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terça-feira, 28 de abril de 2020

COMO CHEGAMOS ATÉ AQUI E COMO SERÁ O MUNDO PÓS-PANDEMIA?


Embora nos sintamos permanentemente instados a construir cenários sobre o que pode vir a acontecer no pós-pandemia, como estudioso da Geopolítica sinto que é necessário evitar precipitações. É bem verdade que podemos montar diversos cenários, sem querer até mesmo criar expectativas que haja 100% de acerto. O que nunca é possível. Mas uma criteriosa observação sobre o que tem acontecido no mundo, nos permite ver que há distinções na maneira como cada país, e dentro deles, cada região, tem se comportado no tratamento da Covid19.
Isso nos permite também deduzir que não está descartado uma segunda onda epidêmica, naqueles países que não souberem criar as condições para retomar as atividades normais pós-quarentena. Imagino ser necessário aguardar até o segundo semestre deste ano para podermos compreender melhor como as governanças globais, e cada governo em particular, vão se preparar para reconstruir nações devastadas, economicamente e psicologicamente. Certamente no decorrer desse artigo eu vá me contradizer, e aponte alguns elementos que, em minha opinião, comporão os novos cenários que definirão o que nos acostumamos a chamar de futuro.
Em outras oportunidades já escrevi aqui nesse blog textos que tinha como objetivo extrair de dentro de mim angústias que me acompanhavam, e ainda me acompanham. Naturalmente cada um de nós carregamos sentimentos angustiantes e lidamos com situações próximas ou distantes de nós que nos levam a rever nossos comportamentos e como vivemos até aquele momento em que um trauma, ou acontecimento impactante, nos afetou, ou a sociedade.
Esse momento em que vivemos, marcado por uma pandemia causada por um vírus que se tenta conhecer ainda, e que por isso inexiste medicamentos e vacina para lidar com a doença que ele causa, os traumas serão pessoais e coletivos. No âmbito de famílias, de grupos de amizades e das sociedades. São formas de se relacionar, de afetos e de comportamentos, que necessariamente pelas condições ainda indefinidas que persistirão enquanto não for possível conter esse vírus, irão transformar nossas condições sociais e a interatividade que construímos na forma de viver em sociedade.
Mas isso pode, e deve, nos possibilitar se não construir cenários que apontem como serão as sociedades em um futuro incerto, pelo menos questionar as formas de relacionamentos que construímos até aqui, e que geraram distorções por todo o mundo, entre nações e dentro de cada país, entre pessoas que se situam em condições absurdamente desiguais. E para isso é preciso em primeiro lugar parar de viver para um futuro que não somente é incerto, como inexiste.

UM MODELO DE SOCIEDADE CONSUMISTA E DESIGUAL

O modelo de sociedade, consumista e individualista, construído pela burguesia, em seu interesse ganancioso e usurário, gerou distorções criminosas. No entanto, essas distorções foram naturalizadas por outros elementos que vão além das condições materiais de existência das pessoas. São as ideias, crenças, concepções filosóficas e políticas, construídas no sentido de acomodar as pessoas, e fazerem com que elas aceitem desigualdades sociais impressionantes. Na medida em que os estados-nações foram sendo estruturados, o seu aparato ideológico também foi construído, e suas ideias e elaborações intelectuais foram sendo geradas para criar na sociedade a aceitação das diferenças. Formas de controles também foram sendo criadas, envolvendo escolas, igrejas, aparatos jurídicos, estruturas repressivas, a fim de manter as pessoas submetidas à lógicas que as condicionavam na aceitação de um sistema perverso e concentracionista, com a acumulação da riqueza em mãos de um percentual mínimo de pessoas. Cerca de 1% da população controla mais de 80% da riqueza.
O modelo de democracia inverteu a lógica determinada desde a antiguidade, em suas origens, que a definia como geradora de formas de governos que atendessem os interesses da maioria. Se disseminou princípios que caracterizava a democracia de forma simplificada, determinando que esse seria um regime definido por processos eleitorais, onde cidadãos teriam direito a escolher seus dirigentes. Nada mais falso. Construiu-se modelos de democracia que sucessivamente, desde que a burguesia assumiu o controle dos meios de produção e da riqueza, sempre elevou e manteve no Poder seus representantes diretos ou indivíduos que se corrompiam numa estrutura viciada, definida claramente para que não houvesse nenhuma possibilidade de alteração na ordem vigente. De valores democráticos falsos, onde o voto sempre foi definido pela manipulação e os eleitos jamais representaram estatisticamente o perfil da sociedade.
Para manter as pessoas submissas decantava-se mantras criados ideologicamente, mas estranhamente jamais vistos como sendo construções ideológicas. Ideologia passou a representar apenas aquilo que se contrapunha a esse formato de sociedade e a esse modelo de democracia. As notícias apresentadas pela imprensa, os cultos e celebrações religiosas, a cultura e suas representações burguesas, tudo isso, e muito mais, nunca foram vistos como formas por onde a ideologia dominante sempre penetraram e conformaram a maneira de viver das pessoas. Suas aceitações da miséria e a passividade diante dela se justificavam à espera de milagres ou que pela fé essa situação pudesse se reverter. Jamais essas pessoas inserem em seus objetivos lutar para destituir do poder os que lhes oprimem e reverter um modelo de sociedade profundamente desigual e absurdamente injusta.
Qualquer tentativa de construir cenários pós-pandemia necessariamente tem que levar em conta a maneira como essas pessoas se comportam e aceitam seus “sacrifícios”, pretensamente definidas por uma divindade que define os seus eleitos, a partir da dimensão de sua fé.
Lendo a história da rebelião dos escravos, antes da era cristã, no ótimo livro de Howard Fast,[i] construo o raciocínio (embora historiador não deva trabalhar com suposições, mas o faço para justificar meus argumentos) que Jesus se tornou a liderança que alimentou um exército de seguidores, de crescimento exponencial, porque um século antes dele despontar, Spartacus foi derrotado. A rebelião espetacular que levantou centenas de milhares de escravos e foi a duras custas derrotada pelo poderio romano, poderia ter alterado os rumos da humanidade. Mas, da necessidade de se libertar pela força de suas lutas e no enfrentamento com os opressores, em busca da liberdade, prevaleceu após a crucificação de Spartacus um outro caminho. Tempos depois a ideologia pregada, embora na defesa dos fracos e oprimidos, definia-se que se devia “dar a César o que é de César”, ou que era preciso oferecer a outra face ao ser agredido, em vez de reagir na mesma dimensão.[ii]
A história vai demonstrar como se deu o transcurso do tempo em que essa ideologia se impôs, após ser absorvida pelos imperadores, que espertamente se converteram ao cristianismo e impuseram a obrigatoriedade de que todos os seus súditos também o fizessem. Assim, de uma filosofia libertária, embora defensora da reação pacífica, o cristianismo se transformou em religião oficial com a decadência do Império Romano, momento em que as religiões politeístas e as divindades pagãs foram atacadas e destruídas. Dominou a Idade Média de forma contundente, controlando por meio de disciplinas rígidas e pelo medo uma população que vivia em situação caótica e desprovida de proteção de mecanismos estatais, até se ver em meio a uma forte disputa que se transformou em um grande cisma, dividindo-se em cristãos católicos e evangélicos.

A IDEOLOGIA CRISTÃ E A ACOMODAÇÃO SOCIAL

A ideologia cristã evangélica, foi representada a partir da elaboração de teses que foram afixadas às portas das igrejas católicas, confrontando o poder abusivo, a corrupção e o enriquecimento do alto clero católico. Ao enfraquecer o poder da igreja com esses ataques, e com a divisão que se concretizou, Martinho Lutero construiu outro caminho para os que queriam crer no deus cristão sem o controle de um alto clero corrompido. Mas esse outro caminho também se deparou com essas vaidades e com a submissão ao poder da nobreza. Lutero se aliou aos príncipes alemães na primeira revolta que despontou, com os camponeses à frente lutando contra a opressão em que viviam. Na guerra que se seguiu ele ficou ao lado dos príncipes, defendendo que os camponeses deveriam ser eliminados como cães.
Mas se deu nesse momento o começo da divisão que não pararia mais, e só cresceria entre essa nova vertente do cristianismo. Thomas Munzer rompe com Lutero e torna-se ferrenho defensor das revoltas camponesas, a liderando inclusive. Dessa divisão surgiu os anabatistas, em contraposição ao luteranismo. Logo depois João Calvino se integrou nesse movimento disseminando pela Europa valores que passaram a ser incorporados pela burguesia emergente e que nortearam os princípios do capitalismo. Principalmente porque não via pecado na acumulação de riqueza, mas desígnio divino, e que os ricos não deveriam se envergonhar dessa condição, estando aos demais se esforçarem pelo trabalho para ascenderem socialmente. A fé seria o mecanismo pelo qual cada um deveria entregar-se à adoração cristã, e os que conseguissem sucesso isso se deveria ao esforço individual e à escolha feita por Deus.
Figura que representou o Destino
Manifesto - Séc. XIX
A partir desse movimento inicial o protestantismo se espalhou por toda a Europa, dando origem a um grande número de outras correntes cristãs de origem evangélica. A crise econômica no Reino Unido, gerado pela segunda onda da peste bubônica, no século XVII, e após o grande incêndio que devastou Londres, acentuou as diferenças entre algumas dessas correntes. A dominante na Inglaterra era a Anglicana, criada praticamente como uma religião de Estado, em função do rompimento de Henrique VIII com o catolicismo, por questões de fórum íntimo. Boa parte da população pobre foi enviada para a América, em navios bancados pelo governo britânico.
Como resultado desse processo vamos ver a disseminação pela América, a partir dos EUA da influência de novas correntes, minoritárias na Europa, mas que irão se consolidar no continente americano: pentecostais, adventistas, mórmons, testemunhas de Jeová, metodistas, batistas e puritanos, dentre outras denominações religiosas, que se expandiram e constituíram um forte poder nacional com o chamado “Destino Manifesto”, pelo qual esse país estava designado por Deus para comandar o destino da América . E a partir do final do século XX, a influência crescente dos neopentecostais, inflados estrategicamente no interesse dos EUA em combater a teologia da libertação e o movimento de forte penetração popular exercido pelas comunidades eclesiais de base.[iii]
A Igreja Católica se refez do cisma que gerou o protestantismo e a enfraqueceu, pelo menos em termos quantitativos de seguidores, por alguns países europeus. Manteve sua influência na Itália, Espanha e Portugal. Na Grécia e Rússia uma nova divisão gerou a Igreja Católica Ortodoxa. Mas o movimento que levou ao seu ressurgimento foi escorado em linhas de caráter contemplativo e de rejeição à riqueza. Cumpriu papel importante as correntes franciscanas e os jesuítas, que comungavam praticamente dos mesmos valores. E foram essas correntes católicas, inspiradas na veneração à pobreza por Francisco de Assis, e no caráter missionário da Companhia de Jesus, que se deu a maior influência no que se denominou chamar de Novo Mundo: a América. Embora na última década tenha vigorado um pensamento católico conservador, com o fortalecimento de segmentos que usam práticas semelhantes aos evangélicos, como a corrente mais forte nesse aspecto, a carismática, e outros ultraconservadores a ponto de se oporem a certas ações do próprio papa Francisco, que tem adotado discursos que se contrapõem à lógica gananciosa capitalista.
Enfim, qualquer discussão sobre ideologia não pode menosprezar esses movimentos e como a história das religiões explicam a forma como foram se dando o processo de transformação das sociedades modernas. E podemos incluir nisso a influência e o crescimento exponencial do islamismo, na configuração das sociedades orientais, ou do hinduísmo e budismo em grandes populações asiáticas. Mas não é esse o caso, embora ilustre bem como as religiões se tornaram fatores de disseminação de ideologias que serão apropriadas pelos detentores do poder, notadamente por aqueles que avidamente disputavam as riquezas.
Ou seja, se quisermos compreender por quais caminhos, ou cenários, podemos seguir no pós-pandemia, o melhor que fazemos é olhar para o passado. “A história é um profeta com o olhar voltado para trás. Pelo que foi e contra o que foi, anuncia o que será” (Eduardo Galeano). O que aconteceu em épocas passadas após situações de caos atingirem as sociedades? Sobre quais suportes as pessoas se sustentaram para superarem as adversidades? É essencial conhecermos esses processos, para nos ensinar como superar o momento crítico em que estamos.

UM MUNDO PÓS-PANDEMIA OU PÓS-CAPITALISMO?

Mas em direção a que futuro? O que temos hoje como presente pode ser visto como o futuro pensado lá atrás, em circunstâncias parecidas, de crise e de caos? Se chegamos até aqui, com uma sociedade desigual, com dois terços das pessoas vivendo em condições de pobreza e um desiquilíbrio social vergonhoso, foi porque a forma como saímos dessas crises não se fundamentaram em perspectivas que fossem solidárias e coletivistas.
O que podemos encontrar em um mundo devastado? Seja em temos de guerra, de grave crise econômica ou em meio a uma pandemia, cuja doença não pode ser contida por medicamentos? Desespero, medo, descontrole social, agonia e sofrimento. Esse cenário, que é o atual, nos leva em direção ao aprisionamento doutrinário que as religiões comandam. Não à toa que houve toda uma pressão para que as igrejas não fechassem durante a pandemia. Haverá a corrida na disputa pelos desesperados. E a fé, convenhamos, constitui-se em um bálsamo em meio a situações desesperadoras, de perdas de entes queridos e falta de perspectivas para as pessoas.
metropole.com
Por outro lado, aqueles que controlam os meios de produção e definem os caminhos por onde seguirá a economia, irão desesperadamente recuperar seu poder de riqueza. Já que não estão acostumados a ver escaparem por meio de seus dedos uma quantidade tão grande de ativos, de ações desvalorizadas e de redução de seus lucros. A fé no dinheiro soma-se aquela esbravejada nos templos, e conduzirão os rebanhos, em metáforas bíblicas, seus carneiros e ovelhas, sempre cordatos, pelos mesmos caminhos de aceitação das desgraças como desígnios divinos, tendo os sacrifícios como provação aos que têm fé. Como sempre, poucos serão os ungidos.
Evitar esse caminho não é fácil, mas é o cenário mais provável. Resta no entanto apostar na construção de meios que nos levem a romper com esses mecanismos, o que não necessariamente significa tornar-se ateus, mas reforçar o poder das comunidades, por alternativas solidárias e através da cooperação construir alternativas, que, inclusive, se contraponha a estrutura gananciosa de um sistema capitalista absolutamente perverso, e de combate a políticas perversas que obstruem qualquer caminho que não seja o determinado por uma lógica insana e individualista. Esse caminho inevitavelmente levará ao descontrole social.
É necessário tornar usual palavras como resiliência, solidariedade, comunidade, comum união. Se observarmos o comportamento deste governo que nos deixa apreensivos quanto ao que será o futuro desse país, veremos que suas ações se contrapõem ao que significam essas palavras. O atual presidente e seus seguidores, inclusive os que gritam dos púlpitos de templos acintosamente e estupidamente, de igrejas que pregam vidas em bolhas somente com aqueles que ali frequentam, possuem comportamentos centrados no ódio, no distanciamento da sociedade, na frieza dos relacionamentos e na insensibilidade com as pessoas mais vulneráveis. Por isso esse governo tem como estratégia principal a desunião. Não visa uma união nacional, não deseja o fortalecimento do país e o respeito à suas diferenças e diversidades.
O cenário mais provável do que virá pela frente não será muito diferente em termos ideológicos do que estamos deixando para trás. Poderá ser pior, porque em meio a um caos e uma enorme crise econômica, com milhões de desempregados, provavelmente com um percentual que chegará a um terço da população.
Como vejo o mundo hoje, e analiso o passado, me resta enfatizar a necessidade de buscarmos fortalecer os mecanismos que venham a aglutinar as pessoas vulneráveis, oprimidas, desempregados, enfim, principalmente aqueles que vivem nas periferias das grandes cidades. Em um forte movimento que garanta a essas pessoas terem à sua disposição entidades que lhes deem voz e a exigirem a presença do Estado em ações que lhes protejam, por direito. Para que possam lutar por esses direitos que mesmo antes da pandemia já estavam sendo destruídos e retirados. E a partir dessas organizações focar na busca por outro mundo, outra globalização, outra mundialização, em que a solidariedade, a cooperação e o bem comum, seja o objetivo alcançável, e que garanta à essas pessoas mesmo que em condições miseráveis de vida um sentimento de autoconfiança, de percepção da realidade e de possibilidade de adquirir capacidade crítica para compreenderem que o mundo em que vivemos é movido pela luta de classes. E somente sua organização e senso de comunidade garantirá conquistar esse novo mundo. Para além da pandemia do Covid19 e do capitalismo.



NOTAS:

[i] FAST, Howard. Spartacus. São Paulo: Círculo do Livro, 1979.
[ii] Aqui refiro-me à construção do mundo ocidental. O Império Romano do Oriente, e, principalmente após a sua queda, tomou outra direção e seguiu outros preceitos religiosos fundados no islamismo, cuja ideologia indicava reação diferente às agressões sofridas: olho por olho, dente por dente.
[iii] LIMA, Décio Monteiro de. Os demônios descem do Norte. Rio de Janeiro: Editora Francisco Alves, 1991.
Leitura complementar:
CAMPOS FILHO, R. (2020). A peste, a gripe espanhola e a covid19 – geografizando as pandemias pelo mundo. Élisée - Revista De Geografia Da UEG, 9(1), e912014. Recuperado de https://www.revista.ueg.br/index.php/elisee/article/view/10301

segunda-feira, 24 de julho de 2017

UMA VISÃO DA CRISE ATUAL - ENTREVISTA

Entrevista concedida ao Jornalista Renato Dias, do Diário da Manhã - Goiânia/GO, em julho de 2017. Uma tentativa de compreender a instabilidade política, social e econômica no momento atual. Publicado na edição de 22.07.2017 (https://impresso.dm.com.br/edicao/20170722/pagina/11). Edição integral.

Diário da Manhã - Michel Temer cai?
Romualdo Pessoa Campos Filho – É imprevisível. A votação no Congresso não será baseada em respeito às questões éticas. O jogo é de cartas marcadas, e o atual presidente, que assumiu o posto por meio de um golpe de estado jurídico-parlamentar, está fazendo de tudo para comprar votos que o mantenha no poder. Ele sabe que se perder o cargo será preso. Com esse jogo pesado de compra de votos, é difícil prever o resultado.
DM - Qual acusação teria maior peso: corrupção, formação de quadrilha ou obstrução da Justiça?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Creio que corrupção. Ela é que dá margem para que tudo a seguir seja feito para manter a estruturas por onde jorram os recursos ilícitos.
 DM - O PSDB desembarca do Governo Federal?
Romualdo Pessoa Campos Filho – O PSDB ajudou a construir esse cenário caótico da política brasileira. Apostou no tudo ou nada e agora está sem saída. Qualquer que seja a posição a tomar já se maculou e está condenado a carregar nas costas o peso de posturas inconsequentes motivadas pela absoluta recusa em aceitar o resultado eleitoral. Não lhe restou nenhum patrimônio moral nesse processo.
DM - Existem indicadores de recuperação da economia?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Absolutamente. O que acontece é por osmose. Se não tivesse o Michel no comando talvez o crescimento fosse maior. O país inegavelmente consolidou suas estruturas neste século, por meio de fortes investimentos estatais, ampliou seu mercado externo e potencializou o mercado interno. Poderia estar numa situação confortável no cenário político internacional, se não fosse a mediocridade da política rasa posta em curso de um lado por quem não aceitava ficar na oposição, e de outro, por quem tornou essas estruturas viciadas e ampliou a corrupção.
DM - Rodrigo Maia acalma o mercado?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Se o fizer será por força do poder da grande mídia. Mas será por pouco tempo. Suas ações seriam na mesma direção das medidas adotadas por Michel Temer, que ampliará a recessão e trará mais desemprego e tornará a sociedade inseguro devido ao aumento da violência e da instabilidade social.
DM - Qual a sua análise da carta-manifesto divulgada por Aldo Rebelo [PC do B - SP]?
Romualdo Pessoa Campos Filho – A meu ver ele reflete uma posição que procura ampliar o leque de forças que possa ajudar o país a sair da crise. O foco que ele dá é a necessidade de fortalecer o sentimento nacional e recuperar as condições que fortaleçam o país. Mas de forma mais ampla do que outros setores apresentam. Acho que é uma alternativa interessante, só não sei com quem se pode contar no atual quadro político para ampliar essa aliança. O documento mais se aproxima da “Carta aos Brasileiros” do primeiro governo Lula, com um foco mais específico em relação ao papel democrático das forças armadas no processo de consolidação do poder nacional.
DM - Qual a sua análise da Reforma Trabalhista aprovada no Senado Federal?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Uma reforma feita por um governo ilegítimo. Não foi eleito, não apresentou à sociedade uma proposta que pudesse ser discutida e aceita pela maioria. São medidas tomadas para facilitar a vida daqueles que controlam a riqueza nesse país e vão de encontro às aspirações dos trabalhadores. Tornarão mais precárias as condições de trabalho e deixarão os trabalhadores nas mãos dos donos das empresas. Se não for refeita em curto prazo gerará muitas revoltas e tornará o clima socialmente instável.
DM - O que esperar da Reforma da Previdência Social?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Vai na mesma direção. Procura aplicar doses cavalares ao paciente. O que se propõe, na prática, é acabar com aposentadoria por tempo de serviço. Um indivíduo irá trabalhar a vida toda e não irá se aposentar. O déficit da previdência decorre de uma escandalosa sonegação por parte das empresas, que não repassam ao Estado os valores devidos. Todo o rompo poderia ser coberto se fossem cobradas essas dívidas.
DM - Geopolítica: qual a sua análise dos passos de Donald Trump?
Romualdo Pessoa Campos Filho – O que marca as ações de Trump é a imprevisibilidade. Não se pode dizer que ele tenha definido uma estratégia política confiável. Os EUA nunca viveram uma instabilidade política tão grande, e em tão pouco tempo após uma eleição. Certamente ele procurará tomar atitudes belicistas para conter a insatisfação interna. Essa tem sido uma medida tomada por todos os governos estadunidenses sempre que cai sua popularidade. O mundo poderá passar por momentos tensos, decorrentes da eleição de Trump, mas, fundamentalmente, como consequência  de uma crise estrutural que não tem saída.
DM - OS EUA atacarão a Coreia do Norte e a Síria?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Duvido muito que isso ocorra de forma aberta. Principalmente a Coréia do Norte, pelo potencial nuclear que ela possui. Mas certamente ações de desestabilizações internas, como tem sido prática dos EUA nas últimas décadas, deverão acontecer. O grande problema para o mundo é que a maneira como esses países têm entrado em crise só potencializam mais ainda problemas estruturais que se espalham por todo o mundo. Os efeitos colaterais dessas políticas externas inconsequentes tem sido perversos para todos os países, principalmente os que são mais fracos economicamente. A Síria, a Libia, o Iêmen, dentre tantos outros, até mesmo a Venezuela, são países destruídos por meio de ações políticas que os desestabilizaram internamente e os levaram a guerra ou à instabilidade social.
DM - A China ultrapassará os EUA na Economia?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Creio que isso já vem acontecendo. Essa teria sido a razão da escolha por Trump como presidente. Desde sua campanha vê-se uma tentativa de se aproximar da Rússia para tentar frear a influência que a China tem adquirido por todo o mundo. O grande equívoco é imaginar que o Putin irá embarcar nessa estratégia. Duvido muito. A tendência é a China continuar ampliando sua influência e os EUA procurarem formas de solapar esse processo, o que poderá levar a conflitos sérios não somente diplomáticos, mas com a possibilidade de enfrentamentos bélicos localizados no Pacífico.
DM- Há, hoje, uma onda conservadora em ascensão no mundo contemporâneo?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Sim, como consequência da crise estrutural. Como pela esquerda as alternativas não são sustentáveis, porque estão também dentro do mecanismo de funcionamento de um sistema em crise, os discursos radicais à direita ou a saída por meio de medidas neoliberais (não há outra para a burguesia mundial) terminam se apresentando como alternativas para uma população desiludida e desesperançosa. Não são propostas aprovadas por maiorias. O número dos que estão desistindo de comparecerem nos processos eleitorais só cresce. Na França a abstenção foi a maior da história, cerca de 57% das pessoas não compareceram para votar. Essa desilusão, por outro lado, pode levar a explosões de descontentamentos, principalmente entre a juventude, e as sociedades viverão momentos de terríveis enfrentamentos entre grupos sociais distintos. Esse é um sintoma de uma estrutura social em crise, mas que não há ainda uma luz no final do túnel. A luz que se vê é a de uma locomotiva que se aproxima e que pode atropelar quem estiver pela frente.
DM - Qual a sua análise da eleição para reitor na UFG?
Romualdo Pessoa Campos Filho – Já publiquei também em meu blog uma análise sobre esse processo. A Universidade mudou muito, em todos os sentidos, para o bem e para o mal. Cresceu, se fortaleceu, ampliou sua capacidade de produção científica com o aumento de cursos de pós-graduação, mas relegou o ensino de graduação à uma posição de inferioridade e se tornou uma instituição conservadora, fortemente focada no sucesso e na alimentação de egos e vaidades de grupos. Isso se demonstrou na campanha. Fiz um diagnóstico que se demonstrou, ao final, correto. A acomodação, o medo de mudar, a aceitação da normalidade de uma instituição que deveria ser crítica e inquieta, prevaleceu. Mas fizemos um bom debate, ético e respeitoso. Colocamos os problemas abertamente, sem preocupação se isso resultaria em voto, era preciso fazer isso, e vamos continuar fazendo. Não é possível que num momento tão crítico de nosso país, a universidade se feche numa redoma. Não tivemos receio de enfrentar essa discussão, mas quebrar paradigmas não é fácil. O que a Universidade precisa entender é que a lógica que impulsionou as mudanças no mundo nas últimas décadas, está em crise, e não encontra saída nos mecanismos que a impulsionaram. Nós, na universidade, entramos também nessa lógica, mas há dificuldade de sair disso e perceber que precisamos apontar saídas inclusive no âmbito das políticas públicas e na identificação de alternativas a esse sistema. O conhecimento que produzimos só tem importância se ele se concretizar por meio de saberes que transformem a sociedade. É o saber que faz com que o conhecimento tenha validade. O conhecimento, pelo conhecimento, não tem relevância, se esgota em si próprio até ser superado.
DM – Como você vê a condenação do Lula?
Romualdo Pessoa Campos Filho - A condenação de Lula neste momento de destruição dos direitos sociais e trabalhistas, e quando se discute os crimes de uma quadrilha que deu um golpe na democracia deste pais, tem o claro objetivo político de desviar a atenção e evitar a revolta da população. É preciso dizer em bom tom, que tudo isso é parte do mesmo processo que está jogando o país no buraco e ampliando o fosso que separa os ricos dos pobres. Nitidamente o que se fez nesse país foi brecar todas as mudanças democráticas e mudar o rumo do país para atender os interesses de banqueiros, grandes empresários e latifundiários do agronegócio. A indignação à condenação de Lula não pode ser passional, ela deve ser uma reação política apontando para a organização popular a fim de reverter por meios democráticos, ou pela força do poder das massas populares trabalhadoras, que sentirão duramente as consequências dessas reformas.
DM - Projeto de novo livro?

Romualdo Pessoa Campos Filho – Produzi ao longo dos últimos anos uma série de artigos que publiquei em meu Blog, Gramática do Mundo. Estou fazendo uma seleção daqueles que considero mais relevantes e os colocarei em três sessões: da geopolítica mundial, da conjuntura política brasileira e de discussão sobre a universidade. Espero neste semestre publicá-lo. E para o ano seguinte, talvez num pós-doutorado, pretendo dar continuidade sobre a luta pela terra no Sul do Pará, e completar a trilogia sobre os conflitos naquela região que tem se acentuado. Agora abordando do ano 2000 até os dias atuais.

sábado, 12 de março de 2011

INSIDE JOB – A PERVERSÃO DO CAPITALISMO

Sensacional! Eu não poderia encontrar uma palavra que expressasse melhor a minha satisfação pelo que vi. Estou me referindo ao documentário “Inside Job”, premiado com o Oscar 2011, denominado em português Trabalho Interno, sabe-se lá por que.

Segundo Luis Gonzaga Beluzzo(1) Inside Job é uma expressão idiomática e não caberia uma tradução literal. O documentário é dirigido por Charles Ferguson, que não chega a ser um cineasta famoso. Empresário e formado em matemática ele conseguiu realizar um trabalho brilhante que consegue expor com rara clareza todo o processo que culminou com a grave crise econômica de 2008, cujo ápice se deu com a quebradeira de três das principais instituições financeiras dos EUA: Lehman Brothers, Merrill Lynch e AIG, e com o efeito cascata gerado por especulação desenfreada com o uso de hipotecas e empréstimos subprimes.

Aconselho a todas as pessoas, que tem interesse em saber o real funcionamento do sistema capitalista, nessa etapa de financeirização, e inclusive, da mais completa e definitiva relação entre aqueles que controlam o dinheiro e o Estado, a assistirem Inside Job. E também para melhor entender essa relação com o poder político, que determina a maneira como se controlam os mecanismos que garantem a acumulação da riqueza nas mãos de uma ínfima minoria. Tudo isso é mostrado às claras no documentário. As entrevistas, algumas delas feitas com personagens que estiveram no centro do escândalo, chegam a ser hilárias, diante da maneira como Ferguson derruba todos os argumentos que são apresentados a partir de uma competente pesquisa com informações sobre o envolvimento de cada um abertamente ou feito de forma dissimulada.

Tudo começa e gira em torno da chamada “desregulamentação”. Naquele ano de 2008, quando estourou a crise econômica, na primeira aula que dei para uma turma de Geopolítica, após apresentar um outro documentário, igualmente imperdível, “Enron, os mais espertos da sala”, escrevi no quadro este palavrão – desregulamentação – e disse aos alunos que me assistiam que certamente dali em diante eles ouviriam muito essa palavra. Eu já tinha informações, por leituras alternativas na internet em blogs como Carta Maior, Vermelho e acompanhando a revista Carta Capital, que a crise já se avizinhava. Afinal, desde o final de 2007 (e agora se sabe, bem antes, como é mostrado em Inside Job) era perceptível aos analistas independentes, mais críticos do comportamento neoliberal, que se aproximava uma grave crise imobiliária nos EUA. Resolvi começar minhas aulas, então, tratando dessa temática, porque pelas leituras que eu fazia era possível perceber que teríamos pela frente uma crise de uma enorme gravidade, de tal forma que colocaria em xeque toda a política neliberal, de desgulamentação e de evitar que o Estado estabelecesse formas de controle sobre os ganhos de capital e sobre a movimentação financeira mundo afora.

Desregulamentação, enfim, veio a ser todo o processo político e econômico que possibilitou uma enorme virada na economia mundial e deu início ao que passou a se chamar “Globalização”. Partia-se do princípio que era necessário a economia ver-se livre de todas as amarras que eram impostas pelo Estado e garantir ampla liberdade para o comércio mundial. Mas, o que não se percebeu no primeiro momento, era que essa liberdade reivindicada tinha como alvo principal a movimentação do capital financeiro pelo mundo. Claro, também para as mercadorias. Mas a mercadoria mais importante a ser “libertada” era o dinheiro, garantindo-se a especuladores todas as possibiidades de “inventar” fórmulas que garantissem às grandes corporações aumentar de forma espetacular os seus lucros.

Transformou-se, assim, o mundo em um verdadeiro cassino e fez de analistas e acadêmicos das famosas escolas de administração, economia e finanças dos EUA, espertos oportunistas que foram os responsáveis para teorizarem, tornarem-se consultores e até mesmo assumirem cargos elevados da alta administração das finanças estadunidenses. Já nos anos 1980, do século XX, François Chesnais(2) e Perry Anderson(3), críticos da forma como se dava a globalização financeira, acusava ter sido criado nas escolas de administração dos Estados Unidos, tanto o termo “globalização”, assim como a idealização de toda a política neoliberal.

Na esteira da crise do socialismo o caminho abria-se para um discurso que procurava determinar o fracasso de uma política de cunho social a partir da ação do Estado e tentava convencer a todos, e conseguiu transmitir isso à maioria das pessoas, inclusive os mais pobres, que o capitalismo era a única alternativa capaz de solucionar os problemas do mundo. Desde que se garantisse liberdade àqueles que visavam investir seus capitais em rentáveis negócios de forma a espalhar desenvolvimento por toda a parte.

O que não se via, mas que viria a ser a essência das novas políticas econômicas adotadas pelos quatro cantos do mundo, a partir de mecanismos implementados via FMI, Banco Mundial e outras “governanças” globais que se tornaram mais fortes do que os Estados Nacionais. À exceção, claro, daqueles que davam as cartas e fortaleciam seus sistemas financeiros, e ao mesmo tempo criavam leis que davam todas as liberdades para que grandes corporações transgredissem até mesmo os limites da usura e da ganância. Se é que há limite para tais perversões.

Enquanto a grande mídia mundial, deslumbrada pelo papel que a propaganda e/ou marketing passava a ter, manipulava e escondia a verdadeira face do que estava se espalhando pelo mundo, vendendo a idéia de modernização e progresso, poucos, muitos poucos, ganhavam milhões em todo esse processo. Esse é um detalhe a ser observado quando se assiste Inside Job, as cifras citadas são de valores grandiosos, a mostrar que a desgulamentação abriu as portas do “inferno” para todos os tipos de gananciosos e criminosos financeiros (ironicamente Fergusson começa o documentário dizendo que o mesmo teria custado mais de 20 trilhões de dólares, soma gasta para cobrir as quebradeiras do sistema financeiro estadunidense e mundial).

Tudo isso à custa do crescimento da pobreza no mundo, principalmente em países de onde se retirou todos os tipos de investimentos produtivos, principalmente a partir da pressão para que o Estado se afastasse de determinados setores da economia. O resultado disso se assiste hoje também com a crise da produção de alimentos e o encarecimento dos mesmos, afetando principalmente a população mais pobre.

Hoje, com a extensão da crise para todos os continentes, com menor impacto em alguns poucos países que se apoiaram em um mercado interno em expansão, percebe-se com maior clareza todo o estrago feito pelas políticas neoliberais. Mas, isso não significa que os agentes responsáveis pela quebradeira, pela ação gananciosa que ampliou a pobreza inclusive em países como os Estados Unidos, tenham sido punidos por isso. Ao contrário, o próprio documentário mostra que muitos deles ocupam hoje cargos importantes na estrutura administrativa daquele país, indicado por Barack Obama, ilusoriamente visto como a saída para o caos econômico que os atingiu. O documentário explica isso.

Sugiro que antes de verem Inside Job, assistam outros dois documentários, que eu inclusive já citei aqui mesmo neste blog, quando apresentei a proposta do mini-curso que realizei, “Decifrando o sistema capitalista”. O primeiro deles, que falei anteriormente, é “ENRON, os mais espertos da sala”, o outro, CORPORATION, e se tiverem tempo, vejam também, de Michael Moore, Capitalismo, uma história de amor. A partir daí será difícil entender porque tantos defendem que o capitalismo é o melhor sistema para a humanidade.

Seria cômico, se não fosse trágico.

O que deduzimos de Inside Job é que a maioria dos seres humanos não vivem no sistema ali mostrado. Vivem sob ele. Quero dizer que a enorme maioria das pessoas vive no submundo do que se pode caracterizar como Capitalismo. Algo já dito, de outra maneira, pelo historiador francês Fernand Braudel, para quem o capitalismo deveria ser dividido em uma economia superior, onde se faz o capital, e uma economia inferior, onde praticamente as pessoas trabalham e produzem para sobreviverem. Aí se encontra a enorme maioria da população. O impressionante é a quantidade daqueles que, vivendo nesse submundo, são submetidos à uma verdadeira lavagem cerebral e acreditam poder atingir a riqueza daqueles que controlam os meios pelos quais ela é conquistada. Talvez isso explique, pela ganância que caracteriza sempre essa obsessão, porque há tanta corrupção no mundo.

Mas é evidente que creio ser possível superar os abusos do capitalismo. Pode-se mesclar algumas coisas que são positivas, com a necessidade de se distribuir a riqueza de forma mais democrática. E o Estado é essencial para isso, portanto é necessário que o mesmo possa regular os abusos cometidos por verdadeiros psicopatas financeiros (como os apresentam o documentário Corporation). Não sou pessimista. E jogo no time dos que acreditam que um outro mundo é possível!


NOTAS:

(1) Inside Job, documentário imperdível. Artigo de Luis Gonzaga Beluzzo, publicado originalmente no jornal Valor Econômico. (http://fmauriciograbois.org.br/portal/noticia.php?id_sessao=12&id_noticia=4957)

(2) CHESNAIS, François. “A emergência de um regime de acumulação financeira” in Praga, estudos marxistas, número 03. São Paulo: editora hucitec, 1997.

(3) ANDERSON, Perry. “Balanço do neoliberalismo”, in SADER, Emir e GENTILI, Pablo (org.), Pós-neoliberalismo – as políticas sociais e o Estado democrático. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1995