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sábado, 28 de março de 2020

TUDO QUE É SÓLIDO DESMANCHA NO AR – O COVID19 E A CRISE CAPITALISTA MUNDIAL


Poucos artigos que eu escrevi neste blog foram alvos de modificações depois de publicados. Neste caso especificamente decidi atualizá-lo em função da crise que vivemos, com a disseminação do novo corona vírus, ou a doença gerada por ele, identificado pela OMS como Covid19. A intenção de, mais do que republicá-lo e atualizá-lo, é aproveitar o sentido dado a essa frase por Marx e depois tornada título de um livro por Marshall Berman, que representa a maneira como as coisas não são definitivas e estão sujeitas a transformações permanentemente. As crises, mesmo que sendo de origens diferente, mas que impactam as estruturas econômicas e sociais, e o nosso estilo de vida, impõem mudanças inevitáveis e fazem jogar por terras certezas e convicções, e, principalmente, as negações sobre o que é real, concreto e se transmuta, dialeticamente, seguindo a dinâmica da vida, em seu sentido geral.
Após essas crises, e dependendo da sua dimensão, tudo passa a seguir em um rumo distinto, diferente, alheio aos desejos dos que se julgam responsáveis pelos destinos do mundo, sustentados por riqueza e o Poder que advém daí. Deus, qualquer que seja Ele de quaisquer religião, não consegue impedir isso, e também não é capaz de conter essas mudanças, ou de nos fazer entender suas origens e para onde seguiremos, porque ele é a representação que fazemos de nós mesmos com poderes que idealizamos para nos salvar de nossos próprios erros. Mas há os incautos, que se mantém na ignorância, e se apegam às crenças para além da realidade terrena, e do que a ciência pode nos ensinar, se escondem em um mundo fictício, irreal, onde a ignorância não os permite compreender a dimensão do que está acontecendo.
Voltemos um pouco no tempo, quando se iniciava a velocidade das transformações que impunham ao mundo certezas alimentadas pela força da ideologia neoliberal e do poder da comunicação em uma escala mundial. O advento da globalização, expressão usada para se opor ao controle que alguns Estados Nacionais faziam à defesa de suas riquezas, mas cujo objetivo era acelerar a disseminação da ganância e usura capitalista por todo o mundo, e, principalmente em territórios cujas fronteiras eram até então difíceis de serem exploradas, procurou derrubar os valores de um mundo movido pela defesa do estado do bem estar social, e com a preocupação em conter desigualdades cruéis, internas e entre nações. Junto com isso, velhos valores foram tidos como ultrapassados, e novas crenças no poder do dinheiro, do neopentecostalismo individualista e da afirmação da ganância como algo bom e produtivo, terminou por impor nas mentes das pessoas uma realidade absolutamente distante de seus mundos, mas aceita pela força da ideologia e do novo mantra que dizia ser o capitalismo a última etapa da história humana. O mundo saiu da modernidade para a pós-modernidade. E esta durou menos que o instante em que um traque explode.
E, embora as forças reacionárias tentem atingir os estudos das ciências humanas, é fundamental nos aventurarmos pela história e pela filosofia, procurando fazer uma análise das mudanças pelas quais passou a sociedade moderna. “Pós-pós-moderna”, diriam alguns. Essa onda do pós, que pautou as discussões filosóficas na última década do século XX, felizmente foi-se junto com os vários tsunamis que varreram muitos lugares, inclusive aquelas duas torres chamadas de “World Trade Center”. Ou após os “subprimes” nos Estados Unidos transformarem-se em poeiras e ter jogado a economia capitalista em uma das maiores crises de sua história, perdendo apenas para o “Crash” da bolsa de Nova Iorque em 1929. Pós-alguma coisa, só no sentido figurativo.
Então, o que virou o mundo nestas duas décadas do século XXI? Bom, seria muita pretensão querer dar resposta a isso, até porque precisaríamos de muitas respostas e creio ser difícil nos aventurarmos em tamanha complexidade. Podemos dar palpites, isso podemos fazer. Mas, vejam, falamos antes em “ciências humanas”. Portanto, dar palpites, estar bem informado, não necessariamente expressa um conhecimento científico, e isso é importante termos bem claro.
O mundo das comunicações fáceis difundiu em volta do planeta várias teorias e criou vários expertises nos mais diversificados assuntos. As comunidades virtuais, chamadas redes sociais, espalharam pelo globo uma multidão de experts em entender da realidade social e geopolítica. Alimentados por meios de comunicação que replicavam análises que interessavam às grandes corporações, e aos poderes hegemônicos. As redes sociais são instrumentos de divulgação de idéias e opiniões, não podem ser convertidas em objetos responsáveis pela construção de conceitos, filosofias, teorias etc. Mas foram fundamentais para difundir esses novos valores, advindos com esse mundo “globalizado” e de idéias neoliberalizantes, conservadoras, que procuravam justificar as desigualdades sociais como decorrentes da luta meritocrática ou pelo tamanho da fé. Por isso elas foram se constituindo em importantes instrumentos de difusão acelerada dessas ideias que se libertaram da “Caixa de Pandora” com o fim da pós-modernidade (ou o que se dizia ser isso) e viraram o mundo de ponta-cabeça nas duas últimas décadas. Junto a isso, as lutas fragmentárias esgrimidas pelas esquerdas, perdidas em um mundo bipolar, que muitas vezes fugiam ao seu entendimento, pelo deslumbramento das técnicas e da velocidade das transformações. Melhor então do que a luta geral, antissistema, foi constituir lutas fragmentadas, onde cada grupo social descriminado lutava para se inserir na mesma lógica que as tornaram “minorias”. Uma situação contraditória, mas posta diante de uma encruzilhada, porque essa luta tornava-se necessária. No entanto, ela não podia estar descolada da luta mais geral, pela transformação sistêmica e uma alteração radical na sociedade.

UM MUNDO EM CRISE

É difícil afirmar qual o momento em que uma crise de grandes proporções não tenha afetado o mundo. Melhor seria dizer que nos dois últimos séculos ele está permanentemente em crise, com picos de agravamento em ação cíclica. Primeiro é bom lembrar que o sentido desta palavra vai mudando ao longo da história humana, sendo que etimologicamente, originando-se do grego Krinein ou krisis, tinha o sentido de “julgar, avaliar, decidir, separar”, transmutando-se por todo esse tempo, até ser usado na época moderna pela medicina, passando a representar um momento decisivo de uma situação de doença grave entre a cura e a morte (cf. dicionário Houaiss da Lingua Portuguesa).
Na abordagem econômica essa palavra ganha a conotação de um sentido semelhante, demonstrando o auge de contradições que impõe uma “enfermidade” em uma formação econômico-social, forçando mudanças substanciais e até mesmo substituição de formas de produção. Segue-se, como decorrência, as alterações dos valores que são construídos sobre os pilares das estruturas econômicas, a substituição de hábitos, costumes, tradições. A cultura, enfim, transforma-se fazendo surgir novos elementos que darão à sociedade uma nova feição, acompanhando, sempre, a forma como está estruturada as suas bases, seu jeito de produzir. E outras idéias, impostas pelas novas classes dominantes, substituirão as antigas no controle ideológico da sociedade.
Nossa percepção de mudanças acompanha as situações peculiares, particulares. Observamos o nosso redor, aquilo que nos diz respeito especificamente, o dimensionamos à totalidade, e identificamos no cotidiano elementos que gradativamente vão substituindo comportamentos antigos. Quando novas atitudes passam a se impor – às vezes de forma imperceptível – é um sinal de que os valores existentes até então enfraqueceram-se. Isso quase sempre acontece quando, pelas formas econômicas, os relacionamentos vão se deteriorando e forçando as mudanças.
O período em que os antigos costumes começam a se chocar com essas novidades que vêem surgindo, acompanhando os estremecimentos na base econômica, passou a ser denominado como crítico, ou de crises na sociedade. As forças do novo quase sempre se impõem, mas não antes de criar a sensação de que estamos em meio a um caos. A História irá nos mostrar que esse período é na verdade uma transição entre o velho e o novo, alterando estruturas sociais e formulando novos valores culturais.
Nesse aspecto uma importante referência é a produção intelectual de Milton Santos, falecido em 2001. Esse intelectual baiano, doutor em Geografia, e premiado internacionalmente, falava frequentemente que estamos vivendo uma época de transição, naquilo que ele caracterizou como período técnico-científico-informacional. E acrescentava, que os que vivem em meio à essas transformações não conseguem perceber que estão em meio à uma transição sistêmica, que é longa e traz consigo mudanças superestruturais. As idéias, a cultura, vão sendo pouco a pouco afetadas por essas transformações e geram um conflito, um caos, que representa exatamente o início da crise que definirá os novos rumos da sociedade. Isso sempre se dá localizadamente, depois se expandindo para outros lugares, até atingir praticamente toda a humanidade.

ALÉM DO BEM E DO MAL

“Nesses pontos limiares da história exibem-se – justapostos quando não emaranhados um no outro – uma espécie de tempo tropical de rivalidade e desenvolvimento, magnífico, multiforme, crescendo e lutando como uma floresta selvagem, e, de outro lado, um poderoso impulso de destruição e autodestruição, resultante de egoísmos violentamente opostos, que explodem e batalham por sol e luz, incapazes de encontrar qualquer limitação, qualquer empecilho, qualquer consideração dentro da moralidade ao seu dispor”. Isso é Nietzsche (1882), citado por Marshall Berman, no livro do qual se originou o título deste texto (embora a frase seja originalmente de Marx). E a discussão que o motivou, e da qual Berman procura analisar, é a respeito das transformações que aconteciam no século XIX e a crise que possibilitou o advento da modernidade burguesa.
As relações de produção capitalista já tinham se iniciado alguns séculos antes, e explodia na sociedade européia as mudanças culturais que precisavam se impor, acompanhando as transformações econômicas. O choque entre valores antagônicos, de uma época que se desfazia e de outra que despontava. O velho e carcomido pensamento medieval se via sob um fogo cruzado das idéias burguesas que se impunha e já do seu contrário, as teorias socialistas que refutavam a burguesia ainda no processo de consolidação de seu poder político.
Já naquela época vamos encontrar situações parecidas com as que vivenciamos nos dias atuais, compreendendo bem, para não cairmos no anacronismo, que estamos falando de momentos bem distintos da história da humanidade. Contudo, as características pertinentes a uma crise de choques de contradições geradas por mudanças sócio-econômicas, são bastante parecidas. E segue-se mais uma citação de Berman, extraída da obra de Nietzsche:
“Nada a não ser novos ‘porquês’, nenhuma fórmula comunitária; um novo conluio de incompreensão e desrespeito mútuo; decadência, vício, e os mais superiores desejos atracados uns aos outros, de forma horrenda, o gênio da raça jorrando solto sobre a cornucópia do bem e do mal; uma fatídica simultaneidade de primavera e outono”.
Impactava-se, assim, numa época de espetaculares transformações, de espírito revolucionário, um rico choque de contradições, mas também de esfumaçamento de certezas que se chocam e colidem com novidades que ainda não estavam definitivamente provadas. Em meio a uma dialética incontrolável, a meu ver transparecendo o óbvio, explodiam ódios, rancores, expectativas, anarquia, luta de classes... a modernidade despontava entremeada com a esperança de superação de um horror que ficava para trás, e de desconfiança pelo que poderia repetir, diante de um vazio de proposições fúteis e individualistas.

MAIS DO MESMO

Vivemos agora algo parecido. Sem desconsiderarmos o fato de estarmos em uma época completamente distinta, mais de um século depois do advento da modernidade, continuamos nos deparando com situações parecidas. Talvez com uma novidade, analisando-se um pouco superficialmente as duas épocas. É provável que mais do que nunca em uma época se ignore tanto a História (assim como as ciências de uma maneira geral) como agora. Digo a História como processo, não esse fragmento de fatos estudados isoladamente, como se as coisas acontecessem desconectadas e fosse possível analisar casos do cotidiano sem a compreensão de suas origens e de como as contradições forçam as mudanças.
A geração que inicia o século XXI na adolescência, e acredito pela maneira como aprendem as coisas, imaginam estarem vivendo em um mundo que começou agora. Desconhecem todas as contradições que nos movem, erguem palavras de ordem completamente anacrônicas, acreditam piamente que os problemas do mundo é fruto do conflito entre o bem e o mal, e assumem defesa de causas conservadoras como se as mesmas fossem revolucionárias. Isso foi impulsionado ideologicamente pelos meios de comunicação, e adequados pelas novas tecnologias que nos faziam sucumbir aos espetáculos da nova onda cibernética que os tiravam do mundo real e os fixavam na virtualidade da matrix.
Como a incorporarem, mesmo que ingenuamente, o discurso neopentecostal, tem o olhar fixado no futuro, desprendidos do presente, e na perspectiva de alcançarem conquistas por reivindicações singelas, aparentemente radicais. São elementos que compõem a própria maneira como o sistema se retroalimenta. Drogas, marginalidade, alienação, apoliticismo (que não necessariamente é alienação), religiosidade, obsessiva vontade de enriquecer a qualquer custo, preconceito, liberalismo sexual, frustrações com o fracasso... tudo são questões que mantém o sistema seguindo em sua lógica normal. E convivendo com isso há mais de um século. Mas mudando no formato e adequando-se por esse novo meio técnico-científico-informacional.
A aparente ebulição da sociedade, expressa de várias formas e potencializadas pelas redes sociais, não carrega em si nada de novo, a não ser no uso dessas novas tecnologias e do cyberworld. Mas, ao contrário da época em que a modernidade desponta, compreendendo isso no sentido filosófico do termo, nos dias atuais há uma completa indiferença em relação à existência de classes sociais distintas, e à luta que é travada entre elas. No momento silenciosa, mas com o aprofundamento das crises, a exemplo do que acontece em alguns países árabes e europeus, e na observância das soluções que se apresentam para elas, vai claramente sendo definido os campos em disputas. As medidas radicais tomadas para superar os problemas e impedir o agravamento dessas crises, são sempre para proteger os meios de produção, a riqueza dos grandes investidores e o patrimônio real ou virtual (porque o dinheiro passou a se fundamentar na opacidade) dos grandes banqueiros e especuladores.
Enquanto isso se marcha contra tudo, menos contra aquilo que é, em essência, responsável pelas condições que tornam a sociedade insegura e refém de seus medos e individualidades. Muito embora todo um aparato repressivo seja mobilizado para conter isso, por uma necessidade de não se perder o controle do Poder bem como para se impor a autoridade, não são essas as formas de lutas, nem o conteúdo que as movem, que irão fazer com que a burguesia perca o seu sono.
O que dizia Marx, no século XIX, mas com um conteúdo extremamente atual, e irônico em relação às lutas e combates ideológicos travados pela burguesia, se aplica a movimentos  que se apresentam com idéias avançadas, mas de conteúdos conservadores, que nos dias atuais imaginam travarem uma luta revolucionária:
“Todas as relações fixas, enrijecidas, com seu travo de antiguidade e veneráveis preconceitos e opiniões, foram banidas; todas as novas relações se tornam antiquadas antes de chegarem a ossificar. Tudo o que é sólido desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado, e os homens finalmente são levados a enfrentar (...) as verdadeiras condições de suas vidas e suas relações com seus companheiros humanos” (Manifesto Comunista, 1848. Citado por Berman, Marshal. Tudo que é sólido desmancha no ar – A aventura da Modernidade. Cia das Letras, 1993, p. 20).

O CORONA VÍRUS E A NOVA CRISE NO CAPITALISMO

O desafio é o que fazer agora, numa circunstância de agravamento da crise capitalista por um vírus de uma letalidade relativa, mas de uma aceleração de contágio aceleradíssima, o que tem feito com que praticamente toda a estrutura do sistema produtivo capitalista esteja travada? A ganância, bem descrita no filme “Wall Street, poder e cobiça”, no discurso de Gordon Greco a acionistas de uma empresa que ele acabara de adquirir para fracioná-la e vendê-la, na lógica marcante que se tornou uma marca dessas transformações no capitalismo neste século, independente da destruição de milhares de empregos, bem como a maneira como se passou a ganhar dinheiro no cassino global das bolsas de valores, interligadas em tempo real, tornou-se a face real e perversa de uma época marcada pela aceleração contemporânea.
O novo corona vírus forçou um cavalo de pau no capitalismo. Isso é como se uma peça importante da engrenagem tivesse se soltado de uma Ferrari, ou de uma Mercedes, a 300 quilômetros por hora numa corrida de Fórmula 1. E a seguir essa máquina tivesse ficado presa na “zebra” da pista, impossibilitada de se deslocar sozinha, senão com um impulsionamento externo. Apesar de uma comparação meio grosseira, o que tento apontar é a absoluta impossibilidade de o capitalismo conseguir se livrar dessa crise sem a utilização do principal mecanismo que o tornou um sistema mundial: o Estado. Demonizado em época de neoliberalismo, e tornado mínimo pela destruição de seus mecanismos de aparato social, constituído por décadas pós-segunda guerra como necessidade para disciplinar a concentração de riqueza e o aumento das desigualdades sociais.
Apesar disso, da extrema necessidade de intervenção do Estado para evitar falências em larga escala de um considerável número de empresas, a demissão em massa de trabalhadores e trabalhadoras e atendimento às camadas que se situam abaixo da linha de pobreza, a recessão, e quiçá uma forte depressão econômica que afetaria todo o mundo é um forte possibilidade. Assim, se confirma o que iniciamos colocando nesse artigo, das mudanças que necessariamente acontecem em tempos de crise. Confirmando a máxima no título desse artigo, na exploração já dita de uma frase extraída do Manifesto Comunista, elaborado por Karl Marx e Friederich Engels, a solidez do capitalismo neoliberal se esfumaça e ameaça valores consideráveis em sua lógica perversa, o individualismo, a usura, o egoísmo... E fortalece, pelas próprias consequências do que virá após o combate a esse vírus, a necessidade de se construir novas relações, fundadas na solidariedade, cooperação e sensibilidade social. Caso contrário as sociedades se depararão com revoltas sociais em larga escala, tensões violentas com depredações e saques, por quem necessita viver e não medirão esforços para buscar seus direitos.
O que vimos nos últimos anos, de ascensão de governos insensíveis socialmente, muitos escorados em comportamentos estúpidos e de viés autoritários, de extrema-direita, como no caso brasileiro, certamente não seguirá adiante nas próximas escolhas eleitorais. Essa crise perversa será um caminho para que nos livremos da perversão de governos inconsequentes, com nítidos desprezos pela vida humana e somente preocupados em servir ao capital, à grande burguesia urbana e rural, e as corporações industriais, comerciais e/ou financeiras.
Apesar de tudo isso, e de termos que nos prepararmos até mesmo psicologicamente para as mudanças que virão dessa pandemia, nos resta neste momento cuidarmos da vida ameaçada pela celeridade do contágio desse vírus. O isolamento é uma necessidade, mas certamente nos despertaremos dessa quarentena cientes de que é preciso mudar o protagonismo nas sociedades. Tirarmos das mãos dos ricos, insensíveis com a miséria e desigualdades sociais, e transferirmos para comunidades onde as pessoas possam agir em comum união, respeitando-se mutuamente, e confiando na afirmação do solidarismo e do cooperativismo com forma de nos unir e nos prepararmos para tempos muito difíceis, com participação efetiva de um estado que vise o bem estar social. A ganância, usura e o individualismo devem ser combatidos, e que os valores perversos neoliberais se desmanchem esfumaçados pela força da resistência do povo e da afirmação da humanidade.


(*) Publicado originalmente em 2011, atualizado e ampliado em 28 de março de 2020, segunda semana de quarentena em função da pandemia do Covid19.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

O MUNDO NÃO É PLANO. DESCONSTRUINDO A PÓS-MODERNIDADE

É instigante falar do “tempo” e do “espaço”, e é necessário, para compreendermos as transformações e o processo histórico. Trata-se de categorias que se interligam na produção do saber constituindo tanto a cultura, quanto o território, e é impossível separá-las, pois são dependentes uma da outra, conforme bem representado numa frase de Elisée Reclus (s.d, p. 108-114): “Se a História começa primeiro por ser ‘toda geografia’, como disse Michelet, a geografia se torna gradualmente ‘história’ pela relação contínua do homem sobre o homem”. Essas categorias representam o caminho pelo qual necessariamente temos de percorrer para compreender toda a nossa existência, seja no passado, seja no presente. Assim, podem-se compreender a nossa trajetória e a relação com a natureza, para definição do caminho futuro da humanidade.
O ESPAÇO E A SOMA DOS TEMPOS
Vivemos em um mundo de rápidas transformações. A abordagem dialética que fazemos da vida nos mostra isso. O impulso que muda, incessantemente, natureza e sociedade é dado por contradições, pelo antagonismo, pelo estranho “equilíbrio” ecológico que força um choque entre contrários para manter e preservar a vida, mas que nas relações sociais pode levar a uma inevitável destruição, principalmente por sermos, nós, humanos, os maiores predadores da natureza. E o que é pior: predadores de nossa própria espécie.
Como compreender, à luz da história e da geografia, o mundo contemporâneo, cujas características principais são a velocidade, a rapidez e a profusão de objetos, o intensivo uso da técnica, de novas espacialidades, de um crescente processo de urbanização e da mercantilização, não somente dos objetos, mas quase que da totalidade das relações humanas. O espaço da cidade se fragmenta em uma multiplicidade de territórios, e novas territorialidades definem a maneira como o campo se enquadra nos interesses sistêmicos, na relação centro-periferia do mundo capitalista.
Espaço, urbanização e território. Através dessas categorias e processos buscamos na geografia o entendimento de como vamos nos adaptando e transformando a paisagem com o uso da técnica e de novas tecnologias. Tecnologias, que, vale dizer, encontram-se à disposição dos próprios geógrafos, visando buscar informações geoprocessadas mediante mecanismos sofisticados, uso de satélites capazes de monitorar todos os cantos do planeta. Nos últimos anos com o uso crescente de VANT (Veículo Aéreo Não Tripulado), mais conhecido por sua origem na guerra com o nome de “drones”. Isso faz lembrar Milton Santos (1996), quando afirma que já não podemos mais falar de natureza natural, na medida em que o ecúmeno se torna possível de ser conhecido e de estar sujeito à ação do homem por mais distante que seja o lugar.
Mas ao definirmos o espaço, pode-se precisar a época de que estamos falando? É possível destacar espacialidade, territorialidades – mesmo a paisagem que se apresenta para nós como uma somatória de tempos passados –, sem considerar uma relação temporal em todo o processo de mudança que se desenrola em nossa volta? Importante lembrar que a vida, de uma forma geral – e a nossa, em particular – não é estática. Tudo, aliás, é movimento, é transformação, e o que possibilita isso é o tempo.
Em cada segundo de nossas vidas, encontramos registradas ações que promovem as mudanças. E somente a nossa memória é capaz de fazer isso. É a nossa memória que possibilita compor a história e também registrar cada momento através do estudo e da pesquisa científica.
Vivemos, em verdade, incessantemente a história; por isso pode-se afirmar que não existe o presente, ou que ele é representado somente em frações de segundos, que só podem ser registrados estaticamente pela fotografia. Porque no instante seguinte, ele já é passado.
Isso é brilhantemente ilustrado na canção “Como uma onda” (Motta, 2000), interpretada por Lulu Santos:
Nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia/ tudo passa, tudo sempre passará,/a vida vem em ondas, como o mar,/ num indo e vindo infinito.
Tudo que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo/ Tudo muda o tempo todo no mundo/ Não adianta fugir, nem mentir pra si mesmo agora/ Há tanta vida lá fora, aqui dentro sempre/ como uma onda no mar/ Como uma onda no mar...
O tempo foi definido arbitrariamente quando se trata de contarmos nossa história. Atendeu a diversos fatores, principalmente de origem religiosa, estabelecendo assim uma diferenciação na temporalidade dos fatos históricos do ocidente fixados a partir do calendário cristão (ou Juliano) estabelecido na Idade Média, do calendário judaico, do muçulmano, do chinês etc. Impõe-se o primeiro como referencial em decorrência do poderio europeu que se espalhou pelo mundo no processo de colonização, durante o período absolutista, até chegarmos aos dias atuais, em que estamos conectados com todo o mundo em tempo real, como consequência dos impressionantes progressos dos meios de comunicação.
Fora o tempo que conta a história da humanidade, deparamo-nos ainda com o tempo geológico, que permite entender o processo de formação da Terra, ou do tempo estudado por meio da física, que apresenta o universo em formação e se explica em anos-luz, para dizer da distância entre os pontos mais distantes e nas mais variadas galáxias.
É claro que tudo isso significa nada mais do que tentarmos entender a vida, as nossas origens e todo o processo de transformação que nos leva a um ponto de interrogação crucial – a morte –, que, embora se apresente como o fim de tudo, pode significar também um começo, como num devir hegeliano.
Contudo, o tempo nada mais é do que o acontecer sucessivo, simultâneo, imediato, da espacialidade, que representa o movimento e a transmutação do/no espaço. A mudança, o efêmero, possibilita compreendermos porque a vida é uma constante renovação do ir-e-vir, do começo e do fim, do novo e do velho.
Novas possibilidades estão sendo geradas a partir desse entrelaçamento criativo, possibilidades de um materialismo simultaneamente histórico e geográfico; de uma dialética tríplice de espaço, tempo e ser social; e de uma reteorização transformadora das relações entre a história, a geografia e a modernidade. (Soja, 1993, p. 19):
Mas é preciso distinguir o tempo preciso do acontecer, dos eventos que se realizam num determinado espaço e vermos num possível atavismo a sucessão de acontecimentos que se interligam e carregam características e marcas do que ficou. Que se entrelaçam e explicam a simultaneidade da vida embora nem sempre possível de discernimento.
Avançamos um pouco pela interpretação feita por Santos (1996, p. 127):
O tempo como sucessão, o chamado tempo histórico, foi durante muito tempo considerado como uma ase do estudo geográfico. Pode-se, todavia, perguntar se é assim mesmo, ou se, ao contrário, o estudo geográfico não é muito mais essa outra forma de ver o tempo como simultaneidade: pois não há nenhum espaço em que o uso do tempo seja idêntico para todos os homens, empresas e instituições. Pensamos que a simultaneidade das diversas temporalidades sobre um pedaço da crosta da Terra é que se constitui o domínio propriamente dito da Geografia. Poderíamos mesmo dizer, com certa ênfase, que o tempo como sucessão é abstrato e o tempo como simultaneidade é o tempo concreto, já que é o tempo da vida de todos. O espaço é que reúne a todos, com suas múltiplas possibilidades, que são possibilidades diferentes de uso do espaço (do território) relacionadas com possibilidades diferentes de uso do tempo.
Saindo um pouco da representação conceitual e da relação entre essas duas categorias que se interligam, vamos ao encontro de outra expressão, para definir o discurso dos que pretendiam que o final do século XX tenha sido um momento em que a humanidade teria transitado da modernidade para a pós-modernidade.
DESCONSTRUINDO A MODERNIDADE
É preciso primeiro termos claro que o sentido de modernidade e pós-modernidade tem origem diferente dos significados que lhes são imputados. Modernismo teria origem nicaraguense, viria com a criação de uma vertente que buscava livrar-se da influência cultural espanhola (século XIX). O pós-modernismo seria uma compreensão da existência de uma corrente conservadora no movimento modernista. Essas expressões, a partir de então, passaram a ser utilizadas, em vários momentos da história, para definir as mudanças. Seja para se referir ao industrialismo crescente do século XIX, ou às guerras mundiais, à revolução Meiji no Japão, à revolução soviética e por aí afora, identificam cada momento expressivo da História como início ou fim da modernidade, e este em relação à pós-modernidade.
A justificativa para tecer aqui tais considerações, brilhantemente feitas no trabalho do historiador britânico Anderson (1999), está no fato de sermos chamados a nos referir à “desconstrução” do mundo. Ou, poderíamos dizer, ao “fim do território”, “desterritorialização”, geograficamente falando. São expressões que, “carregadas de ideologias”, representaram uma nova maneira de buscar entender o mundo a partir das intensas transformações que caracterizaram as décadas finais do século XX: da modernidade à pós-modernidade.
Contudo, para compreendermos mais amplamente o significado de Modernidade, precisamos ir em direção à representação de todo um período marcado pelos ideais renascentistas, mas principalmente iluministas, rousseaunianos ou cartesianos, responsáveis por fundamentação humanista e materialista, necessária à condução de uma nova época que se opunha fortemente às trevas medievais, cerceadoras da liberdade e inibidora do conhecimento, principalmente no tocante às ciências.
Primeiro a revolução Francesa, que em nome da liberdade simboliza o início da era moderna. Seus ideais, embora revolucionários, distanciaram-se do povo, para quem o discurso era feito, mas significaram o início de uma época que virá marcada pela intensa transformação das forças produtivas. Depois a Revolução Russa, que apontando para o fracasso da primeira e atingindo duramente a burguesia descortina uma nova época sob o comando do proletariado e caminhando para uma revolução mundial. Embora se diferenciando radicalmente na questão de classe, em essência, os objetivos das duas não são contraditórios.
O fim da modernidade, então, será definido pelo que vai ser considerado de fracasso desses dois projetos calcados nos ideais iluministas. As três últimas década do século XX passaram então a ser marcadas por uma mudança considerável na concepção que se tinha de sociedade e no papel que desempenhavam as instituições que surgiram daquelas revoluções e visavam garantir condições de vidas dignas para a maioria da população. Isso tanto pelo socialismo, com uma concepção de poder e de controle de Estado marcada pelo planejamento e por investimento em setores que privilegiavam as necessidades do povo, quanto pelo capitalismo, no período em que vigorou o welfare state (estado de bem-estar social). Esse último significou a estabilidade do sistema e reduziu as diferenças sociais na maioria dos países europeus e Estados Unidos da América.
A nova era que se descortinou veio marcada por um crescente egoísmo, sob uma lógica que vê na riqueza fácil, mas mediante uma exploração desenfreada, a condição de se obter sucesso na vida e se atingir o progresso almejado, não mais dentro de objetivos coletivos ou sociais, mas claramente individualistas. Não se pensava mais prioritariamente na construção de valores que pugnassem pela defesa dos interesses humanísticos. Fortalecia-se a lógica de que a busca pelo sucesso pessoal seria a garantia da solução para uma época em crise em que a hegemonia do poder, do liberalismo econômico, era contida pelo discurso socializante.
A década de 1980 representou uma época de crise da economia de mercado que afetou gravemente os países socialistas com seus planejamentos estatais, mas com fraco desempenho na produção de mercadorias que pudessem disputar mercados. Mercadorias obsoletas circulando por um mercado em crise, portanto fortemente disputado, em que contam mais a qualidade do produto e o custo que se racionaliza com um forte investimento em tecnologia, o que equivale a preços mais baixos, principalmente se a demanda for grande. Por isso, dentre outras causas, o socialismo dito “real” estremeceu, entrou em crise e caiu quase que paralelamente à queda do que se tornara símbolo para o Ocidente da chamada “economia de comando” (KURZ, 1992) e dos ideais socialistas: o muro de Berlim.
Com a crise do socialismo abriu-se caminho para se atingir o welfare state, pondo fim a uma era marcada pelos ideais iluministas. Assim os setores conservadores impuseram uma nova política, a neoliberal, atacando fortemente os valores incorporados pelas revoluções do século XIX e do socialismo, e sinalizam para um novo tempo que virá marcado, segundo Santos (1984, p. 33), pela racionalidade, fluidez e competitividade.
Nesses espaços da RACIONALIDADE, o mercado é tornado tirânico e o Estado tende a ser impotente. Tudo é disposto para que os fluxos hegemônicos corram livremente, destruindo e subordinando os demais fluxos hegemônicos corram livremente, destruindo e subordinando os demais fluxos. Por isso, também o Estado deve ser enfraquecido para deixar campo livre (e desimpedido) à ação soberana do mercado.
(...)
A exigência da FLUIDEZ manda baixar fronteiras, melhorar os transportes e as comunicações, eliminar os obstáculos à circulação do dinheiro (ainda que a das mercadorias possa ficar para depois), suprimir as rugosidades hostis ao galope do capital hegemônico.
A FLUIDEZ é a condição, mas a ação hegemônica se baseia na COMPETITIVIDADE.
Nos tempos presentes a COMPETITIVIDADE toma como discurso o lugar que, no início do século, ocupava o Progresso e, no após-guerra, o Desenvolvimento.
A competitividade é um outro nome para a guerra, desta vez uma guerra planetária, conduzida, na prática, pelas multinacionais, as chancelarias, a burocracia internacional, e com o apoio, às vezes ostensivos, de intelectuais de dentro e de fora da Universidade.
Caminho aberto para as mudanças, entramos numa época verdadeiramente global, com um forte impulso em áreas que levariam a uma mudança substancial nas relações sociais, na reconfiguração geopolítica do mundo, nos valores éticos, morais e culturais.
PÓS-MODERNIDADE: FIM DE TUDO E COMEÇO DE NADA
Passamos a presenciar no fim do século XX uma transformação socioespacial profundamente acelerada, se compararmos a outros tempos. Uma época em que a aceleração contemporânea dos fortes, ricos e  tecnologicamente bem desenvolvidos contrasta com o tempo lento dos fracos, pobres e deserdados sociais. A utopia coletivista foi substituída pela corrida ao sucesso individual, cronometrada pelos índices de qualidades aferidos pelo mercado. Os números, as estatísticas, as retas e curvas dos gráficos que apontam os caminhos da riqueza sintetizam a frieza dos relacionamentos humanos. As relações mecânicas, que entronizam os incluídos neste “admirável mundo novo”, podem servir como exemplo para explicar as enormes contradições acerca do que ainda consideramos viver societariamente, e se ainda é possível chamar civilização, na acepção dada ao termo por Braudel (1989), as condições indignas de vida daqueles que não passam de um traço nesses índices e estão excluídos dos alcances das maravilhas tecnológicas do mundo “pós-moderno”.
A dialética nos ensina que a contradição é o elemento principal do processo histórico, quer das transformações que ocorrem quer nas paisagens, quer da própria funcionalidade do espaço, nas novas espacialidades que se definem no compasso do tempo, como também nas mudanças sociais, nas relações que vão se estabelecendo entre os indivíduos e que possibilitam a eles ultrapassarem limites. Negar-se e afirmar-se, para depois voltar a negar. O mundo é um verdadeiro laboratório onde as experiências presentes colocam em xeque as verdades do passado e deixam dúvidas cada vez maiores sobre as (in) certezas dos novos tempos e do que virá. O novo e o velho se confundem, e enquanto um demora a surgir o outro teima em não desaparecer. Este é um dilema a ser enfrentado em qualquer transição.
O mundo é um imenso arcabouço de contradições. Mas muitas delas encontram-se submersas, relegadas a uma insignificância desproporcional diante da importância que podem ter nas definições dos rumos que a humanidade pode seguir.
Aparentemente alheios a isso, maravilhados pelos avanços tecnológicos e inebriados pelo discurso que se impõe pelo poder da mídia e pelos interesses dominantes, os indivíduos submetem-se à força de argumentos supérfluos, e veem suas condições sociais pela lógica calvinista. Acreditando piamente na possibilidade de inserção na sociedade de consumo, abdicam de seus direitos como cidadãos para cada vez mais os substituírem pelos diretos de consumidores. Agem conforme imaginava Feuerbach – por isso duramente criticado por Karl Marx – partindo da alienação religiosa e da duplicação do mundo em religioso e terreno. O trabalho que se propõem consiste em dissolver o mundo religioso em seu fundamento terreno, como apregoam “As teses sobre Feuerbach”, publicadas em 1845. Apegam-se assim à ideia e à crença da inserção num mundo hostil e profundamente apartado. Pela ideia acreditam no rompimento das castas, sonham em ser “emergentes” e desconsideram a estratificação social cada vez mais rígida. Não imaginam sequer que todo um desmonte estatal à sua volta empurra-os cada vez mais em direção a um fosso profundo cujas bordas estão cada vez mais distantes.
Nesse mosaico que representa o mundo “pós-moderno” um novo papel foi reservado às cidades. Em um processo de desterritorialização, que nada mais é do que a reterritorialização: “Os territórios sempre comportam dentro de si vetores de desterritorialização e reterritorialização” (HAESBAERT, 2004, p. 127). São elas, as cidades, também exemplos notáveis das contradições dessa nova época. Do caos ao planejamento tanto jurídico (das leis) quanto estrutural; à redenção, enquanto lócus assimilador das transformações tecnológicas, e ao novo caos, caracterizado pelo descompasso entre o arcaico e o moderno, presente em suas formas e em suas paisagens, em seus fluxos e em suas dinâmicas contraditórias; de centro, que consolida o poder dos indivíduos sobre as técnicas e as formas, à artificialização da natureza ao seu interesse, principalmente mercadológico, e de novo ao caos, marcado pelo uso disforme de suas potencialidades, mais a serviço das máquinas do que dos indivíduos; dos traçados arquitetônicos que consideram mais os automóveis do que os pedestres, e da transferência para o urbano da lei das selvas, onde o mais forte sobrevive e resta ao mais fraco apenas se defender ou se esconder.
Assim, seguimos nessa relação tempo-espaço um rumo incerto, mas de uma rapidez impressionante. Construímos máquinas que engole gente, como na visão profética dos tempos modernos de Charles Chaplin, mas que são elas próprias rapidamente substituídas por outras que aceleram ainda mais o processo produtivo. A relação homem-natureza estreita-se perigosamente visto assim pela rapidez com que são esgotados os recursos naturais, para que possa atender à visão produtivista e consumista da sociedade de consumo, estritamente dentro da lógica egoísta do lucro e da ganância que caracteriza o sistema.
Logorama - curta metragem francês
Mas transformação alguma vivida pelo sistema capitalista até então conseguiu ser mais eficaz, do ponto de vista de sua lógica, do que os avanços obtidos, atualmente, com os deslocamentos entre os lugares e a rapidez com que chegam as informações até o mais recôndito lugar do planeta. Velocidade, informação e ciência a serviço do capital: esses são os ingredientes principais dessa nova etapa da humanidade. Mas tudo isso, embora disperso pelo mundo, é mantido sob um rígido controle das grandes corporações financeiras, agora não mais multinacionais, mas transnacionais, concentradoras de lucros exorbitantes e responsáveis pelo aumento do desemprego, embora ganhem isenções fiscais dos estados sob o pretexto de empregabilidade. Mas seus cartéis e oligopólios controlam mercados e destroem os pequenos comércios, como a preparar caminho para uma necrópole de grandes prédios de paredes destruídas e metais enferrujados. O exemplo disso é Detroit, uma cidade falida, que viu sua população de mais de 2 milhões se reduzir a pouco mais de 500 mil habitantes[1]. O símbolo de uma realidade onde as corporações se impuseram, mas os novos tempos marcados pela globalização transferiu riquezas acumuladas virtualmente em um mundo que migrava rapidamente para uma era de tecnologias. Se novas detroits não surgiram (ainda) se deve a absoluta adequação aos novos tempos, às custas da aceitação religiosa das desigualdades sociais, da apartação da sociedade e  na crença fatalista do enriquecimento individual pela fé.
NÃO É UMA CONCLUSÃO
Dessa maneira nos incorporamos a uma nova realidade e a um novo discurso, para os quais surgiriam elaborações teóricas que visariam dar um encaixe final a essa época em transformação. As ideias, os conceitos, os valores e a moral passam a se alterar a fim de atender aos interesses hegemônicos e estabelecer novos parâmetros culturais que condicionariam a sociedade às novas formas de funcionamento do sistema.
A Universidade não ficou imune a isso, conforme atestou Milton Santos, e dela partiram também novas formulações no campo da ciência, do conhecimento e do controle ideológico. Deparamo-nos, assim, com tratados e teses que visavam acomodar essa nova realidade, ao mesmo tempo em que ela própria se enquadraria nos novos padrões mercadológicos produtivistas de tratar o conhecimento e a ciência. Daí o sentido que se tentar dar à história, dos que a veem a partir da pós-modernidade, apontando para a desconstrução do antigo, reinscrevendo e ressituando significações e acontecimentos bem como a fragmentação dela própria. E o sentido que se tenta dar à geografia, aos que apontam a desterritorialização também dentro da lógica de justificar as transformações globalizantes e as imposições do capital.
Nesse tempo de efemeridades, de rapidez não somente nas relações econômicas, mas também nas superficialidades das relações humanas, fica mais fácil compreender o significado da expressão criada por Marx no Manifesto Comunista e que ficou marcada pela titulação de Marshall Bermann (1993) ao seu livro sobre o fim da modernidade:
Todas as relações fixas, enrijecidas, com seu travo de antiguidades e veneráveis preconceitos e opiniões, foram banidas; todas as novas relações se tornam antiquadas antes que cheguem a se ossificar. Tudo que é sólido desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado, e os homens finalmente são levados a enfrentar [...] as verdadeiras condições de suas vidas e suas relações com seus companheiros humanos.
Com isso não queremos dizer que tudo que surge com a chamada “pós-modernidade” deva ir para a lata do lixo. Devemos, no entanto, observar atentamente como nesse novo tempo, de um totalitarismo econômico disfarçado de liberdade e democracia, impõe verdades tidas como absolutas, as quais têm transformado o mundo num templo em que reina o fundamentalismo, a violência e a intolerância.
No entanto, é absolutamente falso imaginar que a globalização torna o “mundo plano”, conforme expôs Thomas Friedman em seu livro que leva esse título, pela maneira como os negócios crescem e se acelera por meio das facilidades de transporte e de comunicação. Pois o que se viu nessas duas últimas décadas, em que se propagou a globalização como a vitória definitiva do capitalismo e o fim da história, foi o poder centralizado pelas poucas grandes corporações e por uma quantidade ínfima de grandes bilionários, menos de uma centena, que controla metade da riqueza mundial. No plano geopolítico, a disputa acirrada pela manutenção da hegemonia, pelos Estados Unidos e seus aliados, impôs ao mundo uma fragmentação e uma violência desmedida, acentuando guerras, conflitos regionais, migração em massa, crises políticas e o menosprezo à democracia. O mundo continua sendo um ambiente dominado por pequenos grupos que fazem de tudo para não perderem o controle da riqueza, mesmo que isso signifique uma ampliação absurda das desigualdades sociais. Não há planura, no mundo, o que há são ondulações perigosas, que tiram do prumo a sociedade sempre, pela onda cíclica que afeta permanentemente o sistema.

REFERÊNCIAS:
ANDERSON, Perry. As origens da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 1999.
BERMANN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. A aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
BRAUDEL, Fernand. Gramática das civilizações. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
HAESBAERT, Rogério. O mito da desterritorialização. Rio de Janeiro: Bertran Brasil, 2004.
KURZ, Robert. O colapso da modernização. São Paulo: Paz e Terra, 1992.
MOTTA, Nelson. Como uma onda: In: SANTOS, Lulu. Último romântico. São Paulo: Warner Music Brasil, 2000. CD ASSIM 022925515728.
RECLUS, Élisee. L’homme et La terre. Tomo I. Trad.: Maria Cecília França. Paris: Universelle, [s.d.]. p. 108-114.
SANTOS, Milton. Técnica, espaço e tempo. São Paulo: Hucitec, 1984.
______________. A natureza do espaço. São Paulo: Hucitec, 1996.
SOJA, Edward. Geografia pós-modernas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993.

(*) A versão original deste artigo foi publicada no livro TEMAS GEOGRÁFICOS, editado pelo Programa de Educação Tutorial da Geografia (PET-GEO) no ano de 2008. Fiz alterações e adequações para que ele pudesse contemplar ainda hoje a realidade econômica e social que vivemos, no Brasil e no mundo.



[1] http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/02/150206_detroit_ressurreicao_lgb

sábado, 9 de julho de 2011

TUDO QUE É SÓLIDO DESMANCHA NO AR

Resolvi nesta postagem me aventurar pela filosofia, tentando fazer uma análise da sociedade atual. “Pós-pós-moderna”, diriam alguns. Essa onda do pós, que pautou as discussões filosóficas na última década do século XX, felizmente foi-se junto com os vários tsunamis que varreram muitos lugares, inclusive aquelas duas torres chamadas de “World Trade Center”. Ou após os “subprimes” nos Estados Unidos transformarem-se em poeiras e ter jogado a economia capitalista em uma das maiores crises de sua história, perdendo apenas para o “Crash” da bolsa de Nova Iorque em 1929. Pós-alguma coisa, só no sentido figurativo.
Então, o que virou o mundo nesta década inicial do século XXI? Bom, seria muita pretensão querer dar resposta a isso, até porque precisaríamos de muitas respostas e não me sinto capaz de me aventurar em tamanha complexidade. Posso dar palpites sobre alguma coisa... Bingo! Eis a questão, é sobre isso que quero falar. O mundo das comunicações fáceis difundiu em volta do planeta várias teorias e criou expertises nos mais diversificados assuntos. Eis-me aqui, a dar também os meus palpites.
Mas não estou me referindo às comunidades virtuais, chamadas redes sociais. Repito o que já disse em outros textos, elas são instrumentos de divulgação de idéias e opiniões, não podem ser convertidas em objetos responsáveis pela construção de conceitos, filosofias, teorias etc. As redes sociais apenas as reproduzem. E vão se constituindo por isso em importantes instrumentos de difusão acelerada dessas idéias, as quais pretendo abordar, que se libertaram da “Caixa de Pandora” com o fim da pós-modernidade (ou o que se dizia ser isso) e viraram o mundo de ponta-cabeça nas duas últimas décadas.
UM MUNDO EM CRISE
É difícil afirmar qual o momento em que uma crise de grandes proporções não tenha afetado o mundo. Melhor seria dizer que ele está permanentemente em crise. Primeiro é bom lembrar que o sentido desta palavra vai mudando ao longo da história humana, sendo que etmologicamente, originando-se do grego Krinein ou krisis, tinha o sentido de “julgar, avaliar, decidir, separar”, transmutando-se por todo esse tempo, até ser usado na época moderna pela medicina, passando a representar um momento decisivo de uma situação de doença grave entre a cura e a morte (cf. dicionário Houaiss da Lingua Portuguesa).
Na abordagem econômica essa palavra ganha a conotação de um sentido semelhante, demonstrando o auge de contradições que impõe uma “enfermidade” em uma formação econômico-social, forçando mudanças substanciais e até mesmo substituição de formas de produção. Segue-se, como decorrência, as alterações dos valores que são construídos sobre os pilares das estruturas econômicas, a substituição de hábitos, costumes, tradições. A cultura, enfim, transforma-se fazendo surgir novos elementos que darão à sociedade uma nova feição, acompanhando, sempre, a forma como está estruturada as suas bases, seu jeito de produzir. E outras idéias, impostas pelas novas classes dominantes, substituirão as antigas no controle ideológico da sociedade.
Nossa percepção de mudanças acompanha as situações peculiares, particulares. Observamos o nosso redor, aquilo que nos diz respeito específicamente e o dimensionamos à totalidade, e identificamos no cotidiano elementos que gradativamente vão substituindo comportamentos antigos. Quando novas atitudes passam a se impor – ás vezes de forma imperceptível – é um sinal que os valores existentes até então enfraqueceram-se. Isso quase sempre acontece quando, pelas formas econômicas, os relacionamentos vão se deteriorando e forçando as mudanças.
O período em que os antigos costumes começam a se chocar com essas novidades que vêem surgindo, acompanhando os estremecimentos na base econômica, passou a ser denominado como crítico, ou de crises na sociedade. As forças do novo quase sempre se impõem, mas não antes de criar a sensação que estamos em meio a um caos. A História irá nos mostrar que esse período é na verdade uma transição entre o velho e o novo, alterando estruturas sociais e formulando novos valores culturais.
Sempre tenho como referência Milton Santos, a quem dediquei um de meus últimos post, e ele falava frequentemente que vivemos uma época de transição, naquilo que ele caracterizou como período técnico-científico-informacional. E acrescentava, que os que vivem em meio à essas transformações não conseguem perceber que estão em meio à uma transição sistêmica, que é longa e traz consigo mudanças superestruturais. As idéias, a cultura, vão sendo pouco a pouco afetadas por essas transformações e geram um conflito, um caos, que representa exatamente o início da crise que definirá os novos rumos da sociedade. Isso sempre se dá localizadamente, depois se expandindo para outros lugares, até atingir praticamente toda a humanidade.
ALÉM DO BEM E DO MAL
“Nesses pontos limiares da história exibem-se – justapostos quando não emaranhados um no outro – uma espécie de tempo tropical de rivalidade e desenvolvimento, magnífico, multiforme, crescendo e lutando como uma floresta selvagem, e, e de outro lado, um poderoso impulso de destruição e autodestruição, resultante de egoísmos violentamente opostos, que explodem e batalham por sol e luz, incapazes de encontrar qualquer limitação, qualquer empecilho, qualquer consideração dentro da moralidade ao seu dispor”. Isso é Nietzsche (1882), citado por Marshall Berman, no livro do qual peguei o título deste texto (embora a frase seja originalmente de Marx). E a discussão que o motivou, e da qual Berman procura analisar, é a respeito das transformações que aconteciam no século XIX e a crise que possibilitou o advento da modernidade burguesa.
O capitalismo já se iniciara alguns séculos antes, mas ainda explodia na sociedade européia as mudanças decorrentes de outro tipo de cultura que precisava se impor, acompanhando as transformações econômicas. O choque entre valores antagônicos, de uma época que se desfazia e de outra que despontava. O velho e carcomido pensamento medieval se via sob um fogo cruzado das idéias burguesas que se impunha e já do seu contrário, as teorias socialistas que refutavam a burguesia ainda no processo de consolidação de seu poder político.
Já naquela época vamos encontrar situações parecidas com as que vivenciamos nos dias atuais, compreendendo bem, para não cairmos no anacronismo, que estamos falando de momentos bem distintos da história da humanidade. Contudo, as características pertinentes a uma crise de choques de contradições geradas por mudanças sócio-econômicas, são bastante parecidas. E segue-se mais uma citação extraída da obra de Nietzsche:
“Nada a não ser novos ‘porquês’, nenhuma fórmula comunitária; um novo conluio de incompreensão e desrespeito mútuo; decadência, vício, e os mais superiores desejos atracados uns aos outros, de forma horrenda, o gênio da raça jorrando solto sobre a cornucópia do bem e do mal; uma fatídica simultaneidade de primavera e outono”.
Impactava-se, assim, numa época de espetaculares transformações, de espírito revolucionário, um rico choque de contradições, mas também de esfumeamento de certezas que se chocam e colidem com novidades que ainda não estavam definitivamente provadas. Em meio a uma dialética incontrolável, a meu ver transparecendo o óbvio, explodiam ódios, rancores, expectativas, anarquia, luta de classes... a modernidade despontava entremeada com a esperança de superação de um horror que ficava para trás, e de desconfiança pelo que poderia repetir, diante de um vazio de proposições fúteis e individualistas.
MAIS DO MESMO
Vivemos agora algo parecido. Sem desconsiderarmos o fato de vivermos em uma época completamente distinta, mais de um século depois do advento da modernidade, continuamos nos deparando com situações parecida. Talvez com uma novidade, analisando-se um pouco superficialmente as duas épocas. É provável que mais do que nunca em uma época se ignore tanto a História como agora. Digo a História como processo, não esse fragmento de fatos analisados isoladamente, como se as coisas acontecessem desconectadas e fosse possível analisar casos do cotidiano sem a compreensão de suas origens e de como as contradições forçam as mudanças.
A geração que inicia o século XXI na adolescência, e acredito pela maneira como aprendem as coisas, imaginam estarem vivendo em um mundo que começou agora. Desconhecem todas as contradições que nos movem, erguem palavras de ordem completamente anacrônicas, acreditam piamente que os problemas do mundo é fruto do conflito entre o bem e o mal, e assumem defesa de causas conservadoras como se as mesmas fossem revolucionárias.
Como a incorporarem, mesmo que ingenuamente, o discurso neopentecostal, tem o olhar fixado no futuro, e na perspectiva de alcançarem conquistas por reivindicações singelas, aparentemente radicais. São elementos que compõem a própria maneira como o sistema se retroalimenta. Drogas, marginalidade, apoliticismo (que não necessariamente é alienação), religiosidade, obsessiva vontade de enriquecer a qualquer custo, preconceito, liberalismo sexual... tudo são questões que mantém o sistema seguindo em sua lógica normal. E convivendo com isso há mais de um século.
A aparente ebulição da sociedade, expressa de várias formas e potencializadas pelas redes sociais, não carrega em si nada de novo, a não ser no uso dessas novas tecnologias. Mas, ao contrário da época em que a modernidade desponta, compreendendo isso no sentido filosófico do termo, nos dias atuais há uma completa indiferença em relação à existência de classes sociais distintas, e à luta que é travada entre elas. No momento silenciosa, mas com o aprofundamento das crises, a exemplo do que acontece em alguns países árabes e europeus, e na observância das soluções que se apresentam para elas, vai claramente sendo definido os campos em disputas. As medidas radicais tomadas para superar os problemas e impedir o agravamento dessas crises, são sempre para proteger os meios de produção, a riqueza dos grandes investidores e o patrimônio real ou virtual dos grandes banqueiros e especuladores.
Enquanto isso se marcha contra tudo, menos contra aquilo que é, em essência, responsável pelas condições que tornam a sociedade insegura e refém de seus medos e individualidades. Muito embora todo um aparato repressivo seja mobilizado para conter isso, por uma necessidade de não se perder o controle do poder bem como para se impor a autoridade, não são essas as formas de lutas, nem o conteúdo que as movem, que irão fazer com que a burguesia perca o seu sono.
O que dizia Marx, no século XIX, mas com um conteúdo extremamente atual, e irônico em relação às lutas e combates ideológicos travados pela burguesia, se aplica a movimentos  que se apresentam com idéias avançadas, mas de conteúdos conservadores, que nos dias atuais imaginam travarem uma luta revolucionária:
“Todas as relações fixas, enrijecidas, com seu travo de antiguidade e veneráveis preconceitos e opiniões, foram banidas; todas as novas relações se tornam antiquadas antes de chegarem a ossificar. Tudo o que é sólido desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado, e os homens finalmente são levados a enfrentar (...) as verdadeiras condições de suas vidas e suas relações com seus companheiros humanos” (Manifesto Comunista, 1848. Citado por Berman, Marshal. Tudo que é sólido desmancha no ar – A aventura da Modernidade. Cia das Letras, 1993, p. 20).