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quarta-feira, 12 de agosto de 2020

TODOS NÓS SOMOS AMERICANOS – REFLEXÕES SOBRE A APROPRIAÇÃO DO NOME DE UM CONTINENTE PELOS EUA

Esse é um assunto que de forma recorrente trato em minhas aulas de geopolítica[1]: a apropriação do termo “americano” pelos Estados Unidos da América. Desta feita vou partir da leitura de um texto de Michael Walzer,  “Que significa ser americano?”,[2] quando o autor propõe uma reflexão sobre não somente o sentido dessa expressão, como do próprio caráter da identidade do cidadão nascido naquele país, bem como de sua relação com o caráter da nação, ou do nacionalismo.

Mas a meu ver, além de uma opinião muito focada das concepções liberais republicanas, afinadas com os setores conservadores, ele peca ao omitir um elemento que é crucial para entendermos esse processo de afirmação dos EUA como um estado imperialista, e da apropriação do sentido de ser “americano”. Refiro-me à questão religiosa, cujos elementos foram norteadores do manifesto que impôs à governança estadunidense os caminhos que passaram a trilhar a partir do século XIX, e a enxergar o restante da América como submissa aos seus interesses imperais.

Podemos, e devemos sempre, encontrar as respostas para as origens dessa apropriação com uma rápida digressão histórica. Mas antes eu quero dizer que sou, e sempre fui, apaixonado na história dos Estados Unidos, em todo o seu processo desde a transformação de colônia em um dos primeiros países independentes e de constituição republicana, por meios revolucionários. Bem como se deu sua expansão territorial se apropriando de terras mexicanas, adquirindo territórios dominados pelos franceses e até mesmo pelos russos. E suas conquistas territoriais que conta-se pela bravura dos exploradores, mas omite-se o verdadeiro genocídio do povo autóctone, os indígenas. Apaixonar-se por uma história não significa compactuar com os malfeitos, muito menos aderir aos arroubos imperiais ou imperialistas que passaram a caracterizar esse país a partir do século XIX.

Tenho repetido que os Estados Unidos nasceu como um país sem nome, e essa “deformação” deveu-se à escolha das lideranças de suas colônias, quando do processo de luta para libertar-se das explorações impostas pelo império britânico e que se tornou a luta pela independência.

Na verdade, houve uma união de treze colônias, que se juntaram para lutar contra os ingleses, a partir da resistência em aceitar os exorbitantes impostos cobrados pela produção de chá. Ao final de uma intensa e sangrenta luta, a declaração de independência não firmou, como se deu, por exemplo, na França, um Estado-Nação com sentido federado e unificado.

A declaração de independência manteve a autonomia pré-existente, considerando cada uma das treze colônias com plenas liberdades em aspectos que visavam reforçar o sentimento de que elas possuíam características identitárias próprias, refletidas nas origens tanto religiosas como étnicas (na falta de outro nome). Ou seja, suas histórias de vidas mantinham-se vinculadas a outras nações, de onde originalmente vieram.

Criou-se assim os Estados Unidos, da América, continente que abrange dezenas de outras nações e nacionalidades. Cada um dos Estados (ex-colônias) manteve sua autonomia em questões que dizem respeito a valores que se encontram na base de suas formações, garantindo na constituição o direito ao Estado - no sentido mais geral -; a formulação das fronteiras, a defesa de seus limites territoriais e a formação de um poder militar que os defendesse de agressões externas. Isso até a eclosão da guerra civil, que só veio reforçar esse paradoxo, e rompe com um sentido de nação.

A guerra de secessão tornou-se um delimitador dessa situação. Após esse conflito os Estados Unidos aproximaram-se da formação tradicional de um estado nacional moderno, tal qual construído pela burguesia a partir da decadência do feudalismo e do fracasso do absolutismo.

Walzer analisa essa formação a partir de suas origens, e, abordando as características de um país construído a partir de fortes movimentos migratórios, ressalta a dificuldade, partindo dessa formação, de os Estados Unidos se aceitarem enquanto Nação.

Mas o “ser” americano, a meu ver, se explica pela adoção de um comportamento agressivo, já de um Estado Nação constituído, embora sem nome, cuja característica assumida aproximou-se da antiga metrópole contra a qual séculos antes ele se batera e conseguira libertar-se.

Pintura (cerca 1872) de John Gast
chamada Progresso Americano
 - wikipedia
Dois movimentos para isso foram fundamentais. Ideológicamente isso se concretizou mais adiante, no final do século XIX. Além das teorias geopolíticas, necessárias ao controle do domínio dos mares, e consequentemente de toda a América, um mecanismo religioso consolida essa postura imperialista. O chamado “Destino Manifesto”, pelo qual entendia-se que os Estados Unidos teria recebido por influência divina o poder de garantir a liberdade e segurança de toda a América.

Por outro lado, as estratégias geopolíticas de militares-teóricos, como Alfred Mahan e Nicholas Spykman, que propunham o controle por parte dos Estados Unidos dos dois oceanos, o Atlântico e o Pacífico, e a necessidade da influência militar sobre toda a América. Rechaçando toda e qualquer ingerência europeia, ou de qualquer outro continente, sobre o território americano. A guerra contra a Espanha, no final do século XIX, e o controle assumido após esse conflito sobre algumas colônias, como Cuba, foi o início dessa nova etapa de um país que começava a constituir-se em um novo império.

A palavra de ordem, “A América para os americanos”, veio juntar-se à concepções de uma política intervencionista agressiva, consolidada pela chamada “política do porrete”, ou o “big stick”, ameaçando todos aqueles que ousassem invadir o solo americano.

Impõe-se assim, pela força de um país que se fortaleceu e se unificou politicamente a partir da guerra de secessão, o domínio sobre antigas colônias britânicas, espanholas e portuguesas. Senão no sentido tradicional, mas agindo de outra forma, estabelecendo em cada uma delas governos submissos e/ou subalternos.

A expressão Estados Unidos da América se consolidou, assim, a partir do final do século XIX, não somente como dando sentido a um Estado Nação de característica diferente, porque manteve-se a autonomia de todos os seus novos Estados-províncias, mas impondo-se sobre os demais no continente, assenhoreando-se do termo “América” e “americano”.

A difusão desse termo, a ponto de tornar-se uma expressão definitiva da identificação de quem é nascido nos Estados Unidos deveu-se ao poder que essa potência passou a exercer por todo o continente americano. Principalmente devido à submissão secular das elites tradicionais dos países coloniais, que aceitaram essa influência e a apropriação do termo americano, e se propuseram a difundi-lo em todo o seu aparato midiático.

De tal forma que essa expressão passou a ser comumente utilizada, inclusive em livros didáticos, embora nitidamente farsesca e historicamente uma vergonhosa mentira, aceita inclusive por intelectuais, dentre os quais muitos historiadores.

A apropriação do termo “americano”, por um país que surge sem nome, e a aceitação submissa por parte das colônias políticas e culturais, demonstra o enorme poder, que, a partir do final do século XIX, o império estadunidense passou a impor para toda a América, e daqui para o mundo a partir do início do século XX.

Considerar o cidadão nascido nos Estados Unidos, como americano, é tanto uma verdade como dizer que os que nascem no Brasil, no Uruguai, no Chile e em tantos outros países desse imenso continente chamado América, também o são. Assim como são europeus os que nascem na França, na Alemanha, Irlanda etc. etc... etc...

Mas porque insistir em falar de americano aos que são estadunidenses? É o velho hábito, que se tornou uma cultura política, mantido pelo força da coerção, da subserviência e da aceitação do poder imperial. E, principalmente, porque todo o aparato midiático insiste em repetir cotidianamente, como a reforçar a necessidade de nos considerarmos inferiores, posto que o poder do império se impõe por toda a América. Isso, pode-se também dizer, tornou-se uma tradição pelo comportamento de elites assumidamente provincianas e submissas.

Resta-nos apostar que as futuras gerações conseguirão romper com esse forte domínio de uma cultura política que já se aproxima de duzentos anos. É salutar perceber que nos novos livros didáticos brasileiros gradativamente o termo estadunidense já começa a substituir a palavra americano, no contexto aqui analisado.

Particularmente nada tenho contra os cidadãos nascidos nos Estados Unidos. As questões, de ordem geopolítica que aqui analiso dizem respeito a políticas de dominação secularmente impostas sobre os demais países americanos, desde o México até o Uruguai, por uma potência imperialista. Aliás, diga-se ainda, que alguns, para fugir do uso do termo americano, o substitui por norte-americano, reduzindo o alcance do erro, mas transformando Canadá e México em duas províncias dos Estados Unidos.

Para que a História seja justa com aqueles que tentaram uma unificação americana, devem-se resgatar os ideais de Simón Bolívar, responsável pelas lutas de independências em vários países, dentre os quais, Bolívia, Equador, Venezuela, Panamá, Peru e Colômbia. É possível que os ideais de integração bolivariano para a América Latina tenham preocupado o emergente poder imperial dos Estados Unidos, se antecipando a uma provável luta pela união dos estados americanos.

Importa ao final enfatizar a compreensão de que os Estados Unidos não é a América. E a América não é os Estados Unidos. O continente americano tem nos últimos anos se deparado com situações que nos apontam para um resgate cada vez maior das identidades dos povos que habitam cada um de seus países. Mas deverá também consolidar cada vez mais o sentimento de que a América não é o quintal de um grande império, mas um continente a reforçar cada vez mais a sua identidade.

Afinal, todos nós somos americanos!


NOTAS:

[1] Este artigo foi publicado originalmente em 12 de agosto de 2012. Foi revisto e atualizado. https://gramaticadomundo.blogspot.com/2012/08/todos-nos-somos-americanos.html

[2] O que significa ser um americano ( Marsilio Publishers , 1992) ISBN  1-56886-025-0.   http://www.sociologicamexico.azc.uam.mx/index.php/Sociologica/article/view/850/823

 

domingo, 4 de maio de 2014

O CORAÇÃO DA TERRA PRESTES A SE INCENDIAR MAIS UMA VEZ


No ano de 1904, mais especificamente no dia 25 de janeiro, um texto, apresentado na Sociedade Geográfica Real, em Londres, transformou o britânico Halford Mackinder em uma figura de destaque na geopolítica moderna. Embora com livros publicados, sendo um deles também de grande importância, “Democratics ideals and Reality: A Study in Politics of Reconstruction” (Washington D.C.: National Defense University, 1919, 1942), foi o texto lido naquela data que o tornaria uma das proeminências na geopolítica. Entre as duas publicações uma grande guerra que alterou a ordem política mundial.
O Artigo em questão foi intitulado como “O Pivô Geográfico da História” (The Geographical Pivot of History), e por ele Mackinder identifica nas estepes asiáticas não somente a origem daqueles povos que foram responsáveis pela constituição da Europa, em toda a sua dimensão territorial e na constituição da maioria dos países que a compõe. Ele busca, pela geografia, identificar historicamente as razões para as dificuldades em se impor àquela região formas de controles que lhes fossem externas. E aponta ser aquela uma região propícia para a consolidação de um poder continental, condição pela qual garantiria a quem a controlasse a possibilidade de dominar o mundo.
            Kaplan[1] (2013, p. 64), diz que
Sua tese é que a Ásia Central, na medida em que é uma das partes constituintes do heartland eurasiano, é o pivô em torno do qual gira o destino dos grandes impérios mundiais, pois a própria disposição natural das artérias da terra, entre cordilheiras e vales, estimula a ascensão de impérios, declarados ou não, em vez de estados.
Para Mackinder, o poderio Russo era inabalável pelas condições geográficas, que lhes possibilitava não somente a proteção dificultando invasões externas, mas porque lhes garantiam com a organização de um poderoso exército, reforçar o poder terrestre, considerado mais apto a manutenção do controle daquelas vastas regiões, bem como expandi-la, em direção à Europa. Esse poder, poderia se reforçar perigosamente, caso se expandisse em direção à África, o que ele identifica como a “Ilha Mundial” (Eurásia e África). Além disso, ele ressaltava a importância do poder terrestre, condição que tornava Rússia mais impenetrável, principalmente depois que vastas extensões de ferrovias ligaram os milhares de quilômetros do seu território.
O Pivô Geográfico, para Mackinder era a Eurásia, identificada por ele como o “Heartland”, o “Coração Continental” ou o “coração do mundo”. E expressou em três pequenas frases o que ele considerava como estratégico, do ponto de vista da disputa pelo controle do poder mundial: “Quem controla o leste europeu, comanda o Heartland. Quem controla o Heartland comanda a Ilha Mundial. Quem controla a Ilha Mundial, comanda o mundo”.
“Fora da área pivô, em um amplo crescente interno, estão Alemanha, Áustria, Turquia, Índia e China, e em um crescente externo, Inglaterra, África do Sul, Austrália, Estados Unidos, Canadá e Japão. Na condição atual do equilíbrio de poder, o Estado Pivô, a Rússia, não é equivalente a quaisquer outros estados periféricos, e não há espaço para um equilíbrio com a França. (...) A definição do equilíbrio de poder, em favor do Estado Pivô, que resulta em sua expansão sobre as terras marginais da Eurásia, permitiria a utilização dos vastos recursos para a construção da frota continental, e o império do mundo, então, estaria à vista”.[2]
Contudo, um holandês que se radicou nos Estados Unidos, o geógrafo e geoestrategista Nicholas Spykman, que se tornará a principal referência geopolítica para os Estados Unidos no período da Segunda Guerra Mundial, partindo desse estudo de Mackinder expõe outra compreensão sobre o domínio do poder mundial.
Sem desconsiderar a principal tese de Mackinder, do Pivô Geográfico, e do Heartland, entendendo essa região como um forte poder estratégico, Spykman considera que a importância maior está no “crescente interior”, uma faixa de terras que se estende da Eurásia à América e inclui o Oriente Médio, que ele vai denominar de “Rimland”. Mais objetivo, e preocupado em definir uma política de contenção que impedisse a ampliação do poder do “heartland”, Spykman define como sendo a então União Soviética essa potência. Por sua teoria dominaria o “coração do mundo” não quem o controla diretamente, mas quem fosse capaz de cercá-lo.
Com base nas teorias de Spykman os Estados Unidos definirão toda a sua estratégia de atuação, tanto no período anterior à grande guerra, como, principalmente, após esse conflito, quando se estabelece a Guerra Fria. A “Estratégia de Contenção”, principal arcabouço teórico-geopolítico de Spykman, permeou todas as relações internacionais da política externa estadunidense. Desde o “Cordão Sanitário” interposto entre as duas grandes guerras, pelo qual se investiu no apoio a governos anti-soviéticos, apoiados pelos EUA, até a Guerra Fria, com a criação da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte).
Essa estratégia encontrará sua formulação adequada com uma doutrina de segurança nacional, pela qual os EUA imporá sua política intervencionista que vigora até os dias atuais. A identificação do inimigo externo passa a gerar uma reação imediata, antecipando-se a uma possível ação que lhe pudesse ser ameaçadora. Por toda a guerra fria essa política foi adotada, e foi também fundamental na atuação dos órgãos de espionagem, no sentido de desestabilizar os países que compunham a União Soviética, ou que lhes fossem aliados, durante a década de 1980. A Polônia e o Afeganistão, foram os principais alvos dessa estratégia. Com o apoio ao Sindicato Solidariedade na Polônia, reforçado em seguida com a ascensão do papa polonês Carol Wojtyla, ou João Paulo II, as ações surtiram efeito e eliminou um aliado estratégico do regime soviético na Europa. No Afeganistão, o apoio ao Talebã, na guerra para expulsar os soldados soviéticos impôs uma forte derrota e fragilizou uma parte importante da fronteira soviética em um momento já de desestabilização completa da União Soviética. As ideias de Spykman consolidavam uma estratégia que se impôs como vitoriosa, ampliou o poder da OTAN e abriu caminho para as políticas neoliberais e a globalização.
“Contenção” é o nome dado pelo poder marítimo periférico para o que o poder do Heartland chama de “cerco” (encirclement). A defesa da Europa Ocidental, de Israel, dos Estados árabes moderados, do Irã do Xá e as guerras do Afeganistão e do Vietnã giraram todas em torno da ideia de impedir que um império comunista estendesse seu controle do Heartland ao Rimland.[3]
Após o fim da guerra fria, com a decadência do poder soviético, os EUA e aliados reforçam o controle do poder nessa região, com a ampliação da área de influência da OTAN, incorporando antigos países que compunham a União Soviética à essa organização  e mantendo a Rússia numa situação humilhante de dominação, mediante o apoio a governos fracos e instáveis. O foco principal passava a ser o domínio de territórios estratégicos, com potenciais reservas de petróleo, óleo e gás.
 “Com essa perspectiva, o objetivo estratégico dos Estados Unidos consistiu em expandir a influência e o domínio sobre a Ásia Central, região com mais de 1,6 milhão de quilômetros quadrados, que compreende Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Turcomenistão e Usbequistão, países com enormes recursos naturais, e que é rodeado por China, Rússia, Ásia do Sul e Oriente Médio.[4]
O objetivo, segundo o experiente e veterano professor Moniz Bandeira, doutor em Ciência Política e professor aposentado da UnB, atualmente residindo na Alemanha, era integrar os países do Cáucaso/Ásia Central, seja mediante o envolvimento militar ou através de ações de inteligência que possibilitasse a instalação de governos aliados, “que permitissem a economia de livre mercado, liberação do comércio e investimentos ocidentais, de forma que pudessem controlar as fontes de energias e as rotas de transporte do gás e do petróleo”.[5]
A década de 1990, com seus resultados negativos para o mundo socialista, pelo revés gerado pelo declínio e esfacelamento da União Soviética, representou, por outro lado, uma forte agressividade da política externa estadunidense, com influência destacada dos chamados “falcões”, que procuravam impor pela força o domínio ocidental e a expansão dos limites de atuação da OTAN. Reforçavam o controle do Rimland e avançavam em direção às franjas do heartland, trazendo para sua influência países que antigamente compunham a União Soviética.
Esses países outrora membros da República Soviética, partes do heartland euroasiático, tornaram-se alvos da política agressiva e rapace dos EUA.
Eram as repúblicas mais pobres da extinta União Soviética, mas possuíam vastas reservas de petróleo, iguais ou maiores do que as da Arábia Saudita, e as mais ricas reservas de gás natural do mundo, comprovadamente mais de 236 trilhões de metros cúbicos, praticamente fechadas.[6]
Essas ações prosseguiram, célere e agressivamente, visando bloquear qualquer tipo de influência da China, Rússia e Irã, avançando em seus objetivos estratégicos no Sul do Cáucaso e na Ásia Central. Uma série de projetos de gasodutos foram implementados e as rotas seguiam dessas regiões passando por esses territórios, países que se encontravam em tensões como consequência da transição em curso, e que tiveram esse processo acelerado por conta das ações de espionagem e da sedução de novos governantes que se erguiam distanciando-se da Rússia, mediante altos investimentos e atividades de grandes corporações petrolíferas. Moniz Bandeira (2013, pp. 68-69) cita alguns deles: O Consórcio Shah Deniz Production Sharing Agreement (PSA); o gasoduto Shah Deniz FFD: o South Caucasus Pipeline (SCP); o projeto Gasoduto Nabucco; e o Gazprom-Eni South Stream, além da atuação da British Petroleum e da Chevron/Texaco. As rotas tinham o Mar Cáspio como ponto estratético, de onde praticamente a maioria saia em direção à Turquia e daí para a Europa. Mas também partindo de Baku e do Azerbaijão.
Por trás dessas mexidas estratégicas, cujos objetivos eram as reservas energéticas de gás e petróleo, mas também agir com cada vez mais agressividade, seguindo ainda a estratégia de contenção, ampliando o domínio do Rimland, e avançando em direção ao Heartland, de forma a sufocar cada vez mais a Rússia, o centro do coração do mundo. Por todo o mundo, no entanto, a propaganda midiática centrava-se na necessidade de garantir a essa parte do mundo, o acesso à democracia e liberdade, com a ascensão de novos governos que pudessem defender a aproximação da União Européia e da OTAN. A defesa da Segurança Nacional passou a se constituir no pretexto mais forte, internamente, pelo qual tornava-se necessário combater com veemência os governos hostis aos valores ocidentais e estadunidenses. A “guerra ao terror”, motivada pela agressão sofrida pela ousadia de jihadistas da Al Qaeda, com o ataque ao World Trade Center, tornou essas ações fáceis de serem digeridas pela opinião pública. E os EUA saíram a caça dos terroristas, identificando nesses os inimigos externos e internos, menosprezando, sempre, a ordem política internacional.
Enquanto atacava o Iraque e Afeganistão, com armamentos pesados e grande contingente militar, os EUA, por meio de dezenas de Organizações Não-Governamentais (ONGs) e da presença explícita de assessores militares, iniciou um processo de desestabilização de alguns países extremamente estratégicos para seus objetivos de controlar a produção e distribuição de gás e petróleo da região, e manter o isolamento da Rússia. As chamadas “Revoluções Coloridas”, se apresentavam pela mídia como insatisfações populares contras governos autoritários, escondiam a atuação desses atores externos plantados naqueles países com o intuito de derrubar esses governos. A Revolução Rosa na Geórgia, em 2003; a Revolução Laranja, na Ucrânia em 2004; a Revolução dos Cedros, no Líbano, em 2005; e a Revolução das Tulipas no Quirguistão, em 2005.
Os recursos gastos para promoverem essas crises políticas e a queda desses governos, foram infinitamente menores do que o montante investido no Iraque. Por essa razão, a partir de então, a estratégia a ser adotada será de reforçar esse mecanismo, ampliando o papel dessas organizações e de mais investimentos em espionagem, seja por meio da presença de um número cada vez maior de agentes, ou do controle da mídia e por meio das novas tecnologias que seduziam a juventude e que seria por esses meios facilmente manipulada.
Não é segredo, portanto, que o Pentágono, através da United States Army Civil and Faires e do Psychological Operations Command (USACA-POC), o Departamento de Estado e várias organizações não-governamentais, entre as quais a Freedom House, (...) e a National Endowment for Democracy, investiram milhões de dólares para incentivar as “revoluções coloridas” na região da extinta União Soviética e cercar a Rússia. A Ucrânia configurou uma questão estratégica, não por causa de Moscou, mas por causa dos Estados Unidos, que, conforme o jornalista Jonathan Steele, se recusavam a abandonar a política da Guerra Fria de cercar a Rússia e buscar para o seu lado todas as antigas repúblicas soviéticas. Situada entre a Rússia e os novos membros da OTAN – Polônia, Eslováquia, Hungria e Romênia –, a Ucrânia adquiria realmente enorme significação estratégica para os Estados Unidos. (MONIZ BANDEIRA, 2013, pp. 97-98).

A UCRÂNIA FORA DE CONTROLE
Por esse tempo, contudo, nesse começo de século XXI, a Rússia aos poucos foi retomando seu papel estratégico nessa região e o protagonismo político em âmbito internacional, através de uma política agressiva de uma nova liderança nascida dos escombros da antiga polícia secreta soviética, a temida KGB (Komitet gosudarstvennoi bezopasnosti, Comité de Segurança do Estado): Vladimir Putin.
Demonstrando segurança e capacidade de lidar com situações adversas, Putin passou a se constituir em um perigoso estrategista, cercando os objetivos europeus e dos EUA nos avanços sobre as antigas repúblicas soviéticas, e agindo com firmeza para conter as lutas separatistas em países estratégicos, fomentadas e financiadas pelas potências ocidentais, destacadamente os EUA.
Como um Czar moderno, Putin passou a governar com punhos de ferro, reprimindo implacavelmente esses movimentos, passando a considerá-los também “terroristas”, além de realizar uma limpeza interna, perseguindo opositores, muitos dos quais novos ricos que amealharam suas riquezas em golpes de corrupção no processo de desestatização com fortes vínculos com alguns países europeus, para onde fugiram alguns daqueles que não foram presos nesse processo.
Dessa forma, algumas mexidas no tabuleiro de xadrez que representa essa região, fez com que Putin reagisse e obtivesse algumas vitórias sobre as políticas estadunidenses. Primeiro em relação às lutas separatistas na região, tanto na Geórgia, como na Ossétia do Sul, e uma reviravolta na revolução laranja na Ucrânia, retomando a influência nas eleições de 2010, com o retorno de Viktor Yanukovych à presidência, resultando em uma verdadeira queda de braço entre a Rússia e a União Européia, instigada pelos Estados Unidos, que disputavam a assinatura de acordos que pudessem tirar a Ucrânia de enormes dificuldades financeiras. Por fora da região Putin deu uma tacada de mestre na questão da Síria, quando negociou a destruição das armas químicas e eliminou o principal pretexto para uma ação militar da OTAN naquele país, onde se situa a única base militar russa na região do mediterrâneo.
Mas a Ucrânia era a situação mais emblemática, pelos motivos já citados acima, além da sua extensão territorial e sua dimensão populacional. Assim, nos últimos anos iniciou-se uma luta intensa pelo controle ucraniano, ora nos bastidores, ora nos embates políticos internos, mas, principalmente, nas ações executadas por grupos ultranacionalistas fascistas, organizações não-governamentais e agentes secretos infiltrados por todos os lados e de todos os lados, seja dos EUA ou da Rússia.
Euromaindan - revoltas em Kiev
Fragilizado politicamente como consequência de um governo fraco e marcado pela corrupção, Yanukovych terminou por ceder à pressão russa e recusou os acordos com a União Européia. Essa atitude se constituiu no estopim que levou às ruas centenas de milhares de manifestantes, em um movimento que, como todos os demais que marcaram as “revoluções coloridas”, começou despretensiosamente, até atingir seu ápice com a invasão de prédios públicos e o controle de setores importantes do governo, forçando o presidente à fugir para a Rússia. Nitidamente ocorreu ali um golpe de Estado, principalmente porque através de alguns acordos já se iniciava um processo de transição que atendia boa parte daquilo que era reivindicado nas ruas. Mas as ações agressivas de grupos radicais de direita prevaleceram levando a destituição de Viktor Yanukovych. Desta feita, os interesses russos foram contrariados, em uma região de importância estratégica fundamental já que aproximava a União Européia e as políticas estadunidenses perigosamente das fronteiras russas.
A primeira reação russa foi instigar o plebiscito na região da Criméia, pelo histórico de vinculação com aquele país de população majoritariamente de origem russa, mas, também, por se constituir em uma importante ligação da Rússia com o Mar Negro, através do Mar de Azov pelo Estreito de Kerch. Esse é um caminho estratégico que a Rússia tem para atingir o Mar Mediterrâneo, pelos Estreitos de Bósforo e Dardanelos (que dividem a Turquia da Europa). Outro elemento importante é o fato de ali situar-se uma base militar russa, incrustada na cidade de Sebastopol.
Por essas razões, e com o agravamento da crise ucarania, a República Autônoma da Criméia, após o plebiscito que contou com o apoio de 95,5% dos votantes, passou em março deste ano a fazer parte da Federação Russa.
Contudo as populações do leste ucraniano, também em sua maioria de origem russa, e inspirando-se na iniciativa da Criméia, passaram a se mobilizar de maneira ostensiva, opondo-se ao governo provisório da Ucrânia e reivindicando também plebiscito que as incorporem à Rússia. Duas das maiores cidades ucranianas também se inserem nesses protestos: Odessa e Donetsk. Historicamente são cidades que já compuseram o Império Russo, assim como todo o território ucraniano. Após a revolução bolchevique, em 1917, toda essa região compunha a extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
Manifestantes pró-Rússia em
Donestsk
O que tem se seguido à incorporação da Criméia pela Rússia e à aproximação do governo da Ucrânia aos governos ocidentais e aos EUA é uma reação em cadeia por parte de praticamente todas as cidades do leste ucraniano, situadas no litoral do mar negro e na fronteira com a Rússia. Os levantes assumiram características de guerra civil, e as manifestações, com ocupação de prédios públicos e a destituição de autoridades que se opunham ao separatismo, assemelham-se ao que aconteceu no início deste ano que levou à deposição pela força do presidente ucraniano Viktor Yanukovych.
Mas, as informações que os chegam, transmitidas em larga escala por poucas agências de notícias ocidentais, tomam um outro enfoque, diferente da maneira como as primeiras manifestações foram noticiadas. Apresentadas agora como revoltas conduzidas pro grupos pró-Rússia, com alegações do governo interino ucraniano que tratam-se de ações de grupos terroristas alimentados pelo governo russo, e assim reproduzido para todo o mundo e presente nos discursos das autoridades estadunidenses, embora guardem semelhanças com aquelas anteriores são distinguidas propositadamente a fim de justificar possíveis ações militares e intervenções da OTAN.
Presença de grupos nazi-fascistas
em Kiev. Fortes protagonistas
nas revoltas euromaidan
Os primeiros choques, naquilo que ficou conhecido como o Euromaidan (europraça), que tem ocupado a praça central de Kiev até os dias atuais, assumiram características semelhantes das atuais revoltas do Leste. Pior, porque foram comandadas por grupos neo-nazistas, que ascenderam depois ao governo, assumindo dois ministérios. Mas nem por isso foram noticiadas por essas agências de comunicações, como pró-europeias, muito embora estivessem presentes, infiltrados, centenas de agentes estadunidenses, interessados em destituir o então presidente, a fim de atrair a Ucrânia para sua zona de influência, aproximá-la da União Europeia e incluí-la na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). O objetivo, naturalmente, era reforçar o cerco ao Heartland russo, e, a meu ver, vingar-se das derrotas impostas pela diplomacia russa tanto nas ações da Síria, como na concessão de asilo a Eduard Snowden.
A solução para o problema ucraniano não é simples. A Rússia não abrirá mão de manter sob sua influência toda a região que lhes faz fronteira, não somente por ser constituída de uma enorme população de origem russa, mas pela necessidade de proteção dessas fronteiras, de forma a afastar possíveis ameaças ocidentais ao seu território.
A crise econômica mundial, que afeta duramente as principais potências europeias e os Estados Unidos, é um ingrediente a mais a preocupar os analistas políticos, em vista da necessidade de artificializar crises como estratégias de não somente desviar as atenções a esses problemas, mas porque historicamente as guerras têm se constituídos em saídas para crises que aconteceram em diversos momentos e que afetaram a economia mundial, ameaçando o equilíbrio geopolítico, e até mesmo efetivando mudanças consideráveis na hegemonia do poder mundial.
Odessa, começo do século XX,
retratada na revolta do Couraçado
Potenkim, no clássico filme de Eiseinstein
Mas, essa região, sempre disputada, desejada e jamais conquistada por forças externas a ela, tem na sua geografia o elemento mais forte a protegê-la. Dois grandes impérios, em duas guerras violentas, viram seus exércitos padecerem nas dificuldades enfrentadas pelo ambiente e pela reação fortemente nacionalista do povo russo. Tanto na tentativa de invasão durante as guerras napoleônicas, no começo do século XIX, como do exército alemão durante a segunda guerra mundial. Em seus momentos, o poderio francês, bem como no século XX o poderio alemão, eram infinitamente superior ao russo e soviético. Mas esbarraram nas dificuldades geográficas e na determinação desses povos.
É impossível fazer um prognóstico para o final dessa crise. O certo, no entanto, é que isso só se acalmará se ao fim, e ao cabo, puder se chegar a um acordo que leve a constituição de um governo na Ucrânia que possa manter o país fora da União Europeia e também livre da influência russa. Uma federação de estados autônomos independentes seria, portanto, o caminho adequado para pacificar a região, embora não se saiba até quando.
A extensão desse artigo se deve à necessidade de se mostrar com clareza, para além das manipulações dos meios de comunicação, e dos comunicados piegas de autoridades ocidentais, principalmente estadunidenses, como se fossem eles xerifes do mundo, a importância estratégica que toda essa região possui no contexto de uma disputa geopolítica pela manutenção do poder hegemônico mundial e na tentativa de cercar e impedir que outros atores possam vir a se constituir em ameaças a esse poder.
Odessa hoje. Com manifestantes
em lutas separatistas pró-Rússia
Criticar a maneira como essa crise está sendo apresentada não significa, necessariamente, defender o comportamento político do presidente russo Vladimir Putin, claramente aliado de uma forte oligarquia local que enriqueceu às custas da decadência do antigo regime soviético. Mas não se podem admitir as distorções nos enfoques que são dados a esses movimentos, levando a um claro desequilíbrio nas notícias e omitindo situações históricas e geográficas que explicam as dificuldades de se compreender todos esses conflitos.
O “pivô geográfico da história”, ou o heartland mackinderiano, pode explodir em novas guerras, incendiando mais uma vez coração do mundo. A população mundial assiste, impassível, a esses acontecimentos, impotentes diante de um embate que sempre opôs forças poderosas da geopolítica mundial. Seguiremos acompanhando, com um olhar geopolítico, procurando ser o mais isento possível, mas seguramente opondo-se à maneira rapace e dominadora, disfarçada em defesa de democracia e liberdade, com que EUA, Europa e OTAN tem avançado por toda a região euro-asiática, com intuito de expandir suas influências, ampliar seus mercados e derrubar governos hostis na linha da estratégia da contenção, de controle do rimland e de cerco aos povos das estepes asiáticas.
* Já quando eu estava finalizando este texto me deparei com um artigo no blog do jornalista Mauro Santayana, que tem elementos já das questões geopolíticas que estão em jogo nessa disputa. A proibição, por parte da Rússia, da exportação de alimentos que contenham modificações genéticas, ou, os chamados transgênicos. Ainda segundo Santayana, isso se dá no momento em que praticamente metade da produção agrícola da Ucrânia passa a ser controlada por duas grandes corporações, a Cargill e a Monsanto.[7]




NOTAS:
[1] Robert Kaplan, autor do livro citado, “A Vingança da Geografia”, é o principal analista geopolítico da Stratfor, uma empresa de inteligência privada global. No seu livro ele procura descrever as dificuldades impostas pela geografia àquelas ações imperialistas executadas pelos Estados Unidos nas últimas décadas. Percebe-se que o conteúdo exposto visa obter uma análise cuidadosa dos erros cometidos, e, a meu ver, com o intuito de alterar as estratégias adotadas, não mais de intervenções militares baseadas em enormes contingentes militares e bélicos, mas partindo para ações de inteligências, de desestabilizações de governos hostis e operações tecnologicamente sofisticadas. O objetivo, “ser (os EUA) um poder equilibrador na Eurásia e um poder unificador na América do Norte”
[2] MACKINDER, Halford. O Pivô Geográfico da História. In: Revista de Geopolítica. Natal-RN, v.2, n.2, pp. 17-18. Jul/dez de 2011.
[3] KAPLAN, Robert D. A Vingança da Geografia. A construção do mundo geopolítico a partir da perspectiva geográfica. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013.
[4] BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. A Segunda Guerra Fria. Geopolítica e dimensão estratégica dos EUA. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013. P. 65
[5] Idem, ibidem.
[6] Idem. P. 66
[7] Leia o artigo acessando o link: http://www.maurosantayana.com/2014/05/os-ogm-cobica-e-morte.html

domingo, 11 de março de 2012

RÚSSIA E O IRÃ, O QUE ELES TÊM EM COMUM?

Aparentemente, nada. Mas uma breve análise geopolítica nos mostrará porque a mídia ocidental demoniza os dois personagens que estão à frente desses dois antigos grandes impérios, que exerceram fortes poderes regionais em períodos distintos da História: o russo (posteriormente União Soviética) e o persa.
Porque razão as repercussões sobre as eleições na Rússia e no Irã enfatizam o caráter corrompido do processo eleitoral nesses países? Como já disse em artigos anteriores aqui no Blog, é preciso criar na opinião pública mundial uma visão negativa desses países e de seus governantes, para que possa ser justificada qualquer medida mais beligerante que possa vir a ser tomada pelos países ocidentais. Isso faz parte de uma estratégia de guerra, mesmo que ela não ocorra. O que significa dizer que é importante que nesses países, seus dirigentes sejam sempre vistos de forma negativa, para que, assim, deixem de ser protagonistas na geopolítica de duas das regiões mais cobiçadas do mundo. Ou fragilizados o suficiente para serem eliminados ou destituídos de seus cargos.
Vamos falar sobre a Rússia. Imagens mostram revoltas do povo russo protestando contra fraudes no processo eleitoral. Mais uma vez. Isso foi feito também quando das eleições do Irã, embora poucos se lembrem. A mídia repercute opiniões de personalidades internacionais e dão vazão ás insatisfações de candidatos derrotados. Mas será que a eleição de Putin foi de fato um incômodo ao ocidente.
Logicamente que não. Basta ver os resultados. Não fosse Putin, o candidato em melhores condições de se eleger seria Guennadi Ziugnanov, do Partido Comunista Russo. O preferido dos EUA, por exemplo, ficou em quarto lugar. É evidente que o discurso de fraudes tem uma forte conotação política. A diferença foi muito grande, e todos os candidatos somados não obtiveram nem um quarto do total de eleitores (isso segundo a Comissão Eleitoral, no que é questionada pela oposição).
O que se pretende, com essa massificação da ideia de fraude eleitoral é, mais uma vez, da mesma forma que foi feito quando da eleição de Ahmadinejad, por um lado criar na opinião pública a imagem de que naquele país há um processo eleitoral corrupto, e, por consequência, fragilizar o presidente Vladimir Putin, tentando diminuir seu protagonismo na geopolítica mundial, principalmente na relação com os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Logicamente que a oposição nesses países aproveitam-se da situação, mas é a ela, em cada país, que deve ser dada a possibilidade não só de questionar, mas de convencer a população de seus países de eventuais irregularidades ou até mesmo desmoralizarem seus oponentes com o intuito de ocupar espaço. Afinal, o que está sempre em jogo é o poder.
Os questionamentos que se fazem sobre a Rússia, então e em decorrência disso, parte da tentativa de desmoralizar a democracia naquele país (e vamos ver que o mesmo se repete em relação ao Irã). É bom então esclarecer, para que não paire dúvida sobre a intenção dessa análise, que o sentido da democracia é relativo, e deve ser entendido historicamente. Nem se pode, também, a rigor, acreditar que a democracia capitalista seja a mais perfeita alternativa para a humanidade. Repito, não há a mesma busca por democracia em países como a Arábia Saudita, o Bahrein (onde existe base militar dos EUA), ou não se questiona o poder nuclear de Israel. Por outro lado se apoia golpes de Estados como o que ocorreu em Honduras em 2009.
A Rússia é um país que tem em sua história experiências vividas por poucos países do mundo. Possui uma dimensão territorial imensa e uma riqueza em seu subsolo que o coloca na posição de grande potência energética. É um dos maiores produtores de petróleo e gás do mundo. Sua situação geográfica é tida como estrategicamente favorável à dominação e expansão de seu poder. No começo do século XX, Halford Mackinder, um dos mais importantes teórico e estrategista da geopolítica mundial, britânico, elaborou uma teoria em que considerava aquela região do Cáucaso como o eixo central do mundo, que ele denominou como o “área pivot”, ou “Heartland”. Para ele, o controle dessa região deixaria vulnerável as potências marítimas e daria ao Estado que a controlasse a possibilidade de desenvolver um enorme poder terrestre. Quem domina essa região, disse Mackinder, dominará o mundo.
O período pós-soviético traz uma complexidade natural. É uma transição difícil reflexo de uma ruptura que girou a roda da história para trás, freando toda a empolgação que existiu ao longo do século XX na eminência de uma vitória do socialismo sobre o capitalismo. A desestruturação da União Soviética levou a uma necessária readequação de todo o funcionamento do Estado, fragilizado diante de uma crise que se estendeu por mais de uma década. A rapidez com que essas mudanças foram feitas, e diante da avidez das potências ocidentais em se aproveitarem do espólio aliando-se a todo o tipo de oportunistas e falsários que passaram a controlar esse poder decadente, terminou por levar ao poder um boneco de ventríloquo, chamado Bóris Yeltsin. Porquanto esteve à frente da Rússia sua imagem serviu para criar um sentimento de enorme frustração. Seria aquilo o resultado de uma revolução histórica?
Ferido, o povo russo, tradicionalmente nacionalista, buscou se apegar a um governo forte, que pudesse ser capaz de agir duro com o ocidente quando necessário. Assim se apresentou Vladimir Putin, ex-agente da KGB, que soube se aproveitar bem de toda essa fragilidade e do sentimento do povo russo.
À medida em que se acentua a crise na Europa e Estados Unidos as ações geopolíticas expressas em imagens, reportagens e nas declarações de personagens ligadas àqueles países, vão se tornando mais corriqueiras.
As eleições russas ocorreram num momento de confronto diplomático. A Rússia, juntamente com a China, bloqueara sanções contra a Síria, cujo objetivos eram semelhantes ao que acontecera na Líbia. Por se tratar de um país estrategicamente mais importante para a Rússia, essa sanção foi rejeitada, por não obter unanimidade.
Insatisfeitos, como já estavam com o comportamento arrogante de Vladimir Putin, intensificaram-se as manifestações contrárias ao resultado eleitoral. Evidente que uma análise mais criteriosa do comportamento do Putin, poderá dar até razão a muitos de seus críticos, mas o que está por trás de todo esse embate é a disputa geopolítica envolvendo países que possuem forte aparato bélico, e situam-se em regiões de enorme importância estratégica.
Portanto, as verdadeiras razões da insatisfação com o novo “czar” moderno russo, estão muito além do que se encenam nas reportagens da grande mídia. A Rússia, com Putin, volta á cena com forte protagonismo nas disputas regionais e mundiais, e se insere em um grupo que aos poucos vai se consolidando como atores principais na mudança de rumo que está tomando a geopolítica mundial.
Mas outro grande teórico da geopolítica, e conhecido estrategista estadunidense, reforçaria a teoria de Mackinder, mas parte dela para elaborar uma nova interpretação sobre a maneira de controlar o mundo. Para ele o poder mundial estaria nas mãos não de quem controlasse o “heartland”, o coração do mundo, mas sim, por quem pudesse cercá-lo.
Nicholas Spykman, geógrafo e geoestrategista foi o responsável, com sua teoria, pela política externa adotada pelos Estados Unidos, durante toda a guerra fria. Um dos pilares de sua teoria impunha a necessidade de os Estados Unidos estabelecerem alianças que pudesse manter a então União Soviética restrita à influência do Heartland. Dessa forma, toda a sua ação geopolítica se deu no sentido de exercer o controle sobre o Rimland. Ou seja, dominar as principais nações que situavam-se no entorno do “crescente interno”, que seria a área da Eurásia que circulava o Heartland.
O objetivo principal, além de em algum momento exercer o controle sobre o heartland, era estabelecer um cordão em volta da União Soviética, isolando-a e expandindo o domínio geopolítico para outras áreas, como as Américas. Com a queda do socialismo e o retorno da Rússia à cena geopolítica, acelerou-se toda uma política para se exercer o controle dos governos que surgiam dos novos Estados.
Mas, tanto da fase da disputa geopolítica no contexto da guerra fria, como nos anos que se seguiram ao fim da União Soviética, até os dias atuais, permaneceu sempre presente a intenção de controlar os Estados-nações que compunham o chamado Rimland. Inclui-se aí o norte da África, a Europa e o Oriente Médio. Essa região cresceu de importância, em função da enorme riqueza ali existente, mas prosseguiu sempre também os objetivos geopolíticos determinados por Spykman, para quem era imprescindível impedir que houvesse uma aliança entre Estados do heartland e os do Rimland. Por isso, as alianças que eventualmente acontecem entre a Rússia e países como a Síria e o Irã, ameaçam o domínio geopolítico dos EUA e colocam em xeque, pela teoria do Rimland, o seu poder hegemônico sobre o mundo.
Quanto ao Irã, embora sendo um país de características distintas da Rússia, a preocupação segue na mesma direção. Não somente por ser inimigo declarado de Israel, Estado parceiro e importante estrategicamente para os Estados Unidos no Oriente Médio, mas por vir a se constituir em uma grande potência regional. Plenamente consolidada se se confirmar a sua capacidade de deter tecnologia nuclear e com uma das maiores reservas petrolíferas do mundo.
O Irã, único país não-árabe do Oriente Médio, herdeiro de um dos maiores impérios da antiguidade, se diferencia culturalmente de todos os demais que foram sacudidos por revoltas populares. Algumas das quais instrumentalizadas pelas potências ocidentais, para não perderem o controle de áreas estratégicas, principalmente as produtoras de petróleo. Mas também daqueles países que possuem fronteiras que dão acesso a canais por onde se transportam toneladas de tonéis de petróleos e gás.
O regime iraniano é extremamente fechado, e escora-se em um Conselho de Aiatolás, que mina o poder do presidente. Sua constituição submete-se a um poder maior, o religioso, e pelo que está escrito no livro sagrado dos Muçulmanos, o Alcorão.
Em última instância, as decisões mais importantes são tomadas por esse conselho. Nesse imbróglio político o grupo de Armadinejahd não é o mais conservador. Mas suas decisões necessariamente precisam estar em consonância com o que pensam os Aiatolás. Mas, quando teço essas comparações, o faço à luz de uma realidade bem específica. Afinal, não é difícil ser mais progressista do que um clero islâmico, dominado por anciãos sectários, da corrente xiita. Evidentemente, isso não faz de Armadinejahd um revolucionário. Mas não é o demônio, como traduzido pelo Ocidente.
Com um poder militar que supera o de todos os demais países do Oriente Médio, e com uma capacidade bélica que só não faz frente à Israel pelo fato do país judeu possuir armas nucleares, só resta ao Irã se igualar nessa capacidade, a fim de poder se proteger de um eventual ataque israelense.
Protegido pela China e Rússia, com o veto à resolução do Conselho de Segurança impedindo uma invasão à Síria, o que possibilitaria um cerco e um ataque ao seu território, o Irã se apressa em criar as condições para se proteger com um escudo nuclear. E caso isso se concretize, não somente estará consolidando uma posição de hegemonia regional, como também incentivará outros países a se armarem com artefatos atômicos, condição de se verem livres de ameaças de potências indesejáveis. Poderá estimular uma nova corrida armamentista, nos moldes da guerra fria, agora num mundo multipolar, só possível de ser controlado mediante uma total renovação da Organização das Nações Unidas. Mesmo assim, com grandes limitações, na medida em que o poder hegemônico dos Estados Unidos será cada vez mais questionado.
O que não é possível admitir é a insistência em criar as condições favoráveis internacionalmente para atingir os governos de determinados países, mediante um insidioso noticiário, incensando-se o fragilizado sistema “democrático” ocidental, como se fosse a panaceia que salvará a humanidade de si mesma, e desconsiderando-se as culturas e realidades complexas de sociedades que carregam tradições milenares. Aliás, o sistema eleitoral dos Estados Unidos é extremamente viciado, e muito embora existam sempre dezenas de candidatos à presidência, para dar a impressão de liberdades democráticas, na prática a disputa fica restrita a dois partidos, que se revezam sem alterar substancialmente a política de Estado, já que é forte o poder das grandes corporações a lhe controlar.
Alguns anos atrás, quando se denunciou a fraude eleitoral que garantiu a reeleição de George W. Bush, a mídia não teve a mesma reação. E busca-se insistentemente, principalmente num quadro de crescimento de uma crise econômica brutal, quando esse sistema democrático serve aos interesses daqueles que controlam o capital, dar a demonstração de que os instrumentos do Estado capitalista são suficientes para conter a sua podridão. Escondendo o fato de que esses próprios instrumentos carregam o velho vício de atender aos interesses de uma minoria que controla a riqueza e o poder.
Os governos da Rússia e do Irã não são confiáveis do ponto de vista de quem anseia por mais liberdades e justiça social. No entanto, a construção de alternativas que possam substituí-los deve partir de seu próprio povo. Muito menos cabe à mídia campanhas mentirosas, atendendo-se aos interesses geopolíticos e geoconômicos em disputas. Como se viu no noticiário do dia 10.03, quando na sequência das notícias o Jornal Nacional da Rede Globo informou que “segundo” a oposição síria, dezenas de pessoas tinham sido mortas por tropas daquele governo. No entanto, quando fez referência às mortes no Iêmen, e ao combate daquele governo com os que desafiam o regime, afirmou serem terroristas. É, portanto, acintosa a parcialidade da informação, com o intuito de criar uma opinião pública que veja como normal a invasão de alguns países, e até o assassinato de seus dirigentes. E o oposto se faz quando é do interesse das potências ocidentais, principalmente dos EUA.
Do mesmo modo, durante noticiário da Band News, neste domingo (11/05), a repórter referiu-se a mais um massacre, a morte de quinze afegãos por um soldado estadunidense, como um “incidente”, seguindo-se os tradicionais pedidos de desculpas do embaixador dos EUA naquele país. Em seguida, ao noticiar um atentado com três mortos no Paquistão, o adjetivo utilizado foi que o “crime” havia sido praticado por um homem-bomba. Ora, são dois assassinatos, crimes hediondos, e deveriam ser noticiados com o mesmo grau de indignação.
Com esses posicionamentos, o que poderíamos prever, numa situação em que no nosso país em algum momento pudesse passar por situação semelhante? Seria admissível aceitar a ingerência de outro país, a armar uma oposição que porventura não consiga atingir seus objetivos pelos meios políticos? Como, aliás, esteve prestes a acontecer no golpe militar de 1964?
A autodeterminação dos povos é um dos elementos basilares da garantia da inviolabilidade de seus territórios. Não se pode, como vem sendo feito, adotar o discurso de defesa dos direitos humanos com o claro objetivo de se exercer o controle sobre Estados que detém em seus territórios enormes riquezas minerais, ou, que possuem fronteiras e localizações regionais que têm uma enorme importância estratégica.