domingo, 15 de outubro de 2017

REFLEXÕES SOBRE O NOSSO TEMPO E O COMPORTAMENTO HUMANO

Fiquei um tempo afastado das postagens no Blog, em função de duas seleções de textos que estive fazendo, com o objetivo de lançar dois livros com artigos aqui já publicados. Mas nesse período não deixei de estar atento às polêmicas e situações políticas que afetam o nosso cotidiano. Expressei em alguns momentos nas redes sociais algumas opiniões, embora bem pontuais, sobre polêmicas que se disseminaram rapidamente. Situações tornadas mais complexas em função da condição em que estamos vivendo, com uma radicalidade política que tem feito explodir comportamentos estúpidos e intolerantes. Contudo, as questões nas quais me senti estimulado a comentar, tem a ver com o objetivo que me propus a voltar às crônicas neste blog.
Como historiador que analisa as sociedades com base na dialética percebo que estamos vivendo uma crise estrutural, sistêmica, consequência do choque de contradições na forma de funcionamento das relações de produção capitalistas. Em outros tempos, em outras formações sociais, situações parecidas também aconteceram, levando a transições longas e dolorosas, porque são situações que intensificam como num efeito dominó, diversas outras crises por todos os setores da sociedade. Inclusive no crescimento da violência, da intolerância, do individualismo, do messianismo e dos atos e gestos tresloucados, individuais ou coletivos. A grande diferença, comparando-se com outros momentos da história, é a rapidez com que os acontecimentos chegam ao nosso conhecimento, gerando medo e histeria coletiva numa intensidade muito maior. Além de existirem atualmente mecanismos de comunicação que dão vozes a qualquer um, disseminando crenças, boatos e ampliando a dimensão dos fatos a níveis bem maiores do que os normais. Ou do que se poderia considerar normais em determinadas circunstâncias. É o que vem sendo chamado de "pós-verdade". O que nos assusta, para além dos medos que nos agrilhoam, é saber que noutros tempos as sociedades só conseguiram sair dessas mesmas crises por meio de grandes guerras. Para confirmar meu olhar dialético, concluo com uma frase atribuída a Karl Marx, por Vladimir Saflatle (não consegui encontrar a fonte, por isso atribuo a este): "A situação desesperadora da época na qual vivo me enche de esperanças". (http://www.ihu.unisinos.br/540154-enfim-o-desespero).
Atenção! Tudo é perigoso.
Acompanhei também, equidistane, a polêmica em torno do “homem nu no museu”, e a reação conservadora eivada de intolerância que se seguiu. Considero uma aberração estabelecer censuras a museus.  Nos leva de volta para o passado, em tempos nos quais as liberdades individuais foram sumariamente suprimidas. A diversidade que se apresenta nos museus e teatros refletem as diferenças que existem em nossa sociedade. Não é segredo, não pode ser escondida. Aliás, as camadas pobres já não são estimuladas a frequentarem e ver um mundo diferente daqueles que eles habitualmente vêem e vivem, sejam em museus ou em teatros. Portanto, manifesto apoio a toda e qualquer forma de luta contra mais esse ataque retrógrado às liberdades.
No entanto eu também tenho minha opinião, e o que desejo é exatamente essa liberdade de expressá-la. Corpo nu, não é arte pra mim, nem em museu nem nas páginas da playboy ou outras revistas do gênero, seja masculina, feminina ou LGBT. É simplesmente um corpo nu, objeto de curiosidades e desejos numa sociedade em que o hábito é andar com alguma roupa. Isso é tão estranho quanto o fato de não poder andar de biquinis ou sungas pelas ruas, mas poder usar e ser visto/a assim nas praias. Tudo questão cultural. De liberdades outras que se permitem em campos de nudismo, mesmo que com regras. As performances feitas com corpo nu podem ser feitas com roupas íntimas, de ceroulas, saias, bermudas ou de qualquer jeito. A arte está nas performances. Mas essa é a minha opinião. Por isso eu quero ter a liberdade de poder analisar e opinar, de ver ou de não querer ver. Impor censura nos leva a práticas ditatoriais e totalitárias. É precedente perigosíssimo, como tantos outros estão acontecendo. É melhor nos ligarmos no grito contido na música de Caetano: "Atenção: Tudo é perigoso. Tudo é divino maravilhoso. Atenção para o refrão. É preciso estar atento e forte..."
(https://www.letras.mus.br/caetano-veloso/44718/)

MENTES ESCRAVIZADAS E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Para além dessas polêmicas, tenho me batido também contra um vício, que para nós professores, tem sido um golpe mortal na possibilidade de conseguirmos chegar ao final de uma aula com o prazer de ter cumprido o nosso papel, podendo receber como feed back uma demonstração de interesse por mergulhar em busca e transmissão do conhecimento. Refiro-me à dependência tecnológica que tem afetado a juventude, mas não somente esta, como também às pessoas de uma maneira geral.
E, quando nós professores, perdemos um bom tempo de nossas aulas, ralhando com alunos e alunas, insistentemente, para que não usem seus smart-fones em sala de aulas, significa que chegamos a um ponto de difícil retorno à nossa condição humana.
No livro, “Eu Robô”, escrito em meados do século XX, Isaac Asimov cria, em ficção, diversas situações que demonstram os avanços da robótica e o desenvolvimento, até mesmo no campo da inteligência, de máquinas que substituiriam os humanos. No clássico “Blade Runner”, de Philip K. Dick (1968), os humanos são substituídos por androides, chamados replicantes, que gradativamente também vão adquirindo inteligência, sensibilidade e a capacidade de sentir prazer. Para completar os clássicos, também Stanley Kubrick avançou nessa direção, praticamente afirmando a possibilidade de robôs/andróides serem capazes de desenvolverem suas inteligências, a partir de protótipos criados por corporações. Todos esses livros ou roteiros foram transpostos com sucesso para o cinema, este último amplificado por Steven Spielberg (A. I. 2001). A Inteligência Artificial, elemento presente em todas essas obras de ficção, hoje já ultrapassa essa condição, e se torna algo objetivamente real, com o desenvolvimento dessa capacidade em computadores e já também em robôs.
Mas o que tem isso a ver com a minha decepção em relação ao uso desmedido de smart-fones, inclusive em horário de aula? Porque isso demonstra que, gradativamente, e de forma mais acentuada com as mais novas gerações, o cérebro vai aos poucos tendo partes descartadas por falta de uso, já que não somente isso é um objeto de distração, como vai sendo substituído pouco a pouco pela “inteligência” artificial. E propositadamente coloco a expressão entre aspas, porque não se trata, enfim de inteligência que possa adquirir capacidade crítica, na medida em que cada vez mais o uso desses aparelhos desvia a atenção da juventude, anestesia sua capacidade de reflexão de forma mais aprofundada, retira-os implacavelmente do mundo real e contribui para a disseminação de atos de estupidez e intolerância, na medida em que o poder de discernimento vai, pouco a pouco, perdendo-se em meio a uma infinidade de informações mal processadas e não verificadas em suas autenticidades. Com as devidas e raras exceções.
Claro, os aparelhos são os transmissores, os equipamentos que permitem a determinados programas cumprir esses objetivos. As redes sociais disseminam-se celeremente, afetam rapidamente a rotina e o cotidiano das pessoas. Parecemos cada vez mais com zumbis, inclusive em plenas vias urbanas e até mesmo no trânsito, absolutamente distraídos em relação ao mundo real que nos cerca, e completamente absortos em um mundo virtual, distante e desatento do nosso lócus.
O uso excessivo de smart-fones já se constitui em um vício. Algo devidamente diagnosticado como uma patologia, inclusive com tipos de tratamentos semelhantes àquelas pessoas viciadas em drogas fortes. Naturalmente, como tantos outros vícios, as pessoas não tem essa percepção. Informam-se, divertem-se, trabalham, leem, estudam, e dessa forma encontram sempre uma justificativa para o uso exagerado desses aparelhos. Ora, muitos fazem tudo isso. Confesso que também eu. Mas devemos ter a capacidade de saber dos nossos limites, ou até onde podemos sucumbir às máquinas. Algo que aliás, o geógrafo Milton Santos, morto em 2001, já alertava para esse caminho que a humanidade estava seguindo, em que estávamos sendo dominados pelas máquinas, ou pelos objetos.
Acredito que o limite disso tudo chega a um nível perigoso quando as novas gerações trocam o saber pelo instrumental, o conhecimento pela informação, a objetividade pela superficialidade, e o real pelo virtual. Ao nos depararmos com jovens que diante de seus professores, em plena sala de aula e durante a exposição do seu mestre, prefere acessar esses aparelhos, começamos a nos sentir derrotados naquilo para o qual dedicamos boa parte de nossas vidas. Já não faz mais sentido, mesmo que por enquanto ainda não seja uma maioria a fazer isso. Mas se não impomos restrições essa maioria aparece rapidamente.
Creio que um filme (três, na verdade) nos possibilita discutir isso com precisão. Mais um desses filmes, naturalmente. Embora tenha sido produzido atemporalmente. Ou seja, antecipou uma realidade que veio despontando ano a ano depois de sua produção: a trilogia Matrix. Talvez esse seja um filme de grande relevância para debater com a nova geração, mas duvido que consigamos convencer aqueles que já estão numa dependência doentia na relação com esses aparelhos.
Ademais, e isso é fato, a maneira como esses aparelhos possibilitam os contatos virtuais, encurtam as distâncias entre as pessoas, muito embora as distanciem fisicamente, tem possibilitado a difusão de mentiras, boatos, notícias falsas, “fakes” (que pode ser tudo isso), e potencializado a disseminação de ódios, preconceitos, intolerância e atos estúpidos, pois criam condições que encorajam pessoas que não se manifestariam, e não se manifestam, presencialmente.
São caminhos perigosos que trilhamos nesse momento de insensatez, visível nos atos e gestos do boquirroto que assumiu a condição de presidente da maior potência econômica e militar do planeta, fazendo bom uso dessas tecnologias e desses mecanismos geradores de estupidez. Sua campanha foi um exemplo de como nossos destinos estão submetidos às neuroses coletivas provocadas por “verdades” produzidas em laboratórios de marketings. Somos, cada um de nós, cobaias de novos experimentos que analisam comportamentos e criam inteligências artificiais mais espertas do que a maioria dos mortais, entregues que nem zumbis aos deslumbramentos tecnológicos.
Ainda há tempo para adquirir capacidade crítica, resistir e combater.  Um outro mundo é possível! Mas estamos perdendo batalhas importantes. 

Um comentário:

  1. Professor Romualdo,
    O assunto é deveras polêmico e sério. Até onde iremos é difícil saber. Também nao sabemos qual nova evolução tecnológica derivada da atual pode estar surgindo, tão inesperadamente quanto os smart. Realmente estamos absortos neste novo hábito, basicamente de entretenimento, que tem reeducado inclusive gerações dos pais e avôs da geração X e Y. Abraço.

    ResponderExcluir