Mostrando postagens com marcador Romualdo Pessoa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Romualdo Pessoa. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

DE VOLTA ÀS ORIGENS – UM RETORNO AO PASSADO PARA REVIGORAR O PRESENTE

Praia do Forte - BA

Como sempre faço todos os anos, numa espécie de catarse para fugir da rotina e me deparar com outras paisagens, me aventuro nas estradas em busca de algum canto onde eu possa me distrair e relaxar. Ao longo de quase trinta anos perdi a conta da quilometragem que percorri por todos os cantos desse nosso imenso país, de norte a sul, de leste a oeste. Até mesmo atravessando a fronteira, pelo Uruguai e indo em direção a Argentina, retornando pela tríplice fronteira, acrescentando aí o Paraguai.

Aqui mesmo neste blog já registrei por meio de dois artigos as minhas aventuras: “A experiência de um sertanejo nordestino da Caatinga até o Cerrado goiano – E a caça ao pequi”;[1] e “Minha vida é andar, por esse país, pra ver se um dia descanso feliz...”[2] Desta feita, para além do que já relatei nas redes sociais, um eterno retorno à minha querida Bahia, e um passeio pela sempre aprazível e agradável João Pessoa, na Paraíba, fui também em busca de relembranças, do resgate de minha origens. E é o que irei, de forma resumida, transmitir nesse pequeno artigo.

Na verdade, essa busca por informações e lembranças do meu passado faz parte de um Memorial que começarei a escrever, como condição para ascender ao último degrau da carreira nossa de docente na Universidade, para professor Titular. Ainda falta retornar para registro à cidade que nos abrigou quando viemos da Bahia para Goiás: Morrinhos.

Mas, foi também uma retomada de contatos com parentes, primos e primas, tanto em Salvador, como em Alagoinhas, cidade onde nasci. Fiz um registro fotográfico, que insiro aqui para compartilhar esses momentos com os leitores do meu blog, com amigos e amigas. Mas o registro completo virá com o Memorial, que disponibilizarei para todos e todas, assim que for aprovado pela Banca onde deverei apresentá-lo.

Em Salvador, a primeira parada. Era para ser um final de tarde em Itapoã, mas terminou sendo uma noite agradável em companhia do primo Antonio Carlos e sua companheira Eva, onde sempre somos bem recebidos, e com quem sempre mantenho um permanente diálogo. Itapoã guarda em mim muitas saudosas lembranças. Em sua praia, nas pedras desse lugar tornado icônico por Vinicius de Moraes[i], registrei uma das fotos mais belas de minha querida e inesquecível filha, Carol, no ano de 2006. Um ano depois ele faleceu, em 13 de dezembro de 2007.

As conversas sempre giram em torno de nosso passado, das lembranças de nossos pais e nossas mães, dos lugares onde vivemos, e, felizmente, da afinidade política que nos coloca do lado certo da história, e contra esse estrupício que acidentalmente foi parar na presidência da República. Mas, enfim, acidentes acontecem na história.

Para além de Salvador, indo em direção ao Recôncavo baiano, não tão distante, a 120 quilômetros da capital, se encontra Alagoinhas. Uma cidade que cresceu muito rapidamente, aproveitando-se da confluência da BR-101, na intensidade do tráfego entre Feira de Santana e Aracajú, além de beneficiada por uma malha ferroviária -  atualmente conta com mais de 150.000 habitantes. Mas também por sua economia forte e na produção de limão e laranja com destaque, além de, desde a década de 1960, ter sido beneficiada pela descoberta de petróleo em seus limites. Fui rever Alagoinhas, de onde saí, salvo engano com uma idade de 12 ou 13 anos, no final dos anos 60.

Câmara de Alagoinhas

Meu objetivo principal, além de registrar os lugares onde vivemos (claro, em termos de localização, porque a paisagem é completamente diferente), foi também buscar informações sobre os mandatos de vereador, exercidos por meu pai. Ali ele exerceu a vereança por quatro legislaturas, sendo por duas vezes secretário da mesa diretora da Câmara Municipal. Nesse ponto fomos felizes, porque encontramos os registros que precisávamos, que nos foram compartilhados de forma atenciosa pelos servidores daquela Casa. Meu pai, também Romualdo, foi preso em 1964 e ficou por trinta dias aprisionado no complexo do Forte Monte Serrat em Salvador, transformado em prisão dos que eram considerados suspeitos de serem “subversivos”, ou ligados ao partido de João Goulart, como era o caso dele. Esses detalhes deixarei para relatar no Memorial. A Câmara, naturalmente, está em outro local e em um prédio próprio, bem amplo. Mas conseguimos registro de onde funcionou a antiga sede, ao lado da prefeitura. E ali próximo, não muito distante, o local onde vivemos quando crianças.

Prefeitura e Antiga Câmara

Depois que meu pai retornou da prisão, fato que ele pouco comentou conosco, teve o seu mandato cassado. Tornou-se funcionário do antigo Departamento Nacional de Estradas de Rodagem, DNER (transformado depois em DNIT, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso) e pouco tempo depois se transferiu para a cidade de Serrinha, a cerca de 70 quilômetros de distância de Feira de Santana (onde morava meu avô e minha avó), e 180km de Salvador.

Fernando e Neusa, primo e prima.
Em Alagoinhas mais uma vez tive o enorme prazer de rever meu primo Fernando, sua esposa Jane e sua sogra, e minha prima Neusa. Por ser entre o Natal e o ano novo, não foi possível reencontrar a todos, mas não foi a primeira vez que lá estive com eles, sendo sempre bem recebido. Foi uma satisfação poder conversar sobre diversos assuntos, que diziam respeito ao nosso passado, mas também sobre as condições atuais de nossas vidas e do nosso país. Sempre tendo o prazer de saber que há sintonia em nossos pensamentos e ideias.

De lá, voltamos a Salvador, para dois dias depois seguirmos para Serrinha. Um pouco mais distante, mas ainda relativamente perto de Salvador. Situada no Nordeste baiano, Serrinha é uma cidade de porte médio, com pouco mais de 80.000 habitantes. Bem servida pela malha rodoviária, e por uma ferrovia, tem pouco destaque na economia regional, mas um pujante movimento decorrente de atividades agropecuárias e no setor mineral. Tradicionalmente foi festejada pela qualidade de sua água, tida como milagrosa e tendo sido até mesmo tema de música.

Ginásio Estadual Rubem Nogueira

Ali vivi poucos bons anos de minha infância e começo da adolescência. Moramos inicialmente num sítio, logo na entrada da cidade, hoje transformado em um condomínio de casas, e depois mudamos para uma outra residência na mesma rua, sempre perto do DNER, onde meu pai trabalhava. A poucas quadras dali ainda existe o Ginásio Estadual Rubem Nogueira, onde entrei pelo processo de admissão, que havia naquela época, início dos anos 1970. Se não estou enganado fazia o segundo ano do ginasial quando saímos de lá. O terceiro e último ano e o colegial eu fiz na cidade de Morrinhos (GO), para onde mudamos em 1974.

Antiga residência em Serrinha

Como historiador rever o passado é algo que faz parte da minha trajetória como profissional estudioso dos processos históricos, e naturalmente isso também se aplica à minha vida. Mas é uma sensação diferente, muito agradável, retornar a esses lugares e fazer essa viagem também no tempo, e depois estar de volta para o futuro. Sim, porque para mim o futuro se conta a cada minuto que está logo ali, à frente, no presente.

Centro de Serrinha - BA

Ali em Serrinha comecei meu primeiro emprego, numa farmácia, no centro da cidade e próximo à feira que acontecia aos sábados. Eu trabalhava somente nesses dias, que era quando o movimento aumentava como decorrência da feira. O prédio da farmácia estava lá ainda e pude fotografá-lo no tempo certo, porque pelas informações ele será reformado neste começo de ano.

Voltei radiante desse contato com pedaços do meu passado, que contam minha vida. Tanto de Serrinha, como de Alagoinhas. E feliz por ver, mesmo que meio a chuvas intensas que estavam assustando, e causando estragos em boa parte da Bahia, a vegetação da caatinga verdejante. Por todo esse tempo em que viajo para o Nordeste nunca vi a caatinga tão verde, o que dá a dimensão da felicidade do sertanejo, do morador do sertão profundo, no agreste baiano e nordestino.

Forte de Monte Serrat

Retornei à Salvador e fui fazer uma visita à Ponta de Humaitá, onde se localiza o Forte de Monte Serrat, local para onde meu pai foi levado, acusado de ser comunista sem nunca ter sido. Mas, naturalmente, era um vereador combativo e ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Curtume de Alagoinhas. Como Romualdo Pessoa também, filho, assumi a condição pela qual o acusaram, com muito orgulho e para lutar contra a opressão e as desigualdades sociais.

O restante da minha viagem pelo Nordeste, em direção à João Pessoa, na Paraíba, foi mais para tornar a sentir a brisa sagrada que sopra do litoral nordestino, e eu, como bom sertanejo, sei bem apreciar.

Em breve contarei esse história por inteiro, no meu Memorial: UMA VIDA EM TRÊS TEMPOS.

Até lá espero que tenham apreciado este relato, e os outros dois artigos que já escrevi, cujos links estão aí abaixo.

PS: Retorno ao texto para uma correção necessária. O agradecimento à minha irmã, poetisa, Ana Cristina, pela acolhida e hospitalidade em Salvador, sempre agradável. Ela está na foto 2, ao meu lado.

(*) Para acessar suas poesias copie o link: https://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=135213



[1] https://gramaticadomundo.blogspot.com/2019/12/a-experiencia-de-um-sertanejo.html

[2] https://gramaticadomundo.blogspot.com/2020/06/minha-vida-e-andar-por-esse-pais-pra_10.html


domingo, 18 de junho de 2017

A HORA É DE MUDANÇA! PORQUE PRECISAMOS MUDAR A UFG.

Desde outubro de 2016, quando publiquei um artigo neste blog, uma espécie de manifesto (https://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2016/10/minha-vida-se-completa-na-ufg-sigo-por_13.html), me coloquei na condição de candidato a reitor da UFG. Mas minhas críticas ao perfil burocrático das últimas gestões, se estendem a meses antes, por meio de diversos artigos que estão até hoje aqui registrados.
Minha candidatura, vista como extemporânea terminou por ser um balizador da existência ou não de disputa nessa eleição. O retorno de um candidato que já passara por duas vezes pela reitoria, em um momento de disponibilidade de muitos recursos e euforia como consequência disso, por meio do REUNI (Programa de Reestruturação das Universidades Brasileiras), deixou em suspense sobre a insistência ou não da minha condição de candidato. Mantive a minha coerência, e julguei que tal candidatura representava a repetição de tudo que eu via de forma crítica. Reforçou mais ainda a necessidade de termos disputa e uma discussão em profundidade sobre o que é ser uma universidade e como nos tornamos uma instituição fragmentada, burocrática e clientelista.
Com essa decisão, e a certeza que eu não recuaria, mais outros dois candidatos entraram na disputa, a praticamente um mês de abertura das inscrições da chapa. Um desses candidatos voltara ao jogo a dois dias do final da inscrição, representando uma dissidência do grupo que há doze anos controla a administração da universidade, repetindo erros e vícios acobertados por uma acomodação que afetou a universidade desde o processo de expansão. Não importava por esse tempo discutir modelo de universidade, mas disputar o elevado montante de recursos que estava à nossa disposição.
Mas, apesar de ver essa dissidência como fruto do esgotamento dessa forma de comandar a UFG, saudei o fato de haver quatro candidaturas, pois significava essa possibilidade de discutirmos os nossos problemas – que haviam sido jogados para debaixo do tapete – com mais profundidade e de forma respeitosa. Creio que estamos conseguindo fazer isso, malgrado campanhas sub-reptícias que estão sendo feitas por meio de boatos, algo que afirmo não ser prática daqueles que apoiam a nossa chapa.
Dirijo-me especificamente àqueles que porventura não tenham se alinhados com outras candidaturas. Essa Universidade padece de muitos vícios somente possíveis de serem corrigidos com uma mudança forte, e a substituição de todos aqueles que  há mais de uma década se revezam em cargos e assessorias, não se preocupando em questões elementares para uma gestão participativa, democrática e com coragem de assumir posições. Não somente não temos um modelo adequado de universidade, funcionando de maneira integrada e com princípios que há muito defendemos, baseado na multidisciplinaridade, como nos fragmentamos acentuadamente nesse processo de expansão.  Há muitos problemas.
As últimas gestões jamais realizaram planejamento estratégico, e a descentralização administrativa muito mais do que representar um estilo democrático de gestão, significa a  delegação de responsabilidade, isentando-se de assumir com coragem decisões que devem implicar em garantir a integralidade de nossa instituição. Isso tornou a UFG com um perfil nitidamente clientelista. A burocracia, que se intensificou muito, é apenas consequência desse estilo de gestão e cumpre o objetivo de reforçar o poder nas mãos do grupo que a comanda. O excesso de burocracia e a multiplicação de comissões representam alguns dos vícios que precisam ser corrigidos.
Nossa universidade nos últimos anos foi posta de ponta-cabeça. O ensino de graduação, porta de entrada das dezenas de milhares de estudantes que representam a finalidade de sua existência, foi relegado às calendas gregas, menosprezado e não teve a prioridade que deveria ter. A licenciatura, então, embora os problemas externos também contribuam, passa por um momento de crise grave. Mas nenhuma iniciativa, nem via pró-reitoria de graduação, nem via o Fórum de Licenciatura, foi tomada para atacar os problemas que afetam essa área. Sequer nos tornamos protagonistas em discussões com governos e instituições externas à universidade, para poder contribuir com políticas públicas que reforcem as licenciaturas e garantam mais seguranças àqueles que escolhem formar-se como professores e professoras. Perdemos o bonde da história em diversos momentos: não discutimos o impacto do ENEM, não nos adequamos a contento para as mudanças que vieram com o SISU e não tivemos participação na discussão sobre a Reforma do Ensino Médio. E estamos passando ao largo das discussões sobre as mudanças das Bases Curriculares. Só conseguimos avanços, que devem ser mantidos e ampliados, na política de inclusão social. Mas padecemos de medidas concretas para garantir a permanência desses estudantes e evitar a evasão.
Precisamos discutir amplamente essa universidade, e mudar por completo. Precisamos nos adaptar às mudanças que tem acontecido, e deixarmos de seguir o perfil de universidade definido pelas ondas neoliberais que percorreram o mundo e o levou a uma das piores crises desde a grande depressão da década de 1930. Que nos sirvam somente os aspectos positivos, principalmente a nossa adequação aos avanços tecnológicos. Devemos ter coragem de não aceitar imposições que nos colocam submissos e de joelhos diante de medidas que são aplicadas sem questionamentos. Sucumbimos aos controles externos, não há luta por autonomia, o que há é covardia diante de decisões que desfiguram a universidade, por medo de assumir posições e de ser processado.
Não temos dúvidas em dizer que mais do que crescimento, neste momento de crise institucional, econômica e política, nosso objetivo deve ser uma reestruturação interna, com foco nas pessoas, na qualidade e na identificação do modelo de universidade que nos possam dizer o que somos, para que e para quem servimos. Queremos uma universidade que reforce a inter, trans, e multidisciplinaridade, que entenda o perfil da nova geração de estudantes e que crie condições para evitar a mobilidade interna e a evasão crescente, por meio de reforma curricular e do estabelecimento de grandes áreas do conhecimento, retardando a escolha por qual curso o jovem deseja. Algo que tem sido bem aplicado na Universidade Federal Sul da Bahia, na Universidade Federal do ABC, dentre outras.
No âmbito da estrutura da Universidade, queremos mudar a política e a prática no tratamento com os trabalhadores. Em primeiro lugar recompor uma estrutura técnico-administrativa que passou por um desmonte, a partir de escolhas por contratação de trabalhadores terceirizados, o que se agravou enormemente à medida dos cortes orçamentários e da redução dos recursos para custeio. Um erro estratégico imperdoável das gestões anteriores, que optaram por dirigir a universidade por meio de contratação de empresas que precarizam o trabalho e não se preocupam com o grau de qualificação de seus trabalhadores. Criamos uma dificuldade gerencial, na medida em que a expansão da universidade não contou com a ampliação do número de técnicos efetivos, ao contrário do número de professores que se elevou nesse processo. Um crescimento exponencial predial da Universidade não acompanhado pela garantia de pessoal efetivo suficiente. O corte de recursos impõe, naturalmente, uma diminuição no número de terceirizados, cujo pagamento se dá via verbas de custeio. Sobrecarregando, assim, as atividades sobre um número de TAEs que não teve o crescimento necessário.
Além disso, não tem havido nos últimos anos a preocupação necessária com a saúde dos trabalhadores, sejam professores ou técnico-administrativos. Programas criados há mais de uma década não têm sido usados para prevenir adoecimentos, por meio de garantia de exames de saúdes regulares e de acompanhamento de possíveis situações de estresse e depressão. Tem faltado às gestões da UFG a preocupação humanista e a valorização de outro patrimônio, que não só o material: as pessoas que constroem essa universidade.
Precisamos fazer a Universidade funcionar para aqueles alunos/as trabalhadores/as que estudam à noite. A UFG não funciona para eles, a não ser os Centros de Aulas. Vamos estabelecer os turnos contínuos para garantir uma universidade funcionando nos três turnos. E assim, atenderemos também a uma demanda histórica dos servidores técnico-administrativos, uniformizando o regime de trabalho em seis horas, como já acontece na biblioteca, hospital universitário e hospital das clínicas. Faremos isso, é uma necessidade, e queremos como contrapartida mais qualidade e dedicação no trabalho, possíveis de serem verificados por meio de planejamento e relatórios anuais.
No tocante à nossa relação com a sociedade, um vazio enorme nos afastou e nos deixou sem o protagonismo que tivemos em outras épocas. A expansão nos deixou somente preocupados com as questões internas. Conformamos-nos disputando os recursos e consolidando as unidades e laboratórios, isso era natural. Mas faltou à direção da universidade se preocupar em não se fechar como aconteceu. Nossa política de extensão é burocrática, como de resto. As ações se prendem a editais, e pouco se busca de alternativas, por meio de programas, que possa nos colocar em sintonia com o que se produz na sociedade, no âmbito da cultura, das artes e dos saberes tradicionais. E fazemos pouco levando para a sociedade, principalmente para as periferias e bairros mais pobres, o que produzimos em diversas áreas do conhecimento, e principalmente nas artes e na cultura.
Queremos mudar isso, fazendo da universidade um ambiente mais vivo, mais pulsante, mais criativo e, principalmente, mais tolerante com as diferenças. Uma universidade onde a disputa a ser feita internamente se dê prioritariamente no campo das ideias. Um ambiente aonde ninguém venha ser expulso por professar opiniões, ideias ou comportamentos que represente a identidade de gênero e as escolhas político-ideológicas de cada um/a. Queremos, enfim, resgatar a essência de ser universidade, algo que estamos perdendo gradativamente.
São essas algumas das questões que destacamos, embora ainda faltem muitas outras e críticas que tenho acumulado ao longo desse processo. Bem mais do que imaginava poder fazer quando comecei a debater os problemas da UFG. Vejo hoje que nossa situação, do ponto de vista administrativo e organizacional, é mais grave do que imaginava, o que joga por terra o argumento de “ser experiente”. Os “experientes” criaram uma estrutura caótica, desorganizada e fragmentada.
Espero contar com apoio expressivo da comunidade universitária. Que não tenham receio em apostar em um jeito novo de conduzir essa universidade. O medo não é um sentimento positivo quando precisamos de transformação, reflete a acomodação e a aceitação de uma normalidade estranha. Não tenhamos receios de enfrentar os desafios de uma época que está sendo marcada pela indefinição dos rumos, e diante de uma crise política que nos afeta com muita força. Mas precisamos de coragem e determinação para superar esse momento e fazer com que a UFG aposte na qualidade como elemento a nos projetar para patamares superiores no posicionamento do ranking universitário. E, lhes garanto, não terei medo de tomar posição e de lutar com ênfase por nossa autonomia. Mantenho a minha verve, e não temerei ameaças de processos, já passei por isso e jamais me acovardei. Meu CPF estará sempre à disposição, sem receios, e manterei minha coerência com aquilo que estou apresentando nos eixos programáticos de minha candidatura. Minha história reforça isso, e pode ser atestada no artigo do link que inseri no começo desse texto.
Conto com esse apoio. Tanto eu, quanto meu colega de chapa, candidato a vice-reitor, professor Leandro Oliveira. Estamos nos propondo a diuturnamente nos dedicarmos ao objetivo de fazer da UFG um lugar melhor para se trabalhar e estudar. E a torná-la uma das dez melhores universidades brasileiras.
Um forte abraço.
Professor Romualdo Pessoa
CHAPA 1 – UFG PRA VOCÊ! DIVERSIDADE & QUALIDADE

É PRA FRENTE QUE SE ANDA!

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

ELEIÇÃO DE REITOR NA UFG - ENTREVISTA COM O PROFESSOR ROMUALDO PESSOA

Íntegra da entrevista que concedi ao jornal Diário da Manhã, publicada no dia 02 de janeiro 2017 (https://impresso.dm.com.br/edicao/20170102). Por questão de espaço alguns trechos que insiro aqui foram suprimidos na edição jornalística. Agradeço ao Jornalista Renato Dias pela possibilidade de expor algumas ideias iniciais a respeito da eleição de reitor da UFG e da minha decisão de concorrer a esse cargo maior na Universidade, cuja eleição se dará neste ano.

Diário da Manhã - A UFG fará eleições diretas para reitor? Quando será?
Romualdo Pessoa Campos Filho – A data da eleição ainda não está definida. Isso deverá ser feito pelo Conselho Universitário. A última eleição aconteceu no mês de junho, mas não é algo fixo, fica, portanto a critério da decisão do Conselho. Espero que seja mantido o mesmo mês. Mas certamente o processo se iniciará em fevereiro com as movimentações dos possíveis candidatos ou candidatas.
DM - O senhor é candidato a reitor?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Sim. Já me apresentei como candidato em um artigo que publiquei em meu blog Gramática do Mundo. (http://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2016/10/minha-vida-se-completa-na-ufg-sigo-por_13.html).
DM - Qual o seu programa?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Isso ainda não está feito. Estamos, por enquanto estabelecendo alguns diálogos sobre a necessidade de alternarmos a condução da reitoria, e entendemos que o momento exige não somente capacidade de gestão, mas também habilidade política para lidar com uma situação adversa, que não experimentamos desde a primeira eleição do presidente Lula. O que significa dizer que conta muito, nessas circunstâncias o conhecimento da Universidade, a experiência nas lutas que travamos por décadas e a necessidade de buscarmos construir um movimento amplo que defenda a UFG a fim de garantir que ela continue sendo uma instituição que contribua fortemente para o desenvolvimento da Ciência, na formação de profissionais competentes e com grande inserção na sociedade. Para isso é fundamental que os recursos financeiros sejam garantidos a fim de atender toda a nossa capacidade, mas que também possa ser ampliada, pois a UFG tem uma possibilidade de crescimento muito forte. E é nessa direção que iremos trabalhar.
DM - Qual a sua análise da PEC 55 para as universidades públicas?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Essa PEC é absolutamente nociva para todo o serviço público, e em especial a Universidade. Mas ela afeta também, sobremaneira, os investimentos em todas as atividades de caráter social. No que tange à Universidade, ou à educação em geral, é evidente que limitar os gastos ao índice da inflação do ano anterior impedirá qualquer política de crescimento, que já estava em curso desde o governo Lula. Novas universidades, e a ampliação do número de vagas e novos cursos, que se adequem às necessidades das transformações que acontecem no Brasil e no mundo, estarão comprometidas por vinte anos. E um dos reais objetivos por trás dessa PEC é exatamente desvincular a obrigatoriedade de aplicação de determinado percentual em algumas áreas, principalmente a Saúde e a Educação. Isso dificultará manter o padrão de investimentos em custeios nas universidades, comprometendo a manutenção do que já existe e todo processo de modernização em áreas que requer que a todo ano se invista, para poder acompanhar todo o desenvolvimento tecnológico e de valorização da pesquisa, essencial para fortalecer a soberania de nosso país e o conhecimento de nosso potencial de riqueza e crescimento. Além de impactar fortemente nas nossas condições de trabalho que possibilite atender bem as nossas necessidades enquanto profissionais. É terrível o que se propôs e seus efeitos serão danosos e farão recuar em anos tudo que se pretendeu para o país em termos de fazer cumprir uma dívida enorme em nossa área, qual seja, ampliar o percentual de jovens com acesso ao ensino superior. Certamente, se isso acontecer nos próximos anos, será com a expansão do ensino privado, o que demonstra o caráter perverso dessa iniciativa do atual governo.
DM - O que pode mudar no quadro da UFG com a Reforma da Previdência?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Todas as vezes que se discutem mudanças na previdência há uma tendência de aumentar o número de professores e técnicos que aceleram seus processos de aposentadoria. Mas esse temor não decorre somente da PEC 287, atualmente em tramitação no Congresso Nacional. Nos últimos anos algumas dessas mudanças já geraram alterações que mudaram o regime de previdência para professores que entrarem recentemente na universidade. Essa PEC só piora a situação, pois amplia o tempo de serviço necessário para se aposentar com salário integral, e iguala nossa situação ao do setor privado, apesar dos mecanismos de contribuição serem diferenciados.
DM - O que esperar da Reforma Trabalhista?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Essa reforma deverá entrar brevemente na pauta de votação do Congresso Nacional. O que se sabe é que está sendo feito uma costura política, entre o núcleo do governo Temer e algumas centrais sindicais, aquelas ligadas a parlamentares que já estão na base de apoio do governo. Não deverá vir coisa boa para os trabalhadores, basta ver os últimos projetos aprovados e já citados anteriormente, mas o governo não irá querer perder apoio de parlamentares ligados à essas centrais, então deve ser mesmo uma proposta negociada.  Esse momento é absolutamente perverso para a população trabalhadora, principalmente aqueles situados na faixa de cinco salários mínimos para baixo. Todas essas medidas representam outros acordos, costurados entre empresários que financiaram todo o processo de mobilizações para destituir a presidenta Dilma, e aquele bloco de parlamentares que lhes são fiéis, porque ali foram colocados com financiamentos desses empresários. Há uma celeridade na aprovação dessas medidas, porque a tendência é aumentar cada vez mais o número de pessoas revoltadas com essas mudanças. Na medida em que ficar claro para os trabalhadores a profundidade dessas mexidas em seus direitos haverá uma reação muito forte. Só não sei se até lá esse governo ainda estará de pé.
DM - Especialista em Geopolítica e doutor em Geografia, qual a sua análise da abertura do Pré-Sal e da proposta que previa destinação de recursos para a Educação?
Romualdo Pessoa Campos Filho – A disputa pelo pré-sal, ou seja, pela enorme reserva petrolífera que nosso país possui em águas profundas, é fruto de uma grande cobiça das corporações que atuam nesse setor. São as mesmas que fomentam golpes em outras partes do mundo e financiam grupos armados para dificultar que governos que desejam exercer um controle dessa riqueza por meio de empresas estatais, possam impor limites a essas atuações em suas fronteiras. A mudança recente, aprovada no Congresso, que reduz a participação da Petrobrás, reflete pressões dessas corporações e dos países de onde  estão suas matrizes. As destinações dos royalties do petróleo para a Educação e a Saúde representou uma das mais acertadas decisões do governo Dilma, e seguramente esse foi um dos motivos para que ela caísse em desgraça e fosse deposta. Houve um revés absurdo nesse sentido, e seguramente a Nação sai prejudicada com esse retrocesso.
DM - Qual a sua opinião sobre as ocupações dos estudantes?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Eu considero que a juventude, e o movimento estudantil organizado, representa a força propulsora das mudanças em nosso país e no mundo. Isso tem acontecido historicamente aqui no Brasil, e em países como a França e o Chile, por exemplo. Mas o temor maior dos governos reside no receio dessa juventude conseguir ampliar o número daqueles que protestam contra medidas impopulares, promovendo manifestações massivas, e que consigam ganhar a opinião pública nesses protestos. Não creio que a estratégia de ocupações dentro da Universidade surta grandes efeitos enquanto forma de pressão contra as ações do governo contra a qual se deseja lutar. Não há visibilidade na sociedade para essas ações, salvo nos momentos em que a polícia seja acionada para cumprir ordens de reintegração de posse. O resultado dessas ocupações tem sido um processo de radicalidade interna e de tensionamento sobre o funcionamento da Universidade, por meio de métodos muitas vezes violentos e desrespeitosos contra até mesmo quem diverge dos  atos do governo e se manifestam claramente assim. Há certa irracionalidade e um radicalismo estéril, que não foca no alvo principal das revoltas e atira a esmo e cegamente contra todos que porventura esteja em sua frente ou que pensem diferentes. Creio que seja necessário repensar essas formas de protestos, e acredito que ela seja muito mais resultado do esvaziamento do próprio movimento e de uma aversão às próprias entidades. Seguramente não é o melhor caminho para fortalecer a luta, tendo como principal estratégia somar forças para derrotar medidas contra a educação, a universidade e os trabalhadores.
DM - Ex-presidente da Adufg, qual a sua opinião sobre a proposta de greve geral?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Enquanto uma forma de luta dos trabalhadores sou plenamente favorável. Mas é preciso que uma proposta de greve geral seja apresentada considerando as circunstâncias e a conjuntura, e que seja por um tempo determinado. Na universidade o instrumento de greve tem se desgastado muito, porque há uma banalização desse mecanismo, essencial na luta entre capital e trabalho, mas que não surte o mesmo efeito em nosso meio, pelas próprias características de nossa relação trabalhista. Em certos momentos, de fragilidade de um governo esse instrumento pode ser importante, desde que haja um interlocutor definido, a fim de haver uma saída para o impasse, visto que uma greve é o momento de radicalidade nessas relações quando as reivindicações não são atendidas. Já uma greve geral, em que estejam envolvidos outros setores, em que haja condições propícias para tal, se torna um poderoso instrumento de pressão sobre o governo. Mas se ela é chamada sem que exista resposta dos trabalhadores o desgaste somente servirá para desarticular e desmoralizar todo um movimento político e resultará em fracasso.
DM - Qual a sua opinião em relação às cotas?
Romualdo Pessoa Campos Filho – As políticas de cotas não são novidades, nem são criações brasileiras. Já existem em outros países, e aplicadas até mesmo nos EUA. Corresponde a uma necessidade de se garantir um mínimo de justiça social, em sociedades altamente desiguais, onde o acesso à educação, e notadamente ao ensino superior, termina por ficar limitado àqueles jovens que nascem em famílias ricas. Uma situação que consolida uma realidade onde os que vem de classes mais baixas optam por cursos de pouca penetração no mercado, cujos rendimentos são mais reduzidos, principalmente os de licenciatura, visto que a profissão de professor no país é bastante desvalorizada historicamente. Aqueles cursos onde há maiores ganhos profissionais persistem em permanecer nas mãos de jovens mais bem preparados, porque estudaram em escolas particulares pagando altos valores de mensalidade. Isso aqui em nosso país se enraizou, e forma uma espiral perversa, criando uma redoma onde os filhos dos trabalhadores mais pobres raramente quebram esse bloqueio. As cotas vieram para possibilitar que uma parcela dessa juventude tenha oportunidade de adquirir uma profissão que o projete socialmente e garanta um percentual gradativo para essas camadas de forma a amenizar essas desigualdades, que afetam os de origem negra e os mais pobres. Mas vejo a política de cota como algo tansitório. Definitivo deve ser a criação de mecanismos que diminuam essas dificuldades de acesso, a partir do fortalecimento do ensino fundamental, principalmente, e médio, garantindo que os que estudam em escolas públicas possam competir em condições de igualdades com quem estuda em escolas particulares. Creio que esse horizonte ainda está muito distante.
DM - O que o senhor, caso seja eleito, quer fazer na UFG?
Romualdo Pessoa Campos Filho – A Universidade não é algo pronto e acabado. Por essência ela precisa estar sempre se reinventando. O elemento fundante numa universidade deve ser a sua capacidade de construir um ambiente de inquietude, de criação e de inovação. Ultimamente tem-se procurado destacar a universidade pelo aspecto de seu crescimento, da sua ampliação em termos de ambientes edificados e da quantidade de novos cursos. Não há dúvida que isso é uma necessidade, e até mesmo uma consequência do trabalho que se desenvolva na universidade, principalmente com a formação de estudantes bem qualificados, o que requer investimentos e preocupação com os cursos de graduação, bem como da capacidade de seus profissionais de se dedicar à pesquisa e a descoberta de novos conhecimentos. No entanto, sinto certo comodismo na Universidade e uma aquietação a partir do momento em que os recursos se intensificaram e muitos laboratórios foram criados e consolidados. Mas isso não representa tudo. A universidade não pode se fechar em si mesma. Isso significa que ela não pode se distanciar da sociedade, e de seus problemas, como também não pode criar nichos de conhecimentos que não dialogam com outras áreas. É necessário reconhecer que as universidades brasileiras avançaram muito nos últimos anos, principalmente em termos de melhorias estruturais, fruto principalmente de um programação de expansão, que quando de sua implementação gerou muita polêmica - o REUNI, mas que foi extremamente importante para garantir melhorias essenciais para o bom desempenho de nossas atividades. Mas tem faltado um entendimento maior sobre problemas cruciais, bem como a necessidade de haver uma conscientização que tudo isso depende do tipo de governo que tivermos, se haverá ou não uma preocupação com a manutenção daquilo que está sendo construído. Isso deveria fazer com que a comunidade se inteirasse melhor das suas debilidades e do que pode acontecer numa situação em que há uma forte expansão, mas que os anos seguintes apontam para dificuldades em manter e garantir a continuidade desse crescimento. É o que em economia entendemos como “desenvolvimento sustentável”. Portanto, é preciso mais do que crescer. É preciso que, de forma responsável se saiba qual é a nossa capacidade de sustentar esse crescimento. O entendimento disso pode possibilitar que novas alternativas sejam pensadas, seja por meio de aprovação de grandes projetos de pesquisa, como acontece em algumas áreas, ou de grandes convênios com instituições de grande porte, nacionais ou internacionais, que tenham credibilidade e preocupações sociais. O que não significa recuar no propósito de permanentemente pressionar o governo para que não haja nenhuma redução no percentual destinado à universidade comparativamente ao ano anterior, assim como se garanta o mínimo de reposição daquilo que é corroído pela inflação. Embora isso também não seja o bastante, pois só representaria o crescimento “vegetativo” das universidades, impedindo que elas prossigam no processo de ampliação e de criação de novas unidades. Pelo que se sabe em termos de colocação do nosso país no ranking de universidades, já é suficiente para se ver que estamos muito atrás, principalmente em se tratando do fato de sermos a oitava maior economia do mundo.
DM - Qual o caminho para democratizar a gestão da UFG?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Da mesma maneira, a questão da democracia é algo que também deve ser objeto de permanente preocupação. E mesmo quando falamos de democracia, não significa que o que já existe seja suficiente e aceitável. Mas o que se entende de democracia em nosso meio também funciona muito no aspecto quantitativo. A forma de funcionamento da Universidade deve ser compreendida na relação que se estabelece entre os três segmentos, mas também do papel que cada um deles desempenha e o seu grau de importância. Eles são diferentes, e por isso devem ser tratados de forma diferente, mas deve-se seguir o preceito que essas diferenças não podem assegurar privilégios, mas que devem ser respeitados naquilo que sustenta a própria universidade, qual seja, que deve haver respeito mútuo, e que o princípio da autoridade que rege as relações institucionais e das construções dos saberes, seja preservado e respeitado. Um dos mais importantes filósofos da antiguidade, Aristóteles, afirmava que “deve-se tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida de sua desigualdade”. Esse é o elemento basilar a se seguir, a fim de não se cometer comportamentos antidemocráticos. Do ponto de vista da forma como a universidade está estruturada em seus diversos órgãos de representações, creio que essas questões estão postas. Mas tem havido alguns movimentos que extrapolam o limite do respeitável e isso preocupa, na medida em que se quebra determinadas liturgias, não nos sentido dogmático, mas da representatividade que existe em cada função e nas diferentes responsabilidades que afetam cada dirigente e cada um daqueles que compões os diversos segmentos. O respeito mútuo e a construção de um ambiente que preserve a alteridade, é uma condição sine-qua-non para a consolidação de um ambiente democrático. O papel de um reitor é garantir que isso será respeitado, e constituir-se numa liderança dentro da Universidade que assuma a responsabilidade na condução de situações que ameacem fugir da normalidade.
DM - Qual a sua crítica à atual gestão?

Romualdo Pessoa Campos Filho – Eu não pretendo fazer uma campanha que tenha como centro as possíveis fragilidades da gestão atual. No decorrer do processo pretendo apontar determinadas situações em que, por uma característica própria, e pelo próprio projeto que antevejo para a Universidade, eu caminharia em outra direção daquela apontada pela atual gestão. Mas são formas diferentes de encarar, às vezes, o mesmo problema. Meu objetivo é apontar numa direção que garanta à comunidade universitária chegar ao entendimento de que é possível seguir por caminhos diferentes em determinados momentos. A Universidade não pode ficar refém de um mesmo projeto por décadas, ela precisa inovar, encontrar outros caminhos, ousar, para poder extrair daqueles que constroem esse ambiente o melhor que eles podem oferecer, e não se acomodar. Também não creio que seja correto a permanência das mesmas pessoas em cargos por excessivo limite de tempo. Isso cria uma dependência à burocracia, impede que essas pessoas, principalmente professoes, se renovem em suas áreas específicas, e constrói um mecanismo de gestão semelhante ao que funciona nas estruturas carcomidas dos velhos Estados. Por isso minha palavra de ordem vai ser, renovação. A aceitação por muito tempo de um mesmo grupo na condução da administração de uma universidade significa a negação daquilo que a faz uma instituição diferente, a capacidade de formar novos quadros em condições de se destacarem e se alternarem, democraticamente. Em nenhuma forma de poder isso é desejável e correto, por criar vícios que se impregnam e tornam-se difíceis de transformar, renovar e trazer novos ares. Se isso acontece na universidade demonstra a nossa absoluta incompetência de construirmos novas alternativas, de abrirmos espaços para outras lideranças e de ousarmos encontrar novos caminhos, afetando a própria essência do que é ser uma universidade.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

MINHA VIDA SE COMPLETA NA UFG. SIGO POR AQUI, AINDA EM BUSCA DA UTOPIA

Eduardo Galeano, historiador-poeta, referência para muitos de minha época de estudante, principalmente devido ao livro “As Veias Abertas da América Latina”, gostava de citar essa frase: “A utopia está lá no horizonte. Eu sei muito bem que nunca a alcançarei. Se eu caminho dez passos, ela se afasta dez passos. Quanto mais eu buscá-la, menos eu a encontrarei, porque ela vai se afastando à medida em que me aproximo. Então para que serve a utopia? Pois a utopia serve para isso, para nos fazer caminhar”.
Resolvi escrever esse texto como uma forma de repensar o meu passado, minha trajetória na Universidade, como um instrumento a introduzir para boa parte daqueles que o lerem, o que desejo encarar para os anos que virão. O que convencionamos chamar de futuro. E, assim, seguirei caminhando, olhando a utopia no horizonte. Luto para não perdê-la de vista. Não perderei. Não a perdi, mesmo nos momentos mais difíceis de minha vida, quando tive que lidar com a morte de minha querida filha.
Já escrevi neste Blog, e também nas páginas do livro “Depois que você partiu”, o quanto a UFG foi importante para mim naqueles momentos. Mas também em muitos outros. Aqui construí meus sonhos, forjei minha ideologia, construí um caminho de luta e esperança e finquei meus pés com firmeza, consciente de que minha história estava escrita nas páginas dessa universidade. Aqui percorri meus anos de estudante de graduação, pós-graduação, de professor, de militância estudantil, sindical e de representação da comunidade científica. Somando-se cada um desses períodos que dediquei à Universidade me deparo com um tempo considerável: 34 anos. Somente por dois anos, desde 1980, não estive presente nesses espaços que me fez ser o que sou. Em 1989 fui para Araguaína, onde por quase dois anos lecionei na Faculdade de Ciências Humanas e Letras (FACILA), um dos embriões da atual Universidade Federal do Tocantins. Mas em 1990 retornei, para fazer um mestrado, que concluí em 1994, com defesa em março de 1995. No mesmo ano entrei como professor substituto no curso de Geografia, no antigo IQG, e fui efetivado no ano seguinte.

MINHA INICIALIZAÇÃO. AS PORTAS SE ABRIRAM, E EU ENTREI.

Mas o que se conta dessa história, se inicia bem antes, no final dos anos 1970, mais precisamente em 1979. Ano em que, politicamente, o nosso país dava um passo significativo para a redemocratização, com o retorno ao país de dezenas de militantes políticos que estavam exilados pelo enfrentamento com a ditadura militar, outros libertados da condição de presos políticos, além daqueles que saíam das sombras, pois tinham seus nomes nas listas de procurados pelos agentes do sistema de informação e repressão. 1979 foi o ano da anistia. Mas foi também o ano em que fui aprovado no vestibular de história da UFG.
Depois de tentar acesso ao curso de Jornalismo, uma paixão que me acompanhava pela facilidade com que sempre lidei com a escrita e pela leitura, terminei por sucumbir a outra paixão, a história. As dificuldades eram grandes para quem não frequentava a escola por três anos, devido à necessidade de trabalhar. O que me ajudou nessa passagem foi justamente a redação, que passou a ser exigida no vestibular exatamente naquele ano. Em 1980, portanto, eu entrava na História. Naturalmente não aquela reivindicada por Getúlio Vargas, mas sim, no curso de História, e me credenciava como o primeiro da família a ter acesso ao ensino superior. Minha história na Universidade Federal de Goiás, começa, assim, no ano de 1980, precisamente no mês de março, quando assisti orgulhosamente a minha primeira aula. Bem se vê, eu teria um longo caminho pela frente, numa ligação endógena com essa instituição que passou a completar a minha vida.
Manifestação pela Anistia
Eu vivia numa quase absoluta alienação sobre o que acontecia no país, e me lembro de somente ter feito uma ação que me ligou àquele momento tenso da política brasileira, a qual eu desconhecia. Foi o fato de ter posto o meu nome num abaixo assinado que era colhido da população que transitava pela praça Bandeirantes. Passando por ali, fui convencido da importância daquele ato. Mas o conhecimento do que por aqui acontecia naqueles tempos só fui saber depois dos primeiros meses como estudante de História. Meu engajamento foi imediato, e logo me envolvi com o Centro Acadêmico, sendo eleito no segundo semestre daquele ano como diretor de Imprensa e Divulgação.
Mas nem tudo era desconhecido para mim, em termos de realidade social. Eu já carregava comigo nas veias a herança de ser filho de um ex-vereador, que se elegeu por quatro vezes na cidade de Alagoinhas, na Bahia e foi preso com o golpe militar de 1964, abandonando a partir daí a política. Havia, contudo, algo mais, que vai ser definidor de minhas escolhas ideológicas na universidade. Meu engajamento com a igreja, por meio das comunidades eclesiais de base e do trabalho com a juventude católica, me deu a possibilidade de adquirir uma sensibilidade diante das desigualdades sociais e de conhecer, por meio da Teologia da Libertação, a força das ideias revolucionárias. Assim tive minha iniciação nas ideias marxistas, mas com uma forte convicção idealista. “O Caminhar da Igreja com os Oprimidos”, livro de Leonardo Boff, foi, por assim dizer, o meu catecismo, e pelo qual adquiri o entendimento necessário para um engajamento nas lutas contra as injustiças e no conhecimento da complexidade da sociedade, com o conhecimento de que esta se estrutura por meio de classes sociais que se antagonizam e que dá à uma minoria a condição de governar o mundo e se impor sobre os pobres. Daí para meu envolvimento com o marxismo foi um tempo bem curto, e aconteceu naquele mesmo ano de 1980.
Manifestação e prisões em
07/09/1981 em meio a uma
greve nacional dos estudantes.
Comecei, portanto, a minha história no movimento estudantil nesse ano, e no ano seguinte organizamos na UFG, em sintonia com a UNE (União Nacional dos Estudantes), um movimento que irrompeu por todo o país, culminando na maior greve geral da história das lutas estudantis. Todas as universidades brasileiras aderiram à greve, e a UFG, após dezenas de assembleias por cursos e unidades, e uma longa e profunda discussão, deflagrou a paralisação em uma assembleia de forma avassaladora, com mais de dois mil estudantes, quase unanimemente apoiando. Por mais de cem dias sacudimos o país no segundo semestre daquele ano. No dia sete de setembro, quando decidimos realizar um ato ao final do desfile do sete de setembro e no momento da agitação por meio de palavras de ordem para sensibilizar a população que estava presente, fui detido juntamente com outros colegas e jogado no fundo de um camburão, uma daquelas velhas Veraneios pretas de tristes lembranças. Levado para o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) fui fichado e em seguida encaminhado à Polícia Federal, para ser indiciado por atos “subversivos” e enquadrado na famigerada Lei de Segurança Nacional. Embora em seus últimos suspiros, a ditadura militar mantinha sua prática costumeira repressora, aliada aqui a um governo biônico, sem representatividade popular, posto que ainda não tínhamos retomado o direito livre ao voto. O governo de Goiás era comandado por Ary Valadão, do PDS, partido que sucedeu a ARENA (Aliança Renovadora Nacional), da base de sustentação da ditadura militar.
Os anos 80 foram de intensas mobilizações sociais, estudantis, operárias, dos professores, e de diversos segmentos que voltaram a se organizar e fortalecer suas lutas. Após as eleições de 1982, dando início ao processo de redemocratização brasileira, mas ainda sob a tutela dos militares e sem o direito de escolher o presidente, deu-se início a uma grande mobilização popular que culminaria em 1984 nos grandiosos comícios em defesa das eleições diretas para presidente da República.
Paralelo a isso a organização estudantil se fortalecia a partir de suas bases, os centros acadêmicos, os DCE, as UEE sendo reconstruídas, e a UNE que voltou com força em 1979. Depois de entrar no movimento estudantil, com o batismo feito no Congresso da UNE na cidade de Piracicaba em 1980, e nesse mesmo ano ter me tornado diretor do Centro Acadêmico, continuei por mais dois anos me destacando no curso de História, até me tornar presidente nos anos de 1982/1983.
Estudantes pulam catraca de ônibus,
num movimento que durou meses
Nessa mesma época pudemos participar de um dos maiores movimentos da história dos estudantes goianos. Por cerca de três meses levamos adiante um movimento conhecido por “pula catraca”, quando nos rebelamos contra o aumento das passagens dos ônibus coletivos, ao mesmo tempo em que protestávamos contra as péssimas qualidades do serviço. Como de imediato conseguimos um forte apoio dos estudantes, em um momento que as entidades estavam bem fortalecidas, juntamos essas reivindicações com outra maior. Passamos a exigir o meio-passe estudantil. Foi uma luta espetacular, com mobilizações impressionantes, e com grande impacto na sociedade. Embora a ditadura militar ainda não tivesse sido derrotada, aqui em Goiás o governo que resistia ao diálogo conosco e evitava ceder na concessão da meia passagem era o governo eleito na primeira eleição direta para governadores. Íris Rezende, eleito pelo PMDB, demorou a aceitar nossas reivindicações, além de reprimir nossa luta de forma implacável. Mas nosso movimento tornou-se cada vez mais forte, até que após uma grande manifestação onde mais de uma centena de ônibus foi depredada depois que fechamos todo o entorno da praça Cívica, conseguimos abrir os canais de negociações e firmar um pacto com o governo, até que fossem feitos os estudos sobre os impactos que seriam causados pela concessão dos descontos. Pouco tempo depois foi anunciado um desconto nas passagens para os estudantes, ainda não era o meio-passe, mas um terço do valor normal. As entidades aceitaram a proposta, mas continuaram exigindo o meio-passe. Alguns anos depois isso foi concretizado, a partir de um projeto de lei apresentado pela vereadora Denise Carvalho, que havia sido presidente do DCE, um projeto para a concessão do meio-passe.
Luta pelo meio passe na década de 1980.
Manifestação no Campus II
Depois desse movimento fui incorporar a diretoria do DCE. Não foi um processo eleitoral, meu nome foi indicado pelo Conselho de Entidades de Base, porque uma parte da diretoria renunciou, por discordar da pressão que fazíamos sobre o governo do Estado no movimento pelo meio-passe. Depois do DCE, onde fui diretor de Imprensa e Divulgação, assumi um cargo na diretoria da União Estadual dos Estudantes, nessa mesma função. Logo em seguida, no ano de 1984, fui indicado para a diretoria da União Nacional dos Estudantes, e me tornei vice-presidente da região Centro-Oeste entre os anos de 1984 a 1986. Naquela época a gestão da UNE era de um ano, mas como decorrência das mobilizações para aprovar a emenda das eleições diretas, foi aprovada no conselho da entidade a prorrogação do mandato. Com isso, pude participar como diretor da UNE de dois momentos históricos: a campanha pelas eleições diretas, para aprovar a emenda Dante de Oliveira e, logo em seguida, com a derrota dessa votação no Congresso Nacional, a campanha para eleição de Tancredo Neves, com o intuito de derrotar o candidato da ditadura militar, Paulo Maluf. Uma tragédia no meio do caminho, para demonstrar o quanto é difícil conquistar a democracia no Brasil, levou à morte o presidente eleito Tancredo Neves, e quis o destino que em seu lugar fosse empossado José Sarney, que formara uma dissidência no partido do governo, inclusive criando outra legenda (Partido da Frente Liberal), e que assim se tornara vice-presidente.
Membros da diretoria da UNE
Gestões 1983/1984 e 1984/1986
O governo Sarney nascia sob um manto enorme de desconfiança. Mas exatamente por isso ele precisava transitar entre todos os setores que apoiaram a frente criada para derrotar a ditadura militar. Por essa razão, seu governo foi forçado a abrir concessões, de forma a atender às pressões que se faziam de todos os lados. Em 1985 a UNE conseguiu a sua legalização, depois de uma campanha intensa e da aprovação de projeto de lei na Câmara Federal, de autoria do deputado goiano, Aldo Arantes, ele também ex-presidente da UNE na década de 1960. Eu acompanhei toda a tramitação do projeto, como vice-presidente da UNE, assim como participei da sanção do projeto no Palácio do Planalto, em um momento histórico das lutas estudantis. Uma assembleia constituinte foi aprovada e sua eleição e realização tornaram-se fundamental para a definição dos novos rumos da democracia brasileira. Muito embora não fosse a Constituição desejada, os avanços foram significativos, e em 1988 ela foi promulgada, depois de intensos debates e embates, explicitados pelo acirramento da luta de classes, principalmente devido às discussões sobre a Reforma Agrária.

COMO MESTRE: O PRAZER, A SATISFAÇÃO E OS DISSABORES DA VIDA

Em 1988 passei a me dedicar a finalizar o meu curso. Já estava por quase uma década envolvido com o movimento estudantil e por esse tempo pude participar de diversos momentos importantes na história da UFG, como o retorno à democracia com a escolha de reitor feita com a participação da comunidade universitária, e não mais indicada pelo ministro da Educação, com a reconstrução das entidades representativas de estudantes, técnicos e professores, e com a estatuinte universitária, que nos levou a realizar diversas discussões sobre a necessidade de transformações estruturais e acadêmicas em nossa universidade.
Logo após minha formatura decidi que iria ser docente de ensino superior. A oportunidade apareceu bem distante, na longínqua Araguaína, ainda então como parte do estado de Goiás, mas logo viraria município do novo estado do Tocantins. E isso aconteceu quase que ao mesmo tempo da minha chegada para ser professor na Faculdade daquela cidade. A separação do estado de Goiás, e a criação do novo estado, ocorreu junto com a promulgação da Constituição de 1988. Em 1989 me tornei professor na FACILA, mas não por muito tempo, questões políticas me impediram de continuar. Fui solidário com duas colegas que estavam sendo perseguidas pela direção da Faculdade.
Após ter me desligado da Faculdade, resolvi retornar à Goiânia. Mas desta vez não retornei sozinho. Quis o destino que aparecesse uma forte atração entre mim e uma aluna, e isso se transformou em namoro e em maio de 1990 em casamento. Essa relação dura há 26 anos, surgindo dois filhos para completar nossas vidas: Iago, nascido em maio de 1993, quando eu estava fazendo o meu mestrado; e Ana Carolina, nascida em 1997, um ano depois que me tornei professor efetivo da UFG. Meu filho seguiu os meus passos, tornou-se estudante de História e logo em seguida foi eleito diretor do DCE e depois da UNE, assumindo atualmente a diretoria de Assuntos Institucionais. Mas o destino foi cruel conosco. Ana Carolina faleceu em 2007, aos dez anos de idade, e sua morte trouxe não somente um vazio em nossas vidas, como também nos jogou em uma profunda depressão, vencida com muito esforço e superação, apoiado em solidariedade de amigos e parentes, mas que me deixou afastado por um tempo. Por alguns anos lutei contra a dor mais terrível que pode nos atingir, a de perder uma filha.
Em 2007 eu havia também saído da direção da Adufg. Tinha alguns planos, e um projeto de doutorado preparado. Foi impossível pensar em qualquer outra coisa, minha luta era comigo mesmo, suportar um sofrimento imensurável. Escrever se tornou para mim uma catarse, constituiu-se também em uma terapia. Escrevi diversas crônicas e nelas procurei expressar todo o meu sentimento, além de relembrar de momentos e fatos marcantes com minha filha. Essas crônicas estão no livro que publiquei, “Depois que você partiu”. Dessa forma também surgiu o Blog Gramática do Mundo, e por ele continuei a expressar meus sentimentos em diversos outras crônicas, acrescentadas no livro em sua segunda edição. E o blog seguiu em frente, abordando além de conteúdos intimistas, também textos sobre geopolítica, política e fatos do cotidiano. Aos poucos, assim, fui me reencontrando com meu passado e acumulando forças para encarar o presente, agora sem minha filha. Mas ela seguia sempre ao meu lado, e continua a seguir.
Primeira edição, do livro sobre
a Guerrilha do Araguaia,
publicada pela editora da UFG
O ano do nascimento da Carol, foi também do lançamento de meu primeiro livro sobre a Guerrilha do Araguaia. Em 1995 eu defendi minha dissertação de mestrado, obtendo nota máxima, numa época em que ainda éramos avaliados por nota na pós-graduação. Logo a encaminhei para a editora da UFG, por recomendação da própria banca, e acrescentei um posfácio complementando o trabalho, pois ainda retornei à região da minha pesquisa quando o livro já estava no prelo e já tinha sido aprovado para publicação. “Guerrilha do Araguaia: A esquerda em armas – 1972-1975” se constituiu no primeiro livro originado de uma pesquisa acadêmica, sobre um fato por muito tempo omitido da história. Tornei-me, assim, referencia no assunto. Quando me senti em condições de retomar minhas atividades acadêmicas, em toda a sua integridade, e com o apoio de muitos colegas de minha unidade na UFG, resolvi fazer meu doutorado. Embora inicialmente tivesse mantido o mesmo projeto, já preparado anteriormente à morte de minha filha, o envolvimento com a temática da Guerrilha do Araguaia me forçou a substituí-lo e a prosseguir na pesquisa daquele fato que já ganhava uma enorme dimensão, inclusive com a busca dos corpos dos guerrilheiros que haviam sido presos, assassinados e seus corpos escondidos. Minha presença nas expedições que buscavam esses vestígios me envolviam e isso me fez apresentar um outro projeto. Assim, pude estudar as consequências da guerrilha, na região em que o conflito aconteceu, e definir minha tese de doutorado que consegui defender em dezembro de 2013. No ano seguinte foi publicado o segundo livro sobre a guerrilha, agora como resultado da defesa da minha tese de doutorado: “Araguaia: Depois da guerrilha, outra guerra – 1975-2000. A luta pela terra no Sul do Pará, impregnada pela Ideologia da Segurança Nacional”.
Executiva Nacional dos Grupos PET
em reunião com o ministro
 Cristovam Buarque
Mas meu envolvimento, anterior à esse período, não se limitou à atuação sindical, em que por duas vezes fui presidente da Adufg. Depois de minha primeira passagem pela Adufg, e também tendo sido coordenador de curso, assumi a Tutoria do Grupo PET da Geografia. Mesmo ainda na condição de Co-Tutor, conduzi o grupo na substituição da Tutora, que assumira a direção da nossa unidade. Meu envolvimento, como sempre, foi marcado por uma dedicação a esse programa para além de nossa realidade local. Logo me tornei um dos tutores mais presentes nas lutas para evitar que esse programa fosse extinto, como se pretendia na época. Entrei para a Executiva Nacional dos Grupos PET e, com muita luta, conseguimos barrar um retrocesso que estava quase iminente e, como resultado, o programa saiu fortalecido, embora ainda precise de muito aprimoramento e de uma política de expansão, difícil de ser executada nesse momento com as mudanças conservadoras em curso e a redução dos investimentos.

A LUTA EM DEFESA DA C&T: A SBPC E A EXPERIÊNCIA NO ESTADO

Por essa mesma época (2002) assumi a Secretaria Regional da SBPC pela primeira vez, em evento realizado na UFG. Naquele momento já estava em curso uma campanha liderada pela ADUFG, que visava pressionar o governo do Estado a criar a Fundação de Amparo a Pesquisa de Goiás, e essa se tornou também uma bandeira que incorporamos no período em que estivemos à frente da Regional da SBPC.
Como consequência dessa atuação, pelo destaque também conseguido com a visibilidade de todo o movimento em prol de uma instituição estatal que fomentasse a pesquisa, fui convidado pela então Secretária de Ciência e Tecnologia, Denise Carvalho, para assumir a Superintendência de Apoio e Fomento à Pesquisa, uma das mais importantes superintendências daquela pasta, responsável por definir uma política para a área, no tocante aos investimentos em pesquisa e inovação. Mas fomos mais além, e nos debruçamos sobre a necessidade de compreender as potencialidades do Estado em arranjos produtivos locais, e demos outra dimensão ao trabalho de identificar e fortalecer as cadeias produtivas, envolvendo nesse trabalho outras secretarias do Estado. Um dos resultados mais importante de nosso esforço foi a criação da cadeia produtiva do leite, “Arranjo lácteo da microrregião de São Luís de Montes Belos”, dentro do “programa 1088 de fomento e apoio à pesquisa e aos projetos de desenvolvimento em Arranjos Produtivos Locais, Plataformas Tecnológicas e Agropolo”. Isso gerou também, por meio da Universidade Estadual de Goiás, a criação de um curso de graduação de Técnicos em Laticínios, tornando essa região referencia na produção leiteira.
Na Superintendência da SecTec-GO, prosseguimos na luta pela criação da Fundação de Amparo à Pesquisa, colocada também como uma das principais bandeiras da Secretaria, em seu planejamento. Apesar de ficar pouco tempo, e a minha saída se deu por uma escolha pessoal, essa experiência foi fundamental para compreendermos nossa potencialidade, e a necessidade de ocuparmos espaços institucionais a fim de vermos nossos melhores projetos na defesa da educação, da ciência e tecnologia, serem implantados.
Retornei à Universidade, mas me mantive presente nas lutas, principalmente na defesa da Fapeg. Até porque, enquanto superintendente, eu cumpri uma função que deveria ser atribuída à uma fundação de amparo à pesquisa, como já existia na maioria dos Estados. Tanto que, quando enfim a Fundação foi criada, após cerca de cinco anos de lutas, a superintendência de fomento e apoio à pesquisa deixou de existir no organograma da Secretaria. Mas houve um certo maquiavelismo na denominação encontrada para ela. Muito embora feita por um governo do qual eu havia participado, no segundo mandato do governador Marconi Perilo, e já na gestão da professora Raquel Teixeira, com quem sempre estabeleci boas relações e a quem respeito, entendo que a alteração do nome pelo qual tanto lutamos, embora não fosse a questão principal, terminou por diminuir uma luta que durou meia década, no esforço para que Goiás saísse da condição de um dos poucos estados que não possuíam uma fundação de amparo á pesquisa.
FAPEGO: era esse o nome que criamos em nossos abaixo-assinados, apoiados pela Adufg e pela SBPC-GO. Mas, ao ter seu projeto de criação aprovado, virou FAPEG. Tudo bem que foi criada, e isso é o mais relevante, mas todos os demais órgãos estaduais sempre contiveram a sigla GO em seu final, não se entende, portanto, a mudança. Isso, sem dúvida deu a impressão de ser outra entidade e não aquela pela qual tanto lutamos. Mas é inegável, aos que não negam a história, o papel que tivemos nessa conquista, e, modestamente, me incluo nesse esforço que significou um enorme avanço para novos investimentos em ciência, pesquisa e inovação em nosso estado. Torna-se, contudo, imprescindível lutar para aumentar o percentual orçamentário que lhe é destinado, e, o mais importante, que esses recursos sejam repassados em forma de duodécimos, automaticamente a cada mês, a fim de impedir que esses sofram contingenciamentos sempre que as dificuldades financeiras afetarem os gastos do Estado.

O RETORNO À ADUFG: DAS LUTAS SINDICAIS À DOR DE PERDER UMA FILHA

Caravana à Brasília - luta pela aprovação
de projeto que reajustava salários 2006
Em 2005, mesmo ano da criação da Fundação, retornei à direção do Sindicato. E, mais uma vez como presidente da Adufg pudemos ampliar a influência dessa entidade. Realizamos grandes mobilizações e as mais importantes, que ocorriam anualmente, foram dentro da Mostra Multicultural Milton Santos, criada em gestões anteriores. Mantivemos essas atividades, porque representavam uma forte mobilização na universidade, saindo do perfil dos eventos tradicionalmente realizados em nosso ambiente. Foi também um período de intensas discussões sobre o processo de ampliação do ensino superior, consolidado em abril de 2007, conhecido como REUNI. Participamos ativamente dessas discussões, e nos debates que diziam respeito aos interesses dos professores, num processo de discussão de uma reforma universitária que pudesse acompanhar a expansão do ensino superior. Nossa preocupação era que os professores não ficassem prejudicados com sobrecargas de trabalhos, e essa foi nossa luta por todo o processo de discussão. Não fomos contra a reforma nem a expansão, mas adotamos uma posição crítica, por entendermos que sobrecarregaria, de alguma forma, os professores. Mas conseguimos também avanços substanciais nas melhorias salariais, embora não as desejadas, que, nos anos seguinte foram sendo consolidadas com alguns avanços. Algo que nos tempos atuais e vindouros se apresenta como de arrocho e retrocessos, o que imporá a necessidade de retomada de muitas discussões e pressões para garantirmos nossas conquistas.
Como já citei anteriormente, minha saída da Adufg veio acompanhada de uma tragédia pessoal. Já no mês de junho daquele fatídico ano, 2007, nos vimos apreensivos com uma internação às pressas de minha filha, Ana Carolina, de dez anos de idade. Por dez dias de internação estivemos sob tensão, sem que um diagnóstico preciso tivesse identificado sua doença, embora, mal preparados, alguns médicos nos faziam acreditar em virose ou pneumonia. Sua recuperação foi lenta e cercada de preocupação e acompanhamento médico. Sua fragilidade, embora não fosse visível aparecia em situações estranhas e nos fazia às vezes pensar em alguma coisa pior. Quando um abatimento tomou conta de seu corpo, no mês de dezembro daquele ano, e tivemos que correr atrás de algum especialista que identificasse o problema, o tempo encurtou para sua vida. Rapidamente foi necessário interná-la, e três dias depois ela entrou numa UTI para não mais sair com vida. Foi o tempo em que o diagnóstico identificou uma leucemia, de tipo raro para criança, e por isso agiu de forma fulminante.
Foto tirada na sede da Adufg
2007.
Não há força positiva no mundo capaz de manter em pé um pai ou mãe que perde um filho ou filha. Reagimos de forma diferente, pela característica de cada um, mas o baque é muito grande, e a depressão um caminho quase que natural. Senti o golpe muito fortemente, como se uma parte de mim tivesse sido extraída, e recompor a vida demandou tempo, psicanálise, solidariedade e muita amizade. Demorei a me reerguer e praticamente por cinco anos me afastei de outras atividades que não fosse a sala de aula, que me confortava, além das viagens que me distraía. Aos poucos, depois de escrever um livro para ela e criar um Blog pra me aliviar das tensões, fui me reencontrando. Fortaleci-me com o doutorado, a publicação de outro livro e a sensação de que a vida, em sua dinâmica natural, nos coloca em desafios permanentes, e no confronto com a morte nos permite compreender que há algo que nos move para frente: ela própria, a vida. Para continuá-la devemos ter forças para superar tais adversidades e seguir em frente. Por meio de uma psicanalista compreendi que o luto não demora somente um ano, como tradicionalmente e culturalmente aprendemos desde cedo, mas que eu precisaria lidar com a perda de minha filha de tal maneira que eu pudesse sentir não mais sua ausência, mas sempre a sua presença permanentemente comigo. O período em que me abstive de participar de quaisquer atividades e isso quebrou de certa forma uma característica de minha presença na universidade, seguia essa compreensão da psicanálise, e se confirmou com o tempo. A dor, o sentimento de tristeza por perder uma filha, as saudades, isso sempre nos acompanha, intermitentemente. Mas aprendemos a conviver com uma realidade, que é insofismável, já não a tínhamos em vida. Passamos a tê-la sempre, em nossas lembranças, e a suportar e superar tamanho infortúnio.
Ao mesmo tempo, meu filho seguia um rumo parecido com o meu, como a alimentar meu orgulho de pai e a vontade de viver e de me ver nele. Tendo estudado por todo o tempo no Cepae-UFG no primeiro processo seletivo entrou na UFG, no curso de História. Logo se destacou como um jovem aguerrido e dedicado à leitura, e entrou no Centro Acadêmico e em seguida no Diretório Central dos Estudantes. Em pouco tempo chegou à União Nacional dos Estudantes, e atualmente é diretor de Assuntos Institucionais da entidade e está matriculado na Universidade de Brasília. Isso aconteceu porque eu jamais o sufoquei por todo esse tempo de sofrimento intenso, sempre mantendo mais do que uma relação de pai e filho, mas de amigos. Isso me fortalecia. Por outro lado, minha esposa, que também passou por todo esse processo, buscou na criação do Instituto Ana Carol, e depois da Cooperativa de Bordadeiras – Bordana, o aconchego por onde suportava as saudades e superava a dor. Duas instituições que surgiram nesse processo e que hoje tem nela o exemplo de superação.
É difícil fazer um relato da minha trajetória, e aqui isso acontece para um fim específico, sem deixar de falar desses momentos, porque eles foram impactantes em minha vida. Mas não me fizeram ficar prostrados, senão por um período em que procurei me refazer de um golpe tão duro. E as decisões que tomo hoje são sempre reforçadas pela crença de que seria isso, certamente, o desejo de minha filha, e, obviamente, a opinião de meu filho também me é absolutamente relevante.
Superei esse intervalo e busquei me recolocar na Universidade, porque essa era também uma necessidade, pois a vida sempre exige de nós um olhar para adiante. E, pela dor, como pela história, o passado nos alimenta, estimula e nos ensina, podendo nos tornar mais fortes, diante de determinadas circunstâncias.

O RETORNO À SECRETARIA REGIONAL DA SBPC E O DOUTORADO

Em 2010 reassumi a Secretaria Regional da SBPC, Goiás, e voltei a me envolver naquilo que sempre marcou a minha trajetória por esses anos, a defesa da Universidade e da Ciência e Tecnologia. Conseguimos realizar atividades importantes, com destaque para o Fórum de Ciência e Tecnologia no Cerrado, em sua 5ª edição, na cidade de Anápolis, numa parceria com a Secretaria Municipal de C&T; e também a publicação de um livro “Cerrados: Perspectivas e olhares”, dentro do Projeto Ciência explicando Ciência.
A decisão de retomar o projeto de Doutorado, e a efetivação desse desafio se concretizou no ano de 2010. Essa era uma necessidade em uma universidade que tornava imperativo o doutoramento. As circunstâncias e as escolhas me fizeram atrasar por esse caminho, mas não a ponto de me fazer desistir. Seria também uma oportunidade de me desafiar e demonstrar cabalmente que meu enfrentamento com a realidade me fortalecera. Dediquei-me por três anos a esse objetivo e consegui atingi-lo reafirmando meu processo de superação e me reforçando para novos desafios. Menos de um ano depois consegui a publicação desse esforço e o livro com a tese que eu defendera foi publicado, numa sequência da história que eu pesquiso desde o meu mestrado.
Em 2014 fui convidado para ser coordenador dos grupos PET da UFG, função ligada à Pró-Reitoria de Graduação. O convite foi um reconhecimento dos tutores dos diversos grupos, do trabalho que desempenhei à frente da Executiva Nacional dos Grupos PET nos tempos mais difíceis desse programa. Aceitei essa responsabilidade, e como sempre faço em tudo que assumo, me dediquei para ir além dos objetivos que a função exigia por aqui. Busquei contatar outros interlocutores das demais universidades onde o programa estava implantado, com o intuito de constituirmos um Fórum dos Interlocutores dos Grupos PET. Mas meu objetivo, e isso eu não havia escondido em nenhum momento, era me tornar mais uma vez, agora em uma nova realidade, tutor do PET da Geografia. Quando isso se vislumbrou e antes que outros projetos pudessem ser concluídos, optei por me afastar da coordenação para concorrer à tutoria.
Homenagem recebida na Câmara
Municipal de Goiânia (entre o reitor
Edward Madureira e o vereador
Fábio Tokarski) *
Mas, particularmente eu não esperava que a disputa despertasse tanto interesse. E isso se demonstrou com uma quantidade inédita de candidatos à tutoria. A partir deste momento me deparei com uma realidade até então não testada. As novas exigências curriculares impunha certos pré-requisitos que desconstrói todo o seu passado, resumindo-o a cinco anos ou menos de existência produtivista. Para quem atingiu o doutoramento tardiamente, isso era fatal. Pouco valia, em meu currículo, toda a experiência que adquiri à frente de uma luta que salvou este programa e já ter composto a executiva nacional dos tutores PET. Importava, fundamentalmente, o que eu produzira nos últimos três anos. Isso não foi suficiente para me qualificar, muito embora, de forma intempestiva e marcado pela insatisfação em ter todo um esforço esquecido, questionei trechos do edital num primeiro momento o que levou ao seu cancelamento. Desisti, no entanto, quando percebi que eu estava diante de uma realidade dura, para quem se dedicou por tantos anos a defender melhorias, avanços e defesa da nossa instituição. O seu tempo, sua experiência, é relegada às calendas gregas, pouco importa dentro de critérios puramente produtivistas. Uma perversão de um modelo de universidade que, embora deva ser absolutamente criteriosa na identificação do esforço do nosso trabalho, renega a importância de se lutar permanentemente pelo seu fortalecimento, e que isso possibilita uma inegável experiência aos que assim se dedicam. E sem esse esforço jamais alcançaríamos nossas conquistas.
Talvez essa seja uma das razões pelas quais muitos dos nossos colegas, mesmo estando no auge de sua capacidade intelectual e com experiência que é essencial para transmitir conhecimentos e influenciar seus alunos, optam por se aposentarem. As pressões que recaem sobre nós cotidianamente, e nos empurram para situações de estresses, terminam fazendo com que percamos competências, numa desvalorização precoce. É preciso que saibamos definir os critérios que identifiquem a nossa capacidade em se envolver naquilo que nos é exigido, do ensino, da pesquisa e da extensão, e que aquilo que fazemos seja devidamente registrado, publicado e publicizado. Mas não devemos descartar competências que acumulam experiências de décadas de contribuição à nossa universidade e na formação de uma geração, inclusive de futuros colegas que ou já estão ao nosso lado, ou nos substituirão. A Universidade deve aprender a valorizar essas experiências, pelo que possuem de capacidade, pelo que já dedicaram à instituição. Aprender a lidar com uma transição entre o velho e o novo é fundamental para reforçarmos naqueles que nos sucedem, valores que incorporam também o sentimento de pertencimento a uma instituição que não é nossa, é da sociedade, mas à qual dedicamos uma vida inteira, e por isso, pelo que construímos aqui, devemos aprender a dar o necessário valor. E o respeito àqueles que lhes legaram conhecimento e princípios fundados na ética e na valorização do saber.
________________________________
* A homenagem que recebi, juntamente com outras personalidades, ocorreu, por coincidência, na data em que se completava mais um ano do falecimento de minha filha. Daí a expressão de emoção pelo momento ainda de muita angústia e de saudades.