domingo, 1 de dezembro de 2019

A EXPERIÊNCIA DE UM SERTANEJO NORDESTINO DA CAATINGA ATÉ O CERRADO GOIANO – E A CAÇA AO PEQUI

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Eu cheguei em Goiás na primeira metade da década de 1970[1]. Para ser mais exato, em 1974. Vim do recôncavo baiano, região enfincada entre o litoral e o sertão. Morava na cidade de Serrinha, famosa por ter uma “água milagrosa”, até cantada em música: “água de Serrinha, milagrosa, muita gente tem a prova...”.[2] Por ali se esparramava muito sisal, onde se produzia corda, muita corda. E se perdia braços, nas máquinas de desfiar o sisal.
Mas minhas lembranças que desejo juntar aqui na transição para o Cerrado, vem é do sertão mais profundo. Perto de onde se convencionou chamar “Raso da Catarina”. Quando eu saí da Bahia tinha 14 anos de idade, e por um tempo morei em Jeremoabo, cidade que faz parte da região que leva esse nome, bem no meio da Caatinga, próximo a Sergipe e Paulo Afonso, onde se situa uma enorme cachoeira e uma enorme represa para geração de energia elétrica. Uma das mais antigas da Bahia.
Passei bons momentos de minha infância por ali. Por certa vez fui por uma necessidade. Minha madrinha, Estelita Montalvão, irmã de minha mãe vivia ali, sozinha. Era uma pessoa que se tornou por um tempo uma segunda mãe. E ela me tinha como um filho, já que nunca tivera um. Eu tinha um carinho e um amor especial por ela. Uma outra tia ficara com nossa família ainda na cidade de Alagoinhas, onde nasci. Era o ano em que nascera meu irmão mais novo, o fatídico ano de 1964. Meu pai era vereador naquela cidade. Se elegeu por cinco mandatos. No último não chegou até o final, foi preso, levado para Salvador, onde ficou por 30 dias, no Forte de Monteserrat. Ele era do PTB, então partido do presidente João Goulart. Minha mãe se recuperava do resguardo pelo nascimento de meu irmão quando os brucutus chegaram lá em casa, armados de fuzis, e sem cerimônia levaram meu pai preso deixando minha mãe no desespero. Eu não vi essas cenas, estava, portanto, em Jeremoabo vivendo com minha tia, exatamente para aliviar a barra para minha mãe.
Ali, numa cidadezinha pacata, sem muita coisa por fazer, vivi bons momentos. E estabeleci uma forte ligação com a caatinga, para onde por muitas vezes saí para caçar com meu pai em períodos de férias. Adentrava aquela vegetação cortante em busca de codorna, nhambu e rolinhas. Adorava fazer farofa desses bichinhos. Não os matávamos por esporte ou diversão.
Andávamos horas e horas por dentro da caatinga, até chegar no rio Vaza Barris. Este tem uma história no meio de outra história. O Vaza Barris nasce próximo a Canudos, lugar que ficou marcado na história pela resistência dos jagunços (O termo "jagunço" é dúbio, com o tempo mudou a sua conotação) liderados por Antonio Conselheiro, na famosa guerra contra milhares de soldados derrotados por três vezes. Até ser completamente dizimada. O açude de Cocorobó, que soterrou parte da história de Canudos, é formado pelas águas do Vaza Barris. Mas nos limites baiano atualmente o rio é intermitente.
De lá o Vaza Barris corta o sertão em direção a Sergipe quando se torna perene, e vai desembocar no Oceano Atlântico, formando no seu estuário na praia de Mosqueiro, em Aracaju.
Foi nesses rincões da caatinga que vivi. Permeados de histórias da jagunçada de Antonio Conselheiro (foi em Jeremoabo a primeira refrega, com os poucos soldados enviados para lá, logo no começo do conflito de Canudos, sendo surpreendidos na delegacia da cidade) de cangaceiros (Lampião visitara várias vezes Jeremoabo, e ouvi muitas histórias do medo imposto por Virgulino e sua turma) e também foi rota da Coluna Prestes.
Carrego comigo cada detalhe daquele lugar, jamais perco esse vínculo e por muitas vezes retornei ali e ainda espero ir mais vezes. A pobreza, a dureza e secura do solo, as árvores espinhentas e pouco frondosas, a raridade dos riachos e rios num ambiente de seca quase permanente, me atraem pela paixão e pela atração do pertencimento. Aquele era o meu lugar. E por isso, por tanto tempo fui apaixonado pela Guerra de Canudos, quase sendo esse o tema do meu mestrado.
Tenho várias edições do livro de Euclides da Cunha, "Os Sertões". Na primeira leitura o sacrifício foi passar das cem primeiras páginas. Mas por ele aprendi a compreender a importância da geologia, embora tenha adquirido um olhar crítico e estratégico e não meramente descritivo. Já li Os Sertões três vezes, e ainda lerei mais.
Nosso destino na Bahia, no entanto, foi encerrado, pelo menos para moradia permanente, com a transferência de meu pai, funcionário do antigo DNER, hoje DNIT, para Morrinhos. Pois é, embora nas cidades, nosso destino nos tirou de uma "Serra" e nos levou para um "Morro". Da caatinga e do recôncavo baiano, para o cerrado goiano.
Um ambiente totalmente diferente. Que nos assustava quando soubemos da mudança que teríamos. Nossos amigos zoavam dizendo que íamos nos ver com os índios. Era essa a imagem que se tinha do “assustadoramente” distante Goiás.
Claro que o que vimos foi completamente diferente. Apesar de características distantes daquela de onde viemos, no falar, no comer, no jeito de se comportar e se vestir. Mas nossa capacidade adaptativa é enorme. Ainda mais quando estamos entrando na adolescência. Foi fácil nos adaptarmos.
Vista panorâmica de Serrinha-BA
Mas as condições econômicas que vivíamos eram muito difíceis. O salário que meu pai ganhava era irrisório, e a vida dele era rolar dívidas. Comprava pacotes de cigarro no armazém da cooperativa dos servidores do DNER, para vender em outros armazéns e ter dinheiro para fazer compras de verduras na feira. Carne, só de frango, criados em casa, e de pombos. Sim, naquela época comíamos pombos, também criados no quintal. E, de vez em quando um tatu, feito ensopado por minha mãe.
Não nos restava outra saída que não nos virarmos para termos um pouco de dinheiro, para nos divertirmos e aproveitar a adolescência. Mas, fazer o quê? Capinei roça de melancia, trabalhei de peão numa usina de fabricar massa asfáltica, tudo ao lado do bairro onde morávamos, em residências construídas para os funcionários do DNER.
E, na ausência dessas atividades, nos embrenhávamos no cerrado. Foi a partir daí que tive contato direto com a flora e a fauna do cerrado, e o conheci na prática, pela necessidade.
Saíamos bem cedo, por volta de cinco horas, ainda escuro, e caminhávamos por quilômetros dentro do cerrado, do lado oposto da BR-153. O bairro onde morávamos era na margem da rodovia. Cada um de nós, íamos em grupo de amigos, às vezes três, mas chegávamos a ir em turma de cinco ou seis, levava dois baldes nas mãos. Os mais fortes ainda carregavam sacolas. Íamos “Caçar Pequi”. Sim, era assim que dizíamos. Ainda cerrado nativo, quanto mais andávamos mais nos deparávamos com imensos pés de pequis. Retornávamos próximo ao meio-dia carregados desse bendito fruto, responsável por nossos divertimentos de finais de semana.
Quando chegávamos nos apressávamos para descascar os frutos (às vezes eram descascados embaixo do próprio pequizeiro). Os dois baldes acabavam virando somente um. E lá íamos para a beira da BR, com um prato, que era como vendíamos os pequis. Não demorava muito e fileira de carros estacionavam perigosamente no encostamento da rodovia, ainda não duplicada. Em menos de duas horas nós conseguíamos vender todos os pequis catados. Era também um divertimento, e não nos envergonhávamos, muito pelo contrário.
Isso durou muito tempo, o pequi tornou-se um fruto bendito, que nos possibilitava aproveitar os fins de semanas, difícil de ser caso dependêssemos de alguma ajuda de nossos pais. Eram tempos difíceis, muito difíceis.
Mas ficou um trauma. Essa também foi a razão por eu nunca ter gostado de comer pequi. Creio que o cheiro forte, por diversas vezes tendo que manuseá-lo, repetidamente, me fez enjoar. Nunca gostei de comer pequi, mas o pequi será inesquecível para mim.
Em 1978 vim para Goiânia, era preciso encontrar um emprego, tão logo concluí o curso colegial. Foi difícil encontrar alguma coisa. Trabalhei de peão de obra, saindo na segunda-feira cedo e dormindo na obra até sábado, como apontador, depois auxiliar de almoxarifado e por fim almoxarife. Até que em 1980, consegui passar no vestibular, depois de me preparar pelos fascículos do curso abril vestibular. Tentei jornalismo, duas vezes, e por fim história.
Vim estudar então na UFG, no Instituto de Ciências Humanas e Letras, bem ao lado da placa que homenageia August de Saint-Hilaire, homenageado neste evento depois de 200 anos de sua passagem pelo Brasil. Desconhecido para mim até então. Mas o bosque, famoso em minha época, mas degradado depois e mal-visto, era conhecido, de forma divertida, como uma área de pouso da “esquadrilha da fumaça”. Os entendedores entenderão. Naquela época era um lugar recôndito para quem queria “relaxar”, e eram poucos os espaços possíveis, diferentes de hoje.
A minha curiosidade me levou a procurar saber quem tinha sido aquele francês que era homenageado com um bosque no recém construído campus da Universidade Federal de Goiás.
E foi dessa forma que conheci um pouco da história de Saint-Hilaire. Não viajei tão longe quanto ele, mas me identifiquei com o seu naturalismo pelo que que já sentira em minha vida.
Hoje sei da importância de viajar, e sempre falo isso para meus alunos e alunas. Viagem, as experiências de grandes geógrafos, biólogos e historiadores (Humboldt, Reclus, Vidal de La Blache... Saint-Hilaire) assim como Charles Darwin, e suas importantes descobertas, se deram pelas viagens, pelos conhecimentos empíricos de realidades complexas, diferentes e admiráveis. Além do mais, vajar nos ajuda a eliminar boa parte de nossos preconceitos.
Era esse o meu relato, e a forma que encontrei de me aproximar do que se propôs a fazer a organização do evento que homenageia esse importante naturalista, botânico, mas sem sombra de dúvidas, pelos seus relatos e observações, também geógrafo e historiador.



Mesa redonda: Romualdo Pessoa,
Eguimar Chaveiro, Lena Castelo Branco
Coord: Profª Fabrizia Gioppo
Foto: Antenor Pinheiro
[1] Esse texto foi elaborado para o evento “Encontro com Saint-Hilaire: 200 anos após sua visita à província de Goiaz”, na mesa redonda: “Solidões” do sertão – estigmas, imaginários e memórias de Goiás. O evento foi organizado pelo grupo de trabalho ligado às linhas de pesquisas da Profª Maria Geralda e coordenado pelo Laboter (Laboratório de Estudos e Pesquisas Territoriais), do Instituto de Estudos Socioambientais (IESA-UFG).

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

TEM JABUTI NO TELHADO NO PACOTE NEOLIBERAL DE GUEDES-BOLSONARO

Imagem retirada do site
conversaafiada.com.br

Esse governo, de perfil neoliberal na economia e de extrema direita na política e no trato das questões sociais, se especializou em encaminhar pacotes de maldades para o Congresso Nacional, com o intuito de destruir o Estado naquilo que ele possui de capacidade de intervir na garantia das proteções dos direitos sociais, dos trabalhadores e no combate à miséria e à crescente desigualdade social, diante de um sistema ganancioso e desigual.
Mas há uma estratégia pérfida que acompanha cada uma dessas medidas, que estão chegando sorrateiramente no parlamento, enquanto os filhotes do fascismo, no cio, bradam propostas e frases de conteúdo totalitário e com nítido viés autocrata. Essa é a primeira estratégia, desviar a atenção das medidas absurdas e impopulares que estão sendo aprovadas, ou melhor, tratoradas por uma maioria conservadora, defensora das camadas sociais mais abastadas e no interesse do capital financeiro, nacional e internacional. Nisso eles se confundem, se misturam.
Além disso, juntamente com essas propostas acompanham medidas claramente impossíveis de serem aprovadas, por tocarem em pontos sensíveis, de interesses corporativos da elite econômica e política do país, bem representadas no Congresso Nacional.
Na reforma da previdência o jabuti subiu na árvore. Sabe-se lá como, mas ele estava lá. E como jabuti não sobe em árvore, alguém o colocou lá. Nesse caso, o jabuti era o BPC (Benefício de Prestação Continuada). Era visível que essa proposta não passaria no Congresso, pois ameaçaria eleições de muitos parlamentares. Contudo, essa foi a discussão central, em meio a um pacote de maldades que ia sendo aprovado e tratado como presente para gerações futuras, numa campanha de marketing paga pelo governo e outra campanha que veio pelo interesse dos ricos por meio dos canais de televisão, a grande mídia corporativa: Globo, Band, SBT, Record... Enfim, tiraram o jabuti da árvore. O BPC se manteve tal qual sempre esteve. Embora outros jabutis estivessem lá para fazer companhia a ele, e seriam acionados caso falhasse a propaganda em torno deste.
Agora, com outro pacote de maldades neoliberais em curso o jabuti escalou algo mais impossível para si, subiu no telhado. E o jabuti das reformas econômicas, o mais importante, chama-se “municípios de menos de cinco mil habitantes”. Qualquer emissora de TV ou de rádio que alguém sintonizar nesse exato momento estará fazendo algum debate sobre a extinção dos pequenos municípios. Esses, em sua maioria, com algumas exceções a se salvarem, criados a fim de garantir os currais eleitorais de políticos oportunistas e conservadores.
Ora, aposto meu mísero salário contra uma garrafa de vinho malbec argentino da região de Mendoza, agora aparentemente livre do neoliberalismo, que essa proposta jamais será aprovada. Mais uma vez, desvia-se a atenção das questões que para eles são essenciais, aprovar um pacote que destrói a capacidade do estado intervir para solucionar problemas sociais e atacar, como deveria estar sendo feito a fim de reduzir a miséria crescente, e beneficiar os bancos e as grandes corporações. O jabuti no telhado vai sair de lá juntamente com os pequenos municípios. Afinal, só foram colocados nesses lugares onde estão por uma questão de estratégia e oportunismo político.
Mas atentem para um enorme jabuti que foi colocado no alto da torre de tv de Brasília. Aquela em que todos sobem para ver portentosamente a esplanada do poder federal, de onde atualmente saem alguns inocentes jabutis e se atacam direitos sociais. Esse jabuti, no caso, são os servidores públicos federais. Como é possível de se ver, em todos esses pacotes há alguma referência ao que seria “privilégio” do servidor público. Algo que vem sendo repetido ad nausean, desde que a grande mídia conseguiu eleger o “caçador de marajás”. Não por acaso deposto por corrupção. De lá para cá, sistematicamente, os servidores públicos tem sido alvo da anti-propaganda, a fim de criar uma cultura de desmoralização não só desses servidores, como do serviço público em geral. Isso é o que se chama de pavimentar o caminho para que a população rejeite o trabalho que é feito pelo Estado, e aceite a sua redução, assim como a retirada de direitos conquistados pelos trabalhadores e trabalhadoras do serviço público federal. Assim como também nos demais níveis federativos.
Os jabutis estão escalando perigosamente tais lugares? Claro que não, eles estão sendo colocados estrategicamente por lá, a fim de desviar a atenção para as maldades e perversidades contidas nos pacotes de reformas, cujo intuito, claramente, é atender as demandas das classes dominantes: burguesia industrial, financeira e latifundiária. E uma parte da classe média, alta, que gerencia grandes corporações, ou atuam como testas de ferros para os interesses destas.
Temos sabido lidar com essas questões? Creio que não. As forças de esquerda dividem-se naquilo que é essencial, a partir de demandas próprias e de estratégias que visam as campanhas eleitorais. Isso que se tornou um vício. Perdeu-se a capacidade de focar na organização dos trabalhadores, da população em geral, abdicou-se disso que foi e está sendo feito por igrejas neopentecostais, ou por grupos conservadores da igreja católica, como carismáticos e TFP. Erra o maior partido de esquerda, que esgrime como sua maior bandeira a liberdade de sua grande liderança, e foco obsessivamente nisso, erra o candidato de esquerda que foi o terceiro mais votado, erra os pequenos partidos de esquerda porque, como sempre, lutam entre si pelo protagonismo que os tornem maiores do que o outro, e se engalfiam em minúcias ideológicas intermináveis.
Enquanto isso a população tem a sua atenção voltada para os jabutis, sofrem com os riscos que tais espécimes correm, porque não foram feitos para escalar árvores, telhados e torres de tv. E se aliviam quando os mesmos que puseram os jabutis nesses lugares, os tiram de lá e se satisfazendo com isso esquecem as maldades que estão a apunhalá-los pelas costas.
E assim segue a procissão, seja com as cordas que os levam à virgem, ou com os gritos histéricos de neopentecostais reacionários. E as pessoas cedem a fé, de que do céu virão as melhorias que elas esperam. Talvez com o tempo elas precisarão se proteger, porque no andar da carruagem o que cairá do céu será uma chuva de jabutis. Como aliás conta uma velha fábula da festa no céu. Bom, originalmente foi o sapo que imaginava poder voar e se esborrachou no cão, e, sendo salvo pela virgem Maria, foi remendado.
Mas nos dias de hoje, os sapos estão em extinção, e já não se fala mais nesse tipo de festa no céu. Agora é a vez dos jabutis correrem o risco de se estropiarem. Esses colocados em lugares estranhos pelos farsantes para ludibriar incautos, que acreditam nessas histórias e em outras lendas mais.
Salvemos os jabutis, mas não nos esqueçamos do povo, inebriado pela fé alienante, escorados em discursos preconceituosos e iludidos de que serão bem servidos no banquete dos ricos.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

A MÁSCARA DO CORINGA E O QUE SE VÊ NO ESPELHO


O filme do Coringa tem gerado muitas controvérsias. Mas observo algo que vejo passar despercebido nas opiniões de boa parte daqueles que se dispõem a comentar sobre o impacto gerado por um personagem que carrega em suas características pessoais os sintomas de uma patologia social.
Há uma ausência de percepção temporal nessas análises e nos comentários sobre o filme. No afã de identificar esses sintomas ligados aos comportamentos dos dias atuais, muitos não percebem que a Gotham City do Coringa vive os ares dos anos 1980.
Identifico essa confusão no desejo de muitos de verem aquelas reações causadas pelo comportamento violento, mas anti-sistema, que está por trás da história e do personagem do filme, como se ocorrendo nos dias de hoje, marcados pelos mesmos sintomas identificados naquela década: violência, desesperança, desemprego, pobreza, intolerância, ridicularização do outro, falta de perspectiva da juventude, individualismo, ódio e preconceito contra quem não se enquadra no perfil e no padrão definido pelas camadas ricas da sociedade, ou dos que aspiram atingir esse grau de riqueza, a classe média.
O Coringa surge nos quadrinhos, como o grande vilão a infernizar a vida de Batman, no começo dos anos 1940. Um período conturbado, tumultuado pela grande depressão que assolou praticamente todos países na década anterior, cujas consequências levou o mundo a uma guerra cruel e de uma perversão terrível. A década de 1930 e de 1940 foram tensas e historicamente nefastas para a humanidade.
Mas, eliminado e depois renascido, o personagem ainda reapareceu noutros tempos menos desesperadores. No entanto, o enredo no qual o Coringa do filme atual transita, e cujo perfil do personagem carrega as mazelas de mais um tempo de crise, é aquela década que ficou conhecida como a década perdida, assim denominada pela mídia e pelos economistas.
De quais maneiras foi construído esse período, e o que ele pode nos dizer sobre como o Coringa carrega os traumas dessa época?
Os anos 1980 são reflexos da grave crise que afetou o mundo na década de 1970, conhecida como a “crise do petróleo”. Momento em que os países produtores de petróleo, que haviam tomam para si a produção e o controle da distribuição desse “ouro negro” nos anos 1960, quando criaram a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), deram um choque no preço elevando-o a patamares insuportáveis, com aumentos superiores a 400%, levando a bancarrota uma série de países dependentes desse produto.
A crise se alastrou por todo o mundo, afetando principalmente os países menos desenvolvidos e com altas taxas de desigualdades sociais. Outros fatores geopolíticos não só contribuíram, mas foram os elementos causadores em larga escala, oriundos no Oriente Médio. O resultado levou o mundo a uma recessão e a um enorme déficit nas contas tanto dos países ricos como dos mais pobres. A América Latina sofreu mais fortemente as consequências dessa crise.
Por outro lado, e como acontece em todas as crises no capitalismo, a concentração de rendas aumentou e, consequentemente, a desigualdade social. Essa equação deixa sempre um resultado perverso, o desespero da população pobre. Mas, por incrível que isso possa parecer, os ricos tornam-se mais insensíveis e ao invés de defenderem políticas publicas para amenizar a situação de pobreza e miséria, fecham-se em seus casulos e bradam ao estado o reforço da segurança pública para protegê-los. E seguem acumulando riqueza em meio a uma intensa pobreza.
Ora, o que faz as pessoas se confundirem ao assistirem o filme do Coringa é o fato de a situação do mundo no final dos anos 1970 e começo dos anos 1980 ser muito parecida com as condições econômicas e sociais que vivemos atualmente. Isso considerando a situação de crise e de acumulação de riquezas de forma acentuada nas mãos de poucos, com ampliação de desemprego e falta de perspectiva da juventude.
Desde o ano de 2008, momento em que estourou a crise financeira que por pouco não quebrou o sistema, a instabilidade econômica e as fortes disputas comerciais se tornaram frequentes. O mundo vive hoje a consequência da quebradeira dos Estados, em função da necessidade de esses salvarem as corporações financeiras do desastre gerado pela ampliação da ganância. De lá para os dias de hoje o que se vê é uma crescente insatisfação social, e até por isso com a população fazendo escolhas suicidas, elegendo governantes que vão na contramão de suas expectativas. Naturalmente que a frustração tende a gerar um efeito previsível, de descontentamento e revolta, com explosões sociais levando à grandes manifestações e a cada vez mais a não aceitação da democracia, a refutação da política e a desesperança em relação às suas próprias escolhas.
“No final dos anos 70, os presidentes das 350 maiores companhias do mundo ganhavam, em média, 30 a 40 vezes mais que os funcionários de base. Hoje, a diferença de salário entre o presidente e o peão passa de 300 vezes. Nos Estados Unidos, o salário médio dos trabalhadores encolheu de US$ 4 mil para US$ 2.750 (em valores reais, descontando a inflação do período) entre 1978 e 2010. Já a remuneração do 1% mais rico disparou: foi de US$ 25 mil para US$ 83 mil”. (https://super.abril.com.br/comportamento/os-verdadeiros-donos-do-mundo/)
Esse quadro dos dias de hoje é semelhante ao dos anos 1980, potencializado pela ampliação dos defeitos do sistema e pela acentuação da riqueza cada vez mais controlada por menos pessoas.
Agora como Coringa se insere nisso tudo? Vou ter que dar spoiler, não tem jeito. Primeiramente eu me preocupei em criticar o anacronismo presente em diversas análises. Feito isso, preciso falar sobre o personagem que me inspira a escrever sobre esse tema, e também procurar entender a razão de tantos manifestantes atualmente usarem uma máscara de palhaço, a marca do Coringa. Substituindo a máscara de “V”, personagem do filme (e dos quadrinhos) “V de Vingança”, muito usada a partir das Jornadas de Junho, aqui no Brasil, como também em diversas manifestações por outros países.
O Coringa é um filme tenso. Brinco com alguns que para ir assistir é bom tomar Rivotril antes. É tenso mesmo na primeira parte, quando a violência não explode explicitamente, mas que está inserida nos comportamentos e na maneira das pessoas se relacionarem, na negação do outro, na indiferença diante das complexidades sociais e da miséria que torna a cidade fria e angustiante.
Há a possibilidades de se extrair do filme diversas interpretações, tal qual a parábola dos monges cegos e do elefante. Sem entrar no mérito de outras análises apresentarei o meu olhar sobre o que eu considero a sociopatia que para mim caracteriza o personagem (e, creio que há também uma esquizofrenia) até a descoberta de que fora enganado por sua mãe, em uma história que deixa dúvida no espectador (esse é um spoiler pela metade). A partir disso, e de algumas outras situações nas quais a frustração dele se junta com a revolta por se sentir estigmatizado e desprezado em seus desejos, sua patologia muda de grau e torna-se psicopatia.
O riso, que poderia interpretar uma insensibilidade diante da violência e do mal, e certamente muitos viram assim ao longo da história de Batman e sua relação com Coringa, representa tão somente uma dessas patologias. O riso foge do seu controle, e representa aquilo que historicamente incomoda, a sensação que o outro ri não por alguma coisa, mas de alguma coisa. Coringa não controla o seu riso, e isso o torna potencialmente um alvo da fúria dos que veem nisso uma forma de ironizar ou escrachar o outro. Com o tempo essa sua risada torna-se marca registrada e se vinculará à sua história, de absoluta permissividade com a sociedade que o afrontara e o humilhara.
O Coringa sai dos subterrâneos para se tornar uma imagem no espelho. É essa imagem do espelho que reflete também atrás de si todos os sintomas de uma sociedade doente, violenta, insensível e intolerante. De repente ele vira um símbolo que carrega o desejo de pessoas oprimidas, revoltadas, deprimidas, inseguras e sem esperanças. À espera de um momento para explodirem.
A opressão, marca de uma sociedade desigual, vem cercada de mecanismos que mantém as pessoas submissas. Há uma estrutura perversa, em que micro-poderes estão dispersos e envoltos em elementos repressivos violentos ou não-violentos. Seja a estrutura policial ou do aparato de leis e costumes que perpassam eras e se consolidam às custas de valores jurídicos, religiosos e outras formas visíveis ou invisíveis.
Isso tudo explode quando algo realiza aquilo que no íntimo muitos desejam. Espalha-se rapidamente um anseio de vingança, e da panela de pressão social os ressentimentos contidos vê naquele que ousa romper essa lógica e atingir aqueles que representam a perversão do sistema, pela exploração e condição social diferenciada em meio às desgraças e infortúnios, se não um herói, pelo menos a representação de seus desejos oprimidos.
A palavra de ordem expressa pela multidão que se revolta e se deslumbra com a ousadia de alguém vestido e fantasiado como um palhaço, desconhecido em sua identidade, é o sintoma que não somente o personagem carrega uma patologia social. Toda a sociedade demonstra estar corrompida e adoecida, pela pressão de um sistema injusto, perverso, insensível e cego. “Morte aos ricos”, brada a multidão sedenta de vingança, revanche, ódio, sabe-se lá quantos outros sentimentos estiveram contidos. Pouco importa a identidade de quem friamente comete assassinatos. Pela origem das vítimas tal ato corresponde a esses desejos, e é aceito como bem feito.
E nesse momento que o Coringa se descobre, comete mais desatinos agora já com a convicção do que deseja, de fato. E o que ele quer é potencializado por aqueles sintomas doentios que se espalha também pela sociedade: vingança. Seu ato final expressa agora o perfil de um psicopata, mas não sem antes transmitir ao vivo e pela televisão, para cada um que, com máscara ou sem máscara, se deslumbrava com seu comportamento e ousadia, que aquele ali, nada mais é do que a imagem de cada um expressa em um espelho.
O Coringa, seja no começo dos anos 1980 do século XX, ou no final da segunda década do século XXI, é a imagem no espelho de uma sociedade oprimida, de uma população cordata e submissa em meio a uma desigualdade impressionante. Pelas periferias de cidades pobres e de cidades ricas, humilhadas, desempregadas e sombrias, revoltadas muitas vezes consigo mesmo por seus fracassos, porque assim são educadas a crer, seja pela esperança da fé religiosa ou pela cegueira da crença no que é transmitido pela grande mídia e no marketing bem preparado de especialistas meritocratas. Tudo isso estruturado a serviço dos ricos, dos que acumulam riquezas escandalosamente às custas da exploração desenfreada, da corrupção sistêmica e das transmissões hereditárias de enormes fortunas.
Assim como a máscara de “V”, a máscara de palhaço do Coringa também carrega um simbolismo que reflete a realidade na ficção, e sai da ficção com toda virulência contida em uma enorme panela de pressão. Explodiu em Gotham City... explode em Santiago, em Barcelona, Em Bagdá, no Líbano, no Equador, em Hong Kong, no Haiti... e vai explodir alhures. E como diz Caetano "o Haiti, é aqui". Vai explodir também no Brasil, um dos países mais desiguais do mundo, por outras razões, diferentes das Jornadas de Junho de 2013. Por essas razões contidas explicitamente no filme.
O Coringa está por aí. Ele está na multidão. A qualquer momento seu riso se fará ouvir. O coringa é cada um que carrega o sofrimento, a dor, a miséria, a humilhação e a vergonha de se sentir culpado por ser pobre. Até que se descobre que a culpa de tudo isso, não é sua. É daqueles que enriqueceram às custas de uma violenta e degradante exploração.
O filme, O Coringa, é devastador. E a máscara de palhaço, que se torna a sua marca registrada, vai assombrar cada vez mais os ricos!

terça-feira, 6 de agosto de 2019

A UNIVERSIDADE E A FALÊNCIA DO MUNDO MODERNO

XV Encontro Nacional do Proifes-Federação
Na foto Iago Montalvão, presidente da UNE,
fala na abertura do XV Encontro Nacional do

Proifes-Federaçãlo

O Brasil passa por momentos tensos, e poderia dizer que a sociedade está vivendo uma relação tóxica, marcada por um enebriamento que não tem sido causado por nenhum elemento químico, mas pela estratégia de massificação do ódio, de desconstrução da política, de negação da história e de afirmação de idéias e pensamentos que colidem com tudo que possa tornar nossa convivência social com um mínimo de civilidade.
O mundo já passou por situações semelhantes, e sempre o caminho seguido foi de governos totalitários, ditaduras, e a perversidade que levou a genocídios em regimes nazi-fascistas e/ou marcados pelo sectarismo religioso.
É preciso compreender que isso que vivemos aqui nesses momentos, e nessas situações que podem ser estabelecidas temporalmente a partir do ano de 2013, após as chamadas “Jornadas de Junho”, tem suas peculiaridades e especificidades nas relações políticas brasileiras. No entanto, não somos o único país a conviver com esses comportamentos, nem com a ascensão de governos autoritários e de perfis de extrema-direita. Existem outros países que seguem nessa mesma direção, ou já seguiram e se veem diante desses mesmos dilemas. Acirramento da intolerância, xenofobia, preconceito, negação da política, afirmação de poder para indivíduos de perfis e caracteres duvidosos e com atitudes fascistas.
Não é conveniente, contudo, que o combate a esses comportamentos deva seguir na mesma direção da intolerância que eles exalam. E, infelizmente, esse em sido o caminho que aquelas pessoas que se indignam com atitudes abjetas que comandam esses governos atualmente. Do confronto por meio de atitudes que em muito se assemelha aos seus oponentes, embora em outra direção.
Mas para onde estamos indo com essas atitudes e ações, que embora estejam carregadas de boas intenções, pecam por reforçar uma polarização que divide a sociedade e impede uma reflexão crítica sobre a essência daquilo que representam as mudanças que estão em curso? Quanto mais se reforçam esses embates, majoritariamente travados em redes sociais, mais as posições se cristalizam e torna-se difícil qualquer convencimento. Considerando, para agravar mais ainda a situação, que os comportamentos violentos, preconceituosos e intolerantes têm sido escorados numa base religiosa forte, e que tem crescido em meio à crise de desempregos, do medo e da violência, embora eivadas de hipocrisia considerando-se as distâncias das pregações e leituras sagradas que dizem seguir.
Nos últimos meses assistimos manifestações vigorosas contra as medidas tomadas pelo governo de bloqueio de recursos para as universidades e em oposição à reforma da previdência. Logo em seguida outras manifestações, embora de menor porte, mas de números consideráveis, levaram às ruas centenas de milhares de pessoas que ainda se comportam como uma manada, seguindo convocações que explicitam apoio a ações que afetam duramente a eles próprios, e a sociedade de uma maneira geral, principalmente os mais pobres. O que nos espera nos próximos anos, a seguir essa tendência, e comportamentos que se radicalizam no discurso de ódio que se espalhou perigosamente desde o golpe assestado contra uma presidente legitimamente eleita e à prisão de um ex-presidente em um processo acusatório frágil, com o claro intuito de impedi-lo de se recandidatar à presidência da república?
Creio que é perigoso menosprezar a capacidade do governo atual, e desses “ceguidores” que lhes apoia. E a palavra que usei aí não está errada no sentido que quero dar a ela. Na verdade um neologismo que criei, com a junção das palavras “cegos” e “seguidores”, pois, infelizmente, é essa a realidade que estamos vivenciando, em um quadro onde a possibilidade de se mudar de opinião tem sido muito difícil.
Vivemos um viés conjuntural ainda contaminado por uma crise econômica mundial que estourou em 2008 e teve seus momentos de ápices extremamente preocupantes, com a quase quebra do sistema financeiro mundial. Naquele momento os Estados salvaram diversas corporações financeiras, levando bancos e seguradoras a serem estatizadas, ou reestatizadas, a fim de evitar uma sangria maior no sistema. Ocorre que, por ser estrutural, em função do limite das contradições atingidas pelo capitalismo em sua fase neoliberal globalizante, com muito mais ênfase nas especulações e mercantilização do dinheiro do que propriamente no investimento na produção visando geração de empregos a situação não foi controlada, a não ser momentaneamente a altos custos para a sociedade. O que vimos, ao contrário disso, foi como saída para as grandes corporações o investimento acelerado em inovações tecnológicas que, se por um lado deu impulso às ciências, por outro acentuou o problema dramático do desemprego e da desigualdade social, tanto entre as pessoas como entre estados-nações. Conclusão disso: os estados quebraram e o sistema financeiro seguiu cada vez mais forte em meio às oscilações de uma economia claudicante.
Por um tempo a euforia da globalização ludibriou muitas pessoas, multidões se iludiram com a promessa de um mundo sem fronteiras, com mais facilidades de deslocamentos e acesso às novas tecnologias. Juntamente com tudo isso o que se viu também foi uma ampliação desmesurada da ganância, esse que é o elemento mais marcante no processo que move aqueles que controlam o sistema capitalista e tem acesso às riquezas. E, numa lógica que é de sua essência, quanto mais se tem, mais se deseja ter mais.
No entanto, nas brechas desse processo alguns governos foram eleitos paradoxalmente em meio a essa onda globalizante e na contramão daqueles discursos, visto que defendiam maior protagonismo do Estado na defesa tanto da sua soberania quanto na proteção das populações mais pobres. Com isso, e impulsionado por um fórum criado por ONGs, sindicatos, instituições sociais e segmentos de esquerda, o Fórum Social Mundial, em contraposição ao Fórum Econômico Mundial que se reúne anualmente em Davos, na Suíça, reunindo a nata do capital mundial e as maiores economias estatais do mundo, novas políticas foram sendo implementadas e, ao mesmo tempo, diferentes articulações para alterar o rumo da geopolítica mundial. O surgimento dos BRICS acontece nesse contexto, e, como era de se esperar, começa a incomodar as grandes economias do mundo, em especial os EUA.
Não demorou para que as guerras híbridas, que aconteciam no Oriente Médio e nas fronteiras da Rússia, passassem a acontecer na América Latina. O Brasil, por todo o seu protagonismo na criação desse novo passo geopolítico mundial, assim como por sua tentativa de se imiscuir em assuntos tidos como sagrados pelo império, como no caso das questões relacionadas à algumas das potências possuidoras de enormes reservas de petróleo, como o Irã, e nas discussões sobre enriquecimento de urânio, se tornou alvo nesses movimentos que se articulam para desconstruir governos e manipular multidões para destruir a política e a democracia, e assim derrubar regimes políticos que lhes antagonizem. As Jornadas de Junho deram o “start” de todo esse movimento que levou o nosso país para um abismo de proporções inimagináveis, cujas consequências às vezes nem queremos pensar, no afâ de evitarmos pessimismos e aumento das desesperanças que nos cercam. Mas é preciso lidar com esse ambiente tóxico e com essa areia movediça na qual nos metemos e que nos assusta, porque quanto mais mexemos mais nos afundamos nela.
Aparentemente as nossas instituições estão funcionando. E isso dá um ar de existência de uma república democrática. Contudo, a “res publica”, que deu origem àquele regime que se opunha ao absolutismo e às monarquias centralizadoras do Poder, e que explicitamente representava a “coisa pública”, ou “coisa do povo”, está deixando de existir. Num primeiro momento pelas políticas neoliberais globalizantes, e agora pelo nacionalismo direitista entreguista, vinculado aos interesses das grandes corporações, principalmente aos grandes conglomerados controlados por grandes bancos e sua burguesia pérfida e desejosa de mais poder e dinheiro.
É uma onda, naturalmente, ocorre ao sabor dos descaminhos que acontecem como consequência das contradições na política, e pelo fato da crise econômica estrutural não dá sinal de tréguas. Se acentuando, do ponto de vista da disputa pela hegemonia do poder econômico global, num embate entre gigantes que controlam a produção e o comércio mundial, que se reflete como efeito colateral em todas as demais economias, ampliando o drama de um mundo ainda indefinido quanto aos rumos que deveremos seguir.
Mas, voltando à nossa realidade, independente (até onde seja possível) do que acontece no mundo, é preciso criar ou fortalecer movimentos que tragam luz às trevas que se apresentam nesses tempos. Os ataques ao setor da educação, em especial, merece uma preocupação central, pelo que eles possuem em termos de intenção, do ponto de vista estratégico de quem deseja inibir, cercear ou censurar comportamentos críticos e visões que se contraponham aos desmandos e devaneios do governo.
Temos conhecimento que se articula em nível nacional uma tentativa de criar uma associação de professores de direita. Como em todos os casos desse tipo de entidade, que refuta a ideologia (como se fosse possível viver sem uma), inserem a palavra liberdade em suas denominações, muito embora o que preguem seja exatamente o cerceamento à liberdade de crítica. Pois não devemos ver isso como algo grave que devamos nos preocupar. O que devemos nos preocupar é a falta de envolvimento de nossas entidades e organizações de uma parcela considerável da população, particularmente de nossa categoria, que termina por deixar um vácuo de participação e representatividade que nos impede de programar ações concretas que nos defendam de ataques que prejudicam nossa categoria e que possam vir a ameaçar as liberdades democráticas.
Não sairemos desse impasse atual fugindo do debate, pelo contrário, devemos fazer o inverso, provocar discussões, ampliar nossa capacidade de inserção na universidade, e a partir dela na sociedade.
Uma sociedade tanto mais estará vacinada contra os vírus do obscurantismo e do viés autoritário, quanto mais ela for capaz de compreender todas as contradições que a cerca e quais são os melhores caminhos para evitar um colapso social e a disseminação de conflitos, violências e marginalidades. Somente com uma capacidade crítica e com o despertar de um sentimento do que é ser, de fato, cidadão, pleno de direito e convicto de suas necessidades de participar do processo de transformação social é que podemos combater os ilusionistas, os charlatões que comandam templos e impedem as pessoas de terem uma percepção real das coisas, livres de medos, preconceitos e discriminações.
A universidade cumpre um papel ímpar. Ela não pode se acovardar com os ataques que sofre de setores autoritários e de viés ideológico que teme a liberdade de pensar. E na universidade as nossas organizações, de técnicos administrativos e estudantes, mas particularmente dos professores, devem mudar sua postura sem perder a combatividade necessária. Mas devemos patrocinar mais debates, chamar nossos colegas a participarem de discussões sobre a conjuntura e a necessidade de compreender que uma política decidida por quem não tem a real dimensão dos problemas sociais, poderá trazer consequências para as nossas atividades, mas também para o futuro da sociedade e dos nossos filhos. É um pleno exercício de cidadania, para além da necessidade de termos que trabalhar para usufruirmos de um salário e podermos sobreviver.
Por isso nossas entidades devem assumir um protagonismo mais eficaz, que vá além das palavras de ordem e das agitações para participação de manifestações. Isso é fundamental, importante, e tanto mais quanto maior sejam nossas presenças nesses lugares que demonstrem nossas indignações e representem nossa combatividade e luta. Mas construir uma mentalidade crítica em nossa categoria, na universidade de forma geral, é a mais eficaz vacina que podemos injetar na sociedade. Essa é a condição de impedirmos que o abismo se abra cada vez mais em nossa frente, criar anti-corpos para destruir os vírus que corroem nossa existência republicana e democrática.
____________________________
(*) Artigo escrito para o XV Encontro Nacional do Proifes-Federação, realizado na cidade de Belém-PA. Título original: NOSSA FORÇA ESTÁ NA ORGANIZAÇÃO E NA CAPACIDADE DE DISCERNIMENTO CRÍTICO. Apresentado por mim, Romualdo Pessoa, professor da UFG e delegado ao encontro, eleito pela base da ADUFG-Sindicato.


domingo, 30 de junho de 2019

É A GEOPOLÍTICA, ESTÚPIDO!

Chefes de Estado do G20.
Difícil é encontrar o brasileiro.
Este artigo foi sendo escrito ao final do encontro da “Cúpula do G20”, em Osaka no Japão. Evento que reúne as maiores economias do mundo. Para além de todas as polêmicas que envolveram as discussões nesse encontro de repercussões mundiais, e não poderia ser diferente, há um substrato, para mim importante, que gostaria de destacar. É o que envolve a importância da geopolítica, cada vez sendo mais referenciada nas discussões, acordos e análises sobre as transformações que acontecem no mundo.
O comunicado oficial, final, do G20 se refere explicitamente a “intensificação de tensões comerciais e geopolíticas” no mundo. Consequência de uma situação de crise internacional, que afeta a economia mundial, coloca muitos países em condição de recessão, espalha medo e temor por todo o mundo em função de atritos gerados por políticas protecionistas e unilaterais de alguns países, em especial os EUA, além dos potenciais conflitos que envolvem nações que situam-se em posições estratégicas, particularmente no Oriente Médio, mas, principalmente aquelas que possuem grandes reservas petrolíferas. Além de outros fatores, como os problemas ambientais, o deslocamento de populações, o aumento da pobreza, até mesmo nos países desenvolvidos, e as trasnformações geradas pelo crescimento do gigante chinês, seja nos avanços tecnológicos e na ousada constituição da nova Rota da Seda.
Uso aqui, no título, uma expressão muito conhecida internacionalmente, transformada quase em um mantra, proferida por um assessor de Bill Clinton, num período eleitoral, quando ele dizia que a economia é o elemento principal a definir a política, e, no caso específico, uma eleição presidencial. Procura, assim, dizer que as questões mais sensíveis de um estado-nação estão ligadas à situação econômica, e que isso implica num embate eleitoral, naturalmente.
Faço um paralelo aqui com a geopolítica. Desde que a economia se tornou globalizada, mas não somente depois disso, as questões geopolíticas tornaram-se determinantes nas relações internacionais. Isso se compreendemos, como é natural que façamos, que a geopolítica é o olhar estratégico, tanto analítico, como do ponto de vista das ações governamentais e até mesmo do cotidiano e da vida de qualquer pessoa que deseje focar em seus objetivos e poder alcançá-los definindo os caminhos que a levará a atingir seus desejos e planos adredemente definidos.
No entanto, o que desejo aqui neste artigo é provocar uma discussão, ou prolongar uma discussão que tenho feito ao longo desses anos, que pode ser comprovado aqui em artigos já escritos neste blog. Porque a Geografia não valoriza a Geopolítica, mesmo diante da importância que ela tem tomado desde o final do século XX? Por um lado compreendo, assim como o faz Yves Lacoste, e é nele que me espelho, que a Geopolítica e a Geografia são a mesma coisa. Deixou de ser a partir do momento em que, após a segunda guerra mundial a geopolítica foi estigmatizada, não somente porque ela foi sabidamente utilizada no aparato belicista da ascensão nazista (embora fosse também utilizada por todos os demais países envolvidos naquele e em todos os outros conflitos). Mas houve outro elemento determinante nessa separação da Geopolítica da Geografia. Os embates entre duas escolas acadêmicas na área da Geografia, a lablacheana, francesa; e a ratzeliana, alemã. Os franceses, vitoriosos na segunda guerra, ao lado dos aliados, impulsionou uma desavença bem anterior, fomentada por historiadores que buscavam uma “revisão” historiográfica, e fizeram surgir a “história dos annales”. Assim, buscaram desacreditar essa vertente importante da geografia, de forma a evitar que viesse se sobrepor à história, e, ao mesmo tempo, seguir por um caminho que pudesse reduzir a abordagem política das interpretações geográficas, focadas a partir de então, prioritariamente no cotidiano das relações sociais.
Essa armadilha feita para a Geografia funcionou perfeitamente, e, paradoxalmente, constituiu-se em uma estratégia vitoriosa nessa construção historiográfica. Espalhou-se pelo mundo uma compreensão de Geografia focada naquilo que os franceses compreendiam como elementar para projetar o estado-nação, os estudos regionais. E o planejamento, muito embora devesse necessariamente partir de uma visão estratégica, se constituiu no olhar essencial a partir de divisões regionais que acompanhavam a constituição física e geomorfológica, definindo a partir daí os estudos que orientavam as administrações estatais os tipos de investimentos que devem ser feitos, constituídos a partir dessas características locais e regionais.
Isso é algo absolutamente correto, não há o que negar nesses aspectos, que se constituem nos dias de hoje elementos essenciais para planejamentos urbanos, regionais e ambientais. No entanto, o elemento crucial, e a essência da geografia, deixou de ser observado. Sua importância estratégica, o olhar político que possibilita a ampliação da capacidade crítica e o equilíbrio na identificação dos interesses que estão por trás de qualquer decisão que envolva as questões de Estado. Enfim, a Geopolítica, como elemento fundamental para que possamos ter a compreenssão macro e micro que circunda a própria Geografia como aquilo que muitos chamam de “a ciência dos lugares”, o que nos possibilita compreender tudo aquilo que está à nossa volta, a ligação inevitável que existe entre todos os lugares, nossas vidas e o ecúmeno.Somos movidos pela política, a capacidade de nos entendermos em sociedades cada vez mais complexas (embora se tente desconstruir a política nos dias atuais, mas isso é também um objetivo político). Portanto, é impossível pensar a Geografia sem a política, pois é ela, essa ciência, ou esse saber como desejam alguns, que explica a nossa existência em toda essa dimensão compreendida por milhões de quilômetros quadrados em um planeta esférico, embora a alienação e estupidez de alguns a vejam como plana. Mas os que pensam assim, somente refletem também a forma de seus cérebros.
A Geografia sem a política, é nula de entendimento da realidade. Abstrai-se nas especificidades, e somente serve às vaidades de quem foca seus conhecimentos de maneira limitada, desconsiderando a necessidade de junção de todas as partes que compõem o conhecimento geográfico. Prender-se somente a essas especificidades é reduzir a importância da Geografia, na verdade negá-la, e assumir-se enquanto condutor de uma parte que desconexa-se de um eixo. Os caminhos trilhados pela pós-graduação, seguindo a força imposta pelo globalismo neoliberal, consolidou esse viés, difícil de ser desfeito, principalmente por vivermos um tempo de negação da política.Contudo, isso não impede de reconhecer na Geografia, e na Geopolítica, aqueles elementos que nos dão a possibilidade de conhecer, em toda a essência de uma dialética que é real, como se dão as transformações que ocorrem no mundo, seja econômica, ambiental, da escasse hídrica, de alimentos, portanto não somente no que se convencionou imaginar como sendo o único elemento a se entender pela geopolítica: a guerra. Algo já há décadas desmistificado por um movimento de resgate da geopolítica, melhor dizendo, de retomada da política na Geografia, liderado por Lacoste. Mas o que veio depois, a onda neoliberal globalizante, em pouco tempo levou ao esquecimento desse resgate e prevaleceu a fragmentação e, se não a negação, a quase absoluta indiferença em relação a inserção da política como parte essencial e necessária da compreensão geográfica.,
Isso não muda somente com a referência permanente à Geopolítica na mídia ou nesses encontros de chefes de Estados, depende de novas compreensões, de reorientação e reconstrução de uma Geografia que retome a visão de totalidade e compreenda que nesses novos tempos de negação de conhecimentos elementares transmitidos pela universidade, a força desse saber está exatamente em poder dar resposta concretas aos dilemas que angustiam o mundo. Não sozinha, porque também vivemos no tempo de uma necessária multidisciplinaridade, mas jamais conseguirá ser forte como é preciso se se mantiver fragmentada e negligenciando a sua essência fundamental, a política. Que as novas gerações de geógrafos consigam romper com esse viés que acompanha boa parte das gerações que lhes orientam, formadas numa era neoliberal e fragmentária, e resgate para a geografia a importância do saber estratégico que lhe deve ser inerente.



segunda-feira, 24 de junho de 2019

PARA SEMPRE NA LEMBRANÇA (RELEMBRANÇAS - 18 ANOS DEPOIS)

24 de junho de 2019. Completaram-se 18 anos da morte de meu pai (2001). Foi em seu velório, em meio à dor que eu sentia, que fiquei sabendo da morte de outro baiano ilustre, na mesma data. Este um conhecido cidadão do mundo: Milton Santos. Com esse artigo homenageio Milton Santos, por sua dimensão histórica-geográfica mundial, e por extensão, meu pai, cujo papel político se restringiu ao seu Estado e a sua sempre querida cidade natal, Alagoinhas, onde foi vereador por quatro mandatos(**).

Meu pai, Romualdo, com minha
mãe, Maura. Foto de 1991
Meu pai faleceu no mesmo dia que meu Milton Santos. Romualdo Pessoa Campos, também baiano, vereador por 16 anos pelo PTB, na cidade de Alagoinhas, e por várias vezes secretário  da mesa diretora do legislativo daquela cidade, até ser preso em 1964 e ter desistido da política, tornando-se funcionário público do DNER até se aposentar. A altivez e o orgulho pelo seu trabalho alimentavam uma esperança de que o nosso país desse certo pelo esforço de cada um, como ele fazia.
24 de junho, dia de São João, tão lembrado pelos nordestinos. Um dia para ficar para sempre guardado na minha memória.
Um, cidadão do lugar, incorporado na força dos lentos, baiano do interior, embora quase anônimo me alimentou o orgulho de ser seu homônimo. O outro, também baiano, cidadão do mundo (embora ele não gostasse dessa expressão), esgrimindo na força de seus argumentos, de suas criações e elaborações intelectuais a esperança de um outro mundo, de uma outra globalização. E a morte, a igualá-los na eternidade do meu pensamento, na afinidade dos meus sonhos, na consolidação das minhas crenças, e na afirmação das certezas de que embora curta a nossa vida nessa imensidão de tempo que gesta e desenvolve a humanidade, vale a pena lutar, mesmo sendo ela, a morte, a única certeza do porvir. Mas ela não deve nos desanimar, e sim nos reconfortar, na medida em que escapemos da nossa individualidade e possamos transferir nossos sentimentos humanistas para a construção de uma utopia, sem a qual a nossa existência não teria sentido.

MILTON SANTOS: DA BAHIA PARA O MUNDO
CIDADÃO DO MUNDO
Conheci Milton Santos, em 1996 no Simpósio realizado na USP em sua homenagem: “O mundo do cidadão - cidadão do mundo”. Tempo suficiente para aprender a respeitá-lo e admirá-lo, e a me tornar leitor ardoroso de seus textos e livros.
Também baiano, como ele, formado em História, com pós-graduação nessa mesma área, entrei na Universidade Federal de Goiás em um concurso realizado no curso de Geografia, em 1995 para ministrar aulas de Formação Econômica e Social, também dentro da minha área de formação. Ao final do primeiro ano eu tinha uma firme convicção da importância dessa disciplina, por ser ela fundamental para o entendimento da relação tempo-espaço. Afinal, nada se dá fora do tempo, nem ocorre no vazio, senão num determinado espaço. Além da fundamental compreensão de que nada acontece isoladamente, somente este ou aquele fato podendo ser explicado dentro de um processo que aponte as causas e nos dê a dimensão de um presente que nada mais é do que a somatória de tempos passados. A junção e conjunção de espaços que se transformam num acumulo incessante de novos objetos, gerados por outros, que, outrora novos, foram envelhecidos pelo tempo.
Milton Santos passou a ser um referencial para um redirecionamento das minhas dimensões intelectuais. Primeiro, por uma iniciativa própria, senti a necessidade de buscar nas leituras da Geografia a condição necessária para me dar a compreensão de que eu estava ali para ajudar na formação de Geógrafos. Nada mais justo, e coerente, que procurasse aliar os meus conhecimentos historiográficos, à noção e dimensão do pensar geográfico. Senão me perderia num emaranhado de conceitos e categorias, vendo-os de maneira formal, como se vê habitualmente no senso comum, e banalizando a importância do conhecimento geográfico para o entendimento das relações humanas. É preciso bem mais do que uma mera análise da superfície terrestre; dos cursos dos rios; dos afluentes das margens esquerdas e das margens direitas; da localização cartográfica; das capitais e de seus estados; dos tipos de solo e da qualidade da água. Questões importantíssimas para entender o todo que abrange o nosso planeta, mas insuficientes se desconsiderarmos o principal elemento de ligação: o ser humano, razão primeira e última da existência de todo conhecimento, pois é por ele que todo o saber é gerado.
GEOGRAFANDO O HUMANO
O viés humano da Geografia transportava-a, do sentido estrategicamente imposto por séculos, desde os seus primórdios, que visava facilitar (e guardar) a localização de fronteiras dos nascentes Estados absolutistas, ou desde já o desenvolvimento cartográfico para tal fim, objetivando encontrar mercadorias e mercados, para uma visão mais ampla e racional, no entendimento de que era preciso inseri-la como uma ciência humana.
O lugar, o território, o espaço, a paisagem, as cidades, o urbano e o rural; a cultura, as tradições, enfim a busca de conhecimentos não mecanicamente estabelecidos, mas numa interação dialética que aponta claramente as relações entre o planeta e a sociedade, visualizando as “heranças sociais materiais e o presente social”[1]. Sem se limitar, contudo, à simples constatação de uma determinada realidade, mas procurando soluções que dêem conta de resolver os problemas da imensa maioria da população.
A Geografia mudou, num percurso oposto àquele tomado pela História. Enquanto aquela buscava abranger o todo numa abordagem dialética, encontrando no marxismo os elementos basilares para o entendimento da racionalidade e das contradições que moviam as sociedades humanas, o conhecimento histórico tomava outro rumo, caracterizando-se pela fragmentação. A História fragmentara-se e aprofundara-se no localismo, no cotidiano e nas mentalidades, e à medida que aprofundava-se em suas especificidades, afastava-se do presente e da noção de totalidade, mesmo procurando evitar os riscos do anacronismo.
Apesar de Braudel, que soube trabalhar brilhantemente as noções de espaço e espacialidade, e via tempo-espaço como inseparável, o enfoque dialético que ligará os restos do passado à inexorabilidade das explicações do presente, transfere-se para a Geografia, aproximando-a cada vez mais da sociologia, da filosofia, da economia e da própria história.
E ninguém melhor do que Milton Santos soube compreender o momento da Geografia, direcionando seus olhares para o fazer, na maneira como o homem no presente constrói o seu futuro sobre os restos do passado. Vendo nas técnicas, e em seus usos, as respostas para o entendimento das complexas relações sociais, como “um dado fundamental da explicação histórica, já que a técnica invadiu todos os aspectos da vida humana, em todos os lugares”.[2] Mas, mesmo com tais considerações, ele via a vida “não como um produto da técnica, mas da política, a ação que dá sentido à materialidade”[3]
Surpreendentemente, se considerarmos os direcionamentos dos fatos históricos das duas últimas décadas do Século XX, a produção intelectual do professor Milton Santos avançou na contramão de idéias hegemônicas que procuravam colocar-se como esclarecedoras e definidoras de um fatalismo, que nos impunha a crença em um fim do qual não poderíamos escapar. A “globalização” colocava-se como inevitável, e a sociedade futura como um deslumbramento da vitória do “livre-mercado” sobre o “leviatã”, inoperante máquina do Estado a entravar o progresso. Não somente o neoliberalismo despontava como o ápice das liberdades, como o pós-modernismo surgia para por fim à uma época que se caracterizou pela consolidação dos Estados-Nações e que alcançou seu auge, e também os limites de suas contradições, com o Welfare-State. A crise do socialismo dava um ar de déjà-vu, de estancamento de uma utopia cujo “fracasso” só confirmava a convicção de ser o capitalismo e a economia de livre-mercado o futuro incontestável da humanidade.
Não foi essa a análise que fez Milton Santos em 1993, momento máximo da euforia neoliberal, no 3° Simpósio Nacional de Geografia Urbana, realizada no Rio de Janeiro, quando apontava as principais tendências dos anos 90:
“Na hora atual, e para a maior parte da humanidade a globalização é sobretudo fábula e perversidade: fábula porque os gigantescos recursos de uma informação globalizada são utilizados mais para confundir do que para esclarecer: a transferência não passa de uma promessa. (...) Perversidade, porque as formas concretas dominantes de realização da globalidade são o vício, a violência, o empobrecimento material, cultural e moral, possibilitados pelo discurso e pela prática da competitividade em todos os níveis. O que se tem buscado não é a união, mas antes a unificação”.[4]
Contudo, apesar da acidez das suas críticas quanto ao processo da globalização, da destruição de valores e do encolhimento do indivíduo à superficialidade de suas relações, gerado pelo enorme poder da massificação midiática, Milton Santos apontava na contradição de ser este mundo três em um só, o elemento motivador da crença de que a globalização não passa de uma percepção enganosa onde se impõe a informação, alicerçada na produção de imagens e do imaginário. “O primeiro é o mundo tal como nos fazem vê-lo: a globalização como fábula; o segundo seria o mundo tal como ele é: a globalização como perversidade; e o terceiro, o mundo como ele pode ser: uma outra globalização”[5].
Assim, direcionou seus últimos escritos na contraposição do discurso hegemônico, caracterizado como “Consenso de Washington”, e se tornou uma das vozes mais importantes na abordagem do processo que atravessa a humanidade nas últimas duas décadas do século passado. “Ao contrário do que se disse antes, a história não acabou; ela apenas começa. Antes o que havia era uma história de lugares, regiões, países. (...) O que até então se chamava de história universal era a visão pretensiosa de um país ou continente sobre os outros, considerados bárbaros ou irrelevantes”.[6]
Acreditando na força do pobre e do lugar, Milton Santos enfatizava, utilizando-se de uma expressão da professora Maria Adélia de Souza, que “todos os lugares são virtualmente mundiais”,[7] o próprio sentido da globalidade corresponderia a uma maior individualidade, e nessa relação unicidade-totalidade acreditava que tornava-se necessário encontrar os novos significados do mundo atual redescobrindo o lugar.
Aos pobres ele concedia a primazia de situar-se num ponto de intersecção com o futuro. Acreditava que o distanciamento ao totalitarismo da racionalidade transformava as imagens do conforto, da modernidade tecnológica, em miragens para aqueles que por não estarem inseridos nessa aceleração contemporânea, nesse mundo da profusão de sempre novos objetos, eram por ele caracterizados como “homens lentos”. E por assim ser, por escaparem dessa ventura vedada aos ricos e às classes médias, é que os pobres podem esquadrinhar as cidades e ver na diversidade a necessidade de transformação.
FILOSÓFO DA GEOGRAFIA
“Trata-se, para eles, da busca do futuro sonhado com carência a satisfazer -carência de todos os tipos de consumo, consumo material e imaterial, também carência do consumo político, carência de participação e de cidadania. Esse futuro é imaginado ou entrevisto na abundância do outro e entrevisto, como contrapartida, nas possibilidades apresentadas pelo Mundo e percebidas no lugar”.[8]
Como afirmou o geógrafo e ex-presidente da SBPC, Aziz  Ab’Saber, Milton Santos foi um filósofo da Geografia. Procurou incorporar a crítica aos seus estudos geográficos num crescente resgate da concepção humanista, fundamentada na dialética marxista e no existencialismo sartriano. E assim, ele se impôs perante a Geografia mundial, e no Brasil se tornou um dos mais citados intelectuais das três últimas décadas. Para confirmar a exceção, numa regra caracterizada pela formação cultural dominada por uma elite branca e “estrangeirizada”, a sua cor negra não foi barreira para que se consolidasse como uma das vozes altissonantes da universidade brasileira, e de nossa cultura de uma maneira geral. Autoridade que lhe permitia, inclusive, cobrar coerência de seus colegas de Academia, e a ser duro nas críticas à apatia em que vivia a universidade.
No seu último escrito, um artigo publicado pelo jornal Correio Braziliense, afirma que “por definição, vida intelectual e recusa a assumir idéias não combinam. Esse, aliás, é um traço distintivo entre os verdadeiros intelectuais e aqueles letrados que não precisam, não podem ou não querem mostrar, à luz do dia, o que pensam. (...) A apatia ainda está presente na maior parte do corpo professoral e estudantil, o que é sinal nada animador do estado de saúde cívico dessa camada social cuja primeira obrigação é constituir, como porta-voz, a vanguarda de uma atitude de inconformismo com os rumos atuais da vida pública”[9].
***
Quando escrevi esse artigo minha filha ainda estava viva. Em 2007 ela também se foi, para ficar para sempre na memória. Certamente a palavra que usei no parágrafo anterior – reconfortar - passou a ter um peso maior com a morte dela. Sigo tentando, mas é muito difícil, afinal, embora seja mais fácil nos conformarmos com a morte de nossos pais, pela ordem natural quando chegada a velhice - assim imaginamos – é diferente quando perdemos um filho ou uma filha. Mas, sim, a morte não pode desanimar aqueles que ainda não sucumbiram a ela e que carregam consigo a utopia de um outro mundo, mais justo e solidário. Apesar das evidências apontarem para o contrário, no coração da maioria prevalece esse sentimento que embalou a vida dos que aqui homenageamos. Inclusive minha filha, que como canta Gonzaguinha, carregava essa certeza na pureza de ser criança. A vida, ela segue, a não ser para aqueles que já passaram por ela e nos esperam em algum lugar.

(*) Este artigo foi escrito no mês de junho de 2001, duas semanas após a morte de meu pai e de Milton Santos, um ano de perdas pessoais e de abalos geopolíticos mundiais com o ataque terrorista ao World Trade Center. Foi publicado nesse mesmo ano no Jornal Opção, de Goiânia, no Jornal A Tarde, de Salvador em um suplemento cultural especial sobre Milton Santos. Depois inseri o texto, com alguns reparos no Boletim Goiano de Geografia, Vol. 21, n. 1. Em 2010 postei um resumo dele neste Blog. Publico mais uma vez, na íntegra para lembrar, os 18 anos da morte desses dois baianos que de maneiras diferentes foram personagens importantes em minha vida. Um me fez gente como sou, o outro me aproximou da Geografia para sempre. 
(**) 24 de junho de 2019. Volto a publicar este artigo, dezoito anos depois da morte de meu pai, e de Milton Santos. O que está dito  aí não pode ser apagado. Eu relembrarei sempre nesta data.

[1] Santos, Milton. Território e Sociedade. São Paulo: Ed. Fund. Perseu Abramo, 2000. Pág. 26
[2] Santos, Milton. Técnica, espaço, tempo. São Paulo: Ed. Hucitec, 1994. Pág. 67
[3] Idem, Pág. 39
[4] Idem, Pág. 56
[5] Santos, Milton. Por uma outra globalização. São Paulo: Record, 2000. Pág. 18
[6] Idem, Pág. 172
[7] Santos, Milton. A natureza do espaço. São Paulo: Hucitec, 1996. Pág. 252
[8] Idem, Pág. 261
[9] Correio Braziliense, 03 de junho de 2001
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