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quarta-feira, 12 de agosto de 2020

TODOS NÓS SOMOS AMERICANOS – REFLEXÕES SOBRE A APROPRIAÇÃO DO NOME DE UM CONTINENTE PELOS EUA

Esse é um assunto que de forma recorrente trato em minhas aulas de geopolítica[1]: a apropriação do termo “americano” pelos Estados Unidos da América. Desta feita vou partir da leitura de um texto de Michael Walzer,  “Que significa ser americano?”,[2] quando o autor propõe uma reflexão sobre não somente o sentido dessa expressão, como do próprio caráter da identidade do cidadão nascido naquele país, bem como de sua relação com o caráter da nação, ou do nacionalismo.

Mas a meu ver, além de uma opinião muito focada das concepções liberais republicanas, afinadas com os setores conservadores, ele peca ao omitir um elemento que é crucial para entendermos esse processo de afirmação dos EUA como um estado imperialista, e da apropriação do sentido de ser “americano”. Refiro-me à questão religiosa, cujos elementos foram norteadores do manifesto que impôs à governança estadunidense os caminhos que passaram a trilhar a partir do século XIX, e a enxergar o restante da América como submissa aos seus interesses imperais.

Podemos, e devemos sempre, encontrar as respostas para as origens dessa apropriação com uma rápida digressão histórica. Mas antes eu quero dizer que sou, e sempre fui, apaixonado na história dos Estados Unidos, em todo o seu processo desde a transformação de colônia em um dos primeiros países independentes e de constituição republicana, por meios revolucionários. Bem como se deu sua expansão territorial se apropriando de terras mexicanas, adquirindo territórios dominados pelos franceses e até mesmo pelos russos. E suas conquistas territoriais que conta-se pela bravura dos exploradores, mas omite-se o verdadeiro genocídio do povo autóctone, os indígenas. Apaixonar-se por uma história não significa compactuar com os malfeitos, muito menos aderir aos arroubos imperiais ou imperialistas que passaram a caracterizar esse país a partir do século XIX.

Tenho repetido que os Estados Unidos nasceu como um país sem nome, e essa “deformação” deveu-se à escolha das lideranças de suas colônias, quando do processo de luta para libertar-se das explorações impostas pelo império britânico e que se tornou a luta pela independência.

Na verdade, houve uma união de treze colônias, que se juntaram para lutar contra os ingleses, a partir da resistência em aceitar os exorbitantes impostos cobrados pela produção de chá. Ao final de uma intensa e sangrenta luta, a declaração de independência não firmou, como se deu, por exemplo, na França, um Estado-Nação com sentido federado e unificado.

A declaração de independência manteve a autonomia pré-existente, considerando cada uma das treze colônias com plenas liberdades em aspectos que visavam reforçar o sentimento de que elas possuíam características identitárias próprias, refletidas nas origens tanto religiosas como étnicas (na falta de outro nome). Ou seja, suas histórias de vidas mantinham-se vinculadas a outras nações, de onde originalmente vieram.

Criou-se assim os Estados Unidos, da América, continente que abrange dezenas de outras nações e nacionalidades. Cada um dos Estados (ex-colônias) manteve sua autonomia em questões que dizem respeito a valores que se encontram na base de suas formações, garantindo na constituição o direito ao Estado - no sentido mais geral -; a formulação das fronteiras, a defesa de seus limites territoriais e a formação de um poder militar que os defendesse de agressões externas. Isso até a eclosão da guerra civil, que só veio reforçar esse paradoxo, e rompe com um sentido de nação.

A guerra de secessão tornou-se um delimitador dessa situação. Após esse conflito os Estados Unidos aproximaram-se da formação tradicional de um estado nacional moderno, tal qual construído pela burguesia a partir da decadência do feudalismo e do fracasso do absolutismo.

Walzer analisa essa formação a partir de suas origens, e, abordando as características de um país construído a partir de fortes movimentos migratórios, ressalta a dificuldade, partindo dessa formação, de os Estados Unidos se aceitarem enquanto Nação.

Mas o “ser” americano, a meu ver, se explica pela adoção de um comportamento agressivo, já de um Estado Nação constituído, embora sem nome, cuja característica assumida aproximou-se da antiga metrópole contra a qual séculos antes ele se batera e conseguira libertar-se.

Pintura (cerca 1872) de John Gast
chamada Progresso Americano
 - wikipedia
Dois movimentos para isso foram fundamentais. Ideológicamente isso se concretizou mais adiante, no final do século XIX. Além das teorias geopolíticas, necessárias ao controle do domínio dos mares, e consequentemente de toda a América, um mecanismo religioso consolida essa postura imperialista. O chamado “Destino Manifesto”, pelo qual entendia-se que os Estados Unidos teria recebido por influência divina o poder de garantir a liberdade e segurança de toda a América.

Por outro lado, as estratégias geopolíticas de militares-teóricos, como Alfred Mahan e Nicholas Spykman, que propunham o controle por parte dos Estados Unidos dos dois oceanos, o Atlântico e o Pacífico, e a necessidade da influência militar sobre toda a América. Rechaçando toda e qualquer ingerência europeia, ou de qualquer outro continente, sobre o território americano. A guerra contra a Espanha, no final do século XIX, e o controle assumido após esse conflito sobre algumas colônias, como Cuba, foi o início dessa nova etapa de um país que começava a constituir-se em um novo império.

A palavra de ordem, “A América para os americanos”, veio juntar-se à concepções de uma política intervencionista agressiva, consolidada pela chamada “política do porrete”, ou o “big stick”, ameaçando todos aqueles que ousassem invadir o solo americano.

Impõe-se assim, pela força de um país que se fortaleceu e se unificou politicamente a partir da guerra de secessão, o domínio sobre antigas colônias britânicas, espanholas e portuguesas. Senão no sentido tradicional, mas agindo de outra forma, estabelecendo em cada uma delas governos submissos e/ou subalternos.

A expressão Estados Unidos da América se consolidou, assim, a partir do final do século XIX, não somente como dando sentido a um Estado Nação de característica diferente, porque manteve-se a autonomia de todos os seus novos Estados-províncias, mas impondo-se sobre os demais no continente, assenhoreando-se do termo “América” e “americano”.

A difusão desse termo, a ponto de tornar-se uma expressão definitiva da identificação de quem é nascido nos Estados Unidos deveu-se ao poder que essa potência passou a exercer por todo o continente americano. Principalmente devido à submissão secular das elites tradicionais dos países coloniais, que aceitaram essa influência e a apropriação do termo americano, e se propuseram a difundi-lo em todo o seu aparato midiático.

De tal forma que essa expressão passou a ser comumente utilizada, inclusive em livros didáticos, embora nitidamente farsesca e historicamente uma vergonhosa mentira, aceita inclusive por intelectuais, dentre os quais muitos historiadores.

A apropriação do termo “americano”, por um país que surge sem nome, e a aceitação submissa por parte das colônias políticas e culturais, demonstra o enorme poder, que, a partir do final do século XIX, o império estadunidense passou a impor para toda a América, e daqui para o mundo a partir do início do século XX.

Considerar o cidadão nascido nos Estados Unidos, como americano, é tanto uma verdade como dizer que os que nascem no Brasil, no Uruguai, no Chile e em tantos outros países desse imenso continente chamado América, também o são. Assim como são europeus os que nascem na França, na Alemanha, Irlanda etc. etc... etc...

Mas porque insistir em falar de americano aos que são estadunidenses? É o velho hábito, que se tornou uma cultura política, mantido pelo força da coerção, da subserviência e da aceitação do poder imperial. E, principalmente, porque todo o aparato midiático insiste em repetir cotidianamente, como a reforçar a necessidade de nos considerarmos inferiores, posto que o poder do império se impõe por toda a América. Isso, pode-se também dizer, tornou-se uma tradição pelo comportamento de elites assumidamente provincianas e submissas.

Resta-nos apostar que as futuras gerações conseguirão romper com esse forte domínio de uma cultura política que já se aproxima de duzentos anos. É salutar perceber que nos novos livros didáticos brasileiros gradativamente o termo estadunidense já começa a substituir a palavra americano, no contexto aqui analisado.

Particularmente nada tenho contra os cidadãos nascidos nos Estados Unidos. As questões, de ordem geopolítica que aqui analiso dizem respeito a políticas de dominação secularmente impostas sobre os demais países americanos, desde o México até o Uruguai, por uma potência imperialista. Aliás, diga-se ainda, que alguns, para fugir do uso do termo americano, o substitui por norte-americano, reduzindo o alcance do erro, mas transformando Canadá e México em duas províncias dos Estados Unidos.

Para que a História seja justa com aqueles que tentaram uma unificação americana, devem-se resgatar os ideais de Simón Bolívar, responsável pelas lutas de independências em vários países, dentre os quais, Bolívia, Equador, Venezuela, Panamá, Peru e Colômbia. É possível que os ideais de integração bolivariano para a América Latina tenham preocupado o emergente poder imperial dos Estados Unidos, se antecipando a uma provável luta pela união dos estados americanos.

Importa ao final enfatizar a compreensão de que os Estados Unidos não é a América. E a América não é os Estados Unidos. O continente americano tem nos últimos anos se deparado com situações que nos apontam para um resgate cada vez maior das identidades dos povos que habitam cada um de seus países. Mas deverá também consolidar cada vez mais o sentimento de que a América não é o quintal de um grande império, mas um continente a reforçar cada vez mais a sua identidade.

Afinal, todos nós somos americanos!


NOTAS:

[1] Este artigo foi publicado originalmente em 12 de agosto de 2012. Foi revisto e atualizado. https://gramaticadomundo.blogspot.com/2012/08/todos-nos-somos-americanos.html

[2] O que significa ser um americano ( Marsilio Publishers , 1992) ISBN  1-56886-025-0.   http://www.sociologicamexico.azc.uam.mx/index.php/Sociologica/article/view/850/823

 

sexta-feira, 10 de abril de 2020

A DIMENSÃO DA GEOPOLÍTICA NO MUNDO ATUAL

De repente, não mais que de repente, muito se ouve falar de geopolítica. Tudo que se fala é geopolítica. Mas, afinal, o que é a Geopolítica?
A Geopolítica pode ser vista como a junção da Geografia, História e Ciências Políticas, com necessárias pitadas de economia devido a ser preciso compreender a dimensão sistêmica que conduz cada época e serve como motor da engrenagem dos Estados-Nação.
Mas a geopolítica, ao contrário do que erroneamente se imagina, não é somente uma ferramenta para noticiar as transformações conjunturais, e os eventos que aflige a humanidade, as crises econômicas e o espocar das guerras. Ela é fundamental para a compreensão das causas geradoras de cada um dos fatos abordados dentro dos aspectos citados e da construção de cenários para o que se desenrolará a posteriori. Ou, caso estejamos analisando um fato histórico já ocorrido, ela permite compreender o jogo do Poder que o desencadeou, as disputas em torno do controle de territórios e, principalmente, a compreensão das estratégias utilizadas para se atingir os objetivos daqueles atores envolvidos no processo.
Esse é o elemento principal da geopolítica: a estratégia. Sua origem remonta o tempo em que os estados nações se expandiam, final do século XIX, época do poder crescente dos impérios, mas também da modernização do Estado e da criação de mecanismos que fortaleceriam toda a estrutura necessária para garantir a defesa das fronteiras territoriais nacionais, do controle da “core área” na expressão de Ratzel, da manutenção dos seus recursos naturais e da sua população.
Inicialmente vista como Geografia Política, na construção temática e epistemológica elaborada por Ratzel, e depois tornada Geopolítica na criação desse acrônimo por Rudolf Kjellen, que se consolidou com a expansão desse saber estratégico pela Europa, principalmente Alemanha, onde se difundiu fortemente através de Karl Haushofer, criador da escola alemã de geopolítica e o tornou personagem dúbio na relação com a estratégia nazista do expansionismo do III Reich.
Os embates com a escola francesa, vidaliana ou lablacheana, e tendo sido o foco das diatribes de Hitler, na Alemanha, a geopolítica amargou um forte revés, pela dimensão que alcançou naquele país. De Ratzel a Haushofer, o caráter expansionista, elemento da visão estratégica que considerava a um estado-nação uma condição necessária para o seu hegemonismo, e até mesmo sobrevivência, a escola geográfica naquele país deveu a geopolítica toda a sua influência. O pós-guerra reforçou os ataques franceses, e prevaleceu as intrigas feitas por historiadores da recém projetada Escola dos Annales, principalmente Lucien Febvre, que oporia Ratzel (identificado como determinista) a La Blache (visto como possibilista). 
A queda do nazismo levou junto a geopolítica, e Haushofer ao suicídio. Os ares democráticos que virão depois, e mais do que a identificação da Alemanha com a geopolítica, também a preocupação com a União Soviética, induziria as escolas ocidentais a transformar a geopolítica como “persona non grata”. Por trás disso o temor com um poder estratégico advindo desses conhecimentos. Sempre usado pelos estados, mas negligenciado a partir de então pela academia. A geopolítica tornou-se vítima de si mesma.
Naturalmente por trás da geopolítica há a Geografia, e o saber estratégico que a mesma carrega, isso posto a nu em um trabalho paradigmático que resgatou o papel crítico da geografia, depois de ser levada ao limbo pelas marcas que ficaram no embate com a escola francesa e com o pós-guerra: “A geografia, isso serve em primeiro lugar para fazer a guerra”, obra de Yves Lacoste.
Mais do que reforçar o caráter político desse saber, e tecer forte crítica à geografia ensinada nas escolas, até aquela época e como consequência desses embates políticos e geopolíticos, Lacoste é enfático em afirmar que, mais importante do que considerar ser uma ciência, a geografia é essencialmente um saber estratégico. E essa é a real grandeza de sua importância, e por isso tão temida por determinados setores, mais inerentes e necessários ao planejamento e ação do Estado. E não somente para a guerra.
Lacoste reforça a necessidade da política para a geografia e, além de resgatar o papel de Ratzel na projeção desse saber estratégico, traz também de volta a importância das obras de Elisée Reclus, este um geógrafo francês mais engajado, de visão mais progressista, até pelo seu histórico de militância e participação nos movimentos populares e revolucionários de sua época.
O movimento da Geografia Crítica que advém a partir dessa obra de Lacoste buscou tirar a geografia do limbo, e junto com ela a geopolítica. Mas o elemento diferente que vai projetar a geopolítica de volta ao seu patamar de importância, mesmo que em muitas escolas tendo como denominação Geografia Política (o que para Lacoste é redundante), é asua afirmação que a Geopolítica é a Geografia em toda a sua essência. E o caráter de totalidade, essencial para essa ciência e saber estratégico, só poderia estar completado com a devida importância da inserção da política em seus conteúdos, por sua própria natureza.
Lacoste critica em sua obra a fragmentação da Geografia, algo que será objeto de preocupação de uma geração de geógrafos até o final do século, quando submetido como outros conhecimentos ao processo da globalização, tornou-se difícil de evitar que isso deixasse de acontecer. Ao contrário, se acelerou, como um elemento forte da característica marcante de uma nova etapa do capitalismo, levando todas as áreas do conhecimento na mesma direção, para o bem ou para o mal.
Evidente que a visão de totalidade acompanhava toda uma condição e uma visão epistemológica advinda da influência marxista na geografia. Mas, como entender as partes sem o todo, e como compreender o todo sem o conhecimento das partes? Isso é o que garantiria à Geopolítica a condição de reforçar o caráter crítico da geografia e o resgate da política como elemento fundamental de sua essência como saber estratégico.
Mas todo esse movimento não foi suficiente. O estigma criado em torno da geopolítica era muito forte, e ideologicamente se constituiu em uma arma muito bem utilizada no âmbito da guerra fria. Muito embora nenhum estado-nação, de qualquer um dos lados, abdicasse da geopolítica como fundamento de seus planejamentos, de estudos do potencial de riquezas estratégicas, principalmente no âmbito da geração de energia, e da proteção e expansão de suas fronteiras, em síntese, da defesa de seus territórios nacionais, e até mesmo de suas colônias, muitas ainda mantidas diretamente ou de forma disfarçada.
No entanto, a mesma globalização que acentuou a fragmentação, e os conhecimentos, projetou a geopolítica. A aceleração contemporânea, o desenvolvimento científico e tecnológico, o poder da informação acessível a praticamente todas as pessoas, o deslocamento de mercadorias com muito mais facilidade, e das pessoas, com certas restrições, mas por veículos mais rápidos e eficientes, e, principalmente, a multipolarização do mundo, decorrente desse processo, muito embora não sendo algo desejado pelo império. Todos esses elementos já não podiam mais ser compreendidos sem a geopolítica, notadamente quando a partir de 2001, com um ataque mortal no coração do império, disseminou conflitos por todos os cantos e modificou para sempre o formato das guerras e o sentido da paz. A clássica frase “se desejas a paz, prepara-te para a guerra”[i], passou a fazer cada vez mais sentido.
Em sua nova fase, o capitalismo disseminou pelo mundo a ganância e a usura, distribuiu riqueza para poucos, e a pobreza para muitos. O que se projetou com a globalização, em seus momentos de deslumbramentos, se demonstrou pérfido, perverso e destruidor a partir do final da primeira década do século XXI. Impossível tentar compreender esse mundo sem a geopolítica, pela noção de totalidade que ela representa.
Mas qual geopolítica? Porque de repente se falava de geopolítica de alimentos, de biodiversidade, da água, do oriente médio, da África, do petróleo, dos recursos naturais, das questões ambientais... e por aí foi. A grande mídia trouxe para o foco de suas análises e interpretações aquilo que a geografia refutou por muito tempo, e a popularizou. Isso se acentuou com a disseminação de um vírus, mortal, o “Sars-Cov-2” sem nenhuma forma de contenção, a partir da China e daí para o mundo primeiro pela Europa, depois América, restante da Ásia, e África, e praticamente paralisou o sistema, com o necessário isolamento social para conter a sua propagação. O olhar crítico e cirúrgico a ser feito sobre esse processo não pode prescindir da geopolítica.
Os embates que se acentuaram, e estremeceram as relações políticas e comerciais entre grandes potências, notadamente EUA e China, fez parecer como restrito apenas a um desses países eventuais descontroles internos em suas políticas e levaram a uma quebra daqueles princípios que foram constituídos com a criação de organismos multilaterais. Assim, a ocorrência de uma epidemia foi inicialmente vista como algo localizado, típico do estilo de vida chinês, algo já enfaticamente questionado com o agravamento da pandemia. Havia um desejo implícito que isso reduzisse o poder crescente da China.
Os países não se prepararam para o impacto que isso teria na vida das pessoas, na economia dos países e do sistema caso houvesse uma disseminação global. De repente, o mundo se deparou com uma crise de impactos monumentais, com uma quarentena necessária para se prevenir do contágio e paralisou praticamente todo o processo produtivo, algo inédito na história recente, e vista de forma catastrófica somente comparado à grande depressão da década de 1930. Mas em número de mortos ainda perde, longe, da gripe “espanhola”, apesar da celeridade do contágio. 
Essa reviravolta por completo na maneira como a vida das pessoas se acostumara com a facilidade de deslocamento e com um consumo acelerado, embora o sistema não tivesse ainda se livrado dos sintomas da crise de 2008, deixou atônito o mundo como um todo. E não chegamos ainda sequer ao topo da disseminação desse vírus.
Em um ambiente criado pela globalização, de notícias que viajam por todo o globo em tempo real, e de redes sociais onde as pessoas se conectam e conversam a qualquer instante estejam onde estiverem, tentar compreender tudo isso se tornou a nova rotina. Ao mesmo tempo sendo necessário combater uma nova onda que esses mesmos mecanismos criaram, as notícias falsas, fake News, que confundem e criam uma horda de estúpidos, dispostos a acreditar naquilo que desejam, no que se convencionou chamar, ainda antes do Covid19, a doença que tem impactado o capitalismo, de “pós-verdade”.
Naturalmente cada noticiário vem acompanhado de relatos e análises de especialistas em diversas áreas, principalmente naquelas ligadas à epidemiologia, infectologia, das ciências médicas de uma maneira geral, mas também da economia, da política, da psicologia... e, naturalmente, da geopolítica. Enfim, nunca se intitulou tantos artigos com a palavra geopolítica a ilustrá-los, como nesse nosso tempo de impactantes imprecisões sobre não somente o que estamos vivendo, mas, principalmente, sobre o que virá como consequência dessa pandemia.
Mas porque é interessante olhar para todas essas reviravoltas, de como uma área temática da geopolítica se torna malquista como consequência de uma guerra mundial, na qual em tese ela teria sido coadjuvante, e para os dias de hoje, com uma guerra a um inimigo quase invisível, e não é o terrorismo, mas o terror de um vírus implacável e sem formas de contê-lo até então?
Porque assim chego ao ponto em que desejo demonstrar que não é tão somente a geopolítica, essencial para a compreensão de tudo isso. Mas a Geografia. A maioria desses artigos que são intitulados com a geopolítica, são centrados em seus conteúdos, nos elementos que compõem a geografia. O objetivo não é reforçar o que dito por Lacoste há pelo menos cinco décadas, de que a geopolítica é a geografia. Porque a globalização, como dito, fragmentou tudo, inclusive o conhecimento geográfico.
Ocorre que esses elementos que são necessários para identificar a origem do vírus, as condições em que ficam as cidades como forma de combatê-lo, a disseminação pelo espaço geográfico, a alteração dos lugares e hábitos até então corriqueiros, o reforço das estruturas nas áreas de saúde em grandes metrópoles de fortes densidades demográficas bem como o atlas ou mapeamento dessas fragilidades, a transposição de fronteiras praticamente inexistentes enquanto barreira, a forma de aceleração do contágio inicialmente por meio de vias de transportes aéreas ou de grandes transatlânticos, o necessário isolamento social de populações que precisam ficar restritas a suas residências, em seus bairros, seja em casas, condomínios horizontais ou verticais, o impacto na economia e a distribuição espacial como ele ocorre, e as mudanças nos comportamentos individuais e coletivos que tudo isso possibilita, são, inevitavelmente questões necessárias e postas no hoje e no depois para serem analisadas, entendidas e compreendidas em todas as suas dimensões pela geografia. Não há um único elemento em todo esse processo que não caiba em trabalhos de pesquisas da Geografia em suas mais diversificadas áreas do conhecimento, inclusive da geolocalização, nas informações geoprocessadas, por onde “viaja” esse vírus, os países, as regiões e setores das cidades mais infectados.
Em que entra a Geopolítica, então? Na análise estratégica dos impactos gerados pelas medidas tomadas para combater o vírus; a paralisia das cidades e os impactos econômicos que deverão gerar processos recessivos e depressivo; as alterações na ordem geopolítica mundial, com a provável troca de hegemonia entre as grandes nações líderes do comércio mundial e dos possíveis conflitos e guerras que advirão como resultado de desentendimentos naturais nesse processo. Some-se a isso, como área de interesse da geopolítica, a ação de organismos multilaterais, como a OMS, FMI e a ONU, dentre outros, e como sairão desse processo altamente desgastante a partir da forma como os países verão suas ações. Fundamentalmente, a geopolítica centra o seu olhar eminentemente estratégico no interesse dos estados nações, das grandes corporações, da beligerância e das relações entre os estados-nações, e, internamente, como sobreviverão os setores estratégicos e empresas que representam o capital nacional para além fronteiras e na defesa do território nacional.
A globalização, o neoliberalismo principalmente e o sistema capitalista em essência, se tornam pacientes em alto grau de contaminação e com grandes possibilidades de frequentar uma unidade de terapia intensiva. O olhar sobre essa possibilidade e as consequências do estrago que essa pandemia causará em todos os segmentos sociais e por todos os cantos do mundo, se tornam, sim, elementos essenciais da abordagem Geopolítica.
Pode-se então observar diferenças, nuances que são identificadas quando se compreende a Geografia como um saber estratégico, e um ramo de seu conhecimento que se preocupa por meio da necessária busca do conhecimento estratégico, a identificação da política que norteia as ações dos países e/ou grupos de países e como se dão e se darão suas relações: a geopolítica.
Concluo considerando como algo relevante, inclusive como parte do ensinamento posto por Yves Lacoste, ser necessário resgatar o papel da geografia crítica. E reforço o seu destaque à urgência de se retomar os estudos de um dos mais renomados geógrafos, contido por governos da época pelo caráter social de sua obra e pelo seu olhar libertário para o mundo. Este é o momento da geografia resgatar a obra e os ensinamentos de Elisée Reclus. Por uma Geografia crítica, política e necessária para que os geógrafos não se limitem somente a descrever o mundo, mas que possam contribuir para transformá-lo.



[i] “Si vis pacem, para bellum”, Públio Flávio Vegécio Renato, conhecido como Vegécio, escritor do Império Romano do século IV.

domingo, 30 de junho de 2019

É A GEOPOLÍTICA, ESTÚPIDO!

Chefes de Estado do G20.
Difícil é encontrar o brasileiro.
Este artigo foi sendo escrito ao final do encontro da “Cúpula do G20”, em Osaka no Japão. Evento que reúne as maiores economias do mundo. Para além de todas as polêmicas que envolveram as discussões nesse encontro de repercussões mundiais, e não poderia ser diferente, há um substrato, para mim importante, que gostaria de destacar. É o que envolve a importância da geopolítica, cada vez sendo mais referenciada nas discussões, acordos e análises sobre as transformações que acontecem no mundo.
O comunicado oficial, final, do G20 se refere explicitamente a “intensificação de tensões comerciais e geopolíticas” no mundo. Consequência de uma situação de crise internacional, que afeta a economia mundial, coloca muitos países em condição de recessão, espalha medo e temor por todo o mundo em função de atritos gerados por políticas protecionistas e unilaterais de alguns países, em especial os EUA, além dos potenciais conflitos que envolvem nações que situam-se em posições estratégicas, particularmente no Oriente Médio, mas, principalmente aquelas que possuem grandes reservas petrolíferas. Além de outros fatores, como os problemas ambientais, o deslocamento de populações, o aumento da pobreza, até mesmo nos países desenvolvidos, e as trasnformações geradas pelo crescimento do gigante chinês, seja nos avanços tecnológicos e na ousada constituição da nova Rota da Seda.
Uso aqui, no título, uma expressão muito conhecida internacionalmente, transformada quase em um mantra, proferida por um assessor de Bill Clinton, num período eleitoral, quando ele dizia que a economia é o elemento principal a definir a política, e, no caso específico, uma eleição presidencial. Procura, assim, dizer que as questões mais sensíveis de um estado-nação estão ligadas à situação econômica, e que isso implica num embate eleitoral, naturalmente.
Faço um paralelo aqui com a geopolítica. Desde que a economia se tornou globalizada, mas não somente depois disso, as questões geopolíticas tornaram-se determinantes nas relações internacionais. Isso se compreendemos, como é natural que façamos, que a geopolítica é o olhar estratégico, tanto analítico, como do ponto de vista das ações governamentais e até mesmo do cotidiano e da vida de qualquer pessoa que deseje focar em seus objetivos e poder alcançá-los definindo os caminhos que a levará a atingir seus desejos e planos adredemente definidos.
No entanto, o que desejo aqui neste artigo é provocar uma discussão, ou prolongar uma discussão que tenho feito ao longo desses anos, que pode ser comprovado aqui em artigos já escritos neste blog. Porque a Geografia não valoriza a Geopolítica, mesmo diante da importância que ela tem tomado desde o final do século XX? Por um lado compreendo, assim como o faz Yves Lacoste, e é nele que me espelho, que a Geopolítica e a Geografia são a mesma coisa. Deixou de ser a partir do momento em que, após a segunda guerra mundial a geopolítica foi estigmatizada, não somente porque ela foi sabidamente utilizada no aparato belicista da ascensão nazista (embora fosse também utilizada por todos os demais países envolvidos naquele e em todos os outros conflitos). Mas houve outro elemento determinante nessa separação da Geopolítica da Geografia. Os embates entre duas escolas acadêmicas na área da Geografia, a lablacheana, francesa; e a ratzeliana, alemã. Os franceses, vitoriosos na segunda guerra, ao lado dos aliados, impulsionou uma desavença bem anterior, fomentada por historiadores que buscavam uma “revisão” historiográfica, e fizeram surgir a “história dos annales”. Assim, buscaram desacreditar essa vertente importante da geografia, de forma a evitar que viesse se sobrepor à história, e, ao mesmo tempo, seguir por um caminho que pudesse reduzir a abordagem política das interpretações geográficas, focadas a partir de então, prioritariamente no cotidiano das relações sociais.
Essa armadilha feita para a Geografia funcionou perfeitamente, e, paradoxalmente, constituiu-se em uma estratégia vitoriosa nessa construção historiográfica. Espalhou-se pelo mundo uma compreensão de Geografia focada naquilo que os franceses compreendiam como elementar para projetar o estado-nação, os estudos regionais. E o planejamento, muito embora devesse necessariamente partir de uma visão estratégica, se constituiu no olhar essencial a partir de divisões regionais que acompanhavam a constituição física e geomorfológica, definindo a partir daí os estudos que orientavam as administrações estatais os tipos de investimentos que devem ser feitos, constituídos a partir dessas características locais e regionais.
Isso é algo absolutamente correto, não há o que negar nesses aspectos, que se constituem nos dias de hoje elementos essenciais para planejamentos urbanos, regionais e ambientais. No entanto, o elemento crucial, e a essência da geografia, deixou de ser observado. Sua importância estratégica, o olhar político que possibilita a ampliação da capacidade crítica e o equilíbrio na identificação dos interesses que estão por trás de qualquer decisão que envolva as questões de Estado. Enfim, a Geopolítica, como elemento fundamental para que possamos ter a compreenssão macro e micro que circunda a própria Geografia como aquilo que muitos chamam de “a ciência dos lugares”, o que nos possibilita compreender tudo aquilo que está à nossa volta, a ligação inevitável que existe entre todos os lugares, nossas vidas e o ecúmeno.Somos movidos pela política, a capacidade de nos entendermos em sociedades cada vez mais complexas (embora se tente desconstruir a política nos dias atuais, mas isso é também um objetivo político). Portanto, é impossível pensar a Geografia sem a política, pois é ela, essa ciência, ou esse saber como desejam alguns, que explica a nossa existência em toda essa dimensão compreendida por milhões de quilômetros quadrados em um planeta esférico, embora a alienação e estupidez de alguns a vejam como plana. Mas os que pensam assim, somente refletem também a forma de seus cérebros.
A Geografia sem a política, é nula de entendimento da realidade. Abstrai-se nas especificidades, e somente serve às vaidades de quem foca seus conhecimentos de maneira limitada, desconsiderando a necessidade de junção de todas as partes que compõem o conhecimento geográfico. Prender-se somente a essas especificidades é reduzir a importância da Geografia, na verdade negá-la, e assumir-se enquanto condutor de uma parte que desconexa-se de um eixo. Os caminhos trilhados pela pós-graduação, seguindo a força imposta pelo globalismo neoliberal, consolidou esse viés, difícil de ser desfeito, principalmente por vivermos um tempo de negação da política.Contudo, isso não impede de reconhecer na Geografia, e na Geopolítica, aqueles elementos que nos dão a possibilidade de conhecer, em toda a essência de uma dialética que é real, como se dão as transformações que ocorrem no mundo, seja econômica, ambiental, da escasse hídrica, de alimentos, portanto não somente no que se convencionou imaginar como sendo o único elemento a se entender pela geopolítica: a guerra. Algo já há décadas desmistificado por um movimento de resgate da geopolítica, melhor dizendo, de retomada da política na Geografia, liderado por Lacoste. Mas o que veio depois, a onda neoliberal globalizante, em pouco tempo levou ao esquecimento desse resgate e prevaleceu a fragmentação e, se não a negação, a quase absoluta indiferença em relação a inserção da política como parte essencial e necessária da compreensão geográfica.,
Isso não muda somente com a referência permanente à Geopolítica na mídia ou nesses encontros de chefes de Estados, depende de novas compreensões, de reorientação e reconstrução de uma Geografia que retome a visão de totalidade e compreenda que nesses novos tempos de negação de conhecimentos elementares transmitidos pela universidade, a força desse saber está exatamente em poder dar resposta concretas aos dilemas que angustiam o mundo. Não sozinha, porque também vivemos no tempo de uma necessária multidisciplinaridade, mas jamais conseguirá ser forte como é preciso se se mantiver fragmentada e negligenciando a sua essência fundamental, a política. Que as novas gerações de geógrafos consigam romper com esse viés que acompanha boa parte das gerações que lhes orientam, formadas numa era neoliberal e fragmentária, e resgate para a geografia a importância do saber estratégico que lhe deve ser inerente.



terça-feira, 8 de agosto de 2017

O MUNDO NÃO É PLANO. DESCONSTRUINDO A PÓS-MODERNIDADE

É instigante falar do “tempo” e do “espaço”, e é necessário, para compreendermos as transformações e o processo histórico. Trata-se de categorias que se interligam na produção do saber constituindo tanto a cultura, quanto o território, e é impossível separá-las, pois são dependentes uma da outra, conforme bem representado numa frase de Elisée Reclus (s.d, p. 108-114): “Se a História começa primeiro por ser ‘toda geografia’, como disse Michelet, a geografia se torna gradualmente ‘história’ pela relação contínua do homem sobre o homem”. Essas categorias representam o caminho pelo qual necessariamente temos de percorrer para compreender toda a nossa existência, seja no passado, seja no presente. Assim, podem-se compreender a nossa trajetória e a relação com a natureza, para definição do caminho futuro da humanidade.
O ESPAÇO E A SOMA DOS TEMPOS
Vivemos em um mundo de rápidas transformações. A abordagem dialética que fazemos da vida nos mostra isso. O impulso que muda, incessantemente, natureza e sociedade é dado por contradições, pelo antagonismo, pelo estranho “equilíbrio” ecológico que força um choque entre contrários para manter e preservar a vida, mas que nas relações sociais pode levar a uma inevitável destruição, principalmente por sermos, nós, humanos, os maiores predadores da natureza. E o que é pior: predadores de nossa própria espécie.
Como compreender, à luz da história e da geografia, o mundo contemporâneo, cujas características principais são a velocidade, a rapidez e a profusão de objetos, o intensivo uso da técnica, de novas espacialidades, de um crescente processo de urbanização e da mercantilização, não somente dos objetos, mas quase que da totalidade das relações humanas. O espaço da cidade se fragmenta em uma multiplicidade de territórios, e novas territorialidades definem a maneira como o campo se enquadra nos interesses sistêmicos, na relação centro-periferia do mundo capitalista.
Espaço, urbanização e território. Através dessas categorias e processos buscamos na geografia o entendimento de como vamos nos adaptando e transformando a paisagem com o uso da técnica e de novas tecnologias. Tecnologias, que, vale dizer, encontram-se à disposição dos próprios geógrafos, visando buscar informações geoprocessadas mediante mecanismos sofisticados, uso de satélites capazes de monitorar todos os cantos do planeta. Nos últimos anos com o uso crescente de VANT (Veículo Aéreo Não Tripulado), mais conhecido por sua origem na guerra com o nome de “drones”. Isso faz lembrar Milton Santos (1996), quando afirma que já não podemos mais falar de natureza natural, na medida em que o ecúmeno se torna possível de ser conhecido e de estar sujeito à ação do homem por mais distante que seja o lugar.
Mas ao definirmos o espaço, pode-se precisar a época de que estamos falando? É possível destacar espacialidade, territorialidades – mesmo a paisagem que se apresenta para nós como uma somatória de tempos passados –, sem considerar uma relação temporal em todo o processo de mudança que se desenrola em nossa volta? Importante lembrar que a vida, de uma forma geral – e a nossa, em particular – não é estática. Tudo, aliás, é movimento, é transformação, e o que possibilita isso é o tempo.
Em cada segundo de nossas vidas, encontramos registradas ações que promovem as mudanças. E somente a nossa memória é capaz de fazer isso. É a nossa memória que possibilita compor a história e também registrar cada momento através do estudo e da pesquisa científica.
Vivemos, em verdade, incessantemente a história; por isso pode-se afirmar que não existe o presente, ou que ele é representado somente em frações de segundos, que só podem ser registrados estaticamente pela fotografia. Porque no instante seguinte, ele já é passado.
Isso é brilhantemente ilustrado na canção “Como uma onda” (Motta, 2000), interpretada por Lulu Santos:
Nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia/ tudo passa, tudo sempre passará,/a vida vem em ondas, como o mar,/ num indo e vindo infinito.
Tudo que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo/ Tudo muda o tempo todo no mundo/ Não adianta fugir, nem mentir pra si mesmo agora/ Há tanta vida lá fora, aqui dentro sempre/ como uma onda no mar/ Como uma onda no mar...
O tempo foi definido arbitrariamente quando se trata de contarmos nossa história. Atendeu a diversos fatores, principalmente de origem religiosa, estabelecendo assim uma diferenciação na temporalidade dos fatos históricos do ocidente fixados a partir do calendário cristão (ou Juliano) estabelecido na Idade Média, do calendário judaico, do muçulmano, do chinês etc. Impõe-se o primeiro como referencial em decorrência do poderio europeu que se espalhou pelo mundo no processo de colonização, durante o período absolutista, até chegarmos aos dias atuais, em que estamos conectados com todo o mundo em tempo real, como consequência dos impressionantes progressos dos meios de comunicação.
Fora o tempo que conta a história da humanidade, deparamo-nos ainda com o tempo geológico, que permite entender o processo de formação da Terra, ou do tempo estudado por meio da física, que apresenta o universo em formação e se explica em anos-luz, para dizer da distância entre os pontos mais distantes e nas mais variadas galáxias.
É claro que tudo isso significa nada mais do que tentarmos entender a vida, as nossas origens e todo o processo de transformação que nos leva a um ponto de interrogação crucial – a morte –, que, embora se apresente como o fim de tudo, pode significar também um começo, como num devir hegeliano.
Contudo, o tempo nada mais é do que o acontecer sucessivo, simultâneo, imediato, da espacialidade, que representa o movimento e a transmutação do/no espaço. A mudança, o efêmero, possibilita compreendermos porque a vida é uma constante renovação do ir-e-vir, do começo e do fim, do novo e do velho.
Novas possibilidades estão sendo geradas a partir desse entrelaçamento criativo, possibilidades de um materialismo simultaneamente histórico e geográfico; de uma dialética tríplice de espaço, tempo e ser social; e de uma reteorização transformadora das relações entre a história, a geografia e a modernidade. (Soja, 1993, p. 19):
Mas é preciso distinguir o tempo preciso do acontecer, dos eventos que se realizam num determinado espaço e vermos num possível atavismo a sucessão de acontecimentos que se interligam e carregam características e marcas do que ficou. Que se entrelaçam e explicam a simultaneidade da vida embora nem sempre possível de discernimento.
Avançamos um pouco pela interpretação feita por Santos (1996, p. 127):
O tempo como sucessão, o chamado tempo histórico, foi durante muito tempo considerado como uma ase do estudo geográfico. Pode-se, todavia, perguntar se é assim mesmo, ou se, ao contrário, o estudo geográfico não é muito mais essa outra forma de ver o tempo como simultaneidade: pois não há nenhum espaço em que o uso do tempo seja idêntico para todos os homens, empresas e instituições. Pensamos que a simultaneidade das diversas temporalidades sobre um pedaço da crosta da Terra é que se constitui o domínio propriamente dito da Geografia. Poderíamos mesmo dizer, com certa ênfase, que o tempo como sucessão é abstrato e o tempo como simultaneidade é o tempo concreto, já que é o tempo da vida de todos. O espaço é que reúne a todos, com suas múltiplas possibilidades, que são possibilidades diferentes de uso do espaço (do território) relacionadas com possibilidades diferentes de uso do tempo.
Saindo um pouco da representação conceitual e da relação entre essas duas categorias que se interligam, vamos ao encontro de outra expressão, para definir o discurso dos que pretendiam que o final do século XX tenha sido um momento em que a humanidade teria transitado da modernidade para a pós-modernidade.
DESCONSTRUINDO A MODERNIDADE
É preciso primeiro termos claro que o sentido de modernidade e pós-modernidade tem origem diferente dos significados que lhes são imputados. Modernismo teria origem nicaraguense, viria com a criação de uma vertente que buscava livrar-se da influência cultural espanhola (século XIX). O pós-modernismo seria uma compreensão da existência de uma corrente conservadora no movimento modernista. Essas expressões, a partir de então, passaram a ser utilizadas, em vários momentos da história, para definir as mudanças. Seja para se referir ao industrialismo crescente do século XIX, ou às guerras mundiais, à revolução Meiji no Japão, à revolução soviética e por aí afora, identificam cada momento expressivo da História como início ou fim da modernidade, e este em relação à pós-modernidade.
A justificativa para tecer aqui tais considerações, brilhantemente feitas no trabalho do historiador britânico Anderson (1999), está no fato de sermos chamados a nos referir à “desconstrução” do mundo. Ou, poderíamos dizer, ao “fim do território”, “desterritorialização”, geograficamente falando. São expressões que, “carregadas de ideologias”, representaram uma nova maneira de buscar entender o mundo a partir das intensas transformações que caracterizaram as décadas finais do século XX: da modernidade à pós-modernidade.
Contudo, para compreendermos mais amplamente o significado de Modernidade, precisamos ir em direção à representação de todo um período marcado pelos ideais renascentistas, mas principalmente iluministas, rousseaunianos ou cartesianos, responsáveis por fundamentação humanista e materialista, necessária à condução de uma nova época que se opunha fortemente às trevas medievais, cerceadoras da liberdade e inibidora do conhecimento, principalmente no tocante às ciências.
Primeiro a revolução Francesa, que em nome da liberdade simboliza o início da era moderna. Seus ideais, embora revolucionários, distanciaram-se do povo, para quem o discurso era feito, mas significaram o início de uma época que virá marcada pela intensa transformação das forças produtivas. Depois a Revolução Russa, que apontando para o fracasso da primeira e atingindo duramente a burguesia descortina uma nova época sob o comando do proletariado e caminhando para uma revolução mundial. Embora se diferenciando radicalmente na questão de classe, em essência, os objetivos das duas não são contraditórios.
O fim da modernidade, então, será definido pelo que vai ser considerado de fracasso desses dois projetos calcados nos ideais iluministas. As três últimas década do século XX passaram então a ser marcadas por uma mudança considerável na concepção que se tinha de sociedade e no papel que desempenhavam as instituições que surgiram daquelas revoluções e visavam garantir condições de vidas dignas para a maioria da população. Isso tanto pelo socialismo, com uma concepção de poder e de controle de Estado marcada pelo planejamento e por investimento em setores que privilegiavam as necessidades do povo, quanto pelo capitalismo, no período em que vigorou o welfare state (estado de bem-estar social). Esse último significou a estabilidade do sistema e reduziu as diferenças sociais na maioria dos países europeus e Estados Unidos da América.
A nova era que se descortinou veio marcada por um crescente egoísmo, sob uma lógica que vê na riqueza fácil, mas mediante uma exploração desenfreada, a condição de se obter sucesso na vida e se atingir o progresso almejado, não mais dentro de objetivos coletivos ou sociais, mas claramente individualistas. Não se pensava mais prioritariamente na construção de valores que pugnassem pela defesa dos interesses humanísticos. Fortalecia-se a lógica de que a busca pelo sucesso pessoal seria a garantia da solução para uma época em crise em que a hegemonia do poder, do liberalismo econômico, era contida pelo discurso socializante.
A década de 1980 representou uma época de crise da economia de mercado que afetou gravemente os países socialistas com seus planejamentos estatais, mas com fraco desempenho na produção de mercadorias que pudessem disputar mercados. Mercadorias obsoletas circulando por um mercado em crise, portanto fortemente disputado, em que contam mais a qualidade do produto e o custo que se racionaliza com um forte investimento em tecnologia, o que equivale a preços mais baixos, principalmente se a demanda for grande. Por isso, dentre outras causas, o socialismo dito “real” estremeceu, entrou em crise e caiu quase que paralelamente à queda do que se tornara símbolo para o Ocidente da chamada “economia de comando” (KURZ, 1992) e dos ideais socialistas: o muro de Berlim.
Com a crise do socialismo abriu-se caminho para se atingir o welfare state, pondo fim a uma era marcada pelos ideais iluministas. Assim os setores conservadores impuseram uma nova política, a neoliberal, atacando fortemente os valores incorporados pelas revoluções do século XIX e do socialismo, e sinalizam para um novo tempo que virá marcado, segundo Santos (1984, p. 33), pela racionalidade, fluidez e competitividade.
Nesses espaços da RACIONALIDADE, o mercado é tornado tirânico e o Estado tende a ser impotente. Tudo é disposto para que os fluxos hegemônicos corram livremente, destruindo e subordinando os demais fluxos hegemônicos corram livremente, destruindo e subordinando os demais fluxos. Por isso, também o Estado deve ser enfraquecido para deixar campo livre (e desimpedido) à ação soberana do mercado.
(...)
A exigência da FLUIDEZ manda baixar fronteiras, melhorar os transportes e as comunicações, eliminar os obstáculos à circulação do dinheiro (ainda que a das mercadorias possa ficar para depois), suprimir as rugosidades hostis ao galope do capital hegemônico.
A FLUIDEZ é a condição, mas a ação hegemônica se baseia na COMPETITIVIDADE.
Nos tempos presentes a COMPETITIVIDADE toma como discurso o lugar que, no início do século, ocupava o Progresso e, no após-guerra, o Desenvolvimento.
A competitividade é um outro nome para a guerra, desta vez uma guerra planetária, conduzida, na prática, pelas multinacionais, as chancelarias, a burocracia internacional, e com o apoio, às vezes ostensivos, de intelectuais de dentro e de fora da Universidade.
Caminho aberto para as mudanças, entramos numa época verdadeiramente global, com um forte impulso em áreas que levariam a uma mudança substancial nas relações sociais, na reconfiguração geopolítica do mundo, nos valores éticos, morais e culturais.
PÓS-MODERNIDADE: FIM DE TUDO E COMEÇO DE NADA
Passamos a presenciar no fim do século XX uma transformação socioespacial profundamente acelerada, se compararmos a outros tempos. Uma época em que a aceleração contemporânea dos fortes, ricos e  tecnologicamente bem desenvolvidos contrasta com o tempo lento dos fracos, pobres e deserdados sociais. A utopia coletivista foi substituída pela corrida ao sucesso individual, cronometrada pelos índices de qualidades aferidos pelo mercado. Os números, as estatísticas, as retas e curvas dos gráficos que apontam os caminhos da riqueza sintetizam a frieza dos relacionamentos humanos. As relações mecânicas, que entronizam os incluídos neste “admirável mundo novo”, podem servir como exemplo para explicar as enormes contradições acerca do que ainda consideramos viver societariamente, e se ainda é possível chamar civilização, na acepção dada ao termo por Braudel (1989), as condições indignas de vida daqueles que não passam de um traço nesses índices e estão excluídos dos alcances das maravilhas tecnológicas do mundo “pós-moderno”.
A dialética nos ensina que a contradição é o elemento principal do processo histórico, quer das transformações que ocorrem quer nas paisagens, quer da própria funcionalidade do espaço, nas novas espacialidades que se definem no compasso do tempo, como também nas mudanças sociais, nas relações que vão se estabelecendo entre os indivíduos e que possibilitam a eles ultrapassarem limites. Negar-se e afirmar-se, para depois voltar a negar. O mundo é um verdadeiro laboratório onde as experiências presentes colocam em xeque as verdades do passado e deixam dúvidas cada vez maiores sobre as (in) certezas dos novos tempos e do que virá. O novo e o velho se confundem, e enquanto um demora a surgir o outro teima em não desaparecer. Este é um dilema a ser enfrentado em qualquer transição.
O mundo é um imenso arcabouço de contradições. Mas muitas delas encontram-se submersas, relegadas a uma insignificância desproporcional diante da importância que podem ter nas definições dos rumos que a humanidade pode seguir.
Aparentemente alheios a isso, maravilhados pelos avanços tecnológicos e inebriados pelo discurso que se impõe pelo poder da mídia e pelos interesses dominantes, os indivíduos submetem-se à força de argumentos supérfluos, e veem suas condições sociais pela lógica calvinista. Acreditando piamente na possibilidade de inserção na sociedade de consumo, abdicam de seus direitos como cidadãos para cada vez mais os substituírem pelos diretos de consumidores. Agem conforme imaginava Feuerbach – por isso duramente criticado por Karl Marx – partindo da alienação religiosa e da duplicação do mundo em religioso e terreno. O trabalho que se propõem consiste em dissolver o mundo religioso em seu fundamento terreno, como apregoam “As teses sobre Feuerbach”, publicadas em 1845. Apegam-se assim à ideia e à crença da inserção num mundo hostil e profundamente apartado. Pela ideia acreditam no rompimento das castas, sonham em ser “emergentes” e desconsideram a estratificação social cada vez mais rígida. Não imaginam sequer que todo um desmonte estatal à sua volta empurra-os cada vez mais em direção a um fosso profundo cujas bordas estão cada vez mais distantes.
Nesse mosaico que representa o mundo “pós-moderno” um novo papel foi reservado às cidades. Em um processo de desterritorialização, que nada mais é do que a reterritorialização: “Os territórios sempre comportam dentro de si vetores de desterritorialização e reterritorialização” (HAESBAERT, 2004, p. 127). São elas, as cidades, também exemplos notáveis das contradições dessa nova época. Do caos ao planejamento tanto jurídico (das leis) quanto estrutural; à redenção, enquanto lócus assimilador das transformações tecnológicas, e ao novo caos, caracterizado pelo descompasso entre o arcaico e o moderno, presente em suas formas e em suas paisagens, em seus fluxos e em suas dinâmicas contraditórias; de centro, que consolida o poder dos indivíduos sobre as técnicas e as formas, à artificialização da natureza ao seu interesse, principalmente mercadológico, e de novo ao caos, marcado pelo uso disforme de suas potencialidades, mais a serviço das máquinas do que dos indivíduos; dos traçados arquitetônicos que consideram mais os automóveis do que os pedestres, e da transferência para o urbano da lei das selvas, onde o mais forte sobrevive e resta ao mais fraco apenas se defender ou se esconder.
Assim, seguimos nessa relação tempo-espaço um rumo incerto, mas de uma rapidez impressionante. Construímos máquinas que engole gente, como na visão profética dos tempos modernos de Charles Chaplin, mas que são elas próprias rapidamente substituídas por outras que aceleram ainda mais o processo produtivo. A relação homem-natureza estreita-se perigosamente visto assim pela rapidez com que são esgotados os recursos naturais, para que possa atender à visão produtivista e consumista da sociedade de consumo, estritamente dentro da lógica egoísta do lucro e da ganância que caracteriza o sistema.
Logorama - curta metragem francês
Mas transformação alguma vivida pelo sistema capitalista até então conseguiu ser mais eficaz, do ponto de vista de sua lógica, do que os avanços obtidos, atualmente, com os deslocamentos entre os lugares e a rapidez com que chegam as informações até o mais recôndito lugar do planeta. Velocidade, informação e ciência a serviço do capital: esses são os ingredientes principais dessa nova etapa da humanidade. Mas tudo isso, embora disperso pelo mundo, é mantido sob um rígido controle das grandes corporações financeiras, agora não mais multinacionais, mas transnacionais, concentradoras de lucros exorbitantes e responsáveis pelo aumento do desemprego, embora ganhem isenções fiscais dos estados sob o pretexto de empregabilidade. Mas seus cartéis e oligopólios controlam mercados e destroem os pequenos comércios, como a preparar caminho para uma necrópole de grandes prédios de paredes destruídas e metais enferrujados. O exemplo disso é Detroit, uma cidade falida, que viu sua população de mais de 2 milhões se reduzir a pouco mais de 500 mil habitantes[1]. O símbolo de uma realidade onde as corporações se impuseram, mas os novos tempos marcados pela globalização transferiu riquezas acumuladas virtualmente em um mundo que migrava rapidamente para uma era de tecnologias. Se novas detroits não surgiram (ainda) se deve a absoluta adequação aos novos tempos, às custas da aceitação religiosa das desigualdades sociais, da apartação da sociedade e  na crença fatalista do enriquecimento individual pela fé.
NÃO É UMA CONCLUSÃO
Dessa maneira nos incorporamos a uma nova realidade e a um novo discurso, para os quais surgiriam elaborações teóricas que visariam dar um encaixe final a essa época em transformação. As ideias, os conceitos, os valores e a moral passam a se alterar a fim de atender aos interesses hegemônicos e estabelecer novos parâmetros culturais que condicionariam a sociedade às novas formas de funcionamento do sistema.
A Universidade não ficou imune a isso, conforme atestou Milton Santos, e dela partiram também novas formulações no campo da ciência, do conhecimento e do controle ideológico. Deparamo-nos, assim, com tratados e teses que visavam acomodar essa nova realidade, ao mesmo tempo em que ela própria se enquadraria nos novos padrões mercadológicos produtivistas de tratar o conhecimento e a ciência. Daí o sentido que se tentar dar à história, dos que a veem a partir da pós-modernidade, apontando para a desconstrução do antigo, reinscrevendo e ressituando significações e acontecimentos bem como a fragmentação dela própria. E o sentido que se tenta dar à geografia, aos que apontam a desterritorialização também dentro da lógica de justificar as transformações globalizantes e as imposições do capital.
Nesse tempo de efemeridades, de rapidez não somente nas relações econômicas, mas também nas superficialidades das relações humanas, fica mais fácil compreender o significado da expressão criada por Marx no Manifesto Comunista e que ficou marcada pela titulação de Marshall Bermann (1993) ao seu livro sobre o fim da modernidade:
Todas as relações fixas, enrijecidas, com seu travo de antiguidades e veneráveis preconceitos e opiniões, foram banidas; todas as novas relações se tornam antiquadas antes que cheguem a se ossificar. Tudo que é sólido desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado, e os homens finalmente são levados a enfrentar [...] as verdadeiras condições de suas vidas e suas relações com seus companheiros humanos.
Com isso não queremos dizer que tudo que surge com a chamada “pós-modernidade” deva ir para a lata do lixo. Devemos, no entanto, observar atentamente como nesse novo tempo, de um totalitarismo econômico disfarçado de liberdade e democracia, impõe verdades tidas como absolutas, as quais têm transformado o mundo num templo em que reina o fundamentalismo, a violência e a intolerância.
No entanto, é absolutamente falso imaginar que a globalização torna o “mundo plano”, conforme expôs Thomas Friedman em seu livro que leva esse título, pela maneira como os negócios crescem e se acelera por meio das facilidades de transporte e de comunicação. Pois o que se viu nessas duas últimas décadas, em que se propagou a globalização como a vitória definitiva do capitalismo e o fim da história, foi o poder centralizado pelas poucas grandes corporações e por uma quantidade ínfima de grandes bilionários, menos de uma centena, que controla metade da riqueza mundial. No plano geopolítico, a disputa acirrada pela manutenção da hegemonia, pelos Estados Unidos e seus aliados, impôs ao mundo uma fragmentação e uma violência desmedida, acentuando guerras, conflitos regionais, migração em massa, crises políticas e o menosprezo à democracia. O mundo continua sendo um ambiente dominado por pequenos grupos que fazem de tudo para não perderem o controle da riqueza, mesmo que isso signifique uma ampliação absurda das desigualdades sociais. Não há planura, no mundo, o que há são ondulações perigosas, que tiram do prumo a sociedade sempre, pela onda cíclica que afeta permanentemente o sistema.

REFERÊNCIAS:
ANDERSON, Perry. As origens da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 1999.
BERMANN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. A aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
BRAUDEL, Fernand. Gramática das civilizações. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
HAESBAERT, Rogério. O mito da desterritorialização. Rio de Janeiro: Bertran Brasil, 2004.
KURZ, Robert. O colapso da modernização. São Paulo: Paz e Terra, 1992.
MOTTA, Nelson. Como uma onda: In: SANTOS, Lulu. Último romântico. São Paulo: Warner Music Brasil, 2000. CD ASSIM 022925515728.
RECLUS, Élisee. L’homme et La terre. Tomo I. Trad.: Maria Cecília França. Paris: Universelle, [s.d.]. p. 108-114.
SANTOS, Milton. Técnica, espaço e tempo. São Paulo: Hucitec, 1984.
______________. A natureza do espaço. São Paulo: Hucitec, 1996.
SOJA, Edward. Geografia pós-modernas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993.

(*) A versão original deste artigo foi publicada no livro TEMAS GEOGRÁFICOS, editado pelo Programa de Educação Tutorial da Geografia (PET-GEO) no ano de 2008. Fiz alterações e adequações para que ele pudesse contemplar ainda hoje a realidade econômica e social que vivemos, no Brasil e no mundo.



[1] http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/02/150206_detroit_ressurreicao_lgb