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domingo, 28 de maio de 2017

A DEMOCRACIA, A REPRESSÃO E O ESTADO MILITARIZADO

A Nota da Associação da Polícia Militar[1], em reação à reportagem sobre a agressão ao estudante da UFG, Mateus Ferreira, apresentada num programa deste domingo (28/05), é absolutamente irracional. Mostra bem que aqueles princípios norteadores da militarização das polícias, construídos durante a ditadura militar, com a criação do SISNI (Sistema Nacional de Informação), cujo objetivo, seguindo bem a orientação estadunidense incorporada nas elaborações teóricas do estrategista Nicholas Spykman, visava no âmbito da guerra fria identificar os inimigos externos e os inimigos internos.
Assim, todos aqueles que ousavam questionar os valores conservadores estabelecidos pelas políticas dos governos aliados dos EUA, e aqui no Brasil dominado pelos militares, eram considerados subversivos, perseguidos, presos, torturados e assassinados. Não se analisavam o caráter das pessoas, e a justeza de suas causas, mas identificavam naqueles que não concordavam com o regime desajustados criminosos, que eram inapelavelmente eliminados. Invertiam-se os valores, e os crimes de tortura e morte eram justificados como cumprimento aos valores patrióticos. Uma aberração, que causou mortes de gente inocente, que lutavam por uma causa justa, por democracia e justiça social.
Passados tantos anos, mesmo décadas depois do fim da ditadura militar, mantêm-se nas corporações militares aqueles mesmos valores, pelos quais se identificam nas rebeldias de jovens inquietos e inconformados com uma sociedade absolutamente desigual e injusta, como perigosos subversivos e criminosos.
Não estou pregando o comportamento agressivo e de enfrentamento com forças repressivas, até pelo caráter desigual do confronto, e por entender que as lutas em curso devem primar pelo equilíbrio e construção de outra forma de democracia, embora saiba tratar-se de uma tarefa difícil, pelas reações violentas às lutas democráticas. Também deploro a destruição do patrimônio público, porque é um patrimônio do povo e construído por meio de impostos  extraídos do suor da maioria que não sonega. Mas é indefensável usar um argumento de proteção do patrimônio quando se coloca em risco vidas de jovens, quando se adota uma forma repressiva nitidamente letal. E percebe-se que no caso em discussão, isso absolutamente não estava acontecendo, muito menos se identifica Mateus Ferreira em algum ato de depredação, conforme já mostrado por diversos ângulos no momento da agressão por ele sofrida.
O papel da polícia militar é de segurança, de garantias de defesa da segurança da população, primordialmente. Não pode ser de atentar contra a vida. Embora seja inegável que nas circunstâncias de uma atividade de risco muitos policiais perdem suas vidas. Evidente que também é lamentável ver isso ocorrer e deve-se louvar o trabalho daqueles que se dedicam com afinco a uma profissão que é de proteger o cidadão. Contudo, na medida em que se confunde um comportamento criminoso, com uma atitude de rebeldia e insatisfação social, percebe-se uma mudança nos objetivos dessa instituição, e um retorno à maneira como se procedia nos períodos mais violentos e antidemocráticos de nosso país, na ditadura militar. Não pode a democracia ser pior do que uma ditadura, mas no tocante à ação da Polícia Militar, isso está acontecendo. Por isso podemos questionar: que democracia?
A insistência na defesa desse comportamento agressivo em ações individuais e coletivas da polícia aponta em um sério e grave desvio de conduta  dessa corporação, que a afastará cada vez mais do cidadão, que já não tem mais respeito e sim medo, pela forma como se dá essa relação. E, ao se sentir protegido nas reações de seus comandos e de suas entidades de classe, individualmente as atitudes serão desproporcionais, agressivas, violentas e até mesmo com ações letais que atentam contra a vida das pessoas. Nessa direção, já não se faz mais distinção no trato entre o criminoso e o cidadão comum, mesmo que este eventualmente tenha se desviado de sua conduta pacífica. Perigosamente, marchamos para um modelo de sociedade moldada pelo medo e pelo militarismo exacerbado.
Urge, portanto, haver uma reflexão profunda nessa relação, estabelecer formas de treinamento que incorpore valores humanistas e compreensão sobre a importância dos direitos humanos. A segurança pública é essencial em uma sociedade fortemente urbanizada, em ambientes que congregam milhões de pessoas e diante de comportamentos egoístas, gananciosos e consumistas. Essa relação tem que ser estabelecida a partir de valores solidários e comunitários, o que não significa deixar de agir com rigor contra a criminalidade. Mas o que não se pode é identificar em todos ou todas que porventura sejam críticos das estruturas de poder como marginais ou bandidos.
Por essa razão, muito embora vivamos nos espaços da universidade diariamente com uma insegurança crescente, é que nos opomos à presença da Polícia Militar dentro de nossos Campi e regionais. Sabemos que precisamos de segurança, mas por esses comportamentos a presença militarizada da segurança incorreria em outras inseguranças, e certamente em algum momento isso poderia implicar em conflitos, por essa concepção formativa dos quadros policiais. Mas entendemos ser necessário encontrar um meio termo. Naturalmente, no entendimento de compreensão que a juventude é, por essência, rebelde, inquieta e contestadora, e isso é algo insofismável.
A crítica que fazemos aqui deve ser absorvida pelos que comandam o Estado e por consequência estabelecem a política de segurança pública. Para que o foco nos treinamentos dessas corporações seja o respeito às pessoas e a garantia de segurança para a sociedade. Mesmo que não se descuide da segurança patrimonial. Mas quando se estabelece como foco primeiro defender patrimônio, mesmo que à custa de agressões mortíferas contra as pessoas, isso representa uma decadência de valores e nos encaminha perigosamente para um tipo de sociedade fria, inconsequente, onde será impossível distinguir qual tipo de caráter importa defender.
Essas críticas também não podem ser recebidas de forma rancorosa, como se estivéssemos identificando em cada policial um inimigo. Não, essa lógica é o alvo de minha crítica de como se dá no sentido oposto. O que é preciso é assimilar a crítica como uma necessidade premente de se mudar a forma de tratar a juventude, de como atuar em meio à multidão, e de como proceder a uma tática defensiva nessas situações, como é prática em muitos países europeus. Não pode ser jamais uma instituição que existe para cuidar da segurança das pessoas, a primeira a exacerbar a violência. Ela deve, primeiramente, conter qualquer tipo de violência. É plenamente possível fazer isso, sem recorrer a atos que beiram a insensatez e o sadismo no confronto com os movimentos sociais. E considere-se o fato de que a forma como parte dessa juventude se prepara para a guerra, ao ir a esses atos, é consequência do histórico de repressão e de agressividade como a Polícia se comporta. E quanto mais se radicaliza nessa repressão, mais se amplia o número daqueles que assim se preparam para o confronto. Isso não interessa aos que organizam essas manifestações, não contribui para a democracia e aumenta perigosamente o risco de estarmos diante do estabelecimento de um estado policial.

sexta-feira, 7 de março de 2014

BOTANDO OS PINGOS NOS “IS”

Legenda: Ego-Sistema
Aproveitando o longo feriado carnavalesco, e estando definitivamente afastado dessa festa momesca desde que perdi minha filha, em 2007, resolvi ser mais um seleto espectador de uma enorme diversidade de filmes para todos os gostos, na Mostra “O Amor, a Morte e a Paixão”. Pudemos ver por aqui, nos sertões brilhantemente intelectualizados dos cerrados goianos, antes que paulistas e cariocas, sempre à frente dos principais lançamentos cinematográficos de qualidade, uma enorme gama de filmes premiados em diversos festivais do mundo, incluindo Cannes, Berlim e o Oscar.
A mostra, competentemente organizada pelo curador Lisandro Nogueira, atual presidente da Cinemateca Brasileira (http://www.cinemateca.gov.br/) e os Cinemas Lumiére/Bouganville, tem como parceiros a ADUFG-Sind e o SINTEGO. Por isso temos a satisfação de entre um e outro filme podermos trocar opiniões sobre diversos assuntos com amigos e colegas. Numa época caracterizada por uma intensa complexidade e pela profusão de rebeldias, focadas em reivindicações locais, ou em interesses geopolíticos globais, pauta é o que não falta para os debates entre amigos e colegas. Além dos temas abordados em filmes carregados de polêmicas e roteiros que trazem toda essa complexidade e nos brindam com a possibilidade de debatermos intensamente.
Num desses encontros, fui interpelado por alguns amigos. Espantavam-se com as postagens e comentários que frequentemente insiro nas redes sociais. Diziam que eu estava erroneamente defendendo o governo “petista”, o que consideravam um absurdo.
Tenho comigo, sempre, que uma boa amizade não se perde para a política. Por isso mantenho convivências harmoniosas com amigos que circulam entre todos os setores e/ou partidos políticos. Particularmente, mantenho minha filiação ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB), ao qual tenho ligação desde meus tempos de movimento estudantil. Aliás, desde quando entrei na Universidade em 1980. Naquele ano ingressei no Centro Acadêmico de História, participei do meu primeiro Congresso da UNE, e fui “recrutado” para o movimento comunista. Minha militância sofreu oscilação ao longo dos anos. Afastei-me de Goiânia, fui dar aulas numa Faculdade em Araguaína, retornei à Goiânia, fiz mestrado na UFG e no ano em que o finalizei ingressei na Universidade Federal de Goiás como docente. Primeiro como professor substituto e no ano seguinte como efetivo. Era o ano de 1995.
1981: Av. Tocantins, 7 de setembro.
Greve nacional dos estudantes.
Embora as reminiscências da vida tenham freado o meu ímpeto revolucionário, que me impulsionou na minha juventude, mantive ideologicamente minha proximidade com os valores que construíram uma visão de mundo, pautada firmemente nas teorias e experiências do marxismo, da dialética e do materialismo. Essas mesmas agruras me fizeram mais tolerantes, e pelo apoio e solidariedade recebidos em momentos difíceis de minha vida, quando da perda de minha filha, compreendi que as barreiras existentes entre concepções diferentes de mundo, já que são muitas as ideologias que nos cercam, não podem destruir uma amizade. O que era difícil antes, poder dialogar com aqueles que enxergavam o mundo por um paradigma diferente do meu, tornou-se uma prática comum, simplesmente porque mantive como prioridade nessas relações a defesa da amizade.
Mas, e aqui entro no mérito da questão, isso nunca significou para mim, abrir mão de determinados princípios, valores construídos com convicções e referendados pelo que eu sempre experimentei no cotidiano de uma vida vivida com dificuldades, e com uma trajetória de superação de problemas sociais, que nas décadas de 1970 e 1980 eram infinitamente maiores do que as que conhecemos nos dias de hoje. In-com-pa-rá-veis. Não somente pelo anacronismo no qual incorreríamos, mas pela própria realidade sentida no cotidiano de ontem e de hoje. Para além da certeza que temos da necessidade de prosseguirmos nas mudanças, objetivando, naturalmente, aquilo pelo qual sempre defendi enquanto concepção revolucionária de mundo: por fim às desigualdades sociais e às absurdas e injustas concentrações de riquezas nas mãos de uma minoria.
Ocorre que a interpelação que gerou essa iniciativa, de produzir um texto, partiu, e sempre tem partido em outras ocasiões, de antigos militantes de esquerdas, amigos hoje que no passado ou militavam nas mesmas fileiras partidárias ou eram adversários, defensores de ideias mais sectárias e radicais do que as que eu defendia. Pelo menos no discurso, na aparência. Em minha opinião, naturalmente.
Mais interessante, para analisarmos buscando a ajuda não somente dos clássicos marxistas que sempre nos orientavam ideologicamente, mas, quem sabe, incluirmos aí um pouco das concepções freudianas, é saber que os ataques mais virulentos partem de antigos militantes de correntes que antigamente compunham o Partido dos Trabalhadores. Agora duramente criticado.
Quero dizer, no entanto, que comungo de algumas das críticas feitas por esses colegas, quanto aos rumos tomados por aqueles que, outrora esquerdistas radicais, transformaram-se quando da ascensão ao Poder. Creio ser essa quase que uma tendência natural, infelizmente. Pelo choque do que significa gerenciar o Estado, na concepção mais geral, em que se incluem todas as estruturas burocráticas administrativas; ou pela sedução que acompanha o Poder e que desperta os piores sentimentos, dentre eles a vaidade, a arrogância e o oportunismo. É difícil ser refratário a eles, mas é possível resistir. Com a firmeza ideológica.
Amigos e amigas desde tempos
de militância estudantil. Juntos
para além das divergências políticas
Mas divirjo pelo viés conservador, e pelo ódio que carrega e deforma boa parte dessas críticas. Muitas delas parecendo muito mais buscar uma justificativa para uma escolha, de mudança dos paradigmas que os fazem enxergar outra visão de mundo, do que visando as ausências de ações que executem aqueles velhos princípios pelos quais lutaram em décadas passadas.
Principalmente, porque no afã de encontrar uma justificativa para suas novas escolhas, à direita, cegam-se, ou fingem não ver as transformações pelas quais passou o nosso país desde os intensos anos de luta contra a ditadura até os dias atuais. Principalmente, e isso é inegável, até mesmo por avaliadores internacionais e entidades que reconhecem programas que transformaram a realidade de milhões de brasileiros, a partir do começo do século XXI. Algumas mudanças, inegavelmente, se iniciaram no governo de Itamar Franco, com a estabilidade monetária e a criação do Plano Real, prosseguiram lentamente durante o governo Fernando Henrique Cardoso, mas com um viés nitidamente neoliberal, mas foram expandidas e potencializadas durante os governos Lula/Dilma.
Não restam dúvidas, que muitas das bandeiras pelas quais lutávamos estão longe de terem sido implementadas. Auditoria sobre as dívidas brasileiras; reforma agrária; controle sobre o capital estrangeiro; fim das privatizações; salário mínimo conforme exige a Constituição; salário dos professores ao nível de outros profissionais de carreiras do Estado brasileiro; ensino público, gratuito e de qualidade. Etc, etc, etc...
Mas a política brasileira impõe dificuldades para transformações radicais, na medida em que se torna necessário a composição com forças políticas conservadoras, majoritárias no Congresso Nacional onde a esquerda se reduz a um mínimo de um quinto do quantitativo de parlamentares ali presentes.
Nada disso, contudo, é capaz de frear o ímpeto conservador e raivoso daqueles amigos que optaram por seguir um novo curso em suas vidas. Compreendo o rigor de suas críticas, e o ódio que transcende a racionalidade do discurso, como uma justificativa para suas novas escolhas. O que para mim é desnecessário, pois ao longo dos anos, conforme disse anteriormente, fui sabendo separar a relação de amizade com as escolhas ideológicas dos amigos.
Pode ser que em determinado momento da vida política do país tenhamos que fazer outras escolhas. Sabemos como isso acontece por conhecermos processos históricos e políticos de países onde a luta sectária atingiu o ápice e levou a embates violentos separando velhos amigos, e até mesmo famílias. Torço para que o Brasil esteja livre de seguir por esses caminhos traumáticos. Mas o discurso do ódio, disseminado pela classe média, pelos setores conservadores e pela grande mídia corporativa, tem se intensificado na medida em que se aproximam os dias de debates eleitorais. E as estratégias adotadas por países em crises, como EUA e algumas potências europeias fragilizadas economicamente, de gerar instabilidades em países estrategicamente importantes para voltar a contar com governos que lhes sejam confiáveis, e poderem aplicar as receitas neoliberais, fazem com que a situação fuja do controle de muitos desses governos mais progressistas. Isso pode também acontecer por aqui.
Mas apontar esses riscos, ou considerar os avanços obtidos no campo social, soa para esses antigos companheiros como defesa do “jeito petista de governar”. O que significa dar vazão a todos os ataques feitos por esses setores midiáticos.
Porquanto eu possa ter crítica à ausência de iniciativa no atendimento de reivindicações históricas, e até mesmo seculares, como no caso da Reforma Agrária, à manutenção de uma política econômica de viés neoliberal, com elevação das taxas de juros a níveis estratosféricos, ou à covardia em se recusar a atacar com firmeza o monopólio da informação e não conter os desvarios de uma mídia golpista, que tende a repetir o papel que desempenhou durante o golpe militar de 1964, não me vejo como replicador de ataques que poderia levar o país a um retrocesso político. Principalmente do ponto de vista do atendimento das questões sociais.
EU NÃO VIVO DO PASSADO, O PASSADO VIVE EM MIM.
Anos atrás escrevi um texto, publicado aqui mesmo no Blog, em que eu descrevia a minha trajetória política e encerrava a militância, ou o engajamento partidário tal qual eu fizera até um momento crucial em minha vida. A partir dali, lutando para superar uma depressão causada por uma perda inestimável, compreendia que o caminho que eu deveria trilhar seria aquele que profissionalmente eu tinha escolhido: a Universidade.
Não quero dizer que haja incompatibilidade entre militar ativamente na política e ser um professor universitário. Mas eu não me prendia às questões de compatibilidade, e sim de escolhas.
Contudo, muito embora sinalizando com a possibilidade de eventualmente poder contribuir em funções do Estado, em setores estrategicamente ligados à minha área de atuação, eu abdicava da militância. Mas, em nenhum momento afirmei que abria mão de minhas concepções políticas e ideológicas, daquelas que me guiaram por três décadas e pelas quais eu mantinha, e mantenho profundas afinidades.
Isso, naturalmente, me leva sempre a analisar a política dialeticamente, e compreendendo os embates que despontam no Brasil e no mundo, seguindo-se a lógica irrefutável apresentada por Karl Marx: a luta de classes. Tentada ser encerrada nos anos 1990, auge do avanço neoliberal pelo mundo, quando muitos intelectuais, antes defensores das análises marxistas, “bateram em retirada”, e esconderam-se covardemente nas abordagens de cotidiano e das migalhas da história.
Esse momento que vivemos, de pressão conservadora e de ações provocativas com o intuito de gerar instabilidades políticas pelos setores que não conseguem retomar o poder dentro do processo democrático tradicional, mas ao mesmo tempo de insatisfações crescentes de uma massa que aprendeu que pode querer, e quer mais do que tem sido lhe garantido, cria um divisor de águas. A minha verve marxista, revolucionária, embora diletante e não mais militante, fala mais alto. Parto da análise dialética das contradições, do choque dos contrários e da luta de classes e me defino como dantes. Assumo com prazer o lado onde sempre me mantive, ao longo de quatro décadas.
Por isso, ao escrever o artigo citado[1] recorri a uma frase de Paulinho da Viola que ele diz no DVD “Meu Tempo é Hoje”: “Eu não vivo do passado, o passado vive em mim”.
Mantive-me ao longo desses últimos anos distantes das agitações políticas, mas não me desvinculo de minha ideologia. Até porque no meu cotidiano convivo com alguém que herdou essa verve revolucionária, às vezes sem a devida temperança (como era também o meu estilo), meu filho, que segue meus passos, mas com passadas mais largas do que as que eu dei. Não me comporto como antes, reconheço, talvez um pouco conservador ou mais conciliador, mas sabendo distinguir com base naquilo que aprendi ao longo de meus melhores momentos de embates políticos, o que é o joio e o que é o trigo.
Documentário que apresenta
vários fatos acontecidos
no mundo
Isso é suficiente para delimitar meu campo. Por mais que eu tenha que ser tolerante nas críticas vociferantes e carregadas de ódios, inexplicáveis, de alguns de meus amigos, elas jamais serão suficientes para me convencer de mudar o rumo do meu destino. Não que seja porque ele tenha sido “traçado na maternidade”, mas porque sempre soube, na vida, e no que aprendi ideologicamente, em qual lado eu deveria me situar na luta de classes. Mais do que uma questão de escolha, é principalmente de origem social. Se estivesse na Venezuela, certamente eu seria bolivariano. Para desespero desses meus amigos.
Mais farei um convite aos mais próximos. Assistirmos juntos, tomando um bom vinho aos filmes: “O declínio do Império Americano”[2] e “As Invasões Bárbaras”[3]. Teremos assuntos para além da revolução, ou dos golpes “suaves” de Estado que se espalham pelo mundo.




[1] http://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2013/01/a-encruzilhada-os-proximos-anos-do.html
[2] O Declínio do Império Americano (Le Déclin de l'Empire Américain), de Denys Arcand. Canadá, 1986, Cores, 101 min. Com: Dominique Michel, Dorothée Berryman, Louise Portal. O que pensam realmente as mulheres dos homens? De que é que falam quando eles não estão presentes? E os homens, de que falam? Enquanto Rémy, Pierre, Claude e Alain, professores na faculdade de História, preparam um jantar requintado, as suas companheiras, Dominique, Louise, Diane e Danielle, treinam-se num ginásio. Os homens falam sobre as mulheres, as mulheres sobre os homens. Estas duas conversas põem em evidência as mentiras de uma época e mostram que cada um deles procura a felicidade individual a qualquer preço. Fantasias, tentação, desejo, indiscrições, infidelidade, confissões são os ingredientes do argumento. "O Declínio do Império Americano" (1986), de Denys Arcand, que foi um dos maiores sucessos do cinema canadiano e foi apresentado na Quinzena dos Realizadores em Cannes. Disponível no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=DVxnkiMqZak
[3] As Invasões Bárbaras (Les invasions barbares) – É um filme franco-canadense de 2003 realizado por Denys Arcand. Direção: Denys Arcand. Prêmios: Oscar de melhor filme estrangeiro. Elenco: Rémy Girard, Marie-Josée Croze, Stéphane Rousseau. Considerado um dos melhores filmes de 2003, "As Invasões Bárbaras" é um filme raro. Emocionate sem ser piegas e ao mesmo tempo moderno. O diretor Denys Arcand promove o reencontro dos amigos de "O Declínio do Império Americano" dezoito anos depois. Eles estão juntos novamente para se despedir do divorciado Rémy, abatido por um câncer raro. A reunião é promovida por seu filho yuppie. Sensível, envolvente, com um humor afinadíssimo e muito inteligente, "As Invasões Bárbaras" ganhou dois prêmios no Festival de Cannes: Melhor Roteiro e Melhor Atriz (Marie-Josée Croze), além de ser Indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro. Fonte: filmesdecinema. Disponível no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=jATYBTQ4Z9c

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

SOBRE MÁSCARAS, VIOLÊNCIAS E O DIREITO DE SE MANIFESTAR

NIHIL HUMANI A ME ALIENUM PUTO! (NADA DO QUE É HUMANO ME É ESTRANHO)

Essa era a máxima preferida de Karl Marx.
Creio que ela serve para analisarmos o que se passa nas redes sociais. Sabe-se lá com que intenção, alguém (alguns) identificaram uma pessoa com o mesmo perfil do responsável pela morte do cinegrafista da Band e, em uma montagem, para dizer que as TVs estavam manipulando a informação sugerem ser aquele outro o culpado. Por estar conversando com os policiais, certamente imaginaram ser algum agente infiltrado. Ora, essa pessoa teria visto sua foto circulando na rede e já se identificou, certamente preocupado e indignado por tornar-se suspeito. Supõe-se. Essa postagem teve milhares de compartilhamento. O bizarro disso é que os indivíduos responsáveis por detonarem o explosivo, já estavam presos e são réus confessos. Os dois, identificados por vários ângulos, assumiram a responsabilidade, embora um acusasse o outro por acender o explosivo. Qual o objetivo de tentar acusar outras pessoas aleatoriamente? Claro, existem interesses escondidos. Mas talvez poucas pessoas saibam que boa parte dos perfis que existem na internet, é falsa. São os chamados "fakes". Então é melhor se informar antes de reproduzir algo que sirva a interesses escusos.
O fato é que esses comportamentos que levam alguns jovens a exacerbar em seus atos e a agirem com a mesma violência e estupidez com que agem as forças repressoras, causa um efeito colateral sério, e cria os pretextos dos quais necessitam as forças reacionárias e fascistas para limitar os direitos democráticos de manifestação, bem como criminalizar os movimentos sociais, e a exigirem governos mais duros e policialescos. Esses foram argumentos utilizados para a efetivação do golpe militar em 1964. Com essas atitudes prestam um desserviço aos que, criticamente, lutam por transformações mais radicais de forma organizada. Organização que eles repudiam, e agem de forma anárquica, sem objetivos políticos definidos.
A morte desse trabalhador, lamentável sob todos os aspectos, terminou por servir à mídia conservadora dar destaque e pressionar parlamentares para endurecer legislações contra as manifestações.
No combate que fazíamos ao regime militar, já na decadência desse poder, jamais nos faltou coragem e nunca nos sentimos intimidados ou amedrontados com todo o aparato repressor que nos oprimia e que enfrentávamos nas ruas. Sem máscaras, sem armas, num momento em que sabíamos enfrentarmos um regime fragilizado politicamente e que precisávamos do apoio da sociedade.
Repelir a sanha fascista com a mesma estupidez seria, naquele momento, contraproducente, e nos impediria de obter o apoio que necessitávamos para isolar a ditadura e trazer o apoio de toda a sociedade para a transição democrática.
Não foram poucos, e eu me incluo nessa lista, os que sofreram a brutalidade dos cassetetes, do gás lacrimogênio, dos fuzis apontados no peito, das prisões e espancamentos, e dos fichamentos nos antigos DOPS e na Polícia Federal. Sem contar as intermináveis "visitas" às delegacias. Mas agíamos de cara aberta, embora ainda fosse uma ditadura.
No movimento que realizamos em Goiânia, em 1982, contra os aumentos nos ônibus urbanos, denominado "pula catraca", quando resistimos por mais de três meses sem pagar passagens, vencemos pela resistência. Foram tantas as vezes que fomos detidos, e ônibus desviados para delegacia com dezenas de estudantes que haviam pulado a catraca, que os próprios delegados em determinado momento determinaram às empresas de ônibus que não nos levassem mais para que as ocorrências fossem registradas. E assim, muito embora tendo custado a depredação de centenas de ônibus em atos violentos, conquistamos nossos objetivos. Com organização, resistência, determinação e coragem. Sem reagirmos no mesmo nível que a repressão policial.
Essa foto que ilustra a postagem do artigo escrito para o Blog Gramática do Mundo, é do movimento que organizamos na década de 1980, quando depois de meses de "pula-catraca". Conquistamos o meio-passe. Ontem (19/02), também fruto da luta travada pela juventude estudantil, o governo do Estado de Goiás anunciou o fim da querela do passe-livre. Os estudantes podem comemorar mais uma conquista. O direito à manifestação deve ser sagrado, é a condição de pressionar dirigentes, mas, claro, dentro de um certo limite. O uso de máscara, jamais foi aceitável por nós, que travamos lutas homéricas, porque podia esconder eventualmente um provocador, elemento infiltrado disposto a jogar a opinião pública contra o nosso movimento. Mas considerar essas manifestações, mesmo as que excedem no limite do aceitável, como ato de terrorismo é um exagero abominável. O momento que vivemos é complexo, mas não há no curto prazo nenhuma ameaça à democracia. As liberdades políticas são muito mais consistentes do que nos anos de chumbo, ou mesmo nos seus estertores, nos três primeiros anos da década de 1980.
Mas, muito embora saibamos, como bons marxistas, que “a história não se repete”, a não ser como farsa, ou tragédia, podemos encontrar semelhança entre o ambiente político pré 1964 e o que estamos vivendo. A infiltração em manifestações e organizações sociais por agentes da repressão, obviamente prossegue. O grau de espionagem existente atualmente é muito maior, e cabalmente demonstrado nas denúncias feitas por Edward Snowden, analista de sistema que servia à ANS (Agência Nacional de Segurança), dos EUA. Tal qual há 50 anos, há interesse desse país, como de muitos elementos reacionários brasileiros em criar um ambiente de insegurança que leve à população, pelo medo, exigir governos mais duros e ditatoriais.
Aliás, já escrevi a respeito da inversão que se faz ao filme “V, de Vingança”. Ali, o personagem se revolta exatamente contra a manipulação feita por quem pretendia um poder forte. A violência se tornou constante, o regime refluiu no combate e o medo, ao tomar conta da população, a jogou para os braços de um ditador, que militarizou o poder estatal. Foi contra isso que “V” se insurgiu.
O que se vê pelos meios de comunicação, destacadamente nas grandes redes é uma ênfase às notícias sobre fatos violentos, e um clamor crescente da população por mais “segurança”, significando isso mais polícia nas ruas. Ou seja, enquanto nas ruas os manifestantes clamam por desmilitarização da polícia, nos bairros, principalmente os periféricos, a população exige mais polícia, para combater o que a mídia aponta como um descontrole do Estado para conter a violência. No que eu identifico como uma “geopolítica do medo” sendo maquiavelicamente implantada.
Embora a violência exista, e esteja vinculada principalmente ao tráfico de drogas, ela não é combatida em sua essência. Nem as críticas que se fazem a ela dão ênfase às contradições que fazem do capitalismo um sistema profundamente injusto e desigual.
Ao não desejarem participar de organizações de caráter político, e abominarem os partidos políticos, mesmo os que se intitulam revolucionários e socialistas ou comunistas, esses manifestantes deixam de analisar a conjuntura política com base em fatos concretos e na realidade objetiva. Novas "realidades" são perversamente construídas por outros setores da política, que se beneficiam com esses comportamentos, o que leva a fortalecer a indústria do medo, e a exigência de governos fortes, militarizados e com uma base de parlamentares mais conservadores.
Não há dúvidas de que há infiltração nessas manifestações. Tanto por organizações políticas, que temem se apresentar abertamente por medo das reações dos “Black blocs” e visam também “recrutar” novos militantes entre aquela juventude, como por setores fascistas, tipos provocadores que desde aquele momento por mim citado anteriormente, na década de 1980, já se infiltravam em nosso meio. Policiais ou não. Por motivos diferentes esses setores objetivam criar os confrontos para gerar desgaste nos governos, de tal forma que os possam debilitar. O uso da violência, no caso, como mecanismo de se contrapor à repressão policial assume um verniz diferente nos dois casos, mas o resultado é desastroso de qualquer jeito. Principalmente quando o personagem culpado desse tipo de ato não é um indivíduo vinculado às forças repressoras, porventura infiltrado. O que dá margem para a mídia conservadora enfatizar no seu discurso de um ambiente dominado pela insegurança e anarquia.
Não tenham dúvidas de que o principal discurso nas próximas campanhas eleitorais será esse. Dominados pelo medo, que cotidianamente entra em suas casas pelos canais de TV, ou pela própria realidade que as cercam, as pessoas tendem a sucumbir à repetição constante desse discurso, e corremos o risco de ver a eleição de um parlamento muito mais conservador do que o atual.
Esse poderá ser o resultado de atos inconsequentes e irresponsáveis, movidos por um voluntarismo tolo, e a demonstração de atos de estupidez como se fossem atitudes libertárias e revolucionárias. Em um novo tipo de ludismo pós-moderno que está mais para os atos de cegueira atestado por José Saramago.
As máscaras que assumem as frentes dessas manifestações escondem jovens desprovidos de capacidade política para entender os mecanismos que movem a sociedade. Ou meros provocadores desejosos de reeditar aqui no Brasil os mesmos gestos fascistas de 50 anos atrás, quando um golpe militar foi dado com o argumento de por fim à baderna, à desordem e a comunização do país.

Como diz um velho ditado popular: “juízo e caldo de galinha, não fazem mal a ninguém”.

sábado, 22 de junho de 2013

A FÚRIA: O DESPERTAR DA MULTIDÃO, OU A REVOLTA DE UM INCONSCIENTE COLETIVO?

FRAGMENTOS DE UM OLHAR SOBRE A MULTIDÃO
Eu acompanho essas manifestações há mais de dez anos. Claro, ao longe, como estudioso de geopolítica. A maior delas, ou uma das mais importantes, foi em 1999, durante uma reunião da OMC e gerou um filme chamado "A batalha de Seattle". Já escrevi sobre isso no meu blog (http://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2011/11/indignados-para-qual-direcao-seguem-as.html). Há diversas demandas, revoltas represadas, reivindicações justas. Mas nada disso será possível de ser mudado sem organização. As vozes das ruas, da multidão, criam motivações, e até mesmo uma empolgação exagerada, principalmente na juventude, cuja adrenalina explode e os empurra com força para o embate. É natural e importante que isso aconteça. Mas o que virá depois disso depende da política (ou da guerra, quando fracassa a política, mas aí sabemos as consequências). A multidão tem sido protagonista desde o final do século XX, com grandes protestos antiglobalização, e depois, com a intensificação da crise, na chamada “primavera Árabe”. Os resultados de tudo isso ainda está por vir, mas nos países onde ocorreram houve retrocesso na condução política. Governos mais conservadores e direitistas foram eleitos, Na Grécia, Itália e Espanha. Ou fundamentalistas religiosos, no caso do Oriente Médio, resultando em menos democracia e no fim do Estado laico e o controle de partes dos países por milícias armadas. Devemos refletir sobre esses momentos, mas nada seguirá bem se a política não funcionar, e já há algum tempo uma massificação da ideia de que tudo está ruim. A grande mídia e os setores conservadores têm insistido nisso, e agora os jornalões da Inglaterra e dos Estados Unidos (lembremos-nos de 1964). Existem coisas que precisam ser melhoradas, mas penso que a possibilidade de piorar não é remota. As raposas estão escondidas, prestes a atacar na surdina, como sempre fazem. O melhor que fazemos nesse momento, para saber de fato o que queremos, é, por um lado apoiar as reivindicações que são justas e não sejam pautadas pela mídia, por outro assistir o filme "A dia que virou 21 anos", documentário que está em cartaz sobre o golpe militar de 1964. Para não precisarmos comprovar o que diz Marx, que "a história se repete, da primeira vez como tragédia, da segunda como farsa".
E CONTRA O CAPITALISMO, NADA? AFINAL, O QUE FAZ VOCÊ FELIZ?
Espero poder morrer tranquilo, mas não em breve, embora a tempo de ver no meio dessa multidão como uma das bandeiras principais "fim ao capitalismo" e "abaixo as grandes corporações que comandam a riqueza no mundo". Porque os problemas principais, em essência, decorrem da lógica que está por trás do funcionamento desse sistema, de um estilo de vida que tem transformado a nossa maneira de ser e de nos relacionarmos, já que tudo decorre das condições que nos permitem consumir. Deixamos de ser cidadãos e aceitamos ser consumidores. Se pudermos consumir, seremos respeitados, senão somos excluídos. Quando essa pauta, que questione o sistema que constrói o abismo que separa ricos e pobres, for colocada como prioritária, aí eu vou acreditar que as consciências acordaram. De qualquer forma é salutar ver a juventude sair da letargia, só espero que os oportunistas não ganhem mais espaço, porque enquanto a juventude tem aversão à política as igrejas mais conservadoras aumentam o número de parlamentares e adotam uma agenda ultra-conservadora.
EM QUAL DIREÇÃO SEGUIR?
As manifestações começaram com um foco específico, o péssimo atendimento nos serviços urbanos, principalmente o transporte coletivo. Muitos problemas que são locais, de responsabilidades dos governos estaduais e municipais. A mídia direcionou as manifestações para outra pauta, incluindo nisso a questão da corrupção e até mesmo o repúdio à PEC 37, mesmo sendo do total desconhecimento da população e isso se espalhou pelas redes sociais. É visível a forma como a mídia regional bloqueia a crítica aos governos locais e estaduais. Dependentes de verbas publicitárias, os órgãos de imprensa submetem-se à pressão, e filtram das imagens os cartazes com críticas a esses governos. Quem não foi nas manifestações não sabem que esses governos são focos das críticas por serem responsáveis pelos setores mais criticados pela multidão. Mas manteve-se superdimensionando, a crítica ao governo federal. Ampliou-se para o ataque à participação de políticos, contra o comportamento oportunista e corrupto de muitos deles, pauta que está já há muito tempo em evidência. Há muitos anos, diga-se de passagem, e por todo esse tempo a mesma população que protesta é a que elege esses mesmos políticos que ela tenta agora “fuzilar”. Mais uma pauta da mídia. Há uma tentativa aqui de criar um sentimento de aversão a política, já que se poderia partir para uma campanha, e a imprensa tem esse poder, de fazer com que a população evitasse repetir o voto naquele político que ela votou. Mas não é isso, o que há por trás é uma clara tentativa de tornar a política algo nefasto. Os reacionários, golpistas de sempre, e os comentaristas pulhas, tipo Jabor, se aproveitaram para tentar induzir o foco. Mas as ações da multidão não são como no período pré-1964. O primeiro a ser sitiado foi o governador de São Paulo, claro, depois a mídia o escondeu. Depois algumas prefeituras viraram alvos. A revolta se deu também contra o Congresso. No Rio de Janeiro e em outras cidades o ataque foi contra a Assembleia Legislativa ou o parlamento municipal. O que é ruim. Mesmo com todos os problemas que existem no parlamento e sua maioria conservadora, esses lugares são sinônimos de democracia. As ditaduras e os fascistas atacam primeiro os parlamentos. É preciso saber escolher os representantes e não destruir a representação. Senão é a anarquia. E aí a população vai clamar pela polícia. Como é contada essa história no filme "V de Vingança", que muitos invertem seu sentido e usam sua máscara com objetivos diferentes. No filme, “V” luta contra o totalitarismo, que foi imposto a partir da manipulação da massa.
NO EMBALO DA MÍDIA
A mídia tentou por todo o tempo, e conseguiu, pautar as reivindicações da multidão. E insistiam a todo o momento que uma das bandeiras é a luta contra a PEC-37.  Perguntei a três jovens que estavam com cartazes na manifestação se conheciam o seu conteúdo, um deles era universitário. Só sabiam dizer que o governo estava tentando impedir que se investigue a corrupção. Não insisti com mais perguntas, sei que 95% desconhecem de que se trata, de fato. Há muita alienação, não conhecem o histórico dessa emenda que está sendo pautada pela Rede Globo. Ela é uma disputa entre as polícias e o ministério público, seu autor é um deputado que é delegado da polícia civil, não tem nada a ver com o governo. É muito relativo dizer que afeta o combate à corrupção, porque é função do Ministério Público oferecer denúncia, esse é o seu papel constitucional. Ademais, o Ministério Público também tem se omitido em investigações importantes sobre a corrupção, como no caso das privatizações e do envolvimento do banqueiro Daniel Dantas, acobertado pelo judiciário, inclusive por um ministro do STF. E quem investigou esse grande corrupto e todo seu esquema, foi a Polícia Federal. Muito embora eu não seja contra o caráter investigativo do Ministério Público, creio que isso deve se dá em conjunto com as Polícias Civil e Federal, caso contrário se dará muito poder a um órgão que tem se pautado pelos refletores. Suas maiores ações são aquelas que garantem uma grande repercussão midiática, e quase sempre expõe suspeitos sem que depois as acusações sejam comprovadas. Mas há por trás disso tudo um nítido objetivo da mídia de direcionar o movimento e incluir na pauta as mesmas questões que estiveram por trás do golpe de 1964.
FUI, VI E VOLTEI... MAIS PREOCUPADO DO QUE ANTES.
Ao contrário da euforia que se espalhou pela multidão nessa semana, o que vi nas ruas me preocupa mais do que me deixa entusiasmado. É inegável que há muita leniência nas ações do governo federal e um engessamento causado pela excessiva burocracia e por ter abdicado de reivindicações históricas. Cito a reforma agrária. E acrescento às concessões feitas às corporações financeiras em isenções de impostos para inchar as cidades de automóveis; cedendo no aumento dos juros para atender à especulação etc. Mas me preocupa, e pude viver isso de perto, de dentro da manifestação, a completa despolitização do movimento. Apesar de concordar com 75%, no mínimo, dos cartazes ali expostos. Saí convencido de que o poder da mídia não pode ser relevado, nem menosprezado. Muitas das reivindicações foram pautadas por ela, logo depois da repressão violenta em São Paulo. Há, sim, em curso, uma tentativa golpista, agora instrumentalizando a multidão, de alterar o jogo político que não tem sido possível fazer com a política tradicional. É claro que essa política tradicional deve ser criticada. E aí entra o grande erro do pragmatismo político de Lula, de buscar repetir os conchavos políticos com setores conservadores, e ceder espaços políticos antes tradicionalmente disputados pelos setores de esquerda, como a área de direitos humanos. É evidente que isso vai se tornando visível, principalmente quando se tinha expectativas diferentes quanto à condução da política. Traduzindo em miúdos: o governo do PT, e aliados, considerou que simplesmente adotar uma política de concessão de benefícios para os setores mais pobres seriam suficientes para agradar politicamente a sociedade, e mais do que isso, para fazer com que fosse sentido que há uma vontade de fazer avançar as mudanças estruturais, pedidas há muitos anos. A camada que se sobrepõe no quesito influência política, é a classe média. E ela arrasta em suas reivindicações, muitas de cunho meramente moralistas (o que não quer dizer que não sejam pertinentes), as demais camadas. 
O que aconteceu este mês no Brasil, foi o estouro de um dique onde estavam represadas expectativas de décadas e insatisfações geradas por comportamentos da classe política, de absoluto desrespeito à sociedade e de repetição de práticas seculares, herdadas do período colonial. Por outro lado, a mídia tem construído um clima de pessimismo desde a posse do Lula, simplesmente negando todo o processo histórico desse país, os avanços obtidos nos últimos anos, e as dificuldades de recompor um estrago nesse país que deve ser compreendido em toda a sua dimensão histórica. Mas considero que erros graves, na postura adotada pelos sucessivos governos pós-FHC, ao não combater as práticas políticas tradicionais, e até mesmo se servirem delas, deram forças a essas insatisfações e revoltas. Não tenho dúvidas. Quem tem o poder nas mãos é que tem a possibilidade de consolidar as mudanças que a sociedade exige. Se não fez isso é porque está completamente fora de sintonia da realidade de seu próprio povo. Não basta maquiar, é preciso mostrar que é diferente, e não ceder às pressões da matilha conservadora. Que essas rebeliões possam servir de exemplo. Mas depois do que vi, e quando cheguei em casa e li as notícias sobre as demais manifestações, me lembrei do livro de José Saramago (e do filme) "Ensaio sobre a cegueira". Os que acharem estranho essa referência vejam o filme.
GARNIZÉS COM COMPLEXOS DE GAVIÕES
Os jornais britânicos se especializaram no Brasil. Naturalmente, o velho e carcomido império colonial, deseja influenciar nas políticas brasileiras, com o claro objetivo de defender suas corporações e gananciosos investidores, o alvo deles, por mais que disfarcem, são os altos juros que lhes garantem um rentismo especulativo, mas que nada favorece ao desenvolvimento brasileiro. Repetem as “vozes do além” estadunidenses, que durante o governo João Goulart atacaram as reformas de base propostas naquele momento, principalmente o controle dos lucros das multinacionais, que deveriam ficar retido no país por, pelo menos, seis meses. Uma pena que o governo Dilma baixou a cabeça e cedeu às pressões, aumentando os juros, para deleite do “The Economist”. Agora, é a vez do "The Guardian" numa abordagem extremamente tendenciosa das manifestações. Eles deveriam se preocupar com a crise econômica que tem transformado a Inglaterra num "garnizé". Não precisamos que aqueles que colonizaram a América e a África venham agora querer ensinar qual o rumo que o Brasil precisa tomar. O desemprego por lá é o dobro do que existe aqui. E a riqueza por eles conseguida decorre de todo esse processo de exploração colonial. A desgraça da África e do Oriente Médio é fruto das ações rapaces do imperialismo britânico.
CEM POR CENTO DOS RECURSOS DO PRÉ-SAL PARA A EDUCAÇÃO
Essa é uma bandeira do movimento estudantil (100% para o pré-sal). Mais investimentos em educação, e se tornou uma das principais reivindicações nas manifestações. Veremos agora quem vai ser contra. Mas é preciso prosseguir atentos, principalmente porque setores da classe média alta se opõem a tudo que venha para atender às necessidades das camadas mais baixas. Há uma batalha no congresso entre parlamentares que desejam que esses recursos vão para seus estados sem que esteja definido para onde.
SOBRE O USO DA VIOLÊNCIA NAS MANIFESTAÇÕES
A mídia está tentando separar as coisas. Não, tudo faz parte de um mesmo movimento. São consequências dele. Há no meio desses grupos gangs e marginais, isso é inegável, mas a maioria dos que foram detidos com esses comportamentos agressivos é composta de jovens sem passagens na polícia, e membros da classe média, como o que foi preso no dia seguinte à depredação da prefeitura de São Paulo, estudante de arquitetura e filho de empresário, e o que foi identificado liderando a quebradeira no Itamaraty, em Brasília. Procura-se transferir para as camadas mais pobres a responsabilidade por atos que visam gerar o caos, e muitos deles são seguramente articulados, mas uma parte vai no embalo da adrenalina. Como sempre criminaliza-se o pobre. A tentativa é mostrar um ambiente de insegurança e de incompetência, e as críticas se voltam contra o governo federal. O comportamento da polícia paulista foi muito estranho, agiu com força desproporcional num primeiro momento, e abdicou de defender os prédios púbicos depois e praticamente desapareceu das ruas no maior protesto. Todas as críticas da mídia passaram a se direcionar para o governo Dilma, quando a principal reivindicação, que diz respeito à mobilidade urbana é de responsabilidade dos demais governos, principalmente. Há uma farsa em curso, é uma tentativa de repetição da forma como foi preparado a estratégia que levou o país a conviver com uma ditadura militar. Se isso se dará como naquele tempo vai depender da maneira como os partidos que apoiam a presidenta, principalmente os de esquerda, que sempre tiveram em suas bandeiras essas reivindicações que estão na rua, irão agir a partir de agora. Não há dúvida que será preciso se reinventarem. E o governo federal precisa deixar de pintar a realidade brasileira com cores que ainda não correspondem aos seus desejos. A realidade é palpável, estamos longe de por fim à pobreza, embora o país tenha avançado bastante. E não adianta ficar olhando para trás, afinal, já se vão dez anos que os neoliberais tucanos foram derrotados. A Nação tem pressa.

A "CEGUEIRA" DA MÍDIA!
Acho melhor falar "parte da mídia", dos grandes grupos de comunicação (A imprensa regional assume outro comportamento, mais ameno, digamos. Contudo fica mais sujeita às pressões dos governos locais e estaduais, e por isso omitem as críticas aos mesmos). Esses meios de comunicação, de linha editorial direitista (Globo, Veja, Estadão, Folha de São Paulo, Band, principalmente), nos últimos anos tem procurado criar um clima crescente de insatisfação na população, parte do objetivo político de levar ao poder seus aliados conservadores. Agora falam como se eles também não fossem alvos dessas insatisfações. Mostram cenas da multidão vaiando as bandeiras de alguns partidos de esquerda (o que demonstra a cegueira, já que não há outro caminho para as mudanças, que não o institucional, e com a ajuda daqueles partidos que apoiam as reivindicações) mas não mostram quando eles próprios são vaiados e precisam disfarçar-se no meio da multidão.  E dão dimensão pequena às cenas de destruição de seus próprios veículos de comunicação (atitudes extremas, e desnecessárias, aliás, mas é fruto da mesma revolta dos que se sentem enganados). As pessoas também estão fartas da maneira como esses órgãos da imprensa procuram manipular as notícias. Por isso a reação da multidão, fazendo com que alguns repórteres omitam o símbolo de suas emissoras. Pode-se usar, também nesse caso, a velha frase de uma música de Geraldo Vandré: "é a volta do cipó de aroeira, no lombo de quem mandou dá".

AS DIMENSÕES DOS PROBLEMAS URBANOS

Pouco se diz, mas é evidente, que as cidades são verdadeiros vulcões, prestes a explodir. Ou melhor, um vulcão em processo de expelir suas mais incandescentes lavas. A questão é, como solucionar problemas crônicos, na rapidez com que está a exigir a pouca paciência do povo e com uma máquina estatal paquidérmica? Não são problemas de agora, mas que foram se acumulando como decorrência da leniência dos governantes, que priorizam as áreas mais sofisticadas, bairros de ricos e facilitando os acessos aos condomínios fechados. Portanto, são problemas que não dizem respeito diretamente ao governo federal, são de responsabilidades locais e estaduais. Nos últimos tempos, apesar da (pequena) redução da miséria, ampliou-se o fosso entre ricos e pobres. Temos várias “cidades” em um único aglomerado urbano. Bairros que são microcosmos, e funcionam como pequenas cidades interioranas, mas compõem um verdadeiro apartheid social. Agora será preciso pressa, e suplantar a burocracia não é fácil. E precisa de muito mais vigilância, porque quando se exige menos burocracia, abre-se mais brechas para corrupção. Estamos naquela situação de como vemos o cachorro correndo atrás de seu próprio rabo. 
NÃO HÁ MUDANÇA NOS NÍVEIS DE CONSCIÊNCIA POLÍTICA
Tenho uma forte suspeita de que há uma geração que desaprendeu da política, e outra que desconhece o que ela significa, a sua importância. E, principalmente, desconhece a história desse país. Embora nada disso esteja sendo dito no sentido de generalizar, mas essa é uma realidade na multidão que tem ido ás ruas. Tenho críticas, muitas críticas, a algumas atitudes do governo, principalmente quando cede às pressões conservadoras e da grande mídia. Mas conheço o passado desse país, e espero que ele não se repita. Nem como tragédia, nem como farsa, como diria Karl Marx.
O melhor que se faz é buscar se informar sobre as batalhas políticas em curso, senão todos vão no embalo da rede globo. E é preciso também saber como funciona o sistema político. Muita gente está indo para as ruas sem saber isso. A multidão vai às ruas no embalo, mas a cegueira ainda continua. É necessário pressionar por uma reforma política e conscientizar os cidadãos de que não se pode votar em candidatos por simples amizade, mas pelo seu histórico de lutas. O que se vê é a repetição de um voto conservador, em que se elegem empresários, latifundiários e profissionais liberais sem tradição de participação nas lutas sociais. É a própria sociedade que compõe esses parlamentos. Além disso, as novas gerações precisam saber melhor de como era esse país. Embora a maioria das pessoas esteja certa na necessidade de que é preciso melhorar, e muito. Mas não podemos permitir que as nossas liberdades democráticas sejam ameaçadas e que essa multidão torne-se massa de manobra dos setores reacionários. 
“V” DE VINGANÇA!
A máscara do filme “V” DE VINGANÇA tem sido muito usado nas manifestações, principalmente por anarquistas e pelo grupo Anonymous. Isso tem acontecido também nos movimentos de "indignados" no mundo inteiro. Alguns usam sem compreenderem a mensagem do filme, que é baseado em uma história de quadrinhos. A revolta do personagem se dá porque um mandatário, com planos para por fim a democracia, permite que a violência assuma uma situação de total descontrole na sociedade, reduz as forças de segurança, a ponto de os cidadãos passarem a exigir um aparato repressivo mais forte. Dessa forma, após um golpe em que impõe o rigor de uma ditadura, ele militariza a sociedade, transforma as pessoas em alienadas e controladas pelo regime fascista. "V", o personagem, então se revolta contra a tirania, e prepara uma vingança para destruir um governo totalitário e fascista. Sua causa, advinha de uma ideia, ou de um ideal, que se contrapunha ao totalitarismo. Completamente diferente do sentido que os "mascarados" atuais tentam dar nas manifestações.
POR UMA NOVA FORMA DE FAZER POLÍTICA
Agora é apostar que surja dessas manifestações, a parte boa, naturalmente, majoritária, novas lideranças dispostas a fazer um novo tipo de política. Isso é tão importante quanto as reivindicações que estão postas, porque as coisas só se resolvem no âmbito da política. Chega de filhos de velhas raposas políticas serem candidatos, de pastores conservadores homofóbicos e de "mauricinhos" lançados por partidos de direita. São dessas manifestações que despontam as melhores lideranças. É uma esperança, mesmo que digam que lideranças de outrora assumiram posturas conservadoras quando chegaram ao poder. Mas se perdermos essas esperanças, aí só o caos, e também não se pode pensar em revolução sem uma vanguarda revolucionária. Só nos resta lutar por mudanças dentro das estruturas que estão aí, revigorando-as com personagens que não estejam viciados pelo eterno compadrismo que caracteriza a política brasileira. Mas não dá para atacar os partidos, eles são os instrumentos pelos quais se farão as mudanças. O que se deve é diferenciá-los, e identificar aqueles que possam erguer essas bandeiras que estão sendo gritadas nas ruas.
Como não creio que os anarquistas tenham razão, de que o caos prevalecerá, me seguro nessas expectativas, pois, ditadura nunca mais. Então, à luta, juventude! Mas com organização. E repito sempre a conhecida frase de Che Guevara: "hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás".
MULTIDÃO!
É preciso também ter a percepção que essa nova forma de fazer política deve também questionar aquelas existentes, tradicionais e fracassadas. São rejeitadas pela multidão e devem ser substituídas. Não se pode mais fechar os olhos, no Brasil e em outras partes do mundo, ao efetivo protagonismo da multidão. Embora ela seja, contraditoriamente, una e extremamente diversa. Como dizem Toni Negri e Michael Hardt, “a multidão é composta de diferenças e singularidades radicais que nunca podem ser sintetizadas numa identidade”. No entanto, ela é facilmente manipulada, a multidão é cega, e o direcionamento para onde ela seguirá dependerá das consequências que serão tiradas desse processo, por quem tem a condução da política.
Depois dessa longa temporada de violência e contradições, de guerra civil global, corrupção do biopoder imperial e infinita labuta da multidão biopolítica, os extraordinários acúmulos de queixas e propostas devem em dado momento ser transformados por um evento de impacto, uma radical exigência insurrecional. Já podemos reconhecer que hoje o tempo se divide em um presente que já está morto e um futuro que já nasceu – e o abismo entre os dois vai se tornando enorme. Com o tempo algum evento haverá de nos impulsionar como uma flecha para esse futuro vivo. Será este o verdadeiro ato de amor político”. (Hardt, Michael e Negri, Antonio. Multidão. São Paulo, Record, 2005)