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quarta-feira, 12 de agosto de 2020

TODOS NÓS SOMOS AMERICANOS – REFLEXÕES SOBRE A APROPRIAÇÃO DO NOME DE UM CONTINENTE PELOS EUA

Esse é um assunto que de forma recorrente trato em minhas aulas de geopolítica[1]: a apropriação do termo “americano” pelos Estados Unidos da América. Desta feita vou partir da leitura de um texto de Michael Walzer,  “Que significa ser americano?”,[2] quando o autor propõe uma reflexão sobre não somente o sentido dessa expressão, como do próprio caráter da identidade do cidadão nascido naquele país, bem como de sua relação com o caráter da nação, ou do nacionalismo.

Mas a meu ver, além de uma opinião muito focada das concepções liberais republicanas, afinadas com os setores conservadores, ele peca ao omitir um elemento que é crucial para entendermos esse processo de afirmação dos EUA como um estado imperialista, e da apropriação do sentido de ser “americano”. Refiro-me à questão religiosa, cujos elementos foram norteadores do manifesto que impôs à governança estadunidense os caminhos que passaram a trilhar a partir do século XIX, e a enxergar o restante da América como submissa aos seus interesses imperais.

Podemos, e devemos sempre, encontrar as respostas para as origens dessa apropriação com uma rápida digressão histórica. Mas antes eu quero dizer que sou, e sempre fui, apaixonado na história dos Estados Unidos, em todo o seu processo desde a transformação de colônia em um dos primeiros países independentes e de constituição republicana, por meios revolucionários. Bem como se deu sua expansão territorial se apropriando de terras mexicanas, adquirindo territórios dominados pelos franceses e até mesmo pelos russos. E suas conquistas territoriais que conta-se pela bravura dos exploradores, mas omite-se o verdadeiro genocídio do povo autóctone, os indígenas. Apaixonar-se por uma história não significa compactuar com os malfeitos, muito menos aderir aos arroubos imperiais ou imperialistas que passaram a caracterizar esse país a partir do século XIX.

Tenho repetido que os Estados Unidos nasceu como um país sem nome, e essa “deformação” deveu-se à escolha das lideranças de suas colônias, quando do processo de luta para libertar-se das explorações impostas pelo império britânico e que se tornou a luta pela independência.

Na verdade, houve uma união de treze colônias, que se juntaram para lutar contra os ingleses, a partir da resistência em aceitar os exorbitantes impostos cobrados pela produção de chá. Ao final de uma intensa e sangrenta luta, a declaração de independência não firmou, como se deu, por exemplo, na França, um Estado-Nação com sentido federado e unificado.

A declaração de independência manteve a autonomia pré-existente, considerando cada uma das treze colônias com plenas liberdades em aspectos que visavam reforçar o sentimento de que elas possuíam características identitárias próprias, refletidas nas origens tanto religiosas como étnicas (na falta de outro nome). Ou seja, suas histórias de vidas mantinham-se vinculadas a outras nações, de onde originalmente vieram.

Criou-se assim os Estados Unidos, da América, continente que abrange dezenas de outras nações e nacionalidades. Cada um dos Estados (ex-colônias) manteve sua autonomia em questões que dizem respeito a valores que se encontram na base de suas formações, garantindo na constituição o direito ao Estado - no sentido mais geral -; a formulação das fronteiras, a defesa de seus limites territoriais e a formação de um poder militar que os defendesse de agressões externas. Isso até a eclosão da guerra civil, que só veio reforçar esse paradoxo, e rompe com um sentido de nação.

A guerra de secessão tornou-se um delimitador dessa situação. Após esse conflito os Estados Unidos aproximaram-se da formação tradicional de um estado nacional moderno, tal qual construído pela burguesia a partir da decadência do feudalismo e do fracasso do absolutismo.

Walzer analisa essa formação a partir de suas origens, e, abordando as características de um país construído a partir de fortes movimentos migratórios, ressalta a dificuldade, partindo dessa formação, de os Estados Unidos se aceitarem enquanto Nação.

Mas o “ser” americano, a meu ver, se explica pela adoção de um comportamento agressivo, já de um Estado Nação constituído, embora sem nome, cuja característica assumida aproximou-se da antiga metrópole contra a qual séculos antes ele se batera e conseguira libertar-se.

Pintura (cerca 1872) de John Gast
chamada Progresso Americano
 - wikipedia
Dois movimentos para isso foram fundamentais. Ideológicamente isso se concretizou mais adiante, no final do século XIX. Além das teorias geopolíticas, necessárias ao controle do domínio dos mares, e consequentemente de toda a América, um mecanismo religioso consolida essa postura imperialista. O chamado “Destino Manifesto”, pelo qual entendia-se que os Estados Unidos teria recebido por influência divina o poder de garantir a liberdade e segurança de toda a América.

Por outro lado, as estratégias geopolíticas de militares-teóricos, como Alfred Mahan e Nicholas Spykman, que propunham o controle por parte dos Estados Unidos dos dois oceanos, o Atlântico e o Pacífico, e a necessidade da influência militar sobre toda a América. Rechaçando toda e qualquer ingerência europeia, ou de qualquer outro continente, sobre o território americano. A guerra contra a Espanha, no final do século XIX, e o controle assumido após esse conflito sobre algumas colônias, como Cuba, foi o início dessa nova etapa de um país que começava a constituir-se em um novo império.

A palavra de ordem, “A América para os americanos”, veio juntar-se à concepções de uma política intervencionista agressiva, consolidada pela chamada “política do porrete”, ou o “big stick”, ameaçando todos aqueles que ousassem invadir o solo americano.

Impõe-se assim, pela força de um país que se fortaleceu e se unificou politicamente a partir da guerra de secessão, o domínio sobre antigas colônias britânicas, espanholas e portuguesas. Senão no sentido tradicional, mas agindo de outra forma, estabelecendo em cada uma delas governos submissos e/ou subalternos.

A expressão Estados Unidos da América se consolidou, assim, a partir do final do século XIX, não somente como dando sentido a um Estado Nação de característica diferente, porque manteve-se a autonomia de todos os seus novos Estados-províncias, mas impondo-se sobre os demais no continente, assenhoreando-se do termo “América” e “americano”.

A difusão desse termo, a ponto de tornar-se uma expressão definitiva da identificação de quem é nascido nos Estados Unidos deveu-se ao poder que essa potência passou a exercer por todo o continente americano. Principalmente devido à submissão secular das elites tradicionais dos países coloniais, que aceitaram essa influência e a apropriação do termo americano, e se propuseram a difundi-lo em todo o seu aparato midiático.

De tal forma que essa expressão passou a ser comumente utilizada, inclusive em livros didáticos, embora nitidamente farsesca e historicamente uma vergonhosa mentira, aceita inclusive por intelectuais, dentre os quais muitos historiadores.

A apropriação do termo “americano”, por um país que surge sem nome, e a aceitação submissa por parte das colônias políticas e culturais, demonstra o enorme poder, que, a partir do final do século XIX, o império estadunidense passou a impor para toda a América, e daqui para o mundo a partir do início do século XX.

Considerar o cidadão nascido nos Estados Unidos, como americano, é tanto uma verdade como dizer que os que nascem no Brasil, no Uruguai, no Chile e em tantos outros países desse imenso continente chamado América, também o são. Assim como são europeus os que nascem na França, na Alemanha, Irlanda etc. etc... etc...

Mas porque insistir em falar de americano aos que são estadunidenses? É o velho hábito, que se tornou uma cultura política, mantido pelo força da coerção, da subserviência e da aceitação do poder imperial. E, principalmente, porque todo o aparato midiático insiste em repetir cotidianamente, como a reforçar a necessidade de nos considerarmos inferiores, posto que o poder do império se impõe por toda a América. Isso, pode-se também dizer, tornou-se uma tradição pelo comportamento de elites assumidamente provincianas e submissas.

Resta-nos apostar que as futuras gerações conseguirão romper com esse forte domínio de uma cultura política que já se aproxima de duzentos anos. É salutar perceber que nos novos livros didáticos brasileiros gradativamente o termo estadunidense já começa a substituir a palavra americano, no contexto aqui analisado.

Particularmente nada tenho contra os cidadãos nascidos nos Estados Unidos. As questões, de ordem geopolítica que aqui analiso dizem respeito a políticas de dominação secularmente impostas sobre os demais países americanos, desde o México até o Uruguai, por uma potência imperialista. Aliás, diga-se ainda, que alguns, para fugir do uso do termo americano, o substitui por norte-americano, reduzindo o alcance do erro, mas transformando Canadá e México em duas províncias dos Estados Unidos.

Para que a História seja justa com aqueles que tentaram uma unificação americana, devem-se resgatar os ideais de Simón Bolívar, responsável pelas lutas de independências em vários países, dentre os quais, Bolívia, Equador, Venezuela, Panamá, Peru e Colômbia. É possível que os ideais de integração bolivariano para a América Latina tenham preocupado o emergente poder imperial dos Estados Unidos, se antecipando a uma provável luta pela união dos estados americanos.

Importa ao final enfatizar a compreensão de que os Estados Unidos não é a América. E a América não é os Estados Unidos. O continente americano tem nos últimos anos se deparado com situações que nos apontam para um resgate cada vez maior das identidades dos povos que habitam cada um de seus países. Mas deverá também consolidar cada vez mais o sentimento de que a América não é o quintal de um grande império, mas um continente a reforçar cada vez mais a sua identidade.

Afinal, todos nós somos americanos!


NOTAS:

[1] Este artigo foi publicado originalmente em 12 de agosto de 2012. Foi revisto e atualizado. https://gramaticadomundo.blogspot.com/2012/08/todos-nos-somos-americanos.html

[2] O que significa ser um americano ( Marsilio Publishers , 1992) ISBN  1-56886-025-0.   http://www.sociologicamexico.azc.uam.mx/index.php/Sociologica/article/view/850/823

 

domingo, 18 de fevereiro de 2018

GEOPOLÍTICA DA AMÉRICA LATINA


Íntegra da entrevista concedida ao Jornalista Renato Dias – DM. Publicada no dia 17/02/2018



A América Latina sofre, hoje, o esgotamento de um ciclo progressista? 
Não diria “esgotamento”, mas as políticas progressistas, mesmo que limitadas e ainda padecendo de alguns defeitos neoliberais, colocaram em xeque o velho poder tradicional, de uma oligarquia acostumada a dominar com o apoio dos EUA. Isso durou o tempo em que as ações das políticas externas estadunidenses estavam absorvidas em intensas guerras no Oriente Médio e na tentativa do isolamento da Rússia. Quando se percebeu que os países latino-americanos estavam seguindo por uma rota diferente, e por meio da liderança brasileira construindo uma alternativa na geopolítica mundial de deslocamento do poder estratégico, inclusive reforçando o poderio comercial pelo pacífico em direção à China, e incluindo a própria Rússia, as ações se voltaram para destruir os governos daqueles países que tem maior importância nessas relações políticas. As crises foram geradas por meio de ações políticas e infiltrações de agentes em manifestações, ao mesmo tempo em que grande mídia tradicional unificava seu discurso com o objetivo de desconstruir as mudanças que estavam em andamento. Como muitos desses governos administraram crises de Estado, e por ter que lidar com congressos parlamentares de maioria conservadora, terminaram por manter vícios na administração e na política. Foi por esse caminho, tradicionalmente trilhado por eles, que os conservadores deram um xeque mate na esquerda. O moralismo hipócrita, o discurso conservador religioso e a manipulação da mídia, terminou por apagar a euforia que existia na relação com a esquerda. Isso não significa esgotamento, mas uma nova etapa de um processo político que encontra sempre adversidades. Contudo, as dificuldades enfrentadas pela população, em razão de uma crise real consumir seus ganhos salariais, e á medida em que esse discurso conservador for sendo desmascarado a tendência é que haja uma retomada nessas políticas progressistas. Mas o momento, infelizmente, é de retrocesso.
Existem identidades entre as quedas de Manuel Zelaya, 2009, Honduras; Fernando Lugo, 2012, Paraguai; Dilma Rousseff, 2016, Brasil?
Sim, claro. Não há dúvidas, nem coincidências. A derrubada desses governos, bem como o desgaste imposto aos Kirchner na Argentina, fez parte de uma estratégia conservadora numa ação política para retomar o controle do poder na América Latina e botar nos governos desses países fantoches, elementos ligados aos interesses dos EUA.
O que explica a derrota do Kirchenerismo, após 13 anos de hegemonia, na Argentina?
Praticamente as mesmas razões que levaram ao definhamento do PT aqui no Brasil. Uma reação orquestrada, conforme já disse anteriormente, que passou inicialmente por uma forte campanha de desmoralização dessas forças políticas, e da esquerda em geral, por meio da intensificação na grande mídia de notícias negativas e de contrainformações com o objetivo de gerar fortes desgastes. Mais do que simples desgastes, as ações, coordenadas pela mídia, mas contando com o apoio de ONGs, órgãos do próprio Estado dominado por idéias e práticas conservadoras, e intensificada por um setor poderoso do judiciário quando viram que seus interesses corporativos estavam sendo ameaçados no Governo Dilma. Na Argentina o embate foi ainda mais prolongado, porque ainda houve uma sobrevida da Cristina Kirchner, que conseguiu suportar até locaute e intensas greves patrocinadas pelos setores “produtivos”, ou melhor dizendo, por aqueles que controlam os meios de produção.
A deposição das armas pelas Farc constituem uma estratégia correta?
A meu ver sim. Eles seriam dizimados diante de um quadro que lhes era absolutamente adverso. Principalmente com a crise que se intensificou na Venezuela e com todo o poderio bélico que foi investido pelos EUA na Colômbia. Na verdade, essa guerra servia aos interesses estratégicos estadunidense, porque através da política de combate ao tráfico de drogas, e da vinculação que foi dada dessa atividade com a guerrilha, as ações militares cumpriam outros objetivos, de através da Colômbia as ações de inteligência no combate às drogas servissem para desestabilizar os governos de esquerda.
Os EUA recomendam um golpe de Estado civil e militar, hoje, na Venezuela. Para depor Nicolás Maduro. Como analista da geopolítica mundial do século 21, o que o senhor tem a dizer?
Isso é um “deja vu”. Os EUA sempre agiram assim na relação com os países da América Latina cujos governos lhes eram e são hostis. É uma política imperialista, de envolvimento direto nos destinos de outras nações, ferindo frontalmente a autodeterminação de cada povo e de cada país. Essa é uma história cujas origens podem ser encontradas no século XIX. Pelo “Destino Manifesto”, de viés protestante-puritano, aquele país se designou como sendo o eleito por Deus para dominar as Américas, daí a célebre e malfadada frase: “A América para os americanos”. E, pouco depois, a política do “Big Stick” (o grande porrete), inserido na Doutrina Monroe, que tratava na ponta do porrete aqueles países que ousassem sair da “linha” e contrariassem os interesses estadunidenses. O que ocorre com a Venezuela já aconteceu com Cuba, com o Brasil, com o Panamá, com a Bolívia e com todos os países cujos governos adotassem uma política de alianças com inimigos estratégicos dos EUA. A guerra fria acabou, mas não essa forma dos EUA lidar com seus desafetos. Muito pelo contrário.
Raúl Castro deixa mesmo o poder, no mês de abril, em Cuba, para Miguel Díaz-Canel?
Acredito que sim, e acho que isso fez parte do acordo com os EUA durante o governo Obama, com a intermediação do Papa Francisco. Até mesmo pelo fato dele já estar bastante velho. Agora tudo depende da maneira como se dará a relação com os EUA. Com o Trump muito do que foi acordado entre os dois países está sendo desfeito. Porque sabemos que a política externa de Trump é isolacionista, e sua base de apoio é muito forte entre os anti-castristas que vivem naquele país. É possível que a saída dele sirva como um trunfo nas negociações para que o Bloqueio criminoso de cinco décadas seja extinto. Mas é preciso ainda ver como as coisas andarão nos EUA sob a batuta desafinada de Donald Trump.
Luiz Inácio Lula da Silva será preso e impedido de disputar as leições de 2018?
Veja, desde o começo dessa crise em que ficou bem claro a seletividade nas investigações de casos de corrupção que tenho dito que o objetivo é pegar o Lula. Quando falo em seletividade não me refiro somente a investigações aos que são do PT, mas aos que fizeram parte da base de apoio dos governos Lula e Dilma. Porque tudo que se está descobrindo agora, era prática corriqueira de décadas de política brasileira. As eleições aqui no Brasil sempre aconteceram contaminadas nessas relações entre empresas e financiamento de campanha. Foi assim que as oligarquias permaneceram no poder tanto tempo. Portanto isso tudo aconteceu nos governos anteriores, inclusive do PSDB, com FHC, que usou do mecanismo de compra de parlamentares para aprovar a reeleição. Ora, se o objetivo desde o começo é prender Lula, para que ele não retorne à presidência da República, e se por mais de dois anos repetidamente se acentua o desgaste numa lógica goelbesiana (uma mentira repetida por muitas vezes se passa por verdade), é evidente que isso deverá acontecer. Pode não acontecer caso o STF volte atrás na decisão de prender um investigado quando já houver uma condenação numa segunda instância judicial. Se isso não acontecer o Lula será preso. A menos que houvesse uma convulsão social e ações de desobediências civis coletiva. E isso não me parece que vai acontecer, porque o povo está anestesiado e muito cético em relação a política. Houve uma desconstrução perversa do que aconteceu de melhor no Brasil nos últimos anos e o pessimismo foi injetado no inconsciente da população. Pessimismo, aversão à política e intolerância com as diferenças. Nesse ambiente a sociedade está mais para a letargia do que para se levantar contra injustiças que se cometam contra um político que é tido, e isso é inegável, como a maior liderança política do país desde Getúlio Vargas. É claro que isso tem um tempo de validade, a desesperança leva ao desespero, e às insurgências sociais, basta pesquisar na história.
Qual a sua análise do cenário em Goiás?
Não é diferente do cenário brasileiro. E também segue uma onda conservadora. Para desespero daqueles que combateram a ditadura acabamos de ver um ex-governador biônico, base de apoio da ditadura militar, ser conduzido à condição de Secretário de Segurança Pública, isso mostra o nível do retrocesso e da mudança de foco de uma política de viés social para outra de caráter repressivo, porque é o que esse nome representou e representa. Veja também que o nome mais forte para candidato ao governo é de um elemento que comandou na década de 1980 uma associação de fazendeiros criada para eliminar lideranças sindicais rurais e camponeses que lutavam pela terra, a UDR. E faziam leilões para comprar armas com esse intuito, claramente definido e propagado. Uma candidatura que representa antigas oligarquias goianas, que se imaginava já estar soterrada com o tempo e as transformações políticas. Claro que o nome forte, porque o conservadorismo foi acionado pela campanha midiática contra os setores progressistas, não significa uma estrutura de partido forte, portanto não acredito que ele seja vitorioso. Até porque seu discurso radical de direita afasta políticos do Centro e tende a isolá-lo politicamente no transcorrer da disputa. Mas Goiás também tem uma característica de uma estrutura econômico-social fundada na exploração da terra, da grande propriedade latifundiária e do grande agronegócio, e isso por si só reforça o caráter conservador da sociedade. E culturalmente por todos os poros goianos essa tendência se manifesta e afeta até mesmo as camadas mais baixas da sociedade. Portanto, não acredito numa alternativa progressista como sendo vitoriosa nas próximas eleições aqui em Goiás, não há força política para isso, até mesmo em Goiânia que por diversas vezes elegeu prefeitos de esquerda. Essa tendência conservadora só não terá impacto maior se os partidos de esquerda conseguirem se unir em torno de uma candidatura que possa de fato competir visando chegar ao segundo turno. Se isso não for possível veremos uma disputa entre o candidato de centro-direita e um candidato de direita no segundo turno das eleições em Goiás, infelizmente.

domingo, 12 de abril de 2015

BRASIL: DA CRISE REAL AO PÂNICO MIDIÁTICO

CRÔNICAS DE UM MUNDO EM TRANSE - (Continuação)

No artigo anterior que postei aqui no Blog, procurei analisar a conjuntura internacional nos últimos anos e as transformações que aconteceram em várias partes do mundo. Penso que é impossível compreender a crise brasileira fora do contexto internacional. As mudanças que aconteceram aqui e na América Latina estão diretamente relacionadas às mudanças na geopolítica mundial desde o 11 de setembro de 2001, com o ataque às torres gêmeas do World Trade Center.
Mais uma vez recorro à série de artigos que escrevi em 2012, denominada “Crônicas de um Mundo em Transe”. Os links encontram-se na postagem citada.[1] Assim, posso aqui fazer referências pontuais a elementos chaves da política desenvolvida pelos Estados Unidos, e seguidas por dezenas de países aliados, no auge da comoção pelo atentado que matou mais de três mil pessoas, na ação mais ousada em solo estadunidense desde a Segunda Guerra Mundial, com os ataques de aviões kamikazes japoneses à base de Pearl Harbor.
As retaliações que vieram a seguir com uma estupenda movimentação de tropas e a invasão de dois países, o Afeganistão e o Iraque, completamente destruídos e com seus governos destituídos, trouxe também um forte efeito colateral. O enorme gasto militar para dar sustentação a deslocamentos de soldados e armas, e o desvio das atenções em relações às políticas da América Latina, foram cruciais para gerar um forte abalo econômico e geopolítico nos interesses estadunidenses. Alie-se a isso forte impacto financeiro causado pela destruição de um símbolo econômico do poder imperial daquele país, e a quase falência da indústria de securitização, uma vez que nas torres encontravam-se escritórios de representação financeira de empresas de vários países, bancos e até mesmo matrizes das próprias grandes seguradoras.
O impacto foi grandioso, pouco medido, mas difícil de ser contestado. Os dois fatores somados, as consequências econômicas geradas pelos atentados e as ações de guerras no Afeganistão e no Iraque, abalaram a maior economia do mundo. Por extensão afetaram boa parte dos países, notadamente os de maiores influências nos mercados internacionais.
Os anos subsequentes foram de profunda insegurança, medo e de endurecimento na vigilância dos cidadãos estadunidenses e, principalmente, de outras partes do mundo. O ambiente gerado por essas medidas afastou a população de centros e áreas importantes, o temor de novos atentados trouxe intranquilidade e fez com que houvesse uma significativa redução do consumo. Isso levou a medidas de incentivos por parte do governo Bush, com redução de taxas de juros, a fim de fazer com que a economia voltasse a funcionar dentro dos padrões da normalidade existente antes de 2001.[2]
Por outro lado, já que as atenções voltavam-se para o Oriente Médio e a Ásia Central, a América Latina deixou de ser uma importante preocupação na geopolítica estadunidense naquele momento. Com isso possibilitou que coalizões de esquerda conseguissem derrotar governos neoliberais, alinhados com os EUA, e seguissem o caminho que a Venezuela trilhara ainda no final do século XX, com a eleição de Hugo Chavez. O Século XXI iniciava-se com uma profunda reviravolta no espectro político internacional, e afetaria os anos seguintes, culminando com a crise econômica que atingiu mundialmente o sistema capitalista e que estourou no ano de 2008.
Mas deixou consequências na Ordem Mundial que viria a tornar o mundo mais inseguro e com uma quantidade maior de conflitos espalhados por praticamente todos os continentes. A América, naturalmente não foi exceção, pelo ambiente tenso gerado pelas alterações de poder, levando muitos governos a adotarem políticas desenvolvimentistas, em contraposição ao forte neoliberalismo que vigorara nos anos 1990. E possibilitou a derrota de um projeto de criação de uma área de livre comércio que reforçaria a influência dos Estados Unidos, a ALCA. Não somente isso, como também uma inversão com o fortalecimento do MERCOSUL, o surgimento da ALBA (Aliança Bolivariana para as Américas) e, principalmente, da UNASUL.
Nenhum impacto foi maior, contudo, dentro do contexto da geopolítica mundial, e não somente regional, do que o surgimento do BRICS, bloco econômico, e geopolítico, que passou a aglutinar o Brasil, a Rússia, a Índia, a China, e, posteriormente, a África do Sul.
Enquanto os EUA se enrolavam cada vez mais em um novelo bélico de difícil saída e fartos gastos econômicos, a geopolítica mundial tomava uma nova direção com o surgimento de novos protagonistas, que cresciam e buscavam estabelecer relações cada vez mais sólidas, tanto política quanto econômica.
Nem mesmo a crise econômica foi capaz de frear o ímpeto desse novo bloco. As políticas de proteção social e de distribuição de rendas, em que o Brasil foi o principal país a formular ações fundamentais que as consolidaram, garantiram um forte aquecimento na economia e deram tranquilidade para passar a turbulência daquele ano. Ao contrário do que acontecia no resto do mundo e, em especial nos EUA. Foi essa a razão do então presidente Luis Inácio Lula da Silva ter utilizado a palavra “marolinha”, para se referir à crise, advogando a certeza de que ela não afetaria o Brasil.
O que fez a diferença para que a crise não afetasse o Brasil? Seguramente o otimismo injetado na sociedade com uma fase de confiança jamais vista na sociedade brasileira. Isso aliado ao forte aquecimento de uma economia que vicejava internamente, impulsionada por programas sociais de transferências de rendas com maior destaque para o Bolsa Família. Aí, com certeza, encontra-se a razão do acirramento do ódio da classe dominante e dos setores conservadores. Não somente porque reforçava o poder dos setores de esquerda, liderados pelo Partido dos Trabalhadores, mas também porque esse programa quebrava a velha instrumentalização da pobreza, com as chamadas políticas dos grotões, reminiscência do período pós-colonial e da estruturação da política tradicional que tornava em favores o que deveria ser obrigatoriamente políticas públicas.
Com isso, criava-se a dependência dos mais pobres aos “coronéis” que dominava o poder político regional, bem como a subserviência com que essas populações tratavam os mais ricos. Hábitos enraizados que se mantêm até os dias atuais, com os tratamentos de “doutor” a médicos, advogados, engenheiros, sem que os mesmos tivessem, de fato, essa titularidade. Doutores eram aqueles que se situavam no topo da pirâmide, a quem era devido uma subimissão secular, e que por todo esse tempo representou um forte componente para o preconceito, despertado na última campanha eleitoral e potencializado pelas medidas de inclusão social. O resgate da cidadania das empregadas domésticas inclui-se nesse rol, mas também uma razão a mais da insatisfação da classe média alta e burguesia brasileira.
Pelo interior do Brasil, nas pequenas e médias cidades, essas mudanças eram visíveis. Os investimentos em obras públicas, através dos Programas de Aceleração de Crescimento (PAC), Luz para todos, Minha casa minha vida, e da distribuição de centenas de unidades de ensino tecnológico, aliado a fortes investimentos em educação superior, com ampliação de estruturas, aumento do número de cursos e novas universidades que surgiram em locais distantes dos grandes centros urbanos, foram fatores que deram forte impulso ao desenvolvimento interno brasileiro.
A abertura de inúmeras linhas de créditos nos bancos públicos, BNDES, Banco do Brasil e Caixa, com taxas bem abaixo das cobradas no mercado, constituíram-se em mecanismos eficazes de financiamento para que a população pudesse incrementar a economia via consumos de produtos tecnológicos e de utensílios domésticos. Ao mesmo tempo, esses setores tiveram suas cargas tributárias diminuídas, com a redução do imposto sobre produtos industrializados. O mesmo foi feito em relação à indústria automobilística (neste caso com o IPI chegando a zero), um dos setores de maior geração de empregos em toda a sua cadeia produtiva. Ao lado da indústria da construção civil, esta impulsionada pelos programas habitacionais e pelos fortes investimentos via PAC.
Essas iniciativas deram certo durante os três mandatos, de Lula e Dilma Roussef , muito embora os avanços tivessem sido significativos, o combate a essas medidas, mesmo com aprovação internacional e repercussão positiva na própria ONU para muitos programas sociais brasileiros, principalmente o Bolsa Família, a reação internamente era muito forte por parte dos setores conservadores e da grande mídia tradicional. Agregue-se a tudo isso o aumento do salário mínimo, sempre acima da inflação, portanto com ganhos reais e a recomposição do valor em níveis comparáveis com o governo de João Goulart, embora estando ainda distante do que valia durante o período de Getúlio Vargas, quando foi criado.
No entanto, a crise econômica mundial não retrocedeu. Mas era previsível que ela não recuasse. A gravidade dessa crise só é menor do que a que acarretou a grande depressão, e se estendeu do final da década de 1920 até a década de 1930. Foi preciso a estupidez da guerra para salvar o capitalismo da grande depressão, apesar das políticas intervencionistas keynesianas aplicadas antes dela. Mas o fundamental foi a indústria da guerra e a reconstrução da parte do mundo destruída que recolocou a locomotiva capitalista de volta aos trilhos.
A atual crise não apresenta perspectiva de solução. A meu ver, nem a curto nem médio prazo. E em longo prazo penso que poderemos encontrar uma alternativa para essa estrutura falida, completamente dominada pelo poder das grandes corporações e conglomerados financeiros.
O erro do governo Dilma foi apostar alto em medidas que visaram desonerar folhas de pagamento, isentar de impostos sobre produtos industrializados setores considerados estratégicos para a manutenção do índice de emprego, reter o preço dos combustíveis em situação de alta no mercado internacional (além de suspender a cobrança da CIDE – Contribuições de Intervenções no Domínio Econômico), cobrada sobre a importação de petróleo e seus derivados, e baixar a bíceps os preços da energia elétrica em detrimento do reforço da rede de distribuição e da melhoria das infraestruturas do setor.
Tornou-se um erro porque não deram certo, a não ser por um curto tempo. Mas as intenções foram boas, e teriam outro efeito não fosse a persistência de uma crise econômica avassaladora, que tem feito com que a maioria dos países reduzam seu poder de compra, alterando substancialmente a balança comercial brasileira. Por esse tempo, as consequências da crise, e do menor impacto dela no Brasil, sempre vendemos mais do que compramos. Mas o vento virou. A capacidade de investimentos brasileiros alterou a balança comercial, e enquanto prosseguíamos comprando no mercado internacional, os países diminuíam seus gastos e aquisições, fazendo a balança comercial tornar-se deficitária.
Internamente, os efeitos da crise passou a se refletir na oscilação do dólar, consequência da política dos Estados Unidos, que, na medida em que os dados apontavam uma recuperação do emprego, o mercado apostava na alta de seus juros. Como efeito os especuladores buscavam garantir seus investimentos naquele que é visto como o mercado mais seguro, apesar dos abalos. A retirada de dólar, aliado com a retração nos investimentos estrangeiros, elevaram o valor da moeda, repercutindo nos preços internos. Sendo, contudo, celebrado pelos setores exportadores, principalmente pelos que lidam com commodities.
Ao mesmo tempo, passamos a conviver com a mais grave crise hídrica da história brasileira, porque passa a atingir outras regiões, e não mais somente o Nordeste. O Centro-Oeste, e principalmente, o Sudeste, onde se concentra a maior parte do parque industrial brasileiro, impunha restrições ao uso de água, ao mesmo tempo em que afetou a produção de alimentos básicos, como frutas, legumes e hortaliças. Naturalmente, para não fugir à regra, a grande mídia conservadora tirou a responsabilidade dos governos estaduais (e omitiu algumas verdades sobre suas incompetências, como no caso de São Paulo e Minas Gerais), e produziu reportagens sub-reptícias, jogando nas costas do governo federal todos os males dos pífios gerenciamentos hídricos, de responsabilidades de Estados e Municípios.
O golpe mortal, que levou à lona o governo, no entanto, veio de cima para baixo. O que já deveria ser esperado. As denúncias de esquemas de corrupção para  composição de caixas 2, cujos recursos  teriam sido destinados à financiamento de campanhas. Algo sempre presente na história da política brasileira, e atividade desenvolvida em qualquer grande estatal federal ou estadual, em benefício de todos os grandes partidos. Por um ano, completado no mês de março, todos os dias, em todos os noticiários, de manhã, tarde e noite, na grande imprensa escrita ou televisada, uma verdadeira ação de guerrilha, com fustigamentos implacáveis, numa perfeita sintonia entre investigação policial, ação do judiciário e vazamentos de informações seletivas para os meios de comunicação. No foco, a principal empresa brasileira e uma das maiores do mundo no ramo de exploração de petróleo, responsável pela descoberta e extração de uma das maiores reservas de petróleo descobertas em tempos recentes: a Petrobrás. A mesma que nos governos do presidente Fernando Henrique Cardoso, se tentou a privatização, a começar com a alteração de seu nome, para Petrobrax, retirando a referência ao Brasil.[3] Era o que se pretendia, mas fracassou. Esse objetivo, no entanto, não está esquecido.[4]
Evidente que a manutenção de um esquema que funcionava há muito tempo, desde antes do Governo Lula, fazendo-se, no mínimo, vistas grossas às ações de verdadeiros abutres que por décadas assaltaram os cofres da empresa, em mais de um bilhão de dólares, foi no mínimo um grande deslize, mas foi algo pior dentro de uma visão estratégica. A responsabilidade do governo federal, nesse caso, está em ter permitido a atuação livre de elementos corruptos, muito embora isso, necessariamente, não represente um atestado de cumplicidade. Mas decorrem das imposições de partidos da base aliada, que impõem em escolhas, exatamente aqueles cargos possíveis de serem geradores de propinas. Ora, isso é uma verdade irrefutável e antiga na estrutura do Estado brasileiro. E não somente aqui no Brasil. Essa é uma preocupação muito atual na União Européia, e pesquisas recentes indicam que cerca de 75% dos europeus acreditam que a corrupção é generalizada em seus países, e 56% consideram que isso tem se agravado nos últimos três anos (a pesquisa é de 2014)[5]
O que não poderia ser permitido, além do combate intrínseco à corrupção, com a autonomia dos órgãos policiais federais e Ministério Público, é que a empresa de maior importância estratégica fosse alvo de tamanho ataque e da consequente perda de credibilidade. Desde o surgimento do Pré-Sal, e da alteração do processo de exploração, para o sistema de partilha, era evidente que a Petrobrás seria alvo dos interesses corporativos e de governos estrangeiros, notadamente os EUA. O mínimo que o governo federal deveria ter feito era acompanhar de perto toda a lisura do funcionamento dessa importante estatal, a fim de impedir qualquer ataque que pudesse desmoralizá-la, de dentro e por fora. E, para isso, deveria colocar a ABIN (Agência Brasileira de Informação) a serviço de descobrir qualquer irregularidade e atos lesivos a esse importante patrimônio do povo brasileiro.
Ao contrário, o que se viu foi o envolvimento de pessoas ligadas a partidos da base do governo indicadas para cargos chaves, de relações diretas com as grandes empreiteiras, useiras e veseiras em práticas de corromper agentes públicos com o intuito de lucrarem mais do que os editais lhes oferecem. O governo não poderia ter perdido o controle do que acontecia ali. A Petrobrás sempre foi alvo de cobiça internacional e desejo de se desfazer dela dos grandes entreguistas, subservientes aos interesses estrangeiros. Primeiro o petróleo, depois a Petrobrás. Com o Pré-sal isso se intensificou, e era esperado que isso acontecesse, pois já existiam situações em outros países que nos deveriam servir de exemplos.
A “Operação Lava-Jato”, com todos os seus vícios e direcionamentos políticos, não resta dúvidas, desmontou um enorme esquema de corrupção de altas somas de recursos públicos, enriquecendo muitos desses agentes corruptos e desviando outras quantias para rechear caixas 2 de campanhas políticas.
Com isso, e sob fogo cruzado, numa situação que impunha uma grande defensiva ao governo, a presidenta Dilma inicia seu segundo mandato. Crise econômica mundial, crise fiscal do estado brasileiro, descontrole inflacionário, denúncias de corrupção e estagnação da economia decorrente de todas essas situações. Tudo isso, amplificado pela forma como a grande mídia conservadora explora essas situações, fomentando um enorme pessimismo na população e revertendo toda a auto-estima conseguida nos últimos anos, principalmente nos Governos Lula. O receio de perder o que já conquistara, e esquecendo que seus ganhos foram possíveis mediante as ações implementadas pelos governos Lula e também no Governo Dilma, fez com que uma grande parte da população caísse na armadilha montada desde há muitos anos pelos conservadores, devidamente representados pelo Sistema Globo (TV Globo, jornal O Globo, revista Época), os jornais Folha de São Paulo e Estado de São Paulo, e a pestilenta revista Veja.
Sim, a crise econômica que estourou em 2008, não passou de uma marolinha aqui no Brasil até 2010, quando o crescimento do PIB chegou a 7,5%, e em média nos governos Lula chegou a 4,06%.[6] Contudo, os últimos meses, e o que se aponta adiante, dão a indicação de que fomos atingidos por um furacão de proporções médias, transformado pela grande mídia em um tsunami.
Os ajustes fiscais podem significar uma correção nos rumos, e uma retomada dos investimentos? Quais os verdadeiros objetivos por trás das ações dos setores conservadores? E como o governo Dilma enfrentará um Congresso dominado por dois personagens que desejam verem-se livres das páginas policiais, já que são também investigados na Operação Lava Jato, e apostam em uma agenda conservadora para ficarem de bem com a grande mídia e os partidos de oposição?
Analisaremos essas questões, a radicalidade do discurso fascista saído do armário, ou melhor, das catacumbas e fossos de torturas, e as margens de manobras que possui o governo para não se tornar alvo da ira dos movimentos sociais e sindicais, no próximo artigo dessa série.
Leiam e debatam. O momento é de discussão, resgate da história e de engajamento na luta para garantir que direitos trabalhistas, duramente conquistadas pelos trabalhadores, não sejam retiradas em benefício das hienas conservadoras que dominam a política. E dos setores empresariais sempre em busca de maiores lucros à custa das desigualdades sociais.




[4]Venda da Petrobrás estará madura em 5 anos, diz ANP -  http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi20059909.htm
[5] A luta da União Européia contra a fraude e corrupção -  http://europa.eu/pol/pdf/flipbook/pt/fight_fraud_pt.pdf

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

CRÔNICA DE UM MUNDO EM TRANSE - 2ª PARTE

O BRASIL, EM MEIO À CRISE ECONÔMICA MUNDIAL

Vimos na primeira parte desse artigo, como a crise econômica tem afetado os países centrais da economia capitalista, como conseqüência dos fracassos causados por um sistema financeiro que atingiu seu limite especulativo e ganancioso. Mas, na contramão dessa situação, países cujas economias emergiram na última década se deparam com situações diferentes, e atingem níveis satisfatórios de crescimento.

Vamos analisar a situação do Brasil, ela está equilibrada do ponto de vista econômico. Nos últimos anos, por questões relacionadas a programas sociais, bolsa família, e até mesmo pelo aumento do salário mínimo (cujo salto foi de uma média de 56 dólares no último ano do governo FHC, para 345 dólares atualmente, e,pasmem, a economia não quebrou, como se atemorizava na época), uma série de ações do Estado, de incentivo que tem sido concedido objetivando transferir rendas, elevou algumas pessoas das camadas sociais mais de baixo e as inseriu acima da linha da pobreza, com capacidade de consumo.


Podemos identificar algumas medidas interessantes, pouco analisadas pela mídia. Por exemplo, desde o governo Lula, esses programas sociais tiveram atenção especial. Como medidas principais foram aglutinados todos os programas que existiam anteriormente em um só, que é o bolsa família, mas ele trouxe junto a obrigatoriedade de quem tem filho mantê-lo na escola, sob pena de ser descadastrado do programa. E, ao invés de se oferecer cestas básicas, como se fazia antes, o pagamento é feito em dinheiro e o consumo passa a ser realizado ali mesmo, no comércio do lugar. Aquece a economia local, e amplia a perspectiva de novos negócios surgirem.

A partir dessas mudanças nessas pequenas economias, empresas do eixo sul-sudeste começaram a se deslocarem para o interior do país. E claro, na medida em que essas empresas se instalam em um município gera empregos, e com o conseqüente aumento do consumo das pessoas, torna-se necessário produzir cada vez mais. Esse círculo, chamado “círculo virtuoso” na economia, interno, é um fator diferencial aqui no Brasil. Não somente aqui no Brasil, mas também na China, que tem um potencial de crescimento interno enorme. E o que a gente sabe é que a crise na política decorre da crise nas condições econômicas da população. Então, se há uma situação equilibrada economicamente, dificilmente se tem uma crise política com repercussão que vá afetar socialmente. É o fato de essas manifestações que ocorrem também aqui no Brasil, marcha de indignado disso, indignado daquilo, não se reproduzem, não atraem multidões, não surte o efeito desejado, como ocorre no Oriente Médio, na Europa e nos Estados Unidos. Limita-se a um número muito restrito de jovens da classe média, ou de estudantes, ainda tentando encontrar novas bandeiras diante das dificuldades de mobilização.

Façamos uma comparação com a situação da Espanha, na Europa, onde aconteceu muito isso. O movimento dos indignados europeus começou pela Espanha, nos chamados países desenvolvidos, mas lá, cerca de 40% da juventude está desempregada, e mais de 20% do total da população não consegue emprego. Aqui no Brasil, chegou-se ao nível mais baixo na história da pesquisa que o IBGE faz para medir o índice de desemprego. Os dados apresentados pelo IBGE em novembro indicam taxa menor que 5% em algumas localidades, como Porto Alegre e Belo Horizonte. O maior índice apontado foi em Salvador, com 9%. Na média nacional o percentual foi de 5,8%, um dos menores índices de desemprego da história do país. Isso num momento em que se acentua a crise econômica na Europa e nos EUA.

Mesmo que nos últimos meses de 2011, por conta de uma política conservadora adotada pelo Banco Central, receoso de uma disparada inflacionária, esses índices tenham estacionados, contudo isso a situação do Brasil é bem melhor do que os países europeus e os Estados Unidos. Claro que são países que tem PIBs bem maiores do que o nosso, mas as condições econômicas do momento nos são muito mais satisfatórias. Tanto isso é verdade que as agências de classificação de riscos de investimentos financeiros rebaixam as notas dos países europeus, e de seus bancos, enquanto as do Brasil são aumentadas. E no mês de dezembro, uma notícia confirmou essa situação.

A CEBR, uma empresa de consultoria britânica, anunciou, após estudos feitos sobre os Produtos Internos Brutos de vários países, que o Brasil havia superado a Grã-Bretanha, tornando-se a sexta maior economia do mundo, ficando atrás somente dos Estados Unidos, China, Japão, Alemanha e França. Na segunda semana de fevereiro, com o agravamento da crise, o FMI cogitou a idéia, muito mais uma necessidade, de ter que recorrer aos países do BRIC, entre os quais o Brasil, em busca de dinheiro que possam ser emprestados a países europeus endividados.

Essa estabilidade que atravessamos afeta os movimentos sociais faz mudar o perfil das lutas, e das reivindicações. São outros tipos de reclamações, o que se vê nesse momento é a população lutando por melhoria nos atendimentos públicos, há, portanto um diferencial na maneira como são feitas as reivindicações. Já não são mais contra um governo, por não garantir condições sociais dignas para a sociedade. São reclamações porque ele não investe adequadamente em determinada área e as pessoas querem melhorias, por exemplo, na saúde, na educação. Por isso todas essas confusões que acontecem, denúncias de corrupção, substituição de ministros acusados de malversação dos recursos públicos (às vezes injustamente), a demonização da política e a maneira como a mídia trata a relação com o governo ideologicamente, termina por não afetar a popularidade da presidenta, que mantém níveis recordes de aceitação, segundo as últimas pesquisas.

Isso faz, inclusive, com que o tratamento que o governo dá aos movimentos sociais seja mais inflexível. A presidenta se sente muito segura, pois tem uma base parlamentar muito forte, tem o controle da economia e da inflação, então isso dá condições para agir de forma mais dura, menos maleável em relação a algumas reivindicações, notadamente dos servidores públicos, que estão sob ameaças de não ter nem um por cento de aumento nesse ano de 2012, segundo o relator do orçamento. A não ser que a presidenta use desse poder que a DRU (Desvinculação de Receita da União) lhe possibilita, de manusear a receita da União livremente em até 20%. Caso contrário será um ano de muitas dificuldades para os servidores públicos. O que pode significar muitos transtornos porque a ocorrência de greves será inevitável. E dependendo da situação de equilíbrio do governo – como acontece até aqui – será uma queda de braço, com este mantendo a inflexibilidade e se recusando a atender as reivindicações. Se fossem outras as circunstâncias, provavelmente o governo cedesse mais, caso tivesse fragilizado. Isso faz parte da política.

BRASIL – IMPERIALISMO, SUB-IMPERIALISMO...

O Brasil é um país de vasta extensão territorial, ocupa a maior parte da América do Sul, possui uma biodiversidade muito grande, a maior do planeta, muita riqueza, cada vez se descobre mais um potencial petrolífero enorme, riquezas minerais em larga escala, minérios pouco explorados mas de farta utilidade em produtos tecnológicos que ganham o mercado, que estão contidos nas “terras raras” e que têm sido muito explorados pela China, além de possuirmos o maior potencial hídrico do mundo. Então, o Brasil tem uma capacidade enorme, em todas as áreas que fazem de um país uma grande potência.

No século XIX um dos geógrafos clássicos, que foi fundamental no surgimento da Geopolítica, Friedrich Ratzel, falava com toda clareza e convicção, e comprovado desde então até os dias de hoje, que um país precisa ter uma grande dimensão territorial, e muita riqueza em seu subsolo, isso é que o faz se tornar uma grande potência. Ele tem que conservar e cuidar de suas fronteiras em função disso, e se não tiver essas riquezas ele tem que expandir suas fronteiras para ter o controle de tudo isso.
O Brasil não precisa expandir suas fronteiras para ter essas riquezas, pois ele já possui tudo isso em seu território. Então, comparado com os demais países da América Latina, pelo tamanho, pela população, por essas riquezas todas, naturalmente ele se impõe. Agora, por isso, e pelo auto-crescimento econômico, com a estabilidade que o país tem estabelecido nos últimos dez anos, isso faz do Brasil um país imperialista? Absolutamente, não. O imperialismo tem outras características. Ele se caracteriza pela exportação de capitais que passam a controlar as economias dos outros países. Capitais aqui não quer dizer somente dinheiro, mas grandes empresas, grandes corporações, que agem no sentido de ter o controle econômico e político de outro país. Esse não é o comportamento do Brasil. O nosso país tem estabelecido parcerias importantes com os demais países da América Latina como um todo, e não só com os países do cone sul.

Por exemplo, está em andamento um projeto de integração, que é polêmico pelas ações que ele desenvolve, que é o IIRSA (Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sulamericana), que tem por objetivo abrir saídas, tanto para o Brasil, quanto os demais países envolvidos, como o Peru, Bolívia, Chile, Paraguai, Uruguai, parte da Argentina, e visa abrir um corredor de exportação em direção ao Oriente, à China, através do Oceano Pacífico. Então é um projeto de integração, e o Brasil é o principal responsável, porque ele tem o maior banco da América Latina criado para investir no desenvolvimento regional, e que financia o projeto, que é o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

Recentemente houve um conflito na Bolívia, com a construção de uma estrada. O problema não era a estrada em si, mas porque pelo projeto ela cortaria ao meio terras indígenas e afetaria as populações tradicionais daquele país. E isso mexe com alguns valores culturais dessa população, então aconteceu uma rebelião muito grande, e que não foi muito bem tratada. Houve uma repressão muito violenta e desnecessária. Tanto é que Evo Morales terminou depois aceitando uma alteração no percurso da rodovia. Fica mais caro, a distância é mais longa, mas se evita um sério problema. Isso não foi feito antecipadamente então gerou todo um conflito, manifestações, confrontos violentos com tropas militares, e de certa maneira desgastou o governo. E essa estrada está inserida no projeto IIRSA, e é apenas um sub-projeto, que atinge a parte de baixo da Bolívia, que atinge o Peru, mas tem outros também na parte de cima que abrange a Amazônia, o Acre, Rondônia, ou seja, abrange toda aquela enorme região.

O IIRSA é um projeto antigo, que já vem do governo Fernando Henrique, mas ele teve sua consolidação mesmo foi no governo Lula, vai de vento em popa, e significa um crescimento importantíssimo para uma região que esteve por muito tempo abandonada. E é exatamente por isso que ouvimos uma série de  gritarias de ONGs estrangeiras, mas que na verdade, por trás existe todo um interesse geopolítico, de não querer que haja esse desenvolvimento naquela região. A preocupação não é ambiental, mas somente o discurso, com raríssimas exceções. Em essência, os interesses são outros, e as reações só não estão vindo com mais força atendendo-se  a influência desses países de onde se originam essas ONGS, principalmente da América do Norte, porque os EUA estão preocupados com o Norte da África e com o Oriente Médio. Senão já teriam transferidos suas principais atenções para cá. E esse será um ponto de conflito futuramente. O próprio Bill Clinton esteve proferindo palestras em Manaus e criticou os projetos de desenvolvimento do Brasil para aquela região, mais especificamente a construção da Usina de Belo Monte. Justo ele que, quando presidente dos EUA, se recusou a assinar o Protocolo de Quioto, sob o argumento que prejudicava os interesses econômicos dos Estados Unidos. Vejam só, uma mescla de ironia e hipocrisia.

Mas, contudo isso, não significa – e já ouvimos falar a esse respeito, inclusive em palestras que ocorreram aqui em Goiânia, durante a SBPC – que o Brasil estaria se tornando um país imperialista, ou sub-imperialista. Até esse termo já inventaram. Mas isso é diferente, o que se faz, através do BNDES, é abrir uma linha de financiamento para ajudar o desenvolvimento desses outros países. Mas isso não o torna imperialista, porque não há exigência de se querer em troca o controle político ou econômico de nenhum país. Há todo um respeito pela soberania desses países e os acordos e projetos elaborados em parceria em nenhum momento deixam dúvidas quanto a isso. E o interesse é comum, pois é objetivo do Estado brasileiro reverter uma situação de abandono de uma região esquecida política e economicamente, mas de uma enorme importância estratégica geopolítica, no sentido de abrir um corredor de exportações, principalmente para Ásia, ligando o centro-norte do Brasil com o Oceano Pacífico.

É certo que existem ações da Petrobrás, que é, sim, uma grande empresa que age e atua, não só na America, mas na África, no Oriente Médio, e inclusive nos Estados Unidos. A Petrobrás é hoje a grande empresa brasileira que tem forte atividade nesses lugares e, principalmente, na América Latina. E claro, com o forte crescimento da economia, estão surgindo outras grandes empresas brasileiras, não estatais. Aqui, inclusive no Estado de Goiás, existe uma grande corporação com braço internacional, grande exportadora, que é a Friboi, a JBS, que já adquiriu e se fundiu com varias outras empresas em diversos países, como a Swift, a Anglo e a Bordon, só para ficar com as marcas mais conhecidas internacionalmente. Destaca-se também a EBX, grupo do milionário Eike Batista, que atua nas áreas de petróleo, minérios, energia e logística. São apenas exemplos dos poderes corporativos que a economia brasileira está gerando, mesmo com um crescimento regular, ainda longe dos patamares da China.

É claro que essas corporações atuam em vários países, e cabe a esses, se sentirem afetados adotarem uma política de controle. E cada país deveria fazer isso, não cabe ao Brasil exercer um controle sobre suas empresas de forma a impedi-las de atuar livremente nos outros mercados. Isso não quer dizer que essas corporações controlam o governo brasileiro e este estaria agindo para beneficiá-las. Não é essa a política que está sendo desenvolvida, muito embora o BNDES abra linhas de financiamento também para elas, mas isso é da sua natureza, desde que foi criado.

Mas a política externa brasileira, ao contrário, tem sido de fortalecer os laços de integração. O Mercosul, por exemplo, se consolidou a partir exatamente  das ações da política externa brasileira. Então, o que o Brasil tem feito é ampliar o seu protagonismo, e isso não somente na América, mas também na África. Haja vista a maneira como o povo africano recebe os brasileiros, o governo brasileiro, o ex-presidente Lula, a presidenta Dilma Rouseff, a seleção brasileira. Há uma relação de afetividade muito forte que em parte é resultado desse protagonismo que o Brasil criou a partir do governo Lula, de estar permanentemente defendendo os interesses brasileiros, mas também de fortalecer os países dessas regiões e fortalecer parcerias políticas e econômicas. Oferecendo condições, que o nosso país hoje pode garantir, de investimentos nesses países. Mas isso está muito longe de ser caracterizado como uma ação imperialista.
Continua...