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sexta-feira, 10 de abril de 2020

A DIMENSÃO DA GEOPOLÍTICA NO MUNDO ATUAL

De repente, não mais que de repente, muito se ouve falar de geopolítica. Tudo que se fala é geopolítica. Mas, afinal, o que é a Geopolítica?
A Geopolítica pode ser vista como a junção da Geografia, História e Ciências Políticas, com necessárias pitadas de economia devido a ser preciso compreender a dimensão sistêmica que conduz cada época e serve como motor da engrenagem dos Estados-Nação.
Mas a geopolítica, ao contrário do que erroneamente se imagina, não é somente uma ferramenta para noticiar as transformações conjunturais, e os eventos que aflige a humanidade, as crises econômicas e o espocar das guerras. Ela é fundamental para a compreensão das causas geradoras de cada um dos fatos abordados dentro dos aspectos citados e da construção de cenários para o que se desenrolará a posteriori. Ou, caso estejamos analisando um fato histórico já ocorrido, ela permite compreender o jogo do Poder que o desencadeou, as disputas em torno do controle de territórios e, principalmente, a compreensão das estratégias utilizadas para se atingir os objetivos daqueles atores envolvidos no processo.
Esse é o elemento principal da geopolítica: a estratégia. Sua origem remonta o tempo em que os estados nações se expandiam, final do século XIX, época do poder crescente dos impérios, mas também da modernização do Estado e da criação de mecanismos que fortaleceriam toda a estrutura necessária para garantir a defesa das fronteiras territoriais nacionais, do controle da “core área” na expressão de Ratzel, da manutenção dos seus recursos naturais e da sua população.
Inicialmente vista como Geografia Política, na construção temática e epistemológica elaborada por Ratzel, e depois tornada Geopolítica na criação desse acrônimo por Rudolf Kjellen, que se consolidou com a expansão desse saber estratégico pela Europa, principalmente Alemanha, onde se difundiu fortemente através de Karl Haushofer, criador da escola alemã de geopolítica e o tornou personagem dúbio na relação com a estratégia nazista do expansionismo do III Reich.
Os embates com a escola francesa, vidaliana ou lablacheana, e tendo sido o foco das diatribes de Hitler, na Alemanha, a geopolítica amargou um forte revés, pela dimensão que alcançou naquele país. De Ratzel a Haushofer, o caráter expansionista, elemento da visão estratégica que considerava a um estado-nação uma condição necessária para o seu hegemonismo, e até mesmo sobrevivência, a escola geográfica naquele país deveu a geopolítica toda a sua influência. O pós-guerra reforçou os ataques franceses, e prevaleceu as intrigas feitas por historiadores da recém projetada Escola dos Annales, principalmente Lucien Febvre, que oporia Ratzel (identificado como determinista) a La Blache (visto como possibilista). 
A queda do nazismo levou junto a geopolítica, e Haushofer ao suicídio. Os ares democráticos que virão depois, e mais do que a identificação da Alemanha com a geopolítica, também a preocupação com a União Soviética, induziria as escolas ocidentais a transformar a geopolítica como “persona non grata”. Por trás disso o temor com um poder estratégico advindo desses conhecimentos. Sempre usado pelos estados, mas negligenciado a partir de então pela academia. A geopolítica tornou-se vítima de si mesma.
Naturalmente por trás da geopolítica há a Geografia, e o saber estratégico que a mesma carrega, isso posto a nu em um trabalho paradigmático que resgatou o papel crítico da geografia, depois de ser levada ao limbo pelas marcas que ficaram no embate com a escola francesa e com o pós-guerra: “A geografia, isso serve em primeiro lugar para fazer a guerra”, obra de Yves Lacoste.
Mais do que reforçar o caráter político desse saber, e tecer forte crítica à geografia ensinada nas escolas, até aquela época e como consequência desses embates políticos e geopolíticos, Lacoste é enfático em afirmar que, mais importante do que considerar ser uma ciência, a geografia é essencialmente um saber estratégico. E essa é a real grandeza de sua importância, e por isso tão temida por determinados setores, mais inerentes e necessários ao planejamento e ação do Estado. E não somente para a guerra.
Lacoste reforça a necessidade da política para a geografia e, além de resgatar o papel de Ratzel na projeção desse saber estratégico, traz também de volta a importância das obras de Elisée Reclus, este um geógrafo francês mais engajado, de visão mais progressista, até pelo seu histórico de militância e participação nos movimentos populares e revolucionários de sua época.
O movimento da Geografia Crítica que advém a partir dessa obra de Lacoste buscou tirar a geografia do limbo, e junto com ela a geopolítica. Mas o elemento diferente que vai projetar a geopolítica de volta ao seu patamar de importância, mesmo que em muitas escolas tendo como denominação Geografia Política (o que para Lacoste é redundante), é asua afirmação que a Geopolítica é a Geografia em toda a sua essência. E o caráter de totalidade, essencial para essa ciência e saber estratégico, só poderia estar completado com a devida importância da inserção da política em seus conteúdos, por sua própria natureza.
Lacoste critica em sua obra a fragmentação da Geografia, algo que será objeto de preocupação de uma geração de geógrafos até o final do século, quando submetido como outros conhecimentos ao processo da globalização, tornou-se difícil de evitar que isso deixasse de acontecer. Ao contrário, se acelerou, como um elemento forte da característica marcante de uma nova etapa do capitalismo, levando todas as áreas do conhecimento na mesma direção, para o bem ou para o mal.
Evidente que a visão de totalidade acompanhava toda uma condição e uma visão epistemológica advinda da influência marxista na geografia. Mas, como entender as partes sem o todo, e como compreender o todo sem o conhecimento das partes? Isso é o que garantiria à Geopolítica a condição de reforçar o caráter crítico da geografia e o resgate da política como elemento fundamental de sua essência como saber estratégico.
Mas todo esse movimento não foi suficiente. O estigma criado em torno da geopolítica era muito forte, e ideologicamente se constituiu em uma arma muito bem utilizada no âmbito da guerra fria. Muito embora nenhum estado-nação, de qualquer um dos lados, abdicasse da geopolítica como fundamento de seus planejamentos, de estudos do potencial de riquezas estratégicas, principalmente no âmbito da geração de energia, e da proteção e expansão de suas fronteiras, em síntese, da defesa de seus territórios nacionais, e até mesmo de suas colônias, muitas ainda mantidas diretamente ou de forma disfarçada.
No entanto, a mesma globalização que acentuou a fragmentação, e os conhecimentos, projetou a geopolítica. A aceleração contemporânea, o desenvolvimento científico e tecnológico, o poder da informação acessível a praticamente todas as pessoas, o deslocamento de mercadorias com muito mais facilidade, e das pessoas, com certas restrições, mas por veículos mais rápidos e eficientes, e, principalmente, a multipolarização do mundo, decorrente desse processo, muito embora não sendo algo desejado pelo império. Todos esses elementos já não podiam mais ser compreendidos sem a geopolítica, notadamente quando a partir de 2001, com um ataque mortal no coração do império, disseminou conflitos por todos os cantos e modificou para sempre o formato das guerras e o sentido da paz. A clássica frase “se desejas a paz, prepara-te para a guerra”[i], passou a fazer cada vez mais sentido.
Em sua nova fase, o capitalismo disseminou pelo mundo a ganância e a usura, distribuiu riqueza para poucos, e a pobreza para muitos. O que se projetou com a globalização, em seus momentos de deslumbramentos, se demonstrou pérfido, perverso e destruidor a partir do final da primeira década do século XXI. Impossível tentar compreender esse mundo sem a geopolítica, pela noção de totalidade que ela representa.
Mas qual geopolítica? Porque de repente se falava de geopolítica de alimentos, de biodiversidade, da água, do oriente médio, da África, do petróleo, dos recursos naturais, das questões ambientais... e por aí foi. A grande mídia trouxe para o foco de suas análises e interpretações aquilo que a geografia refutou por muito tempo, e a popularizou. Isso se acentuou com a disseminação de um vírus, mortal, o “Sars-Cov-2” sem nenhuma forma de contenção, a partir da China e daí para o mundo primeiro pela Europa, depois América, restante da Ásia, e África, e praticamente paralisou o sistema, com o necessário isolamento social para conter a sua propagação. O olhar crítico e cirúrgico a ser feito sobre esse processo não pode prescindir da geopolítica.
Os embates que se acentuaram, e estremeceram as relações políticas e comerciais entre grandes potências, notadamente EUA e China, fez parecer como restrito apenas a um desses países eventuais descontroles internos em suas políticas e levaram a uma quebra daqueles princípios que foram constituídos com a criação de organismos multilaterais. Assim, a ocorrência de uma epidemia foi inicialmente vista como algo localizado, típico do estilo de vida chinês, algo já enfaticamente questionado com o agravamento da pandemia. Havia um desejo implícito que isso reduzisse o poder crescente da China.
Os países não se prepararam para o impacto que isso teria na vida das pessoas, na economia dos países e do sistema caso houvesse uma disseminação global. De repente, o mundo se deparou com uma crise de impactos monumentais, com uma quarentena necessária para se prevenir do contágio e paralisou praticamente todo o processo produtivo, algo inédito na história recente, e vista de forma catastrófica somente comparado à grande depressão da década de 1930. Mas em número de mortos ainda perde, longe, da gripe “espanhola”, apesar da celeridade do contágio. 
Essa reviravolta por completo na maneira como a vida das pessoas se acostumara com a facilidade de deslocamento e com um consumo acelerado, embora o sistema não tivesse ainda se livrado dos sintomas da crise de 2008, deixou atônito o mundo como um todo. E não chegamos ainda sequer ao topo da disseminação desse vírus.
Em um ambiente criado pela globalização, de notícias que viajam por todo o globo em tempo real, e de redes sociais onde as pessoas se conectam e conversam a qualquer instante estejam onde estiverem, tentar compreender tudo isso se tornou a nova rotina. Ao mesmo tempo sendo necessário combater uma nova onda que esses mesmos mecanismos criaram, as notícias falsas, fake News, que confundem e criam uma horda de estúpidos, dispostos a acreditar naquilo que desejam, no que se convencionou chamar, ainda antes do Covid19, a doença que tem impactado o capitalismo, de “pós-verdade”.
Naturalmente cada noticiário vem acompanhado de relatos e análises de especialistas em diversas áreas, principalmente naquelas ligadas à epidemiologia, infectologia, das ciências médicas de uma maneira geral, mas também da economia, da política, da psicologia... e, naturalmente, da geopolítica. Enfim, nunca se intitulou tantos artigos com a palavra geopolítica a ilustrá-los, como nesse nosso tempo de impactantes imprecisões sobre não somente o que estamos vivendo, mas, principalmente, sobre o que virá como consequência dessa pandemia.
Mas porque é interessante olhar para todas essas reviravoltas, de como uma área temática da geopolítica se torna malquista como consequência de uma guerra mundial, na qual em tese ela teria sido coadjuvante, e para os dias de hoje, com uma guerra a um inimigo quase invisível, e não é o terrorismo, mas o terror de um vírus implacável e sem formas de contê-lo até então?
Porque assim chego ao ponto em que desejo demonstrar que não é tão somente a geopolítica, essencial para a compreensão de tudo isso. Mas a Geografia. A maioria desses artigos que são intitulados com a geopolítica, são centrados em seus conteúdos, nos elementos que compõem a geografia. O objetivo não é reforçar o que dito por Lacoste há pelo menos cinco décadas, de que a geopolítica é a geografia. Porque a globalização, como dito, fragmentou tudo, inclusive o conhecimento geográfico.
Ocorre que esses elementos que são necessários para identificar a origem do vírus, as condições em que ficam as cidades como forma de combatê-lo, a disseminação pelo espaço geográfico, a alteração dos lugares e hábitos até então corriqueiros, o reforço das estruturas nas áreas de saúde em grandes metrópoles de fortes densidades demográficas bem como o atlas ou mapeamento dessas fragilidades, a transposição de fronteiras praticamente inexistentes enquanto barreira, a forma de aceleração do contágio inicialmente por meio de vias de transportes aéreas ou de grandes transatlânticos, o necessário isolamento social de populações que precisam ficar restritas a suas residências, em seus bairros, seja em casas, condomínios horizontais ou verticais, o impacto na economia e a distribuição espacial como ele ocorre, e as mudanças nos comportamentos individuais e coletivos que tudo isso possibilita, são, inevitavelmente questões necessárias e postas no hoje e no depois para serem analisadas, entendidas e compreendidas em todas as suas dimensões pela geografia. Não há um único elemento em todo esse processo que não caiba em trabalhos de pesquisas da Geografia em suas mais diversificadas áreas do conhecimento, inclusive da geolocalização, nas informações geoprocessadas, por onde “viaja” esse vírus, os países, as regiões e setores das cidades mais infectados.
Em que entra a Geopolítica, então? Na análise estratégica dos impactos gerados pelas medidas tomadas para combater o vírus; a paralisia das cidades e os impactos econômicos que deverão gerar processos recessivos e depressivo; as alterações na ordem geopolítica mundial, com a provável troca de hegemonia entre as grandes nações líderes do comércio mundial e dos possíveis conflitos e guerras que advirão como resultado de desentendimentos naturais nesse processo. Some-se a isso, como área de interesse da geopolítica, a ação de organismos multilaterais, como a OMS, FMI e a ONU, dentre outros, e como sairão desse processo altamente desgastante a partir da forma como os países verão suas ações. Fundamentalmente, a geopolítica centra o seu olhar eminentemente estratégico no interesse dos estados nações, das grandes corporações, da beligerância e das relações entre os estados-nações, e, internamente, como sobreviverão os setores estratégicos e empresas que representam o capital nacional para além fronteiras e na defesa do território nacional.
A globalização, o neoliberalismo principalmente e o sistema capitalista em essência, se tornam pacientes em alto grau de contaminação e com grandes possibilidades de frequentar uma unidade de terapia intensiva. O olhar sobre essa possibilidade e as consequências do estrago que essa pandemia causará em todos os segmentos sociais e por todos os cantos do mundo, se tornam, sim, elementos essenciais da abordagem Geopolítica.
Pode-se então observar diferenças, nuances que são identificadas quando se compreende a Geografia como um saber estratégico, e um ramo de seu conhecimento que se preocupa por meio da necessária busca do conhecimento estratégico, a identificação da política que norteia as ações dos países e/ou grupos de países e como se dão e se darão suas relações: a geopolítica.
Concluo considerando como algo relevante, inclusive como parte do ensinamento posto por Yves Lacoste, ser necessário resgatar o papel da geografia crítica. E reforço o seu destaque à urgência de se retomar os estudos de um dos mais renomados geógrafos, contido por governos da época pelo caráter social de sua obra e pelo seu olhar libertário para o mundo. Este é o momento da geografia resgatar a obra e os ensinamentos de Elisée Reclus. Por uma Geografia crítica, política e necessária para que os geógrafos não se limitem somente a descrever o mundo, mas que possam contribuir para transformá-lo.



[i] “Si vis pacem, para bellum”, Públio Flávio Vegécio Renato, conhecido como Vegécio, escritor do Império Romano do século IV.

sábado, 17 de março de 2012

A GEOGRAFIA SERVE NÃO SOMENTE PARA FAZER A GUERRA

ensinodegeografiauesb.blogspot.com
Para o meu orgulho e enorme satisfação recebo, mais uma vez, homenagem de uma turma de formandos da Geografia. Há dezesseis anos leciono para jovens que escolheram para sua profissão tornar-se Geógrafos(as). Para mim, historiador que se apaixonou pelo conhecimento geográfico através das obras instigantes de um conterrâneo, Milton Santos, sempre foi um desafio utilizar de minha formação para contribuir com a ampliação do horizonte geográfico, estabelecendo uma necessária relação entre o tempo e o espaço.
Como o rito da formatura não inclui o uso da palavra pelo homenageado, resolvi transmitir através do Blog Gramática do Mundo, meu canal de expressão nos últimos anos, o que eu falaria caso me fosse permitido. Uma retribuição a essa elogiosa deferência que me é feita por ex-alunos.
Geografia, em sua significação literal compreende o Estudo da Terra, advém das palavras gregas “geo”, significando terra e “graphia”, estudo ou leitura. Mas a amplitude dessa palavra combina com a dimensão que tomou nossa vida na terra. Mais do que o simples estudo de um complexo planeta, ou do que o cerca e da enorme biodiversidade que reside nele, a Geografia se depara com a imensa responsabilidade de compreender a complexidade em que ele se transformou pela ação humana.
Formandos de Geografia 2012
Não que ele fosse, ou seja, estático, muito pelo contrário. Independente do papel que o homem tem desempenhado, ao longo de um pequeno tempo da sua existência, a Terra, por si só é pleno movimento. A vida sempre pulsou e evoluiu dialeticamente, ao longo de milhões de anos. Certamente, nossa espécie não pode ser responsabilizada pelas constantes idas e vindas, de aquecimentos e esfriamentos, choques térmicos e tectônicos, desertificação e inundações, terremotos e tsunamis, aparecimento e desaparecimento - vida e morte - de milhares de espécies que vivem em luta contínua pela sobrevivência. Uns sobrevivem, preservam seus genes e os aperfeiçoam. Outros, pelas dificuldades de adaptações sucumbem. Alguns porque suas próprias vidas decorrem da necessidade de sobrevivência de outras. Muito embora nos últimos cinquenta anos, nós, seres humanos, tenhamos acelerado muitas dessas mudanças naturais.
Nesse maravilhoso mundo, vasto mundo, como dizia o poeta, nos destacamos pela capacidade de produzir socialmente, pela habilidade com as mãos e o desenvolvimento do cérebro. Homens e mulheres, ao longo da história de vida desse imenso planeta Terra passaram a intervir diferentemente dos demais animais, e pelo uso racional construiram maravilhas que tornaram possíveis a vida humana prolongar-se cada vez mais. E transferiu para as cidades, imensas selvas de concretos e de estressantes veículos, toda a nossa lógica e estilo de viver.
Construímos pela razão e pela lógica uma forma de vida irracional e ilógica, quando olhamos para o depósito que nos fornecem as matérias primas utilizadas para nos tornar, aparentemente, senhores e condutores dos destinos do mundo. Transformamos-nos em escravos de uma cultura do desperdício, da destruição, dos objetos tornados sofisticados por nós próprios, da mercadoria.
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Extraímos e destruímos o ambiente em que vivemos, a natureza, para construir um estilo de vida cada vez mais dominado pela técnica, pela tecnologia, pela virtualidade. O poder do dinheiro, instrumento a atiçar a cobiça e tornado indispensável no cotidiano das cidades, passou a conduzir nossos destinos, a determinar quem pode ou não se considerar cidadão, e eleito para desfrutar desse banquete fantástico. Poucos usufruem, se considerarmos a imensa população de 7 bilhões de pessoas que atualmente vivem em nosso planeta. Em sua imensa maioria, travam uma batalha desigual pela sobrevivência, e o objetivo primeiro nessa guerra é obter dinheiro.
E assim somos motivados a nos especializar, a especialização é tudo, para podermos nos inserir em meio aquela camada que tem acesso ao que a nossa capacidade e inteligência possibilitou construir. Alguns conseguem pelas oportunidades chegar a cursos cujos profissionais são mais “disputados” pelo Mercado, esse ente invisível, abstrato, onipotente e onipresente, um verdadeiro deus, segundo a lógica que conduz o sistema no qual estamos forçados a viver.
Pelo dinheiro, a usura e a ganância se tornaram elementos motivadores que definiram a cultura da nossa sociedade. Para possuí-lo, e não bastava somente o suficiente para sobrevivermos, todos os golpes, astúcias e disputas ferozes, no âmbito de uma empresa ou entre Estados-Nações, foram tentados, testados e aplicados. Disso resultou um mundo em agonia, em meio a uma complexidade que é ideologicamente partilhada, pelos que defendem esse estilo de vida, e por aqueles que já percebem termos chegado ao limite dessas contradições.
Por séculos ampliaram-se os conflitos e guerras de todos os tipos, conduzidas com o intuito de garantir o poder crescente para dominar os mercados e difundir mercadorias pelo mundo, hoje dominado por grandes corporações, imensos conglomerados financeiros, industriais e comerciais, de tentáculos enormes, mas que pouco conhecemos, por se tornarem sociedades anônimas e imensos paquidermes difíceis de serem investigados. São eles, e os senhores que os controlam, que dominam o mundo.
Para isso, a Geografia constituiu-se em um instrumento importante. Sem ela seria impossível o conhecimento em larga escala e a localização das riquezas que definiriam a capacidade de poder das Nações. Da mesma forma, se era preciso dominar pela força territórios donde se pudessem extrair matérias-primas necessárias para construir impérios, também se fazia imprescindível conhecer os espaços a serem conquistados, os territórios e suas riquezas a serem possuídos, mas também as características de cada lugar. Principalmente, para a utilização de táticas de dominação e para a construção de estratégias que permitissem o controle desses territórios pela guerra. Assim como era também necessário saber que tipo de população existe ali, suas condições de vida, cultura e hábitos religiosos e familiares. Pela Geografia, tornou-se possível a um Estado poderoso, exercer o domínio, o controle e forçar outras nações à submissão e a aceitação do poder imperial. A Geografia tornou-se um instrumento para a guerra.

Mas a complexa transformação que o mundo foi passando, de forma acelerada para atender à ganância dos que o dominam, trouxe em si contradições que constroem situações, aleatórias ou não, que possibilitam a uma mesma ciência tornar-se instrumento de dominação, mas também de libertação.
A Geografia não serve só para fazer a guerra.
A possibilidade de conhecimento do Geógrafo, mesmo numa época em que a multidisciplinaridade tornou-se uma obrigação, é infinitamente superior a de diversas outras áreas. O Geógrafo, se não se especializar precocemente, um equívoco que se comete nos dias atuais, tem a chance de acumular um conhecimento diverso do mundo, como nenhum outro profissional. A Geografia é a ciência do mundo, embora seja essa uma polêmica interminável, quanto ao seu caráter científico. Mas não somente do mundo, e aqui eu me refiro à terra, enquanto seus aspectos físicos, mas de um mundo tornado humano por essa ação espetacular da espécie mais vitoriosa da natureza. Embora não se saiba até quando.
Se é correto afirmar, como dizia Ratzel, que o ambiente define as condições de vida do indivíduo, também se deve considerar que ele adquire, pela sua relação com o meio, a possibilidade de transformá-lo, como dizia La Blache. E a História confirma essas duas concepções, e nos mostram ao longo do tempo de existência, adaptação e transformação do ser humano, como o nosso habitat foi sendo gradativamente mudado, sempre numa espiral superior, suplantando adversidades e adquirindo novas capacidades de dominação das demais espécies da natureza. Mas, paradoxalmente, destruindo-a, como forma de colocar em prática suas ambições, desde as mais idílicas às mais perversas.
Para ser herdeiro daqueles geógrafos que se preocuparam em entender o papel definidor da geografia, e a importância que a profissão possui em um mundo desigual e perverso socialmente, somente com uma capacidade crítica, só possível de ser obtida com o conhecimento da política, e dos artifícios utilizados para se conquistar o poder, o grande Poder. Refutar a política é reforçar um erro que transformou a Geografia num mero instrumento decoratório de aspectos físicos, pouco relevantes se não houver a preocupação em saber o significado que eles possuem em um mundo complexo cujo motor principal está regulado para identificar riquezas e torná-las mercadorias. E também porque esse conhecimento é adquirido e serve ao próprio ser humano.
Mas o conhecimento da política pressupõe também identificar as contradições que cercam as cidades, ambientes diversos repletos de significados, mas ao mesmo tempo de profundas injustiças e de espaços construídos de forma segregadora, discriminatória, e que se repetem ao longo das administrações públicas, sem planejamentos ou feitos de forma a atender somente a espaços privilegiados dos que possuem riquezas. Todos aqueles que se formam em Geografia, por todo o tempo de suas vidas, convivem cotidianamente com essa realidade. Mas, infelizmente, parece que elas tornam-se distantes quando do exercício profissional que se dispõe a atender aos interesses que o mercado exige.
Planejar virou sinônimo de construir ambiente agradáveis aos possuidores do dinheiro. Os pobres convivem em estruturas frágeis, insalubres, sem saneamento, quando muito com construções de praças que terminam se constituindo num único espaço de prazer em suas vidas. Apartados e apertados em habitações distantes dos centros vivos das metrópoles, em bairros que se assemelham a pequenas e pobres cidades interioranas. Sobram-lhes a alienação dos templos e da televisão.
O geógrafo deve saber usar seu conhecimento para contribuir com as transformações sociais. Deve tornar a Geografia um instrumento que sirva para corrigir distorções em um mundo construído com valores individualistas, gananciosos e egoístas. Ela pode tornar visível uma população que não usufrui das enormes conquistas que a espécie humana obteve, não somente no Brasil, mas no mundo, em regiões desprovidas de condições dignas de vida. A Geografia, que serve para fazer a guerra, deve também servir para combater as desigualdades sociais. Tornar visível o que o sistema procura esconder.
Aziz Ab'Sáber  (1924-2012)
Essa é a essência da mensagem que passo aos formandos em Geografia, inspirado em Yves Lacoste, Milton Santos, David Harvey, e, em uma homenagem especial, a esse que considero um dos maiores geógrafos brasileiros, falecido no dia 16 deste mês, Aziz Ab’Sáber.
Sejam bons profissionais, mestres ou bacharéis, mas imbuídos de um espírito de justiça que lhes possibilitem resistir às idolatrias de uma sociedade egoísta, em que se finge estar bem em meio a situações caóticas, preconceituosas e de uma violência gerada em seu próprio seio, pela cultura individualista da sobrevivência dos mais capazes, num perverso sistema meritocrático mas com oportunidades para poucos.
Mas não sejam amargos por isso, encarem a vida com a serenidade dos sábios, e não esqueçam jamais que o saber nós conquistamos com os mestres, mas a sabedoria advém da experiência de vida e da humildade.
Carpe Diem!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

AFINAL, PARA QUE SERVE A GEOGRAFIA?

Na primeira semana de dezembro, pudemos participar de um ótimo encontro acadêmico. O Seminário das Metrópoles, organizado pelo Programa de Pós-graduação em Geografia, da Universidade Federal de Goiás e do Programa de Pós-graduação de Geografia Humana, da Universidade de São Paulo que integram o projeto “Casadinho” MCT / CNPq, Edital 16/2008, nos deu a oportunidade de discutirmos temas bastante instigantes a partir de projetos e trabalhos intelectuais que abordam a complexidade das grandes cidades. Não somente os temas, como também as pessoas que foram convidadas possibilitou que discutíssemos questões bem atuais com reconhecido grau de competência.
Eu destacaria a palestra da Profª Ana Fani Alessandri, que soube tratar bem o tema proposto e procurou construir sua intervenção dentro de uma linha que pudesse nos fazer entender todo o processo de transformação das metrópoles, partindo de uma abordagem do espaço, numa compreensão marxista e lefebvriana, mas indo além e construindo novos caminhos interpretativos para além do economicismo e resgatando aspectos esquecidos em Marx que dizem respeito às questões sociais. Principalmente, apresentando uma conceituação mais trabalhada da categoria lugar, utilizando para isso de releituras de Marx e Lefebvre sem simplesmente repeti-los, mas criando uma nova conceituação que possa melhor equilibrar as abordagens economicistas e de análises do cotidiano, possibilitando uma ênfase maior ao social.
Mas não é propriamente sobre a palestra de Ana Fani que quero analisar neste blog. Mas sobre a conferência proferida pelo Prof. da UFRJ, Marcelo Lopes, com a temática bastante sugestiva intitulada: “Desafiando a militarização do espaço urbano: Práticas espaciais insurgentes versus espaços-prisão no capitalismo en fin de siécle". Em primeiro lugar quero elogiar o trabalho investigativo apresentado pelo Prof. Marcelo, com dados importantes que demonstram uma competência indiscutível na identificação dos problemas que hoje afetam as metrópoles com as pessoas aprisionadas a um medo generalizado que força-as a buscarem apoio na estrutura policial do Estado, fortalecendo dialeticamente os mecanismos tradicionais de controle. Ao mesmo tempo ele busca identificar as alternativas encontradas pelos movimentos sociais no sentido de se contrapor aos mecanismos adotados pelo Estado que privilegia a especulação imobiliária em detrimento dos princípios básicos, inclusive constitucionais, que garantem a cada cidadão o direito à moradia.
Da mesma forma posso dizer do artigo disponível no site “passapalavra”, A “reconquista do território”, ou: Um novo capítulo na militarização da questão urbana. Um diagnóstico muito bem feito de todo o problema que envolve a retomada do território pelo Estado, nas favelas da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro.
Mas minhas divergências às concepções apresentadas pelo prof. Marcelo Lopes aparecem na medida em que seus estudos apresentam muito mais um caráter crítico, embora com um diagnóstico preciso, sem, contudo, apresentar alternativas aos problemas indicados em sua exposição. Algo, aliás, bem peculiar na Academia, onde se julga ser suficiente a abordagem investigativa crítica, cujos projetos indicam o problema, mas se abstêm de apontar soluções para os mesmos.
Ademais falta em suas exposições uma clareza mais processual de toda a complexidade que envolve a maneira como as cidades foram sendo segmentadas, separadas em territórios primeiro seguindo a natural lógica da luta de classes, e a partir daí a ocupação pela marginalidade de áreas abandonadas pelo poder público, na medida em que não atendiam aos interesses especulativos da indústria imobiliária. Nada de novo, se considerarmos a história das cidades, e principalmente se nos concentrarmos no momento em que as transformações urbanas atendem aos novos interesses capitalistas, mais especificamente do século XIX em diante.
Tenho em minhas participações nos eventos mais recentes, indagado com ênfase sobre quais seriam as alternativas que teríamos aos problemas que apresentamos naqueles trabalhos que estamos desenvolvendo. Evidentemente que nossas pesquisas buscam um diagnóstico, a confirmação de hipóteses que levantamos nos objetos das pesquisas que investigamos. Queremos saber o porquê desses problemas e, portanto, identificamos hipóteses que nos cabe no decorrer de nosso trabalho comprová-las. Ou não. Às vezes pode ocorrer de nos depararmos com algumas complexidades que tendem a redirecionar o nosso olhar e terminamos por avançar em outras direções, comprovando outros elementos que inicialmente não estavam bem clarificados.
Contudo, quando lidamos com problemas urbanos – e poderiam ser tantos outros relacionados à cidade – até mesmo pelo próprio caráter da formação do geógrafo, nos cabe muito mais do que o mero estudo e a identificação do problema. Na medida em que analisamos situações que envolvem populações, no caso específico historicamente situadas em condições periféricas (e aqui não importa se as favelas do Rio estão situadas entre bairros nobres centrais, o sentido de periférico diz respeito à marginalização a que sempre foram submetidas pelo poder público), é fundamental que não nos prendamos no discurso fácil, da crítica pela crítica, da arrogância intelectual para o qual determinados problemas terminam por constituir-se em ótimas oportunidades de desfilarmos nossa empáfia acadêmica.
É nesse laboratório sobre o qual nos debruçamos e produzimos uma infinidade de textos e livros. Mas sem sequer apresentar uma única alternativa aos projetos e programas do Estado que estão sendo criticados. Satisfaz-se, assim, com os tradicionais aplausos e a orgulho envaidecido e esquerdista de haver sido contundente na crítica ao Estado, algo que faz muito sucesso na academia. Mas, o que fazer?
Assim se comportou o professor Marcelo Lopes, quando levantei alguns pontos falhos em sua exposição e o questionei sobre qual alternativa ele apontaria às UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora), visto por ele como mera ação militar, o que é apenas parte da verdade. Sua resposta à minha intervenção demonstrou uma incapacidade em lidar com o contraditório, em aceitar a crítica, bem como o seu despreparo em apontar outros caminhos que possam ser utilizados pelo aparelho estatal, de forma a evitar os desatinos, comuns quando se trata de reprimir populações. O que é comum não significa dizer que seja aceitável, mas representa a lógica sistêmica de estrutura que existem para tal fim.
Por essa razão quis incluir na estrutura do raciocínio do professor, um pouco de dialética, que embora citada por ele não fora implementada em seu discurso. Bem como a necessidade de se buscar na história o sentido de tudo aquilo que está por trás de ações dos aparelhos militares. O que eu pretendia era reforçar a necessidade de sempre compreendermos que existe uma lógica sistêmica que responde pelo nome de capitalismo. E que, apesar de no título de sua conferência constar a expressão “capitalismo fin-de-siècle” faltou a ele explicar com clareza que nada disso é novidade, salvo as novas estratégias adotadas para reocupar ou retomar territórios urbanos dominados seja por gangs de traficantes, de grupos étnicos imigrantes, de prostituições, ou simplesmente por pobres que “enfeiam” a paisagem das cidades, principalmente em zonas centrais ou próximos à áreas de interesses turísticos. O que impedem a valorização e especulação imobiliária.
O capitalismo de fim de século (muito embora já estejamos no início do século XXI) pode ser reportado à maneira como na segunda metade do século XIX as metrópoles se redefiniam, de forma a ficarem mais funcionais dentro do interesse do capitalismo. E o interesse, naturalmente, era porque o novo sistema se realiza exatamente nas cidades, palco de consumo e de consolidação de enormes feiras e praças comerciais cada vez mais sofisticadas.
A esse respeito o próprio Marx (livro I, Vol 2 de O Capital) já se referia, no capítulo XXIII, intitulado “A Lei geral da Acumulação Capitalista” (pág. 764:1980 – Ed. Civilização Brasileira), quando ele faz referência ao processo de desocupação de áreas centrais das cidades, onde haviam se instalados os operários, por necessidade de muitas vezes habitarem próximos aos lugares onde trabalhavam. Como uma necessidade de transformar a paisagem urbana, dentro dos interesses de fazer das cidades o lugar dos grandes negócios, do comércio sofisticado e da bancocracia. Às vezes pela força os operários eram desajolados desses bairros, mas o era também por uma própria ação do poder público que ao instituir melhorias e infraestruturas mais adequadas, tornavam o solo urbano mais valorizado, fazendo com que a propriedade privada das terras dentro das cidades passasse por um processo acelerado de especulação imobiliária.
Com os impostos acrescidos não restavam aos pobres outra alternativa a não ser mudarem-se para bairros mais afastados do centro comercial e bancário. Até que novas intervenções chegassem, muitas vezes solicitadas por eles próprios, e tudo se repetia, com os mais pobres sendo deslocados para periferias cada vez mais distantes. Até constituírem-se o que passa a se chamar de conglomerado urbano, envolvendo várias cidades dormitórios nas periferias das metrópoles. Isso se repetiu ao longo dos séculos até os dias atuais, e seguem a lógica determinada pela transformação urbana dentro dos interesses do sistema que a molda.
As UPPs nada mais são do que uma nova estratégia para retomar um território ocupado por traficantes, e assim atender a inúmeras questões postas pelo domínio que era, e ainda é em outros casos, de marginais que se apoderaram de parte da cidade a fim de constituírem ali fortalezas de onde comandam toda a bandidagem, principalmente aquela vinculada ao comércio de uma mercadoria disputada por toda parte, principalmente nos condomínios de luxo e bairros sofisticados: as drogas de todos os tipos.
Esse território agora retomado já era militarizado, por outra força que não estatal, mas de grupos que tinham o domínio territorial de complexos de favelas e detinham o controle das ações da população, envolvendo, inclusive, muitos jovens filhos daqueles que praticamente eram, e ainda são, mantidos como reféns dessa bandidagem. Seus armamentos, em alguns casos, são mais sofisticados do que das polícias militares e civis, dificultando quaisquer ações que não sejam coordenadas com as forças militares federais que possuem armamentos mais pesados, em condições de se contrapor ao poderio bélico existentes nessas fortalezas.
Há que também denunciar que esses grupos não têm o menor respeito à vida humana, cometem crimes bárbaros, torturam, assassinam friamente e desdenham de qualquer força repressiva. Além de cooptarem as crianças e constituírem um exército juvenil à semelhança das gangs que dominam regiões conflituosas da África e transformarem jovens garotas adolescentes em objetos sexuais, engravidando-as irresponsavelmente deixando desprotegida uma legião de crianças, “filhas do tráfico”
Ora essa era uma realidade do Complexo do Alemão, da Vila Cruzeiro, naqueles bairros já “pacificados” pelas UPPs, e em tantos outros, centenas, que ainda encontram-se sob o domínio de grupos marginais. A minha crítica reside exatamente no fato de as abordagens analisarem as “reconquistas” desses territórios, como se a história daqueles bairros começassem a partir do momento que o Estado retoma o seu controle.
Não há dúvidas que os abusos policiais devam ser combatidos e denunciados, permanentemente, não somente nesses casos específicos. Contudo há que conscientizar as pessoas que tal situação decorre da própria essência do Estado no capitalismo, qual seja, assegurar o controle efetivo da propriedade privada, dos meios de produção e garantir a reprodução do capital seguindo a lógica da busca permanente do lucro e, naquilo que nos cabe aqui analisar com a reterritorialização em curso, possibilitar que a valorização da propriedade atenda aos interesses da acumulação capitalista, que também decorre da renda do solo urbano.
Não se pode, simplesmente, alardear a injustiça que ocorre como decorrência da busca pela justiça. Não é chavão, nem muito menos, redundância. Ao libertar esses territórios do jugo da bandidagem, seguindo a uma efetiva ação do Estado na remodelação daqueles espaços urbanos, a tendência natural na cidade do capital, para usar uma expressão lefebvriana, é a valorização daquelas propriedades e a conseqüente especulação imobiliária. Ato contínuo, alguns novos empreendimentos tendem a ampliar essa nova característica desses bairros e, seja para atender uma necessidade imediata, ou para fugir do aumento dos impostos que certamente advirá, boa parcela das pessoas dessas comunidades tendem a vender seus imóveis, deslocando-se para lugares mais longínquos onde possam pagar por aluguéis e serviços mais baratos.
Tal qual Marx já identificava no século XIX. Diga-se de passagem, que, tanto a ação militar, quanto a melhoria em suas estruturas, são medidas louvadas pela comunidade e esperada com ansiedade pela maioria. São contradições que permeiam o sistema capitalista e devem ser repetidas ad nausean, para que as pessoas saibam que não há alternativas igualitárias nos marcos de um sistema que transforma tudo em lucro, até mesmo as piores misérias criadas por ele próprio.
Em sua justifica ao meu questionamento, o Prof. Marcelo Lopes tratou como se a crítica ao capitalismo fosse algo simplório, que transforma sua repetição em lugar comum. Fugindo, assim, à origem e essência de todos os problemas que hoje caracterizam as grandes metrópoles. Então, na medida em que critiquei o capitalismo e questionei a maneira como se condenavam as ações do Estado no combate aos traficantes e as instalações de UPPs, sua atitude foi considerar aqui uma contradição de minha parte. Refuto esse seu diversionismo, dito com o claro objetivo de fugir ao que era central em meu questionamento, cobrar de nossas competências acadêmicas não somente a crítica – algo fácil de fazer.
Também isso, como bem exigiu Yves Lacoste num movimento que resgatou a geografia crítica e a necessidade de fazer com que a política voltasse ao centro das caracterizações geográficas. Mas, como ele frisou para estabelecer um novo caminho para a Geografia, é necessário mais do que tentar compreender esses fenômenos em todas as suas dimensões dialéticas, sendo também preciso o engajamento dos geógrafos para contribuir com as transformações sociais.
Disso se depreende haver a necessidade de, ao nos colocarmos criticamente sobre a maneira como o Estado age, sempre de forma a beneficiar os detentores do capital e na defesa da propriedade dos meios de produção, possamos também indicar os instrumentos possíveis de se contrapor às injustiças sociais e apontar os caminhos alternativos que levem às mudanças estruturais na sociedade capitalista. Não há outro caminho se queremos nos insurgir contra a maneira como o povo pobre é tratado.
Mas é preciso que não se crie nenhuma ilusão em relação às conquistas. Elas são fruto da luta organizada, e assim tem sido historicamente, portanto, não são concessões da classe dominante, contudo representam verniz na aparência do sistema capitalista. Segue uma lógica permanente, de sempre buscar a partir dessas conquistas a cooptação de lideranças, o apoio vicioso no processo eleitoral e a difusão de idéias que tudo se resolverá na medida em que as ações do Estado possibilitem o surgimento de novas territorialidades.
A “modernização” do lugar passa a ser perseguida por todos os moradores, que almejam ter suas propriedades valorizadas, muito embora isso tenda a significar uma contradição em seus meios de vida. Mas também não há como negar que repetindo a cultura da sociedade de consumo, todos se sentirão satisfeitos com isso e imaginam também lucrar com os novos negócios que aparecerem.
Ora, se essa é a aspiração dos moradores, indicada já em algumas pesquisas e citadas na própria explanação do professor Marcelo Lopes (registrando-se, inclusive, que o medo da maioria é do retorno do tráfico), que alternativa se pode apresentar aos que criticam as UPPs? A esse questionamento o professor respondeu simplesmente que não cabia a ele indicar isso, pois não era especialista em segurança pública.
Estupefato, fiquei a escutar sem ter a possibilidade de retrucar tamanha aberração. Daí me veio imediatamente a expressão, parafraseada de Yves Lacoste: AFINAL, PARA QUE SERVE A GEOGRAFIA?
Não têm também a função de planejador urbano os geógrafos bacharéis? Não devemos, para sermos honestos intelectualmente, e moralmente éticos, apontar sempre alternativas às nossas críticas? Senão corremos o risco de nos transformarmos em charlatões letrados, aptos a apontar o dedo a toda e qualquer ato que consideremos errados, mas a agir como um velho vira-lata a correr atrás das rodas dos automóveis, sem saber o que fazer quando os mesmos param à sua frente.
É claro que uso isso como retórica, sem nenhum caráter comparativo ou desmerecedor. Mas surge como uma metáfora a reforçar uma crítica que sempre faço, sem receio de ser excessivamente polêmico, pois acredito que é no embate de idéias dentro da universidade que poderemos tirar essa instituição centenária (no caso brasileiro) da hibernação em que ela está metida desde as duas últimas décadas do século XX. Decretou-se, para fins de consolidação do modelo neoliberal, a morte do socialismo e o fim da História, que se realizaria definitivamente com o capitalismo.
A partir de então, para ser politicamente correto na universidade, deve-se evitar apontar caminhos alternativos ao capitalismo. Muito embora eu tenha sido taxado de conservador pelo conferencista, por mais paradoxal que isso possa parecer, insisto em responsabilizar o capitalismo e na necessidade de sempre indicar as causas das contradições crescentes nas sociedades atuais, buscando sempre compreender todo o processo histórico, principalmente do desenvolvimento das cidades.
Mais paradoxal, no entanto, é minha postura antagônica à dele. Embora reconhecendo essa contradição não vejo outra alternativa no momento, senão exigir que o Estado, aja com ênfase com o intuito de libertar comunidades dominadas por marginais, por mais que identifiquemos também na estrutura policial elementos que não se diferenciem daqueles. A isso, devemos combater com rigor. O que acho inadmissível é a crítica pela crítica à ação do Estado, quando estamos cansados de ouvir outras críticas ao próprio Estado pela omissão ao longo de décadas passadas, que permitiram aos traficantes tomarem o controle daqueles e de outros territórios.
As pessoas pobres podem reivindicar melhorias em seus espaços de moradias, mesmo que isso signifique a reprodução do capital. E não somente as camadas médias e altas da sociedade têm direito a seus condomínios seguros (e inclusive militarizados privativamente). As comunidades que vivem na periferia também devem lutar por paz, segurança e melhoria na qualidade de vida e exigir do Estado a garantia de tudo isso como uma construção da cidadania.
Considero plausível, no entanto, a organização da comunidade e o seu fortalecimento através da união de esforços para buscar ela mesma o domínio de seu território. Isso não eliminará as contradições, todas elas citadas acima, mas possibilitará à população simplesmente não trocar um jugo pelo outro, a dependência do traficante pela do policial. O que não significa simplesmente retirar o Estado e a aspiração por segurança, caso contrário, pela própria lógica que acabei de analisar, sejam milícias paramilitares ou empresas de seguranças adentrarão naqueles espaços e assumirão o controle na busca do lucro, reterritorializando-o. Afinal, o medo tem sido um dos fortes componentes de dominação no Brasil e no mundo.
Aos geógrafos críticos, para os quais não é o bastante saber interpretar o mundo, e sim transformá-lo (parafraseando Marx), fica a minha expectativa de que saibam discernir bem os equívocos contidos nas críticas fáceis. Vendem bem, mas não ajudam efetivamente a transformar a sociedade e reduzir as desigualdades sociais.
Lista de referências das fotos:

Upps.1 – odia.terra.com.br
Upps.2 – 2.bp.blogspot.com
Upps depois – 4.bp.blogspot.com
Traficantes.1– epocaestadobrasil.wordpress.com
Traficantes.2 – pspnation.com.br
Complexo do Alemão – ultimosegundo.ig.com.br
Complexo do Alemão.2 – exame.com.abril
Teleférico do Complexo do Alemão – noticias.r7.com
Bairro Popular de Londres no Séc. XIX – cafehistoria.ning.com
Bairro Operario de Londres no séc. xix – sociologiaurbana.blogspot.com
Karl Marx.1 – filosofiaemvalores.blogspot.com