quinta-feira, 17 de março de 2022

SOBRE O SENTIDO DA GUERRA


A guerra faz parte da história da humanidade. Estudemos história. O ser humano não melhorou nesses milênios do surgimento das "civilizações". Se tornou mais perverso, belicoso e se armou com armas muito mais sofisticadas e destruidoras. A usura e a ganância potencializaram isso. 

Por trás dos jogos de guerra estão os jogos de Poder. Tudo isso juntos e misturados. Então não temos, necessariamente, que escolher um lado. Mas precisamos conhecer a história e como se montam, se estruturam e se fortalecem as máquinas de guerras. Na atualidade a maior máquina de guerra é a OTAN. Paradoxalmente, criada para combater o avanço do poder soviético e socialista, mas que se manteve forte e aumentando seu poderio como sempre fizeram os antigos impérios. Derrotado o nazismo, o ocidente mirava na expansão do poder soviético e do socialismo. No entanto, o fim da União Soviética, e das transformações das estruturas políticas e econômicas dos países que a compunham, não significou o fim da OTAN. A partir daí já não há mais uma disputa ideológica a alimentar essa máquina de guerra, e sim a manutenção de um sistema, que como os demais existentes no passado, se enfraquece e vê despontar novos atores na luta pela hegemonia mundial. Quem controla essa máquina, não deseja perder essa hegemonia. Afinal, quem tem poder só deseja uma coisa... mais poder.

Vivemos em um tempo de fluidez, dos deslocamentos rápidos, da informação ágil e em tempo real. Ao mesmo tempo, vivemos em uma época em que essas mesmas informações se esfumaçam rapidamente, e desconsideram-se a história, apaga-se o passado. A era do Tik Tok e do Instagram, das redes sociais interpessoais, consolidou a Era da Estupidez, do protagonismo do(a) ignorante. Ignorante em seu sentido etimológico, e até mesmo do seu significado ontológico, considerando-se as circunstâncias que levaram a construção desses elementos no aspecto do distanciamento da realidade, do desconhecimento dela. Os dias de hoje transformaram ignorantes em experts em tudo. 

Aí nós passamos a necessidade do entendimento de que por trás da máquina de guerra existe uma máquina de poder midiático: o poder da propaganda. Como uma arma de guerra poderosíssima, aproveitando-se dessa característica dos tempos atuais, com informações curtas e desconectadas com a história, apostando no esquecimento. A manipulação grosseira, e a disseminação de mecanismos seja por noticiários, ou programas medíocres, a fim de manter as pessoas nesse estágio de uma ignorância orgulhosa de si. Ah, some-se a isso o surgimento de uma outra máquina de controle ideológico: a religião, principalmente a de viés neopentecostal, da chamada “teologia da prosperidade”, de um deus perverso, vingativo e ganancioso. Mas para outros lados do mundo, os deuses são outros, não menos belicosos e perversos.

Mas há um outro Poder em disputa. Para além da guerra, mas retroalimentando-se dela: o Poder econômico. E aí, nesse ponto, vamos encontrar as razões pelas quais as máquinas de guerras só se fortalecem. Mesmo em tempos de paz. Contudo, a máxima que está na essência das preocupações daqueles que se beneficiam desses poderes é: “se desejas a paz, prepara-te para a guerra”. E criou-se uma indústria por trás disso. Essa frase já foi dita até mesmo por uma figura nefasta, ignorante, que foi jogado numa cadeira presidencial em um certo país latino-americano. O maior do Sul do Continente.

Para finalizar, visto que esse textão já se estendeu demasiadamente, que deixemos claro na análise dessa guerra em curso. Mais uma, aliás, porque diversas outras estão acontecendo e já aconteceram nessas duas décadas deste século belicoso. Essa não é uma guerra de viés ideológico, como prevaleceu durante a Guerra Fria. Os países que se enfrentam, o fazem em um mundo praticamente funcionando integralmente dentro da lógica do sistema capitalista, e fortemente integrado. Com raríssimas e pequenas exceções. Embora possamos identificar diversas formações econômico sociais, o determinante e reinante é o modo de produção capitalista. Os embates vigorosos nesse momento que opõe um forte oponente euroasiático (Rússia) e os EUA (leia-se OTAN), tendo a Ucrânia como bode expiatório (não vou entrar nos aspectos geoestratégicos, para isso já escrevi um artigo em meu blog, peço que leiam: https://gramaticadomundo.blogspot.com/2014/05/o-coracao-da-terra-prestes-se-incendiar.html) se dão, portanto, dentro de um mundo dominado pelos capitalistas. 

E já que se falam dos autocratas russos, que foram “descobertos” agora, o que dizer, então, dos autocratas ocidentais, muitos deles “senhores da guerra”, que se aproveitam das destruições de países, porque são acionistas de grandes corporações da guerra, e se beneficiam depois, pois também são acionistas das grandes corporações que irão reconstruir aquele país destruído em suas infraestruturas. Os autocratas estão aí, num mundo que não é democrático, mas plutocrático.

Enfim, termino citando Yves Lacoste, geógrafo francês, que no seu livro “A Geografia, isso serve em primeiro lugar para fazer a guerra”, escreveu que “o mundo é muito mais complexo do que nos querem fazer crer”. Para saber mais... só estudando a história e a geografia. 

Escrevi esse texto, originalmente, como um TBT, e publiquei em meu perfil no Facebook. Mas, nitidamente, os algoritmos estão mais seletivos nessa guerra. A visibilidade é reduzida quando o tema é a guerra e não esteja de acordo com a visão estadunidense. Uma forma de "censura democrática", que o Ocidente plutocrata nos oferece sutilmente. 

Boa quinta-feira e bom final de semana. Sem guerra... mas nos preparando para ela. Afinal, somos seres humanos. Enfim...


(*) SUGESTÕES DE DOCUMENTÁRIOS:

1 – SOB A NÉVOA DA GUERRA (DEPOIMENTO DE ROBERT MCNAMARA) – YOUTUBE

2 – ENTREVISTAS COM PUTIN (Direção de Oliver Stone) – NETFLIX

3 – ANÍBAL – O MAIOR PESADELO DE ROMA – YOUTUBE

4 – A ARTE DA GUERRA (HISTORY CHANNEL) – YOUTUBE. * Mas é melhor ler o livro antes.

5 – A DOUTRINA DO CHOQUE – YOUTUBE

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

DE VOLTA ÀS ORIGENS – UM RETORNO AO PASSADO PARA REVIGORAR O PRESENTE

Praia do Forte - BA

Como sempre faço todos os anos, numa espécie de catarse para fugir da rotina e me deparar com outras paisagens, me aventuro nas estradas em busca de algum canto onde eu possa me distrair e relaxar. Ao longo de quase trinta anos perdi a conta da quilometragem que percorri por todos os cantos desse nosso imenso país, de norte a sul, de leste a oeste. Até mesmo atravessando a fronteira, pelo Uruguai e indo em direção a Argentina, retornando pela tríplice fronteira, acrescentando aí o Paraguai.

Aqui mesmo neste blog já registrei por meio de dois artigos as minhas aventuras: “A experiência de um sertanejo nordestino da Caatinga até o Cerrado goiano – E a caça ao pequi”;[1] e “Minha vida é andar, por esse país, pra ver se um dia descanso feliz...”[2] Desta feita, para além do que já relatei nas redes sociais, um eterno retorno à minha querida Bahia, e um passeio pela sempre aprazível e agradável João Pessoa, na Paraíba, fui também em busca de relembranças, do resgate de minha origens. E é o que irei, de forma resumida, transmitir nesse pequeno artigo.

Na verdade, essa busca por informações e lembranças do meu passado faz parte de um Memorial que começarei a escrever, como condição para ascender ao último degrau da carreira nossa de docente na Universidade, para professor Titular. Ainda falta retornar para registro à cidade que nos abrigou quando viemos da Bahia para Goiás: Morrinhos.

Mas, foi também uma retomada de contatos com parentes, primos e primas, tanto em Salvador, como em Alagoinhas, cidade onde nasci. Fiz um registro fotográfico, que insiro aqui para compartilhar esses momentos com os leitores do meu blog, com amigos e amigas. Mas o registro completo virá com o Memorial, que disponibilizarei para todos e todas, assim que for aprovado pela Banca onde deverei apresentá-lo.

Em Salvador, a primeira parada. Era para ser um final de tarde em Itapoã, mas terminou sendo uma noite agradável em companhia do primo Antonio Carlos e sua companheira Eva, onde sempre somos bem recebidos, e com quem sempre mantenho um permanente diálogo. Itapoã guarda em mim muitas saudosas lembranças. Em sua praia, nas pedras desse lugar tornado icônico por Vinicius de Moraes[i], registrei uma das fotos mais belas de minha querida e inesquecível filha, Carol, no ano de 2006. Um ano depois ele faleceu, em 13 de dezembro de 2007.

As conversas sempre giram em torno de nosso passado, das lembranças de nossos pais e nossas mães, dos lugares onde vivemos, e, felizmente, da afinidade política que nos coloca do lado certo da história, e contra esse estrupício que acidentalmente foi parar na presidência da República. Mas, enfim, acidentes acontecem na história.

Para além de Salvador, indo em direção ao Recôncavo baiano, não tão distante, a 120 quilômetros da capital, se encontra Alagoinhas. Uma cidade que cresceu muito rapidamente, aproveitando-se da confluência da BR-101, na intensidade do tráfego entre Feira de Santana e Aracajú, além de beneficiada por uma malha ferroviária -  atualmente conta com mais de 150.000 habitantes. Mas também por sua economia forte e na produção de limão e laranja com destaque, além de, desde a década de 1960, ter sido beneficiada pela descoberta de petróleo em seus limites. Fui rever Alagoinhas, de onde saí, salvo engano com uma idade de 12 ou 13 anos, no final dos anos 60.

Câmara de Alagoinhas

Meu objetivo principal, além de registrar os lugares onde vivemos (claro, em termos de localização, porque a paisagem é completamente diferente), foi também buscar informações sobre os mandatos de vereador, exercidos por meu pai. Ali ele exerceu a vereança por quatro legislaturas, sendo por duas vezes secretário da mesa diretora da Câmara Municipal. Nesse ponto fomos felizes, porque encontramos os registros que precisávamos, que nos foram compartilhados de forma atenciosa pelos servidores daquela Casa. Meu pai, também Romualdo, foi preso em 1964 e ficou por trinta dias aprisionado no complexo do Forte Monte Serrat em Salvador, transformado em prisão dos que eram considerados suspeitos de serem “subversivos”, ou ligados ao partido de João Goulart, como era o caso dele. Esses detalhes deixarei para relatar no Memorial. A Câmara, naturalmente, está em outro local e em um prédio próprio, bem amplo. Mas conseguimos registro de onde funcionou a antiga sede, ao lado da prefeitura. E ali próximo, não muito distante, o local onde vivemos quando crianças.

Prefeitura e Antiga Câmara

Depois que meu pai retornou da prisão, fato que ele pouco comentou conosco, teve o seu mandato cassado. Tornou-se funcionário do antigo Departamento Nacional de Estradas de Rodagem, DNER (transformado depois em DNIT, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso) e pouco tempo depois se transferiu para a cidade de Serrinha, a cerca de 70 quilômetros de distância de Feira de Santana (onde morava meu avô e minha avó), e 180km de Salvador.

Fernando e Neusa, primo e prima.
Em Alagoinhas mais uma vez tive o enorme prazer de rever meu primo Fernando, sua esposa Jane e sua sogra, e minha prima Neusa. Por ser entre o Natal e o ano novo, não foi possível reencontrar a todos, mas não foi a primeira vez que lá estive com eles, sendo sempre bem recebido. Foi uma satisfação poder conversar sobre diversos assuntos, que diziam respeito ao nosso passado, mas também sobre as condições atuais de nossas vidas e do nosso país. Sempre tendo o prazer de saber que há sintonia em nossos pensamentos e ideias.

De lá, voltamos a Salvador, para dois dias depois seguirmos para Serrinha. Um pouco mais distante, mas ainda relativamente perto de Salvador. Situada no Nordeste baiano, Serrinha é uma cidade de porte médio, com pouco mais de 80.000 habitantes. Bem servida pela malha rodoviária, e por uma ferrovia, tem pouco destaque na economia regional, mas um pujante movimento decorrente de atividades agropecuárias e no setor mineral. Tradicionalmente foi festejada pela qualidade de sua água, tida como milagrosa e tendo sido até mesmo tema de música.

Ginásio Estadual Rubem Nogueira

Ali vivi poucos bons anos de minha infância e começo da adolescência. Moramos inicialmente num sítio, logo na entrada da cidade, hoje transformado em um condomínio de casas, e depois mudamos para uma outra residência na mesma rua, sempre perto do DNER, onde meu pai trabalhava. A poucas quadras dali ainda existe o Ginásio Estadual Rubem Nogueira, onde entrei pelo processo de admissão, que havia naquela época, início dos anos 1970. Se não estou enganado fazia o segundo ano do ginasial quando saímos de lá. O terceiro e último ano e o colegial eu fiz na cidade de Morrinhos (GO), para onde mudamos em 1974.

Antiga residência em Serrinha

Como historiador rever o passado é algo que faz parte da minha trajetória como profissional estudioso dos processos históricos, e naturalmente isso também se aplica à minha vida. Mas é uma sensação diferente, muito agradável, retornar a esses lugares e fazer essa viagem também no tempo, e depois estar de volta para o futuro. Sim, porque para mim o futuro se conta a cada minuto que está logo ali, à frente, no presente.

Centro de Serrinha - BA

Ali em Serrinha comecei meu primeiro emprego, numa farmácia, no centro da cidade e próximo à feira que acontecia aos sábados. Eu trabalhava somente nesses dias, que era quando o movimento aumentava como decorrência da feira. O prédio da farmácia estava lá ainda e pude fotografá-lo no tempo certo, porque pelas informações ele será reformado neste começo de ano.

Voltei radiante desse contato com pedaços do meu passado, que contam minha vida. Tanto de Serrinha, como de Alagoinhas. E feliz por ver, mesmo que meio a chuvas intensas que estavam assustando, e causando estragos em boa parte da Bahia, a vegetação da caatinga verdejante. Por todo esse tempo em que viajo para o Nordeste nunca vi a caatinga tão verde, o que dá a dimensão da felicidade do sertanejo, do morador do sertão profundo, no agreste baiano e nordestino.

Forte de Monte Serrat

Retornei à Salvador e fui fazer uma visita à Ponta de Humaitá, onde se localiza o Forte de Monte Serrat, local para onde meu pai foi levado, acusado de ser comunista sem nunca ter sido. Mas, naturalmente, era um vereador combativo e ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Curtume de Alagoinhas. Como Romualdo Pessoa também, filho, assumi a condição pela qual o acusaram, com muito orgulho e para lutar contra a opressão e as desigualdades sociais.

O restante da minha viagem pelo Nordeste, em direção à João Pessoa, na Paraíba, foi mais para tornar a sentir a brisa sagrada que sopra do litoral nordestino, e eu, como bom sertanejo, sei bem apreciar.

Em breve contarei esse história por inteiro, no meu Memorial: UMA VIDA EM TRÊS TEMPOS.

Até lá espero que tenham apreciado este relato, e os outros dois artigos que já escrevi, cujos links estão aí abaixo.

PS: Retorno ao texto para uma correção necessária. O agradecimento à minha irmã, poetisa, Ana Cristina, pela acolhida e hospitalidade em Salvador, sempre agradável. Ela está na foto 2, ao meu lado.

(*) Para acessar suas poesias copie o link: https://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=135213



[1] https://gramaticadomundo.blogspot.com/2019/12/a-experiencia-de-um-sertanejo.html

[2] https://gramaticadomundo.blogspot.com/2020/06/minha-vida-e-andar-por-esse-pais-pra_10.html


sábado, 11 de setembro de 2021

11 DE SETEMBRO, 20 ANOS DEPOIS – UM LOOPING INFINITO

Me lembro muito bem dos acontecimentos matutinos daquele dia 11 de setembro de 2001. Eu me dirigia para o meu trabalho, no Instituto de Estudos Socioambientais, no Campus da Universidade Federal de Goiás. Naquele dia eu não daria aula pela manhã, era uma terça-feira, e por isso saí de casa um pouco mais tarde, visto que eu teria aula no período noturno.

Foi dentro de meu carro, ouvindo o rádio, que ouvi a notícia de que os EUA estavam sendo atacado. A informação foi dada inicialmente dessa maneira, em meio à edição matutina do noticiário. Claro que era uma notícia impactante, e me deixou impaciente. Afinal, essa era uma área de informação que me tocava diretamente, pelo conteúdo das disciplinas que eu lecionava. Atento, e ao mesmo tempo tenso, pois eu conseguia imaginar as possíveis consequências desse fato, cheguei à universidade tentando me informar melhor sobre o que estava acontecendo. Mas me lembro de falar a alguns colegas que os EUA estavam sendo atacados. Repeti a informação recebida pelo rádio.

Aos poucos fomos nos inteirando pelas imagens impactantes que chegavam, pela televisão e pela internet, em meio a toda uma sensação de incredulidade com o que víamos. O que realmente teria acontecido somente ficamos sabendo algum tempo depois. Afinal, mesmo para quem estava ali em Nova Iorque, a olhar para aqueles dois prédios em chamas, se espantavam com o que viam, e buscavam respostas imprecisas para aquelas cenas dantescas. Os maiores prédios de Nova Iorque, um dos orgulhos da arquitetura estadunidense, pelo viés do poderio econômico, naturalmente, sendo consumidos pelo fogo, e ao mesmo tempo em que o desespero fazia com que algumas pessoas se jogassem do alto de seus mais de cem andares. Impossível ser mais impactante, e cruel.

Depois chegavam as informações de ataques semelhantes ao Pentágono. E de um avião ter sido abatido quando seguia rumo à Casa Branca. Ou seja, escolhido a dedo, alvos que representavam o poderio econômico, militar e civil, da maior potência bélica do planeta. Não poderia ser um começo de século pior para a humanidade. Ao longo daquele fatídico dia e pela semana, com o desenrolar dos acontecimentos e a confirmação de que aquilo teria sido um atentado, em que aviões pilotados por terroristas foram transformados em mísseis que perversamente tirou a vida de quase três mil pessoas, fomos percebendo que os efeitos colaterais daqueles atos marcariam o começo da década. Mas isso foi mais longe, marcou, verdadeiramente, o século XXI, e veremos a seguir o quanto isso impactou as relações internacionais, a geopolítica mundial e a crise econômica que explodiria em 2008.

Há dez anos, em 2011, escrevi neste blog um artigo[1] sobre esse fato, ainda em meio à euforia estadunidense pelo assassinato de Osama Bin Laden, completando assim o compromisso de vingança, bem mais do que de justiça, levada a cabo desde o primeiro momento pelos Estados Unidos. Procurei naquele momento fazer uma análise não somente dos efeitos colaterais dos ataques terroristas ao coração dos EUA. Mas indiquei também as razões que transformaram aqueles atos, eles próprios, em efeitos colaterais das atitudes imperialistas e dos comportamentos rapaces estadunidenses, baseados na doutrina de segurança nacional que praticamente declara guerra antecipada a todo e qualquer país que seja governado por quem não se alinhe aos seus interesses. A busca, perseguição e eliminação do inimigo externo, e também do inimigo interno, se acentuaria e se tornaria uma obsessão, reforçada pelo Patriot Act.

A bem da verdade, e a história está aí para não nos fazer esquecer, diversos outros atentados já tinha acontecido antes, inclusive no próprio World Trade Center, quando a mesma Al Qaeda, ou um grupo que lhe era subsidiário e com seu financiamento, tentou implodi-lo, colocando na garagem uma caminhonete com explosivos, em fevereiro de 1993. O objetivo embora não tenha sido atingido por completo, causou estragos insuficientes para comprometer a estrutura, mas causou a morte de sete pessoas. Já era um indício que a Al Qaeda pretendia atingir instalações no coração financeiro dos EUA.

A estratégia de Osama Bin Laden, concretizada em 11 de setembro de 2001 era não só causar medo à população estadunidense e demonstrar que eles eram vulneráveis a ataques, mas, principalmente, atrair aquela potência para uma guerra distante que inevitavelmente a desgastaria diante da impossibilidade de conseguir derrotar grupos dispersos, com táticas de guerrilha, em ambientes inóspitos e dispostos a morrer por uma causa fanática e anti-imperialista. Além disso, Bin Laden sabia que a reação intempestiva dos EUA ampliaria os danos colaterais na Ásia e no Oriente Médio, jogando em mãos dos grupos terroristas, jovens dispostos a se engajarem numa guerra santa contra um inimigo que viria e eliminaria centenas de milhares dos seus. A “guerra ao terror”, de uma absoluta subjetividade, e não aos terroristas que cometeram aqueles crimes, foi seguramente, o maior erro estratégico da história dos EUA, e isso viria a impactar profundamente a humanidade e este século XXI.

A guerra contra o Afeganistão foi o primeiro passo e era previsível a ferocidade com que o império cairia sobre aquele país, visto que o Talibã jamais entregaria Bin Laden, considerado herói por eles, não somente por aquele ataque ousado, mas por seu envolvimento na luta para expulsar os soviéticos do solo afegão. A força bélica dos EUA, bem como de seus aliados, era amplamente superior, e o resultado era previsível. Em pouco tempo os Talibãs foram derrotados, mas não destruídos, e as montanhas do Afeganistão, que já tinha abrigado guerrilheiros revoltosos em luta contra as ocupações britânicas e soviética, mais uma vez garantiria com o tempo, e o desgaste natural a qualquer exército invasor, o revés que eles aguardariam pacientemente, fustigando com táticas de guerrilhas os jovens soldados estadunidenses movidos pelo sentimento de vingança, mas não por uma causa como a de lutar por liberdade e contra um opressor.

O tempo passaria a ser o principal adversário dos EUA, além da geografia do Afeganistão. Por um tempo a vitória parecia evidente, e assim foi anunciada ainda no segundo governo Bush. Os “falcões” bélicos estadunidenses passaram a ver a partir dali, pouco tempo depois da invasão ao Afeganistão, e diante desse sentimento de vitória alcançada, a oportunidade de ampliar seu belicismo, agora mirando o Iraque. E assim foi feito. Aproveitando-se da neurose que se espalhava diante do ódio pelo ataque terrorista, e manipulando fortemente a mídia subserviente, deu-se início ao que o século XXI passou a se deparar como uma cultura, as mentiras como armas de guerras, chamadas a partir de então de “fake news”. Não que a mentira nunca tenha servido de pretexto para agressões a outros países e guerras violentas. O nazismo mesmo soube usar isso muito bem. Mas ela adquiria um caráter muito mais permissivo, diante das facilidades tecnológicas de comunicação, além da subserviência dos meios de comunicação. E se tornou uma herança perversa nesse século XXI, afetando fortemente também a política.

Sob o pretexto de combater um ditador que supostamente possuíria grandes laboratórios de fabricação de armas biológicas, que poderiam ser usadas em novos ataques terroristas contra os EUA, o Iraque tornou-se o novo alvo da sanha vingativa estadunidense, e dali em diante escancarou-se os reais objetivos por trás de cada argumento de se estar lutando por democracia: destruir governos que representasse uma ameaça à segurança nacional do império.

A escalada de guerras e financiamentos a pequenos grupos de insurgentes se espalhou pelo Norte da África e todo Oriente Médio, dando início a duas novas estratégias: em primeiro lugar as guerras híbridas; e em segundo lugar o uso de drones, veículos aéreos não-tripulados para eliminar possíveis inimigos, ou potenciais terroristas, espalhando-se numa dimensão impressionante, os efeitos colaterais e as mortes de inocentes vistos como naturais em um ambiente de guerra. Ocorre que a imensa maioria dessas mortes foram de civis, em muitos casos mulheres, idosos e crianças.

A guerra ao terror espalhou centenas de milhares de mortes e disseminou ódios, fortalecendo grupos terroristas já existentes, e fazendo surgir outros, que se impuseram pelas forças de armas financiadas pelos EUA e seus aliados. Assim surgiu o Estado Islâmico, e o seu projeto de edificar o califado unindo Iraque e Síria. Os EUA, OTAN e aliados perdiam gradativamente o controle dos monstros que criaram e das consequências dos assassinatos e rastros de destruição que deixaram por onde passaram. Medo, ódio, fundamentalismo religioso, vingança e diversos outros ingrediente foram jogados em um caldeirão de misérias, pobrezas, migrações, guerrilhas, guerras, gastos absurdos que se contaram em trilhões de dólares e uma crise econômica, fazendo explodir em cadeia uma série de eventos e acontecimentos que fariam o mundo se recordar do crash de 1929.

20 anos depois o espectro do World Trade Center paira sobre os EUA, Europa, Ásia Central e Oriente Médio. Atingiu em cheio o orgulho “americano”, empurrou o império para a beira de um abismo e fez ressurgir das profundezas subterrâneas da política, uma extrema-direita perversa, objetivando destruir seus ideais republicanos e democráticos, impulsionados por grupos fanáticos fundamentalistas religiosos, tão cegos e estúpidos quanto aqueles que os levaram a milhares de quilômetros para combatê-los e vingar a ousadia do terror e da destruição de quase três mil vidas de forma perversa.

O mundo hoje, e o século XXI em suas duas décadas que parecem uma eternidade, potencializadas por uma pandemia que completa um ciclo de destruição, não pode ser entendido sem uma necessária compreensão daquele 11 de setembro, e da reação intempestiva, vingativa e pouco racional, do império.

O mais cruel, e de uma ironia perversa, é nos vermos diante de uma espécie de looping, em que tudo praticamente retorna incessantemente ao ponto de partida. Depois de 20 anos, e uma derrota evidente, embora não assumida, os Estados Unidos com todo o seu poderio bélico e econômico, e a arrogância natural dos que se impõem pela força, foram obrigados a se retirar do território afegão, como outrora o fizeram também britânicos e soviéticos. E, dessa forma, entregou aquele país, mais uma vez, àquele grupo que ele próprio empoderara com o intuito de derrotar os soviéticos. Ou seja, os mesmos que supostamente teriam bancado as estruturas para garantir a Al Qaeda a preparação para atacar o império, retornam ao Poder, mais fortes e beneficiados com uma grande quantidade de armamentos sofisticados deixados para trás pelas tropas estadunidenses em fuga.

Importante dizer, no entanto, que a narrativa de ter sido a partir do Afeganistão que se preparou os atentados ao Word Trade Center, se junta ao arsenal das mentiras contadas para justificar uma resposta imediata e vingativa. A bem da verdade, a maioria dos envolvidos, e os próprios recursos que garantiram o sucesso macabro daquele atentado, tem suas origens na Arábia Saudita, país aliado dos EUA.

Não me cabe aqui, ao lembrar dos 20 anos desse atentado que mudou o curso da história mundial, entrar em análises sobre as condições em que se encontram hoje o Afeganistão. Mas é importante dizer, que por mais perversa que seja a ideologia que move o Talibã, que retoma o controle daquele país, a mídia repete os erros do passado, e insiste em querer apontar mudanças significativas naquela região do mundo, encravada em meio a montanhas e submetidas a pobreza e a crenças seculares anacrônicas e absurdamente distorcidas. Os EUA não levaram ao Afeganistão o capitalismo sofisticado de Manhattan, ou Nova Iorque, e muito menos a democracia, isso só aconteceu para uma absoluta minoria. Prevaleceu a miséria e o crescente sentimento de ódio por uma potencia que se arroga no direito de impor a um povo estrangeiro o caminho que ele deve seguir, rompendo com suas culturas e características regionais.

Os drones, ou antes deles, os desequilíbrios típicos das loucuras da guerra propugnados por seus soldados, e os seus efeitos colaterais de eliminação de inocentes, só fez ampliar o exército de revoltosos, e o número de jovens que se aliavam ao Talibã. Para além disso, e por mais cruel que tenha sido aqueles ataques no dia 11 de setembro de 2001, por todo esse tempo a reação que causou a invasão do Afeganistão e do Iraque, e as destruições de suas infraestruturas, são injustificáveis. E não se pode omitir um fato real e histórico, os Estados Unidos da América e seus aliados, eram invasores, ocupantes de nações aviltadas em suas soberanias e submetidas por anos e décadas à sua opressão.

Inegavelmente isso causou também rombos históricos na economia estadunidense. Não somente com essas duas guerras, mas pela necessidade de manter uma aparato bélico impressionante, em centenas de bases militares espalhadas por todas as regiões do mundo, e a vigiarem e atacarem a quem eles determinem serem os agentes do mal. Por muito tempo a economia do império depende disso, mas as consequências dessa política têm trazido, agora no começo da terceira década desse século, a conta fatal, que tem lhe afetado duramente enquanto potência hegemônica, posto que vem perdendo gradativamente para a China. E, seguramente este foi um dos motivos da intempestiva fuga do império do inóspito e até então inconquistável território Afegão.

Os atentados de 11 de setembro de 2001 foram, inexoravelmente, de uma barbaridade e crueldade criminosa. Mas foi respondida com igual crueldade, normalizando a tortura e considerando inevitável o assassinato colateral de dezenas de milhares de inocentes civis, que pagaram caro pela loucura terrorista daquele fatídico dia. E a humanidade também. O século XXI nasceu sob o símbolo do ódio, e assim tem permanecido 20 anos depois.

Sugiro como leitura complementar o artigo que escrevi em 2011 e foi citado neste texto, bem como outros já escritos aqui neste Blog. Sua indicação e link encontra-se abaixo.



[1] WORLD TRADE CENTER, RÉQUIEM PARA UM IMPÉRIO - 11 DE SETEMBRO DE 2001: QUATRO AVIÕES, DUAS TORRES, UM PENTÁGONO E O COMEÇO DO FIM DE UMA ERA. https://gramaticadomundo.blogspot.com/2011/09/world-trade-center-requiem-para-um.html

 LEIA TAMBÉM:

BIN LADEN ESTÁ MORTO! MAS E OSAMA? - https://gramaticadomundo.blogspot.com/2011/05/bin-laden-esta-morto-mas-e-osama.html

UMA GUERRA SILENCIOSA: O ATAQUE DOS DRONES, A GUERRA CIBERNÉTICA E A ESPIONAGEM MODERNA - https://gramaticadomundo.blogspot.com/2012/06/uma-guerra-silenciosa-o-ataque-dos.html

A GUERRA CONTRA O TERRORISMO, AO INFINITO E ALÉM! - https://gramaticadomundo.blogspot.com/2014/09/a-guerra-contra-o-terrorismo-ao.html

 

 

quarta-feira, 9 de junho de 2021

CAÇADORES DE NASCENTES – ONDE NASCEM OS RIOS?

Algum tempo atrás publiquei um artigo no blog Gramática do Mundo, intitulado “Enquanto a chuva cai, a água se esvai”.[i] O objetivo do título era impactar criticamente logo antes de adentrar no assunto, de forma a chamar a atenção para a maneira como se observa os problemas hídricos em nosso país. Fazendo uma analogia às condições de boa parte dos rios brasileiros, principalmente no Nordeste, mas situação que já avança em direção ao Centro-Oeste, as notícias sobre a crise hídrica têm sido apresentadas de forma intermitentes, quando deveria se dar de maneira perenes. Esse era um dos focos que eu abordava, diante do fato de somente nos períodos secos se começar a tratar da falta de água, principalmente para o consumo urbano, de forma alarmante.

Por outro lado, o título impunha uma atenção a um outro fenômeno, também pouco observado, embora sempre gerador de alertas em áreas urbanas, notadamente naquelas com ocupação irregular de áreas de riscos. O alto volume de chuvas, nas cidades, termina por passar uma visão equivocada, diante de diversos cataclismas. A de que as chuvas estão caindo em quantidades excessivas, pelas tragédias que elas causam, quase sempre nas comunidades pobres das periferias dessas cidades. As imagens de verdadeiros rios urbanos em ruas, arrastando violentamente o que vê pela frente, naturalmente causam comoções, pelos estrago, vítimas e as condições a que relega a população daqueles lugares. E mais do que isso, porque comoção se sente por fora da tragédia, pela empatia das pessoas, mas efetivamente esses desastres terminam por levar muitas famílias a perderem suas casas, e em muitos casos carregam vidas, ou pelas enxurradas, ou pelos deslocamentos de encostas.

Mas, para além disso e do que essas tragédias significam, há o outro lado. Findo o período de chuvas a preocupação passa a ser outra. E isso se repete incessantemente, em um efeito borboleta, como na teoria do caos. É sabido que, nas cidades, ao contrário do que diz o velho ditado popular, depois da tempestade não vem a bonança. O que virá, em um curto período, que cada vez se encurta mais, é a ausência de chuvas e a intensificação de um outro drama, a ser vivido pela estiagem e consequente escassez de água.

Fonte: Senado Federal

Vou me atentar para o problema hídrico urbano, embora a crise não se limite a isso, visto que o uso de água pelas populações urbanas, no Brasil, não ultrapassa 12% do total de água potável disponível em nosso território nacional. O que significa também dizer que os rios, que abastecem as cidades, principalmente as enormes metrópoles, antes de entrar no perímetro urbano, ou das regiões metropolitanas, tem suas águas extraídas para uso na agricultura e pecuária (60%) e indústrias (próximo a 30%). Esses percentuais variam de estado para estado. Mas o problema é mais grave, e vai longe. E temos estudado também os problemas que advêm do uso da água, principalmente para a agricultura. O fio da meada se perde em suas origens. No entanto, os problemas ao longo de todo o trajeto das artérias hídricas que serpenteiam nosso planeta terra, não podem ser simplificados. Porque é um todo complexo.

Voltemos aos problemas hídricos urbanos. De onde vem as águas que abastecem nossas grandes cidades? Quantos se perguntam isso? Aonde vão as águas que serpenteiam por ruas e avenidas, sob pontes e viadutos, em aquedutos e canais? Onde surgem, brotam, as nascentes que se tornam mananciais que cortam nossa cidade? E no que eles se transformam tão logo derivem um córrego até se encontrar com um rio onde vai compor com este uma bacia hidrográfica? O uso do verbo transformar, no caso, não está posto equivocadamente. Explico.

Nascente do córrego Cascavel

Lamentavelmente sempre se negligenciou o cuidado com nossas nascentes e com os mananciais gerados por elas. Nos últimos anos passou a haver um cuidado maior com as nascentes, diante de uma política de investimento em parques urbanos, nitidamente com o intuito de favorecer o mercado especulativo imobiliário. Houve resultados, parques importantes surgiram e se tornaram opção de lazer para a população. Na maioria dos casos, no entanto, em se tratando das nascentes que se encontram nesses parques a preocupação com suas manutenções não seguem uma rotina adequada. E para além delas, das nascentes, os mananciais que surgem e seguem por diversas direções, seja para o Córrego Botafogo, para o Ribeirão Anicuns e daí para o Rio Meia Ponte, tornam-se canais e consequentemente depósitos de dejetos, esgotos domésticos ou industriais. Por isso eles se transformam, deixam de ser rios, córregos, no sentido adequado dados a eles, para se tornarem esgotos, abandonados pelo poder público e ignorados pela população.

Embora os parques – onde quase sempre existe um lago – sejam um atrativo, com o espaço sendo utilizado pela população para prática desportivas e lazer, as pessoas não se indagam sobre de onde vem suas águas, por onde elas seguem e para onde irão. Há uma total indiferença, porque assim fomos habituados a conviver na cidade com esses elementos, que se tornam mais do que meras paisagens, quase que uma mercadoria pela qual desfrutamos, porque seu esmero paisagístico atende aos interesses de incorporadoras, com o intuito de valorização de imóveis em seus entornos.

Córrego Capim Puba

E desconhece-se a importância que essas nascentes possuem para a bacia hidrográfica que garante o abastecimento hídrico em nossas cidades, bem como irriga uma grande produção de hortifrutis em todo o entorno da região metropolitana, de Goiânia e diversas outras capitais. Cada uma com o seu perfil diferenciado, mas necessariamente sendo servidas por essas águas, que se tornam turvas pela suas transformações em esgotos, sem que haja políticas de saneamentos adequados para nos salvar de uma hecatombe que poderá nos atingir pela escassez permanente de água.

Incomodado com essas questões, a partir de análises feitas com o objetivo de compreender os constantes problemas com o consumo de água e os racionamentos sistemáticos e constantes, sempre que acaba o período chuvoso, cada vez mais irregular, me debrucei sobre esse tema. Isso devido a minha atuação como professor de geopolítica e atento às questões da biodiversidade e hídrica por um olhar estratégico, visto que lidamos com recursos de suma importância para nossas vidas, de valores imensuráveis, embora sendo constantemente objeto de ganância de especuladores e investidores, que passam a ver na água muito mais do que um bem comum, mas uma mercadoria por onde eles podem lucrar investindo e exercendo controle, sob pretexto da inoperância do poder público. Naturalmente, a velha estratégia de deixar de atender uma demanda que seja da responsabilidade dos estados, tornar esse atendimento insuficiente e, assim, entregar em mãos de corporações, cujas preocupações atendem aos lucros de seus acionistas e não o bem-estar da população.

Mas para fugir do lugar comum, da crítica costumeira que fazemos ao que já é sabido, essa inoperância do poder público, resolvi ir em busca de respostas para compreender as condições em que se encontram nossas nascentes e mananciais. Para isso incorporei como atividade aos meus alunos e alunas, trabalhos de campo para identificação das nascentes que estão na região metropolitana de Goiânia e transformei isso em um seminário, por onde, por muito bons trabalhos, eles puderam expor as condições em que elas se encontram, bem como no que se transformam os seus mananciais. Em seguida resolvi cadastrar um projeto junto à Pró-Reitoria de Extensão e Cultura da UFG, denominado “CAÇADORES DE NASCENTES – ONDE NASCEM OS RIOS QUE CORTAM A REGIÃO METROPOLITANA DE GOIANIA”.[ii]

Inspirado em trabalhos já existentes em São Paulo e outros lugares, o objetivo é encontrar as nascentes, verificar suas condições, acompanhar o percurso dos mananciais e como ele chega até o rio principal. Quase sempre o Meia Ponte, que forma a principal bacia responsável pelo abastecimento de nossa capital e da cidade de Aparecida de Goiânia, segunda maior cidade do Estado.

Ao mesmo tempo, em sintonia com escolas de ensino médio e fundamental, estabelecer programas paralelos de acompanhamento dessas nascentes, próximas a essas escolas, e também em conjunto com a comunidade adotá-las, como forma de protegê-las, exigir a devida atenção do poder público e educar as novas gerações com um olhar diferente do que aqueles que a minha geração olhava para esses rios, córregos, riachos e nascentes, que faziam parte do nosso universo juvenil, mas sem o reconhecimento da devida importância para a sua preservação, cuidados e necessidades advindas do fato de estarmos lidando com o recurso mais fundamental para a vida, humana, animal e vegetal.

A par de esclarecer sobre esse trabalho, instigo os que me leem, ou me ouvem, a incorporar esse universo de combatentes, defensores de nossas nascentes. Tão logo as escolas reabram para as atividades presenciais, as visitaremos, especialmente aquelas em bairros cortados por mananciais ou onde situam-se algumas dessas nascentes. Já temos trabalhos feitos pelos alunos e alunas da disciplina “Geopolítica das Águas”, que apontam essas condições. Precisamos ampliar esses estudos, publiciza-los e envolver escolas, associações de moradores, ONGs, empresas, e todos que desejem reverter o situação que afetam esses mananciais, como condição necessária para proteger nossas vidas.

As cidades, como estão, por suas condições de administrações negligentes na questão da proteção hídrica e saneamento, assim como há também as responsabilidades da administração estadual, estão matando nossos mananciais e levando ao esgotamento as nascentes que se encontram espalhadas, e esquecidas, por toda a região metropolitana. É preciso cobrar responsabilidades pela elaboração de políticas de estado, de ações permanentes que revertam uma situação que se aproxima do caos e que levará a racionamentos permanentes até a escassez completa de água. E por fim a um cruel paradoxo, de haver tantas nascentes esquecidas ou abandonadas, e mananciais transformados em esgotos a céu abertos, enquanto falta água para a população.

Enquanto isso, nobres edis, que deveriam fiscalizar a administração municipal, e exigir projetos e planejamento adequados, bem como investimentos estatais a fim de permanentemente cuidar de nossas nascentes, se dedicam a elaborar projetos que visa punir a população pelo desperdício de água. Ora, essa é uma questão de educação e informação, cabe aos vereadores exigir do prefeito responsabilidade no trato desse problema, e não jogar a culpa nas costas das pessoas, que são vítimas, e não culpadas, pela negligência e incompetência dos gestores públicos.

Esse é o meu recado. Água é vida, é um bem comum, não é mercadoria, nem deve servir aos objetivos de empresários do setor da construção para valorizar seus imóveis. Aos que desejarem somar conosco nessa árdua, mas necessária tarefa, o convite está feito. Venha compor o exército dos “caçadores de nascentes”, e façamos nossa parte nessa luta em defesa da água, das nascentes e dos nossos rios.

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