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domingo, 30 de junho de 2019

É A GEOPOLÍTICA, ESTÚPIDO!

Chefes de Estado do G20.
Difícil é encontrar o brasileiro.
Este artigo foi sendo escrito ao final do encontro da “Cúpula do G20”, em Osaka no Japão. Evento que reúne as maiores economias do mundo. Para além de todas as polêmicas que envolveram as discussões nesse encontro de repercussões mundiais, e não poderia ser diferente, há um substrato, para mim importante, que gostaria de destacar. É o que envolve a importância da geopolítica, cada vez sendo mais referenciada nas discussões, acordos e análises sobre as transformações que acontecem no mundo.
O comunicado oficial, final, do G20 se refere explicitamente a “intensificação de tensões comerciais e geopolíticas” no mundo. Consequência de uma situação de crise internacional, que afeta a economia mundial, coloca muitos países em condição de recessão, espalha medo e temor por todo o mundo em função de atritos gerados por políticas protecionistas e unilaterais de alguns países, em especial os EUA, além dos potenciais conflitos que envolvem nações que situam-se em posições estratégicas, particularmente no Oriente Médio, mas, principalmente aquelas que possuem grandes reservas petrolíferas. Além de outros fatores, como os problemas ambientais, o deslocamento de populações, o aumento da pobreza, até mesmo nos países desenvolvidos, e as trasnformações geradas pelo crescimento do gigante chinês, seja nos avanços tecnológicos e na ousada constituição da nova Rota da Seda.
Uso aqui, no título, uma expressão muito conhecida internacionalmente, transformada quase em um mantra, proferida por um assessor de Bill Clinton, num período eleitoral, quando ele dizia que a economia é o elemento principal a definir a política, e, no caso específico, uma eleição presidencial. Procura, assim, dizer que as questões mais sensíveis de um estado-nação estão ligadas à situação econômica, e que isso implica num embate eleitoral, naturalmente.
Faço um paralelo aqui com a geopolítica. Desde que a economia se tornou globalizada, mas não somente depois disso, as questões geopolíticas tornaram-se determinantes nas relações internacionais. Isso se compreendemos, como é natural que façamos, que a geopolítica é o olhar estratégico, tanto analítico, como do ponto de vista das ações governamentais e até mesmo do cotidiano e da vida de qualquer pessoa que deseje focar em seus objetivos e poder alcançá-los definindo os caminhos que a levará a atingir seus desejos e planos adredemente definidos.
No entanto, o que desejo aqui neste artigo é provocar uma discussão, ou prolongar uma discussão que tenho feito ao longo desses anos, que pode ser comprovado aqui em artigos já escritos neste blog. Porque a Geografia não valoriza a Geopolítica, mesmo diante da importância que ela tem tomado desde o final do século XX? Por um lado compreendo, assim como o faz Yves Lacoste, e é nele que me espelho, que a Geopolítica e a Geografia são a mesma coisa. Deixou de ser a partir do momento em que, após a segunda guerra mundial a geopolítica foi estigmatizada, não somente porque ela foi sabidamente utilizada no aparato belicista da ascensão nazista (embora fosse também utilizada por todos os demais países envolvidos naquele e em todos os outros conflitos). Mas houve outro elemento determinante nessa separação da Geopolítica da Geografia. Os embates entre duas escolas acadêmicas na área da Geografia, a lablacheana, francesa; e a ratzeliana, alemã. Os franceses, vitoriosos na segunda guerra, ao lado dos aliados, impulsionou uma desavença bem anterior, fomentada por historiadores que buscavam uma “revisão” historiográfica, e fizeram surgir a “história dos annales”. Assim, buscaram desacreditar essa vertente importante da geografia, de forma a evitar que viesse se sobrepor à história, e, ao mesmo tempo, seguir por um caminho que pudesse reduzir a abordagem política das interpretações geográficas, focadas a partir de então, prioritariamente no cotidiano das relações sociais.
Essa armadilha feita para a Geografia funcionou perfeitamente, e, paradoxalmente, constituiu-se em uma estratégia vitoriosa nessa construção historiográfica. Espalhou-se pelo mundo uma compreensão de Geografia focada naquilo que os franceses compreendiam como elementar para projetar o estado-nação, os estudos regionais. E o planejamento, muito embora devesse necessariamente partir de uma visão estratégica, se constituiu no olhar essencial a partir de divisões regionais que acompanhavam a constituição física e geomorfológica, definindo a partir daí os estudos que orientavam as administrações estatais os tipos de investimentos que devem ser feitos, constituídos a partir dessas características locais e regionais.
Isso é algo absolutamente correto, não há o que negar nesses aspectos, que se constituem nos dias de hoje elementos essenciais para planejamentos urbanos, regionais e ambientais. No entanto, o elemento crucial, e a essência da geografia, deixou de ser observado. Sua importância estratégica, o olhar político que possibilita a ampliação da capacidade crítica e o equilíbrio na identificação dos interesses que estão por trás de qualquer decisão que envolva as questões de Estado. Enfim, a Geopolítica, como elemento fundamental para que possamos ter a compreenssão macro e micro que circunda a própria Geografia como aquilo que muitos chamam de “a ciência dos lugares”, o que nos possibilita compreender tudo aquilo que está à nossa volta, a ligação inevitável que existe entre todos os lugares, nossas vidas e o ecúmeno.Somos movidos pela política, a capacidade de nos entendermos em sociedades cada vez mais complexas (embora se tente desconstruir a política nos dias atuais, mas isso é também um objetivo político). Portanto, é impossível pensar a Geografia sem a política, pois é ela, essa ciência, ou esse saber como desejam alguns, que explica a nossa existência em toda essa dimensão compreendida por milhões de quilômetros quadrados em um planeta esférico, embora a alienação e estupidez de alguns a vejam como plana. Mas os que pensam assim, somente refletem também a forma de seus cérebros.
A Geografia sem a política, é nula de entendimento da realidade. Abstrai-se nas especificidades, e somente serve às vaidades de quem foca seus conhecimentos de maneira limitada, desconsiderando a necessidade de junção de todas as partes que compõem o conhecimento geográfico. Prender-se somente a essas especificidades é reduzir a importância da Geografia, na verdade negá-la, e assumir-se enquanto condutor de uma parte que desconexa-se de um eixo. Os caminhos trilhados pela pós-graduação, seguindo a força imposta pelo globalismo neoliberal, consolidou esse viés, difícil de ser desfeito, principalmente por vivermos um tempo de negação da política.Contudo, isso não impede de reconhecer na Geografia, e na Geopolítica, aqueles elementos que nos dão a possibilidade de conhecer, em toda a essência de uma dialética que é real, como se dão as transformações que ocorrem no mundo, seja econômica, ambiental, da escasse hídrica, de alimentos, portanto não somente no que se convencionou imaginar como sendo o único elemento a se entender pela geopolítica: a guerra. Algo já há décadas desmistificado por um movimento de resgate da geopolítica, melhor dizendo, de retomada da política na Geografia, liderado por Lacoste. Mas o que veio depois, a onda neoliberal globalizante, em pouco tempo levou ao esquecimento desse resgate e prevaleceu a fragmentação e, se não a negação, a quase absoluta indiferença em relação a inserção da política como parte essencial e necessária da compreensão geográfica.,
Isso não muda somente com a referência permanente à Geopolítica na mídia ou nesses encontros de chefes de Estados, depende de novas compreensões, de reorientação e reconstrução de uma Geografia que retome a visão de totalidade e compreenda que nesses novos tempos de negação de conhecimentos elementares transmitidos pela universidade, a força desse saber está exatamente em poder dar resposta concretas aos dilemas que angustiam o mundo. Não sozinha, porque também vivemos no tempo de uma necessária multidisciplinaridade, mas jamais conseguirá ser forte como é preciso se se mantiver fragmentada e negligenciando a sua essência fundamental, a política. Que as novas gerações de geógrafos consigam romper com esse viés que acompanha boa parte das gerações que lhes orientam, formadas numa era neoliberal e fragmentária, e resgate para a geografia a importância do saber estratégico que lhe deve ser inerente.



sexta-feira, 29 de julho de 2016

LÍQUIDO E CERTO: AS CONTRADIÇÕES QUE AFETAM O CERRADO

Os desafios que temos pela frente são colossais. Digo nós, pesquisadores de uma área que carrega as mais perversas contradições. Entendam que busco nessa palavra o seu sentido etimológico, compreendendo-a como desordem, aquilo que é feito em desacordo com a regra e os costumes.
Mas a essência dessa contradição é que nos leva ao martírio quando a identificamos, logicamente se nos situamos além da compreensão espacial, e entendemos como no nosso tempo transmitem-se valores que invertem tradições, abolem-se costumes e impõem-se aos mais jovens o desafio da contemporaneidade. A busca obsessiva por qualidade de vida, consubstanciada na lógica consumista e nas paixões tecno-científicas.
Ao jovem, esse desafio é impossível de ser refutado. Mas cada um mantém dentro de si a paixão pela lida na terra, o gosto pela cavalgada entre os capins, e o cheiro das verdejantes poucas matas, misturado ao do esterco de gado que exala dos currais e penetram pelas varandas das velhas cabanas de pau-a-pique. A sensação bucólica que isso nos transmite deixa em nós, citadinos, um desejo de retornarmos aos tempos em que carregávamos a tradição rural em nosso estilo de vida. Mas isso, vai se perdendo, com o distanciamento cada vez maior das pessoas, apegadas ao urbano.
Imagem: Lapig
Projeto Terraclass Cerrado 2013
Numa rapidez estonteante, o Cerrado tem vivido essas contradições, não tanto como ocorreu em outras regiões, onde as mudanças levaram séculos. A aceleração, motivada por um sofisticado aparato tecnológico, químico, biológico, industrial etc., traduzido numa devastação desenfreada e em uma alteração radical da paisagem. Em alguns pedaços do Cerrado, as formações campestres, principalmente, são substituídas por plantações de monocultura a perder-se de vista: soja, algodão, cana-de-açúcar, dentre outras. Em alguns casos atingindo chapadões e topos de morros, situações em que aparecem também a criação de gado bovino em centenas de milhares de cabeças por descampados e pastagens donde antes encontravam-se vegetações típicas cerradeiras.
O contraponto se dá no esvaziamento de algumas cidades cujo entorno essas mudanças não alcançam, com o deslocamento de parte da população jovem em direção às cidades médias ou para as metrópoles.
Aquelas outras, por onde a “modernidade” passou, o crescimento populacional se traduz no aparecimento das complexidades inerentes às dificuldades urbanas, na falta de planejamento e na impossibilidade do poder público atender às demandas de uma população que cresce célere e desordenadamente, atraída pelas oportunidades geradas pelo agronegócio.
Essa contradição, não nos permite simplesmente analisar os problemas através de concepções maniqueístas, nem muito menos anacronicamente. Em sendo assim, muito mais do que a condenação sobre o estado de devastação a que o Cerrado está sendo submetido, nós, pesquisadores, devemos também apontar alternativas que possam garantir um desenvolvimento equilibrado com a necessidade de conter a total destruição desse que é um dos maiores biomas brasileiros, com uma rica biodiversidade, ainda existente até os dias atuais.

As águas do Cerrado e a Segurança Alimentar Mundial
Algo, contudo está fora da ordem. Nos últimos tempos tem sido bastante diversificada, e em número consistente, as pesquisas sobre o Cerrado. Importantes estudos nos aproximam das belezas de um bioma que carrega em si uma espécie de quebra de paradigmas, quando o assunto é a análise da paisagem. Solo seco, aparentemente empobrecido, árvores tortas e de troncos ressecados, frutos estranhos (até que os provemos), contrastando com uma estranha beleza de flores exóticas e de cores fortes. Algumas pequeninas ao serem ampliadas expõem uma espetacular imagem, que transmitem uma sensação de prazer, ao ver coisas tão belas entremeadas em contradições.
Como sobrevive o bioma? Tanto quanto os demais, e a natureza em si, a fonte de toda a vida reside na água, sem ela é impossível sobreviver. Os lugares são diversos em suas características, e neles tudo que se desenvolve e compõe sua natureza depende da disponibilidade dos recursos hídricos. E toda a adaptação dos seres vivos que habitam o lugar e desenham a natureza decorre da maneira como eles terão acesso a esse líquido vital.
Segundo Porto-Gonçalves,
O exemplo dos cerrados (savanas) do Planalto Central Brasileiro é um caso emblemático das implicações socioambientais das demandas por água que se vêm colocando em todo o mundo com a expansão da economia mercantil nesse período neoliberal. A água, como se infiltra em tudo – no ar, na terra, na agricultura, na indústria, na nossa casa, em nosso corpo –, revela  nossas contradições socioambientais talvez melhor que qualquer outro tema. Afinal, por todo lado onde há vida há água  (2006, p. 428).
No entanto, pouco se analisa, quando se pesquisa e descreve o Cerrado, sobre como esse bioma é capaz de sobreviver se, além da destruição de sua flora e fauna, esgotarem-se os seus recursos hídricos. Na verdade pouco se tem falado da água do Cerrado. A impressão que fica é de ser esse um bioma exótico cujas águas desaparecem nos seis meses seguintes à estação chuvosa. Sim, pois essa é outra característica, o fato de as estações climáticas no Cerrado não obedecerem à lógica determinada nos estudos dessa área. Então temos muita chuva no verão e sol quente no inverno, embora Primavera e Outono componham um cenário de beleza exposta no colorido das flores que brotam de árvores retorcidas, ou enormes, cujas folhas, em algumas delas desaparecem para dar lugar aos galhos floridos, como no caso dos Ipês que alteram a paisagem do Cerrado na transição entre o Verão e o Inverno.
Foto: Evandro F. Lopes
Mas não é bem assim. Ao contrário do que se imagina, embora bem servido hidrograficamente, o Cerrado tem características peculiares adaptativas a essa aparente irregularidade climática comparativamente a outros biomas. Raízes mais profundas e verticalizadas levam suas plantas a buscarem água nas profundezas subterrâneas, em aqüíferos ou lençóis freáticos, possibilitando a elas sobreviverem a uma escassez de chuvas que pode durar seis meses.
A paisagem altera-se rapidamente, paripasso com expansão da fronteira agrícola ampliando a capacidade de produção e a produtividade no Cerrado. No entanto, a possibilidade de aumentar a produção de toneladas de grãos, com o uso descontrolado da água para irrigar grandes plantações, podem causar não somente o esgotamento de córregos e rios, como também a redução desses depósitos hídricos subterrâneos.
Bem servido por uma rica hidrografia, fundamental para a formação das principais bacias hidrográficas do país, o Cerrado é considerado como um imenso reservatório hídrico que o insere no objetivo geoeconômico central de um sistema de produção de toneladas de alimentos para atender à demanda da economia mercantil não somente no Brasil, mas por todo o mundo. Contudo, o percentual hídrico utilizável visa especialmente atender as atividades agrícolas e industriais, principalmente por meio da irrigação, técnica utilizada para a ampliação da produção de alimentos, destacadamente em regiões que têm como características a baixa fertilidade e a alta acidez, como no caso dos latossolos aqui predominantes, que correspondem a 46% da área do bioma. Segundo Castilho  e Chaveiro,
Em extensão, o domínio do Cerrado é o segundo maior do Brasil. Sua área original era de dois (2) milhões de quilômetros quadrados. Abrange grande área da região Centro-Oeste brasileira como também partes do Norte, Nordeste e Sudeste. O clima é subtropical, semiúmido com duas estações definidas: uma úmida (verão chuvoso) e outra seca (inverso seco). O solo, em grande parte é deficiente em nutrientes, porém rico em ferro e alumínio. Esses fatores, sobretudo o clima, influenciam um tipo de vegetação peculiar (2010, p. 38).
O Cerrado, tanto em relação à correção tecnológica de seu solo, como a capacidade hídrica que dispõe, torna-se o Bioma mais sujeito a esses investimentos. Por isso, nos últimos meses têm aumentado consideravelmente o número de investidores, corporações, e até mesmo países, interessados em adquirir terras no Brasil, diante da importância geopolítica que vai adquirindo a produção de alimentos. Em especial, o Cerrado, por todas essas possibilidades, encontra-se na lista das regiões que mais tem despertado esses interesses.
É importante destacar, diante desses novos investimentos, que o processo de ocupação do Cerrado, na década de 1970 teve a participação importante do governo japonês, que formou uma parceria com o governo de Goiás através do Projeto Nipo-Brasileiro de Desenvolvimento do Cerrado (PRODECER), em parceria com a Japan International Cooperation Agency (JICA). Conforme Barreira e Chaveiro,
No caso do PRODECER, a disputa pelo comércio de grãos entre EUA e Japão lançou o governo japonês para interferir no sistema produtivo do Cerrado. (...) Embora o processo tenha transformado o Cerrado num citurão produtivo importantíssimo, principalmente para a balança comercial do país, ao gerar bens de exportação, houve uma concentração de terras, um aumento da desigualdade e uma concentração espacial, parcialmente fundada na urbanização desigual que espelha um território urbanizado e cheio de problemas.
O PRODECER não acabou, apesar dos problemas que o atingiram, principalmente em função do endividamento de agricultores (DINIZ, 1999) .Mas ele já se encontra em sua IV etapa, dependendo ainda para seu prosseguimento da quitação dessas dívidas, recorrente ainda ao PRODECER II, sendo essa uma condição imposta pelo Governo Japonês. Não foi possível encontrar dados recentes sobre o andamento dos pagamentos das dívidas, referentes também ao PRODECER III.

O Cerrado na Geopolítica dos alimentos
Tem crescido aceleradamente o interesse por investimentos em terras no Bioma Cerrado, não somente em Goiás, mas estendendo-se em direção a uma nova fronteira agrícola, já denominada, MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia).[1] Em sua maior parte o ambiente a ser ocupado é composto pelo Bioma Cerrado, numa área de transição para a Amazônia.
Mas, o diagnóstico é preciso, embora às vezes usado de maneira catastrófica: o domínio do Cerrado está sob forte ameaça de extinção, paradoxalmente em função de uma riqueza que, há algumas décadas, poucos acreditavam existir sob os galhos secos e retorcidos de um ambiente incógnito. Quanto às soluções, embora viáveis, dependerão da maneira como os estudos e as pesquisas influenciarão os setores públicos e privados, bem como das possibilidades de promover um desenvolvimento socioambiental que não abdique da capacidade de manutenção da vida na Terra.
A contradição maior, que aflige aqueles que pesquisam o Cerrado, mas que tem uma visão da importância crescente que toma nos dias atuais a produção de alimentos no mundo reside no fato de ser este um bioma, por excelência, adequado a tornar-se a maior região de produção agrícola do Brasil, pela sua topografia, pelas correções tecnológicas em seu solo, e pela capacidade hídrica, mas ao mesmo tempo correr o risco de ver desaparecer toda a sua rica biodiversidade.
Lester  R. Brown, presidente do Earth Policy Institute, aponta alguns dos problemas gerados pela crescente demanda de alimentos no mundo:
A duplicação dos preços mundiais dos grãos desde o início de 2007 foi impelida principalmente por dois fatores: o crescimento acelerado da demanda e a dificuldade crescente de expandir rapidamente a produção. O resultado é um mundo que parece chocantemente distinto da generosa economia mundial de grãos do século passado. Como será a geopolítica dos alimentos numa nova era dominada pela escassez? Mesmo neste estágio inicial, podemos ver ao menos os contornos gerais da economia alimentar emergente.
Do esgotamento de lençóis freáticos à erosão de solos e às consequências do aquecimento global, tudo significa que a oferta mundial de alimentos provavelmente não acompanhará nossos apetites coletivamente crescentes.
Com a elevação das temperaturas, os lençóis freáticos estão diminuindo na medida em que os agricultores bombeiam em excesso para irrigação. Isso infla artificialmente a produção de alimentos no curto prazo, criando uma bolha dos alimentos que estoura quando os aquíferos são esgotados e o bombeamento é necessariamente reduzido à taxa de recarga.
(...) à medida que terra e água se tornam mais escassas, que a temperatura da Terra sobe e a segurança alimentar mundial se deteriora, está surgindo uma geopolítica perigosa de escassez de alimentos. A apropriação de terra, de água, e compra de grãos diretamente de fazendeiros em países exportadores são hoje partes integrantes de uma luta pelo poder global para segurança alimentar (BROWN, 2011).
Isso dá uma dimensão dessa enorme contradição. O desafio, então, que nos cerca consiste em não somente apontar os problemas gerados por uma exploração excessiva do Cerrado, mas também como torná-lo potencialmente explorável no quadro de uma crescente escassez de alimentos no mundo, conservando ao necessário a sua biodiversidade.
A água, nesse aspecto, torna-se o elemento crucial a ser preservado. Embora pouco identificado em muitas pesquisas sobre o Bioma Cerrado, esse líquido constitui-se no principal suporte para dar garantias de manutenção da biodiversidade e, ao mesmo tempo, da produção de alimentos.
Contudo, a rapidez com que tem se dado as exigências para ampliação em uma escala crescente da quantidade de produtos agrícolas para atender a demanda do Brasil e do mundo, levará a um esgotamento não só de rios, riachos, córregos e igarapés, podendo afetar também lençóis freáticos e até mesmo aqüíferos. Além disso, o encharcamento do solo, em função do uso de técnicas de irrigação baseado em grandes pivôs centrais e métodos de aspersão, transformará a qualidade de solo, tornando-o salinizado e reduzindo sua capacidade produtiva.
Os exemplos negativos dessa exploração excessiva do solo, mediante essa prática que tem se tornado intensiva no Brasil e nas regiões do Cerrado, podem ser vistos em outras partes do mundo, como no Mar de Aral (Ásia Central); Rio Colorado (Estados Unidos); Lago Chade (África); e Bacia Murray-Darling (Austrália). A consequência é, com a persistência da exploração abusiva da água, a desertificação e a inapropriação do solo para produção agrícola.
Estabelecer um equilíbrio entre a necessidade de produção de alimentos, considerando toda a capacidade e riqueza do solo cerradeiro, e evitar o esgotamento do rico potencial hídrico do Cerrado, é a condição primeira para a conservação desse que é um dos mais importantes biomas brasileiros.
Esse é o desafio dos pesquisadores. No caso específico do uso da água, as análises dos tipos de métodos de irrigação deverão apontar para uma necessidade de alteração da tecnologia em uso. Inevitavelmente o uso de aspersores e pivôs centrais colocará em risco o potencial hídrico do Cerrado. Corrigir isso é a condição para a manutenção da nossa biodiversidade, aliado a uma alteração da estrutura fundiária, visto que o grande latifúndio impede a adoção de técnicas mais compensatórias, como por exemplo, o gotejamento ou o uso de microaspersores.
Certamente a condição de ser o Cerrado uma região dominada por grandes latifúndios, e não haver perspectivas próximas de alteração nessa estrutura torna mais difícil a solução desse problema. E, como pôde ser destacado anteriormente, é forte a pressão dos grandes produtores, junto aos órgãos estatais responsáveis, para aumentar financiamentos públicos a fim de ampliar a área irrigável. Esta, portanto, constitui-se em uma enorme contradição e um embate entre a razão instrumental e os interesses econômicos imediatistas.
 Considerações Finais
O desenvolvimento de um Estado, de uma Nação, é condição sine-qua-non para a garantia de equilíbrio e harmonia social. Resgatar uma imensa dívida com as populações pobres tem sido uma das metas prioritárias que embalaram os planos de governos nas últimas décadas. Mas isso não pode ocorrer ás custas da destruição de uma rica biodiversidade do Cerrado como vem ocorrendo de diversas maneiras, demonstrando o impacto perverso que o progresso a qualquer custo causa no Cerrado e nas populações tradicionais que ali vivem. O quadro político atual, com a iminência da radicalização de políticas conservadoras e o protagonismo político reforçado dos setores latifundiários e do grande agronegócio no novo governo brasileiro, imposto pelos setores que controlam os meios de produção, tende a piorar essa situação.
Resta lutar por um desenvolvimento que possa se aproximar o máximo possível do que se imagina ser a sustentabilidade ambiental. Devem-se buscar práticas conservacionistas que contemplem a ampliação da produção agrícola com a garantia de que os recursos hídricos e a biodiversidade do Cerrado não desaparecerão para atender a uma lógica produtivista que venha a desconsiderar a importância que a natureza possui para a nossa vida, para “o nosso futuro comum”.
Devemos apostar na vida humana em perfeita harmonia com a natureza, através da sensação de um prazer encontrado em um equilíbrio advindo da essência do ser... humano, vegetal, animal.
O futuro da humanidade depende desse equilíbrio. Se nos custa acreditar em desenvolvimento sustentável, conforme FOLADORI (2001) diante de uma lógica consumista descontrolada cabe-nos buscar outras maneiras de construir alternativas. Eliminar a pobreza não significa acabar com os pobres, mas também não pode significar por fim à natureza, porque em sua extensão significará a eliminação de toda a vida humana.
O Planeta tem sede... O Cerrado tem sede. Dai, água a quem tem sede, pois que senão corre-se o risco de morrer-se estorricado.


NOTAS:
* Este texto foi produzido em 2012 como colaboração às pesquisas desenvolvidas para o Projeto Biotek – Apropriação do Território e Dinâmicas Sócioambientais no Cerrado: Biodiversidade, Biotecnologia e Saberes locais, vinculado ao Laboratório de Estudos e Pesquisas das Dinâmicas Territoriais – Laboter/Iesa. 
** Publicado originalmente na revisa eletrônica, Cadernos Territorial. Acesso pelo link: http://www.cadernoterritorial.com/news/liquido-e-certo-as-contradicoes-que-afetam-o-cerrado-romualdo-pessoa-campos-filho/
[1]“A expressão MATOPIBA resulta de um acrônimo criado com as iniciais dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Essa expressão designa uma realidade geográfica que recobre parcialmente os quatro estados mencionados, caracterizada pela expansão de uma fronteira agrícola baseada em tecnologias modernas de alta produtividade”. Extraído do site: https://www.embrapa.br/gite/projetos/matopiba/matopiba.html. Acesso em 20 de outubro de 2015.


Referências
BROWN, Lester R. Revista Foreign Policy. reproduzido pelo jornal O Estado de S.Paulo,  em 22.05.2011.
CHAVEIRO, Eguimar, BARREIRA, Celene Cunha Monteiro Antunes. Cartografia de um Pensamento do Cerrado. In: PELÁ, Márcia C. H.; CASTILHO, Denis. Cerrados: Perspectivas e Olhares. Goiânia: Editora Vieira, 2010
CASTILHO, Denis, CHAVEIRO, Eguimar Felício. Por uma análise territorial do Cerrado. In: PELÁ, Márcia C. H; CASTILHO, Denis (Org.). Cerrados – Perspectivas e OlharesGoiânia-GO: Editora Vieira, 2010
RIBEIRO, Wagner Costa. Geografia Política da Água. São Paulo; Annablume, 2008
DINIZ, Maurício Sampaio. Dívidas do Prodecer somam R$ 400 milhões. In: Gazeta Mercantil, 15 de jul., 1999.
ESTADO. Suplemento especial sobre o CerradoSão Paulo: Jornal O Estado de São Paulo, 26 de set., 2009. Disponível em. Acessado em jul., 2010.
FOLADORI, Guilhermo. Limites do Desenvolvimento Sustentável. São Paulo: Editora Unicamp, 2001
FAEG, Comissão de Irrigantes. Anuário da Irrigação 2008. Goiânia: Federação da Agricultura e Pecuária no Estado de Goiás, 2008.
O POPULAR. Araguaia pode ter hidrovia até o ParáGoiânia: Jornal O Popular, de 10 de agosto de 2010. Disponível em . Acessado em ago., 2010.
PORTO-GONÇALVES, Carlos Walter. A Globalização da Natureza e a Natureza da Globalização. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

SEPLAN. Anuário estatístico do Estado de GoiásDisponível em . Acessado em ago., 2010. 












domingo, 20 de janeiro de 2013

DEZ MACROTENDÊNCIAS GLOBAIS PARA OS PRÓXIMOS ANOS

Imagem: edufin.com.br

Recebi da jornalista Carla Guimarães, do jornal Tribuna do Planalto uma série de questionamentos sobre um estudo da Euromonitor Internacional: “Dez macro tendências globais para os próximos cinco anos”. São citados: Um futuro incerto, devido a incerteza econômica; A classe média emergente; A juventude descontente; A desigualdade entre ricos e pobres crescente; O desafio climático; Um mundo em envelhecimento; Urbanização crescente; Pessoas em movimento (mais viagens para viver, estudar ou trabalhar no exterior); Um mundo mais conectado (crescente uso da internet) e China se torna global(*).
A seguir respondo aos questionamentos (ampliado para a postagem) que em parte já os tenho abordados em alguns artigos postados aqui no Blog. No começo do ano passado, em uma crônica dividida em seis partes (http://www.gramaticadomundo.com/2012/01/cronica-de-um-mundo-em-transe-1-parte.html) procurei fazer uma análise geopolítica sobre as transformações em curso no mundo, e acredito que ela se mantém atual. Sem querer fazer previsões, minha análise baseia-se na realidade concreta, naquilo que está acontecendo no momento presente. O que virá dependerá das circunstâncias e das respostas que a humanidade dará para buscar solucionar seus problemas.
"Indignados", na maioria jovens,
protestam na Espanha
1- O senhor avalia que esses dez itens de fato são tendências mundiais? Acrescentaria algo mais como macro tendência não citada no estudo?
R – Todas as questões colocadas nesse estudo são reflexos da própria realidade que o mundo está vivendo. O futuro, em qualquer circunstância é incerto, já que é uma construção idealizada. Ele se explica pelas tendências do presente, e podemos projetá-lo com base na própria experiência, de situações parecidas. E isso é muito comum desde que o sistema capitalista se consolidou. Mas não necessariamente essas previsões podem se concretizar, muito embora eu concorde que a situação atual aponta para a direção que o estudo está indicando.
2- Como o Brasil, Goiás/Goiânia, se insere nesse contexto previsto? Impactos locais, por exemplo.
R – O Brasil não pode ficar imune a, por exemplo, uma situação de agravamento da crise econômica mundial. Já podemos sentir isso com um lento processo de industrialização, ou como alguns economistas preferem chamar, de desindustrialização. Isso ocorre porque o país passa a produzir menos para exportação, consequência do desaquecimento do mercado mundial em decorrência da quebradeira da economia de muitos países, principalmente os europeus e os EUA, que sempre foram os principais mercados para os produtos brasileiros.
Mas há um fator diferencial no caso brasileiro. Primeiro há um forte aquecimento econômico nas camadas populares, e boa parte delas estão ascendendo à classe média, embora essa classe já esteja dividida em três. Mas houve nos últimos dez anos uma melhoria das condições de vida das pessoas mais pobres, como decorrência de programas sociais e do aumento do salário mínimo sempre acima da inflação. Isso possibilitou um aquecimento na economia inferior, aquela que não está necessariamente submetida às oscilações do mercado internacional(**). Havia, e ainda há, uma forte demanda por crescimento nessas camadas, o que manterá a economia brasileira aquecida ainda por muito tempo e o nível de desemprego em patamares baixíssimos. A despeito de o crescimento do PIB não ser muito elevado, e isso se explica pelo que eu disse no primeiro parágrafo, já que a economia superior se manterá estagnada como decorrência da crise econômica mundial. O capitalismo deverá se reinventar, em decorrência disso.
Outra particularidade – que afeta fortemente o Estado de Goiás – é a crescente demanda por alimentos no mundo. Fatores diversos, como situação climática, guerras e recessão em algumas economias, tornarão alguns países dependentes da produção de alimentos em países da América Latina e África. O Brasil se destacará por isso, o que agravará os problemas ambientais. Mas dará um forte impulso ao agronegócio e ampliará a fronteira agrícola em direção aos estados do centro-norte. A exportação de produtos agrícolas e pecuários continuará a ser nos próximos anos a base da economia brasileira. Esses Estados, como já vem acontecendo, crescerão acima da média nacional, mas manterá uma forte tendência, histórica, de má distribuição da riqueza, aumentando a concentração de rendas nas mãos de grandes produtores latifundiários e corporações transnacionais.
3- A maior presença da China no mercado econômico mundial pode prejudicar atividades regionais, como agronegócio, fabricação de carros (já que temos fábricas instaladas no Estado), confecção...?
Inevitavelmente a China seguirá ocupando o primeiro lugar dentre os países que mais venderá ao Brasil e mais comprará produtos brasileiros, não somente pelo seu grandioso crescimento e pelo seu imenso mercado, mas também pela crise que afeta as economias centrais e, principalmente, os Estados Unidos, que sempre se destacou como o país com maior relacionamento comercial com o Brasil. E a tendência é que essa crise persista por mais de uma década. Mais uma vez a relação com Goiás estará relacionada a questão analisada no item anterior, já que a economia do nosso Estado baseia-se na produção de alimentos. Outra tendência que estará relacionada á China, embora também a outros países, será a busca por adquirir grandes quantidades de terras em Estados propícios à produção agrícola, e Goiás estará nessa lista. Por essa razão o governo federal já está preparando uma lei que limitará a aquisição de terras por estrangeiros. Já que essa será uma questão de segurança nacional em pouco tempo.
É claro que mesmo se ressentindo da crise capitalista global, a China seguirá com forte crescimento econômico, e gradativamente assumirá a liderança em diversos setores industriais e de novas tecnologias. Pela dimensão de seu mercado, provavelmente ela irá definir preços em diversas áreas, como tecnologia (informática), confecção, minério e automobilístico. A China ditará os rumos da economia global em boa parte deste século.
4- Pode avaliar em especial os itens sobre o envelhecimento, juventude e mundo mais conectado? Como o Brasil/Goiás, vive esse momento e o que podemos esperar para os próximos cinco anos (mão de obra, qualificação, manifestos, entre outros...)
O envelhecimento da população é consequência de um estilo de vida conduzido pelos mecanismos capitalistas. As pessoas passaram a optar por uma família menor a fim de possibilitar uma vida mais confortável e com condições de garantir a aquisição de produtos e mercadorias que satisfizesse uma lógica que impõe uma forte relação entre consumo e felicidade. Além da preocupação obsessiva com o futuro e a necessidade de sempre melhorar as condições financeiras de forma a garantir uma boa herança para os seus filhos. A vida demonstraria uma dificuldade maior para os que tivessem maior quantidade de filhos. A vivência nas cidades difere substancialmente do tempo em que a população concentrava-se majoritariamente na zona rural. Naquelas condições ter uma família grande era condição de reforçar a capacidade produtiva. Nas cidades, muitos filhos constitui-se em obstáculo à conquista de um estilo de vida farto e à garantia de que os filhos prossigam com sucesso no futuro.
BBC Brasil
Essa concepção se espalhou pelo mundo a partir da Europa e Estados Unidos. Na China há, forçosamente um controle de natalidade, imposto pelo Estado, em decorrência de um número elevado de habitantes. Nos países onde isso não acontece deve-se à questões religiosas, como na Índia, mas deverá ser uma tendência, à medida em que também aquele país vê sua economia crescer, situação parecida com a do Brasil.
Esse controle populacional, planejado ou não, trará efeitos colaterais. O envelhecimento da população é um deles, e o principal, já que afetará a economia na medida em que o Estado terá como obrigação manter um número crescente de aposentados. Na outra ponta, em alguns países o baixo crescimento populacional tem trazido dificuldades na absorção de mão de obra para alguns setores, principalmente os de baixa qualificação. Havendo necessidade de contar com a presença de imigrantes, que passavam a realizar esse tipo de atividade. Mas a crise econômica está mudando essa  realidade, e é difícil prever o que acontecerá caso a crise persista por mais de uma década.
A juventude é a primeira a sentir essa dificuldade, já que as empresas buscam sempre pessoas com experiências, tornando difícil o primeiro emprego. Por essa razão países como a Espanha, Grécia, Portugal e Itália, dentre outros, alcançaram um percentual de dois dígitos de desemprego entre os jovens. Na Espanha isso atinge quase 50%. A qualificação deixa de ter tanta importância como antes, já que os salários caem gradativamente, à medida em que a economia vai se enfraquecendo e pessoas com boas qualificações são obrigadas a aceitar trabalhos antes desempenhados pelos imigrantes. Resta aos jovens que saem da universidade mudarem-se para outros países, invertendo a situação que existia até então. E isso já está acontecendo. Países como o Brasil passam a receber um número cada vez maior de jovens qualificados, ou recém-formados, ou em busca de salários maiores. Na contramão, aumenta o número de jovens brasileiros que se deslocam para o exterior a fim de fazer cursos de melhores qualidades, com o objetivo de garantir qualificações que os façam competir com um mercado de trabalho que se torna mais exigente nesse quesito.
BBC Brasil
O mundo mais conectado seguirá também essa tendência, de deslocamento da importância econômica para outras regiões do mundo, levando a alteração na hegemonia mundial. Os investimentos em novas tecnologias seguem, além de um padrão, a necessidade de atingir um número considerável de pessoas, principalmente nos países com forte crescimento econômico, que ascendem socialmente. Somente nos países conhecidos pela sigla BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) concentra-se mais da metade da população mundial, e dentro deles um grande percentual encontra-se na economia inferior e agora buscam inserir-se no mercado de consumo. Além do que, novas tecnologias e a imposição midiática para os seu consumo, aliado ao setor de produção de alimentos, seguirá sendo a alternativa para se tentar driblar a crise econômica mundial.
5- Outras considerações?
Creio que falta analisar um aspecto que tem tornado as nossas cidades mais perigosas. O aumento do consumo de drogas, do seu comércio ilegal e o consequente fortalecimento de gangs de traficantes e a violência que se acentua na sequência dessa realidade perversa.
O estilo de vida nas cidades, estressante e impositivo na lógica exigente do trabalho, empurra principalmente os mais jovens à procura de mecanismos de escape das angústias e dependência do tempo, sempre em busca de ganhar mais dinheiro e melhor qualificação. O recurso ao uso de drogas consequentemente leva ao aumento do tráfico na comercialização de uma mercadoria que é ilegal. Essa equação trás resultados previsíveis, mas de difícil controle pelo Estado e corre-se o risco de transformar a nossa sociedade em uma redoma baseada na vigilância permanente e no estabelecimento de um Estado policial, com o fim da privacidade e a desconfiança se disseminando como característica principal na relação entre as pessoas.
O neocolonialismo deverá ser uma
tendência, como resposta à crise
econômica nas grandes potências
Outro aspecto a ser destacado é a alternativa sempre encontrada para sair de crises estruturais como a que atualmente atinge as maiores economias mundiais. A ampliação de conflitos regionais poderá levá-los a uma dimensão global e as potencias capitalistas seguirão encontrando pretextos, como no combate ao “terrorismo” para exercer fortes domínios sobre regiões estratégias e fundamentais para não perderem o controle da economia superior. Será corriqueiro a intromissão em disputas locais, e isso se tornará uma tendência principalmente naqueles países que possuem grandes riquezas minerais em seu subsolo e, principalmente enormes reservas de petróleo e gás. O neocolonialismo seguramente retornará á agenda internacional dos países europeus e dos Estados Unidos. É a condição de prosseguirem no jogo geopolítico sem perder suas posições hegemônicas. Líbia, Síria, e agora Mali, e, sempre a Somália, são exemplos presentes (dentre tantos outros) desse comportamento.
As tendências apontadas no estudo são fáceis de serem identificadas, embora faltem nelas essa identificação dos problemas geopolíticos mais determinantes. Mas, enfim, elas não dizem respeito ao futuro, que sequer existe. Elas já fazem parte do presente e a sua consolidação é que nos leva a fazer previsões sobre o que virá.
Claro que os rumos poderão ser diferentes. Mas as pessoas só acreditarão que o que assistimos hoje será diferente no futuro, se as medidas a serem adotadas nos convençam a respeito disso. No entanto, a perdurar a lógica de funcionamento desse sistema no qual estamos inseridos, não haverá mudança no curso dessa nossa história, e as tendências apontadas reafirmarão e consolidarão a realidade atual, da ampliação de uma crise que não dá sinais de arrefecimento e que tende a tornar-se cada vez mais global. Mas o futuro é uma abstração, ele é consequência do que transformamos no presente em realidade.



(*) Um resumo desses dez pontos levantados pelo Euromonitor Internacional pode ser lido no site da BBC Brasil: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/01/121220_euromonitor_tendencias_pai.shtml . E a reportagem da qual participei, a pedido da jornalista, pode ser encontrado no site: http://tribunadoplanalto.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=15999:vida-online-num-universo-com-mais-idosos&catid=64:comunidades&Itemid=6
(**) Conforme o historiador francês, Fernand Braudel, em sua obra “Civilização Material, Economia e Capitalismo” (Ed. Martins Fontes – 3 volumes), a economia capitalista divide-se em duas partes. No patamar inferior, a economia de mercado funciona como na concorrência tradicional, atendendo aos vários circuitos da vida cotidiana; no patamar superior a economia verdadeiramente capitalista, baseada na acumulação da riqueza e no monopólio determinado pelos grandes circuitos da economia-mundo.