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sábado, 15 de agosto de 2020

O DESPERTAR DAS BESTAS (3ª PARTE)

O-despertar-da-besta-1969- José Mogica Marins

Em dezembro de 2019 escrevi neste blog o segundo artigo, com o mesmo título acima, em que analiso as transformações que aconteceram no Brasil na segunda década deste século. Uma análise que venho fazendo já há muito tempo, em outros textos que podem ser aferidos numa simples pesquisa sobre o que já publiquei relacionado à política brasileira e ao “cavalo de pau” que aconteceu na geopolítica mundial nesse período. Enfim, essa loucura toda não estava restrita somente ao Brasil.

Mas 2020 nos traria muito mais surpresas. Despertadas, as bestas infernizaram, literalmente, a política brasileira. Jamais se viu em nossa história política atos tão tacanhos, comportamentos impressionantemente estúpidos e uso de expressões chulas, feitas e ditas por um dirigente político alçado ao maior cargo de nossa república. No entanto, nos espantaríamos mais saber que existia, e existe, dentre os mais de 200 milhões de habitantes desse país, um quantitativo inacreditável de pessoas que não somente apoiam esses comportamentos, como garantem a sustentação de um governo absolutamente irresponsável. Reforçam, assim, atitudes que facilmente nos permitem avaliar os traços de caráter dos que atualmente comandam o estado brasileiro.

Ora, se entendemos ser fácil definir os traços de caráter dos que estão à frente do Poder, achincalhando a nossa frágil república, como é possível explicar tantos seguidores a lhes dar apoio e a compartilhar, por meio das redes sociais, atitudes que podem ser consideradas desprezíveis?

Nos artigos anteriores analiso as conjunturas políticas em dois momentos. Do golpe institucional de 2016, contra a presidenta Dilma Roussef, que levou ao poder o seu vice Michel Temer, político de perfil oportunista, que ascendeu a esse cargo como resultado do jogo político brasileiro tradicionalmente manchado por um presidencialismo de coalizão corrompido, no qual a esquerda sucumbiu estimulada pelo pragmatismo político;[1] ao resultado inesperado, mas consequência de uma série de situações criadas por erros dos próprios governos de esquerda, mas principalmente pela guerra híbrida que se desenrolou também aqui no Brasil, impulsionado de maneira decisiva pela grande mídia, que gerou como resultado um personagem do baixo clero político do Congresso Nacional, absolutamente inexpressivo em suas duas décadas de “atuação” parlamentar e transformou a nossa política em um mosaico estilo franksteniano. Ou pelo menos deixou bem nítido que esse problema de caráter pode não ser exceção, e possibilitou o despertar das bestas. O significado dessa expressão eu explico no segundo artigo.[2]

No entanto, mais do que um comportamento que identifica as características do perfil de indivíduos reacionários, sem caráter e absolutamente desprovidos de qualquer empatia, o que se desenvolviam eram mecanismos construídos por uma estratégia planejada, onde a estupidez e a disseminação do ódio percorriam por caminhos psicossociais, e encontravam na outra ponta uma quantidade grande de pessoas aptas a assimilarem todos os engendramentos perversos de ações e atos que adequaram ao século XXI práticas utilizadas em outros momentos da história que culminaram em genocídios, ditaduras, fratricídios, racismo, homofobia, xenofobia, feminicídio e outras perversidades. Em meio a tudo isso, o uso da fé como componente forte a manipular e incorporar o ódio por meio de valores tradicionais milenares, transpostos de uma era para outra anacronicamente, a repetir dogmas que em outros tempos possibilitaram perseguições, julgamentos morais, inquisição e assassinatos impiedosos por questões de escolhas ideológicas.

É preciso, no entanto, que saibamos compreender a dimensão exata de porque houve uma mudança tão radical no comportamento da população, que em menos de uma década passa a assumir escolhas e posturas tão diferentes, indo de um extremo a outro no espectro político brasileiro. E, também como se deu a reação a esse comportamento por parte dos segmentos de esquerda e dos setores mais intelectualizados da sociedade, tanto nas universidades, quanto na área cultural. Ao mesmo tempo, a necessária compreensão de como a conjuntura se altera rapidamente, não somente como consequência de ações políticas, mas por outro fator que passa a afetar todo o mundo, e completa uma realidade caótica que já se delineara com essas mudanças políticas. Mais do que o despertar das bestas, o que se viu foi um verdadeiro cenário apocalíptico, pior do que a humanidade já vira na Idade Média, com a peste bubônica, e no começo do século XX, com o vírus influenza, gerador da “gripe espanhola”.

A Covid19, gerada por uma mutação de um velho conhecido, batizado agora de Sars Cov-2, trouxe desorganização sistêmica, confusão pandêmica, recessão econômica com um freio em boa parte das cadeias produtivas e ajudou a disseminar um caos político que, em parte já estava em curso, por meio da estratégia que transformou a política brasileira. Embora não atingindo somente o Brasil, a pandemia gerou situações caóticas principalmente naqueles países cujos governantes assumiram o poder apostando no caos, desconstruindo a política e desmoralizando a democracia.

Sobre isso já fiz algumas abordagens e escrevi artigos tanto nesse blog quanto em revistas eletrônicas. Quero me concentrar nos resultados gerados pelo caos social e econômico, e o revés político que tem particularidades que merecem ser devidamente estudadas. A estratégia do caos, nítida no comportamento do governo Jair Bolsonaro é evidente, apesar de uma estabilizada momentaneamente em suas falas desconexas e aparentemente estúpidas, principalmente desde que o Supremo Tribunal Federal abriu investigação contra grupos de extrema-direita, fascistas, que fizeram da mentira uma arma e das redes sociais mísseis a mirar instituições e adversários políticos. Assim como devido à crescente investigação sobre o mal feitos de seus filhos, até a prisão de um velho aliado, e verdadeiro capataz, administrador de um séquito de assessores fantasmas de toda sua família. Até o “cercadinho” dos horrores, em frente à residência oficial, se desfez, alterando o comportamento que até então era de bravatas, bazófias e estultices, devidamente compartilhadas.

Em meio a tudo isso, uma indiferença fria e desumana aos milhares de brasileiros e brasileiras mortos vítima de uma doença para a qual ainda não existe vacina, e o governo a trata de maneira insignificante, com desdém impressionante. Escorado num auxílio econômico emergencial, que tem chegado a dezenas de milhões de pessoas, em muitos casos, com um valor bem acima do que era pago pelo Bolsa Família, embora abaixo das necessidades das famílias de pessoas pobres e desempregadas, o que se viu foi uma inversão na curva de impopularidade que o ameaçava nos últimos meses.

Não era uma mudança impossível de se prever. É sabido que todo governante se mantém com popularidade mediante ações que atendam a situações extremas do povo em condições adversas. Esse é um aspecto, que teve também seus momentos de glórias nos governos de esquerda, quando da investigação do “mensalão” e uma situação econômica que favorecia o governo, reelegeu o presidente Lula e impulsionou a candidatura de Dilma Rousseff, até uma virada como consequência dos descontroles fiscais e equívocos cometidos nas políticas de desonerações para beneficiar setores importantes da economia brasileira. Como sempre, principalmente em sociedades marcadas por desigualdades vergonhosas, a dependência do Estado faz com que o sabor das escolhas políticas, principalmente entre os mais pobres, esteja condicionado às circunstâncias das políticas econômicas.

A crise econômica potencializada pelo Covid19, a confusão política protagonizada pela família Bolsonaro et caterva, o medo do desemprego, as fake-news a gerar um vôo cego em boa parte da população em relação à essa doença, a insensatez, insensibilidade e perversões de todas as formas, espalharam na sociedade um efeito dispersivo, um comportamento aleatório, que evidentemente, só poderia beneficiar os que viam, e veem, no caos, o caminho para se imporem no comando político do estado brasileiro.

Enquanto isso o comportamento dos setores de esquerda, mesmo das camadas mais intelectualizadas, e dos setores culturais, embora mantivessem o espírito de combatividade que lhes é peculiar, pecou por agir seguindo a onda aleatória e sucumbindo à estratégia do caos. Adotou os mecanismos de enfrentamento que eram utilizados pelo bolsonarismo, transformando a política em um nonsense, caindo na armadilha de ir para um enfrentamento, nitidamente numa postura defensiva, tendo como base a ironia, a negação dos erros cometidos e a indiferença em relação ao poder religioso evangélico, tradicional e reacionário, que se escondia por trás de líderes-pastores travestidos de políticos, camaleões, que se infiltraram nos governos anteriores, mas que mantinham um projeto de poder entrelaçado com suas pregações nos púlpitos.

A esquerda abdicou do debate ideológico e transformou as redes sociais em ambientes tóxicos, tal qual a direita já vinha fazendo há anos. A ponto de se disseminar um outro efeito, causado pelas lutas identitárias, de uma já chamada “cultura do cancelamento”, pelo qual se atinge quem porventura cometer algum deslize no trato das questões relacionadas à essas lutas, mesmo que sendo progressista e de esquerda. Até mesmo setores do movimento anarquista, libertário, também alinhado com as lutas populares, passaram a tecer críticas ao movimento antifascista, em meio a denúncias de dossiês sendo feito pelo Ministério da Justiça contra esses movimentos, para serem repassados à Agência Brasileira de Inteligência, e até mesmo sendo entregues a autoridades estadunidenses. Ou seja, para onde é possível a população olhar e enxergar uma luz no fim do túnel, que não seja de uma locomotiva vindo em sua direção?

Isso explica, em parte, o inesperado resultado da pesquisa Datafolha, publicada no dia 13.08, dando indicativas de um crescimento da aceitação do governo Bolsonaro, em praticamente quase todos os segmentos sociais. Em alguns desses segmentos, principalmente entre os mais pobres, com pico elevado de aumento da popularidade, de um presidente que se caracteriza por banalizar a política e fazer do ridículo o elemento condutor de seus comportamentos.

Não há acasos na história. Para tudo existem explicações e causas que nos ensinam como se dão os processos de transformações sociais, as crises econômicas e o caos político, que sempre leva estados a situações de enfrentamentos entre classes sociais, processos revolucionários ou ascensão de governos autoritários e de viés fascista. Como numa guerra, se não houver um enfrentamento organizado, com uma estratégia adequada a fazer do combate ao inimigo resultados promissores e vitórias parciais e definitivas, também na política jamais se obterá sucesso se não houver planejamento nas ações, com objetivos bem delineados e aglutinação de forças que se sobreponham ao poder adversário e imponham sucessivas derrotas. Nenhuma vitória será possível se não houver essa conjunção de fatores, e, principalmente, a adoção de atitudes, ações e proposições coerentes, que consigam levar à população uma confiança capaz de reverter os caminhos pelos quais ela está seguindo. Caso contrário, o adversário, mesmo apostando no caos, na ignorância e na estupidez, se sagrará vitorioso nesse embate de forças para conquistar apoio político e desencadear um processo de virada no espectro político no país.

Charge - Para além dos cérebros

Não me parece que, neste momento, a esquerda esteja conseguindo fazer isso. Pois não consegue se unificar, não possui uma estratégia adequada, os vícios da hegemonia na disputa do poder se mantêm como freio à qualquer aliança possível, e a ilusão eleitoral como saída dessa situação. É evidente, que em se tratando de uma democracia capitalista, o processo eleitoral é determinante. Mas ele não pode ser visto como um instrumento de transformação, senão como consequência das transformações que possam ser feitas a partir da organização e conscientização das massas populares e das camadas trabalhadoras. É o contrário do que está sendo feito, quando se busca obsessivamente por mandatos que possam influenciar a forma da população se comportar politicamente.

Infelizmente, as organizações sociais e entidades de trabalhadores transformaram-se em clubes de simpatizantes de causas, que embora justas, não agregam senão aqueles que já são militantes e/ou os que possuem uma postura crítica e de esquerda. Isso não é suficiente. As periferias das grandes cidades, e as pequenas cidades, estão sendo tomadas por forças conservadoras, neopentecostais, que destroem a capacidade crítica das pessoas, e as aprisionam em valores que são geradores de ódios e intolerância.

É claro que essa indiferença das pessoas em relação à importância de suas participações em sindicatos e associações, não se deve somente a erros de estratégia da esquerda. Mas também foi algo construído ao longo de tempo, com medidas cerceadoras contra essas entidades, mudanças que implicaram em reduzir suas finanças e leis que pulverizaram o sindicalismo, de forma a possibilitar sua divisão. Embora essa fratura tenha sido aceita por muitos da própria esquerda, como desejada, a fim de cada partido poder possuir uma central sindical como instrumento de suas lutas.

Restou à juventude manter sua unificação em torno de suas entidades nacionais, nos âmbitos secundaristas, universitário e pós-graduandos. Malgrado as diferenças que existem ideologicamente em seus meios, o que não é um problema em si, desde que as divergências não ajudem mais o inimigo do que à suas causas. Porque é a essa juventude que recairá o peso maior tanto das consequências dessas políticas nefastas que estão destruindo o estado brasileiro, e a educação como principal alvo, como também porque terá que sair dela, da juventude, a força que poderá fazer com que o futuro do nosso país não seja na direção de um estado fascista, guiado por uma sharia cristã neopentecostal a se contrapor a uma constituição laica e progressista.

Evidente que a esquerda brasileira não é um monolítico. Como também a direita não é. Mas a coesão quase sempre se dá quando uma conjunção de interesses, que mirem em objetivos coletivos e em prol da sociedade, se sobrepõe à posturas hegemônicas, individualistas, com preocupações focadas meramente na ampliação de suas organizações e que se imponha sobre vaidades de líderes que se cegam, e mantem a cegueira como uma doença transmissível para os seus seguidores, que passam a agir truculentamente contra os que não sigam as suas concepções políticas e interesses eleitorais.

Não pretendo carregar aqui o baú da verdade absoluta. São apenas visões, críticas, que acumulei ao longo desses anos, expressos em artigos críticos já publicados aqui neste blog, e que podem ser revistos, claro atentando-se para as datas em que foram escritos. Mas o que desejo é, mais do que querer ser lido compulsivamente, o que do alto de minha pequena modéstia sei ser impossível, é desabafar em relação à uma conjuntura que me aborrece, me intranquiliza e me deixa frustrado depois de quatro décadas de lutas, imaginando poder ver na minha velhice uma parte do nosso caminho pavimentado na direção de uma sociedade menos desigual, tolerante, crítica, avessa ao autoritarismo, defensora do livre debate e da aceitação das ideias divergentes e das concepções e posturas diferentes, como uma condição de ser humano.

Como já escrevi em outros momentos, o futuro não existe. Ele é uma construção do presente, que pode dar certo ou errado a depender dos ensinamentos adquiridos pelo passado. No momento, infelizmente, o futuro é sombrio, tendo como referência as condições em que estamos vivendo. Mas é evidente que é possível mudar, as mudanças estão em nossas mãos. No entanto, isso só será possível se aquelas pessoas que assim desejam, compreenderem que é necessário alterar o curso da história, e que isso só será capaz de acontecer, se mudarem também seus comportamentos, adotarem estratégias coerentes e criarem novas condições para que o nosso futuro possível seja melhor do que o presente.

Por fim, para não deixar a poesia de lado, insiro os versos de uma música de Caetano Veloso, que se encaixa bem nesse momento:[3]

“Enquanto os homens exercem seus podres poderes, motos e fuscas avançam os sinais vermelhos, e perdem os verdes... Somos uns boçais. Será que nunca faremos senão confirmar, a incompetência da América católica, que sempre precisará de ridículos tiranos? Será, será que será que será que será, será que essa minha estúpida retórica, terá que soar, terá que se ouvir, por mais zil anos?” 

 


terça-feira, 1 de agosto de 2017

BRASIL, DA EUFORIA AO CAOS E À INCERTEZA: A LUTA DE CLASSES REDIVIVA – PARTE I

O que deu errado? Imaginávamos no começo do século XXI estarmos entrando em uma nova era, um novo tempo onde a esquerda poderia botar em prática toda a teoria com a qual esgrimia as palavras de ordem nas lutas políticas e sociais desde o final da ditadura militar.
Vamos por parte. Desde a identificação de nossos sonhos até a realidade objetiva, de como se constitui a estrutura política e burocrática do estado brasileiro. Refaçamos o percurso, resgatemos a história. E, creio, entenderemos o enredo do que está acontecendo e do que virá.
Voltemos no tempo.
Seguramente nossos sonhos foram ameaçados na derrota das eleições diretas, em 1984. E comparando aquele momento, com o que estamos vivendo agora, podemos compreender a capacidade como os setores reacionários e oportunistas fisiológicos se adaptam às circunstâncias, com o intuito de estarem sempre próximos ao Poder. Game of Thrones!
Lembro-me bem de todo o envolvimento dos setores organizados da sociedade brasileira, eu participei desse processo nos últimos anos da ditadura. Acuado, desmoralizado e enfraquecido, o regime militar perdia apoio à medida em que a luta democrática tomava impulso e se fortalecia. As mobilizações foram espetaculares, e a multidão se multiplicava nas ruas a cada comício pró-diretas. Naquele momento houve uma aglutinação dos setores progressistas de todos os partidos, à exceção do PDS, que dava sustentação ao governo militar. Seus membros eram em sua grande maioria oriundos da antiga Arena, partido fundado pelos militares e que lhe dava apoio.
As circunstâncias eram outras, opostas em todos os sentidos à situação que vivenciamos nos dias de hoje. Contudo, há uma similaridade, o que se conta, no final, são os votos. A força das ruas é importante, mas no jogo político o que define é a articulação política. Naquele momento, de grande pressão popular, praticamente funcionando contra o governo militar, a maioria dos parlamentares votaram a favor da emenda das diretas: 298 a 65. Mas, faltaram 22 votos para consagrar, naquele momento, o fim do regime militar.
A derrota da Emenda Dante de Oliveira não botou fim à esperança de derrotá-lo, mas dividiu a esquerda. A partir daquele momento todos os esforços concentraram-se no Plano B: o Colégio Eleitoral. Era por esse instrumento que os presidentes eram eleitos. Ou melhor, tinham suas escolhas formalizadas, já que eram definidos pelos militares. Contudo, o resultado da votação pelas diretas apontava uma possibilidade concreta de escolher o próximo presidente por esse mecanismo. Para dar uma conotação mais democrática constituiu-se toda uma estrutura, aproveitando-se das campanhas das diretas, com a realização de mais atos e comícios por todo o Brasil, agora em torno da candidatura de Tancredo Neves, político tradicional de Minas Gerais, que naquele momento se aliara às forças que desejavam as mudanças.
Por ironia, que o futuro iria contradizer, o Partido dos Trabalhadores recusou-se a apoiar esse caminho. Isso foi levado a tal extremo que alguns parlamentares que se recusaram a seguir essa orientação, ou melhor, decisão partidária, foram expulsos do partido, num momento em que o sectarismo raso era uma marca registrada no PT, naquele momento dominado por tendências esquerdistas, que décadas adiante foram se afastando e fazendo surgir outras organizações, que mantiveram essa característica, de primar por um tipo de política isolacionista focada em princípios que os mantiveram sempre reduzidos. Mas o PT foi na direção oposta, e, à medida em que ganhava novos parlamentares e crescia com vitórias em prefeituras e governos, passou a adotar uma política mais pragmática e conciliatória. Veremos o resultado disso mais adiante.
O movimento Diretas Já! Transformou-se em Tancredo Já!. Como era previsível, devido ao quadro político de isolamento do partido do governo, o PDS, que naquele momento tinha como candidato Paulo Maluf, a eleição de Tancredo Neves, do PMDB, sagrou-se vitoriosa. José Sarney, que havia liderado uma dissidência no PDS e criado a Frente Liberal (PFL), tornou-se o vice mais bem-sucedido da história política brasileira. Uma tragédia demonstrou que nada é fácil na democracia brasileira. Depois de tudo que se fez, e por mais de um ano de mobilizações de milhões de pessoas nas ruas, o presidente eleito, Tancredo Neves, faleceu antes de tomar posse. A tensão que se seguiu à sua morte era natural, imaginava-se poder haver alguma reação dos militares e a imposição de seu candidato. Se a decisão a seguir foi jurídica ou política, pouco importa, mas foi garantida a posse do vice que se tornou presidente. O Brasil se via então rumando para uma nova realidade política, sem o regime militar, mas com um governo conservador, de coalizão ampla, formado para tentar reconstruir o país politicamente.
Pelas circunstâncias, o governo Sarney foi importante para a democracia, principalmente pela convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte. Contudo, durante o embate travado pela nova Constituição, em que a luta de classes se elevou a níveis pré-revolucionários, principalmente em decorrência da discussão em torno da reforma agrária, os setores reacionários conseguiram se organizar, e, com a complacência, conivência e cumplicidade do estado brasileiro e suas instituições, principalmente polícia e judiciário, agiram criminosamente contra os setores populares e assassinaram centenas de lideranças sindicais e políticas, especialmente devido à discussão e luta pela reforma agrária.
O desgaste do governo Sarney, incapaz de tirar o país da imobilidade (a década de 1980 foi considerada “a década perdida”, embora não somente em relação ao Brasil) e fazer baixar uma inflação estratosférica, aliado a toda uma campanha feita pela mídia que procurava desgastar a política e o serviço público, servindo-se da velha cantilena de corrupção e ineficiência, projetou um jovem governador de Alagoas. Aliado da poderosa Globo, rede que se formou à sombra dos militares, Fernando Collor se projetou na mídia nacional como o “caçador de marajá”, em alusão ao fato distorcido pela mídia de que os servidores públicos ganhavam muito e eram ineficientes. Isso já fazia parte da estratégia do capitalismo globalizado, em curso a partir da Europa e EUA, que, via políticas neoliberais visavam reduzir o tamanho do Estado, privatizar em larga escala e abrir as fronteiras para o capital financeiro internacional.
Com Collor o país se abria a essas políticas. Sua eleição só foi possível com a ajuda da Globo, que montou desavergonhada farsa em torno do último debate televisionado em cadeia nacional. Seu oponente, naquele momento com maiores chances de vitória era Luiz Inácio Lula da Silva. A montagem feita pela Globo foi decisiva para o resultado, haja vista que as eleições aconteceram três dias depois, tempo insuficiente para reparar os estragos causados. Um golpe midiático. Mais um, que, naturalmente, não seria o último. Mas isso não foi suficiente para alertar o Partido dos Trabalhadores.
Desastrados assessores, em seus contumazes atos de corrupção, principalmente por meio de esquemas mantidos por Caixa 2, e envolto em intrigas familiares, o presidente Collor caiu em desgraça. Depois de vários meses em que a juventude se levantou no movimento que ficou conhecido como “Fora Collor” e a luta dos “caras-pintadas”, e uma CPI que desgastava e minava as bases de seu governo, Collor viu sua cabeça ser entregue numa bandeja. Diante de mobilizações massivas, era preciso aos setores conservadores daquela época e às elites dirigentes empresariais e financeiras, mantê-lo afastado, e mais uma vez tentar uma transição sem receio de embarcar em um governo de esquerda. A saída, foi, mais uma vez, um acordão em torno do PMDB. Collor foi abandonado e uma aliança, envolvendo PMDB, PSDB e PFL (DEM), foi feito para consolidar toda a política neoliberal que já vinha sendo implementada por Collor.
Na sequência, após dois anos do governo do vice Itamar Franco, impulsionado pelo plano econômico que mudou a moeda e estabilizou a economia brasileira, as eleições seguintes elegeu Fernando Henrique Cardoso, do PSDB. Com um governo marcado pela vergonhosa submissão aos interesses dos Estados Unidos o país se viu completamente envolvido pela política neoliberal. Medidas privatizantes foram tomadas, afetando empresas estatais de importância estratégica, em setores imprescindíveis para a economia brasileira, como os de energia e de telecomunicação. Com essas medidas, o país perdia divisas, aumentava sua dívida externa e via se ampliando o desemprego.
Em meio a uma crise ainda escondida, e através de compras de parlamentares, o governo FHC aprovou o casuístico instrumento da reeleição, possibilitando que ele concorresse mais uma vez. Seu adversário, novamente, foi Luiz Inácio Lula da Silva. A reeleição de FHC serviu para aprofundar a crise econômica, levando o país a recorrer ao Fundo Monetário Internacional que garantia os empréstimos mediante imposições. Como contrapartida o FMI exigia medidas de redução do Estado e mais privatizações. A Petrobrás era cobiçada por interesses internacionais, seu potencial e seu objetivo, naturalmente, atraía a cobiça de grandes corporações. Setores importantes e um volume grande de ações foram repassadas ao setor privado, e navios petroleiros eram produzidos em outros países, afetando perversamente a cadeia produtiva do petróleo. O entreguismo se intensificou, e, claro, piorou a economia, elevando a inflação e o desemprego.
Nesse ambiente, de desgaste de um governo que entregou boa parte da riqueza nacional, e o caso mais emblemático foi a privatização da Companhia Vale do Rio Doce, as eleições seguintes trariam uma surpresa. Tendo como candidato oficial o senador José Serra e concorrendo pela quarta vez, desta feita sagrou-se vitorioso o ex-metalúrgico e líder operário e sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva. O ano era 2002 e surpreendia assim todo o mundo, pelo inusitado de, pela primeira vez, um operário e nordestino, além de representar a esquerda, ser eleito presidente da República. Iniciava-se um novo ciclo da política brasileira e pelos anos seguintes diversas medidas e programas de inclusão social renovariam as expectativas em torno das transformações que afetariam o país. Todo o mundo tinha os olhos voltados para o Brasil, enquanto do outro lado as atenções se dariam sobre as guerras comandadas pelos EUA no Oriente Médio, como retaliação ao atentado que assombrou o mundo em setembro de 2001. Esquecido pelo grande Império, o Brasil e os demais países da América Latina inauguraram uma nova era, marcada pela ascensão de diversos governos de esquerda.
Bem ao contrário de se constituir em um presidente com posições esquerdistas, Lula e o seu governo se pautou por aplicar uma política pragmática, principalmente em relação à economia, que em certos aspectos manteve alguns elementos do neoliberalismo. O seu Ministro da Fazenda, eleito deputado federal pelo PSDB, Henrique Meireles, um ex-executivo de um dos maiores bancos do mundo, servia para “acalmar o mercado”. Esse personagem retornará mais adiante.
A composição com o PMDB e as demais alianças com partidos de centro, se deu como condição de garantir governabilidade em um Congresso dominado por políticos de direita, centro, centro-direita e centro-esquerda. A esquerda sempre esteve em minoria, e seus votos insuficientes para aprovar medidas que fossem necessárias aos programas sociais. As concessões, portanto, se deram em forma de propostas neoliberais, e de investimentos em setores produtivos para agradar a burguesia nacional, os latifundiários e os banqueiros.
No plano internacional o comportamento foi mais à esquerda, contrariando interesses dos setores de centro e direita. A aliança com Chavez e Cristina Kischner foram fundamentais para implodir a ALCA e impulsionar o Mercosul e depois a Unasul. Os interesses dos EUA foram claramente contrariados, e, mais ainda quando da criação dos BRICS e de seu consequente fortalecimento, até chegar a proposta da criação do Banco dos BRICS (Bloco reunindo o Brasil, Rússia, Índia, China e, posteriormente incorporando a África do Sul) e o que viria a seguir, uma nova moeda. Creio ter sido esse o ponto central, momento em que seguramente acendeu a luz vermelha da vigilância imperial, e acelerou o processo de derrotar os governos desses três países, principalmente, na América Latina e abrir outra frente contra a China e a Rússia. Mas essa é uma outra história.
Apesar de todos os percalços, principalmente como consequência do escândalo denominado “mensalão”, pelo qual se descobriu o repasse para parlamentares da base governista, via mecanismo de caixas paralelos para quitação de campanhas, seja passadas ou futuras, Lula conseguiu se reeleger, às vésperas de uma crise de proporções mundiais, por ele definida como “marolinha”. O país passou a navegar em um mar sereno e internamente a economia explodia em índices inéditos e inundava-se em créditos garantidos pelas políticas econômicas num estilo de desenvolvimentismo mesclado com medidas neoliberais na forma de organização do Estado brasileiro. O forte investimento no setor de produção nacional, e o incentivo para que em determinados setores da economia grandes empresas estatais e/ou privada se destacassem fez surgir fortes corporações brasileiras que passaram a se expandir fortemente, interna e externamente. Por outro lado, medidas sociais focada na necessidade de retirar milhões de brasileiros da pobreza, via um mecanismo importado de antigas políticas estadunidenses, fez surgir um dos mais bem sucedidos planos de combate à miséria do mundo, reconhecido pela eficácia pela Organização das Nações Unidas (ONU).
O Brasil se projetava no cenário mundial, não somente na América Latina, mas em todo o mundo. O protagonismo da nossa política externa e a liderança e carisma de Lula da Silva seriam determinantes para levantar preocupações geopolíticas por quem sempre julgara ser essa parte do continente americano, o quintal de seus negócios. Os EUA discretamente, e por meio de intensa espionagem, preparava o bote necessário para desestabilizar a política brasileira. Mas internamente, a “marolinha” se transformava em “tsunami” e a crise que rondava o Brasil e a América Latina como um todo penetrou com força. As medidas a serem adotadas ficariam a cargo da sucessora de Lula, Dilma Rousseff, que manteve Guido Mantega como ministro, desta vez na Fazenda, mas com um direcionamento da economia em outro patamar, visando reforçar setores produtivos fortes e com alto grau de empregabilidade. Traduzindo, isentou de impostos uma burguesia absolutamente beneficiada nos anos anteriores, na perspectiva de que haveria uma contrapartida para a manutenção desses empregos e estabilidade da economia. O que se viu foi uma sucessão de equívocos e de traições, que era de se esperar, de setores que só pensam em acumular cada vez mais riquezas, pouco se preocupando com as condições de pobreza da população.

A reeleição de Dilma Roussef se deu em meio a uma forte polarização, com a radicalização da luta política por um lado, reflexo de intensas manifestações de rua em 2013, conhecidas como “Jornadas de Junho”, que movimentou multidões insatisfeitas com medidas políticas locais e estaduais, mas que foram direcionadas pela mídia para atingir o governo federal e desgastar Rouseff. O resultado das eleições refletiu essa polarização, com um pequeno percentual de diferença o candidato da oposição, Aécio Neves, do PSDB foi derrotado, mas não aceitou o resultado. Na sequencia do embate político pelo resultado da eleição, os números da economia passaram a ser divulgados demonstrando um descompasso em relação aos que tinham sido apresentados durante o processo eleitoral. Isso serviu de munição para a oposição e foi potencializado por uma série de denúncias de malversações de dinheiro público que se transformou na maior operação de combate à corrupção da história do país.
A “Lavajato” se constituiu no mecanismo pelo qual o Brasil passaria a conviver, mais uma vez, com traições políticas, oportunismos e chicanas jurídicas. O que era tradicional, e jamais combatido como um crime, o caixa 2, comum nos processos eleitorais, se transformou no mecanismo de perseguição e prisão a dezenas de políticos e empresários. A facilidade com que esse processo se iniciou é facilmente explicável, bastando ligar as denúncias de espionagens sobre o governo e suas principais empresas de interesses estratégicos, principalmente a Petrobrás, feitas por Edward Snowden e que demonstrava as ações subreptícias dos EUA para desestabilizar o nosso país, da forma como acontecera em inúmeros outros na África, Ásia, Oriente Médio e na América Latina.
O Brasil entrou assim numa espiral de crise com sucessivas ondas de desestabilização, até atingir o ápice no golpe de estado sofisticado, que levou junto a política e a democracia para o fundo do poço. Difícil imaginar uma situação com tantas reviravoltas, mas impressiona a capacidade das camadas dirigentes, e algumas instituições, em agir cinicamente, demagogicamente e à revelia dos interesses nacionais e da maioria da população, numa mesquinha disputa de poder sem limites éticos, morais e com absoluta ausência de sensibilidade social. Venderam o país, destruíram-se as conquistas sociais, pisotearam os direitos trabalhistas e disseminaram o ódio e a intolerância a níveis pouco vistos em nossa história.
Como foi possível chegar a esse ponto? Tentaremos detalhar segundo uma visão geopolítica, mas, seguramente, procurando clarear o porquê desse furacão que  transformou a realidade política brasileira. O que se imaginava esquecido em antigos manuais da esquerda, se manifesta na sociedade e nos conflitos que tomaram enorme vulto nesses três últimos anos: a luta de classes.
Prosseguiremos na análise no próximo artigo, nos aprofundando na essência dessas transformações e na crise estrutural que afeta o mundo capitalista.