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segunda-feira, 25 de setembro de 2017

NO LIMITE!

Vivemos uma era de intolerância? A humanidade está fadada à se autodestruir a partir de um estilo de vida competitivo e estressante? A violência é inerente à “natureza” humana?
Temos ultimamente verificado uma profusão de artigos nos meios de comunicação enfatizando a forma como a violência tem se tornado banalizada. São crimes praticados por motivos fúteis e reações intempestivas a pequenos e irrelevantes acidentes que geram um comportamento estúpido e irracional, fazendo com que até mesmo pessoas que jamais se conheceram tornem-se em frações de segundos inimigos mortais.
Como avaliar esses comportamentos? Eu, particularmente, não sou psicólogo, portanto vou analisar essa situação, nessas poucas linhas, por um viés geopolítico. Mas como fazer isso? Será que todo e qualquer conflito, mesmo no mero cotidiano de nossas vidas, pode ser estudado a partir da geografia?
Sim, não somente da Geografia Política, mas também pela História, Sociologia, Filosofia, Economia Política e, claro, Psicologia, porque esta se preocupa mais diretamente nos estudos desses e de todos os tipos de comportamentos humanos. Mas onde podemos buscar as origens para tais comportamentos? Vejam que a psicologia para tentar entender certas situações aflitivas em determinado indivíduo, busca conhecer o seu passado, e através dele chegar ao âmago de sua vida, seus traumas, frustrações, fracassos, ou seja, o conjunto de eventos que determinaram como a sua memória está constituída. Enfim, sua história de vida.
Partimos, portanto, do pressuposto que para conhecer o presente é insofismável se aprofundar no passado. Como em qualquer terapia, para conhecermos a origem das angústias que afligem certa pessoa, é fundamental sabermos o que tal indivíduo acumulou de experiências negativas que causaram certas anomalias em seu comportamento, a ponto de provocar em determinado momento uma ira incontrolável, fazendo-o reagir violentamente contra aquele que cruzar seu caminho em um instante de fúria. Ou propiciar outro caminho, da introspecção, depressão, que o fará agir com brutalidade não somente contra o outro, mas para consigo mesmo. E, às vezes, sequer alguma reação esse indivíduo terá, esgotando em si mesmo a vontade de viver, sendo consumido pela desesperança e tristeza profunda.
Essas são situações que crescem no cotidiano das grandes cidades, metrópoles aceleradas marcadas por sentimentos contraditórios, mas cuja lógica reside no fato de as pessoas precisarem sagrar-se vitoriosas em meio a uma competição desmedida, e na busca por um estilo de vida que os consagrem vencedores. Nesse jogo, seguindo o que determina os valores construídos pelo sistema em que vivemos a vitória não é o fim de tudo, pois deve ser permanente para manter e ampliar o que foi conquistado; e a derrota enseja tais frustrações que forçam alguns por caminhos que imaginam ser um atalho também para atingir esses objetivos. Tais atalhos, de um jeito ou de outro, leva a desfechos indesejáveis, na medida em que se rompem valores e quebra-se a estrutura moral na qual está fundada a sociedade.
Podemos partir de uma frase muito repetida em uma propaganda da maior rede de supermercados do país, na voz de um dos nossos melhores compositores: “o que faz você feliz?”**. A resposta para isso, segundo o marketing apresentado, é consumir. Seguindo adiante no objetivo de atrair clientes, apresenta-se ainda um complemento: consumir, bem!
Significa, então, que a condição para estabelecermos relações fraternas, ponderadas, tranqüilas, é nos situarmos dentro de um padrão de vida que possibilite adquirir produtos que nos são oferecidos para consumo e massificados pela mídia de forma variada. Ao sairmos de casa, ligamos o som do carro e os programas têm o oferecimento de determinada marca; nos veículos, ônibus principalmente, uma bela donzela ou um jovem mancebo nos apresentam um produto apontado como responsável por suas formas; por todos os lados, outdoors de várias maneiras e estilos nos “vendem” todo o tipo de mercadorias. Na TV, internet, páginas de jornais e revistas, por todos os lados somos massacrados pela propaganda, de tal forma que no cotidiano de nossas relações, nos tornamos agentes propagadores desses produtos. Não são poucas as vezes que debatemos suas qualidades, e indicamos aquela marca que foi por nós aprovada. Remédios, então, nem se fala. Alguns imaginam conhecê-los melhor do que os médicos e repassam suas possíveis qualidades, num marketing indireto condicionado pela lógica consumista.
Em um ambiente carregado por esses valores, onde consumir “faz você ser feliz”, podemos encontrar a chave para as desilusões, frustrações e disputas violentas. Primeiro porque nos impõe um sentido de viver determinado pela necessidade de estarmos permanentemente em busca de melhores ganhos, já que nosso poder de consumo é incontrolado e infinito. Da mesma maneira como ao sistema capitalista não importa somente ganhar, é preciso ganhar sempre, e cada vez mais.
Imaginemos, nós que possuímos empregos regulares, a angústia e desespero de uma família cujo pai, ou mãe, aquele que dá sustentação financeira à família, encontra-se desempregado. Ou cujo salário, ao final do mês, é insuficiente para atender à necessidade, e à demanda de um grupo condicionado pelo marketing que perversamente invade sua casa pelos meios de comunicação. Como reagirá essa família ao assistir à propaganda citada, que não é a única, mas apenas um exemplo? O que está desempregado saberá na carne o que quero dizer. Mas mesmo com um salário, será ele suficiente para manter satisfeitos adolescentes cuja cultura cerca-o de desejos por produtos tecnologicamente sofisticados, ou roupas de grifes famosas? E, neste parágrafo, falo de exemplos e indago sobre questões que atingem a imensa maioria da população. O que facilita para nós a compreensão da pressão sob a qual está fundada a nossa sociedade.
Compreendendo essas contradições, e o estilo de vida que o sistema nos impõe sempre a buscarmos, podemos levar nossa análise para o âmbito da política, e nesse particular navegar melhor pelo universo de uma sociedade cujo elemento central é a competição. E, como numa disputa esportiva, a busca é permanente pelo recorde, também aqui jamais nos satisfazemos com o que ganhamos. Isso, independente do padrão de vida que analisarmos.
Simplesmente porque nossa cultura é formada a partir dos valores construídos pelo sistema capitalista, onde não há limite para o lucro, e a ganância é o motor principal a nos guiar em direção ao objetivo de sempre acumular mais. E isso independe do fato de envelhecermos, e pela lógica natural da vida em algum momento morrer. A herança, mecanismo inventado para perpetuar a busca obsessiva pela riqueza e garantia da propriedade, se encarrega de assegurar que os mortos determinem quem em vida continuará sua sina.
Isso é o que faz das cidades mais particularmente, palco principal das neuroses e conflitos, ambientes cada vez mais carregados de estupidez, violência e atitudes bizarras. Porque cabe a cada um, seguindo a forma individualista determinada pela cultura capitalista, brigar, com todas as suas forças, para superar o outro, numa disputa que determina quem é vitorioso e será escalado para atingir os melhores degraus da pirâmide social. Como no traçado geométrico dessa figura, também na sociedade vai diminuindo o percentual daqueles que atingem o pico, e os que lá chegarão quase sempre já se encontram na linha de ascendência de alguém “bem sucedido”, pouco ocorrendo a incidência de algum “cristão novo”.
Ou lutamos para alterar essa lógica, atacando o modelo que transmite esses valores culturais, ou será insuficiente exigirmos garantias de segurança por parte do Estado. Porque também esses mecanismos estão corrompidos, seguindo a lógica descrita anteriormente. Nossas prisões não serão suficientes para conter uma demanda que cresce, na medida em que se atiça a onda consumista.
Portanto, antes de nos escandalizarmos com o grau de violência que assistimos, e que em alguns casos somos vítimas, devemos refletir sobre as causas disso. Não é, em absoluto, da essência humana. É, indubitavelmente, da CONDIÇÃO HUMANA.
Em outros post, quero melhor analisar como individualismo e egoísmo vão sendo disseminados por alguns mecanismos de controle ideológico, apresentados como válvulas de escapes dessas neurastenias, mas que são por um lado consequência dessa situação, por outro, objetivo calculado desse modelo de vida. Mais uma contradição a nos envolver num pântano movediço. Para não parecer pessimista devo dizer que tenho plena convicção de que é possível sair dele. Nosso destino não está traçado.
Para não perder o costume, gostaria de indicar o filme CRASH, NO LIMITE![1] As histórias que se entrelaçam e conduzem à surpresas e tragédias, mostram bem como funciona o cotidiano de uma cidade cujas pessoas encontram-se á beira de um ataque de nervos. Preconceito, intolerância, medo e insegurança são os elementos motivadores das tragédias ali relatadas e que se parecem com muitas das que acontecem na vida real. O filme foi o grande ganhador do Oscar em 2006.




(*) Este artigo foi publicado originalmente neste Blog em 16 de agosto de 2010. Republico aqui porque as condições de crise e intolerância se acentuaram de lá para cá. Infelizmente. O que nos impõe a necessidade de corrigirmos um rumo que nos leva em direção a um abismo.

(**) Propaganda feita na voz de Arnaldo Antunes, para o grupo Pão de Açúcar.


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

SOBRE MÁSCARAS, VIOLÊNCIAS E O DIREITO DE SE MANIFESTAR

NIHIL HUMANI A ME ALIENUM PUTO! (NADA DO QUE É HUMANO ME É ESTRANHO)

Essa era a máxima preferida de Karl Marx.
Creio que ela serve para analisarmos o que se passa nas redes sociais. Sabe-se lá com que intenção, alguém (alguns) identificaram uma pessoa com o mesmo perfil do responsável pela morte do cinegrafista da Band e, em uma montagem, para dizer que as TVs estavam manipulando a informação sugerem ser aquele outro o culpado. Por estar conversando com os policiais, certamente imaginaram ser algum agente infiltrado. Ora, essa pessoa teria visto sua foto circulando na rede e já se identificou, certamente preocupado e indignado por tornar-se suspeito. Supõe-se. Essa postagem teve milhares de compartilhamento. O bizarro disso é que os indivíduos responsáveis por detonarem o explosivo, já estavam presos e são réus confessos. Os dois, identificados por vários ângulos, assumiram a responsabilidade, embora um acusasse o outro por acender o explosivo. Qual o objetivo de tentar acusar outras pessoas aleatoriamente? Claro, existem interesses escondidos. Mas talvez poucas pessoas saibam que boa parte dos perfis que existem na internet, é falsa. São os chamados "fakes". Então é melhor se informar antes de reproduzir algo que sirva a interesses escusos.
O fato é que esses comportamentos que levam alguns jovens a exacerbar em seus atos e a agirem com a mesma violência e estupidez com que agem as forças repressoras, causa um efeito colateral sério, e cria os pretextos dos quais necessitam as forças reacionárias e fascistas para limitar os direitos democráticos de manifestação, bem como criminalizar os movimentos sociais, e a exigirem governos mais duros e policialescos. Esses foram argumentos utilizados para a efetivação do golpe militar em 1964. Com essas atitudes prestam um desserviço aos que, criticamente, lutam por transformações mais radicais de forma organizada. Organização que eles repudiam, e agem de forma anárquica, sem objetivos políticos definidos.
A morte desse trabalhador, lamentável sob todos os aspectos, terminou por servir à mídia conservadora dar destaque e pressionar parlamentares para endurecer legislações contra as manifestações.
No combate que fazíamos ao regime militar, já na decadência desse poder, jamais nos faltou coragem e nunca nos sentimos intimidados ou amedrontados com todo o aparato repressor que nos oprimia e que enfrentávamos nas ruas. Sem máscaras, sem armas, num momento em que sabíamos enfrentarmos um regime fragilizado politicamente e que precisávamos do apoio da sociedade.
Repelir a sanha fascista com a mesma estupidez seria, naquele momento, contraproducente, e nos impediria de obter o apoio que necessitávamos para isolar a ditadura e trazer o apoio de toda a sociedade para a transição democrática.
Não foram poucos, e eu me incluo nessa lista, os que sofreram a brutalidade dos cassetetes, do gás lacrimogênio, dos fuzis apontados no peito, das prisões e espancamentos, e dos fichamentos nos antigos DOPS e na Polícia Federal. Sem contar as intermináveis "visitas" às delegacias. Mas agíamos de cara aberta, embora ainda fosse uma ditadura.
No movimento que realizamos em Goiânia, em 1982, contra os aumentos nos ônibus urbanos, denominado "pula catraca", quando resistimos por mais de três meses sem pagar passagens, vencemos pela resistência. Foram tantas as vezes que fomos detidos, e ônibus desviados para delegacia com dezenas de estudantes que haviam pulado a catraca, que os próprios delegados em determinado momento determinaram às empresas de ônibus que não nos levassem mais para que as ocorrências fossem registradas. E assim, muito embora tendo custado a depredação de centenas de ônibus em atos violentos, conquistamos nossos objetivos. Com organização, resistência, determinação e coragem. Sem reagirmos no mesmo nível que a repressão policial.
Essa foto que ilustra a postagem do artigo escrito para o Blog Gramática do Mundo, é do movimento que organizamos na década de 1980, quando depois de meses de "pula-catraca". Conquistamos o meio-passe. Ontem (19/02), também fruto da luta travada pela juventude estudantil, o governo do Estado de Goiás anunciou o fim da querela do passe-livre. Os estudantes podem comemorar mais uma conquista. O direito à manifestação deve ser sagrado, é a condição de pressionar dirigentes, mas, claro, dentro de um certo limite. O uso de máscara, jamais foi aceitável por nós, que travamos lutas homéricas, porque podia esconder eventualmente um provocador, elemento infiltrado disposto a jogar a opinião pública contra o nosso movimento. Mas considerar essas manifestações, mesmo as que excedem no limite do aceitável, como ato de terrorismo é um exagero abominável. O momento que vivemos é complexo, mas não há no curto prazo nenhuma ameaça à democracia. As liberdades políticas são muito mais consistentes do que nos anos de chumbo, ou mesmo nos seus estertores, nos três primeiros anos da década de 1980.
Mas, muito embora saibamos, como bons marxistas, que “a história não se repete”, a não ser como farsa, ou tragédia, podemos encontrar semelhança entre o ambiente político pré 1964 e o que estamos vivendo. A infiltração em manifestações e organizações sociais por agentes da repressão, obviamente prossegue. O grau de espionagem existente atualmente é muito maior, e cabalmente demonstrado nas denúncias feitas por Edward Snowden, analista de sistema que servia à ANS (Agência Nacional de Segurança), dos EUA. Tal qual há 50 anos, há interesse desse país, como de muitos elementos reacionários brasileiros em criar um ambiente de insegurança que leve à população, pelo medo, exigir governos mais duros e ditatoriais.
Aliás, já escrevi a respeito da inversão que se faz ao filme “V, de Vingança”. Ali, o personagem se revolta exatamente contra a manipulação feita por quem pretendia um poder forte. A violência se tornou constante, o regime refluiu no combate e o medo, ao tomar conta da população, a jogou para os braços de um ditador, que militarizou o poder estatal. Foi contra isso que “V” se insurgiu.
O que se vê pelos meios de comunicação, destacadamente nas grandes redes é uma ênfase às notícias sobre fatos violentos, e um clamor crescente da população por mais “segurança”, significando isso mais polícia nas ruas. Ou seja, enquanto nas ruas os manifestantes clamam por desmilitarização da polícia, nos bairros, principalmente os periféricos, a população exige mais polícia, para combater o que a mídia aponta como um descontrole do Estado para conter a violência. No que eu identifico como uma “geopolítica do medo” sendo maquiavelicamente implantada.
Embora a violência exista, e esteja vinculada principalmente ao tráfico de drogas, ela não é combatida em sua essência. Nem as críticas que se fazem a ela dão ênfase às contradições que fazem do capitalismo um sistema profundamente injusto e desigual.
Ao não desejarem participar de organizações de caráter político, e abominarem os partidos políticos, mesmo os que se intitulam revolucionários e socialistas ou comunistas, esses manifestantes deixam de analisar a conjuntura política com base em fatos concretos e na realidade objetiva. Novas "realidades" são perversamente construídas por outros setores da política, que se beneficiam com esses comportamentos, o que leva a fortalecer a indústria do medo, e a exigência de governos fortes, militarizados e com uma base de parlamentares mais conservadores.
Não há dúvidas de que há infiltração nessas manifestações. Tanto por organizações políticas, que temem se apresentar abertamente por medo das reações dos “Black blocs” e visam também “recrutar” novos militantes entre aquela juventude, como por setores fascistas, tipos provocadores que desde aquele momento por mim citado anteriormente, na década de 1980, já se infiltravam em nosso meio. Policiais ou não. Por motivos diferentes esses setores objetivam criar os confrontos para gerar desgaste nos governos, de tal forma que os possam debilitar. O uso da violência, no caso, como mecanismo de se contrapor à repressão policial assume um verniz diferente nos dois casos, mas o resultado é desastroso de qualquer jeito. Principalmente quando o personagem culpado desse tipo de ato não é um indivíduo vinculado às forças repressoras, porventura infiltrado. O que dá margem para a mídia conservadora enfatizar no seu discurso de um ambiente dominado pela insegurança e anarquia.
Não tenham dúvidas de que o principal discurso nas próximas campanhas eleitorais será esse. Dominados pelo medo, que cotidianamente entra em suas casas pelos canais de TV, ou pela própria realidade que as cercam, as pessoas tendem a sucumbir à repetição constante desse discurso, e corremos o risco de ver a eleição de um parlamento muito mais conservador do que o atual.
Esse poderá ser o resultado de atos inconsequentes e irresponsáveis, movidos por um voluntarismo tolo, e a demonstração de atos de estupidez como se fossem atitudes libertárias e revolucionárias. Em um novo tipo de ludismo pós-moderno que está mais para os atos de cegueira atestado por José Saramago.
As máscaras que assumem as frentes dessas manifestações escondem jovens desprovidos de capacidade política para entender os mecanismos que movem a sociedade. Ou meros provocadores desejosos de reeditar aqui no Brasil os mesmos gestos fascistas de 50 anos atrás, quando um golpe militar foi dado com o argumento de por fim à baderna, à desordem e a comunização do país.

Como diz um velho ditado popular: “juízo e caldo de galinha, não fazem mal a ninguém”.

sábado, 8 de dezembro de 2012

A SERVIDÃO AO CAPITAL, A ESCRAVIZAÇÃO AO TRABALHO E A DEPENDÊNCIA DO ÓPIO.

“Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres”
“É a ambição de possuir, mais do que qualquer outra coisa, que impede os homens de viverem de uma maneira livre e nobre”.

Nas últimas postagens tenho procurado refletir sobre a epidemia que se espalha na sociedade e impõe uma brevidade da vida pela estupidez do não-viver. Neste artigo, mais longo, apresento uma espécie de conclusão aos anteriores e analiso as causas.
O vício às drogas: álcool, maconha, crack, oxi, desirré (craconha), heroína, cocaína, e uma infinidade de drogas sintéticas destroem a juventude e a deixa sem futuro algum, já que seu presente lhes é retirado. Pais que perdem seus filhos em vida e se sentem impotentes para livrá-los de uma doença causada pela ambição. Ambição de todos os tipos. Muito embora a procura por elas seja satisfazer o desejo do lúdico, do imponderado, da indecifrável "liberdade". O que na verdade pode representar uma artificialização da felicidade e a antecipação da morte.
Mas as causas que não se atacam estão no âmago da questão e somente um olhar materialista (e dialético) pode detalhar. O estilo de vida mundano, a ansiedade causada pela escravização ao trabalho e a obsessão pelo sucesso que instiga a individualidade e a competição. Numa luta em que se busca o sucesso a qualquer preço. Tudo gira em torno de ter dinheiro. Mas poucos atacam o sistema, como causador de tudo isso. Assim, tem-se um diagnóstico feito sem querer enfrentar a causa. Aqueles pais que perdem seus filhos para as drogas, sabem que as chances de resgatá-los com vida são mínimas. Embora não se deva desistir da recuperação jamais, muitos não conseguem suportar o infortúnio e os conflitos violentos que tal situação cria. Famílias esfumaçam-se como consequência disso, a rua torna-se abrigo de milhares de pessoas, dispersas pelas grandes e médias cidades. Entregues à barbárie de drogas pesadas, tornam-se mortos-vivos, extorquidos de suas dignidades e chacinados por grupos criminosos.
A mídia, que espetaculariza as desgraças, numa batalha entre concorrentes para obter maiores audiências, apresentam a doença sem indicar os germes que são causadores. Transformam a violência em banalidade e exploram o descontrole de uma juventude perdida para as drogas com o intuito somente de manter cada espectador inerte pelo medo em suas cadeiras, aprisionados em suas casas e reféns de um estilo de vida propagandeado a seguir por essa própria mídia. Em seus comerciais, nos filmes em que se glamouriza a violência, e em noticiários especialmente criados para explorarem as desgraças alheias, onde se humilham as pessoas e apresentadores pérfidos se acham no direito de desmoralizar os indivíduos, julgá-los e condená-los. Quanto mais pobres e feios, mais são achincalhados e tidos como escórias da raça humana, que já carregam da espécie o vírus de serem maus, pois equivocadamente  se acreditam que seja da essência do ser humano. Nada se aborda sobre as condições sociais e sobre o sistema causador de todas essas deformações. Algo bem expressado por Marx e Engels, quando disseram: “não é a consciência que determina a existência, mas a existência social que determina a consciência”. (MARX & ENGELS; A Ideologia Alemã).
A violência está fora de controle. Ela está latente e explode a qualquer momento, mesmo diante de circunstâncias completamente inesperadas e que envolvam cidadãos comuns que jamais se conheceram, mas que se odeiam por um simples gesto de intolerância, de impaciência, de olhares desafiadores. Isso decorre da pressão a que cada indivíduo está submetido, como consequência da cobrança a qual todos estão sujeitos, da eficiência, da competência, da capacidade de responder aos desejos do deus onipotente, onipresente e ganancioso: o mercado. Embora o neoliberalismo tenha fracassado, os germes que ele introduziu em um sistema que por essência já é injusto e desigual, permanecem e se reproduzem. E, seguindo-se essa lógica perversa, a competitividade, que se tornou uma essência do mercado disseminou-se como uma praga firmando-se como uma cultura, opondo um ao outro numa concorrência que passou da naturalidade do jeito do ser humano, quando disputava liderança dentro do grupo, para um embate estéril, impulsivo, violento, de sobrepor-se ao outro pela imposição da força e da desqualificação. A ditadura da riqueza se vê acompanhada pela do corpo, do belo, do etnicamente perfeito, da perfeição plástica no sentido etimológico dessa palavra.
A convivência nas cidades, que se constituiu na forma mais eficaz de realização do capitalismo, retirou das pessoas a característica mais importante da vida rural, aglutinação da família em torno da capacidade de produzir coletivamente. A simplicidade do vestir, do viver, da inexistência de vaidades, foi substituída pelo sentimento oposto, porque marcado pela competitividade artificializada pelos desejos impostos pelo consumo. O que antes se produzia coletivamente e manualmente, com os meios de produção que, embora primitivos, eram eficazes para garantir a sobrevivência, se tornam mercadorias não mais possíveis de serem produzidas como antes. Tudo passa a depender da existência do dinheiro. Sempre insuficiente para atender as fantasias construídas pelo “marketing”. Que nada mais é do que a maneira de induzir as pessoas a adquirirem uma determinada mercadoria. O campo foi entregue a grandes corporações e latifundiários ávidos por lucros e sedentos por destruir o que a natureza levou milênios para produzir. Máquinas e produtos químicos substituem as pessoas que foram empurradas para as periferias das cidades.
A servidão ao dinheiro, cujo mecanismo de aprisionamento é o trabalho, impôs às pessoas uma dependência do tempo. Ao invés de seguirmos o preceito de trabalharmos para viver, vimos a lógica ser invertida em viver para trabalhar. E na medida da necessidade de expandir e de ampliar rendas, a família como um todo passa a se dedicar à imposição de se qualificarem objetivando encontrar as condições adequadas para situar-se em um padrão de consumo que lhes possibilitem “ser feliz”. A felicidade passa a ser um objetivo alcançável somente àqueles que conseguem “vencer” na vida. Isso, logicamente, passa a se concretizar diante da nova realidade, na sobreposição e exploração sobre o outro, extraindo de sua força de trabalho a riqueza que construirá uma enorme desigualdade social.
No final da Idade Média, na fase de transição ao capitalismo, o poder absolutista impunha ás pessoas a submissão de leis que as obrigava, até pela punição de chicotadas, a necessidade de se qualificarem para terem condições de servirem à indústria urbana nascente. A vagabundagem, tida na época como crime, era punida de forma dura, com secção de orelhas, enforcamento ou a expulsão da cidade. Era preciso, pela força, alterar a cultura e a rotina das pessoas, cuja atividade produtiva até então não obedecia a regras rígidas, a não ser àquelas que a própria natureza exigia, mas que lhes possibilitavam trabalhar e produzir para viver sem a ânsia consumista que o novo sistema passava a exigir. Mesmo com toda exigência das relações feudais e, principalmente, da corveia, obrigação do servo de servir ao senhor em alguns dias da semana (MARX, O Capital, Livro I, Vol. 2, p. 851-859. Ed. Civilização Brasileira, 1980)
Contudo, a importância do dinheiro para adquirir mercadorias, já não mais possíveis de serem produzidas manualmente como antes, até porque os meios de produção lhes escapam do controle, modifica o tipo de servidão. A dependência a partir de então passa a ser da forçosa necessidade de adquirir trabalho que lhe possibilite ganhar um salário, e, enfim, transformar-se em consumidor. Antes citadino, o indivíduo passa a cidadão, pois além de viver nas cidades algumas obrigações vinham também acompanhadas de direitos. Com o tempo, mais importante do que o direito de ser cidadão destaca-se o fato de se ser consumidor. Não trabalhar, estar desempregado e não ter um salário que lhes permitam consumir torna as pessoas párias, pobres, e ultimamente, excluídos. O sistema flexibiliza-se de tal forma que nos dias de hoje é permitido ser pobre, já que se criou uma hierarquia onde produtos de qualidades inferiores são fabricados para inserir essa camada na lógica consumista do mercado. O excluído assume um sentido mais específico, que significa delimitar às claras as fronteiras que separam pobres e ricos, já que o sistema reparte-se em várias camadas, cada uma tendo acesso a nichos de um mercado que se diferenciam na qualidade e nas condições de viver, e viver bem.
Mas, as cidades que representaram uma mudança revolucionária nessas condições de vida, possibilitaram, mesmo que na lógica egoísta do mercantilismo, avanços significativos nos meios de produção, de trabalho e de consumo. Aceleradamente, revolucionando incessantemente os meios de produção, a classe dominante no sistema capitalista – ou, para evitar polêmica, a classe hegemonicamente dominante –, a burguesia, encontrou na revolução permanente das técnicas e das inovações tecnológicas o mecanismo ideal para reproduzir o capital de forma descontrolável, ampliando a ganância, a usura e o individualismo a níveis da insensibilidade com as condições desiguais das pessoas. Até porque é sobre essa desigualdade que os instrumentos que geram a obsessão pela riqueza efetivam essas diferenças. Não há riqueza que não seja construída mediante um processo de exploração do outro. E, absolutamente, isso não é desígnio concedido por divindade alguma, decorre do processo que opõem de um lado aqueles que possuem os meios de produção, e de outro, os que só possuem sua força de trabalho.
Mas as mudanças estruturais no funcionamento do sistema capitalista foram gradativamente criando oportunidade em atividades meio. Pela própria rotina imposta em função das condições de vida nas cidades, onde tudo tem preço, vira mercadoria, vão surgindo atividades em serviços que passam a requerer também uma capacidade específica, impondo mais uma vez, e sempre, novas necessidades de qualificação. Esses mecanismos, que geram essas novas atividades, reforçam nas pessoas o sentimento de que podem ascender socialmente. Entre as camadas mais pobres e a elite dominante, foi se constituindo uma classe intermediária, intitulada por Marx de pequena burguesia, e que ao longo do tempo, com a inserção de novas ideologias inseridas por intelectuais adeptos do novo sistema, passou a ser intitulada como classe média. Ou classes médias.
geraçãoai5.blogspot
Estabeleciam-se, assim, novos degraus que indicavam as pessoas serem possíveis atingir condições adequadas de vida. Rompendo com a cultura do mundo medieval, cismas religiosos acompanhavam a escalada da burguesia, e avalizavam como predestinação divina o que antes era tido como pecado capital. O protestantismo, e mais claramente, a corrente calvinista, abençoava aqueles enriquecidos, porque teriam esses, pela mão de Deus, e pelo trabalho, assegurado a construção do paraíso na terra. Nos tempos atuais, essa ideologia foi aperfeiçoada, ampliando a individualidade nos objetivos já carregados dessa condição, fazendo surgir, através do neopentecostalismo, a teoria da prosperidade. As igrejas, excetuando-se aquelas que mantinham as tradições antigas, tornavam-se verdadeiros templos financeiros (pelo que se vende e se lucra), onde se oferecem as bênçãos capazes de conduzir os fiéis de encontro aos seus paraísos terrenos.
A burguesia, com essas mudanças, conteve os ímpetos revolucionários. Conseguiu dessa forma disseminar outras vontades, que não somente a transformação de um sistema injusto e desigual, mas ampliar o desejo individual da maioria de fazer parte de uma parcela restrita daqueles que efetivamente poderiam atingir patamares superiores nos padrões consumistas. Embora o sistema permanecesse tal qual em sua lógica inicial, espalhava-se entre a população o sentimento de que era possível “subir mais”. A classe média, a antiga pequena burguesia, passou a assumir a frente da luta visando garantir e manter privilégios, aceitando as condições impostas pela burguesia e procurando distanciar-se ao máximo das camadas pobres. As condições desiguais e injustas consolidavam-se agora tendo a classe média como um gendarme da classe dominante. E assumiu a condução dos mecanismos criados para manter a ordem capitalista, inclusive o próprio poder político. A socialdemocracia surge, então, para ideologicamente conduzir esse processo.
O fracasso das estruturas dos países que haviam rompido com o sistema capitalista, impossibilitados de competir com a sedução neurastênica do modo de produção anarco-capitalista, e em dificuldades para garantir à sua população uma produção de alimentos que atendesse a uma demanda crescente, deu a indicação de um final da história capitalista. Puro engodo de um enredo de ficção. Enquanto existir ser humano e memória a história é infindável. E porquanto houver opressão nenhum sistema será infinito, nem o último da história da humanidade.
legio-victrix.blogspot
Mas é inegável que o deslumbramento passou a se constituir em uma das armas vitais, para as classes dominantes, nas sociedades modernas. As novas tecnologias, implementadas celeremente logo após a queda dos países socialistas, e mediante uma enfurecida jogada de marketing para ocupar os espaços confusos daqueles países e pressionar pela desregulamentação da economia nos países em desenvolvimento, possibilitou a difusão de uma ideia que se impôs além-fronteiras. Ao mundo só restava quedarse ao senso comum, da vitória capitalista, do livre mercado, da competição e da busca pelo sucesso individual.
Em menos de duas décadas o resultado de tudo isso criou uma geração de neuróticos, violentos e de crentes na teologia da prosperidade. Mas que deve ser entendida dentro de uma hierarquia social, pois se apresenta com nuances diferenciadas, como em toda sociedade hierarquizada socialmente. Os objetivos daqueles que se situam nas camadas mais pobres é de obter as mínimas condições de sobrevivência, ampliarem suas possibilidades de ascender socialmente e de terem acesso ao mercado de produtos sofisticados tecnologicamente. Além das duas aspirações principais, terem uma casa para morar e adquirir um carro que lhes deem maiores mobilidades. O automóvel, assim, se torna o termômetro da indústria capitalista moderna.
O individualismo, incorporado agressivamente na cultura das sociedades contemporâneas, e transformado em elemento ideológico a referendar as maiores ambições das classes dominantes e a estimular os desejos das camadas inferiores, se constituiu em uma espécie de bomba-relógio. Despertou as maiores ambições possíveis existentes nos indivíduos, viventes em ambientes que passaram a clamar pela ostentação do luxo e pelo êxtase em se situar na condição de vitorioso, independente dos efeitos colaterais que esses comportamentos geravam. Mas, como um bumerangue, não tardou a retornar ao ponto de partida, sem controle, e com uma violência desmedida.
Entregues à tarefa de consolidar seus objetivos gananciosos a classe dominante imaginou que, ao construir suas fortalezas, em condomínios fechados luxuosos, ou em mansões verticais em bairros apartados da pobreza, consolidariam um modo de vida livre das chagas da miséria sobre a qual esse luxo se impunha. Até porque, o comportamento de vida estressante impunha a jovens executivos aprisionados na teia criada pelo estilo neoliberal de ser, a busca por alguns mecanismos sedutores, que lhes pudesse aliviar o condicionamento escravizante da busca obsessiva pela liderança. As drogas se constituíam nesses instrumentos que lhes aliviavam das cobranças que impunham uma obrigação de a cada final de dia manter lucros cada vez mais acentuados.
Mas havia um preço social, além do custo econômico, a pagar por isso. A busca pela mercadoria que lhes aliviaria das tensões e pressões pela permanente superação e de vitórias continuadas só seria possível diante de ilicitudes. O ópio a que me refiro no título, é na verdade as drogas, que em algumas sociedades naturalmente são utilizadas dentro das circunstâncias que a natureza do local permite, ou até mesmo em decorrência das dificuldades de suportar os condicionantes dela – como na Bolívia, onde mascar folha de coca alivia os fatores da altitude –, passaram a se constituir em mercadorias proibidas pelo excesso criminoso de produtos químicos, à exceção da maconha. Mas mesmo neste caso a química já começa a alterar suas propriedades, até então tida como natural e menos prejudicial à saúde do que as demais, apesar de envolta em polêmica quanto a sua liberação. O que a torna também uma mercadoria ilícita. E o álcool, aceito e legalizado na sociedade, com uma indústria poderosa, mas com os mesmos efeitos colaterais na dissolução da família e na potencialização da violência.
Cocaína
A demanda crescente por essas drogas fez fortalecer um comércio ilegal e criminoso, incontrolável. Nas grandes cidades, a neurose propiciada pela pressão pelo sucesso profissional, pelo tempo desperdiçado no deslocamento entre os lugares, pelo transito massacrante e violento, pela disputa que marca o relacionamento cada vez mais individualista entre as pessoas e a disciplina cada vez mais rígida e exploradora na relação capital x trabalho, empurra-as em direção a esses mecanismos que se supõe aliviar o stress e garantem uma sensação de felicidade. E transforma o tráfico dos produtos utilizados para produzi-las em um negócio altamente rentável que impulsiona a criminalidade e a violência a níveis assustadores.
Uma trágica relação dialética impõe que uma parte daqueles que se tornam dependentes químicos também se constituam em mercadores, submetidos à escravização pelos comandantes desse comércio ilícito e macabro. Isso resulta em uma crescente ampliação de um exército poderoso, que se envolve por extensão no também lucrativo comércio de armas. Essa mistura, que tem de um lado consumidores ávidos por uma mercadoria que lhes põem em êxtase, e de outro, marginais dispostos a tudo para dominar um mercado lucrativo, nada mais é do que o resultado, ou a consequência, de como as sociedades contemporâneas se estruturaram, e da cultura criada a partir das deformações do sistema capitalista. E a violência gerada a partir dessas contradições, dissemina um medo que impõe às pessoas a necessidade de se protegerem, constituindo um novo mercado que surge desse processo: da segurança privada.
Ao Estado se exige um aparato repressivo sofisticado, para combater um exército irregular, composto por indivíduos que, parafraseando o que disse Marx no Manifesto Comunista, “já não tem mais nada a perder, a não ser suas cadeias”. E, retornando ao que abordei no artigo anterior, essas são condições piores do que a própria morte, algo reconhecido pelo próprio ministro da Justiça. Além de parecer um exército de zumbis, já que se reproduzem aceleradamente, por mais que se eliminem territórios por eles dominados. O deslocamento dessas quadrilhas para outros bairros periféricos, a corrupção policial e a permanente demanda, faz com que essas estruturas criminosas assemelhem-se a uma hidra, monstruosidade mítica com corpo de dragão e sete cabeças de serpentes, que se reconstituíam sempre que uma fosse decapitada. Para derrotá-la Hércules, outro personagem mitológico, teria que impedir sua reprodução cicatrizando rapidamente o local da cabeça decapitada.
Os tráficos de drogas, de armas, e de pessoas, jamais serão contidos, enquanto na sociedade persistir uma enorme demanda e consumidores desejosos de pagar por essas mercadorias. A condição efetiva de por fim a essa permanente reconstituição, como no combate à hidra, passa pelo fim das estruturas que lhes possibilitam ser esse um mercado altamente lucrativo. Mas isso não será possível diante das circunstâncias atuais, já que o condicionante nisso tudo se refere ao funcionamento do sistema capitalista, e não é possível extrair isso de sua essência, a não ser que signifique a sua própria destruição.
Ecstasy
Assim, por mais que se tente discipliná-lo, já que não se pode usar o termo civilizar como se fazia antes, pela própria selvageria imposta pelo jeito de se viver nas grandes cidades, novas cabeças de hidras se reproduzirão. As alternativas apresentadas, no âmbito das religiões, não conseguem conter – e isso pode ser observado historicamente – o sentido que está por trás dessa lógica: a usura, a ganância, a individualidade, e tudo que é gerado a partir daí, e que faz do nosso comportamento e de nossa cultura instrumentos que se voltam contra nós próprios e dificultam qualquer mudança. Ambição, egoísmo, vaidade, atitudes mesquinhas, são vírus presentes putridus in corpus.
Assim, somos impulsionados a entorpecer nosso corpo, ou nossa mente, para suportarmos a tirania que nos impõe uma lógica massacrante de submissão ao trabalho, e ao mercado, para saciá-lo de lucro.
Creio, contudo, como disse Marx, que o ser humano jamais se depara com problemas que ele próprio não possa resolver. Mas para isso é preciso, como ele mesmo acreditava, que se encontrem formas de organização que garantam as mudanças que nos livrem da barbárie. Qualquer alteração no estilo de vida a que estamos submetidos só será possível com uma transformação radical no próprio sistema. Extrair a sua essência. E isso significa que ele precisa ser destruído e substituído por outro, em que os valores sejam baseados na cooperação entre as pessoas visando um bem estar comum, onde os meios de produção e as novas tecnologias não estejam a serviço de uma minoria, e que o trabalho não significa algo escravizante, mas prazeroso, dentro de um limite que nos garanta usufruir o tempo curto que representa a nossa vida.
E, se o futuro é uma utopia, mas que mesmo assim insistimos em alcançá-lo, é no presente que ele deve ser construído. Então, não resta tempo a perder. Já que, como dizia o poeta Vinicius de Morais, “a essência do ser humano é a liberdade”.
 

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

LIBERDADE, LIBERDADE! A SERVIDÃO AO CAPITAL, A ESCRAVIZAÇÃO AO TRABALHO E A DEPENDÊNCIA DO ÓPIO.


“Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres”

“É a ambição de possuir, mais do que qualquer outra coisa, que impede os homens de viverem de uma maneira livre e nobre”.

Nas últimas postagens tenho procurado refletir sobre a epidemia que se espalha na sociedade e impõe uma brevidade da vida pela estupidez do não-viver. Neste artigo, mais longo, apresento uma espécie de conclusão aos anteriores e analiso as causas.
O vício às drogas: álcool, maconha, crack, oxi, desirré (craconha), heroína, cocaína, e uma infinidade de drogas sintéticas destroem a juventude e a deixa sem futuro algum, já que seu presente lhes é retirado. Pais que perdem seus filhos em vida e se sentem impotentes para livrá-los de uma doença causada pela ambição. Ambição de todos os tipos. Muito embora a procura por elas seja satisfazer o desejo do lúdico, do imponderado, da indecifrável "liberdade". O que na verdade pode representar uma artificialização da felicidade e a antecipação da morte.
Mas as causas que não se atacam estão no âmago da questão e somente um olhar materialista (e dialético) pode detalhar. O estilo de vida mundano, a ansiedade causada pela escravização ao trabalho e a obsessão pelo sucesso que instiga a individualidade e a competição. Numa luta em que se busca o sucesso a qualquer preço. Tudo gira em torno de ter dinheiro. Mas poucos atacam o sistema, como causador de tudo isso. Assim, tem-se um diagnóstico feito sem querer enfrentar a causa. Aqueles pais que perdem seus filhos para as drogas, sabem que as chances de resgatá-los com vida são mínimas. Embora não se deva desistir da recuperação jamais, muitos não conseguem suportar o infortúnio e os conflitos violentos que tal situação cria. Famílias esfumaçam-se como consequência disso, a rua torna-se abrigo de milhares de pessoas, dispersas pelas grandes e médias cidades. Entregues à barbárie de drogas pesadas, tornam-se mortos-vivos, extorquidos de suas dignidades e chacinados por grupos criminosos.
A mídia, que espetaculariza as desgraças, numa batalha entre concorrentes para obter maiores audiências, apresentam a doença sem indicar os germes que são causadores. Transformam a violência em banalidade e exploram o descontrole de uma juventude perdida para as drogas com o intuito somente de manter cada espectador inerte pelo medo em suas cadeiras, aprisionados em suas casas e reféns de um estilo de vida propagandeado a seguir por essa própria mídia. Em seus comerciais, nos filmes em que se glamouriza a violência, e em noticiários especialmente criados para explorarem as desgraças alheias, onde se humilham as pessoas e apresentadores pérfidos se acham no direito de desmoralizar os indivíduos, julgá-los e condená-los. Quanto mais pobres e feios, mais são achincalhados e tidos como escórias da raça humana, que já carregam da espécie o vírus de serem maus, pois equivocadamente  se acreditam que seja da essência do ser humano. Nada se aborda sobre as condições sociais e sobre o sistema causador de todas essas deformações. Algo bem expressado por Marx e Engels, quando disseram: “não é a consciência que determina a existência, mas a existência social que determina a consciência”. (MARX & ENGELS; A Ideologia Alemã).
A violência está fora de controle. Ela está latente e explode a qualquer momento, mesmo diante de circunstâncias completamente inesperadas e que envolvam cidadãos comuns que jamais se conheceram, mas que se odeiam por um simples gesto de intolerância, de impaciência, de olhares desafiadores. Isso decorre da pressão a que cada indivíduo está submetido, como consequência da cobrança a qual todos estão sujeitos, da eficiência, da competência, da capacidade de responder aos desejos do deus onipotente, onipresente e ganancioso: o mercado. Embora o neoliberalismo tenha fracassado, os germes que ele introduziu em um sistema que por essência já é injusto e desigual, permanecem e se reproduzem. E, seguindo-se essa lógica perversa, a competitividade, que se tornou uma essência do mercado disseminou-se como uma praga firmando-se como uma cultura, opondo um ao outro numa concorrência que passou da naturalidade do jeito do ser humano, quando disputava liderança dentro do grupo, para um embate estéril, impulsivo, violento, de sobrepor-se ao outro pela imposição da força e da desqualificação. A ditadura da riqueza se vê acompanhada pela do corpo, do belo, do etnicamente perfeito, da perfeição plástica no sentido etimológico dessa palavra.
A convivência nas cidades, que se constituiu na forma mais eficaz de realização do capitalismo, retirou das pessoas a característica mais importante da vida rural, aglutinação da família em torno da capacidade de produzir coletivamente. A simplicidade do vestir, do viver, da inexistência de vaidades, foi substituída pelo sentimento oposto, porque marcado pela competitividade artificializada pelos desejos impostos pelo consumo. O que antes se produzia coletivamente e manualmente, com os meios de produção que, embora primitivos, eram eficazes para garantir a sobrevivência, se tornam mercadorias não mais possíveis de serem produzidas como antes. Tudo passa a depender da existência do dinheiro. Sempre insuficiente para atender as fantasias construídas pelo “marketing”. Que nada mais é do que a maneira de induzir as pessoas a adquirirem uma determinada mercadoria. O campo foi entregue a grandes corporações e latifundiários ávidos por lucros e sedentos por destruir o que a natureza levou milênios para produzir. Máquinas e produtos químicos substituem as pessoas que foram empurradas para as periferias das cidades.
A servidão ao dinheiro, cujo mecanismo de aprisionamento é o trabalho, impôs às pessoas uma dependência do tempo. Ao invés de seguirmos o preceito de trabalharmos para viver, vimos a lógica ser invertida em viver para trabalhar. E na medida da necessidade de expandir e de ampliar rendas, a família como um todo passa a se dedicar à imposição de se qualificarem objetivando encontrar as condições adequadas para situar-se em um padrão de consumo que lhes possibilitem “ser feliz”. A felicidade passa a ser um objetivo alcançável somente àqueles que conseguem “vencer” na vida. Isso, logicamente, passa a se concretizar diante da nova realidade, na sobreposição e exploração sobre o outro, extraindo de sua força de trabalho a riqueza que construirá uma enorme desigualdade social.
No final da Idade Média, na fase de transição ao capitalismo, o poder absolutista impunha ás pessoas a submissão de leis que as obrigava, até pela punição de chicotadas, a necessidade de se qualificarem para terem condições de servirem à indústria urbana nascente. A vagabundagem, tida na época como crime, era punida de forma dura, com secção de orelhas, enforcamento ou a expulsão da cidade. Era preciso, pela força, alterar a cultura e a rotina das pessoas, cuja atividade produtiva até então não obedecia a regras rígidas, a não ser àquelas que a própria natureza exigia, mas que lhes possibilitavam trabalhar e produzir para viver sem a ânsia consumista que o novo sistema passava a exigir. Mesmo com toda exigência das relações feudais e, principalmente, da corveia, obrigação do servo de servir ao senhor em alguns dias da semana (MARX, O Capital, Livro I, Vol. 2, p. 851-859. Ed. Civilização Brasileira, 1980)
Contudo, a importância do dinheiro para adquirir mercadorias, já não mais possíveis de serem produzidas manualmente como antes, até porque os meios de produção lhes escapam do controle, modifica o tipo de servidão. A dependência a partir de então passa a ser da forçosa necessidade de adquirir trabalho que lhe possibilite ganhar um salário, e, enfim, transformar-se em consumidor. Antes citadino, o indivíduo passa a cidadão, pois além de viver nas cidades algumas obrigações vinham também acompanhadas de direitos. Com o tempo, mais importante do que o direito de ser cidadão destaca-se o fato de se ser consumidor. Não trabalhar, estar desempregado e não ter um salário que lhes permitam consumir torna as pessoas párias, pobres, e ultimamente, excluídos. O sistema flexibiliza-se de tal forma que nos dias de hoje é permitido ser pobre, já que se criou uma hierarquia onde produtos de qualidades inferiores são fabricados para inserir essa camada na lógica consumista do mercado. O excluído assume um sentido mais específico, que significa delimitar às claras as fronteiras que separam pobres e ricos, já que o sistema reparte-se em várias camadas, cada uma tendo acesso a nichos de um mercado que se diferenciam na qualidade e nas condições de viver, e viver bem.
Mas, as cidades que representaram uma mudança revolucionária nessas condições de vida, possibilitaram, mesmo que na lógica egoísta do mercantilismo, avanços significativos nos meios de produção, de trabalho e de consumo. Aceleradamente, revolucionando incessantemente os meios de produção, a classe dominante no sistema capitalista – ou, para evitar polêmica, a classe hegemonicamente dominante –, a burguesia, encontrou na revolução permanente das técnicas e das inovações tecnológicas o mecanismo ideal para reproduzir o capital de forma descontrolável, ampliando a ganância, a usura e o individualismo a níveis da insensibilidade com as condições desiguais das pessoas. Até porque é sobre essa desigualdade que os instrumentos que geram a obsessão pela riqueza efetivam essas diferenças. Não há riqueza que não seja construída mediante um processo de exploração do outro. E, absolutamente, isso não é desígnio concedido por divindade alguma, decorre do processo que opõem de um lado aqueles que possuem os meios de produção, e de outro, os que só possuem sua força de trabalho.
Mas as mudanças estruturais no funcionamento do sistema capitalista foram gradativamente criando oportunidade em atividades meio. Pela própria rotina imposta em função das condições de vida nas cidades, onde tudo tem preço, vira mercadoria, vão surgindo atividades em serviços que passam a requerer também uma capacidade específica, impondo mais uma vez, e sempre, novas necessidades de qualificação. Esses mecanismos, que geram essas novas atividades, reforçam nas pessoas o sentimento de que podem ascender socialmente. Entre as camadas mais pobres e a elite dominante, foi se constituindo uma classe intermediária, intitulada por Marx de pequena burguesia, e que ao longo do tempo, com a inserção de novas ideologias inseridas por intelectuais adeptos do novo sistema, passou a ser intitulada como classe média. Ou classes médias.
geraçãoai5.blogspot
Estabeleciam-se, assim, novos degraus que indicavam as pessoas serem possíveis atingir condições adequadas de vida. Rompendo com a cultura do mundo medieval, cismas religiosos acompanhavam a escalada da burguesia, e avalizavam como predestinação divina o que antes era tido como pecado capital. O protestantismo, e mais claramente, a corrente calvinista, abençoava aqueles enriquecidos, porque teriam esses, pela mão de Deus, e pelo trabalho, assegurado a construção do paraíso na terra. Nos tempos atuais, essa ideologia foi aperfeiçoada, ampliando a individualidade nos objetivos já carregados dessa condição, fazendo surgir, através do neopentecostalismo, a teoria da prosperidade. As igrejas, excetuando-se aquelas que mantinham as tradições antigas, tornavam-se verdadeiros templos financeiros (pelo que se vende e se lucra), onde se oferecem as bênçãos capazes de conduzir os fiéis de encontro aos seus paraísos terrenos.
A burguesia, com essas mudanças, conteve os ímpetos revolucionários. Conseguiu dessa forma disseminar outras vontades, que não somente a transformação de um sistema injusto e desigual, mas ampliar o desejo individual da maioria de fazer parte de uma parcela restrita daqueles que efetivamente poderiam atingir patamares superiores nos padrões consumistas. Embora o sistema permanecesse tal qual em sua lógica inicial, espalhava-se entre a população o sentimento de que era possível “subir mais”. A classe média, a antiga pequena burguesia, passou a assumir a frente da luta visando garantir e manter privilégios, aceitando as condições impostas pela burguesia e procurando distanciar-se ao máximo das camadas pobres. As condições desiguais e injustas consolidavam-se agora tendo a classe média como um gendarme da classe dominante. E assumiu a condução dos mecanismos criados para manter a ordem capitalista, inclusive o próprio poder político. A socialdemocracia surge, então, para ideologicamente conduzir esse processo.
O fracasso das estruturas dos países que haviam rompido com o sistema capitalista, impossibilitados de competir com a sedução neurastênica do modo de produção anarco-capitalista, e em dificuldades para garantir à sua população uma produção de alimentos que atendesse a uma demanda crescente, deu a indicação de um final da história capitalista. Puro engodo de um enredo de ficção. Enquanto existir ser humano e memória a história é infindável. E porquanto houver opressão nenhum sistema será infinito, nem o último da história da humanidade.
legio-victrix.blogspot
Mas é inegável que o deslumbramento passou a se constituir em uma das armas vitais, para as classes dominantes, nas sociedades modernas. As novas tecnologias, implementadas celeremente logo após a queda dos países socialistas, e mediante uma enfurecida jogada de marketing para ocupar os espaços confusos daqueles países e pressionar pela desregulamentação da economia nos países em desenvolvimento, possibilitou a difusão de uma ideia que se impôs além-fronteiras. Ao mundo só restava quedarse ao senso comum, da vitória capitalista, do livre mercado, da competição e da busca pelo sucesso individual.
Em menos de duas décadas o resultado de tudo isso criou uma geração de neuróticos, violentos e de crentes na teologia da prosperidade. Mas que deve ser entendida dentro de uma hierarquia social, pois se apresenta com nuances diferenciadas, como em toda sociedade hierarquizada socialmente. Os objetivos daqueles que se situam nas camadas mais pobres é de obter as mínimas condições de sobrevivência, ampliarem suas possibilidades de ascender socialmente e de terem acesso ao mercado de produtos sofisticados tecnologicamente. Além das duas aspirações principais, terem uma casa para morar e adquirir um carro que lhes deem maiores mobilidades. O automóvel, assim, se torna o termômetro da indústria capitalista moderna.
O individualismo, incorporado agressivamente na cultura das sociedades contemporâneas, e transformado em elemento ideológico a referendar as maiores ambições das classes dominantes e a estimular os desejos das camadas inferiores, se constituiu em uma espécie de bomba-relógio. Despertou as maiores ambições possíveis existentes nos indivíduos, viventes em ambientes que passaram a clamar pela ostentação do luxo e pelo êxtase em se situar na condição de vitorioso, independente dos efeitos colaterais que esses comportamentos geravam. Mas, como um bumerangue, não tardou a retornar ao ponto de partida, sem controle, e com uma violência desmedida.
Entregues à tarefa de consolidar seus objetivos gananciosos a classe dominante imaginou que, ao construir suas fortalezas, em condomínios fechados luxuosos, ou em mansões verticais em bairros apartados da pobreza, consolidariam um modo de vida livre das chagas da miséria sobre a qual esse luxo se impunha. Até porque, o comportamento de vida estressante impunha a jovens executivos aprisionados na teia criada pelo estilo neoliberal de ser, a busca por alguns mecanismos sedutores, que lhes pudesse aliviar o condicionamento escravizante da busca obsessiva pela liderança. As drogas se constituíam nesses instrumentos que lhes aliviavam das cobranças que impunham uma obrigação de a cada final de dia manter lucros cada vez mais acentuados.
Mas havia um preço social, além do custo econômico, a pagar por isso. A busca pela mercadoria que lhes aliviaria das tensões e pressões pela permanente superação e de vitórias continuadas só seria possível diante de ilicitudes. O ópio a que me refiro no título, é na verdade as drogas, que em algumas sociedades naturalmente são utilizadas dentro das circunstâncias que a natureza do local permite, ou até mesmo em decorrência das dificuldades de suportar os condicionantes dela – como na Bolívia, onde mascar folha de coca alivia os fatores da altitude –, passaram a se constituir em mercadorias proibidas pelo excesso criminoso de produtos químicos, à exceção da maconha. Mas mesmo neste caso a química já começa a alterar suas propriedades, até então tida como natural e menos prejudicial à saúde do que as demais, apesar de envolta em polêmica quanto a sua liberação. O que a torna também uma mercadoria ilícita. E o álcool, aceito e legalizado na sociedade, com uma indústria poderosa, mas com os mesmos efeitos colaterais na dissolução da família e na potencialização da violência.
Cocaína
A demanda crescente por essas drogas fez fortalecer um comércio ilegal e criminoso, incontrolável. Nas grandes cidades, a neurose propiciada pela pressão pelo sucesso profissional, pelo tempo desperdiçado no deslocamento entre os lugares, pelo transito massacrante e violento, pela disputa que marca o relacionamento cada vez mais individualista entre as pessoas e a disciplina cada vez mais rígida e exploradora na relação capital x trabalho, empurra-as em direção a esses mecanismos que se supõe aliviar o stress e garantem uma sensação de felicidade. E transforma o tráfico dos produtos utilizados para produzi-las em um negócio altamente rentável que impulsiona a criminalidade e a violência a níveis assustadores.
Uma trágica relação dialética impõe que uma parte daqueles que se tornam dependentes químicos também se constituam em mercadores, submetidos à escravização pelos comandantes desse comércio ilícito e macabro. Isso resulta em uma crescente ampliação de um exército poderoso, que se envolve por extensão no também lucrativo comércio de armas. Essa mistura, que tem de um lado consumidores ávidos por uma mercadoria que lhes põem em êxtase, e de outro, marginais dispostos a tudo para dominar um mercado lucrativo, nada mais é do que o resultado, ou a consequência, de como as sociedades contemporâneas se estruturaram, e da cultura criada a partir das deformações do sistema capitalista. E a violência gerada a partir dessas contradições, dissemina um medo que impõe às pessoas a necessidade de se protegerem, constituindo um novo mercado que surge desse processo: da segurança privada.
Ao Estado se exige um aparato repressivo sofisticado, para combater um exército irregular, composto por indivíduos que, parafraseando o que disse Marx no Manifesto Comunista, “já não tem mais nada a perder, a não ser suas cadeias”. E, retornando ao que abordei no artigo anterior, essas são condições piores do que a própria morte, algo reconhecido pelo próprio ministro da Justiça. Além de parecer um exército de zumbis, já que se reproduzem aceleradamente, por mais que se eliminem territórios por eles dominados. O deslocamento dessas quadrilhas para outros bairros periféricos, a corrupção policial e a permanente demanda, faz com que essas estruturas criminosas assemelhem-se a uma hidra, monstruosidade mítica com corpo de dragão e sete cabeças de serpentes, que se reconstituíam sempre que uma fosse decapitada. Para derrotá-la Hércules, outro personagem mitológico, teria que impedir sua reprodução cicatrizando rapidamente o local da cabeça decapitada.
Os tráficos de drogas, de armas, e de pessoas, jamais serão contidos, enquanto na sociedade persistir uma enorme demanda e consumidores desejosos de pagar por essas mercadorias. A condição efetiva de por fim a essa permanente reconstituição, como no combate à hidra, passa pelo fim das estruturas que lhes possibilitam ser esse um mercado altamente lucrativo. Mas isso não será possível diante das circunstâncias atuais, já que o condicionante nisso tudo se refere ao funcionamento do sistema capitalista, e não é possível extrair isso de sua essência, a não ser que signifique a sua própria destruição.
Ecstasy
Assim, por mais que se tente discipliná-lo, já que não se pode usar o termo civilizar como se fazia antes, pela própria selvageria imposta pelo jeito de se viver nas grandes cidades, novas cabeças de hidras se reproduzirão. As alternativas apresentadas, no âmbito das religiões, não conseguem conter – e isso pode ser observado historicamente – o sentido que está por trás dessa lógica: a usura, a ganância, a individualidade, e tudo que é gerado a partir daí, e que faz do nosso comportamento e de nossa cultura instrumentos que se voltam contra nós próprios e dificultam qualquer mudança. Ambição, egoísmo, vaidade, atitudes mesquinhas, são vírus presentes putridus in corpus.
Assim, somos impulsionados a entorpecer nosso corpo, ou nossa mente, para suportarmos a tirania que nos impõe uma lógica massacrante de submissão ao trabalho, e ao mercado, para saciá-lo de lucro.
Creio, contudo, como disse Marx, que o ser humano jamais se depara com problemas que ele próprio não possa resolver. Mas para isso é preciso, como ele mesmo acreditava, que se encontrem formas de organização que garantam as mudanças que nos livrem da barbárie. Qualquer alteração no estilo de vida a que estamos submetidos só será possível com uma transformação radical no próprio sistema. Extrair a sua essência. E isso significa que ele precisa ser destruído e substituído por outro, em que os valores sejam baseados na cooperação entre as pessoas visando um bem estar comum, onde os meios de produção e as novas tecnologias não estejam a serviço de uma minoria, e que o trabalho não significa algo escravizante, mas prazeroso, dentro de um limite que nos garanta usufruir o tempo curto que representa a nossa vida.
E, se o futuro é uma utopia, mas que mesmo assim insistimos em alcançá-lo, é no presente que ele deve ser construído. Então, não resta tempo a perder. Já que, como dizia o poeta Vinicius de Morais, “a essência do ser humano é a liberdade”.