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sexta-feira, 31 de maio de 2024

O TEMPO ANACRÔNICO DO ANDES – Ou, me inspirando em Saramago, “O espetáculo da cegueira”

Fiquei feliz ao ler no site A Terra é Redonda, o artigo do prof. Valter Lúcio de Oliveira, “Andes x Proifes – a disputa no sindicalismo docente”. Me identifiquei com a maior parte do escrito, embora possa discordar de alguns poucos elementos contidos na sua análise. Mas no geral, creio que ele foi bastante feliz ao identificar os problemas existentes na luta sindical, e nas questões relacionadas às disputas entre essas duas representações docentes.

O que me surpreendeu foi com a dita surpresa que seu artigo proporcionou a outro colega. Me refiro à réplica, ou algo parecido com isso, em texto produzido por Lucas Trentin Rech, “Assembleias docentes” publicado nesse mesmo site. Economista, me parece que ele lê os números ao seu bel prazer, na tentativa de dar explicação filosófica ao que na democracia se compreende como desejo da maioria real, factual, mas não necessariamente presencial. Caso contrário teríamos que abolir o sistema eleitoral pelo qual são eleitas as representações parlamentares e os gestores municipais, estaduais e federal. Ora, pois que senão após debates restritos, sem a participação popular, televisionado, segue-se a escolha, pelo voto, daqueles que irão nos representar. Como negar o direito de tantos, que não participam desses debates, à suas escolhas, feitas ao longe, mas cientes de suas responsabilidades e, acreditamos, formuladas a partir de suas próprias compreensões, no dito e no contradito.

Negando a possibilidade de plebiscito, para que se possa aferir o desejo de fato da maioria dos docentes às suas escolhas, este colega se aproxima da incongruência bolsonarista que repele a todo custo a ampliação da democracia, e nega os resultados que lhes são contrários, quando a aplicação desta aponta para uma maioria que não lhe favorece. Assim, visam destruir o objeto daquela consulta, buscando a todo o custo desacreditar desse mecanismo, inevitável para os dias atuais.

O “assembleísmo” defendido pelo professor Rech, nada mais é do que uma arena, um ringue, onde aquele que se expressa melhor, ou o que fala com mais veemência, consegue agradar um quantitativo que, mesmo minoritário, se apresenta como mais barulhento e impositivo, causando uma reação se não de indiferença, mas de apreensão, com as bravatas e comportamentos agressivos adotados para inibir e “convencer” boa parte de uma plateia que se cansa e se retira à medida em que o tempo favorece ao histrionismo dessa minoria que procura se impor pela virilidade de seus discursos.

Há muito que a Universidade perdeu essa capacidade de debater, de saber conviver com os contrários, de usar da dialética para compreender a necessidade de evoluir nos pensamentos e nas compreensões fechadas da realidade. O embate de ideias foi substituído pela negação da contradição, pela afirmação da pós-verdade, pelo emburrecimento de quem não deseja ser contraditado. Pior do que isso, as redes sociais terminam completando esses comportamentos, e por ali persiste a continuidade de um discurso que não se encerra nas assembleias, porque o contraditório precisa ser destruído, como nos últimos anos a extrema-direita soube muito bem usar desse mecanismo para destruir reputações.

E, se nas assembleias já não é possível o debate, como consequência dessa negação, nas redes sociais a virulência do discurso, a desqualificação do outro, se espalha em meio à difícil identificação dos autores das ofensas e das fake-news, que são usadas para convencer quem seja mais facilmente seduzido pela radicalidade do discurso e pela ilusão das promessas fáceis de representações fajutas e irresponsáveis. Porque sabe entrar numa peleja por essa radicalidade, mas fica encantoada e desorientada na hora de sair, pela incompetência e incapacidade de saber negociar, e buscar um entendimento no confronto de posições que são adversas e contrárias.

Esse mecanismo, e comportamento, defendido pelo professor Rech, se explica pela condição de manipular a maioria. A estrutura de funcionamento do Andes Sindicato, anacrônica, mas que favorece a uma minoria extremista, “esquerdista”, no sentido aplicado por Vladimir Lênin, embora a maioria da universidade não se afine com seus ideais, dificulta a que uma oposição consequente e desejosa de mudança consiga sucesso. Estrutura não somente nessas condições de negar uma participação maior dos colegas docentes, mas também de dificultar que numa votação direta se possa substituir esses agrupamentos que controlam uma máquina milionária.

A Andes, ou O Andes, não “representa” somente os professores e professoras do ensino superior federal. Ela abrange universidades estaduais, municipais, faculdades isoladas e fundações, que lhes servem somente nos momentos de processos eleitorais, de definição de suas diretorias. Torna-se assim, pela dimensão do quantitativo de tantas instituições, praticamente impossível mudar os rumos dessa entidade, aprofundando seu anacronismo, mas também, ao contrário do que se expressa seus defensores, um autoritarismo crescente que tenta inviabilizar, em meio a uma legítima pluralidade sindical, a possibilidade de outras alternativas, de outros caminhos, que não seja pela radicalidade do discurso ou da violência e intolerância no tratamento com as divergências.

O PROIFES surgiu exatamente do conflito desses embates e desse comportamento autoritário e esquerdista, avesso às negociações, bem presentes nas diretorias do Andes. Como nos últimos acordos, inclusive em relação à melhoria de nossas carreiras, foi a Federação que se dispôs a sentar com os governos, e buscar atingir o melhor, diante do possível, com a absoluta ausência do Andes. Isso incomodou seus seguidores a um ponto de expressar o grau de intolerância, de imposição e de não aceitação de outra entidade que possa ameaçar esse tempo anacrônico no qual ela está fechada. 

Mas todo ciclo se encerra. Por mais que a Andes tente impedir as transformações no movimento docente, cada vez mais se amplia essa possibilidade, de se forjar alternativas que fuja dessa postura sectária e autoritária, de imaginar que suas proposições devem ser, sempre, enfiadas goelas abaixo nos governos que estiverem de plantão. Claro, desde que sejam governos progressistas. Pois que, calando-se diante dos governos de extrema-direita, como em exemplo recente, em que se passaram seis anos sem que se houvesse mobilização para greves nos governos Temer e Bolsonaro.

Mais do que entrar numa negociação, o que deseja com esse comportamento andesino, é abrir uma luta que vai para além de questões salariais ou de reposição orçamentária para as universidades, mas visa construir um protagonismo radical que dê visibilidade a grupos políticos que não possuem o mínimo de representatividade na sociedade.

Distantes desses debates e dessas discussões, muitos colegas embarcam nos discursos radicais, e são convencidos de que o céu não é tão distante para os seus desejos. No entanto, como já dizia um personagem shakespeariano, numa frase muito conhecida, mas pouco compreendida, “há muito mais coisas entre o céu e a terra, do que imagina nossa vã filosofia”.

domingo, 19 de maio de 2024

BREVE COMENTÁRIO SOBRE A PROPOSTA AO MOVIMENTO DOCENTE - DITA FINAL PELO GOVERNO - PARA OS REAJUSTES SALARIAIS

Mais uma vez direciono meus comentários para os colegas professores e professoras da Universidade Federal de Goiás.

Já publiquei outros artigos aqui no meu Blog, que vocês podem acessá-los, se ainda não o fizeram, que complementam este que escrevo aqui agora, com o intuito de analisar a proposta feito pelo governo para o escalonamento de nosso reajuste, e algumas mudanças em nossa carreira docente.

Inicialmente, uma pergunta básica? Quem tem medo da democracia? Digo isso porque é impressionante a quantidade de ataques de “haters”, ofensas, palavras injuriosas e tentativas de desqualificar o nosso sindicato Adufg, bem como o Proifes-Federação. Temos anotado e copiado essas atitudes bizarras de colegas, e pessoas em geral, visto que não conseguimos identificar algumas delas, porque não se restringem a quem é da UFG. Depois que baixar a temperatura, causada pela greve, iremos ver quais providencias adotaremos, dentro daquilo que a lei nos permite.

Mas em relação ao questionamento que faço, a resposta é simples. Quem tem medo da democracia é quem não consegue conviver com o contraditório, com outras ideias e propostas que não são necessariamente as suas. A forma de se contrapor a uma opinião, para quem não consegue conviver com o debate acadêmico, ou mesmo político, é mediante o uso da agressividade, do ódio, e da intempestividade em impedir que tal proposta, ou ideia, tenha prosseguimento. No computo geral, da avaliação política, chamamos isso de “fascismo”, a tentativa de calar, pela forçar quem tenha outros argumentos que contrarie determinada pessoa propensa à intolerância, autoritária e avessa à democracia. 

Dito isso, vamos ao que importa, porque o que queremos é discutir o que está posto na mesa de negociação para resolver o impasse do nosso reajuste salarial, dentre outras coisas: A proposta apresentada pelo Governo, pela terceira vez, e após reuniões e sugestões de algumas entidades.

Primeiro é necessário ter a percepção, e a compreensão política, de alguns elementos que servem como balizamento para entendermos as dificuldades impostas por conjuntura política complexa e a própria, e imperativa, postura do governo, em não apresentar nenhum percentual para nossa categoria, neste ano de 2024. Tudo isso foi agravado com a tragédia que se abateu sobre o Rio Grande do Sul, com forte impacto econômico não somente naquele estado, mas no Produto Interno Bruto do próprio país. Dada a relevância econômica que ele possui, tanto em termos industriais, como principalmente na agricultura e na pecuária (agroindústria).

Se já havia um forte compromisso do governo com o dito “arcabouço fiscal”, e a obsessão pelo “déficit zero” (não dá pra comentar essas questões aqui), com os últimos resultados econômicos, aliados a essa catástrofe climática (que não pode ser atribuída à natureza, mas também não cabe aqui a análise socioambiental desse desastre), nos permite ter a convicção que não haverá acréscimo por parte do governo à proposta já apresentada, no que nos foi informado que esta seria a última, e será levada no dia 27 para o acerto, ou acordo, final.

Podemos apostar, insistindo em uma proposta de índices mais elevados. Claro que isso é o desejo de qualquer docente (não estou analisando a paralisação dos TAEs, mas tão somente dos docentes). Mas podemos ficar, como no dito popular, segurando na brocha, e os negociadores do governo a retirar a escada de nossos pés, nos deixando pendurados. Assim, poderíamos chegar a um impasse e ao fechamento dessa mesa de negociação, que só poderia ser aberta novamente às vésperas do que o governo considera nossa data base, o mês de maio de 2025. Ou seja, perderíamos também o reajuste proposto para 1º de janeiro de 2025. É pagar para ver.

Mas não somos irresponsáveis. Fazemos parte de um Sindicato e de uma Federação, que há muitos anos vem priorizando as negociações, entendendo que essa forma de se chegar a um acordo pressupõe que as duas partes vão gradativamente abrindo mão de suas propostas iniciais, até chegar a um possível trato final, em que cada um vai cedendo um pouco.

O que está colocado agora na mesa de negociação, para ser fechada no dia 27, não é o que queríamos inicialmente. Mas também não é a proposta inicial do governo. Este manteve o ano de 2024 sem reajuste (concedendo somente aumento nos benefícios), mas trouxe na segunda proposta uma antecipação da validade do reajuste, de maio para janeiro de 2025, acrescendo o percentual inicial de 4,5 para 9,0%. Reduziu de 4,5 para 3,5% em maio de 2026, mas isso não tem muito impacto na somatória, devido a antecipação da validade do reajuste para janeiro de 2025, quatro meses antes da proposta original (maio de 2025). 

No prosseguimento das negociações os representantes do governo aceitaram elevar os valores para as classes de entrada (o que vai beneficiar também os professores substitutos), além do aumento de 4,0% para 4,5 e 5,0%, respectivamente nos anos de 2025 e 2026, nos nossos “steps”, ou o aumento que temos automaticamente em nossos salários (preenchendo-se os requisitos, naturalmente) entre cada degrau de nossa carreira. O que impacta também na somatória final no comparativo entre como estávamos no começo deste governo, até o último ano dessa gestão (2026).

Síntese das propostas do Governo Federal, entre 2023 e 2026
Fonte: GOV.BR (2023, 2024, 2024b)
Extraído do artigo do Prof. Tadeu Arrais (ver em www.adufg.org.br)

Defendemos a aceitação dessa proposta, para evitar ficarmos sem nada e sermos forçados a negociar mais uma vez no começo do próximo ano. E não somos irresponsáveis de imaginar que um movimento grevista, aprovado somente com 5 votos de diferença, possa ter fôlego em permanecer por mais tempo. Até porque não usamos da greve como um instrumento político para confrontar governo, nem muito menos para termos algum tipo de protagonismo político. Nosso objetivo é garantir que, em meio a negociações tensas, mas que não tínhamos desde o governo Dilma, possamos chegar a um acordo que nos permita diminuir boa parte de nossas perdas salariais. Para que, em um novo governo, e já na elaboração do orçamento para 2027, possamos garantir outros reajustes, quando podemos zerar essas perdas e avançarmos para termos aumentos reais. A depender do caráter desse governo, a ser eleito. 

Até lá, deverão permanecer abertas as mesas setoriais, e a luta por recomposição orçamentária nas universidades e melhoria de trabalho, tanto para docentes como para técnicos administrativos, que travam sua luta em paralelo. Da mesma forma, uma universidade bem servida de dotação orçamentária, e de gestão democrática, nos possibilita discutir sobre onde internamente devemos investir mais. Nesse ponto, a participação estudantil é fundamental, dado a suas reivindicações serem pertinentes na defesa de melhoria das condições para que possam estudar e permanecer em uma universidade que possibilite os retornos necessários para uma formação completa, em todos os sentidos.

A luta continua, e é permanente.

(*) Acesse também o canal @ROMUCAPESSOA no YouTube: 

https://youtu.be/uYExj8BfISI

terça-feira, 6 de agosto de 2019

A UNIVERSIDADE E A FALÊNCIA DO MUNDO MODERNO

XV Encontro Nacional do Proifes-Federação
Na foto Iago Montalvão, presidente da UNE,
fala na abertura do XV Encontro Nacional do

Proifes-Federaçãlo

O Brasil passa por momentos tensos, e poderia dizer que a sociedade está vivendo uma relação tóxica, marcada por um enebriamento que não tem sido causado por nenhum elemento químico, mas pela estratégia de massificação do ódio, de desconstrução da política, de negação da história e de afirmação de idéias e pensamentos que colidem com tudo que possa tornar nossa convivência social com um mínimo de civilidade.
O mundo já passou por situações semelhantes, e sempre o caminho seguido foi de governos totalitários, ditaduras, e a perversidade que levou a genocídios em regimes nazi-fascistas e/ou marcados pelo sectarismo religioso.
É preciso compreender que isso que vivemos aqui nesses momentos, e nessas situações que podem ser estabelecidas temporalmente a partir do ano de 2013, após as chamadas “Jornadas de Junho”, tem suas peculiaridades e especificidades nas relações políticas brasileiras. No entanto, não somos o único país a conviver com esses comportamentos, nem com a ascensão de governos autoritários e de perfis de extrema-direita. Existem outros países que seguem nessa mesma direção, ou já seguiram e se veem diante desses mesmos dilemas. Acirramento da intolerância, xenofobia, preconceito, negação da política, afirmação de poder para indivíduos de perfis e caracteres duvidosos e com atitudes fascistas.
Não é conveniente, contudo, que o combate a esses comportamentos deva seguir na mesma direção da intolerância que eles exalam. E, infelizmente, esse em sido o caminho que aquelas pessoas que se indignam com atitudes abjetas que comandam esses governos atualmente. Do confronto por meio de atitudes que em muito se assemelha aos seus oponentes, embora em outra direção.
Mas para onde estamos indo com essas atitudes e ações, que embora estejam carregadas de boas intenções, pecam por reforçar uma polarização que divide a sociedade e impede uma reflexão crítica sobre a essência daquilo que representam as mudanças que estão em curso? Quanto mais se reforçam esses embates, majoritariamente travados em redes sociais, mais as posições se cristalizam e torna-se difícil qualquer convencimento. Considerando, para agravar mais ainda a situação, que os comportamentos violentos, preconceituosos e intolerantes têm sido escorados numa base religiosa forte, e que tem crescido em meio à crise de desempregos, do medo e da violência, embora eivadas de hipocrisia considerando-se as distâncias das pregações e leituras sagradas que dizem seguir.
Nos últimos meses assistimos manifestações vigorosas contra as medidas tomadas pelo governo de bloqueio de recursos para as universidades e em oposição à reforma da previdência. Logo em seguida outras manifestações, embora de menor porte, mas de números consideráveis, levaram às ruas centenas de milhares de pessoas que ainda se comportam como uma manada, seguindo convocações que explicitam apoio a ações que afetam duramente a eles próprios, e a sociedade de uma maneira geral, principalmente os mais pobres. O que nos espera nos próximos anos, a seguir essa tendência, e comportamentos que se radicalizam no discurso de ódio que se espalhou perigosamente desde o golpe assestado contra uma presidente legitimamente eleita e à prisão de um ex-presidente em um processo acusatório frágil, com o claro intuito de impedi-lo de se recandidatar à presidência da república?
Creio que é perigoso menosprezar a capacidade do governo atual, e desses “ceguidores” que lhes apoia. E a palavra que usei aí não está errada no sentido que quero dar a ela. Na verdade um neologismo que criei, com a junção das palavras “cegos” e “seguidores”, pois, infelizmente, é essa a realidade que estamos vivenciando, em um quadro onde a possibilidade de se mudar de opinião tem sido muito difícil.
Vivemos um viés conjuntural ainda contaminado por uma crise econômica mundial que estourou em 2008 e teve seus momentos de ápices extremamente preocupantes, com a quase quebra do sistema financeiro mundial. Naquele momento os Estados salvaram diversas corporações financeiras, levando bancos e seguradoras a serem estatizadas, ou reestatizadas, a fim de evitar uma sangria maior no sistema. Ocorre que, por ser estrutural, em função do limite das contradições atingidas pelo capitalismo em sua fase neoliberal globalizante, com muito mais ênfase nas especulações e mercantilização do dinheiro do que propriamente no investimento na produção visando geração de empregos a situação não foi controlada, a não ser momentaneamente a altos custos para a sociedade. O que vimos, ao contrário disso, foi como saída para as grandes corporações o investimento acelerado em inovações tecnológicas que, se por um lado deu impulso às ciências, por outro acentuou o problema dramático do desemprego e da desigualdade social, tanto entre as pessoas como entre estados-nações. Conclusão disso: os estados quebraram e o sistema financeiro seguiu cada vez mais forte em meio às oscilações de uma economia claudicante.
Por um tempo a euforia da globalização ludibriou muitas pessoas, multidões se iludiram com a promessa de um mundo sem fronteiras, com mais facilidades de deslocamentos e acesso às novas tecnologias. Juntamente com tudo isso o que se viu também foi uma ampliação desmesurada da ganância, esse que é o elemento mais marcante no processo que move aqueles que controlam o sistema capitalista e tem acesso às riquezas. E, numa lógica que é de sua essência, quanto mais se tem, mais se deseja ter mais.
No entanto, nas brechas desse processo alguns governos foram eleitos paradoxalmente em meio a essa onda globalizante e na contramão daqueles discursos, visto que defendiam maior protagonismo do Estado na defesa tanto da sua soberania quanto na proteção das populações mais pobres. Com isso, e impulsionado por um fórum criado por ONGs, sindicatos, instituições sociais e segmentos de esquerda, o Fórum Social Mundial, em contraposição ao Fórum Econômico Mundial que se reúne anualmente em Davos, na Suíça, reunindo a nata do capital mundial e as maiores economias estatais do mundo, novas políticas foram sendo implementadas e, ao mesmo tempo, diferentes articulações para alterar o rumo da geopolítica mundial. O surgimento dos BRICS acontece nesse contexto, e, como era de se esperar, começa a incomodar as grandes economias do mundo, em especial os EUA.
Não demorou para que as guerras híbridas, que aconteciam no Oriente Médio e nas fronteiras da Rússia, passassem a acontecer na América Latina. O Brasil, por todo o seu protagonismo na criação desse novo passo geopolítico mundial, assim como por sua tentativa de se imiscuir em assuntos tidos como sagrados pelo império, como no caso das questões relacionadas à algumas das potências possuidoras de enormes reservas de petróleo, como o Irã, e nas discussões sobre enriquecimento de urânio, se tornou alvo nesses movimentos que se articulam para desconstruir governos e manipular multidões para destruir a política e a democracia, e assim derrubar regimes políticos que lhes antagonizem. As Jornadas de Junho deram o “start” de todo esse movimento que levou o nosso país para um abismo de proporções inimagináveis, cujas consequências às vezes nem queremos pensar, no afâ de evitarmos pessimismos e aumento das desesperanças que nos cercam. Mas é preciso lidar com esse ambiente tóxico e com essa areia movediça na qual nos metemos e que nos assusta, porque quanto mais mexemos mais nos afundamos nela.
Aparentemente as nossas instituições estão funcionando. E isso dá um ar de existência de uma república democrática. Contudo, a “res publica”, que deu origem àquele regime que se opunha ao absolutismo e às monarquias centralizadoras do Poder, e que explicitamente representava a “coisa pública”, ou “coisa do povo”, está deixando de existir. Num primeiro momento pelas políticas neoliberais globalizantes, e agora pelo nacionalismo direitista entreguista, vinculado aos interesses das grandes corporações, principalmente aos grandes conglomerados controlados por grandes bancos e sua burguesia pérfida e desejosa de mais poder e dinheiro.
É uma onda, naturalmente, ocorre ao sabor dos descaminhos que acontecem como consequência das contradições na política, e pelo fato da crise econômica estrutural não dá sinal de tréguas. Se acentuando, do ponto de vista da disputa pela hegemonia do poder econômico global, num embate entre gigantes que controlam a produção e o comércio mundial, que se reflete como efeito colateral em todas as demais economias, ampliando o drama de um mundo ainda indefinido quanto aos rumos que deveremos seguir.
Mas, voltando à nossa realidade, independente (até onde seja possível) do que acontece no mundo, é preciso criar ou fortalecer movimentos que tragam luz às trevas que se apresentam nesses tempos. Os ataques ao setor da educação, em especial, merece uma preocupação central, pelo que eles possuem em termos de intenção, do ponto de vista estratégico de quem deseja inibir, cercear ou censurar comportamentos críticos e visões que se contraponham aos desmandos e devaneios do governo.
Temos conhecimento que se articula em nível nacional uma tentativa de criar uma associação de professores de direita. Como em todos os casos desse tipo de entidade, que refuta a ideologia (como se fosse possível viver sem uma), inserem a palavra liberdade em suas denominações, muito embora o que preguem seja exatamente o cerceamento à liberdade de crítica. Pois não devemos ver isso como algo grave que devamos nos preocupar. O que devemos nos preocupar é a falta de envolvimento de nossas entidades e organizações de uma parcela considerável da população, particularmente de nossa categoria, que termina por deixar um vácuo de participação e representatividade que nos impede de programar ações concretas que nos defendam de ataques que prejudicam nossa categoria e que possam vir a ameaçar as liberdades democráticas.
Não sairemos desse impasse atual fugindo do debate, pelo contrário, devemos fazer o inverso, provocar discussões, ampliar nossa capacidade de inserção na universidade, e a partir dela na sociedade.
Uma sociedade tanto mais estará vacinada contra os vírus do obscurantismo e do viés autoritário, quanto mais ela for capaz de compreender todas as contradições que a cerca e quais são os melhores caminhos para evitar um colapso social e a disseminação de conflitos, violências e marginalidades. Somente com uma capacidade crítica e com o despertar de um sentimento do que é ser, de fato, cidadão, pleno de direito e convicto de suas necessidades de participar do processo de transformação social é que podemos combater os ilusionistas, os charlatões que comandam templos e impedem as pessoas de terem uma percepção real das coisas, livres de medos, preconceitos e discriminações.
A universidade cumpre um papel ímpar. Ela não pode se acovardar com os ataques que sofre de setores autoritários e de viés ideológico que teme a liberdade de pensar. E na universidade as nossas organizações, de técnicos administrativos e estudantes, mas particularmente dos professores, devem mudar sua postura sem perder a combatividade necessária. Mas devemos patrocinar mais debates, chamar nossos colegas a participarem de discussões sobre a conjuntura e a necessidade de compreender que uma política decidida por quem não tem a real dimensão dos problemas sociais, poderá trazer consequências para as nossas atividades, mas também para o futuro da sociedade e dos nossos filhos. É um pleno exercício de cidadania, para além da necessidade de termos que trabalhar para usufruirmos de um salário e podermos sobreviver.
Por isso nossas entidades devem assumir um protagonismo mais eficaz, que vá além das palavras de ordem e das agitações para participação de manifestações. Isso é fundamental, importante, e tanto mais quanto maior sejam nossas presenças nesses lugares que demonstrem nossas indignações e representem nossa combatividade e luta. Mas construir uma mentalidade crítica em nossa categoria, na universidade de forma geral, é a mais eficaz vacina que podemos injetar na sociedade. Essa é a condição de impedirmos que o abismo se abra cada vez mais em nossa frente, criar anti-corpos para destruir os vírus que corroem nossa existência republicana e democrática.
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(*) Artigo escrito para o XV Encontro Nacional do Proifes-Federação, realizado na cidade de Belém-PA. Título original: NOSSA FORÇA ESTÁ NA ORGANIZAÇÃO E NA CAPACIDADE DE DISCERNIMENTO CRÍTICO. Apresentado por mim, Romualdo Pessoa, professor da UFG e delegado ao encontro, eleito pela base da ADUFG-Sindicato.