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segunda-feira, 22 de junho de 2020

SOBRE A HISTÓRIA E AS ESTÁTUAS QUE SÃO ALVOS DA MULTIDÃO

“O historiador deixa a futurologia para os outros.
Mas tem uma vantagem sobre o futurólogo.
A história o ajuda, se não a predizer o futuro,
ao menos a reconhecer o que há de historicamente novo
no presente – e com isso, talvez, lançar luz sobre o futuro”.
(ERIC HOBSBAWM)[1]

Estátua de Churchill sofre ataque no Reino Unido - O Dia
Nestes tempos insidiosos nem tudo ficou limitado à resistência e o embate na luta contra o vírus “sars cov-2”. Despertou nas ruas, a partir dos Estados Unidos, historicamente preso a um passado sombrio escravagista, os clamores centenários de quem vive em estado de opressão permanente. As pessoas de pele negra, os pretos como orgulhosamente insistem em serem chamados, vítimas constantes de um racismo estrutural, tal como aqui no Brasil, tomaram as ruas acompanhados por multidões de gente que se assume antirracista, a fim de quebrar um ciclo de repressão policial violenta e mortífera que se repete há séculos.
Em meio a essa explosão de fúria justificada, como reação à violência absolutamente desnecessária e injustificada de uma estrutura policial racista e vinculada às ideias e comportamento típicas dos supremacistas brancos, uma onda que se espalhou por outras partes do mundo, tornaram-se alvos da multidão estátuas que glorificam colonizadores responsáveis por impor esse viés de uma permissividade que justifica no imaginário da sociedade a distinção entre heróis e bandidos pela cor de suas peles, pela condição social ou pelo local de moradia. Como se vê muito também aqui no Brasil, as periferias das cidades, as comunidades pobres são alvos permanentemente de ações violentas das polícias, quase sempre terminando em assassinatos de jovens inocentes. E inverte-se a ordem no sentir medo de quem.
Em sequência a essa reação, que levou a destruição ou a ameaça de retirada de estátuas de praças e locais públicos, uma série de questionamentos e reportagens circularam pelos meios de comunicação, tentando compreender esses atos tidos como extremos e de vandalismos, ou debatendo quais as importâncias desses símbolos que se espalham por praticamente todas as grandes cidades do mundo. Em muitos casos tornados atrativos turísticos pela grandiosidade das artes que os erigiram a essa condição, mas sem que a história possa expor a nu a plena realidade do que está por trás desses personagens.
Estátua de soldado confederado, nos EUA
derrubado pela multidão - O Estadão
Quando muito são apresentados relatos oficiais, que mais servem para criar falsos mitos em torno desses indivíduos (em sua imensa maioria homens, e brancos) por meio de uma iconografia manipulada, da valorização da imagem e do menosprezo pela história e por aqueles que eventualmente não possuíam vozes para se contrapor à força de seus colonizadores, dos mercenários que vagavam por esse país à caça de índios e ao saque de ouro, e dos coronéis cujas patentes foram adquiridas por atos políticos em função das forças regionais que possuíam.
O que nos falta fazer é a iconologia, para que possamos entender a história e/ou o tema que está por trás de cada um desses personagens, representados por estátuas, nomes de logradouros e construções públicas, e saber o verdadeiro significado de seus atos. Evidentemente com todo o cuidado para não cometermos o erro do anacronismo. Mas é essencial que a cada tempo possamos fazer uma revisão historiográfica ampla, de forma que a sociedade possa saber o que representa ou representou essas figuras. É claro que suas exposições dessa forma não é um mero sinal de agradecimento. Elas representam, por meio desse simbolismo, valores que estão ligados às classes sociais dominantes, em cada época. E, por prosseguirem dominando enquanto classes pelos tempos que advieram, significam a manutenção desses valores, e objetivamente visam prosseguir no intento de persistir no controle do poder político.
Estátua de Buda destruída pelo Talibã
 no Afeganistão - BBC
Portanto, são símbolos que tem suas valorações artísticas, embora alguns de profundo mal gosto, mas carregam na verdade elementos de uma cultura política, marcados pela imposição da força da classe dominante e a subalternação do pobre, da população mais fragilizada econômica e culturalmente. Em quaisquer circunstâncias que analisarmos, em qualquer país, essas estátuas representam esses poderes e sua manutenção. Houve uma época, ao final do século XIX e começo do século XX, que isso passou a se denominar “estatuamania”, segundo Eric Hobsbawm.
O que já foi chamado de “estatuamania” atingiu o auge entre 1870 e 1914, quando 150 estátuas foram erigidas em Paris, contra apenas 26 de 1815 a 1870 – e estas basicamente figuras militares, quase todas removidas depois de 1870. (...) Mas depois da Grande Guerra, com exceção dos novos memoriais de guerra universais, estátuas de bronze e mármore saíram claramente de moda”.[2]
Não devemos olhar para essas representações somente pelo aspecto artístico, que atrai a atenção muitas vezes pela beleza da plasticidade com que foi produzida. Porque ela carrega, sempre, um forte simbolismo. Qualquer que seja a obra de arte ela reflete uma concepção ideológica, muitas vezes marcada por um movimento que rompe com modelos anteriores, e se impõe com novos traçados, e que se adequa ao tempo em que foi construída. Independente de analisarmos sob o viés político à esquerda ou à direita. Ela é representativa de algum tipo de expressão que reflete aquele momento, ou para se contrapor ao poder estabelecido, e confrontá-lo, ou para reproduzir a ideologia dominante.
Mural de Guernica - Wikipedia
Conta-se que Pablo Picasso foi interpelado por um oficial franquista sobre a obra que estava sendo exposta, e que acabara de ser pintada. “Foi você que fez isso”? Teria perguntado o oficial. E Picasso teria respondido: “Não, foram vocês”. Era a pintura denominada “Guernica”, uma das mais importantes obras artísticas, representativa do estilo cubista, que teve neste artista espanhol uma de suas principais referências. Nela ele retratou o bombardeio alemão nazista, em 1937, sobre a cidade de Guernica, durante a guerra civil espanhola.
Por isso que não somente a iconografia é importante quando se trata de analisar uma obra de arte. Mas também é preciso fazer um estudo iconológico, que possa interpretar de maneira mais aprofundada todo o contexto que levou à produção daquela peça, os condicionantes históricos. Ou seja, que vá além da análise estética e compreenda a contextualização do tempo em que ela se deu e as concepções ideológicas que ela carrega.
Em sendo assim, podemos sim, e devemos questionar as razões de determinadas representações artísticas prevalecerem sobre um tempo que está além da sua existência enquanto objeto artístico a que ela se destinava. Sua permanência obedece a interesses que estão ligados aos poderes, às ideologias dominantes e à manutenção de status quo, com as consequentes determinações que estão por trás de todo o seu simbolismo: controle ideológico, conformação social e aceitação de uma história oficial, para além da realidade imanente.
Para prosseguir mais um pouco na análise feita por HOBSBAWM:
Há três demandas básicas que o poder costuma fazer à arte, e que o poder absoluto faz em escala bem maior do que autoridades mais limitadas. A primeira delas é demonstrar a glória e o triunfo do próprio poder (...); A segunda grande função da arte nesse contexto era organizar o poder como drama público. Rituais e cerimônias eram essenciais para o processo político (...); Um terceiro serviço que a arte poderia prestar ao poder era educacional ou propagandístico: ela poderia ensinar, informar e inculcar o sistema de valores do Estado.[3]
Estátua de Lênim derrubada por grupos
de extrema-direita  na Ucrânia - FSP
Historicamente acontecem, ou aconteceram, movimentos insurrecionais, ou revoluções, que se espalham por todos os tempos em diversos lugares do mundo. Para qualquer um deles que se imponha haverá simbolismos que estarão representados em obras artísticas, e que quase sempre, e inevitavelmente, eles substituirão outros que representavam os valores dominantes que existiam até então. Não é raro vermos essas representações artísticas, principalmente estátuas, serem derrubadas no bojo de algumas dessas revoltas populares, mesmo que elas não se sagrem vitoriosas. Mas caso o processo de transformação social se dê com a intensidade que compreende a alteração radical das classes no comando do poder político e econômico, certamente os símbolos que as representavam serão derrubados. Na melhor das hipóteses eles farão parte de algum museu, onde essas relíquias serão demonstradas para fins de compreensão da história de um povo, de um país, ou para análises estéticas enquanto obra de arte.
Pois bem, estamos vivendo um momento de intensas, embora não bruscas, transformações sociais. É aquele período identificado quando analisamos os declínios de formações econômicas e sociais, de transição histórica. Momento em que um modo de produção gradativamente vai sendo substituído por outro. Um tempo lento, que pode durar mais de um século. Esse processo tende a ser de intensos embates, revoltas sociais, crises econômicas de caráter estrutural e políticas, que são acompanhadas de aumento da criminalidade e desobediência civil. Nesse momento costuma ascender ao poder personagens populistas, com discursos fáceis, mas de comportamentos autoritários e antidemocráticos. Quando não há no horizonte uma formação social que possa substituir a decadente, essa transição pode ser ainda mais demorada e angustiante.
Estátua de padre investigado por pedofilia
na Polônia - Notícias ao minuto
Nessas condições é que vemos atualmente muitos questionamentos sobre personagens de caracteres duvidosos, ou de comportamentos fascistas e atos preconceituosos contra populações oprimidas, mas que são representados como heróis por meio de estátuas e denominações de pontes e logradouros, por diversas cidades do mundo. Foram governantes, militares, empresários, aventureiros ou mercenários, em épocas bem distintas da atual, embora alguns em passado bem recente. A maioria homens. Se destacaram, quase sempre, por adquirirem força e poder em ações de ocupação e colonização, contra populações aborígenes em continentes como a África, Ásia e América Latina. Mas são também personagens que enriqueceram internamente a cada um dos países dessas regiões por meio de escravização de indígenas e dos povos africanos, acumulação de bens a partir dessas ações e de saques de riquezas minerais e grilagens de terras.
Em Bristol, Reino Unido, multidão derruba
estátua de comerciante de escravos - GGN
Naturalmente, a radicalização social e política, a ocupação das ruas por multidões que se levantam contra atos agressivos de corporações militares e grupos organizados de cunho racistas e preconceituosos, tem se voltado contra esses ícones, estátuas que representam indivíduos que atraem a fúria dos que se levantam contra a opressão, as condições de desigualdades e a violência que atinge populações pobres, negras e as mulheres. A Temperatura tem subido aceleradamente em função de uma grave crise econômica, que já estava em curso e se acentuou com o advento de uma pandemia que praticamente deixou em marcha lenta o sistema capitalista. Como resultado dessa somatória de situações que se agravam, o brado das ruas tende a se acentuar, e essas representações estatuárias dos heróis das classes dominantes se tornarão cada vez mais alvos da fúria de uma multidão sequiosa de justiça.
Como já expressei em outras publicações, e como historiador, abomino a presença de uma estátua em pleno centro de Goiânia, na confluência de duas de suas mais importantes avenidas. Não devemos negar a importância e necessidade de estudar os feitos e fatos que estão por trás desse personagem, denominado por um apelido cuja versão, provavelmente fantasiosa, teria sido originada do espanto dos indígenas que ele tinha por prática aprisiona-los para escravizá-los e vende-los em São Paulo, de onde era originário. Embora vivesse boa parte de sua vida pelos sertões, não se sabe ao certo onde teria morrido, Bartolomeu Bueno da Silva, Anhanguera, “Diabo Velho”, como ficou chamado, assim como os demais bandeirantes, e por meio das expedições denominadas “Entradas”, além de delimitar territórios se ocupavam em perseguir negros escravizados fugitivos e, principalmente, aprisionar índios. Ao seu filho, homônimo, "o Moço", deve-se dar um protagonismo maior, em função de ter sido responsável pelo surgimento de Vila Boa, atual Cidade de Goiás, onde teria morrido e sido sepultado.
Bartolomeu Bueno - o Anhanguera
ou "Diabo Velho" - Goiânia, Centro
Naturalmente são personagens que devem ser entendidos em suas épocas, e estudados historicamente dando-lhe a dimensão exata de suas ações. No entanto, a perpetuação de personagens que com o tempo suas atitudes começam a ser questionadas pelos avanços da sociedade, na luta contra a opressão e por direitos humanos, representam afrontas a esses movimentos e às conquistas obtidas a muito custo e ainda de forma tênue. Suas exposições configuram-se ofensivas àqueles segmentos que trazem suas histórias de descendências marcadas pela discriminação, pelo viés racista e pelo ódio que se alimenta dessas deformações históricas que terminam por justificar discursos preconceituosos, de falsas meritocracias e de menosprezo contra as populações mais fragilizadas.
Anhanguera não é herói, nem merece o pedestal em que se encontra, representado por sua estátua, com um bacamarte na mão, símbolo da conquista e opressão. Os que reforçam esse falso mito perpetuam uma lógica de dominação colonial, de submissão e de um provincianismo que termina por reduzir o tamanho da importância e da valoração daqueles que construíram por seus esforços, trabalho e dedicação uma outra história, que representa muito mais os valores e cultura do povo goiano. Quem sabe outro símbolo melhor representasse a ocupação dessa região, de fixação no lugar, diferente dos preadores de índios e saqueadores de ouro, cujos resultados iam enriquecer outros lugares.
Mais recentemente Borba Gato foi o alvo de grupos ensandecidos, e ávidos por revisarem uma historiografia paisagística que enfeitam, ou enfeiam, as cidades, quase que como num movimento iconoclasta moderno. Tal qual outros bandeirantes, seu feitos "heroicos" vem repletos de perversidades contra povos originários. Acusado de ser preador de índios, saqueador de ouro, escravizador de negros e estuprador de mulheres indígenas, sua aura de "santo" só serve ao interesses da elite paulista, que se beneficiou desses atos de violência e tem sido usado culturalmente para formular o "mito do herói fundador". Representa perfidamente todo o processo sangrento de ocupação do sertão e o genocídio cometido contra indígenas e contra os negros. A despeito do "progresso" que se atribuiu a esses aventureiros, não se pode omitir seus atos homicidas, e, se seus feitos ao mesmo tempo não podem ser vistos anacronicamente, também não se pode negar o papel destruidor de grupos étnicos e extorsão de riquezas de um interior que se manteve pobre como decorrência de seus "feitos gloriosos" que regozijam as camadas dominantes.
Assim, no questionamento e na revisão historiográfica, torna-se necessário rever muitos mitos criados ao sabor dos interesses políticos das classes dominantes, no objetivo de manter submisso o povo, a idolatrar personagens que outrora oprimiam seus antepassados. Na radicalidade da luta, e nas transformações sociais, no advento de multidões que questionam tudo isso, essas revisões se dão na prática, no enfrentamento e na derrubada daqueles simbolismos que afrontam as lutas contra as desigualdades sociais, o racismo, a misoginia e todos os tipos de preconceitos.



NOTAS:
[1] HOBSBAWM, Eric. Um século de simbolismo cultural. In: Tempos Fraturados, cultura e sociedade no século XX. São Paulo: Cia das Letras, 2013. P. 39
[2] HOBSBAWM, Eric. Arte e Poder. In: Tempos Fraturados, cultura e sociedade no século XX. São Paulo: Cia das Letras, 2013. P. 271

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A DEMOCRACIA, O ANDAR DO CARANGUEJO E A REALEZA NA TERRA DE CEGOS

Uma rápida análise sobre o resultado eleitoral do primeiro turno das eleições deste ano, confirma as preocupações e receios que manifestei em vários artigos desde o famoso junho de 2013. Insisti por várias vezes que a multidão na rua não significava melhoria nos níveis de consciência política. A falta de organização, a violência que se seguiu e a captura do discurso inconformista difuso, por questões muito variadas e sem foco, pela grande mídia, além da repetida política do medo, sustentada por uma estratégia de amplificar o sentimento de insegurança, indicava que o voto conservador prevaleceria nessas eleições. As condições criadas pela presença maciça das pessoas nas ruas, “indignadas”, principalmente jovens, favoreceu aos setores reacionários, desejosos de retroceder em políticas sociais e de retomar o controle do Estado no interesse de uma minoria desejosa por mais lucros e menos investimentos nas camadas pobres. Isso não é análise sociológica, é fato, real, esteve presente nos embates nesse processo eleitoral, muito embora negado para esconder a roupagem conservadora embutida nos programas de governos e indicado nas mentes pouco brilhantes daqueles que coordenaram as campanhas que se opunham às políticas efetivadas pelo governo federal.
Ainda é tempo para mudar. Mas a opção à direita não conduz o nosso país adiante. Ao contrário, imporá um retrocesso para a adoção de políticas do interesse da elite econômica. Essa é a razão das constantes oscilações negativas da bolsa de valores cada vez que a candidata Dilma Roussef ampliava sua diferença dos demais. É a aposta que o “mercado” faz. Mas esse ente abstrato, se concretiza no capital financeiro, que por sua vez, traduz-se nos investidores, especuladores, na burguesia empresarial, financeira e latifundiária.
Diante de um mundo em crise, resultado de políticas neoliberais, e de ações do Estado para salvar grandes investidores e impedir falências de grandes empresas e corporações financeiras, seria um enorme contrassenso, e andar na contramão dos que desejam mudanças positivas, eleger no Brasil um candidato que represente os equívocos de tais políticas, causadoras da grave crise econômica que afeta todo o mundo.
Mas, o que se vê até aqui, com a composição do parlamento brasileiro, é que o voto conservador, escorado no medo, na apologia da violência, na manipulação dos desejos do povo pela grande mídia, foi em parte vitorioso. Não significou, em absoluto, melhorias nos níveis de consciência política do eleitor. Basta proceder a uma radiografia do processo eleitoral, a elaboração de uma geografia do voto, e se terá uma análise concreta disso que concluo nesse texto. E, isso nos mostrará, independente de quem se eleger no segundo turno, que se tornará muito mais difícil a articulação com esse Congresso, mais conservador e reacionário do que antes. E igualmente fisiológico. E será mais improvável aprovar a realização de um plebiscito que venha a propor uma reforma política, que reveja as condições pelas quais o processo político gera distorções na representação parlamentar, comparando-se com a composição da sociedade brasileira.
O povo brasileiro queria mudar. Mudou o parlamento para pior. Como sempre ocorre quando a organização política fracassa e cede espaço para a multidão cega se manifestar. Mas pode ficar pior ainda. Enfim, essa é a democracia capitalista, e ela prevalecerá porquanto o seu processo não significar um questionamento real e contundente das mazelas que esse sistema produz na vida da maioria daqueles que estão inconformados. Mas esses são cegos, porque sem consciência política, tornam-se incapazes de identificar por quais caminhos as mudanças realmente podem acontecer. E, na encruzilhada, e tomados pela cegueira, seguem rumos que os levarão de volta para o passado.
É evidente que nem todos são cegos, mas esses poucos, disfarçados, adotam o discurso da mudança. Confundem a multidão alienada e fazem valer o velho ditado, que diz, que “em terra de cego quem tem um olho é rei”.
A seguir destaquei alguns trechos de alguns artigos que publiquei desde as famosas “jornadas de junho”. Compare-os com a  realidade das urnas nesse primeiro turno:

CADÊ A MULTIDÃO?

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Junho de 2013, manifestações repentinas levaram multidões às ruas. Se imaginou passar o Brasil por profundas transformações. Em alguns artigos eu alertei que pelo mundo adentro situações semelhantes tinham levado ao poder setores conservadores e da extrema direita. Os resultados de multidões sem direção, cegas e reticentes à aceitarem direções e organização, sempre levaram para rumos opostos ao que se pretendiam. Relembro aqui um artigo que escrevi no auge da febre criada pela multidão. Não mudei uma vírgula. O que se vê hoje? qual o quadro se apresenta nas eleições estaduais e nacional? Mudou a política? Mudou a cabeça da população? Ou a mídia conseguiu manipular a multidão? hoje dispersa e sendo representada por um bando de inconsequentes que só conseguiram criar um ambiente de retrocesso democrático no trato com as manifestações. Qual o quadro político se apresentará ao final dessas eleições?

A FÚRIA: O DESPERTAR DA MULTIDÃO, OU A REVOLTA DE UM INCONSCIENTE COLETIVO?

FRAGMENTOS DE UM OLHAR SOBRE A MULTIDÃO
sábado, 22 de junho de 2013
Eu acompanho essas manifestações há mais de dez anos. Claro, ao longe, como estudioso de geopolítica. A maior delas, ou uma das mais importantes, foi em 1999, durante uma reunião da OMC e gerou um filme chamado "A batalha de Seattle". Já escrevi sobre isso no meu blog (http://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2011/11/indignados-para-qual-direcao-seguem-as.html). Há diversas demandas, revoltas represadas, reivindicações justas. Mas nada disso será possível de ser mudado sem organização. As vozes das ruas, da multidão, criam motivações, e até mesmo uma empolgação exagerada, principalmente na juventude, cuja adrenalina explode e os empurra com força para o embate. É natural e importante que isso aconteça. Mas o que virá depois disso depende da política (ou da guerra, quando fracassa a política, mas aí sabemos as consequências). A multidão tem sido protagonista desde o final do século XX, com grandes protestos antiglobalização, e depois, com a intensificação da crise, na chamada “primavera Árabe”. Os resultados de tudo isso ainda está por vir, mas nos países onde ocorreram houve retrocesso na condução política. Governos mais conservadores e direitistas foram eleitos, Na Grécia, Itália e Espanha. Ou fundamentalistas religiosos, no caso do Oriente Médio, resultando em menos democracia e no fim do Estado laico e o controle de partes dos países por milícias armadas. Devemos refletir sobre esses momentos, mas nada seguirá bem se a política não funcionar, e já há algum tempo uma massificação da ideia de que tudo está ruim. A grande mídia e os setores conservadores têm insistido nisso, e agora os jornalões da Inglaterra e dos Estados Unidos (lembremos-nos de 1964). Existem coisas que precisam ser melhoradas, mas penso que a possibilidade de piorar não é remota. As raposas estão escondidas, prestes a atacar na surdina, como sempre fazem. O melhor que fazemos nesse momento, para saber de fato o que queremos, é, por um lado apoiar as reivindicações que são justas e não sejam pautadas pela mídia, por outro assistir o filme "A dia que virou 21 anos", documentário que está em cartaz sobre o golpe militar de 1964. Para não precisarmos comprovar o que diz Marx, que "a história se repete, da primeira vez como tragédia, da segunda como farsa".
NÃO HÁ MUDANÇA NOS NÍVEIS DE CONSCIÊNCIA POLÍTICA
Tenho uma forte suspeita de que há uma geração que desaprendeu da política, e outra que desconhece o que ela significa, a sua importância. E, principalmente, desconhece a história desse país. Embora nada disso esteja sendo dito no sentido de generalizar, mas essa é uma realidade na multidão que tem ido ás ruas. Tenho críticas, muitas críticas, a algumas atitudes do governo, principalmente quando cede às pressões conservadoras e da grande mídia. Mas conheço o passado desse país, e espero que ele não se repita. Nem como tragédia, nem como farsa, como diria Karl Marx.
O melhor que se faz é buscar se informar sobre as batalhas políticas em curso, senão todos vão no embalo da rede globo. E é preciso também saber como funciona o sistema político. Muita gente está indo para as ruas sem saber isso. A multidão vai às ruas no embalo, mas a cegueira ainda continua. É necessário pressionar por uma reforma política e conscientizar os cidadãos de que não se pode votar em candidatos por simples amizade, mas pelo seu histórico de lutas. O que se vê é a repetição de um voto conservador, em que se elegem empresários, latifundiários e profissionais liberais sem tradição de participação nas lutas sociais. É a própria sociedade que compõe esses parlamentos. Além disso, as novas gerações precisam saber melhor de como era esse país. Embora a maioria das pessoas esteja certa na necessidade de que é preciso melhorar, e muito. Mas não podemos permitir que as nossas liberdades democráticas sejam ameaçadas e que essa multidão torne-se massa de manobra dos setores reacionários. 

SOBRE MÁSCARAS, VIOLÊNCIAS E O DIREITO DE SE MANIFESTAR

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
Aliás, já escrevi a respeito da inversão que se faz ao filme “V, de Vingança”. Ali, o personagem se revolta exatamente contra a manipulação feita por quem pretendia um poder forte. A violência se tornou constante, o regime refluiu no combate e o medo, ao tomar conta da população, a jogou para os braços de um ditador, que militarizou o poder estatal. Foi contra isso que “V” se insurgiu.
O que se vê pelos meios de comunicação, destacadamente nas grandes redes é uma ênfase às notícias sobre fatos violentos, e um clamor crescente da população por mais “segurança”, significando isso mais polícia nas ruas. Ou seja, enquanto nas ruas os manifestantes clamam por desmilitarização da polícia, nos bairros, principalmente os periféricos, a população exige mais polícia, para combater o que a mídia aponta como um descontrole do Estado para conter a violência. No que eu identifico como uma “geopolítica do medo” sendo maquiavelicamente implantada.
Embora a violência exista, e esteja vinculada principalmente ao tráfico de drogas, ela não é combatida em sua essência. Nem as críticas que se fazem a ela dão ênfase às contradições que fazem do capitalismo um sistema profundamente injusto e desigual.
Ao não desejarem participar de organizações de caráter político, e abominarem os partidos políticos, mesmo os que se intitulam revolucionários e socialistas ou comunistas, esses manifestantes deixam de analisar a conjuntura política com base em fatos concretos e na realidade objetiva. Novas "realidades" são perversamente construídas por outros setores da política, que se beneficiam com esses comportamentos, o que leva a fortalecer a indústria do medo, e a exigência de governos fortes, militarizados e com uma base de parlamentares mais conservadores.
Não há dúvidas de que há infiltração nessas manifestações. Tanto por organizações políticas, que temem se apresentar abertamente por medo das reações dos “Black blocs” e visam também “recrutar” novos militantes entre aquela juventude, como por setores fascistas, tipos provocadores que desde aquele momento por mim citado anteriormente, na década de 1980, já se infiltravam em nosso meio. Policiais ou não. Por motivos diferentes esses setores objetivam criar os confrontos para gerar desgaste nos governos, de tal forma que os possam debilitar. O uso da violência, no caso, como mecanismo de se contrapor à repressão policial assume um verniz diferente nos dois casos, mas o resultado é desastroso de qualquer jeito. Principalmente quando o personagem culpado desse tipo de ato não é um indivíduo vinculado às forças repressoras, porventura infiltrado. O que dá margem para a mídia conservadora enfatizar no seu discurso de um ambiente dominado pela insegurança e anarquia.
Não tenham dúvidas de que o principal discurso nas próximas campanhas eleitorais será esse. Dominados pelo medo, que cotidianamente entra em suas casas pelos canais de TV, ou pela própria realidade que as cercam, as pessoas tendem a sucumbir à repetição constante desse discurso, e corremos o risco de ver a eleição de um parlamento muito mais conservador do que o atual.
Esse poderá ser o resultado de atos inconsequentes e irresponsáveis, movidos por um voluntarismo tolo, e a demonstração de atos de estupidez como se fossem atitudes libertárias e revolucionárias. Em um novo tipo de ludismo pós-moderno que está mais para os atos de cegueira atestado por José Saramago.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

PLEBISCITO OU REFERENDO, QUEM TEM MEDO DAS VOZES DAS RUAS?

Pronto, o foco da mídia agora passou a ser outro, a partir da iniciativa da presidenta Dilma Roussef em apressar a Reforma Política, uma das exigências do clamor popular, diante da insatisfação com o atual modelo representativo brasileiro.
Prestem atenção no que passou a acontecer logo após o anúncio feito pela presidenta. Primeiro a ideia de convocação de uma Constituinte exclusiva, a quem caberia a discussão em torno dessa reforma. Seus parlamentares seriam eleitos exclusivamente para discutir e elaborar o novo sistema político-partidário brasileiro. Imediatamente a grande mídia, principalmente a Rede Globo, procurou, seletivamente, apresentar opiniões de juristas contrários à ideia.
Na forma apresentada, a população passou a ser induzida a acreditar que era juridicamente equivocada a iniciativa da Constituinte. Absolutamente manipulada, na medida em que outros juristas, não ouvidos pela mídia, mas cujas opiniões eram expostas em outros canais de informações, embora menos vistos, confirmavam a validade da iniciativa, desde que por iniciativa do Congresso e aprovada por 3/5 dos parlamentares. A meu ver, o temor era que a Constituinte pudesse avança sobre temas mais espinhosos, como a questão do parlamentarismo, ou até mesmo regulamentar muitas leis ainda sem aplicação, como o de imposto sobre grandes fortunas.
A pressão surtiu efeito, a presidenta recuou. Aparentemente argumentando que o prazo para a sua convocação, eleição e vigência seria longo, o que poderia contrariar o desejo popular de celeridade nesse processo.
Passou-se então, a partir daí, às discussões sobre o plebiscito, pois sem a Constituinte, seria essa a forma de participação popular escolhida pelo governo para forçar a aceleração das discussões em torno da reforma política.
Imediatamente a mídia, e mais uma vez a “vênus platinidada” global passa a selecionar vozes discordantes, seguida, como sempre, de uma oposição que não se envergonha em seguir as orientações do “grande irmão”. Desta feita, temerosos do que o povo poderá decidir, desejam substituir o plebiscito por um referendo. Como sempre a tentativa de encobrir os temores políticos escora-se em (falsos) argumentos jurídicos. Como “em cada cabeça há uma sentença”, assessoram-se daqueles juristas que, utilizando-se de seus linguajares “juridiqueses”, adequados para confundir os leigos, disparam uma salada de frases legalistas, que se traduzem no seguinte sentido (segundo a minha interpretação): “não deem ao povo o direito de decidir primeiro”. Ou, como bem direto disse, certa feita, um governador mineiro, Antonio Carlos Ribeiro de Andrada: “façamos a revolução, antes que o povo a faça”.
Repito, fiquem atentos.
Qual a diferença básica, entre mecanismos aparentemente semelhantes? Do ponto de vista da soberania popular a diferença é grande, embora juridicamente seja pequena, e o temor conservador pode ser explicado pelo antes e pelo depois.
Plebiscito é uma expressão de origem latina (plebiscitum). Era o mecanismo adotado pelos imperadores romanos, diante de alguma crise institucional, quando buscava-se amenizar as revoltas populares, da plebe, ou dos plebeus. A fim de conter a massa, o governante, através dos senadores, davam à essa população mais pobre, o direito de definir sobre um tema que a contrariava  e que, porventura, fosse objeto de impasse entre os patrícios e seus representantes. Pode ser entendido como “a plebe opina”. Por esse mecanismo, os temas são propostos para que o povo decida sobre aquilo que deseja tornar-se lei. O que for de seu desejo deverá ser implementado pelos legisladores.
Referendo, que também tem sua origem na terminologia latina (referendum), diferencia substancialmente do plebiscito porque neste caso é dado ao cidadão o direito de apenas “referendar”, ou aprovar (ou recusar) aquilo que já foi discutido e elaborado pelos legisladores ou governantes.
É evidente, que a diferença entre os dois mecanismos identifica claramente os objetivos daqueles que os propõem.
O que temos atualmente. Um congresso parlamentar completamente desmoralizado perante a opinião pública, por várias razões, e a mais relevante é a leniência em tratar de temas que são do desejo da população. Entre eles, a reforma política, empacada que nem jumento velho quando cisma em não arredar o pé do lugar. Obviamente porque há uma falta de sintonia entre o que deseja as ruas e os interesses da maioria daqueles que foram eleitos, em tese, para representá-las.
Temos um Congresso conservador, por essência, na sua composição de classe, que foge completamente daquilo que é a sociedade brasileira. Não importa, agora, que foram eleitos pelo próprio povo. Há uma sublevação em marcha, e diz respeito, em grande parte, à ineficiência política desses parlamentares, que se dispõem somente a agilizar questões relativas aos seus interesses particulares ou das corporações que financiaram suas campanhas. Repito, a maioria, e não a sua totalidade. Mas é essa maioria que define o andamento dos processos e que protela a decisão sobre os temas mais relevantes, de interesse público.
O que deve prevalecer nesse momento é a voz das ruas. São anos e anos com a aspiração de uma reforma política sendo tolhida, porque, naturalmente, os parlamentares que ali estão não desejam realizar mudanças que venham a ferir seus interesses mesquinhos. Seja de confrontar o poder reacionário do latifúndio, o moralismo inepto de fundamentalistas evangélicos e o estilo catatônico de velhas raposas preocupadas somente com o seu curral eleitoral.
Deve-se enviar para a escolha dos cidadãos várias proposições, para que a maioria escolhida seja, obrigatoriamente, seguida pelo parlamento. Que seja dado ao povo o direito até mesmo de errar, mas que não lhe seja usurpado a sua vontade de decidir sobre questões que o levou às ruas. E não somente que, mais uma vez, seja protelado, enrolado e manipulado, uma reforma política, aprovada ao bel prazer de uma maioria conservadora, e empurrada “goela abaixo” somente para ser “referendada”, ou “submetida à aprovação popular”. Isso é muito pouco para o que deseja as vozes das ruas. O povo deseja ser protagonista, como vem sendo, dessas mudanças. E se elas não acontecerem pela política, o processo histórico ensina como prosseguirá.
A multidão, que se revolta até de forma agressiva nas ruas, embora a mídia tente separar bons e maus (principalmente quando a revolta vai para a periferia), tem pressa. E a sua insatisfação é também com esse Congresso que aí está, de uma composição majoritariamente paquidérmica e senil. Ela não quer somente dizer um “sim senhor” ao que ali vai ser elaborado. Ela precisa mais do que isso, e pode fazê-lo sendo lhe dado o direito de decidir entre pelo menos três propostas diferentes para cada tema. É uma ótima oportunidade de fazer as pessoas discutir amplamente aquilo que ingenuamente vem negando: a política.
E é plenamente possível fazer isso através de um PLEBISCITO. Com o congresso discutindo e aprovando aquelas propostas que, entre eles, recebam a maioria dos votos. Para depois elas serem colocadas para que os cidadãos indiquem qual delas deve ser acatada pelo parlamento e legislada definitivamente.
A discussão entre Plebiscito e Referendo não é meramente jurídica. Ela é política. E define claramente, para quem não é um alienado, obviamente, quem tem medo das decisões das ruas. As pessoas que se mobilizaram, formaram a multidão em várias cidades desse país, e ostentaram de formas diferentes e com temas variados, suas indignações com a situação política atual, deve ficar atenta à essas manobras, feitas com as sutilezas do poder midiático, e que visam frear a profundidade das mudanças.
PLEBISCITO, JÁ!

POR UMA REFORMA POLÍTICA DECIDIDA PELO POVO!

sábado, 22 de junho de 2013

A FÚRIA: O DESPERTAR DA MULTIDÃO, OU A REVOLTA DE UM INCONSCIENTE COLETIVO?

FRAGMENTOS DE UM OLHAR SOBRE A MULTIDÃO
Eu acompanho essas manifestações há mais de dez anos. Claro, ao longe, como estudioso de geopolítica. A maior delas, ou uma das mais importantes, foi em 1999, durante uma reunião da OMC e gerou um filme chamado "A batalha de Seattle". Já escrevi sobre isso no meu blog (http://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2011/11/indignados-para-qual-direcao-seguem-as.html). Há diversas demandas, revoltas represadas, reivindicações justas. Mas nada disso será possível de ser mudado sem organização. As vozes das ruas, da multidão, criam motivações, e até mesmo uma empolgação exagerada, principalmente na juventude, cuja adrenalina explode e os empurra com força para o embate. É natural e importante que isso aconteça. Mas o que virá depois disso depende da política (ou da guerra, quando fracassa a política, mas aí sabemos as consequências). A multidão tem sido protagonista desde o final do século XX, com grandes protestos antiglobalização, e depois, com a intensificação da crise, na chamada “primavera Árabe”. Os resultados de tudo isso ainda está por vir, mas nos países onde ocorreram houve retrocesso na condução política. Governos mais conservadores e direitistas foram eleitos, Na Grécia, Itália e Espanha. Ou fundamentalistas religiosos, no caso do Oriente Médio, resultando em menos democracia e no fim do Estado laico e o controle de partes dos países por milícias armadas. Devemos refletir sobre esses momentos, mas nada seguirá bem se a política não funcionar, e já há algum tempo uma massificação da ideia de que tudo está ruim. A grande mídia e os setores conservadores têm insistido nisso, e agora os jornalões da Inglaterra e dos Estados Unidos (lembremos-nos de 1964). Existem coisas que precisam ser melhoradas, mas penso que a possibilidade de piorar não é remota. As raposas estão escondidas, prestes a atacar na surdina, como sempre fazem. O melhor que fazemos nesse momento, para saber de fato o que queremos, é, por um lado apoiar as reivindicações que são justas e não sejam pautadas pela mídia, por outro assistir o filme "A dia que virou 21 anos", documentário que está em cartaz sobre o golpe militar de 1964. Para não precisarmos comprovar o que diz Marx, que "a história se repete, da primeira vez como tragédia, da segunda como farsa".
E CONTRA O CAPITALISMO, NADA? AFINAL, O QUE FAZ VOCÊ FELIZ?
Espero poder morrer tranquilo, mas não em breve, embora a tempo de ver no meio dessa multidão como uma das bandeiras principais "fim ao capitalismo" e "abaixo as grandes corporações que comandam a riqueza no mundo". Porque os problemas principais, em essência, decorrem da lógica que está por trás do funcionamento desse sistema, de um estilo de vida que tem transformado a nossa maneira de ser e de nos relacionarmos, já que tudo decorre das condições que nos permitem consumir. Deixamos de ser cidadãos e aceitamos ser consumidores. Se pudermos consumir, seremos respeitados, senão somos excluídos. Quando essa pauta, que questione o sistema que constrói o abismo que separa ricos e pobres, for colocada como prioritária, aí eu vou acreditar que as consciências acordaram. De qualquer forma é salutar ver a juventude sair da letargia, só espero que os oportunistas não ganhem mais espaço, porque enquanto a juventude tem aversão à política as igrejas mais conservadoras aumentam o número de parlamentares e adotam uma agenda ultra-conservadora.
EM QUAL DIREÇÃO SEGUIR?
As manifestações começaram com um foco específico, o péssimo atendimento nos serviços urbanos, principalmente o transporte coletivo. Muitos problemas que são locais, de responsabilidades dos governos estaduais e municipais. A mídia direcionou as manifestações para outra pauta, incluindo nisso a questão da corrupção e até mesmo o repúdio à PEC 37, mesmo sendo do total desconhecimento da população e isso se espalhou pelas redes sociais. É visível a forma como a mídia regional bloqueia a crítica aos governos locais e estaduais. Dependentes de verbas publicitárias, os órgãos de imprensa submetem-se à pressão, e filtram das imagens os cartazes com críticas a esses governos. Quem não foi nas manifestações não sabem que esses governos são focos das críticas por serem responsáveis pelos setores mais criticados pela multidão. Mas manteve-se superdimensionando, a crítica ao governo federal. Ampliou-se para o ataque à participação de políticos, contra o comportamento oportunista e corrupto de muitos deles, pauta que está já há muito tempo em evidência. Há muitos anos, diga-se de passagem, e por todo esse tempo a mesma população que protesta é a que elege esses mesmos políticos que ela tenta agora “fuzilar”. Mais uma pauta da mídia. Há uma tentativa aqui de criar um sentimento de aversão a política, já que se poderia partir para uma campanha, e a imprensa tem esse poder, de fazer com que a população evitasse repetir o voto naquele político que ela votou. Mas não é isso, o que há por trás é uma clara tentativa de tornar a política algo nefasto. Os reacionários, golpistas de sempre, e os comentaristas pulhas, tipo Jabor, se aproveitaram para tentar induzir o foco. Mas as ações da multidão não são como no período pré-1964. O primeiro a ser sitiado foi o governador de São Paulo, claro, depois a mídia o escondeu. Depois algumas prefeituras viraram alvos. A revolta se deu também contra o Congresso. No Rio de Janeiro e em outras cidades o ataque foi contra a Assembleia Legislativa ou o parlamento municipal. O que é ruim. Mesmo com todos os problemas que existem no parlamento e sua maioria conservadora, esses lugares são sinônimos de democracia. As ditaduras e os fascistas atacam primeiro os parlamentos. É preciso saber escolher os representantes e não destruir a representação. Senão é a anarquia. E aí a população vai clamar pela polícia. Como é contada essa história no filme "V de Vingança", que muitos invertem seu sentido e usam sua máscara com objetivos diferentes. No filme, “V” luta contra o totalitarismo, que foi imposto a partir da manipulação da massa.
NO EMBALO DA MÍDIA
A mídia tentou por todo o tempo, e conseguiu, pautar as reivindicações da multidão. E insistiam a todo o momento que uma das bandeiras é a luta contra a PEC-37.  Perguntei a três jovens que estavam com cartazes na manifestação se conheciam o seu conteúdo, um deles era universitário. Só sabiam dizer que o governo estava tentando impedir que se investigue a corrupção. Não insisti com mais perguntas, sei que 95% desconhecem de que se trata, de fato. Há muita alienação, não conhecem o histórico dessa emenda que está sendo pautada pela Rede Globo. Ela é uma disputa entre as polícias e o ministério público, seu autor é um deputado que é delegado da polícia civil, não tem nada a ver com o governo. É muito relativo dizer que afeta o combate à corrupção, porque é função do Ministério Público oferecer denúncia, esse é o seu papel constitucional. Ademais, o Ministério Público também tem se omitido em investigações importantes sobre a corrupção, como no caso das privatizações e do envolvimento do banqueiro Daniel Dantas, acobertado pelo judiciário, inclusive por um ministro do STF. E quem investigou esse grande corrupto e todo seu esquema, foi a Polícia Federal. Muito embora eu não seja contra o caráter investigativo do Ministério Público, creio que isso deve se dá em conjunto com as Polícias Civil e Federal, caso contrário se dará muito poder a um órgão que tem se pautado pelos refletores. Suas maiores ações são aquelas que garantem uma grande repercussão midiática, e quase sempre expõe suspeitos sem que depois as acusações sejam comprovadas. Mas há por trás disso tudo um nítido objetivo da mídia de direcionar o movimento e incluir na pauta as mesmas questões que estiveram por trás do golpe de 1964.
FUI, VI E VOLTEI... MAIS PREOCUPADO DO QUE ANTES.
Ao contrário da euforia que se espalhou pela multidão nessa semana, o que vi nas ruas me preocupa mais do que me deixa entusiasmado. É inegável que há muita leniência nas ações do governo federal e um engessamento causado pela excessiva burocracia e por ter abdicado de reivindicações históricas. Cito a reforma agrária. E acrescento às concessões feitas às corporações financeiras em isenções de impostos para inchar as cidades de automóveis; cedendo no aumento dos juros para atender à especulação etc. Mas me preocupa, e pude viver isso de perto, de dentro da manifestação, a completa despolitização do movimento. Apesar de concordar com 75%, no mínimo, dos cartazes ali expostos. Saí convencido de que o poder da mídia não pode ser relevado, nem menosprezado. Muitas das reivindicações foram pautadas por ela, logo depois da repressão violenta em São Paulo. Há, sim, em curso, uma tentativa golpista, agora instrumentalizando a multidão, de alterar o jogo político que não tem sido possível fazer com a política tradicional. É claro que essa política tradicional deve ser criticada. E aí entra o grande erro do pragmatismo político de Lula, de buscar repetir os conchavos políticos com setores conservadores, e ceder espaços políticos antes tradicionalmente disputados pelos setores de esquerda, como a área de direitos humanos. É evidente que isso vai se tornando visível, principalmente quando se tinha expectativas diferentes quanto à condução da política. Traduzindo em miúdos: o governo do PT, e aliados, considerou que simplesmente adotar uma política de concessão de benefícios para os setores mais pobres seriam suficientes para agradar politicamente a sociedade, e mais do que isso, para fazer com que fosse sentido que há uma vontade de fazer avançar as mudanças estruturais, pedidas há muitos anos. A camada que se sobrepõe no quesito influência política, é a classe média. E ela arrasta em suas reivindicações, muitas de cunho meramente moralistas (o que não quer dizer que não sejam pertinentes), as demais camadas. 
O que aconteceu este mês no Brasil, foi o estouro de um dique onde estavam represadas expectativas de décadas e insatisfações geradas por comportamentos da classe política, de absoluto desrespeito à sociedade e de repetição de práticas seculares, herdadas do período colonial. Por outro lado, a mídia tem construído um clima de pessimismo desde a posse do Lula, simplesmente negando todo o processo histórico desse país, os avanços obtidos nos últimos anos, e as dificuldades de recompor um estrago nesse país que deve ser compreendido em toda a sua dimensão histórica. Mas considero que erros graves, na postura adotada pelos sucessivos governos pós-FHC, ao não combater as práticas políticas tradicionais, e até mesmo se servirem delas, deram forças a essas insatisfações e revoltas. Não tenho dúvidas. Quem tem o poder nas mãos é que tem a possibilidade de consolidar as mudanças que a sociedade exige. Se não fez isso é porque está completamente fora de sintonia da realidade de seu próprio povo. Não basta maquiar, é preciso mostrar que é diferente, e não ceder às pressões da matilha conservadora. Que essas rebeliões possam servir de exemplo. Mas depois do que vi, e quando cheguei em casa e li as notícias sobre as demais manifestações, me lembrei do livro de José Saramago (e do filme) "Ensaio sobre a cegueira". Os que acharem estranho essa referência vejam o filme.
GARNIZÉS COM COMPLEXOS DE GAVIÕES
Os jornais britânicos se especializaram no Brasil. Naturalmente, o velho e carcomido império colonial, deseja influenciar nas políticas brasileiras, com o claro objetivo de defender suas corporações e gananciosos investidores, o alvo deles, por mais que disfarcem, são os altos juros que lhes garantem um rentismo especulativo, mas que nada favorece ao desenvolvimento brasileiro. Repetem as “vozes do além” estadunidenses, que durante o governo João Goulart atacaram as reformas de base propostas naquele momento, principalmente o controle dos lucros das multinacionais, que deveriam ficar retido no país por, pelo menos, seis meses. Uma pena que o governo Dilma baixou a cabeça e cedeu às pressões, aumentando os juros, para deleite do “The Economist”. Agora, é a vez do "The Guardian" numa abordagem extremamente tendenciosa das manifestações. Eles deveriam se preocupar com a crise econômica que tem transformado a Inglaterra num "garnizé". Não precisamos que aqueles que colonizaram a América e a África venham agora querer ensinar qual o rumo que o Brasil precisa tomar. O desemprego por lá é o dobro do que existe aqui. E a riqueza por eles conseguida decorre de todo esse processo de exploração colonial. A desgraça da África e do Oriente Médio é fruto das ações rapaces do imperialismo britânico.
CEM POR CENTO DOS RECURSOS DO PRÉ-SAL PARA A EDUCAÇÃO
Essa é uma bandeira do movimento estudantil (100% para o pré-sal). Mais investimentos em educação, e se tornou uma das principais reivindicações nas manifestações. Veremos agora quem vai ser contra. Mas é preciso prosseguir atentos, principalmente porque setores da classe média alta se opõem a tudo que venha para atender às necessidades das camadas mais baixas. Há uma batalha no congresso entre parlamentares que desejam que esses recursos vão para seus estados sem que esteja definido para onde.
SOBRE O USO DA VIOLÊNCIA NAS MANIFESTAÇÕES
A mídia está tentando separar as coisas. Não, tudo faz parte de um mesmo movimento. São consequências dele. Há no meio desses grupos gangs e marginais, isso é inegável, mas a maioria dos que foram detidos com esses comportamentos agressivos é composta de jovens sem passagens na polícia, e membros da classe média, como o que foi preso no dia seguinte à depredação da prefeitura de São Paulo, estudante de arquitetura e filho de empresário, e o que foi identificado liderando a quebradeira no Itamaraty, em Brasília. Procura-se transferir para as camadas mais pobres a responsabilidade por atos que visam gerar o caos, e muitos deles são seguramente articulados, mas uma parte vai no embalo da adrenalina. Como sempre criminaliza-se o pobre. A tentativa é mostrar um ambiente de insegurança e de incompetência, e as críticas se voltam contra o governo federal. O comportamento da polícia paulista foi muito estranho, agiu com força desproporcional num primeiro momento, e abdicou de defender os prédios púbicos depois e praticamente desapareceu das ruas no maior protesto. Todas as críticas da mídia passaram a se direcionar para o governo Dilma, quando a principal reivindicação, que diz respeito à mobilidade urbana é de responsabilidade dos demais governos, principalmente. Há uma farsa em curso, é uma tentativa de repetição da forma como foi preparado a estratégia que levou o país a conviver com uma ditadura militar. Se isso se dará como naquele tempo vai depender da maneira como os partidos que apoiam a presidenta, principalmente os de esquerda, que sempre tiveram em suas bandeiras essas reivindicações que estão na rua, irão agir a partir de agora. Não há dúvida que será preciso se reinventarem. E o governo federal precisa deixar de pintar a realidade brasileira com cores que ainda não correspondem aos seus desejos. A realidade é palpável, estamos longe de por fim à pobreza, embora o país tenha avançado bastante. E não adianta ficar olhando para trás, afinal, já se vão dez anos que os neoliberais tucanos foram derrotados. A Nação tem pressa.

A "CEGUEIRA" DA MÍDIA!
Acho melhor falar "parte da mídia", dos grandes grupos de comunicação (A imprensa regional assume outro comportamento, mais ameno, digamos. Contudo fica mais sujeita às pressões dos governos locais e estaduais, e por isso omitem as críticas aos mesmos). Esses meios de comunicação, de linha editorial direitista (Globo, Veja, Estadão, Folha de São Paulo, Band, principalmente), nos últimos anos tem procurado criar um clima crescente de insatisfação na população, parte do objetivo político de levar ao poder seus aliados conservadores. Agora falam como se eles também não fossem alvos dessas insatisfações. Mostram cenas da multidão vaiando as bandeiras de alguns partidos de esquerda (o que demonstra a cegueira, já que não há outro caminho para as mudanças, que não o institucional, e com a ajuda daqueles partidos que apoiam as reivindicações) mas não mostram quando eles próprios são vaiados e precisam disfarçar-se no meio da multidão.  E dão dimensão pequena às cenas de destruição de seus próprios veículos de comunicação (atitudes extremas, e desnecessárias, aliás, mas é fruto da mesma revolta dos que se sentem enganados). As pessoas também estão fartas da maneira como esses órgãos da imprensa procuram manipular as notícias. Por isso a reação da multidão, fazendo com que alguns repórteres omitam o símbolo de suas emissoras. Pode-se usar, também nesse caso, a velha frase de uma música de Geraldo Vandré: "é a volta do cipó de aroeira, no lombo de quem mandou dá".

AS DIMENSÕES DOS PROBLEMAS URBANOS

Pouco se diz, mas é evidente, que as cidades são verdadeiros vulcões, prestes a explodir. Ou melhor, um vulcão em processo de expelir suas mais incandescentes lavas. A questão é, como solucionar problemas crônicos, na rapidez com que está a exigir a pouca paciência do povo e com uma máquina estatal paquidérmica? Não são problemas de agora, mas que foram se acumulando como decorrência da leniência dos governantes, que priorizam as áreas mais sofisticadas, bairros de ricos e facilitando os acessos aos condomínios fechados. Portanto, são problemas que não dizem respeito diretamente ao governo federal, são de responsabilidades locais e estaduais. Nos últimos tempos, apesar da (pequena) redução da miséria, ampliou-se o fosso entre ricos e pobres. Temos várias “cidades” em um único aglomerado urbano. Bairros que são microcosmos, e funcionam como pequenas cidades interioranas, mas compõem um verdadeiro apartheid social. Agora será preciso pressa, e suplantar a burocracia não é fácil. E precisa de muito mais vigilância, porque quando se exige menos burocracia, abre-se mais brechas para corrupção. Estamos naquela situação de como vemos o cachorro correndo atrás de seu próprio rabo. 
NÃO HÁ MUDANÇA NOS NÍVEIS DE CONSCIÊNCIA POLÍTICA
Tenho uma forte suspeita de que há uma geração que desaprendeu da política, e outra que desconhece o que ela significa, a sua importância. E, principalmente, desconhece a história desse país. Embora nada disso esteja sendo dito no sentido de generalizar, mas essa é uma realidade na multidão que tem ido ás ruas. Tenho críticas, muitas críticas, a algumas atitudes do governo, principalmente quando cede às pressões conservadoras e da grande mídia. Mas conheço o passado desse país, e espero que ele não se repita. Nem como tragédia, nem como farsa, como diria Karl Marx.
O melhor que se faz é buscar se informar sobre as batalhas políticas em curso, senão todos vão no embalo da rede globo. E é preciso também saber como funciona o sistema político. Muita gente está indo para as ruas sem saber isso. A multidão vai às ruas no embalo, mas a cegueira ainda continua. É necessário pressionar por uma reforma política e conscientizar os cidadãos de que não se pode votar em candidatos por simples amizade, mas pelo seu histórico de lutas. O que se vê é a repetição de um voto conservador, em que se elegem empresários, latifundiários e profissionais liberais sem tradição de participação nas lutas sociais. É a própria sociedade que compõe esses parlamentos. Além disso, as novas gerações precisam saber melhor de como era esse país. Embora a maioria das pessoas esteja certa na necessidade de que é preciso melhorar, e muito. Mas não podemos permitir que as nossas liberdades democráticas sejam ameaçadas e que essa multidão torne-se massa de manobra dos setores reacionários. 
“V” DE VINGANÇA!
A máscara do filme “V” DE VINGANÇA tem sido muito usado nas manifestações, principalmente por anarquistas e pelo grupo Anonymous. Isso tem acontecido também nos movimentos de "indignados" no mundo inteiro. Alguns usam sem compreenderem a mensagem do filme, que é baseado em uma história de quadrinhos. A revolta do personagem se dá porque um mandatário, com planos para por fim a democracia, permite que a violência assuma uma situação de total descontrole na sociedade, reduz as forças de segurança, a ponto de os cidadãos passarem a exigir um aparato repressivo mais forte. Dessa forma, após um golpe em que impõe o rigor de uma ditadura, ele militariza a sociedade, transforma as pessoas em alienadas e controladas pelo regime fascista. "V", o personagem, então se revolta contra a tirania, e prepara uma vingança para destruir um governo totalitário e fascista. Sua causa, advinha de uma ideia, ou de um ideal, que se contrapunha ao totalitarismo. Completamente diferente do sentido que os "mascarados" atuais tentam dar nas manifestações.
POR UMA NOVA FORMA DE FAZER POLÍTICA
Agora é apostar que surja dessas manifestações, a parte boa, naturalmente, majoritária, novas lideranças dispostas a fazer um novo tipo de política. Isso é tão importante quanto as reivindicações que estão postas, porque as coisas só se resolvem no âmbito da política. Chega de filhos de velhas raposas políticas serem candidatos, de pastores conservadores homofóbicos e de "mauricinhos" lançados por partidos de direita. São dessas manifestações que despontam as melhores lideranças. É uma esperança, mesmo que digam que lideranças de outrora assumiram posturas conservadoras quando chegaram ao poder. Mas se perdermos essas esperanças, aí só o caos, e também não se pode pensar em revolução sem uma vanguarda revolucionária. Só nos resta lutar por mudanças dentro das estruturas que estão aí, revigorando-as com personagens que não estejam viciados pelo eterno compadrismo que caracteriza a política brasileira. Mas não dá para atacar os partidos, eles são os instrumentos pelos quais se farão as mudanças. O que se deve é diferenciá-los, e identificar aqueles que possam erguer essas bandeiras que estão sendo gritadas nas ruas.
Como não creio que os anarquistas tenham razão, de que o caos prevalecerá, me seguro nessas expectativas, pois, ditadura nunca mais. Então, à luta, juventude! Mas com organização. E repito sempre a conhecida frase de Che Guevara: "hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás".
MULTIDÃO!
É preciso também ter a percepção que essa nova forma de fazer política deve também questionar aquelas existentes, tradicionais e fracassadas. São rejeitadas pela multidão e devem ser substituídas. Não se pode mais fechar os olhos, no Brasil e em outras partes do mundo, ao efetivo protagonismo da multidão. Embora ela seja, contraditoriamente, una e extremamente diversa. Como dizem Toni Negri e Michael Hardt, “a multidão é composta de diferenças e singularidades radicais que nunca podem ser sintetizadas numa identidade”. No entanto, ela é facilmente manipulada, a multidão é cega, e o direcionamento para onde ela seguirá dependerá das consequências que serão tiradas desse processo, por quem tem a condução da política.
Depois dessa longa temporada de violência e contradições, de guerra civil global, corrupção do biopoder imperial e infinita labuta da multidão biopolítica, os extraordinários acúmulos de queixas e propostas devem em dado momento ser transformados por um evento de impacto, uma radical exigência insurrecional. Já podemos reconhecer que hoje o tempo se divide em um presente que já está morto e um futuro que já nasceu – e o abismo entre os dois vai se tornando enorme. Com o tempo algum evento haverá de nos impulsionar como uma flecha para esse futuro vivo. Será este o verdadeiro ato de amor político”. (Hardt, Michael e Negri, Antonio. Multidão. São Paulo, Record, 2005)