento de determinada marca; nos veículos, ônibus principalmente, uma bela donzela ou um jovem mancebo nos apresentam um produto apontado como responsável por suas formas; por todos os lados, outdoors de várias maneiras e estilos nos “vendem” todo o tipo de mercadorias. Na TV, internet, páginas de jornais e revistas, por todos os lados somos massacrados pela propaganda, de tal forma que no cotidiano de nossas relações, nos tornamos agentes propagadores desses produtos. Não são poucas as vezes que debatemos suas qualidades, e indicamos aquela marca que foi por nós aprovada. Remédios, então, nem se fala. Alguns imaginam conhecê-los melhor do que os médicos e repassam suas possíveis qualidades, num marketing indireto condicionado pela lógica consumista.
Em um ambiente carregado por esses valores, onde consumir “faz você ser feliz”, podemos encontrar a chave para as desilusões, frustrações e disputas violentas. Primeiro porque nos impõe um sentido de viver determinado pela necessidade de estarmos permanentemente em busca de melhores ganhos, já que nosso poder de consumo é incontrolado e infinito. Da mesma maneira como ao sistema capitalista não importa somente ganhar, é preciso ganhar sempre, e cada vez mais.
Imaginemos, nós que possuímos empregos regulares, a angústia e desespero de uma família cujo pai, ou mãe, aquele que dá sustentação financeira à família, encontra-se desempregado. Ou cujo salário, ao final do mês, é insuficiente para atender à necessidade, e à demanda de um grupo condicionado pelo marketing que perversamente invade sua casa pelos meios de comunicação. Como reagirá essa família ao assistir à propaganda citada, que não é a única, mas apenas um exemplo? O que está desempregado saberá na carne o que quero dizer. Mas mesmo com um salário, será ele suficiente para manter satisfeitos adolescentes cuja cultura cerca-o de desejos por produtos tecnologicamente sofisticados, ou roupas de grifes famosas? E, neste parágrafo, falo de exemplos e indago sobre questões que atingem a imensa maioria da população. O que facilita para nós a compreensão da pressão sob a qual está fundada a nossa sociedade.
Compreendendo essas contradições, e o estilo de vida que o sistema nos impõe sempre a buscarmos, podemos levar nossa análise para o âmbito da política, e nesse particular navegar melhor pelo universo de uma sociedade cujo elemento central é a competição. E, como numa disputa esportiva, a busca é permanente pelo recorde, também aqui jamais nos satisfazemos com o que ganhamos. Isso, independente do padrão de vida que analisarmos.
Simplesmente porque nossa cultura é formada a partir dos valores construídos pelo sistema capitalista, onde não há limite para o lucro, e a ganância é o motor principal a nos guiar em direção ao objetivo de sempre acumular mais. E isso independe do fato de envelhecermos, e pela lógica natural da vida em algum momento morrer. A herança, mecanismo inventado para perpetuar a busca obsessiva pela riqueza e garantia da propriedade, se encarrega de assegurar que os mortos determinem quem em vida continuará sua sina.
Isso é o que faz das cidades mais particularmente, palco principal das neuroses e conflitos, ambientes cada vez mais carregados de estupidez, violência e atitudes bizarras. Porque cabe a cada um, seguindo a forma individualista determinada pela cultura capitalista, brigar, com todas as suas forças, para superar o outro, numa disputa que determina quem é vitorioso e será escalado para atingir os melhores degraus da pirâmide social. Como no traçado geométrico dessa figura, também na sociedade vai diminuindo o percentual daqueles que atingem o pico, e os que lá chegarão quase sempre já se encontram na linha de ascendência de alguém “bem sucedido”, pouco ocorrendo a incidência de algum “cristão novo”.
Ou lutamos para alterar essa lógica, atacando o modelo que transmite esses valores culturais, ou será insuficiente exigirmos garantias de segurança por parte do Estado. Porque também esses mecanismos estão corrompidos, seguindo a lógica descrita anteriormente. Nossas prisões não serão suficientes para conter uma demanda que cresce, na medida em que se atiça a onda consumista.
Portanto, antes de nos escandalizarmos com o grau de violência que assistimos, e que em alguns casos somos vítimas, devemos refletir sobre as causas disso. Não é, em absoluto, da essência humana. É, indubitavelmente, da CONDIÇÃO HUMANA.
Em outros post, quero melhor analisar como individualismo e egoísmo vão sendo disseminados por alguns mecanismos de controle ideológico, apresentados como válvulas de escapes dessas neurastenias, mas que são por um lado consequência dessa situação, por outro, objetivo calculado desse modelo de vida. Mais uma contradição a nos envolver num pântano movediço. Para não parecer pessimista devo dizer que tenho plena convicção de que é possível sair dele. Nosso destino não está traçado.
Para não perder o costume, gostaria de indicar o filme CRASH, NO LIMITE![1] As histórias que se entrelaçam e conduzem à surpresas e tragédias, mostram bem como funciona o cotidiano de uma cidade cujas pessoas encontram-se á beira de um ataque de nervos. Preconceito, intolerância, medo e insegurança são os elementos motivadores das tragédias ali relatadas e que se parecem com muitas das que acontecem na vida real. O filme foi o grande ganhador do Oscar em 2006.




(*) Este artigo foi publicado originalmente neste Blog em 16 de agosto de 2010. Republico aqui porque as condições de crise e intolerância se acentuaram de lá para cá. Infelizmente. O que nos impõe a necessidade de corrigirmos um rumo que nos leva em direção a um abismo.

(**) Propaganda feita na voz de Arnaldo Antunes, para o grupo Pão de Açúcar.


sábado, 18 de janeiro de 2014

"ROLEZINHO": VAMOS PASSEAR NO SHOPPING?

Depois de um longo tempo sem novas postagens aqui no Blog, me atrevo a escrever uma nova crônica sobre as transformações que acompanham o nosso cotidiano. Não tenho a pretensão de abordar tudo, seria demais. Mas vou mirar em dois temas que me parecem ser os que mais têm estado presente nos noticiários dos grandes meios de comunicação. O medo e os “rolezinhos”. Como o medo está presente no fenômeno “rolezinho”, comecemos por este.
Muitas análises sociológicas têm sido feitas, embora algumas delas tentando encontrar explicações ideológicas que não estão presentes nesses movimentos. Não são manifestações de protestos. Não são sequer manifestações. Pelo menos num primeiro momento. Evidentemente tomaram outro rumo diante da repercussão e do tratamento que lhes foi dado. E também pelo inusitado e inesperado do próprio fato, já que “ameaça” a tranquilidade dos templos de consumo capitalista, talvez a mais bem elaborada forma de atrair consumidores surgida com a globalização.
Diante disso, como tem ocorrido no Brasil desde a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, estabelece-se de imediato um paradoxo entre liberdade e intolerância, entre pobreza e riqueza, entre luxo e miséria. Os que lidam com os meios de comunicação, ou aqueles que produzem artigos para blogs, como faço aqui, e, principalmente as redes sociais, compartilham suas e outras opiniões e de imediato o debate espalha-se como um rastro de pólvora acesa.
As notícias hoje, se espalham em frações de segundos. Mas, além de notícia, o conhecimento do fato e as reações a ele, criam novos movimentos por outras partes do país. Isso facilitado pela padronização que o capitalismo criou em suas formas de atrair consumidores. Logicamente os mais abastados, os que podem frequentar e gastar nesses templos.  Assim, novos “rolezinhos” se espalham pelas capitais brasileiras, deixando em polvorosa quem pensou nesses ambientes como locais seguros e distantes da pobreza.
Mas estamos nos esquecendo de algo. Quando esses shopings surgiram tornaram-se atrativos para adolescentes de classe média, então apelidados, sabe-se lá porque, de “mauricinhos” e ‘patricinhas”. Paquerar, se exibir, ostentar roupas com marcas de grifes famosas, ou simplesmente por falta de melhores opções de onde se juntarem. O país vivia uma falta de carência de espaços que possibilitassem aglutinar esses jovens e propiciar diversão com segurança.
Mas o país mudou ao longo desses anos, melhor dizer nesse novo século. A ampliação da classe média, como consequência de políticas sociais e de governos com focos diferenciados, se não melhorou a proporção entre pobres e ricos, cujo fosso permanece enorme, garantiu com que uma grande quantidade de pessoas ampliasse o percentual daqueles que se incluem nas camadas médias da população. Ou seja, aquela parcela que tem condições de consumir produtos anunciados por todo o mundo, marcas de grandes corporações, apetrechos tecnológicos, e principalmente roupas e tênis de grifes.
No entanto, consumir esses produtos não quer dizer, necessariamente, inclusão social. De fato. Os chamados “emergentes” não são aceitos pela classe média tradicional e pela velha e arrogante elite brasileira (muito embora esse seja um fenômeno que ocorre também em outros países). O Brasil passou a conviver com um fenômeno contraditório, melhorava suas condições socioeconômicas (apesar ainda de muito distante do desejável), mas se deparava com um ódio de classe impertinente, incensado por meios de comunicação que viam por terra seus projetos de manutenção de determinados políticos adequados a esses perfis e a seus interesses mesquinhos e ideologicamente conservadores.
Por todos esses anos alimentou-se um sentimento de negatividade diante de conquistas importantes, acentuou-se a política do medo e o “complexo de vira-latas” que se reproduz em postagens idiotas nas redes sociais. Apesar dessas melhorias atingirem uma parcela importante da população a forma como a grande mídia retratou nesses anos o país e o menosprezo pelos avanços obtidos criava uma sensação, no inconsciente coletivo, que nada melhorava. Do ponto de vista sociológico isso emperrava a auto-estima das camadas que melhoravam suas condições de vida. O medo do endividamento, permanentemente enfocado nos vários noticiários das grandes redes de TV, mantinha essas pessoas na velha insegurança que sempre lhes perseguiam. Afastavam-nas, assim, mesmo que inconscientemente, das convivências com o mundo de cima. Quando alguns, mais eufóricos e ousados, atreviam-se a romper a fronteira que delimita os campos sociais, eram vistos com desdém e o perverso preconceito de classe. Tornou-se comum observar os estilos das pessoas, seus hábitos, jeitos de se vestirem, gostos musicais, e isso, no dia-a-dia das pessoas, e aí de uma maneira geral, tornou-se piada, gozações, “zoeiras”, comuns em locais de trabalho, lazer e nas redes sociais. A velha estratégia de dissimular o preconceito e fazer com que até mesmo as potenciais vítimas desses preconceitos riam deles próprios.
Estranhamente, até pelas ações de políticas públicas, passou-se a combater com mais veemência o preconceito “racial”, assim como cresceu também o combate aos crimes de homofobia. Medidas importantes foram tomadas para que isso acontecesse, e felizmente tem feito mudar comportamentos, apesar dos ressentidos direitistas religiosos e fascistas de todos os tipos, que persistem na intolerância. Mas são cada vez mais em números reduzidos, apesar do poder que ainda possuem.
Mas o estranhamento se dá pelo fato de paralelo a isso viesse se fortalecendo o preconceito social, com a ampliação da barreira existente em determinados ambientes, no caso específico os “shopping centers”. Muito embora tivessem surgido alguns de “perfis populares”, onde se vendem efetivamente as mesmas marcas que os mais elitizados. Mas sempre foi nítida a desconfiança que perseguia principalmente jovens de classes menos abastadas, que se aventuravam a passear nesses templos luxuosos. Isso inibia alguns de os frequentarem, somente se arriscando ou com a família ou em pequenos grupos. Nesse último caso, mantendo-se sobre eles uma vigilância permanente.
Daqui eu pulo para os “rolezinhos”, cujo significado é dar uma voltinha, passear. Ora, as últimas manifestações ocorridas no Brasil não podem ser esquecidas quando analisamos esse novo fenômeno que preocupa os Shoppings, e a burguesia, naturalmente. Juntemos as duas coisas e o que teremos é o resultado de um verdadeiro “empoderamento” por parte do que podemos classificar como comunidades de jovens que se reúnem nas redes sociais. Assim como se espalharam pelo país os vários chamamentos para as manifestações que mobilizaram principalmente os jovens, por todos os Estados brasileiros, nas grandes e médias, e até pequenas cidades, o fenômeno se repete com os “rolezinhos”.
Mas há algo que se disseminou pelas periferias das grandes cidades. O chamado “funk ostentação”, que se espalhou a partir do Rio de Janeiro e de São Paulo. Ao contrário do “funk social”, aquele se caracteriza por aderir ao estilo de vida das elites, e de buscar ostentar os mesmos produtos de marcas famosas, carros de luxo etc. Os artistas que produzem as músicas desse estilo e são badalados até mesmo pela burguesia e classe média alta, conseguem penetrar em ambientes elitizados. Mas os jovens da periferia, adeptos desse movimento sempre tiveram dificuldades até mesmo de frequentar os shoppings onde pudessem ostentar ou adquirir esses produtos. Não viveriam como iguais, mas desejavam se mostrar como tais.
Os mesmos mecanismos adotados para mobilizar para as manifestações, inclusive dos black blocks, passaram a ser usados para encher esses templos de consumo, não para combater qualquer tipo de discriminação ou de preconceito, muito menos para levantarem a bandeira do fim da propriedade privada e do socialismo. Mas para ocuparem o que é para eles de direito. Se antes, andar em pequenos grupos os tornavam alvos dos seguranças, que os monitoravam permanentemente, agora, com os “rolezinhos”, essa sensação de empoderamento se compara com a força com que essa mesma juventude se insurgiu contra a violência policial nas manifestações. Assim, encher os shoppings, mediante a mobilização via rede social os tornaram mais do que visíveis, deram a eles o poder que é comum quando o ser humano se junta (e naturalmente sempre acontece descontrole e oportunistas, mesmo se em minoria). Em se tratando de jovens, ávidos por ocuparem espaços de seus desejos e que sempre lhes foram negados, a “zoeira” toma uma dimensão incontrolável. Afinal, onde está escrito que é negado passear com sua turma no shopping?
Como essa pergunta não encontra resposta, e estando sendo proibidos de “passear”, os rolezinhos, aí sim, viraram atos de protestos e se disseminam muito mais rapidamente. Como contê-los? Eis aí uma boa pergunta para ser respondida por aqueles que criam seus próprios mecanismos de destruição. No século XIX, um impertinente barbudo já havia alertado para isso. E dizia que o capitalismo seria vítima de suas próprias contradições.