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quarta-feira, 22 de julho de 2020

A ESTRATÉGIA DA DESTRUIÇÃO E OS CAVALEIROS DO APOCALIPSE

Nos últimos anos, ou melhor nas últimas décadas, as plataformas das redes sociais (You Tube, Facebook, Instagram, twitter...) foram sendo instrumentalizadas pelos segmentos de extrema-direita, e por meio de muitos canais que eles criaram, passaram a atingir um público muito diversificado. E foi dessa forma que conseguiram romper um bloqueio que a mídia tradicional cria. Ela exclui a esquerda e a extrema-direita, e claro, coloca somente aquelas informações que estão alinhadas com a sua linha editorial.
Não vamos, contudo nos esquecer, que a grande mídia tem uma grande responsabilidade na destruição da política, ao causar achaque à democracia, e potencializar uma visão apocalítica da realidade absolutamente manipulada e desvirtuada, impulsionando manifestações que espalharam o ódio e atacaram o governo de uma presidenta legitimamente eleita e alimentaram uma perseguição e um espetáculo grotesco no Congresso Nacional, no processo de impeachment que sabe-se claramente hoje ter se tratado de um golpe institucional. Naquele momento abriu-se a “caixa de Pandora”, libertando todos os males enrustidos nos subterrâneos do parlamento e da sociedade brasileira.
Feito essa observação necessária, já que nosso foco aqui são as redes sociais, e plataformas de vídeos, voltamos ao eixo da nossa avaliação. A extrema-direita descobriu, antes que a esquerda, que por esses canais, por essas plataformas, via redes sociais, havia uma possibilidade enorme de atingir um público que eles chamam de “maioria silenciosa”.
Pois bem, essas plataformas funcionam por meio de algoritmos, que destacam determinada abordagem, por meio de expressões (palavras) ou fatos, que tenham relação com aquilo que uma parcela muito grande da sociedade termina sendo atraída: violência, discurso de ódio, homofobia, racismo e diversos outros temas que esses algoritmos definem no perfil de cada um, que eles possuem armazenados, com os nossos dados que autorizamos as suas visibilizações e ficam em controle dessas empresas, e selecionadas por meio de inteligências artificiais. Isso é potencializado com esses algoritmos, com essas expressões, e atingem milhões de pessoas, escolhidas para terem acesso a essas informações.
Esses segmentos da extrema-direita compreenderam o papel que isso pode desempenhar, e a capacidade que esses canais têm de atingir cada vez um número maior de pessoas. Inicialmente eles começam falando de coisas fúteis, corriqueiras, e assim atraíam essas pessoas, passando depois para uma discussão política, que na verdade transformava-se em ataques à política e disseminava sentimentos antipolítica. Essas questões, envolvendo principalmente o You Tube, foram bem demonstradas em um dos episódios do documentário “The Weekly”, na temporada 1, episódio 9, “Toca do Coelho”.[1]
Portanto, todo esse processo, que advêm do começo desse século, foi pensado estrategicamente. O que quero dizer é o que o “Brexit” não foi acidente, o Donald Trump não foi acidente, assim como também Jair Bolsonaro. Houve, e há, estratégias por trás da maneira como muitos passaram a seguir aquilo que para uma grande parte da sociedade são discursos estúpidos, coisas ditas de forma odiosas, aberrações, esdrúxulas. Mas porque tantos seguem essas ações, esses atos e esses comportamentos, considerados estúpidos por outros tantos? Exatamente porque, por meio desses estudos que tiveram acesso, eles passaram a utilizar essas plataformas, e esses algoritmos seguindo-se expressões definidas como do gosto de inúmeros perfis, eles passaram a ser ouvidos por milhões de pessoas, que por suas próprias condições estavam propensas a acreditar. Sendo que muitas das informações que eles levaram são falsas, essas ondas de fake news. Mas, pelos perfis atingidos isso não fazia diferença, visto que eram, e são pessoas, dispostas a acreditarem naquilo que elas desejam que seja “a verdade”. O que desde há alguns anos se convencionou chamar de Pós-Verdade.
Eu gostaria de sugerir mais dois documentários, que estão disponíveis na Netflix. O primeiro é “Privacidade Hackeada”[2], produzido com base nas investigações sobre a Cambridge Analytica, uma empresa que se tornou um escândalo depois das denúncias de que ela roubara milhões de dados do Facebook (há suspeitas sobre a conivência deste), e esses dados foram utilizados de diversas maneiras, tanto na campanha do “Brexit” na Inglaterra, quanto na campanha de Donald Trump, nos EUA. Isso levou a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito no parlamento britânico, no ano de 2018.
Nesse mesmo documentário, é dito uma questão importante, relevante, que as pessoas tem que ter muita clareza disso. Uma ex-diretora da Cambridge Analytica, Brittany Kayser, que foi fundamental nas denúncias apresentadas, disse o seguinte: “As empresas mais ricas são as de tecnologia. Google, Facebook, Amazon, Tesla... No ano passado dados superaram o petróleo em valor. Dados são os recursos mais valorizados da terra”
Ainda nesse documentário, outra frase que destacamos, foi dita por Christopher Wylie, Cientista de Dados, ao se referir  a Steve Bannon (vice-presidente da Cambridge Analytica, e criador do site de notícias Breitbart), que seria a doutrina utilizada por essas empresas: “Se você quer mudar fundamentalmente a sociedade, primeiro tem de destruí-la. E somente depois de destruí-la é que pode remodelar os pedaços segundo sua visão de uma nova sociedade”.
Isso é, portanto, uma estratégia do caos, que foi utilizada no “Brexit”, na eleição do Trump, e tem sido também utilizada aqui no Brasil desde antes da campanha de Bolsonaro. E a forma como é utilizada para atingir esses objetivo é exatamente por meio da desconstrução da política, da desmoralização da democracia, e da tentativa de destruição das instituições que compõem o Estado. O objetivo é destruir instituições que permitem um mínimo de garantias democráticas e constitucionais, e afetar a sua credibilidade, atingindo diretamente algumas personalidades, e depois, claro, recompô-las seguindo as linhas ideológicas desejadas.
Então são essas informações, via esses canais, plataformas e aplicativos, mesmo esses que funcionam como divertidos entretenimentos, seja no Facebook, whatsapp, instagram, com a captura de nossos dados, que são utilizados de diversas maneiras, rompendo compromissos de confidencialidade. Por meio de conivência que garantem aos seus proprietários e acionistas lucrarem escandalosamente. E isso tomou uma grande relevância nessas estratégias de obterem acesso a milhões de dados das pessoas, e assim disseminar mentiras, discursos de ódios e destruição de reputações, que fariam Goebbels parecer um discípulo, embora ele seja a origem dessas perversões.
O outro documentário é “Get me Roger Stone”[3]. Assistam esse documentário e vocês verão que as diatribes, os comportamentos tresloucados, as ações que se repetem e que para muitos de nós, normais, parecem maluquices, loucuras, são na verdade atitudes pensadas, dentro de uma estratégia que visa apostar em comportamentos bizarros, mas sabidamente aceito por uma grande parcela da sociedade. Como o que foi mostrado recentemente, agora no último final de semana pelo portal de notícias UOL, quase que um culto, assim foi a manchete, do Bolsonaro à Cloroquina e o deslumbramento de seus seguidores em ato em frente ao Palácio do Planalto. E que pode ser visto assim mesmo, dessa maneira, porque a manifestação foi chamada pelos segmentos conservadores de algumas igrejas, a maioria evangélicos.
Eles têm noção que esse remédio não serve para combater Covid19, serve para outras doenças, e disso eles têm clareza. Claro. Mas porque eles continuam insistindo nisso? Porque a estupidez, e esses comportamentos meio amalucados fazem parte da estratégia que é da desmoralização. É uma estratégia de levar ao caos. Eles são profetas do caos. Nesse documentário, esse personagem, Roger Stone, demonstra, com as suas próprias palavras, que não há importância nenhuma em falar mal dele. Ele repete uma frase corriqueira, que na política se diz muito, “falem mal, mas falem de mim”. E o seu comportamento é o tempo inteiro desafiador, ofensivo e com gestos e atitudes bizarras e com o intuito de atingir o oponente/adversário, ou alguém que ele deseja destruir sua reputação. Porque isso também dá muita visibilidade, e, claro, por meio dessas loucuras que são apresentadas, eles terminam, e isso inclui o Trump e o Bolsonaro, conduzindo as informações que viram manchetes. Por meio dessas loucuras deles, os jornais proliferam essas maluquices. Então eles se mantêm no centro das atenções e conseguem atrair aquele público de seguidores que lhes ouvem e lhes seguem cegamente, e vão ao êxtase com essas posturas que fogem por completo ao padrão da política.
Mas tudo isso foi construído e consolidado por meio da utilização dessas plataformas e desses canais: Facebook, instagram, twitter, you tube... Eles descobriram como podiam fazer isso. O que é necessário agora é que essas plataformas sejam utilizadas não para rebater discursos de ódio, porque seguir por esse caminho é fazer exatamente aquilo que eles desejam. E eles vão nos pautar. Não podemos ir por esse discurso de violência. Por exemplo, de que vão armar o povo. Que armar o povo? O povo não tem dinheiro para comprar armas. Ele deseja armar um séquito de gente maluca, da classe média, que o segue com as mesmas atitudes irresponsáveis e violentas. Ou de milicianos, que foram e são bases de apoio desse grupo que chegou ao Palácio do Planalto, ao alguns governos estaduais e ao parlamento brasileiro.
Não é esse o discurso do ódio que devemos focar. Claro, não podemos esquecer o que eles estão dizendo. Isso tem que ser combatido. Mas nas entrelinhas de questões que são muito mais importantes, por meio do debate político sério e responsável. Eles ascenderam ao poder com a desconstrução da política, com a desmoralização da democracia e das instituições. Nós sabemos para que serve o Estado. É claro que o Estado se organiza para servir a classe dominante. É preciso tomar esse Estado e fazer dele um instrumento para atender às camadas sociais oprimidas. Isso não é fácil, nós assistimos nos últimos anos golpes e ataques à um mínimo de estrutura que se criou para amenizar os problemas sociais.
Mas, há um caminho enorme a se percorrer, até atingir esse objetivo. Até lá, nós vamos ter que ir lidando com essas situações de conviver com governos que oscilam entre a centro-esquerda, a centro-direita e o centro. E vamos precisar de ter canais democráticos para nos comunicar, pois é preciso levar ao povo a importância que é a política, a filosofia, a história, a sociologia, a geografia, que são as ciências humanas, e estão sendo atacadas nessa aberração de guerra cultural que está destruindo a educação e o ensino brasileiro.
Claro que isso se dá porque é por essas ciências que adquirimos a capacidade de pensar, de raciocinar e de ter compreensão política da realidade e de ter uma visão crítica das condições em que nós vivemos. E adquirindo consciência crítica ser possível fazer outro tipo de ação política. Por meio de ações comunitárias, de envolvimento da juventude. Caso contrário essa juventude se perde seja para o tráfico, seja para as milícias, ou para um fundamentalismo reacionário evangélico.
Não desejo generalizar, todas as igrejas têm suas nuances, suas diferenças, e evidentemente existe uma parcela de irresponsáveis que usam os cultos para propagar também essas perversões. Incrivelmente em nome de Deus, em nome de Cristo, o que é uma aberração quando se sabe das origens do cristianismo. Existem muitas pessoas sérias nessas igrejas.  Mas essa juventude está sendo contaminada por esse vírus dessa fé malévola fundamentalista, neopentescostal.
Então é preciso fazer com que essa juventude adquira capacidade crítica. Esses canais aos quais tenho me referido, essas plataformas, são usadas em larga escala pela juventude, e na maioria dos casos para assistir coisas fúteis, diversões. Não podemos criticá-los por isso. Nós também gostamos disso. Muitas vezes a maioria de nós se perde assistindo esses programas, afinal, precisamos nos divertir, nós precisamos também disso. Mas precisamos da política, da boa política. Porque se nós não nos envolvermos na política vamos deixando o poder para esses indivíduos que pregam o ódio, intolerância, perversões, destruição do meio-ambiente, destruição da sociedade, dos valores democráticos, e nos impõem dificuldades para atender as necessidades terríveis, e urgentes, para resolver graves problemas causados pelas desigualdades sociais que estão aí e que vão piorar depois dessa pandemia. E esse governo não fez, e não faz nada para resolver os problemas sociais, muito pelo contrário. Um ano e meio – nós temos mais dois anos e meio desse governo – imobilizado, somente fazendo esses espetáculos horríveis de manifestações odiosas.
Então é por isso, para finalizar, que devemos dar visibilidades aos canais progressistas que existem nas redes sociais, daqueles que desejam trazer o Brasil de volta para uma realidade que não seja a dessas perversões que estão aí. Claro que isso somente não basta. A luta deve se dar em diversas frentes, e principalmente em amplas manifestações de ruas, algo que no momento é impossível, diante das dificuldades causadas pela pandemia, e preservar vida nos impõe um distanciamento social.
Mas nessas condições esses mecanismos estão à disposição, e se não usamos para o bem, eles serão usados, como tem sido para pregarem o mal, as perversões de uma política segregacionista, fascista, perversa e absolutamente nefasta para a sociedade, na medida em que atende as necessidades de uma minoria reacionária, que se aproveitou de brechas no sistema democrático para inserir vírus que corroem as relações sociais, dissemina o ódio e entroniza a violência como condutora da política. O que significa a destruição da política.
“Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse são personagens descritos na terceira visão profética do Apóstolo João no livro bíblico de Revelação ou Apocalipse. Os quatro cavaleiros do apocalipse são respectivamente peste, guerra, fome e morte, que para os cristãos irão acontecer antes do fim de todas as coisas”. Esse é um trecho copiado da Wikipédia, no verbete destacado. Esses personagens, fictícios, se tornam imagináveis quando olhamos para a família que ocupa a sede central do Poder brasileiro. Não porque eles sejam a representação desses cavaleiros, mas porque eles se julgam exatamente isso, e são incensados por uma malta de fiéis alienados que apregoam o “fim dos tempos”, e para isso precisam naturalizar esses elementos que representam, e como na estratégia identificada e citada anteriormente, desejam destruir essa sociedade para reconstruí-la no formato que desenham suas mentes doentias.
Enfim, eu poderia terminar dizendo que estamos combatendo forças malignas, mas o que são, em verdade, se explica quando analisamos o Poder e os interesses que estão por trás dos objetivos para alcançá-los. São na verdade farsantes, fraudes, como todos aqueles que se apresentam como profetas e se deslumbram em serem chamados de mitos. No entanto não podem ser menosprezados, pois sabemos o que fazem e o que querem, e não têm limites éticos e morais para atingir seus objetivos, assim como todos que lhes dão suporte em seus atos irresponsáveis e inconsequentes.
Mas é preciso se levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima. E aí, poder dizer como na música de Geraldo Vandré, que será “a volta do cipó de aroeira, no lombo de quem mandou dar”. E ao longe, é possível ver a luz da utopia. É preciso ir em frente, em sua direção. Sempre.
(*) ASSISTA NO YOU TUBE: COMO COMBATER OS PROFETAS DO CAOS E A ESTRATÉGIA DA DESTRUIÇÃO DE BOLSONARO E CIA - https://www.youtube.com/watch?v=Ele_LvYiGlc




NOTAS:
[1] The Weekly S01E09: A Toca do Coelho (The Rabbit Hole)  -https://www.youtube.com/watch?v=b3J7r1H4SYo&feature=youtu.be
[2] Privacidade Hackeada - Entenda como a empresa de análise de dados Cambridge Analytica se tornou o símbolo do lado sombrio das redes sociais após a eleição presidencial de 2016 nos EUA - https://www.netflix.com/br/title/80117542
[3] Get Me Roger Stone - Observe a ascensão, queda e renascimento do operador político Roger Stone, um player influente da Equipe de Trump há décadas - https://www.netflix.com/br/title/80114666

sábado, 26 de janeiro de 2019

TEMPOS INSIDIOSOS – COMO COMBATER OS VÍRUS QUE CORROEM CÉREBROS.

Retomo a minha verve. Gosto de escrever, criei esse blog para isso, em meio às circunstâncias que me jogaram em depressão com a morte de minha filha. De lá para cá, e já se vão quase dez anos (o blog foi criado em 2010), fui gradativamente substituindo os textos de caráter mais intimistas, uma maneira que encontrei de extravasar minhas emoções, por análises geopolíticas gerais e aqui do Brasil. Já que essa é uma condição do meu trabalho como professor de geopolítica na Universidade Federal de Goiás. Mantenho em alguns deles, como este que inicio aqui, um tom bem pessoal como se fora mais do que um artigo analítico. Assim, identifico-os como crônicas de um cotidiano no qual estou envolvido, mas que vejo pelo olhar crítico de um especialista e estudioso dessa área. Mais do que isso, de um historiador e doutor em Geografia, especializado nesse campo do conhecimento que aborda as relações internacionais e as questões políticas locais e para além-fronteira. Mas que abrange também as formas de funcionamento das sociedades e suas relações, a nossa especialmente, muito embora isso esteja mais restrito a sociólogos e antropólogos. Compreendo, mesmo assim, que há cada vez mais elementos da geopolítica em nosso cotidiano, já que a sociedade capitalista ao mesmo tempo em que centraliza, pulveriza o poder. Uma contradição, naturalmente mais uma de tantas que marcam esse sistema controverso, embora vitorioso até aqui diante de outros já tentados.
Quero neste ano poder publicar mais crônicas. Um problema, no entanto, me manteve em um breve silêncio dos últimos meses do ano passado para este começo de ano: As redes sociais. Em especial o Facebook, já que o whats app cumpre mais o papel de distribuir as informações, em sua maior parte falsas ou distorcidas, se encarregaram de conceber a cada indivíduo uma espécie de dom do conhecimento geral e genérico. Apesar disso ser algo que pode identificar uma ampliação da democracia, com a liberdade de cada um poder se manifestar e opinar livremente, numa sociedade desigual do ponto de vista do conhecimento, ou onde uma classe média e ricos se julgam superiores não pelo que sabem, mas pelo que possuem, a ignorância e estupidez assumem uma relevância estonteante e dificulta uma compreensão da verdade e da realidade.
Não se pode conhecer a realidade sem que se tenha uma capacidade de discernimento sobre as dimensões do Poder e dos poderes. O Poder com “P” maiúsculo, na identificação do que envolve as questões de Estado, das grandes governanças globais e das empresas multinacionais, enormes corporações que comandam a economia e as finanças mundiais. Ao não terem a dimensão disso e ficarem submetidos à informações ideológicas, apresentadas como anti-ideologia, feita por políticos obtusos e sem formação intelectual, demagogos, conservadores e oportunistas, bem como por dogmas difundidos por indivíduos mal-intencionados, incorrem-se em terríveis equívocos e passa-se a disseminar discursos toscos, racistas, xenófobos e intolerantes em relação às escolhas individuais, seja no tocante à sexualidade, à liberdade de crença e de não-crença em divindades, e, principalmente a não aceitação do empoderamento das mulheres. O conservadorismo assume, assim, pelo caminho da ignorância e da estupidez uma direção que nos levará ao abismo.
Igrejas espalham-se celeremente, pelas periferias e até mesmo bairros nobres, aproveitam-se do desespero, angústia e, principalmente, dos medos que povoam nossas vidas numa sociedade violenta e desigual. Não pregam o fim das desigualdades. Fazem do medo um instrumento de dominação, de mentes e de corpos. Não usam da solidariedade como forma de construir uma sociedade mais altruísta, ao contrário, estimulam frases ditas há milênios, como se as mesmas se adequassem a todas as formas de sociedades por todos os tempos, acentuando a intolerância e o desrespeito quanto às diferenças. Nos últimos anos, com a ampliação de uma crise econômica mundial, a que mais tem sido representada pelos discursos políticos e vieses conservadores que saem dos púlpitos e tomam conta das bravatas políticas tem sido “olho por olho, dente por dente”, além do crescente sentimento xenófobo, de um nacionalismo pérfido e intolerante. Naturalmente, este é o caminho da barbárie.
Nos deparamos em verdade, com um tempo em que disseminam-se informações curtas e superficiais por um lado, e, por outro lado, em função de todo um processo de desconstrução das ideias que se firmaram na primeira década do século e que levaram a esquerda ao poder, surgiram alguns arautos da inconformidade, do caos, resgatando discursos medievais, fomentando o medo e disseminando perversões em nome de deus e do resgate do sentido tradicional de família. Me fez lembrar da malfadada TFP (Tradição Família e Propriedade), que nos anos sessenta e setenta desfilava suas loucuras pelas ruas com estandartes em que pregavam a salvação pelos céus e abominavam o comunismo. Eram os tempos da guerra fria e vivíamos sob o domínio de uma ditadura militar. Não é uma repetição da história, mas até isso já se pode ver novamente pelas ruas. Loucura, estupidez, burrice, intolerância, ódio e um absoluto esvaziamento dos cérebros por meio de repetição de frases bíblicas, de anacronismo, e de força de um neopentecostalismo que nos faz lembrar de um dos momentos que se conta da história de Jesus Cristo, em que ele tomado por uma fúria surpreendente, expulsa do templo os “vendilhões”, aqueles que faziam nesse ambiente um espaço de perversão, usura e negócios que extrapolavam o que se pregava da fé cristã.
Dentre as aberrações que se diz nos dias de hoje, e que se tornou um mantra repetido ad nausean, tem sido “desideologizar” “sem viés ideológico”. Os que acreditam haver nessas viradas políticas que o país passa, com a eleição inusitada de um parlamentar inexpressivo, do “baixo-clero” e de postura obtusa, uma realidade onde a ideologia desaparecerá, só confirmam a incapacidade de reconhecer como funcionam as coisas nas sociedades capitalistas. Mas não somente nessas, como em qualquer outra já construída pelo ser humano. Ideologia é o elemento que as move, e nada mais é do que o conjunto de ideias que determinam as formas como se dão as relações sociais. Pode haver uma ou mais ideologias dominantes, bem como outras que são expressas por grupos que não estão vinculados às classes dominantes, sejam economicamente ou politicamente. Assim, é impossível haver qualquer forma de governo, ou qualquer tipo de sociedade, que não seja organizada a partir de ideologias. Elas se apresentam na forma de religião, na constituição de organizações políticas e sociais, em agrupamentos que se opõem ao establishment e defendem o fim do estado e de todas as formas de dominação, estão nas igrejas e em todas as formas filosóficas que representam hábitos e estilos de viver e de contemplar a realidade e o que pode existir para além dela. Ideologia faz parte de nossas vidas, não há como viver sem uma. Acreditar que um governo comandará um estado “sem viés ideológico” só exprime total ignorância e desconhecimento da própria realidade em que se vive.
Assim, diante de um comportamento completamente avesso ao conhecimento científico por parte daqueles que assumiram o poder nesse contexto caótico em que nosso país foi metido, pelas “fake news” e pela estratégia goelbesiana adotada pela grande mídia, torna-se difícil tentar racionalizar um debate. O próprio debate já inexiste, substituído por ironias, zombarias, ridicularização, menosprezo, escárnio etc. Desse ambiente, gestado nos últimos cinco anos aqui no Brasil, mas adredemente construído há, pelo menos, uma década desde que os EUA deu uma guinada na escolha de seu presidente, elegendo um negro de viés liberal. Que pela sua postura era visto naquele país como um esquerdista, além da sua própria cor incomodar uma elite branca perversamente intolerante com a diversidade étnica.
A partir daí, e em um ambiente de uma grave crise econômica, a política deixou de ser aquele elemento que serve para aplacar as crises, e passou ela própria a fabricar crises, ao sabor de interesses conservadores, de ideologias reacionárias no combate aos comportamentos libertários e de ampliação do poder das igrejas neopentecostais, cada vez mais envolvidas na disputa do Poder político e na disseminação de frases bíblicas visando desconstruir as mudanças de comportamentos celeremente em curso e representativas de uma época de forte mudança e de transição. A política foi derrotada, e em meio a essa onda nefasta de estupidez, tem levado junto a democracia. As duas perderam validade e confiança. No choque desses elementos, envolvendo a força dos avanços dos direitos sociais com os freios conservadores e o viés religioso e dogmático que se ampliaram em meio ao medo gerado pela crise e alimentado pelos púlpitos e pela mídia, abriu-se um enorme abismo que se amplia indiferente à possibilidade disso se transformar em um enorme caos. É o tempo da cegueira que se conta pelas páginas bem descritas de José Saramago. Impossível saber onde vamos parar, já que fica cada vez mais impossível enxergar saídas e alternativas para esses dilemas.
Do lado de cá, preparado para brandir como arma uma ideologia que preze pela solidariedade, pela comum união e pelo respeito à diversidade, sigo enxergando ao longe a utopia. E ela me ajuda a seguir em frente, embora a vejo cada vez mais distante à medida que me afasto dos tempos em que meu corpo me garantia mais energia e força para lutar por aquilo que acredito. No momento insisto em escrever, torcendo para que as novas gerações consigam chegar ao fim do último parágrafo, nessa época de informações parciais, curtas e abstratas. A minha geração fez o que pôde, acreditou que era real o que ainda era utopia, e cabe aos mais novos construir com solidez outros caminhos, que levem na mesma direção do que acreditávamos ser a construção de uma sociedade mais justa, solidária e menos desigual.


domingo, 25 de novembro de 2018

A ONDA – OS DEMÔNIOS QUEREM NOS AMORDAÇAR


“Imagine there's no countries
It isn't hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people
Living life in peace”1
(John Lennon)
Filme "A Onda" - Alemanha, 2009
Experimentamos nos últimos tempos importantes transformações sociais. Apesar de todas as intempéries ocorridas em todo o mundo por intensos conflitos, guerras e crises financeiras, avançamos no tocante a direitos fundamentais em nossas condições humanas, e tudo isso registrado por leis e tratados internacionais. Nessas duas décadas do século XXI muitas conquistas sociais se tornaram realidade. Se não foram suficientes para acabar com as desigualdades e injustiças, o que é pedir demais dentro de uma lógica sistêmica que não pode prescindir disso, pelo menos garantiram um mínimo de proteção a segmentos marginalizados e a setores muito visados por se manifestarem cada vez mais ostensivamente por seus direitos, e pela garantia de poderem ser o que desejarem.
Mas porque entramos numa onda regressiva e a intolerância e ódio se disseminaram acentuadamente? Não é difícil entender isso, apesar do elevado grau de alienação em boa parte das pessoas. Podemos começar tentando entender como as questões econômicas definem as escolhas da população. É inegável que as sociedades capitalistas são condicionadas pelo elemento “economia”. Por isso a estabilidade política mantém as pessoas passivas, principalmente se os resultados apontam para empregos garantidos, possibilidades de consumo, créditos disponíveis e melhoria das suas condições de vida. O inverso disso, a instabilidade econômica, torna mais difícil a qualquer governo se manter incólume e a sociedade, inquieta e insatisfeita, segue em qualquer direção que possa servir de alento para retomar suas capacidades numa lógica que é comandada por um sistema que não permite a quem não tenha recursos financeiros se inserir como cidadão num ambiente que é por essência consumista. 
Num país de desigualdades crônicas, qualquer política econômica que resulte em mais do que equilibrar a economia, inserir um número considerável de famílias nos patamares superiores ao que elas se encontravam, gera um frenesi positivo e cria expectativas de que tais melhorias seguirão indefinidamente. Principalmente se nesse processo for garantido créditos que acentuem o consumo e possibilitem melhorias na qualidade de vida. É claro que a concessão de créditos implica necessariamente em acúmulos de débitos, que se sucedem na medida em que a expectativa seja positiva face ao futuro. Trocando em miúdos, para as classes médias e baixa isso quer dizer: endividamento.
Agora, imaginar que exista uma base eleitoral simplesmente porque políticas econômicas estão garantindo melhorias financeiras e elevando pessoas para a classe média, é um grande equívoco. Se não houver uma manutenção dessas condições econômicas essas pessoas se voltarão com força contra os que controlam o governo, já que imaginam que suas conquistas se devem ao poder de um Deus e que os seus fracassos diante de um desequilíbrio fiscal do Estado e a impossibilidade de garantir as mesmas políticas que os fizeram ascender socialmente, são jogados nas costas dos governantes. A segunda premissa é verdadeira e é inevitável que isso aconteça, já que as crises econômicas, cíclicas, a cada vez encurta o tempo em que aparecem.
Esse comportamento, inicialmente por meio de insatisfações contidas, tornam-se revoltas latentes quando são estimuladas por opositores, ou quando interessa estrategicamente a algumas forças externas vinculadas a governos ou corporações, desestabilizar politicamente um país e envolver multidões em atos que leve a reações violentas. Isso tem ocorrido com frequência na última década, e tem um nome: “guerra híbrida”.
No entanto, nem mesmo o discurso anticorrupção é suficiente para abalar o otimismo das pessoas em um ambiente onde a economia esteja equilibrada e as projeções são positivas. Aí, os problemas existentes, são congelados, como se não existissem, mas existem e cabe a quem tem o poder ter a capacidade de compreender isso buscar corrigi-los, antes que o caldo entorne.
Vejamos, por exemplo, o que ocorreu aqui no Brasil durante as investigações do escândalo denominado de “Mensalão”, também fruto de esquemas vinculados a desvios de recursos públicos para cumprir compromissos de Caixa 2 e assegurar apoio parlamentares aos partidos da base de sustentação do governo, ainda na primeira gestão do presidente Lula. O governo se manteve forte e a reeleição foi garantida.
Mas essa linha, entre apoio a um governo por conta de suas situações econômicas e a revolta com o mesmo, é muito tênue. Se desfaz rapidamente. Então é preciso que os que estão no governo pensem estrategicamente. Primeiro na inevitabilidade das crises e como prevenir-se diante da eminência de que elas ocorrerão. Segundo criando as condições para que essa massa de pessoas tenham a compreensão de como a realidade funciona e dos interesses escusos que muitas vezes levam governos à bancarrota em meio a disputas ferrenhas pelo poder.
Não é tarefa simples. Principalmente nos dias atuais, em que as notícias se proliferam pelas redes sociais, sem que necessariamente relatem fatos que tenham efetivamente acontecidos, ou que sejam verdades devidamente comprovadas ou comprováveis. Some-se a isso uma massa que segue como gado o discurso e as pregações vociferadas a partir dos púlpitos no estilo tradicional de especialistas em lidar com o medo das pessoas e controlá-los mediante a exposição de frases milenares e de vingança divina a uma possível traição aos valores religiosos. Constrói-se, pelo medo, o ódio a quem porventura se constituir em liderança e porta-voz de um povo, e que ouse ameaçar substituir sua divindade pela fidelidade a um mortal. A materialização das crenças de um povo, por meio da identificação de personagens reais, constitui-se em um perigo para dogmas que sobrevivem milenarmente e para os que se empoderam a partir disso e enriquecem às custas do medo e da ignorância popular. Ironicamente, foi assim que aconteceu com o criador do cristianismo. Deuses, existiam muitos, no imaginário que percorria o Império Romano, mas bastou aparecer alguém que diziam ser filho de um deus, e sua existência material provocar revoltas aos valores existentes a partir de pregações vistas como subversivas, e isso fez com que o grande Poder se manifestasse e procurasse eliminá-lo. E isso foi feito, tragicamente com apoio popular, que o trocou por um marginal.
Mas por aqui, uma conjunção de fatores contribuíram para reverter a situação que até 2015 era favorável à esquerda. Alie-se a essas questões os erros cometidos na condução dos governos Lula e Dilma, ao negligenciarem bandeiras agora tidas como moralistas, mas que foram carros chefes em outros momentos da história política do Brasil, como na luta para destituir um presidente identificado como corrupto na década de 1990, Fernando Collor de Mello.
Ao seguir um modelo corruptível, base da estrutura política brasileira, mas não só aqui, como de todas as democracias capitalistas embora com gradações diferentes e até mesmo com mecanismos legalizados de compra de parlamentares (como os lobbies autorizados nos EUA), os governos de esquerdas se viram vítimas de um discurso que foi se tornando eficaz, na medida em que passou a atingir muito mais do que pecadores, mas principalmente os pregadores. Aquelas vozes que foram marcantes na denúncia das corrupções no Estado e na identificação de personagens pérfidos por essa política, como Paulo Maluf , em São Paulo, e Antonio Carlos Magalhães, na Bahia, entre tantos outros, naturalizaram um mecanismo perverso da política brasileira: o Caixa 2 das campanhas políticas.
A esquerda, no poder, tornou-se assim, parecida com a direita, tanto no período militar quanto na redemocratização, até a virada do século XX no tocante à malversação dos recursos públicos, não importa se para manter um projeto de poder político visando atacar as desigualdades sociais. Os fins não podem justificar os meios, se estes forem pérfidos. E isso nos faz lembrar de uma frase marcante da política brasileira: “Nada mais parecido com um Saquarema do que um Luzia no poder”. Denominação dada aos políticos conservadores e liberais no Império, durante o segundo reinado da monarquia brasileira.2 Esses dois segmentos se revezavam no poder político, mas mantinham políticas parecidas no tocante ao uso do poder para a manutenção de privilégios. Isso não é uma comparação, mas a constatação que a esquerda não aprendeu com a nossa história, e foi incapaz de identificar uma onda que vinha de outras partes do mundo e poria abaixo essa forma de governar.
Sub-repticiamente, semelhante a uma serpente na maneira silenciosa de se mover e preparar o ataque, e pouco a pouco tendo se preparado para se colocar em condição de confrontar as ideias transformadoras de realidades sociais por séculos conservadoras, um movimento evangélico reacionário, neopentescostal, fundamentado na teologia da prosperidade e no “design inteligente”, pelo qual se tenta explicar cientificamente a teoria da criação, assumiu o discurso da política e ungiu o seu eleito para colocá-lo como porta-voz das ideias mais retrógradas desse movimento. O objetivo é disseminar esse poder difundido pelos púlpitos, fundamentado no medo, e no conservadorismo dos costumes. Diante da crise e da desesperança construída no meio do povo, o ataque foi frontal e certeiro nos valores progressistas que se disseminaram na sociedade, principalmente entre os mais jovens, na maneira de lidar com as políticas sociais, com os direitos humanos e as liberdades individuais e coletivas.
O ungido era porta-voz também de um discurso virulento, intolerante e claramente adepto da estrutura ditatorial militar que vigorou no Brasil nos anos 1960 e 1970, os 21 anos de trevas que se abateu sobre o país. Defensor de torturas e tendo como heróis torturadores julgados e condenados, e da militarização da política e da sociedade. Seu discurso se conjugou com o medo imposto às pessoas pelas pregações de púlpitos e dos programas religiosos nas mídias e foi atrelado ao medo da violência, esse bem real, consequência do desequilíbrio social, do desemprego em alta escala e da desesperança da juventude. A criminalidade crescente e o uso disso por “abutres” do jornalismo sensacionalista, fez com que gradualmente fosse tomando conta das mentes das pessoas o perfil de um presidente que pudesse acolher novas expectativas, desta feita geradas não pela esperança de um futuro radioso, mas pelo pessimismo de uma realidade perversa potencializada pela perversão do discurso.
A história nos mostra que movimentos políticos ou sociais que transformam-se em ondas, tendem a consolidar-se de forma tirânica, seja como ditaduras, teocracias, totalitarismos, absolutismos ou arremedos de democracias. Não importa o formato, se houver o apoio da maioria da sociedade e que esta assimile o discurso imposto por impostores, com perdão da redundância, as dificuldades para retomar um curso mais racional e progressista se tornam enormes e demandam tempo. E o que se vê, mais do que as questões que envolvem as políticas de Estado, do grande Poder, por assim dizer refletindo os estudos de Michel Foucault3 bem explicado pelo geógrafo francês Claude Raffestin4, é um ataque às liberdades individuais que vieram se consolidando desde o final do século XX.
Desta feita, o movimento em curso pretende portanto, mais do que o Poder, assim, com P maiúsculo, pois que se refere ao Estado. Se organiza para tentar impor barreiras aos avanços culturais da sociedade e a disseminação de valores que confrontem dogmas caros a segmentos religiosos e a igrejas que veem na ampliação de seus séquitos a condição para o enriquecimento crescente de seus líderes. Miram também nos pequenos poderes, nas relações familiares, na verdadeira doutrinação como é feita nas igrejas e que se desejam fazer nas escolas públicas.
Entendo que o movimento “Escola sem Partido”, uma aberração que tenta impor mordaças a professores/as de escolas e universidades, tem por objetivo impedir as liberdades individuais e o que eles denominam de “liberalismo nos comportamentos”, que são vistos como pecaminosos e desvirtuadores de princípios basilares do cristianismo. Não é um movimento restrito ao Brasil, embora com algumas nuances características da nossa cultura e da importação de um evangelismo que se mescla com interesses empresariais na condução da religião, tem muita semelhança com o que foi construído nos EUA nas últimas décadas, mais especificamente desde a primeira eleição de Barack Obama. Com o tempo, e seguindo-se essa estratégia que vemos ser aplicada hoje no Brasil, culminou na eleição de um presidente com as características de um personagem de uma ópera bufa e um discurso antipolítica, escorado nos valores conservadores do fundamentalismo religioso evangélico daquele país.
Mas não é somente um movimento contra esse liberalismo comportamental. Ele visa também conter o avanço das ciências na direção cada vez mais certeira de indicar as razões pelas quais existimos, e a indicação de que quase tudo teorizado por Charles Darwin no século XIX, tem sido gradativamente comprovado, e até mesmo ido mais além, através da investigação científica. Quanto mais a ciência avança, mais se coloca em xeque dogmas tradicionais que representam a base dessas religiões. Por esta razão surgiu para fazer o debate com o evolucionismo, o “design inteligente”, ou a tentativa de provar cientificamente o mito da criação do mundo. E a partir daí se estruturou fortemente, primeiro nos EUA, e de lá se espalhou para outras regiões, principalmente América Latina e Brasil, um fundamentalismo religioso, fortemente militante, que se estrutura por aqui a partir do Conselho Interdenominacional de Ministros Evangélicos do Brasil (CIMEB), que tem como vice-presidente o ultra-conservador e pastor Silas Malafaia, um dos que mais tem se envolvido nos últimos anos nas eleições brasileiras, desde as municipais até a presidencial, reforçando a cada processo eleitoral bancadas evangélicas que tentam impor por meio de projetos de leis valores cristãos, à revelia da condição de estado laico estabelecido pela Constituição Brasileira. Embora essa laicidade seja, de fato, questionável, pela influência que até aqui foi exercida pela igreja Católica, outro ramo do cristianismo. Isso explica o excesso de feriados religiosos santificados que existem no Brasil.
Mais do que tentar impor discussões sobre gêneros, o que esse segmento religioso fundamentalista deseja é manter seus dogmas intocáveis, tentar controlar o conhecimento científico a partir desse movimento tentando influenciar nas destinações de verbas para pesquisas, tendo como foco, principalmente, as áreas de humanas, vistos por eles como ambientes permissivos controlados por marxistas.
Assim, nos deparamos com dois movimentos em meio a uma estratégia clara de Poder. O controle do Estado, etapa vencida com as eleições, que passará a sofrer transformações para adequar políticas sociais e culturais a esses objetivos conservadores fundamentalistas religiosos; e o embate com a academia, na tentativa de impor pelo silêncio e o amordaçamento de intelectuais e professores, seus fundamentos religiosos como elementos explicativos de nossa existência no mundo e a escravidão e dependência que devemos ter ao seu deus, como se esse fosse único, em meio a tantas diversidades espalhadas por todos os continentes e aqui no Brasil. Essa última etapa visa também impor restrições à atuação dos professores do ensino fundamental e médio.
É absolutamente equivocada a afirmação que o ensino brasileiro se baseia em ideologias marxistas. Profundamente falso, já que majoritariamente os professores não são de esquerda e sequer marxista, com uma diminuta, ínfima, exceção. Que se concentram nas áreas de humanas porque Marx e Engels, assim como Comte, são referências acadêmicas nas Ciências Sociais, e não necessariamente militantes. E o fato de terem seus textos citados não tornam os professores automaticamente socialistas ou positivistas. Mas por trás de toda essa algazarra que se faz, e nitidamente com objetivos ideológicos, está a gradativa intenção de retirar do Estado esse caráter laico, e impor ensinos, valores e culturas baseadas no cristianismo, em especial nesse mais tosco, que tem como base a intolerância, a estupidez, o ódio e reflete todo o caráter reacionário construído a partir dos púlpitos de igrejas de linhagens protestantes, ultraconservadoras dos Estados Unidos. Esse fenômeno foi relatado em um livro, sintomaticamente pouco divulgado, denominado “Os demônios descem do Norte”.5 Publicado no final da década de 1980, já analisava todo esse movimento que transformou a política naquele país, e que se espalhou por tantos outros lugares, objetivando impor valores conservadores às sociedades e consolidar o domínio dos poderes capitalistas.
Como se vê, e parafraseando a velha frase shakeasperiana, “há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar a nossa vâ filosofia”. Teremos tempos conturbados, e acredito ser pior do que aqueles pelos quais minha geração passou. Já experimentamos um modelo de governo ditatorial, de imposição de valores, cerceamento de nossas liberdades e censura sobre o que se podia noticiar e ensinar nas escolas. E foi um tempo de perseguições políticas, prisões, torturas e mortes, por quem divergia politicamente do governo militar. Um tempo em que as pessoas eram “suicidadas” e morriam assassinadas com laudos de latrocínio, embora as causas fossem a militância política, e os cartazes de terroristas, ladrões e estupradores eram espalhados pelas cidades adjetivando principalmente jovens militantes da oposição. Os dias de hoje nos jogam num cenário tão pérfido quanto aquele, que se acentua em função das ferramentas tecnológicas, das fake news, que podem transformar alguém em criminoso e justificar ações beligerantes, pelo que se fala, até mesmo com o uso de “snipers”. Hipocritamente, “em nome de Deus”.
A verdade só é crível se pudermos investigá-la. Mas nesses tempos o que se deseja não é a verdade, é a manipulação, a alienação, a disseminação de valores inspirados em uma única crença. E a excrescência do “escola sem partido” representa exatamente a tentativa de ideologizar o conhecimento na direção de um pensamento único, é o oposto de tudo que diz querer acabar. Intimidar os professores, tentar nos silenciar, amordaçar-nos impedindo nossa liberdade de cátedra, impedir avanços da ciência, somar-se-á à tentativa de eliminar a laicidade do Estado e impor uma espécie de “sharia” cristã, por meio da qual o comportamento e a cultura seriam controlados. Às mentes iluminadas cabe resistir ao obscurantismo, naturalmente, afinal, como dizia Vinicius de Morais, “a liberdade é a essência do ser humano”.
“E pur si muove!”6
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1 https://www.youtube.com/watch?v=D2yeUGpRfVs
2 https://alunosonline.uol.com.br/historia-do-brasil/saquaremas-luzias-os-partidos-imperio.html
3 FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. São Paulo: Graal Editora, 2008.
4 RAFFESTIN, Claude. Por uma geografia do poder. São Paulo: Editora Ática, 1993.
5 LIMA, Delcio Monteiro de. Os demônios descem do Norte. Rio de Janeiro: Francisco Alves editora, 1987.
6 Frase que teria sido pronunciada por Galileu, logo após o final de seu julgamento à “Santa Inquisição”. Seu crime: ter dito que a terra girava em si mesma e em torno do sol. Embora absolutamente correto, ele foi obrigado a se retratar. “Ainda assim, ele foi condenado e obrigado a permanecer em prisão domiciliar pelo resto de sua vida. Conta-se que após o veredicto, Galileu proferiu a seguinte frase: ‘eppur se muove’ – e, no entanto, ela se move”. (https://brasilescola.uol.com.br/fisica/galileu-ciencia-santa-inquisicao.htm)