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sábado, 11 de setembro de 2021

11 DE SETEMBRO, 20 ANOS DEPOIS – UM LOOPING INFINITO

Me lembro muito bem dos acontecimentos matutinos daquele dia 11 de setembro de 2001. Eu me dirigia para o meu trabalho, no Instituto de Estudos Socioambientais, no Campus da Universidade Federal de Goiás. Naquele dia eu não daria aula pela manhã, era uma terça-feira, e por isso saí de casa um pouco mais tarde, visto que eu teria aula no período noturno.

Foi dentro de meu carro, ouvindo o rádio, que ouvi a notícia de que os EUA estavam sendo atacado. A informação foi dada inicialmente dessa maneira, em meio à edição matutina do noticiário. Claro que era uma notícia impactante, e me deixou impaciente. Afinal, essa era uma área de informação que me tocava diretamente, pelo conteúdo das disciplinas que eu lecionava. Atento, e ao mesmo tempo tenso, pois eu conseguia imaginar as possíveis consequências desse fato, cheguei à universidade tentando me informar melhor sobre o que estava acontecendo. Mas me lembro de falar a alguns colegas que os EUA estavam sendo atacados. Repeti a informação recebida pelo rádio.

Aos poucos fomos nos inteirando pelas imagens impactantes que chegavam, pela televisão e pela internet, em meio a toda uma sensação de incredulidade com o que víamos. O que realmente teria acontecido somente ficamos sabendo algum tempo depois. Afinal, mesmo para quem estava ali em Nova Iorque, a olhar para aqueles dois prédios em chamas, se espantavam com o que viam, e buscavam respostas imprecisas para aquelas cenas dantescas. Os maiores prédios de Nova Iorque, um dos orgulhos da arquitetura estadunidense, pelo viés do poderio econômico, naturalmente, sendo consumidos pelo fogo, e ao mesmo tempo em que o desespero fazia com que algumas pessoas se jogassem do alto de seus mais de cem andares. Impossível ser mais impactante, e cruel.

Depois chegavam as informações de ataques semelhantes ao Pentágono. E de um avião ter sido abatido quando seguia rumo à Casa Branca. Ou seja, escolhido a dedo, alvos que representavam o poderio econômico, militar e civil, da maior potência bélica do planeta. Não poderia ser um começo de século pior para a humanidade. Ao longo daquele fatídico dia e pela semana, com o desenrolar dos acontecimentos e a confirmação de que aquilo teria sido um atentado, em que aviões pilotados por terroristas foram transformados em mísseis que perversamente tirou a vida de quase três mil pessoas, fomos percebendo que os efeitos colaterais daqueles atos marcariam o começo da década. Mas isso foi mais longe, marcou, verdadeiramente, o século XXI, e veremos a seguir o quanto isso impactou as relações internacionais, a geopolítica mundial e a crise econômica que explodiria em 2008.

Há dez anos, em 2011, escrevi neste blog um artigo[1] sobre esse fato, ainda em meio à euforia estadunidense pelo assassinato de Osama Bin Laden, completando assim o compromisso de vingança, bem mais do que de justiça, levada a cabo desde o primeiro momento pelos Estados Unidos. Procurei naquele momento fazer uma análise não somente dos efeitos colaterais dos ataques terroristas ao coração dos EUA. Mas indiquei também as razões que transformaram aqueles atos, eles próprios, em efeitos colaterais das atitudes imperialistas e dos comportamentos rapaces estadunidenses, baseados na doutrina de segurança nacional que praticamente declara guerra antecipada a todo e qualquer país que seja governado por quem não se alinhe aos seus interesses. A busca, perseguição e eliminação do inimigo externo, e também do inimigo interno, se acentuaria e se tornaria uma obsessão, reforçada pelo Patriot Act.

A bem da verdade, e a história está aí para não nos fazer esquecer, diversos outros atentados já tinha acontecido antes, inclusive no próprio World Trade Center, quando a mesma Al Qaeda, ou um grupo que lhe era subsidiário e com seu financiamento, tentou implodi-lo, colocando na garagem uma caminhonete com explosivos, em fevereiro de 1993. O objetivo embora não tenha sido atingido por completo, causou estragos insuficientes para comprometer a estrutura, mas causou a morte de sete pessoas. Já era um indício que a Al Qaeda pretendia atingir instalações no coração financeiro dos EUA.

A estratégia de Osama Bin Laden, concretizada em 11 de setembro de 2001 era não só causar medo à população estadunidense e demonstrar que eles eram vulneráveis a ataques, mas, principalmente, atrair aquela potência para uma guerra distante que inevitavelmente a desgastaria diante da impossibilidade de conseguir derrotar grupos dispersos, com táticas de guerrilha, em ambientes inóspitos e dispostos a morrer por uma causa fanática e anti-imperialista. Além disso, Bin Laden sabia que a reação intempestiva dos EUA ampliaria os danos colaterais na Ásia e no Oriente Médio, jogando em mãos dos grupos terroristas, jovens dispostos a se engajarem numa guerra santa contra um inimigo que viria e eliminaria centenas de milhares dos seus. A “guerra ao terror”, de uma absoluta subjetividade, e não aos terroristas que cometeram aqueles crimes, foi seguramente, o maior erro estratégico da história dos EUA, e isso viria a impactar profundamente a humanidade e este século XXI.

A guerra contra o Afeganistão foi o primeiro passo e era previsível a ferocidade com que o império cairia sobre aquele país, visto que o Talibã jamais entregaria Bin Laden, considerado herói por eles, não somente por aquele ataque ousado, mas por seu envolvimento na luta para expulsar os soviéticos do solo afegão. A força bélica dos EUA, bem como de seus aliados, era amplamente superior, e o resultado era previsível. Em pouco tempo os Talibãs foram derrotados, mas não destruídos, e as montanhas do Afeganistão, que já tinha abrigado guerrilheiros revoltosos em luta contra as ocupações britânicas e soviética, mais uma vez garantiria com o tempo, e o desgaste natural a qualquer exército invasor, o revés que eles aguardariam pacientemente, fustigando com táticas de guerrilhas os jovens soldados estadunidenses movidos pelo sentimento de vingança, mas não por uma causa como a de lutar por liberdade e contra um opressor.

O tempo passaria a ser o principal adversário dos EUA, além da geografia do Afeganistão. Por um tempo a vitória parecia evidente, e assim foi anunciada ainda no segundo governo Bush. Os “falcões” bélicos estadunidenses passaram a ver a partir dali, pouco tempo depois da invasão ao Afeganistão, e diante desse sentimento de vitória alcançada, a oportunidade de ampliar seu belicismo, agora mirando o Iraque. E assim foi feito. Aproveitando-se da neurose que se espalhava diante do ódio pelo ataque terrorista, e manipulando fortemente a mídia subserviente, deu-se início ao que o século XXI passou a se deparar como uma cultura, as mentiras como armas de guerras, chamadas a partir de então de “fake news”. Não que a mentira nunca tenha servido de pretexto para agressões a outros países e guerras violentas. O nazismo mesmo soube usar isso muito bem. Mas ela adquiria um caráter muito mais permissivo, diante das facilidades tecnológicas de comunicação, além da subserviência dos meios de comunicação. E se tornou uma herança perversa nesse século XXI, afetando fortemente também a política.

Sob o pretexto de combater um ditador que supostamente possuíria grandes laboratórios de fabricação de armas biológicas, que poderiam ser usadas em novos ataques terroristas contra os EUA, o Iraque tornou-se o novo alvo da sanha vingativa estadunidense, e dali em diante escancarou-se os reais objetivos por trás de cada argumento de se estar lutando por democracia: destruir governos que representasse uma ameaça à segurança nacional do império.

A escalada de guerras e financiamentos a pequenos grupos de insurgentes se espalhou pelo Norte da África e todo Oriente Médio, dando início a duas novas estratégias: em primeiro lugar as guerras híbridas; e em segundo lugar o uso de drones, veículos aéreos não-tripulados para eliminar possíveis inimigos, ou potenciais terroristas, espalhando-se numa dimensão impressionante, os efeitos colaterais e as mortes de inocentes vistos como naturais em um ambiente de guerra. Ocorre que a imensa maioria dessas mortes foram de civis, em muitos casos mulheres, idosos e crianças.

A guerra ao terror espalhou centenas de milhares de mortes e disseminou ódios, fortalecendo grupos terroristas já existentes, e fazendo surgir outros, que se impuseram pelas forças de armas financiadas pelos EUA e seus aliados. Assim surgiu o Estado Islâmico, e o seu projeto de edificar o califado unindo Iraque e Síria. Os EUA, OTAN e aliados perdiam gradativamente o controle dos monstros que criaram e das consequências dos assassinatos e rastros de destruição que deixaram por onde passaram. Medo, ódio, fundamentalismo religioso, vingança e diversos outros ingrediente foram jogados em um caldeirão de misérias, pobrezas, migrações, guerrilhas, guerras, gastos absurdos que se contaram em trilhões de dólares e uma crise econômica, fazendo explodir em cadeia uma série de eventos e acontecimentos que fariam o mundo se recordar do crash de 1929.

20 anos depois o espectro do World Trade Center paira sobre os EUA, Europa, Ásia Central e Oriente Médio. Atingiu em cheio o orgulho “americano”, empurrou o império para a beira de um abismo e fez ressurgir das profundezas subterrâneas da política, uma extrema-direita perversa, objetivando destruir seus ideais republicanos e democráticos, impulsionados por grupos fanáticos fundamentalistas religiosos, tão cegos e estúpidos quanto aqueles que os levaram a milhares de quilômetros para combatê-los e vingar a ousadia do terror e da destruição de quase três mil vidas de forma perversa.

O mundo hoje, e o século XXI em suas duas décadas que parecem uma eternidade, potencializadas por uma pandemia que completa um ciclo de destruição, não pode ser entendido sem uma necessária compreensão daquele 11 de setembro, e da reação intempestiva, vingativa e pouco racional, do império.

O mais cruel, e de uma ironia perversa, é nos vermos diante de uma espécie de looping, em que tudo praticamente retorna incessantemente ao ponto de partida. Depois de 20 anos, e uma derrota evidente, embora não assumida, os Estados Unidos com todo o seu poderio bélico e econômico, e a arrogância natural dos que se impõem pela força, foram obrigados a se retirar do território afegão, como outrora o fizeram também britânicos e soviéticos. E, dessa forma, entregou aquele país, mais uma vez, àquele grupo que ele próprio empoderara com o intuito de derrotar os soviéticos. Ou seja, os mesmos que supostamente teriam bancado as estruturas para garantir a Al Qaeda a preparação para atacar o império, retornam ao Poder, mais fortes e beneficiados com uma grande quantidade de armamentos sofisticados deixados para trás pelas tropas estadunidenses em fuga.

Importante dizer, no entanto, que a narrativa de ter sido a partir do Afeganistão que se preparou os atentados ao Word Trade Center, se junta ao arsenal das mentiras contadas para justificar uma resposta imediata e vingativa. A bem da verdade, a maioria dos envolvidos, e os próprios recursos que garantiram o sucesso macabro daquele atentado, tem suas origens na Arábia Saudita, país aliado dos EUA.

Não me cabe aqui, ao lembrar dos 20 anos desse atentado que mudou o curso da história mundial, entrar em análises sobre as condições em que se encontram hoje o Afeganistão. Mas é importante dizer, que por mais perversa que seja a ideologia que move o Talibã, que retoma o controle daquele país, a mídia repete os erros do passado, e insiste em querer apontar mudanças significativas naquela região do mundo, encravada em meio a montanhas e submetidas a pobreza e a crenças seculares anacrônicas e absurdamente distorcidas. Os EUA não levaram ao Afeganistão o capitalismo sofisticado de Manhattan, ou Nova Iorque, e muito menos a democracia, isso só aconteceu para uma absoluta minoria. Prevaleceu a miséria e o crescente sentimento de ódio por uma potencia que se arroga no direito de impor a um povo estrangeiro o caminho que ele deve seguir, rompendo com suas culturas e características regionais.

Os drones, ou antes deles, os desequilíbrios típicos das loucuras da guerra propugnados por seus soldados, e os seus efeitos colaterais de eliminação de inocentes, só fez ampliar o exército de revoltosos, e o número de jovens que se aliavam ao Talibã. Para além disso, e por mais cruel que tenha sido aqueles ataques no dia 11 de setembro de 2001, por todo esse tempo a reação que causou a invasão do Afeganistão e do Iraque, e as destruições de suas infraestruturas, são injustificáveis. E não se pode omitir um fato real e histórico, os Estados Unidos da América e seus aliados, eram invasores, ocupantes de nações aviltadas em suas soberanias e submetidas por anos e décadas à sua opressão.

Inegavelmente isso causou também rombos históricos na economia estadunidense. Não somente com essas duas guerras, mas pela necessidade de manter uma aparato bélico impressionante, em centenas de bases militares espalhadas por todas as regiões do mundo, e a vigiarem e atacarem a quem eles determinem serem os agentes do mal. Por muito tempo a economia do império depende disso, mas as consequências dessa política têm trazido, agora no começo da terceira década desse século, a conta fatal, que tem lhe afetado duramente enquanto potência hegemônica, posto que vem perdendo gradativamente para a China. E, seguramente este foi um dos motivos da intempestiva fuga do império do inóspito e até então inconquistável território Afegão.

Os atentados de 11 de setembro de 2001 foram, inexoravelmente, de uma barbaridade e crueldade criminosa. Mas foi respondida com igual crueldade, normalizando a tortura e considerando inevitável o assassinato colateral de dezenas de milhares de inocentes civis, que pagaram caro pela loucura terrorista daquele fatídico dia. E a humanidade também. O século XXI nasceu sob o símbolo do ódio, e assim tem permanecido 20 anos depois.

Sugiro como leitura complementar o artigo que escrevi em 2011 e foi citado neste texto, bem como outros já escritos aqui neste Blog. Sua indicação e link encontra-se abaixo.



[1] WORLD TRADE CENTER, RÉQUIEM PARA UM IMPÉRIO - 11 DE SETEMBRO DE 2001: QUATRO AVIÕES, DUAS TORRES, UM PENTÁGONO E O COMEÇO DO FIM DE UMA ERA. https://gramaticadomundo.blogspot.com/2011/09/world-trade-center-requiem-para-um.html

 LEIA TAMBÉM:

BIN LADEN ESTÁ MORTO! MAS E OSAMA? - https://gramaticadomundo.blogspot.com/2011/05/bin-laden-esta-morto-mas-e-osama.html

UMA GUERRA SILENCIOSA: O ATAQUE DOS DRONES, A GUERRA CIBERNÉTICA E A ESPIONAGEM MODERNA - https://gramaticadomundo.blogspot.com/2012/06/uma-guerra-silenciosa-o-ataque-dos.html

A GUERRA CONTRA O TERRORISMO, AO INFINITO E ALÉM! - https://gramaticadomundo.blogspot.com/2014/09/a-guerra-contra-o-terrorismo-ao.html

 

 

segunda-feira, 2 de maio de 2011

BIN LADEN ESTÁ MORTO! MAS E OSAMA?

Não. O título não está errado. Eu não quis dizer Obama, e sim Osama.
A notícia da morte do líder terrorista mais procurado do mundo chegou neste domingo pelos meios de comunicação. Pela TV e internet foi divulgado a operação que eliminou o chefe da rede Al Qaeda a pouco mais de cem quilômetros de Islamabad, capital do Paquistão. Segundo as informações Bin Laden escondia-se em uma fortaleza na cidade de Abottabad. A cidade tem cerca de 130.000 habitantes e é considerada uma das mais limpas e organizadas do Paquistão. Já entra para História com esse fato.
Mas qual a razão do trocadilho do título? Porque longe da euforia com que a notícia foi veiculada, e até que do ponto de vista simbólico, principalmente para os EUA, faça algum sentido, devemos compreender que a dimensão dos conflitos que se espalham pelo mundo, e do qual o terrorismo é apenas uma tática, vai muito além de Bin Laden.
Não há dúvida que os atos terroristas cometidos pela Al Qaeda são abomináveis. Dentre eles a destruição do World Trade Center. Por mais justas que sejam as razões que motivam seus membros, o assassinato de milhares de pessoas inocentes é inconcebível, até porque são insuficientes para fazer modificar a política também criminosa das potencias imperialistas, notadamente os EUA.
 Ações terroristas fazem parte da história de inúmeros conflitos, e chegou a ser defendida abertamente por Trotsky, na Rússia pré-revolucionária, de forma indiscriminada, e até mesmo por Lênin, aí já de maneira criteriosa, desde que os alvos fossem personagens destacados e lideranças importantes da classe dominante.
Elas são justificadas, por quem a utilizam, pelo fato de o inimigo ser muito mais poderoso e bem armado, não restando outros artifícios capazes de trazer a vitória do que o fustigamento surpreso de ataques a pontos estratégicos. De forma a gerar o terror, o medo, e fragilizar o lado psicológico principalmente da multidão. E assim desnortear o comando militar adversário, muito bem armado, mas impotente diante de inimigo praticamente invisível e que pode estar em qualquer lugar.
Mas ao longo da história os atentados terroristas, principalmente no século XX, terminaram por causar um número extremamente elevado de vítimas inocentes, de forma aleatória, transformando seus responsáveis em bandidos comuns, e não surtindo o efeito desejado de alterar a política, ou até mesmo de derrubar governos.
Contudo, há um outro lado dessa história. O banditismo, principalmente aquele que carrega em sua origem elementos de desigualdades e de injustiças sociais, se causa medo também gera outra expectativa, de ver o lado mais forte ser derrotado. Esse lado é identificado como o causador das injustiças que geraram aqueles atos de banditismo. Isso possibilita que a figura do indivíduo caçado, procurado por atos criminosos cometidos contra um possível opressor, seja transformado em um mito. Essa é a razão de, ao longo da história, serem muitos os casos de indivíduos, acusados de crimes, tornarem-se perante o povo, verdadeiros heróis. Spartacus, Robin Hood, Lampião, são alguns desses exemplos. Sem medo de criar polêmica, cito o mais importante destes, cuja morte transformou suas idéias na maior religião do mundo: Jesus Cristo. E a morte não mata os mitos. Muito ao contrário, potencializa-o, torna-o inquebrantável.
Não quero aqui estabelecer nenhum parâmetro comparativo entre esses personagens, até porque seria absurdo fazê-lo e mero artificialismo. Mas dizer que os atos e fatos cometidos por grandes nações, em especial no tocante ao domínio e exploração rapaces das riquezas de países mais frágeis economicamente, embora ricos potencialmente, sempre geraram reações violentas e geradoras de guerras, guerrilhas e pequenos ou grandes atos terroristas para combater o opressor e invasor de seus domínios territoriais. E grandes lideranças, para o “bem” ou para o “mal”, surgiram desses processos.
 Nessa lista de confrontos, a denominação de terrorista será dada a depender do lado da história em que cada um se coloque. A dizimação da população aborígene na América, inclusive no oeste dos Estados Unidos, a invasão do Vietnã, o aculturamento forçado na Austrália, o bloqueio à Gaza na Palestina ocupada e tantos outros casos de domínio colonialista imposto principalmente pelas potencias, sempre criaram e criarão os Bin Ladens.
Esse espaço é extremamente reduzido para listarmos a quantidade de “heróis e bandidos” que tornaram-se mitos no enfrentamento a situações de opressões e injustiças sociais. Muito embora essa mesma história não seja suficiente para ensinar o quanto essas desigualdades são forças potenciais a elevar figuras como Bin Laden a líderes de causas muitas vezes justas, mas combatidas por caminhos tortuosos e criminosos.
Por essa razão, por continuarem a mesma política belicista e agressora, exploradora das riquezas, principalmente as minerais, é que indico no trocadilho do título a criação de mais um mito, visto de uma realidade completamente diferente daquela com que os jovens estadunidenses euforicamente saíram às ruas para comemorar a morte do “terrorista mais procurado do mundo” .
Osama é um nome comum no Afeganistão, como é em outras partes do mundo, John, Joaquim, José, João e até mesmo Ribamar. Está ligado com elementos da cultura e da religiosidade de cada lugar. São esses indivíduos, anônimos, explorados por uma situação de exploração e desigualdade social, que transformam em mitos figuras que são capazes de enfrentar impérios, exércitos poderosos e “coronéis”.
Iludem-se aqueles que se apegam ao simbolismo da morte de Bin Laden e vê isso como uma grande vitória. Como ato simbólico, a demonstrar o poderio do império e da “força da lei” e do “bem”, momentaneamente surtirá efeito. Inclusive eleitoral, para Obama. Sem trocadilho. Mas a Al Qaeda é muito maior do que o seu líder. Transformou-se em uma organização mundial, uma verdadeira “franquia” de grupos que se organizam para combater a política intervencionista e agressora das potencias européias nesse exato momento expresso na tentativa de eliminar Muamar Kadafi. Embora um ditador, há muitos anos no poder, Kadafi é problema dos Líbios, assim como Berlusconi é um problema dos italianos.
A ação agressora, praticada pela OTAN, a serviços das potencias européias e dos EUA, não se difere dos atos terroristas da Al Qaeda, a não ser pela dimensão tecnológica e do aparato bélico. Assim o foi no Iraque, onde centenas de milhares de iraquianos inocentes foram mortos desde a ocupação estadunidense naquele país. Numa quantidade de mortos muito maior do que a que foi atribuída a Sadam Hussein. O mesmo se repete no Afeganistão.
Nessas situações, e de forma aberrante, a terceirização da guerra permite que os grupos de mercenários executem missões aleatoriamente, e os abusos cometidos, atos de selvageria e assassinato em massa, não podem ser julgados pela justiça daquele país que está sob ocupação. É o caso do que cometeu por muito tempo a Blackwater, maior empresa privada de guerra do mundo. Depois de praticarem vários massacres no Iraque e ter sido denunciada em um livro com o mesmo nome ela foi forçada a mudar sua denominação, passando a chamar-se simplesmente XE.
Quantos novos seguidores da Al Qaeda surgem de situações como essas, de explícitas injustiças, covardias e assassinatos, sem que seja possível punir e condenar os responsáveis? Como surgem os “homens bombas”? Obviamente surgem de situações de crescente revolta contra atos violentos praticados contra uma população frágil e que não permite outro tipo de reação, na medida em que o inimigo é extremamente poderoso. As guerras de guerrilhas e o terrorismo são conseqüência dessa situação. Creio que dois bons filmes podem nos ajudar a entender isso: A Batalha de Argel (recentemente relançado em DVD duplo com bons extras), do diretor Gillo Pontecorvo, que retrata a luta pela libertação do povo argelino contra a dominação colonialista francesa; e Paradise Now, filme mais recente, de 2005, e ganhador de Oscar de melhor filme estrangeiro, que mostra a condição de vida dos jovens palestinos e a sua fragilidade e revolta que os tornam alvos fáceis no processo de recrutamento para tornarem-se “homens bombas”.
Da mesma maneira grupos de bandidos comuns, se aproveitam da situação desses conflitos para dominarem territórios, e quase sempre após essas invasões esses grupos tornam-se um poder paralelo, sendo difícil eliminá-los. Os exemplos podem ser vistos na Somália, no Iêmen, no Sudão, no Afeganistão e em muitos outros lugares. Tornam, eles também, grupos de mercenários fortemente armados, e passam a se constituir entraves para seus antigos aliados: as potencias invasoras. O exemplo mais visível foi do Talibã, armado para combater as antigas tropas soviéticas no Afeganistão. E isso pode estar se repetindo nesse momento na Líbia, e tudo indica que poderá vir a acontecer na Síria.
Bin Laden está morto, mas a situação que o gerou permanece. Isso, certamente, será um motivo para torná-lo um mito muito mais poderoso do que em vida, principalmente nos países onde o radicalismo islâmico se destaca. Embora minoritário, se constitui na força hegemônica de combate as agressões imperialistas. E é bom que o corpo seja apresentado, e devidamente identificado, porque senão se ampliará em muito a dimensão do mito.
E mal se começa a comemorar sua morte e já aparece outro em primeiro lugar, na lista dos dez mais procurados terroristas. A bola da vez agora é o egípcio Ayman Al-Zawahir. Conseguirão ser eliminados? Certamente, o poderio bélico e a capacidade tecnológica e de espionagem é insuperável. Mas assim seguirá a sucessão de novos rebeldes e mitos, porquanto durar as agressões imperialistas e a crescente desigualdade social no mundo.
Por mais que se comemore neste momento a morte de Bin Laden, e que isso sirva para animar o sentimento nacionalista estadunidense, o mundo não estará livre da violência e dos atentados terroristas. E os alvos potenciais continuarão sendo aqueles que em nome do “bem” e da “democracia”, persistem em cometer usurpação, crimes e assassinatos em claro e visível banditismo imperialista.
Para finalizar reporto-me ao livro de Howard Fast, romanceando a vida de Spartacus (que virou roteiro para um filme clássico e ganhador de vários prêmios). Ao ser crucificado na Via Appia – estrada que saía da antiga Roma em direção à Cápua - juntamente com milhares de seus seguidores que, todos eles, teriam assumidos ser também o próprio, ele teria dito no momento em que sua companheira Varínia se aproxima dele com o filho nos braços: “Eu voltarei, e serei milhões”.
Enquanto se ampliar o fosso entre ricos e pobres e a desigualdade se constituir em claro abuso e afronta à humanidade os mitos se multiplicarão, e eles se humanizam na figura daqueles que despontam com coragem de desafiar os mais fortes. E por assim o ser, tornam-se eles mitos maiores do que as dimensões humanas que lhes são atribuídas.
Bin Laden era o alvo, mas o perigo é a miséria e a injustiça social. A Al Qaeda tende a se multiplicar, na medida em que as políticas das grandes potências persistirem em explorar nos países mais pobres as riquezas para salvar suas  ganâncias, usuras e inaceitáveis (para eles) falências.