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segunda-feira, 10 de setembro de 2018

UM PAÍS À DERIVA: QUE TEMPO É ESSE? PARA ONDE ESTAMOS INDO?


O Grito de Edvard Munch.
Obra expressionista
Não podemos achar que vivemos em uma ilha, onde as coisas acontecem independentemente da realidade que reflete os fatos que se sucedem no mundo. Evidente que não. O que nos afeta é consequência de transformações que foram geradas pelo fracasso daquilo que se convencionou chamar de globalização. E das políticas neoliberais que formaram as condições necessárias para que tais políticas fossem implementadas.
Fracassados os modelos tentados por essa onda de desregulamentação e destruição dos Estados o mundo se depara com uma crise, que não advém de 2008 como muitos possam imaginar. Ela é um processo cíclico que se inicia, se é que há um início ali, na década de 1970. Mas somente na década de 1990 as soluções desejadas pelo capitalismo conseguiram ser plantadas, como decorrência da decadência dos países que seguiam pelo socialismo, e em especial a União Soviética.
Passou-se a um ambiente de absoluta ausência de regulamentações, a não ser aquelas definidas por um ente abstrato, erigido à condição de sujeito: o mercado. Naturalmente isso significa dizer que não havia nenhum tipo de regulação. Em termos, claro. Porque muitos países se aproveitaram dessas circunstâncias, se incluíram no mundo globalizado sem abdicar de ter o Estado como instrumento necessário para transformar o desenvolvimento econômico e social em algo mais palatável em relação à sociedade. Ou seja, sem o Estado como instrumento regulador as classes sociais mais baixas estariam entregues a um sistema claramente marcado pela selvageria da lei do mais forte. E assim ocorreu, em muitos casos. Em outros não. E para onde foi o mundo quase ao final da segunda década do século XXI?
Essa lógica foi desastrosa. Sob diversos aspectos. No econômico levou a uma poder descontrolado das corporações, principalmente aquelas que estão na ponta dos conglomerados: os bancos. A concentração de riquezas chegou a níveis escandalosos. Houve um processo de saneamento das empresas, motivado pela lógica inerente ao sistema capitalista, da necessidade de lucros, levando a uma escalada de desempregos por diversos países, principalmente aqueles que se encontravam em fortes conflitos, seja guerras com inimigos externos, seja por desestabilizações políticas internas, acrescidos das ações de agentes que executavam a chamada “guerra híbrida”.
Para tornar a situação mais complexa o capitalismo, como é comum acontecer diante do agravamento de suas crises crônicas, cíclicas, busca um processo de reestruturação, acelerando transformações tecnológicas cada vez mais sofisticadas, por meio da robotização acentuada e da inteligência artificial. Naturalmente isso garante maior lucratividade para empresas e a redução do uso de mão de obra humana, alimentando uma crise social de proporções crescentes, trazendo junto com isso desemprego, mais problemas sociais, uma juventude cooptada pela criminalidade, desestruturação familiar, intolerância, ódio e xenofobia.
Por outro lado, governos conservadores, alguns alçados à condição de dirigentes por meio de golpes institucionais, programam medidas austeras em relação aos gastos do Estado, prejudicando as camadas mais baixas, ao mesmo tempo em que seguem mantendo subsídios às grandes empresas, ou as beneficiando por meio de isenções fiscais e garantia de infraestruturas para seus aportes e instalações.
No Brasil não foi diferente. As circunstâncias de uma situação política que levou o país a uma forte crise fiscal serviu de pretexto para a derrubada em 2016 de um governo eleito legitimamente, mediante acusações nitidamente farsescas, embora com a anuência de um judiciário carregado de mágoas por causa de decisões que feriram seus interesses corporativos.
A crise política, econômica e institucional se agravou ao longo dos anos seguintes, e deixou numa situação caótica o quadro político e social brasileiro. Um governo incompetente e imoral, completamente distanciado dos interesses da Nação, até porque não foi eleito democraticamente, adotou medidas que sufocaram mais ainda os trabalhadores e empurrou o país para uma das maiores recessões de sua história. Mas o aspecto moral foi o que mais se deteriorou, potencializado pelo crescimento da criminalidade, da insegurança, da violência e do discurso que projeta mais um sentimento de vingança do que a sensação que a justiça prevalecerá. Um vale-tudo se instalou no país disseminado por fake-news nas redes sociais que toma proporções parecidas com o que aconteceu nas eleições dos EUA e no plebiscito do Brexit na Inglaterra.
Inquisição medieval
Nesse quadro a sociedade vive a expectativa de um processo eleitoral. Numa conjuntura em que a população se vê perdida diante dessa manipulação de fatos e da utilização dos mecanismos que foram adotados em outros países, da falsificação da verdade e de informações distorcidas, aliado à perseguição comandada por um Ministério Público de uma parcialidade irritante, embora reforçado por comportamentos semelhantes do judiciário.
Assim, tudo é feito, até por meios desleais no âmbito de uma justiça que se desmoraliza, aprofundando a sensação de parcialidade explícita para que o poder político não retorne às mãos dos partidos de esquerda. À medida que os principais candidatos dos segmentos conservadores não conseguem deslanchar, destaca-se como representante do ódio alimentado ao longo desse tempo, um candidato da extrema-direita. Como característica desses perfis de candidaturas por todas as partes do mundo, seu discurso é baseado na intolerância, na descriminação ao outro sem respeito às diferenças e na alimentação do ódio, sob todos os aspectos. Um discurso que pode ser caracterizado sem erro de neonazista. Paradoxalmente, ao tempo em que professa esse sentimento intolerante, alicerça-se em crenças evangélicas, cristãs, e diz falar em nome de deus.
Cenas da Inquisção
Mas, porque esse indivíduo chegou a essa situação? Basta olharmos para a história e veremos muitos trágicos exemplos de como uma população fica refém de discursos de ódio, na medida em que perde a esperança, não vê perspectivas em curto prazo, principalmente os jovens, e são nesse desespero capturados pelo discurso fácil, enganador, manipulador. São conduzidos pelo medo, e pela forma como culturalmente foram sendo constituídos os valores e a ideologia de uma sociedade conservadora.
Submersos em momentos de avanços sociais, como na primeira década deste século, um sentimento conservador se libertou das profundezas, alimentando o medo e iludindo as pessoas com versículos bíblicos escritos há mais de dois mil anos. Seria impossível crer que um discurso de ódio e perversidade encontrasse guaridas em páginas religiosas? Não é bem assim. A história nos levará a outros tempos, e nos veremos diante de fatos por épocas passadas, onde o discurso religioso se tornou instrumento de fascistas, farsantes e até mesmo de fanáticos que levaram centenas de seguidores à morte, ou a tornarem-se, eles próprios, armas contra quem eles sequer jamais chegaram a conhecer. Porque o ódio cega, e o ódio do sectarismo fanático religioso se alimenta da ilusão e da crença de que determinado indivíduo se torna ungido e destacado por deus para libertá-lo das angústias e dos medos. E os que professam desse ódio e desse sentimento perverso, matam e se matam em nome de deus.
Marcha da Família com Deus
Pela Liberdade, em apoio
ao golpe militar - 1964
Numa situação de crise grave, de desemprego que se conta a dezenas de milhões, em que uma juventude se perde na ausência de esperança e de perspectiva, esse discurso farsesco se espalha rapidamente. E, por mais paradoxo que possa parecer, mesmo sendo os que assim propagam como sendo o escolhido, representante das camadas ricas, que defende abertamente a eliminação dos pobres pela execução daqueles que os deveriam proteger, muitos pobres, alienados, e/ou dominados pelas crenças sectárias religiosas, são facilmente convencidos por esses discursos de ódio, por esse ambiente no qual eles vivem e que a crise o aprofunda. Foi assim que surgiram os personagens mais perversos e genocidas da história mundial.
Muito embora isso, no espectro político que define a disputa eleitoral em curso, tem valido mais a disputa do Poder e da projeção partidária desconectada da preocupação com o futuro que nos aflige. Seria de esperar que num quadro assim delineado tivéssemos uma junção de pensamentos, e de partidos, que se opõem a esse perigo eminente de caminharmos para uma fascistização aberta da sociedade. Mas seguimos um enredo já visto no passado, e isso parece não despertar uma sensação de risco, ou talvez venha acompanhado de um sentimento de que uma derrota agora pode ser revertida nas próximas eleições. Provavelmente alguns estrategistas imaginam que da eleição de um desastroso e pérfido projeto levará as pessoas a se arrependerem, e imaginam um fenômeno semelhante ao sebastianismo ocorrido em Portugal, país que viu seu rei perder-se em meio a uma guerra, sem que jamais se soubesse qual foi o seu destino. A expectativa do retorno de um salvador ilude a sociedade e transfere para um futuro incerto um destino que estará sendo definido neste momento.
Podemos dizer que a história julgará aqueles que se omitirem ou manipularem um processo à custa de um jogo perigoso que envolve toda uma nação. Mas ainda temos tempo de alterar o curso dos acontecimentos. Praticamente vai se definindo uma disputa que colocará de um lado uma candidatura nesse perfil aqui analisado, que representará a destruição de tudo que se construiu e que se avançou na sociedade. Agora, a menos de um mês da eleição é preciso recuperar o tempo perdido de forma a garantir uma candidatura de esquerda na contraposição a essa onda de perseguição e intolerância que tomou conta do Brasil. A rejeição a esse projeto reacionário está num patamar bastante elevado, indicando a possibilidade de uma derrota efetiva em um segundo turno das eleições. Temos que ter foco e saber definir bem claramente quem é o alvo a ser derrotado e quais propostas o povo rejeitará nas urnas, porque trariam mais incertezas para o nosso país. Neste momento virar as baterias contra possíveis aliados no segundo turno é uma estupidez. O "fogo amigo" só ajuda o adversário.
Mas o tempo não para. E as pessoas vão se definindo, em meio a uma confusão inédita na história dos processos eleitorais brasileiro.
Não temos tempo a perder. “Nosso suor sagrado, é bem mais belo que esse sangue amargo. E tão sério… temos nosso próprio tempo” (Legião Urbana).

segunda-feira, 21 de maio de 2018

SOBRE AS CARACTERÍSTICAS DO NAZISMO - O QUE EXPLICA HAVER "SOCIALISMO" NO NOME DO PARTIDO DE HITLER E AS CONFUSÕES DAS "FAKE NEWS"

Por: Romualdo Pessoa

- O Nazismo foi um movimento de Esquerda?
Negativo. De forma nenhuma. Quem tem alguma dúvida sobre isso desconhece por completo a história. A esquerda, principalmente os comunistas, foram os principais alvos de Hitler logo no começo de sua jornada para consolidar o poder que havia sido conquistado. Naquela época o movimento comunista estava em ascensão, assim como a social-democracia. A divergência entre esses dois segmentos terminou por abrir a possibilidade da ascensão de Hitler, na medida em que, em função de uma crise econômica terrível – consequência da grande depressão mundial da década de 1930 – a população alemã não se sentia protegida pelo governo. Numa situação dessas é normal que sempre surja alguém, ou algum grupo, com um discurso de ódio, duro, sectário e moralista. Assim fez Hitler, somando-se a uma capacidade de oratória que ele tinha. Mas o que garantiu a sua ascensão, além desse quadro político e econômico, foi também o fato de a burguesia não ter, naquele momento, outra opção. Assim o establishment do Estado alemão optou por entregar o poder a quem para eles seria mais confiável. Repito, num quadro em que a esquerda estava em ascensão motivada pela conquista e ampliação do poder na Rússia, então transformada em União Soviética. É bom que se diga que tão logo tomou um poder, e responsabilizar um indivíduo holandês, que seria do Partido Comunista, pelo incêndio do parlamento alemão, Hitler iniciou uma verdadeira caçada a todos os comunistas. Mas nunca houve prova de que isso tivesse sido uma articulação dos comunistas. No entanto, serviu de pretexto para dar início a uma ditadura e botar em prática os planos de Hitler da construção de uma nação de raça pura. Aliás, entre os que eram considerados de raça impura estavam os comunistas, negros, homossexuais, ciganos, pessoas com algum tipo de deficiência, portanto não somente os judeus.
Incêndio do Parlamento Alemão -
Reichstag (1933)
- Porque muitas pessoas na internet costumam espalhar essa informação?
Porque a principal característica das gerações atuais é o desconhecimento da história. Assim fica fácil plantar uma mentira, difundi-la repetidamente e esperar que uns tolos acreditem e compartilhem. Vivemos a época das “Fake News”. As redes sociais se tornaram canais de expressão de ignorância, intolerância e estupidez. Apegam-se ao fato da denominação do partido de Hitler.
- Por que o partido de Hitler tinha "socialismo" no nome?
Porque o socialismo estava em ascensão e o capitalismo em crise profunda, com a grande depressão. O socialismo conquistara corações e mentes nas enormes dimensões russas e na Europa, com o advento da Revolução Bolchevique, e também as próprias experiências em curso nos EUA, para tentar tirar o país da crise econômica, tinham no planejamento do estado socialista os melhores exemplos para isso. O Walfare State, que surge logo depois da guerra bebeu na fonte do socialismo. Agora a denominação do partido, como “Nacional-Socialista, dos trabalhadores alemães” era pura retórica. Da mesma maneira como vemos hoje aqui no Brasil partidos de direita e de centro-direita usarem o nome trabalhista e socialdemocrata. Suas políticas não são voltadas para os trabalhadores, embora suas retóricas enganem com denominações assim. Mas o que define as posições são as defesas de uma sociedade menos desigual econômica e socialmente, mais solidária e com distribuição de riquezas, de forma clara na sua aplicação e não somente no nome ou no discurso. Isso é o que diferencia “direita” de “esquerda”.
- Quais as características que definiam ou não o nazismo como direita ou esquerda?
O nazismo é um regime totalitário, que abomina a democracia e refuta a diversidade. Para as concepções nazistas o que faz as pessoas diferentes do padrão que eles consideram normais, constituem-se em deformidades que precisam ser extirpadas. É um regime que se propunha a atender a uma parcela minoritária da sociedade e a tratar os trabalhadores, principalmente aqueles de origem pobre, africana e asiática, como excrescência. No caso dos judeus haviam outros elementos, além daqueles que fizeram deles párias das sociedades desde a diáspora do mundo antigo por conta das questões religiosas. A Alemanha estava em crise, absolutamente falida e humilhada. A perseguição aos judeus, apesar dos argumentos utilizados que iam nessa direção da questão religiosa, se dava muito pela necessidade de pilhar aqueles que possuíam grandes riquezas. Os judeus eram pessoas bem sucedidas, em sua maioria, em uma sociedade absolutamente falida. Hitler saqueou praticamente toda a riqueza dos judeus e a incorporou ao Tesouro do Estado alemão. Mas, sempre, nazismo e comunismo se opuseram com profundas diferenças. Afirmar que o movimento comunista prega um Estado totalitário é também desconhecer a história desse movimento, que defende, sim, que num primeiro momento haja a conquista do Estado com a centralização do Poder, mas isso se dá pela necessidade de esse Estado atender ao que é essencial, distribuir a riqueza, diminuir as desigualdades sociais e caminhar para uma transição onde ele, o Estado, não seja mais necessário. Claro que ocorreram distorções e problemas nesse percurso, e erros foram cometidos levando a um fracasso nesse objetivo. Mas o nazismo é o oposto, assume a condição de um movimento avesso à democracia popular, menospreza pobres, trabalhadores e mulheres, e sempre teve o apoio da burguesia e das grandes empresas e corporações.
A maior batalha da 2ª Guerra se deu entre
alemães e soviéticos, em Salingrado.
- O que mais as pessoas precisam saber para que essa informação esteja clara?
Conhecer a História. As pessoas não estudam mais como antes. Submetem-se a leituras curtas e rápidas, sem dar importância às fontes, às origens daquelas notícias, não pesquisam para saber se o que está repetindo e compartilhando é verdade ou não e passam a assimilar mentiras como se fosse verdades. E aí, depois que assumem essa condição, de compartilhar inverdades, passa a acreditar fielmente naquilo. Assim seu cérebro vai sendo condicionado e suas posições assumem características radicais e intolerantes. Essa é uma situação que boa parte do mundo vive hoje, e que alguns chamam de “Pós-Verdade”, como sendo uma etapa posterior à “Pós-Modernidade”. A pós-verdade é aquele momento em que as pessoas, diante de condições socioeconômicas e políticas complicadas, e diante de crises inclusive identitárias, passam a ver somente diante de si uma realidade, aquela que ele construiu para si próprio a partir de leituras feitas sem embasamento e que se tornam crenças irredutíveis. Ele não consegue ouvir mais o contraditório, e passa a rejeitar qualquer outra explicação para aquele fato que ele crê como sendo a pura verdade. É um ambiente de intolerância.
Saber lidar com o conhecimento de forma a não ver uma opinião como definitiva, estar aberto para o contraditório, acreditar que as coisas podem ter mudanças positivas a partir do entendimento entre as partes, enfim, ser tolerante em suas posições, ajuda as pessoas a ter uma visão mais clara sobre a realidade. Mas, acima de tudo, olhar para o passado. As pessoas ficam procurando enxergar o futuro, quando ele sequer existe e sua possibilidade depende do presente. Só que a melhor maneira de aprendermos e evitarmos a repetição dos erros, ou pegar bons exemplos para seguir, é mirando-se no passado, conhecendo a história. Como dizia Eduardo Galeano, “A história é um profeta com o olhar voltado para trás. Pelo que foi, e contra o que foi, anuncia o que será”.


(*) Íntegra da entrevista concedida ao à Jornalista Fernanda Kalaoun, do Jornal Diário de Aparecida.

domingo, 1 de julho de 2012

O OVO DA SERPENTE

A pós-política e o perigo dos três efes: fakes, farsantes e fascistas(*)

Há algum tempo alimento a vontade de escrever um texto que pudesse problematizar uma situação que vivemos no mundo real, mas que se manifesta mais fortemente na virtualidade de um cotidiano que segue perigosamente em direção ao acirramento de comportamentos fortemente marcados pela intolerância.
Os golpes silenciosos aplicado em alguns países que viveram dias e meses de revoltas populares, e o rito sumário da impostura democrática, com os setores da elite conservadora paraguaia destituindo o presidente daquele país, me levaram a, enfim, concluir por tentar registrar minhas preocupações que já me acompanhavam desde que terminei de escrever as “crônicas de um mundo em transe”, no começo do ano. E me convenceram após por várias vezes ter sido estupidamente afrontado com ofensas, por divergir de determinadas opiniões expostas na internet.
Como os amigos leitores desse blog podem perceber, ao longo da leitura de mais de uma centena de artigos, embora tenha me desligado umbilicalmente da militância política, não o fiz das minhas concepções nem da minha filiação partidária. E mantenho sempre a ideologia marxista, e o método dialético, a guiar os meus olhares e definirem as minhas observações sobre as transformações que afetam o cotidiano da humanidade. E o nosso entorno, em particular.
Os dissabores da vida, registrados no acaso que dilacerou uma parte de mim, e que me levou inclusive a criar esse blog, gerou certo ceticismo quanto a construção do futuro. No meu caso particular o futuro desvaneceu-se no momento em que uma tragédia tirou de mim parte dele, e me fez prestar mais atenção no presente, valorizando mais o passado, e tentando entender como as mudanças casuais nos afetam em nossos sentimentos mais profundos, de esperança, fé e crenças nas transformações materiais.
Tornei-me mais criterioso nas análises, mais ponderado na avaliação política, e equilibrado na identificação dos sentimentos de solidariedade. Mas me assusta ver como o caráter dos indivíduos vem sendo determinado por fortes traços de intolerância. E o que vejo é preocupante, após três décadas de militância política, e tendo podido acompanhar essas transformações por minhas leituras focadas na dialética materialista e pela experiência principalmente desses últimos cinco anos, em que pude observar melhor com outros olhares esses comportamentos, principalmente da juventude.
O meu ingresso na virtualidade das redes sociais, motivado principalmente pela necessidade de melhor difundir o meu blog, me levou da euforia com o deslumbramento pela potencialidade que essas ferramentas nos possibilitam, à decepção com que comecei a perceber nesse meio um canal de expressão de comportamentos desrespeitosos, intolerantes e catártico das frustrações digressivas de personalidades certamente marcadas por históricos de convivências sociais complexas. Muito embora sendo comportamento de uma minoria, incomodam e preocupam.
Imaginei, num primeiro momento, poder transferir a minha militância para o mundo virtual, até mesmo me intitulando um “guerrilheiro cibernético”, como uma forma de prosseguir na difusão de ideias que marcaram a minha formação política. Como aprendi a ser mais tolerante com as diferentes opiniões, e a não me consumir por questões menores que venham a nos dividir, os que possuem concepções que se baseiam na solidariedade e na busca pelo caminho que nos leve a uma sociedade mais justa e menos desigual, acreditei poder levar o bom combate para as redes sociais.
Eu sabia que encontraria discussões ácidas, no enfrentamento de opiniões advindas de setores conservadores. O que não seria nenhuma novidade, e até mesmo natural. Mas o que me viria a me surpreender, por todo esse tempo de virtualidade digital seria a virulência dos embates, oriundos principalmente de pessoas identificadas com grupos aparentemente de esquerda. Além dos inconformados conservadores, contrariados com as recentes mudanças políticas no Brasil.
Passei a observar tais comportamentos, e até mesmo em algumas situações o grau de agressividade e de ofensas destiladas atingiu níveis preocupantes, me alertando para buscar explicações em uma nova realidade que teve início em conflitos que marcaram um novo estilo de luta da juventude por vários países, denominado “indignai-vos”. Na esteira da crise capitalista que se estende desde quando as torres gêmeas foram postas ao chão, em 2001, cujo epicentro se deu em 2008 com a quebra de inúmeras instituições financeiras na sequência de uma grave crise no mercado imobiliário estadunidense, até o momento atual, com uma crise imprevisível na Europa e do capitalismo de uma maneira geral.
A partir de uma situação concreta, particular, e as observações que as minhas aulas de geopolítica me impunham, fui construindo algumas ideias a respeito dos tempos atuais. Na junção das lembranças das elaborações de Milton Santos, das leituras dos últimos textos de Eric Hobsbawm, e, obviamente, da dialética marxista, fui me convencendo que vivemos uma época de transição, de um possível esgotamento do sistema capitalista. Mas, como já alertava Gramsci, o perigo está quando o novo demora em chegar e o velho resiste em desaparecer. Se não há a perspectiva de saídas revolucionárias, que possam dar um novo rumo à sociedade mediante a existência de uma vanguarda devidamente organizada, outros mecanismos certamente despontarão, a exemplo de como se deu o surgimento do nazi-fascismo, nas décadas de 1930-40, e prolongarão a agonia sistêmica.
Lembrei-me de ter lido há alguns anos um livro do filósofo Slavoj Zizek, quando ao final ele conclui com algumas formulações interessantes, que podem perfeitamente serem pontuadas com os acontecimentos patrocinados pelos “indignados” – que surgiram nas revoltas árabes e nas lutas contra o sistema financeiro capitalista, nos Estados Unidos e Europa – e nos ajudam a entender o comportamento de uma juventude sectária e intolerante. As justas revoltas são desprovidas de senso crítico aprofundado, porque não lhes acompanham nem questões teóricas, que lhes ajudem a compreender as contradições, nem ideologia, que lhes indiquem como superar tais complexidades e encontrar caminhos alternativos àqueles pelos quais se estão protestando. Voltei a ele, e cito aqui um trecho interessante.
Assim dizia Zizek:
“Por tudo isso, a lição ‘leninista’ fundamental de nosso tempo é a seguinte: política sem a forma organizacional do partido é a mesma coisa que política sem política; por isso, a resposta àqueles que querem apenas ‘Novos Movimentos Sociais’ (nome muito adequado, aliás) deve ser a mesma que os jacobinos deram aos girondinos que queriam negociar uma solução de compromisso: ‘Vocês querem revolução sem revolução!’. O dilema atual é que há dois caminhos abertos ao engajamento sociopolítico: ou joga-se o jogo do sistema, engajando-se na ‘longa marcha através das instituições’, ou toma-se parte em novos movimentos sociais, do feminismo à ecologia e ao anti-racismo. E, reiterando, a limitação desses movimentos é que eles não são políticos no sentido do Singular Universal: eles são ‘movimentos de uma só causa’, que não têm a dimensão da universalidade – quer dizer, eles não se relacionam com a totalidade social” (ZIZEK, Slavoj. Às portas da revolução – escritos de Lenin de 1917. São Paulo: Boitempo editorial, 2005. Pág. 325).
A máscara do protagonista de "V"
de Vingança inspirou alguns a
esconderem-se no anonimato
Prosseguindo, em um capítulo denominado “Contra a pós-política”, Zizek critica o comportamento gerado do desencantamento seja com a desilusão do socialismo, como pela crescente crise do capitalismo. O caminho escolhido quase sempre tem sido do apoliticismo e da busca por escolhas de temas pontuais, que se tornam bandeiras de grupos e camadas sociais, desconectadas de uma realidade bem mais ampla, que poderia levar ao entendimento que tais circunstâncias são geradas pela forma como funciona o sistema capitalista.
Os exemplos que surgem dessa confusão têm levado ao poder setores conservadores oportunistas, que se aproveitam desses dilemas e da desideologização, que tem caracterizado os tempos atuais. Na medida em que não carregam em si ideologias, e limitam-se às particularidades, esses movimentos contribuem para a alienação das massas em geral, quase sempre afastadas dos embates políticos. A consequência disso é a incapacidade em se identificar possíveis diferenças, mesmo quando há um completo antagonismo no confronto de concepções ideológicas bem distintas levando ao poder candidatos conservadores, reforçando o controle dos meios de produção pela classe dominante e impedindo possíveis mudanças estruturais.
Creio ser a situação atual do Paraguai um ótimo exemplo, que já me referi no texto anterior. E o processo eleitoral mexicano, que deve levar a retornar ao poder o PRI (Partido Revolucionário Institucional), conservador, que dominou a política naquele país por 70 anos. Mesmo tendo nas duas últimas décadas um movimento social que adquiriu uma grande influência internacional, os zapatistas, e estando o México em uma verdadeira guerra civil contra o poder do tráfico de drogas.
Mas essas situações não são o cerne das questões que quero aqui abordar. São apenas exemplos, dentre dezenas de muitos outros que apontam as contradições flagrantes de um tempo que deveria apontar para a busca por alternativas progressistas ao capitalismo, sistema que vive uma de suas maiores crises desde a grande depressão da década de 30 do século passado.
As causas de tudo isso, como pontuadas por Zizek, podem ser encontradas na absoluta falta de compreensão política de uma juventude, distanciada de conteúdos teóricos que possam explicar, ou pelo menos facilitar, o entendimento sobre como as contradições afetam nossas vidas e a sociedade de maneira geral, e não são possíveis de serem explicadas mirando-se apenas nas particularidades. As palavras de ordens, quase sempre distantes de atingir o substrato do problema, miram preferencialmente setores emergentes da própria esquerda, notadamente partidos comunistas em ascensão. Há uma disputa sectária entre grupos de esquerda que confunde o alvo, e alivia a classe dominante, que se unifica quando sente o chão abrir-se a seus pés.
Miguel de Unamuno, iludiu-se com
o movimento que ascendeu o fascismo,
e depois o combateu quando descobriu
o seu sentido perverso.
Além disso, por não possuírem elementos ideológicos que lhes garanta organicidade, alguns desses movimentos não somente atacam os partidos políticos, mas escolhem aqueles que são forjados ideologicamente, e destilam injustos ódios que com o tempo transformam-se em comportamentos intolerantes. Parece haver uma necessidade de se destruir as ideologias dos que as têm. Mas como não há espaços para discussões, pela ausência delas diante de um pragmatismo imediatista, a agressividade passa a se constituir na arma aparentemente eficaz para fazer valer seus objetivos.
Ocorre que na sequência de comportamentos que vão se tornando cada vez mais intolerantes, amplia-se a virulência das agressões, e o que se vê é a repetição de atos que nos fazem lembrar a maneira como o nazismo e o fascismo despontaram logo na sequência da crise econômica da terceira década do século passado.
A alienação de uma juventude forjada em tempos de uma globalização neoliberal, a destruição dos laços familiares, a individualidade crescente, a busca egoística pelo sucesso a qualquer custo, e a ampliação de valores teológicos que substanciam tudo isso, denominada teoria da prosperidade, compõem um conjunto de circunstâncias que explicam os tempos de negação da ideologia. Mas não somente isso. Agregue-se, contraditoriamente, a falta de informação em um tempo em que as ferramentas tecnológicas facilitam a aproximação com o que acontece em todas as partes do mundo. Mas são essas mesmas ferramentas, que explicam, para o bem e para o mal, o distanciamento de leituras mais complexas, filosóficas, optando-se por um cartesianismo vulgar, porque fruto de toda a confusão gerada pela sociedade midiática neoliberal, e pela informação deformada, apolítica e baseada na espetacularização do medo. O que os empurram para leituras alienantes, bizarras e de auto-ajuda.
A radicalidade de alguns desses comportamentos foram potencializados pelas redes sociais, criando uma coragem peculiar a alguns jovens, situação que não aconteceria em plano real, pela absoluta falta de backgrounds, consequência do distanciamento teórico e da ausência de fundamentos a lhes garantir segurança para um embate ideológico.
A intolerância, característica fascista,
não tem limites. E se inspira em crimes
hediondos no combate político
O que se vê, então, é o destilar de ódios a todos aqueles que porventura pensem diferentes, discordem e confrontem seus pensamentos e práticas. Semelhante ao que aconteceu na ascensão do fascismo tradicional, aquele que no período de crise sistêmica parecida com a que vivemos nos dias atuais, despontou a partir de comportamentos críticos, de suportes garantidos pelas insatisfações e indignação de populações que viviam momentos de dificuldades econômicas graves. Também naquele momento, os jovens tornaram-se alvos potenciais de lideranças emergentes, pela insatisfação com uma época que não lhes ofereciam perspectivas. E alimentados pela intolerância, visaram também os comunistas, que ameaçavam ideologicamente a elite dominante, fracassada desde o final da primeira guerra mundial. A negação da política instrumentalizou uma reação conservadora.
Alguns daqueles que usam das redes sociais para agirem de maneira desrespeitosa não o fazem de maneira explícita, mas escondem-se em perfis falsos, prática criminosa que tem se tornado comum, principalmente no Facebook. Ou senão, omitem de seus perfis informações que possam identificá-los e apresentam desenhos, ou charges, em lugares de fotos que os reconheçam.
Não é essa uma prática somente desses grupos, mas pude identificá-las também sendo utilizada por jornalistas de blogs conservadores, de jornais, tabloides e revistas, que postam suas matérias para serem repercutidas, e que, ao serem criticados acionam seus fakes, que agem agressivamente, ofendem o interlocutor e tentam desqualificá-lo. Assim como fazem alguns desses farsantes, anonimamente, em comentários agressivos nos blogs que tem defendidos os últimos governos no Brasil e teçam criticas aos partidos conservadores.
Ao fim de tudo, esses comportamentos tornaram-se bem visíveis no desencadear da greve na universidade. Comportamentos sectários, violentos e intolerantes, traduzem um sentimento comum à época do fascismo, de não aceitação das diferenças, de negação do pensamento oposto e da reação intempestiva e agressiva na imposição de um pensamento ou de uma determinada prática. Não sei se surpreende, mas é lamentável, o fato de juntarem-se a esse coro intolerante alguns professores, que obviamente se desqualificam enquanto educadores. Mas suas posturas indicam que eles pouco se importam com isso, a inconsequência é uma marca que lhes acompanham e a intolerância um traço de caráter.
O filme "A Onda" mostra
como o fascismo pode
iludir a juventude
E, não surpreendente, grupelhos de extrema-esquerda, setores anárquicos despolitizados e contumazes direitistas, se irmanaram no mesmo comportamento. Mas tudo isso deve servir de alerta aos que defendem uma sociedade baseada na tolerância, no respeito às diversidades e na aceitação de ideias que se contraponham. Considerando-se o momento de crise econômica mundial, do xenofobismo e da intolerância religiosa, vivemos circunstâncias bastante parecidas com o que ocorreu no século XX. O fascismo e o nazismo ascenderam mediante a insatisfação popular, e se consolidaram com um discurso baseado no moralismo hipócrita, no anticomunismo e na descrença com as organizações políticas.
Diferente do que se pensa, a ideologia que moveu o fascismo não foi construída pela direita, mas originou-se de um viés esquerdista, notadamente naqueles setores mais sectários, cujo discurso radical empolgava as massas e as tornavam-nas facilmente manipuláveis e aptas a uma lavagem cerebral coletiva. Tanto Hitler (que criou o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães), quanto Mussolini (expulso do partido socialista por suas ideias extremistas, e antigo editor do jornal mais lido da esquerda, o Avanti), excelentes oradores, críticos dos desmandos sistêmicos e com carismas suficientes para se apresentarem como salvadores, o fizeram apropriando-se de forma oportunista da expectativa que a população tinha em relação ao socialismo e a conduziram a um tempo de intolerância que vitimou milhões de pessoas em uma época que não pode ser esquecida, para que não se repita jamais.
Ao se colocarem como alternativas ao movimento socialista e comunista em ascensão, adotando comportamentos intolerantes e anticomunistas, tornaram-se confiáveis a uma burguesia que já não tinha mais opções para conter a débâcle do capitalismo naquele momento. Registre-se, porque é história, que alguns setores esquerdistas alemães, naquele momento, se negaram a combater esse movimento, porque poderia beneficiar os comunistas, melhores organizados e preparados para tomarem o poder naquele país.
O "Ovo da Serpente", filme de Ingmar
Bergman, mostra a gestação do nazismo
Mas, tudo indica que, tal qual nos mostrou Ingmar Bergman, os sintomas do fascismo podem a qualquer momento serem gestados, como o ovo de uma serpente, aproveitando-se de insatisfações momentâneas e usando como tática a desqualificação do outro, a mentira persistente e a estupidez alienante. São tempos que exigem além de reflexões muita determinação e combate a essas novas práticas fascistas encobertas com discursos de liberdade e democracia, em mais um período de crise estrutural do sistema capitalista.
Como no período do Estado Novo, na ditadura varguista, quando o integralismo de Plínio Salgado desfilava suas bandeiras fascistas em marchas pelas ruas das cidades brasileiras, novos “galinhas verdes”, como ficaram conhecidos esses personagens, retornam à cena em tempos cibernéticos, reforçando a conhecida frase irônica de Karl Marx, para quem a história, ao se repetir, se configuraria da primeira vez como farsa, em seguida como uma tragédia.