quarta-feira, 10 de junho de 2020

MINHA VIDA É ANDAR, POR ESSE PAÍS, PRA VER SE UM DIA DESCANSO FELIZ...

...Guardando as recordações,
das terras onde passei,
andando pelos sertões
e dos amigos que lá deixei.

(Luiz Gonzaga)

Mapa do Google, com indicações dos
lugares por onde passei.
Se tem uma coisa que me angustia é ficar muito tempo sem botar o carro na estrada e seguir para um destino provisório onde eu possa aliviar minhas tensões, ansiedades e os sintomas de coração partido que me angustia sempre, e, principalmente, conhecer novos lugares presencialmente, não somente por imagens.
Farei aqui um relato, em parte para aliviar essas saudades, mas também para incentivar os que lerem a procurar conhecer nosso país, e esse mundo. Apesar dos pesares, existem muitos lugares bonitos para se reconhecer, além de realidades tristes que nós não podemos ignorar, ou fazer isso somente através de livros.
Juntar o conhecimento das leituras com a experiência de poder sentir isso na prática é o que nos dá a possibilidade de ampliarmos nossos olhares sobre os lugares e o ecúmeno. O que faço aqui é também um pouco de relato geográfico, de observação das paisagens, mesclado com pedaços de histórias de minha vida e dos lugares por onde passei. Viajar, é essencial para nossa formação, e, principalmente, para romper preconceitos.[1] Os grandes geógrafos, historiadores, antropólogos e biólogos, que produziram obras clássicas, tinham em suas viagens as fontes essenciais do conhecimento que procuraram analisar e transmitir. Como exemplo eu citaria Humboldt, Elisée Reclus, Darci Ribeiro, Euclides da Cunha, Caio Prado Júnior, Auguste de Saint-Hilaire e, ninguém menos que Charles Darwin. Mas deve ser assim com todos pesquisadores e pesquisadoras, jamais se pode chegar ao resultado conclusivo de alguma pesquisa, se não houver na experimentação um forte componente das afirmações das hipóteses que se levanta teoricamente. Por isso se tornou um mantra dizer: na prática a teoria é diferente.
Sisal, posto para secar. Não foi tirada no local,
mas não é montagem. Esse é um painel que
se encontra em um museu no Pelourinho
Não tenho nenhuma pretensão de fazer estudos sistematizados, mas somente relatos. E as referências desses personagens é apenas para justificar o quanto viajar é essencial para o nosso conhecimento.

O NORTE É O NORDESTE!

Tenho saudades de retornar ao meu Nordeste querido, de praias belíssimas e de um povo simples e admirável. O calor e a simpatia do povo nordestino é algo que impressiona e nos atrai.
Salvador - Baía de Todos os Santos
Vista do alto, ao lado do Elevador Lacerda
Saudades de “Salvador, meu amor, Bahia...” Falar o quê? De minha cidade, Alagoinhas? das praias e monumentos? dos lugares tradicionais que contam a história da primeira capital do Brasil? do Pelourinho e de suas igrejas que deslumbram até mesmo esse ateu? Que já seguiu a pé por mais de cinco quilômetros, desde o Mercado Modelo até a Igreja de Nosso Senhor do Bomfim... Só a Bahia mesmo pra fazer isso.
De Salvador, de tantos lugares atrativos, o desejo é de seguir adiante pela estrada do coco, pela linha verde, passar na Praia do Forte e ir até Sergipe. E não é que uma vez, indo de carro por esse percurso, um caminhão carregado de carcaça de cocos estava em minha frente, e numa oscilação brusca na pista, eis que um dos cocos se solta, bate no asfalto, dá um salto e acerta o capô de meu carro. 😟 Só me restou falar como numa propaganda: "foi um coco". Nada sério, mas soube na prática porque a estrada tinha aquele nome.
Divisas BA - SE
Fomos em frente em direção à Sergipe, não sem antes deixar de passar pelas praias e pequenas cidades no percurso: Guarajuba, Imbassay, Conde, São Francisco do Conde... Só não cheguei até Mangue Seco, divisa da Bahia com Sergipe. Ainda vou lá.
Mas nem sempre sigo por essa rota. Se tem uma coisa que gosto de fazer quando viajo para a Bahia é cortar o agreste indo em direção ao sertão profundo por entre a caatinga, e me reencontrar com ambientes que vivi em minha infância e adolescência antes de mudar para Goiás. Seguindo por Serrinha, Tucano, Caldas do Jorro, onde brota uma fonte de água quente em plena praça central da cidade, e me dirigindo por Euclides da Cunha até Jeremoabo. Ali, naquela pequena cidade vivi um pequeno pedaço de minha vida. Dali a oitenta quilômetros está Paulo Afonso, onde existe uma das principais hidrelétricas do Estado e o Rio São Francisco, chegando próximo ao seu estuário. Noutra direção, seguindo o que antes era um rio perene, mas hoje intermitente, o Vaza Barris, vamos dar de frente com a nova Canudos, já que a velha foi inundada pelas águas da represa do açude de Cocorobó.
Recife - Vista do alto de Olinda
Mas voltando à rota da Linha Verde, indo para Aracaju e voltar a rever a praia de Atalaia, cruzar esse pequeno e aprazível Estado cortado por rios e ir em direção a Maceió, Alagoas, de belas paisagens, de Ponta Verde e Maragogi, seguindo em direção à Porto de Galinhas em Pernambuco. Que maravilha! Deslumbrante. Dali a Recife, bem perto, a “Veneza brasileira”, espetacular, apesar de seus rios mal tratados. Passear pela orla que nos faz sentir bem: Boa Viagem. Tem muita história, juntinho com Olinda de casarões centenários e ladeiras que não nos cansam.
Zona urbana - João Pessoa (PB)
Mais um destino próximo e delicioso, João Pessoa, capital paraibana, não somente por carregar meu sobrenome (qualquer dia reivindico parte de minha herança), mas uma das cidades litorâneas nordestinas mais tranquilas e de uma orla admirável. E a praia do Coqueirinho? Que beleza! E quem desejar ainda pode se despir (literalmente) de preconceitos e aproveitar de Tambaba, praia de nudistas. Só cheguei até a entrada de acesso. Mas não por preconceito, estava a caminho de Coqueirinho. 
Praia de Redonda - CE
De João Pessoa o destino parcial é o Rio Grande do Norte, passei ao largo de Natal (que já estive, conheço e pude conhecer o “morro do careca”, uma duna na praia de Ponta Negra, numa orla movimentadíssima, mas também de belas paisagens), o objetivo era chegar até a tranquila praia de Redonda, um paraíso de pescadores de lagostas logo depois da fronteira, do lado cearense, no município de Icapuí. 

Parque Eólico - Aracati - BR-304
Poucos quilômetros depois, que delícia! Canoa Quebrada, mais uma das maravilhas do estado do Ceará, no município de Aracati. Região de ventos fortes que abriga um dos maiores complexos de energia eólica do Nordeste. Dali não fui adiante, mas meu desejo é de retornar a Fortaleza e seguir até Jericoacoara. Em breve, tão logo a Covid19 permita.

AGORA SIM, A DIREÇÃO É O NORTE.

Minha nostalgia me leva ao Norte. Pela BR-153, numa rota que há 30 anos faço anualmente, desde que me casei com uma tocantinense, de Wanderlândia, cidadezinha a 45 quilômetros de Araguaína, onde acaba a BR-153 que segue em direção à Xambioá. Cruzando o majestoso Rio Araguaia estamos do lado do Pará, numa região que esquadrinhei bastante e dali tirei histórias para minha dissertação de Mestrado e tese de Doutorado, em volta da Serra das Andorinhas, onde ocorreu a Guerrilha do Araguaia. Cortando o que antes era mata fechada e seguindo até a Transamazônica, em um curto trecho asfaltado, pouco mais de 100 quilômetros dos cinco mil prometidos pelos militares na década de 1970, e chegando a Marabá. cidade portentosa, que cresceu desorganizadamente na esteira da mineração e do poder da empresa Vale, mas também de uma periferia que foi ocupada por tanta gente expulsa de suas terras. Ou da terra que almejavam ser suas, e foram expulsos delas pelos grileiros. Também de muitos ex-garimpeiros de Serra Pelada, que para ali se dirigiram, ao final da exploração manual do garimpo de ouro da montanha que foi invertida.
Araguaína - Via Lago
Vista no entardecer
Mas vamos retornar a BR-153 e falar de Araguaína, onde convivi por um curto tempo, o suficiente para fazer amigos e amigas... e me casar. Volto sempre lá, pelos laços familiares que minha esposa tem por ali. De lá já seguimos até São Luís do Maranhão e sua ilha misteriosa, numa ponta do Nordeste na proximidade com o Norte. O Maranhão é puro deslumbramento com seus oásis de areias e paisagens magníficas e a beleza de um centro na capital, São Luís, que pulsa história em suas magníficas construções ornadas com azulejos portugueses. Rumando para o lado do Piauí fomos até um paraíso nordestino: o Delta do Parnaíba. Espetáculo. Não dá para ir e ficar pouco tempo. Espero retornar logo.
De Araguaína também já seguimos até Belém do Pará, num estradão dominado pelos caminhões. Mas dá gosto chegar à Belém, parece que saímos de um país e entramos em outro. O Norte não é tão diferente do Nordeste, mas muito diferente do Sul. Quanto ao Centro-Oeste e Sudeste, foram formados com gente do Norte e do Nordeste, apesar de alimentarem um preconceito estúpido. Felizmente reproduzido apenas por uma minoria de tolos que esquecem suas origens.
Estação das Docas - Belém
Baía do Guajará 
Belém chama a atenção pelas construções da época de “ouro”, quando a borracha atraía a riqueza para o Norte. Mas fantástico é ir ao Mercado Ver-o-peso, e se deliciar com sua confusão, por onde se vende de (quase) tudo, e por onde chegam e saem mercadorias. Ali tem muita história, do açaí... da castanha... da borracha... e peixe, muito peixe. No antigo porto uma transformação sensacional, um centro gastronômico que nos dá uma bela visão da Baía do Guajará: Estação das Docas. Não sei dizer o quê, mas Belém tem um ar diferente, atrativo, deslumbra a gente em meio a toda uma realidade cheia de contradições, do ponto de vista social. Mas não posso mudar o roteiro sem antes falar do Museu Emílio Goeldi. Fantástico. Ali parece ser tudo, museu, zoológico, herbário natural, centro de pesquisa, escola... Mas é tudo isso, e bem mais. Não dá para ir a Belém sem visitar esse espaço.
Como não dá também para deixar de conhecer a Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré. Até um ateu como eu fica deslumbrado pela beleza, e por todo sentimento místico que só quem conhece ou já ouviu falar do Círio de Nazaré vai entender (registro que minha formação familiar é católica). Na verdade, é algo parecido com a sensação que sentimos quando visitamos esses templos em Salvador (centenas deles), ou na Basílica de Nossa Senhora Aparecida, e até mesmo aqui pertinho de nós, ao lado de Goiânia, na Basílica do Divino Pai Eterno. Reflexo da formação católica de nosso povo, e da importância que tiveram os jesuítas na construção do território e da cultura do povo brasileiro.
Araguanã (TO) - Rio Araguaia
Mas retornando de Belém, como também quando voltamos de São Luís, algo mais que me deslumbra sempre é a paisagem, conforme relatei no meu trabalho de doutorado que virou o livro “Araguaia: depois da guerrilha, outra guerra”. Na confluência desses três Estados (Tocantins, Pará e Maranhão), o Bico do Papagaio, de muitas histórias de conflitos na luta pela terra, se encontram três biomas: o Cerrado, a Caatinga e a Amazônia. Claro que vemos uma mistura arbórea quando passamos por essas fronteiras estaduais, e nos permite enxergar o quanto a dimensão territorial de nosso país se estrutura sobre uma diversidade geográfica impressionante. Nos delicia observarmos essas paisagens e as diferenças que vão se alterando à medida em que cruzamos quilômetros de rodovias.
Atravessando o Araguaia
Entre Xambioá(TO) e São Geraldo(PA)
Do Tocantins sempre trazemos as imagens e boas lembranças de dois dos maiores rios brasileiros, que definem seus limites territoriais, e nos dão o prazer de sentir que há praia por ali, e de água doce: o Araguaia e o Tocantins. Por isso escolhemos sempre o mês de julho para viajarmos para lá. Aconselho, façam isso quando acabar a Pandemia. Mas ainda não fui ao Jalapão, um desejo que espero poder realizar.

VAMOS NO RUMO SUL

É bom, no entanto, alternar a direção que queremos seguir. Sudeste e Sul, guardam também paisagens belíssimas. O que diferencia é que o Norte e Nordeste nos garantem mais aconchego, e uma maior proximidade com pessoas que sequer conhecemos. Para entendermos isso temos que compreender a história dessas formações, como se deu o processo de ocupação territorial e as origens daqueles que por ali colonizaram. São características diferentes, o que para nós não significa tentar identificar como pior ou melhor. Mas, é isso, diferentes. Cada um à sua maneira nos deixando sempre deslumbrados com essa diversidade brasileira, e é viajando e conhecendo que vamos compreendendo o quanto deveríamos nos sentir completos na somatória dessas diferenças, enquanto nação, como bem dizia Darcy Ribeiro, em sua belíssima obra, “O Povo Brasileiro”.
Vale dos Vinhedos - RS
Mas cortar o centro em direção ao sul é bem diferente. Mudam substancialmente as paisagens, embora ainda atravessemos parte da Mata Atlântica, o bioma brasileiro mais devastado. Ocorre que no Nordeste, berço da ocupação brasileira e historicamente dominado pelas grandes fazendas e engenhos de produção de cana-de-açucar, esse bioma foi mais rapidamente devastado. Restou uma pequena parcela na direção sudeste do Brasil, e que teimam criminosamente em destruir.
Não somente nesse detalhe da Mata Atlântica. O processo de ocupação do território brasileiro foi mais generoso com essa parte do Brasil. Naturalmente por questões geopolíticas, que se explicam pelo controle do Poder, centralizado quase sempre nas mãos de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Até que apareceu Getúlio Vargas, vindo lá do Sul e rompeu com a política do Café com Leite. Mas não alterou a desigualdade do desenvolvimento brasileiro, bem ao contrário. Embora tenha tentado com a “Marcha para o Oeste”.
Ria Iguaçu - Foz do Iguaçu (PR)
Seguindo pela estrada e fugindo um pouco da história, vamos registrar a paisagem, e focar na geografia. Naturalmente, dessa forma, vamos juntando os pedaços da história pelo olhar geográfico, na junção de tempo-espaço. Primeiramente se destacam as vias de acesso, por onde podemos seguir de Goiás até o Rio Grande do Sul por um caminho totalmente pavimentado em rodovias duplicadas. E com um escandaloso custo de pedágios, numa bitributação vergonhosa, sendo bem mais caro no estado de São Paulo. Para quem viaja a segurança é maior, isso é inegável, do que, por exemplo, cortar dois mil quilômetros de uma BR-153 sem duplicação, disputando espaço com enormes caminhões bitrens e treminhões. É uma disputa absurdamente desigual.
Mercado Central - Florianópolis
Ana Carolina - 2005
O Sul e o Sudeste também têm muita história, e muitas paisagens bonitas. Não nego, contudo, que Santa Catarina é o estado que mais me atrai. Pequeno, repleto de manezinhos que carregam este nome como decorrência da colonização portuguesa, açoriana, de litoral deslumbrante e de Floripa que nos prende pelo afeto, pela saudades, pela lembrança de termos ido ali por diversas vezes e termos isso registrado em fotos com nossa pequena, querida e inesquecível Carol. Minha filhinha falecida aos dez anos de idade. São dois lugares que nos remetem à sua presença, e nos carregam de saudades e tristezas em meio a alegrias de estar por ali: Salvador e Florianópolis. Ali, em Canasvieiras, Cachoeira do Bom Jesus e Jurerê aproveitamos momentos marcantes com ela.
Nova Petrópolis - RS
Depois sem sua presença seguimos em direção à Gramado, onde eu havia prometido levá-la, mas o destino não permitiu. Um caminho deslumbrante, com flores magníficas que margeiam as estradas, as hortênsias, e uma paisagem impressionante em direção à região serrana, de produção de vinhos, mas também de histórias como as de Nova Petrópolis, cujo nome remete à cidade também serrana no Rio de Janeiro, em uma homenagem a D. Pedro. Região colonizada por europeus, desde o Paraná até o Rio Grande do Sul, com cidades praticamente construídas por esses colonizadores, as marcas estão bem presentes nas indumentárias e nos estilos das construções.
Os vinhedos despontam por todos os lados. Bento Gonçalves, Carlos Barbosa, Nova Petrópolis... e o deslumbramento de Gramado e Canelas, de muitos chocolates e idolatria aos personagens natalinos, a rigor, bem ao estilo europeu.
Retornando ao Paraná, nosso corte transversal segue em direção a outra ponta de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, nos aproximando da fronteira com o Uruguai. Sim, ousamos atravessá-la, rumando até Montevidéu, Maldonado-Punta Del Este e depois até Colônia de Sacramento, uma aconchegante localidade colonial na margem uruguaia do imponente Rio da Prata. Uma enormidade de rio que atravessamos em quase uma hora até aportarmos em Buenos Aires, e sairmos quase perto de tudo que nos importava conhecer naquela bela cidade. Uruguai e Argentina me atraem, espero poder ir mais uma vez para conhecer outros lugares, repletos de belezas paisagísticas e história.
Garganta do Diabo
Quisemos voltar pelo outro lado, não mais por Colônia do Sacramento, mas por uma enorme e bem cuidada autopista, a RN-14, até Uruguaiana atravessando para o lado brasileiro, cortando uma pequena parte da região do Chaco argentino. Mas retornamos depois de Uruguaiana para a RN-14 e seguimos pela região de Missiones, de ocupação jesuíticas e muita história. Naquela região foi filmado parte do filme “A Missão”, um clássico que conta o massacre cometido pelos colonizadores portugueses e espanhóis, contra povoados indígenas guaranis, onde os jesuítas implementavam um modelo de vida coletivista, no processo de catequização daquele povo.
Garganta do Diabo - Foz do Iguaçu
Atravessamos o estado de Missiones, onde conhecemos rapidamente sua capital, Posadas, e seguimos até Puerto Iguazu, e antes de atravessarmos para o lado brasileiro, Foz do Iguaçu, não podíamos deixar de conhecer o lado argentino das Cataratas do Iguaçu e se deslumbrar com a Garganta do Diabo. Melhor não tentar entender o nome. São visões magníficas.
Chegamos à Tríplice Fronteira pelo lado argentino, atravessando para o Brasil e depois saindo rapidamente para conhecer o Paraguai, e o enorme mercado chamado Ciudad del Leste, depois de cruzar o Rio Paraná e também conhecer o encontro deste com o Rio Iguaçu e o Marco das Três Fronteiras. Em Foz do Iguaçu belezas naturais é o que não falta, mas também uma gigantesca obra de intervenção humana que divide a energia entre Brasil e Paraguai: o lago e a hidrelétrica de Itaipu. Impossível também não se deslumbrar com esse gigantismo e com museus que contam a história natural daquela região de enorme caudal hídrico, que tem oscilado muito como decorrência dos desmatamentos que transformaram o Estado do Paraná em um dos mais ricos na produção do agronegócio.
Irrigação a jato d'água - desperdício
Quando cortamos o caminho de volta e atravessamos o Paraná nos deparamos com áreas dominadas pelo agronegócio a perder de vista. Muita riqueza, inegavelmente, já que a produção para a exportação cresce ano a ano. Mas isso à custa da ocupação crescente do que resta da Mata Atlântica e de uma rica biodiversidade que vai se perdendo e afetando o equilíbrio natural. É o que se vê também atravessando São Paulo. Uma paisagem que impressiona pela capacidade produtiva de extensões em milhares de hectares de terra cultivada.
Pé de pequi Florido - Sta Rita do TO
E assim segue por todo percurso de volta para Goiás, passando por Minas Gerais, do rico Triângulo Mineiro de imensas pastagens e gados zebus a desfilar em pastos onde antes existiam uma rica biodiversidade do Bioma Cerrado. Se a Mata Atlântica demorou três séculos para ter 80% de sua área devastada, o Cerrado foi destruído em cinco décadas, restando menos da metade para ser ainda eliminado numa aceleração acentuada por aparatos tecnológicos impressionante.

VOLTANDO AO CERRADO, OU AO QUE RESTA DELE

Nessas rodagens por tantos lugares, como me habituei a fazer pelo menos duas vezes ao ano, pude testemunhar as transformações nas paisagens desde 1995, quando fiz minha primeira viagem em um Ford Escort Hobby, em direção à Bahia, mais especificamente para o sertão baiano, Jeremoabo e depois retornando à Salvador; até a última, neste ano de 2020, antes da Covid19 nos enclausurar, em que cortei o sudeste em direção ao Sul, para a região dos vinhedos da Serra Gaúcha.
Mata Atlántica - Gramado (RS)
As contradições são enormes, entre as mudanças nesses ambientes, com acelerações produtivas impressionantes, e por outro lado o desaparecimento da paisagem natural. O Cerrado mais acentuadamente nessas duas décadas, já que a Mata Atlântica já passara por uma intensa destruição há tempos e o que se vê é alteração na cultura, substituição no que se produz. Mas em algumas partes, principalmente do Paraná e Santa Catarina, houve um elevação acentuada na substituição de matas por áreas plantadas. Há uma diferença nesses estados em relação aos demais, a quantidade bem maior de cooperativas, que reflete uma concepção metodológica advinda da própria forma de ocupação, embora o grau de devastação seja o mesmo, e isso é inevitável no modelo de agronegócio existente no país. São pequenas ainda as iniciativas de agrofloresta, cujo objetivo é produzir em meio ao ambiente natural existente.
BR - 020
Mas quando digo de contradição, para além dessa comparação do que era bioma e o que se tornou em termos de espaços produtivos, é o crescimento das cidades. No percurso para o Sul o crescimento é das médias cidades, tornando-se portentosas na esteira do desenvolvimento de um interior agrário. A modernização não se deu somente no campo, em grandes fazendas onde as tecnologias se impõem, mas também no estilo das cidades, com uma intensa urbanização e transformação em suas paisagens de concreto e asfalto, interioranas, mas modernizadas.
Na direção ao Nordeste ainda um crescimento urbano mais caótico, das pequenas cidades com uma pobreza acentuada, e por alguns cantos, da chamada fronteira agrícola a transformação de cidades antigas, como Barreiras, no Oeste baiano disputando hegemonia com uma novata, a rapidamente evoluída cidade de Luis Eduardo Magalhães, antiga currutela chamada de Mimoso do Oeste. Essa foi uma localidade que vi se transformar assustadoramente. E uso essa adjetivação porque não vejo outra mais adequada.
BR - O20
Da fronteira goiana, dos limites de Posse, até Barreiras o que se vê de um lado e outro da Rodovia BR-020, é uma imensidão de terras plantadas por algodão, milho ou soja. A perder de vista. O que nos dá a impressão que a lei exigindo a manutenção de pelo menos 20% da paisagem natural não é respeitada. O horizonte é infinito nessa paisagem terrivelmente trágica, sem vida, com aviões pulverizadores de agrotóxicos a cruzar a rodovia por sobre as nossas cabeças e por quilômetros sentimos o cheiro macabro do que garante a produtividade das commodities, mas nos envenena pouco a pouco. Quando vemos o verde se elevando, logo notamos que se trata de plantações de eucalipto, ou de pinho, em matas artificiais sem pássaros.
BR-153 (to)
No entanto não deixa de ser impressionante o quanto isso atrai investimentos e populações que se deslocam a procura de emprego, e essas cidades vão crescendo, trazendo também as desigualdades das grandes cidades, porque em alguns casos os empregos são temporários e as periferias vão surgindo e ampliando o cinturão de miséria. Mas ver uma cidade crescer em meio ao que antes era um ambiente tido como improdutivo é impressionante. Posso dizer que acompanhei, senão ano a ano, mas pelo menos a cada três anos, a maneira como se deu a transformação na paisagem do cerrado na transição para a caatinga.
Vereda
Essa é uma região rica em recursos hídricos, mas após essa intensa transformação que afeta sobremaneira a biodiversidade do Cerrado, tem havido conflitos decorrentes da destruição de mananciais, principalmente das nascentes, por causa de desmatamentos e uso da água para irrigação. A ponto de gerar uma enorme reação da população, no que foi chamado de “levante dos ribeirinhos”, na cidade de Correntina, já em outra direção, oposta à de Barreiras, na defesa do Rio Corrente.
Depois de Correntina, e Santa Maria da Vitória, se encontra Bom Jesus da Lapa, de uma beleza ímpar à beira do Rio São Francisco, com grutas e cavernas que nos desafiam a explorá-las. Em uma delas construiu-se uma igreja, e por ali se cultua e reverencia a crença no Bom Jesus, uma das características do povo do interior brasileiro. Quero destacar um fato, anos atrás, imagino que cerca de 20 anos, quando ia de Goiás para Salvador, por aquele percurso, e logo após sair da BR-020, acredito que uns 50 quilômetros adiante, na direção de Bom Jesus da Lapa, fui forçado a parar o veículo no acostamento devido a uma enorme tempestade de areia. Algo assustador que eu nunca havia visto. Era o começo da exploração daquelas terras, e o desmatamento acentuado aliado a preparação do solo para cultivo gerava esses fenômenos. Naquela região o agronegócio despontou de tal forma que dali surgiu o município que depois passou a se tornar o primeiro no PIB agropecuário brasileiro: São Desidério.
Cerrado - TO
O crescimento e desenvolvimento dessas cidades impressiona. Barreiras tornou-se um rico polo de desenvolvimento regional, com uma população que ultrapassa 150 mil habitantes. O contraste fica ao redor dessas cidades, tomadas pelo agronegócio, fator de crescimento delas, onde antes era o Cerrado.
E, assim, depois desse longo relato, retorno à realidade de um enclausuramento que não permite saber quando poderei retornar às estradas. Mas já sei a direção. Será mais uma vez rumo ao Nordeste. Depois dessa agonia, nada melhor do que estar em um ambiente que nos dá alento, em meio a um povo festeiro e amigável. Mas, sobretudo, por estar ali as minhas raízes. Desta feita pretendo sair de Goiás para o Sul da Bahia, Porto Seguro, Troncoso e redondezas, e de lá passando por Salvador e pela Linha Verde, novamente, ir aportar em João Pessoa, o que para mim poderia ser até um destino definitivo. Quem sabe.
Mas, por enquanto vou ficando aqui pelo Goiás, esperando Pirenópolis reabrir isenta de Covid19, e depois, certamente, retornar a Vila Boa de Goiás. São lugares que nos deslumbram por suas formações históricas, mas também por suas cachoeiras e por dá uma sensação de liberdade a diferenciar nos estilos arquitetônicos da cansativa imagem, repetitiva, do cotidiano da metrópole onde habitamos. Passar, sempre, pelos mesmos lugares é estressante.
Não penso em parar de viajar, e digo sempre aos meus alunos e alunas da Geografia: Viagem! Não basta somente querer conhecer lugares que nos embelezam, mas é preciso também conhecer a biodiversidade e as formações sociais, as condições em que as pessoas vivem nesses lugares, para não nos alienarmos de realidades que precisam ser conhecidas, principalmente por quem se forma em Geografia e História, para que tenhamos a real dimensão de suas existências. Assim, unimos o útil ao agradável e nos despimos de preconceitos.
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[1] Quando falo viajar, me refiro a pegar a estrada, seguir por caminhos rodoviários, que nos dê a possibilidade de observar as paisagens. E não somente viajar de avião, descer em um aeroporto, pegar um taxi e se deslocar para um hotel e dali para os pontos escolhidos e que se destacam pelas belezas. É isso também. Mas por aeronaves deixamos de ter o contato com as pessoas, a não ser nos apertos horríveis desses aviões. Ver o cotidiano de cidades pequenas, vilarejos pobres, os entornos das grandes metrópoles, as vegetações, e o transitar de caminhões que transportam produtos, mercadorias, que iremos encontrar nos shoppings e mercados.


FOTOS QUE NÃO COUBERAM NO TEXTO, MAS MARCAM UMA PAIXÃO - VIAJAR!
ESSA É APENAS UMA PEQUENA PARTE DE UM ENORME MOSAICO DE HISTÓRIAS E GEOGRAFIAS

Foz do Iguaçu - PR
BR-020

Marco das três fronteiras - Foz do Iguaçu
Lago de Itaipu - Rio Paraná
Casa Valduga - Bento Gonçalves (RS)

Cataratas do Iguaçu
Itaipu

Garganta do diabo - Puerto Iguazu

Marco das três fronteiras - Foz do Iaugaçu
Marco das Três Fronteiras - Foz do Iguaçu
Montevidéu - Uruguai













Colonia del Sacramento - Uruguai

Casa Rosada - Buenos Aires

Carol - Canasvieiras - Florianópolis

Montevidéu - Rio da Prata
Congresso Nacional - Buenos Aires

Vitórias Régias - Museu Emílio Goeldi - Belém (PA)


Casa Rosada - Sede do governo argentino - Buenos Aires

BR-153 entre São Geraldo e a Transamazônica
(Foto Tereza Sobrera)

Serra das Andorinhas - PA
(Foto Tereza Sobrera)

Farol da Barra - Salvador

Maldonado (Puenta Del Leste) - Uruguai


Museu Emílio Goeldi - Belém

Portal em São Luís do Maranhão

Rio Itacaiúnas - Marabá (PA)

Barra da Lagoa - Florianópolis (SC)

Lagoa da Conceição - Florianópolis (SC)

Canoa Quebrada - CE

Mangue - catador de caranguejo - Delta do Parnaíba (PI/MA)
Divisa Rio Grande do Norte - Ceará
Nordeste

segunda-feira, 8 de junho de 2020

GRAMÁTICA DO MUNDO - DEZ ANOS DEPOIS

Primeira publicação do Blog Gramática do Mundo - 05 de junho de 2010. Seus objetivos se mantêm, a realidade mudou, sempre muda, mas, infelizmente, nossos dias estão contaminados por vírus que nos adoecem corporalmente, e outros vírus que contaminam cérebros, desorganizam a sociedade e destroem nossas relações, impregnando-as de ódio provocados por atitudes medíocres e perversas, desigualdades sociais, intolerância e medo. Saibamos combater tudo isso, mas com solidariedade e empatia, e, acima de tudo, compreendermos que nossa razão de viver não pode ser fundamentada pelo individualismo e negação das nossas diferenças. Combater o fascismo, o racismo, a intolerância, o ódio e a sociopatia, deve fazer parte do nosso cotidiano. Mas viver a vida, acima de tudo, tendo presente que o amanhã se constrói hoje, e o futuro dependerá das atitudes que tomarmos agora. Assim, ele poderá ser melhor ou pior, para cada um de nós particularmente, e para toda a sociedade.


CARPE DIEM - APROVEITE O DIA, CONFIA O MÍNIMO NO AMANHÃ

Há muito tempo venho tentando encontrar um canal de expressão para as minhas angústias, dúvidas, análises e questionamentos que tenho, da minha vida, da sociedade e do mundo no qual vivemos. Nesse primeiro post vou ser mais intimista, navegar por entre as incertezas que compõe o meu "eu" e identificar as fragilidades que transformam nossas vidas em cristais. Por mais vigorosos que julguemos ser, cada um de nós, estamos sempre tendo que lidar com momentos que negam veementemente todas as certezas que temos da vida. Somos frágeis diante do imponderável, incapazes frente ao acaso, impotentes diante da morte, mas poderíamos ter mais tolerância diante das adversidades e das diferenças que nos cercam se conseguíssemos entender melhor as complexidades e contradições que compõem a nossa vida.
Dois anos e meio atrás, vivi até então um dos piores momentos de minha vida. Perdi minha filha, Ana Carolina (minha bela, meiga e esperta Carol), aos dez anos de idade. E isso, como não poderia ser diferente, transtornou minha vida. Desde então - e continuo tendo ao meu lado meu filho e esposa, pessoas que eu amo intensamente, como amava Carol - passei a observar as coisas com um outro olhar. Mantendo minha concepção de mundo, firmada pelo aprendizado de anos de estudos e análises das idéias marxistas, e de uma militância efetiva para transformar essas idéias em realidade, acrescentei uma outra verve à maneira de entender o mundo. Ou até mesmo de como lutar para transformá-lo. Senti que mais importante do que idealizar o futuro é compreender o presente. Entendê-lo e vivê-lo intensamente, sabendo que nossa vida é tênue e que a brusca morte, presença constante na vida, pode impedir que qualquer sonho se realize.
Não proponho apagarmos nossos sonhos, pois isso é o que faz o ser humano acreditar em sua capacidade de criar além do real, e dá esperança de seguir em frente superando adversidades. Mas sonhar, partindo do real, entendendo o mundo em toda a sua dimensão, belezas, misérias, contradições, de uma natureza exuberante, e dentro dela, inerente a ela e dependente dela, o ser humano. Não um super-homem ou super-mulher, para os quais, ou as quais, o dinheiro, a riqueza e o luxo possam torná-los imortais, mas a entender que, no real e em nossos sonhos, somos mortais, passageiros de uma imensa nau, em alguns momentos comandadas por indivíduos insensíveis, arrogantes e inescrupulosos. Mas às vezes não. Podem surgir pessoas que não nos decepcionem, que sejam honestas e que tenham sensibilidade com a pobreza humana.
Que possamos sonhar abstraindo o egoísmo, a intolerância e a vilania na construção de um novo mundo, sem perder de vista a percepção que jamais isso se concretizará se no instante presente não buscarmos construir as bases sólidas que possibilitarão essas transformações. Senão, o sonho se esfumará e se dissipará quando abrirmos os olhos à realidade. Pois o futuro é somente uma imagem que fazemos, na perspectiva que o presente vivido seguirá em frente.
Mas isso depende de nossas escolhas, de compreendermos que o mundo, a sociedade, a nossa vida, não se constrói em círculos fechados, em redomas inexpugnáveis. Depende de entendermos que cada vez mais vivemos enredados em relações e situações que por mais distantes que pareçam de nós, compõem um estágio da humanidade, que nos afetam, nos atingem e transformam nosso estilo de vida. De nada adianta defendermos uma vida monástica, contemplativa. Devemos buscar a satisfação individual e daqueles que compõem nosso círculo mais íntimo, compreendendo que nossos momentos felizes dependem das circunstâncias e do ambiente que nos cercam.
Carpe diem... Sim, viver intensamente cada momento. Mas entendendo o mundo, lutando contra as injustiças, fazendo do nosso lugar e dos lugares do mundo ambientes seguros e toleráveis para viver. Viver o presente. Olhá-lo criteriosa e criticamente. Fazer do agora, do aqui, deste momento, os degraus seguros que iremos escalar. Tornar nossas vozes as vozes dos outros, dos injustiçados, dos desesperançados, daqueles que desprovidos de tudo já não acreditam no presente. E por assim viverem, jamais terão futuro.
Com esse BLOG o que pretendo é vi-ver, com o olhar descrito anteriormente, ler, compreender e d-escrever o mundo. Um olhar político geo-histórico, filosoficamente dialético, mas sensível diante de imensas contradições. Pretendo pelo menos diariamente postar um comentário sobre um tema relevante do momento, denunciando as falsidades que existem por trás dos discursos que invadem nosso cotidiano, banalizam nossas relações e artificializam nossos sentimentos. Principalmente, tentando desconstruir o que é elaborado pela mídia através de informações que encobrem os verdadeiros objetivos e os interesses do poder econômico, ao mesmo tempo que constroem mitos, celebridades, santidades e demônios aos seus interesses. Lutamos contra titãs, mas se é verdade que cada um de nós deve fazer sua parte, eis aqui, minhas idéias, minha luta, minha vida, minha palavra como arma dessa guerra.
Acima de tudo, dedico essa iniciativa à minha filha, eternamente ao meu lado, para sempre comigo, embora seu futuro tenha sido desconstruído em um presente contido no passado recente. Em meus sonhos, não do futuro, mas do passado, sua imagem me incentiva a lutar por um mundo presentemente melhor.
CARPE DIEM! FAÇA VALER O SEU FUTURO. LUTE POR UM PRESENTE REAL, JUSTO E MENOS DESIGUAL.

sábado, 6 de junho de 2020

FRENTE AMPLA PARA RESGATAR O BRASIL

Um dilema tem afetado setores da esquerda no Brasil, e se refere a forma de luta a ser travada contra o Governo Bolsonaro e suas ameaças de estabelecer em nosso país mais uma vez um regime autoritário e de viés fascista. Uma parte da esquerda tem resistido à aceitar a composição de uma frente ampla, que possa reunir todos os segmentos e personalidades da sociedade que se opõem a política desastrosa de um governo que até hoje, um ano e meio depois, somente fez desconstruir os frágeis pilares que tinham sido erguidos nas duas últimas décadas e que estavam levando o nosso país a resgatar dívidas sociais imensas.
Não é admissível atitudes sectárias daqueles que julgam ser possível somente à esquerda e a organizações progressistas levar adiante um movimento que possa garantir pressão suficiente sobre o Congresso Nacional. Neste momento somente a soma das indignações, sem nenhum tipo de cerceamento a colorações ideológicas, pode ser suficiente para retomarmos o país que nos está sendo tomado por indivíduos absolutamente incapazes de lidar com um estado da dimensão do Brasil e de solucionar os problemas graves do nosso povo.
Isso não significa esquecer a história. Sabemos que muitos que hoje se opõem ao governo Bolsonaro estiveram presentes nos atos e manifestações que pressionaram para a destituição de uma presidenta honesta e legitimamente eleita. E até mesmo alguns dos que o apoiaram no segundo turno nas eleições, para combater a esquerda. Muitos desses sequer reconheceram ter participado de uma farsa e não assumiram ter sido responsável por ajudar a pavimentar o caminho que levou a essa terrível situação de crise que vive o país, em função de uma eleição, que já se sabe hoje, foi dominada pelas fake news, pela disseminação de notícias falsas que influenciaram claramente no resultado eleitoral.
Ao mesmo tempo é inegável que aquele resultado eleitoral não era o aguardado com o golpe que foi aplicado e levou à destituição da presidenta Dilma Rousseff. O objetivo de todo o caos político criado após a eleição de 2014, tinha como meta levar ao poder aqueles que foram derrotados. Isso ficou claro com o discurso de Aécio Neves, do PSDB, quando se recusou a reconhecer o resultado e prometeu que faria tudo para que a presidenta eleita não governasse. Houve método na loucura política que nos direcionou para o abismo. Mas o trem descarrilhou no meio do caminho. Houve um golpe dentro do golpe que transferiu o Poder para as mãos do PMDB. O mundo político orbitou e se descontrolou por completo com a sucessão de fatos, impulsionados pela atuação política da operação lava-jato, nitidamente com o intuito de desqualificar e desconstruir reputações de lideranças políticas. Acontece que a própria esquerda contribuiu para isso, a não só seguir dividida, como houve ataques mútuos de partidos que disputavam com seus candidatos uma vaga no segundo turno. Essas divergências que se explicitaram ostensivamente aprofundou a divisão no segundo turno, contribuindo também para facilitar a vitória de Jair Bolsonaro.
Sabemos que aqueles que participaram do movimento golpista não se retrataram por contribuir com o caos político no qual o Brasil se viu metido, e não imaginamos que fossem fazer isso, porque seria como assumir o crime cometido. Porém, os partidos de esquerda também precisavam assumir o erro por terem se atacado em vez de se unirem, e por essa razão a divisão se mantém até hoje.
Sem querer estabelecer comparações, mas tentando encontrar exemplos na história de situações parecidas, a Alemanha viveu algo parecido. A disputa entre os comunistas, cuja força crescia naquele país na segunda década do século XX, e os sociais-democratas, que tentava impedi-los de conquistar o poder, terminou por abrir caminho para um aventureiro que já havia tentado aplicar um golpe, e se tornou opção da burguesia, levando aquele país em direção ao abismo nazista. O que temos no Brasil hoje é resultado de equívocos semelhantes, embora ainda haja tempo de corrigir. Só que isso não será possível se houver resistência a uma ampla aliança que garanta a força necessária para levar multidões às ruas e pressionar os parlamentares a tomar a decisão de iniciarem um processo de impeachment do presidente por crimes de responsabilidades, que são muitos.
Jango, Lacerda e JK se unem para
criar uma Frente Ampla em 1968
A Frente Ampla, que congregue num mesmo movimento os segmentos organizados que compreendam a necessidade de frear os instintos fascistas que são demonstrados nas declarações e atos do presidente, de seus ministros e apoiadores, é urgente, para impedir que essa loucura persista. Não podemos, de forma alguma, admitir que propagandas fascistas, discursos de ódios e apelos para a instalação de uma nova ditadura militar aqui no Brasil, ganhe corpo e se transforme em no pesadelo que nos jogue em mais um período de trevas como já vivemos por duas décadas, 21 anos transformados em uma longa noite de crimes cometidos contra adversários, lideranças políticas, jovens que se recusavam a aceitar as imposições ditatoriais, com perseguições, prisões, torturas e assassinatos.
O governo militar reage e ameaça cassação
A Frente Ampla era o grande medo
Não é conveniente neste momento insistir em discursos que tornem mais relevante os rancores políticos do que a necessidade de perceber a importância de se juntar as forças contra um perigo nesse momento bem maior. Se trata de defendermos nossas liberdades, e assegurarmos que a tênue democracia que existe em nossa país, não seja mais uma vez solapada por mais um golpe antidemocrático.
É preciso haver clareza que não se trata de formar uma frente eleitoral. Não é esse o objetivo agora. Seguramente nas eleições essas forças que se juntam agora não estarão do mesmo lado, pelo menos em um primeiro turno. O que está se formando agora é uma frente ampla para impedir que o discurso de defesa de uma ditadura militar se torne realidade. E sabemos que isso pode acontecer. Há toda uma arquitetura política sendo feita na direção de garantir uma forte base militar sob o controle do governo Bolsonaro, envolvendo as polícias militares, e agora a Polícia Federal. E temos que ter bem claro que quando ele fala em “armar a população”, ele está se referindo a seus seguidores e apoiadores. Portanto é real a possibilidade de surgir uma frente fascista-miliciana que lhe dê o suporte necessário para se impor de forma absolutista e ditatorial. Por isso esse momento é de união para impedir que essa tragédia política se realize e leve nosso país de volta às trevas. O momento é de responsabilidade. Precisamos levar nosso país de volta aos trilhos, e retomar o processo de desenvolvimento econômico, com responsabilidade social e respeito à nossa diversidade.

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A FRENTE AMPLA E MANIFESTAÇÕES EM TEMPO DE PANDEMIA
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quarta-feira, 27 de maio de 2020

DESGLOBALIZAÇÃO – A DESTRUIÇÃO DOS ORGANISMOS MULTILATERAIS E A NOVA GUERRA FRIA

Algumas questões têm me chamado muito a atenção durante essa crise que afeta o mundo todo. Não é deste ano que me dedico a analisar todos esses processos históricos, e os do tempo presente, que nos envolvem diretamente nesses tempos em que vivemos. A função de historiador é exatamente essa, remexer o passado, investigar fatos e circunstâncias que levaram a transformações que marcaram épocas, seja por meio de revoluções ou sucessivas crises estruturais ou conjunturais. Com a Geografia, e por meio da Geopolítica, ampliei esse meu olhar.
Mas a sucessão de eventos, principalmente nessas duas últimas décadas, tomam nosso fôlego, e nos consomem em indagações e perplexidades, quando começamos a estudar a celeridade das mudanças que se seguiram na contraposição da Globalização, mas paradoxalmente, acontecidos exatamente por causa dela, decorrente da intensa integração e aceleração do mundo contemporâneo, mas sobretudo da corrida ambiciosa nas disputas hegemônicas pelo controle do poder militar e do mercado mundial.
Inclui-se nessa lista de eventos do monumental ataque terrorista às torres gêmeas, o World Trade Center, nos EUA, e as guerras que lhe sucederam, até essa terrível pandemia gerado pelo vírus, até agora invencível, “Sars Cov-2”, passando pela grave crise econômica que explodiu em 2008 e todos os conflitos que se espalharam pelo mundo, potencializados, ou estimulados, pela guerra híbrida e pela nova modalidade de desnorteamento e propagação do ódio, na esteira das crises: as fake news.
Tão rápido e intenso quanto se deu a globalização, cuja característica marcante em seu DNA foi justamente a rapidez e a celeridade das transformações, técnicas, científicas e informacionais, nos deparamos com o transbordamento do que se pretendeu construir nesse mundo movido por uma ambiciosa etapa da revolução industrial do capitalismo. Eu prefiro não me referir a esse processo como sendo uma “terceira revolução industrial”.[1]
Uma sucessão de crises, que já impactava o capitalismo desde os anos 1970, levou a desestruturação do socialismo real quando este se abria para o mercado mundial, e possibilitou uma reviravolta impressionante nos rumos da humanidade, desde o final da década de 1980, acelerando nos anos 1990 e atingindo seu ápice na primeira década desde século. (HOBSBAWM, 1995, pp. 465-479) Até que em 2008 a “bolha” estourou, desnudando um sistema que passara a ser caracterizado pela frivolidade das relações humanas, que se tornaram coisificadas, desprovidas de sentimentos humanitários e solidários, salvo os momentos em que isso servia a interesses marqueteiros, e pela obsessão muito mais nítida e desavergonhada pela busca e ostentação da riqueza.
A ganância tornou-se parte da condição meritocrática, um valor intrínseco à lógica perversa e individualista da ascensão social a todo e qualquer custo. Naturalmente que esse caminho levaria a sociedades dominada por valores perversos e insensíveis diante das fragilidades humanas, que se ampliavam à medida em que as estruturas globalizantes (bancos, corporações, bolsas de valores, organismos mundiais, mecanismos de controles etc.) se fortaleciam e concentravam as riquezas no topo da pirâmide. (HARVEY, 2018, pp. 203-205)
Indubitavelmente o mundo passou por uma acelerada transformação. O capitalismo chegou a ser considerado como a última etapa da humanidade e o “mercado”, o deus todo poderoso da ganância, seria o balizador das competências individuais, ou nas relações entre os estados-nações. A aceleração tecnológica atingiu patamares surpreendentes, e o tempo em que se descobrem inovações se encurtava rapidamente. (HARVEY, 2016, PP. 11-12)
Entramos na era da robotização com a inteligência artificial, algo adiantado pela ficção cinematográfica desde os anos 1980, mas bem antes pela literatura, a partir de meados do século XX, com a obra de Isac Asimov, “Eu Robô”. Uma série de contos que estimulou realmente muitos estudiosos e cientistas, e inspirou um filme produzido em 2004.[2] O mundo projetado no filme é 2035, mas a realidade tem se intensificado mais rapidamente do que a ficção. O que deve se acelerar no pós-, pandemia.
Mas o caráter absolutamente expansivo do capitalismo, e a forma como o mundo entrou numa desesperada competição, seja entre as pessoas, e principalmente entre os países, notadamente os mais ricos, levou ao limite das relações políticas, e o que se dissemina atualmente é ódio, preconceito e xenofobia. E uma forte disputa entre as duas maiores potências mundiais: EUA e China.
O mundo tornou-se pequeno para os desejos de grandiosidade, de inventividade e de necessidade de se produzir em escala crescente para abastecer mercados cada vez mais fluídos, e poucas décadas após se encerrar o ciclo bipolar que prevaleceu no pós-guerra e termos entrado nessa fase denominada globalização (ou mundialização, como gostam de se referir os franceses), esse curto espaço de tempo histórico de três décadas, politicamente dirigido pelas ideias neoliberais e em meio ao deslumbramento da globalização, chegamos ao fim de uma época que passou da unipolaridade para a multipolaridade, e, parece, retornar à bipolaridade. Encontremos um réquiem para a globalização.

OS ORGANISMOS MULTILATERAIS E A GEOPOLÍTICA GLOBAL

Antes de entrarmos nesse ponto, cabe esclarecer que os organismos multilaterais, que tiveram um papel importantíssimo na globalização, não foram criados a partir desses processos de integração mundial pós-guerra fria. A seguir apresento um quadro com o ano de fundação e o objetivo de cada um deles, para que possamos acompanhar o raciocínio sobre para o que eles vieram, o papel que cumpriram durante todos esses anos e o que está acontecendo nesse momento em que a globalização se esfumaça.

Essas instituições foram criadas, sempre, em períodos de crises, na maioria das vezes em pós-guerras, e, principalmente depois da segunda grande guerra mundial. (HOBSBAWM, 1995, p. 419) O advento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) acentuou essa necessidade. Portanto, para além das dificuldades geradas por essas guerras, uma outra se tornaria mais importante, e se faria necessário a criação de organismos multilaterais que, a princípio, servisse para reforçar os interesses dos países ocidentais, no âmbito de uma luta que se tornaria crucial para os destinos da humanidade: a guerra fria.
Evidente que alguns desses órgãos cumpriram a importante função de estabelecer alguns limites ao belicismo, e em determinados momentos foi crucial no equilíbrio necessário entre esses dois mundos que se armavam perigosamente, inclusive com enormes arsenais nucleares. E, muito embora para manter esse equilíbrio algumas regras impostas tenham sido estranhas nas relações com a maioria dos estados-nações, como por exemplo deixar a critério de cinco grandes potências a capacidade de decidir os destinos do mundo. Eram, e são ainda hoje, as únicas com poder de veto no Conselho de Segurança. O que, pelas regras da Organização das Nações Unidas, implica na necessidade de haver consenso entre esses cinco países para que quaisquer sanções possam ser executadas.
Poucas vezes isso ocorreu nas últimas décadas, e em uma dessas vezes, por manobras embutidas nas entrelinhas de uma resolução, possibilitou que os EUA e aliados da OTAN perpetrasse atos arbitrários contra a Líbia, influenciando vergonhosamente no assassinato do presidente de uma Nação soberana, por interesses escusos, embora possíveis de serem entendidos. O resultado disso é que até hoje a Líbia se encontra em um intenso conflito e tornou-se mais um dos estados párias na constelação das nações impactadas por decisões que interessavam ao poder imperial dos Estados Unidos da América. (BANDEIRA, 2013, pp. 287-303)
Pouco a pouco desnudou-se o poder exercido pelos EUA e seus aliados, por trás desses organismos multilaterais. Jamais houve verdadeira independência, ou, quando muito, algumas decisões questionáveis não pela isenção, mas pela dúvida de não atender inteiramente os interesses estadunidenses, ou se porventura fosse complacente com algum dos países por este Estado considerados inimigos, como no caso emblemático da pequenina Cuba, por mais de cinco décadas sofrendo todos os tipos de bloqueios, muito embora sendo apoiada pela absoluta maioria dos países membros da ONU em suas assembleias gerais.
Mas os EUA sempre fizeram valer o poder de veto, nesses e em outros casos de países cujos governos lhes contrariassem. Por outro lado, quatro outros países também tinham esse poder: Rússia (URSS), China, França e Reino Unido. Ou seja, os principais países que se sagraram vitoriosos na aliança construída para derrotar o nazi-fascismo. Um equilíbrio forçado para evitar que desequilíbrios levassem a uma nova grande guerra, que vigorou por todo o período do pós-guerra, denominado de Guerra Fria, e que passou a cumprir um papel importante na construção do mundo globalizado.
Apesar de todos os porém, esses organismos multilaterais assumiram um papel preponderante no processo da globalização. Claro, quase sempre pressionados pelos EUA, e na maioria das vezes atendendo aos seus interesses e de seus aliados. O GATT (Acordo Geral de Tarifas e Comércio) foi o único que passou por transformação em sua nomeclatura, mudou de denominação e veio a se constituir no organismo mais importante para a Globalização, a Organização Mundial do Comércio (OMC). (SILVA, 2004, pp. 628-630) A desregulação do comércio mundial, a partir principalmente da abertura das fronteiras comerciais e dos processos de desnacionalização de inúmeras empresas estatais, necessitava de um organismo que pudesse gerenciar esse processo e estabelecer as regras que deveriam ser seguidas a partir de então.
Os países que não obedecessem as normas da OMC tornavam-se párias e encontrariam dificuldades para lidar com o comércio mundial. Impunha-se dessa forma os mecanismo de aceitação das regras neoliberais, assim como se fazia também através do Fundo Monetário Internacional (FMI), como condição para concessão de empréstimos aos países menos desenvolvidos, quase sempre endividados e com suas riquezas sendo expropriadas pela elite corrupta, tornada parte do poder político. A partir dos anos 1990 do século passado, a própria elite passou a disputar as eleições, e não mais deixar a cargo de seus apaniguados, testas-de-ferro, como se fez historicamente no Brasil e na maioria dos países latino-americanos.
Como essas transformações se intensificaram muita rapidamente a partir dos anos 1980, era preciso estabelecer parâmetros que identificassem as mudanças na direção dos interesses definidos pelos países centrais, dentro da lógica política que se impunha, o neoliberalismo. Ou, uma nova forma de liberalismo, sempre focado como em seus princípios, tendo o mercado como elemento mais importante, a despeito do poder dos Estados, mas retirando deste aspectos importantes na condução da economia, que passou a ser celeremente controlada por grandes corporações financeiras, industriais, comerciais e das recém criadas corporações que passaram a se expandir e controlar o poder crescente das novas tecnologias.
As conhecidas empresas “.com”, que obtiveram um crescimento acelerado no final dos anos 1990, a ponto de gerar uma das primeiras crises da globalização, em função da bolha que se criou com preços supervalorizado de ações de empresas que surgiam, quando se popularizava a “world wide web”. Ficou conhecida como a “bolha da internet”, e levou a uma intensa insegurança nos mercados financeiros e a um efeito cascata de desvalorização de empresas cujo valor era infinitamente maior do que efetivamente elas valiam. Algo que se tornou, de certa forma, muito comum nos tempos da globalização financeira.
A ganância foi um fator fundamental para gerar uma cegueira obsessiva nos que se extasiavam com a facilidade gerada por investimentos fáceis, e que levavam gradativamente alguns setores a forçar o endividamento das pessoas para levá-las ao consumo fácil, algo bem possível devido ao deslumbramento pelas novas tecnologias. (SANTOS, 1999, pp. 10-20) O capitalismo se intensificava, o dinheiro virtual se disseminava pelo mundo e crescia o número de bilionários. Embora fosse muito maior a quantidade de pobres e miseráveis que se espalhavam pela maioria dos países, e em muitos casos os conflitos regionais, as guerras, o sectarismo religioso e a escassez hídrica, as populações, sem escolhas, se deslocaram em massa, aos milhões, por suas fronteiras próximas ou em direção aos países mais ricos, na Europa e na América do Norte.
A crise de 2009 despertou dos sonhos, ou transformou em pesadelo, o que se imaginava ser um eterno paraíso de ganhos fáceis gerados pela globalização. Mais uma bolha explodiu, agora a hipotecária e no coração financeiro do mundo, os EUA.[3] Daquele momento em diante a globalização desandou. Evidente que não se pode atribuir a somente esse fato a acentuação de uma crise sistêmica que se estende desde o final dos anos 1970, cambaleando por vários momentos e se reerguendo de forma impressionante. Mas as fissuras permaneciam, e por elas as estruturas do sistema foram se fragilizando.
“Ma non tropo”. Alguns países souberam se aproveitar bem das transformações e atraíam para seus territórios uma infinidade de empresas, que na busca por lucrar mais, com mão de obra mais baratas e menos problemas gerados por leis trabalhistas que se tornavam alvos dessas corporações e eram abominadas pelo ideário neoliberal, eram deslocadas de seus países de origem, onde a organização dos trabalhadores era mais forte. Esses países não somente se preocuparam em atrair essas empresas, mas se debruçaram sobre as mercadorias que ali eram montadas, e em pouco tempo tinham copias perfeitas daqueles produtos. Com os ganhos conseguidos nesse processo investiram em educação e no desenvolvimento tecnológico. Das cópias feitas nas linhas de produção, à produção de tecnologias que passaram a superar muitos dos produtos ocidentais, não se passaram três décadas.
Foi muito rápido o passar do tempo para que alguns países antes encarregados de abrigar empresas montadoras de peças fabricadas fora, passassem eles mesmos a produzirem, e com novas tecnologias. Ao passo que os países asiáticos se despontavam por esse caminho, principalmente a China, o Japão já estava envolvido nesses avanços desde antes, mas também a Coréia do Sul, a Tailândia, o Vietnam... a Rússia se recuperava do desastre causado pelo governo desastroso de  Bóris Ieltsin, e retomava gradativamente o seu protagonismo.
Enquanto desde o começo do século XX os EUA se deparava com um inimigo invisível, a quem declarara guerra depois de um atentado que assassinou mais de três mil pessoas naquele país, em 2001, e deslocava todo o seu aparato bélico e suas atenções para o Oriente Médio e o Afeganistão, alguns países emergentes numa espécie de segunda onda da globalização, se uniam para criar um novo polo hegemônico, com a intenção de pelo menos romper com qualquer possível unipolaridade que se pensava construir com a globalização. Os BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, surgiu e fez despontar um novo bloco forte política e economicamente, e a partir daí estabeleceu-se uma nova polarização, que crescia ao mesmo tempo em que mecanismos que visavam destruir essa força eram postos em ação. A guerra híbrida, que funcionara no Oriente Médio, em especial na Líbia, Egito, Iêmen, e Síria,  passou ser aplicada nas fronteiras da Rússia (principalmente na Ucrânia), China, região do Tibete, (BANDEIRA, 2013, pp. 119-132) e no Brasil a partir de 2013. (HARVEY, 2018, pp. 190-192)
Os conflitos se espalham por todo o mundo, e as tensões retornam em larga escala  ameaçando fazer explodir novas guerras. Acordos são rompidos e os EUA, com a eleição de Donald Trum, e sua política “América First” passa a romper diversos acordos e a atacar abertamente aqueles países que ameaçavam a hegemonia estadunidense, e que ele via como ameaça para o próprio desenvolvimento nacional.
Os organismos multilaterais tornam-se alvos da política de Trump e os ataques sistematicamente acontece revezando-se qual deles será o próximo a ser atacado. Primeiro a OTAN, cujos parceiros são acusados de não investirem recursos necessários para armar a organização e a fragilizar diante dos avanços do poder russo;[4] depois a OMC, vista como uma ameaça aos interesses dos EUA, passando a ser pressionada para que as decisões favorece seus interesses. Essa pressão sobre a OMC terminou por fazer o brasileiro Roberto Azevedo, diretor geral da instituição, decidir abandonar o cargo a partir do segundo semestre deste ano de 2020.[5]
No começo deste ano a Pandemia do Covid19 concentrou o protagonismo das ações nas mãos da OMS, e foi o próximo desses organismos a sofrer intensos ataques do presidente estadunidense, a ponto de ameaçar retirar todo o apoio financeiro e a acusando de beneficiar a China. O quadro que se constituía a partir dessas pressões com a nova política isolacionista adotada pelo presidente dos Estados Unidos, foi agravado pela disseminação dessa doença. O vírus (Sars Cov-2) avançou implacavelmente sobre todos países gerando centenas de milhares de mortes, sem que houvesse uma vacina para contê-lo, e transformando os Estados Unidos no epicentro da doença, e atingindo o terrível número de 100 mil mortos, só podendo ter essa marca atingida pelo Brasil, cujos número de mortes sequem crescendo.
Os EUA, com sua política de ataque aos blocos econômicos, e de identificação de inimigos a quem lhes ameaçassem em sua hegemonia, definiu seus objetivos centrados nos interesses internos, e estava se recuperando às custas de um forte isolamento e distanciamento até mesmo de seus parceiros tradicionais. A China substituiu a antiga União Soviética, no imaginário persecutório de Trump, que passou a usar um discurso nacionalista e, como sempre é comum aos EUA, de defesa da segurança e dos interesses nacionais.
Em meio a uma forte recessão e à beira de uma inevitável depressão, como consequência do agravamento da crise em decorrência da Covid19, o discurso de Donald Trump sobe o tom, e se eleva mais à medida que se aproxima das eleições presidenciais marcadas para dezembro deste ano.[6]
Inevitavelmente o cenário pós-covid19 não será de um mundo globalizado. Os organismos multilaterais sofrerão uma pressão maior do que está acontecendo neste momento e deverão passar por transformações estruturais, se não estarão fadadas a desaparecerem. A tendência é termos um mundo marcado por fortes disputas econômicas e ameaças bélicas, com forte possibilidade de termos um grande conflito que se estenda por todo o mundo. Uma ameaça de guerra nuclear não pode ser destacada, dependendo do quadro a ser definido nas eleições estadunidenses e as consequências que após essa pandemia.
A desglobalização se concretizará, na eminência do enfraquecimento dessas estruturas, o que não irá significar o desaparecimento de blocos regionais. Esses também serão refeitos, e haverá um forte crescimento da influência chinesa em países asiáticos e europeus, seguindo o curso do projeto da nova rota da seda.(GEROMEL, 2019, pp. 116-123) As tensões se intensificarão no Oceano Pacífico e envolverão os países latino americanos. O Brasil, na postura de isolamento ao lado dos EUA, será mais um pária no contexto da política mundial, ao contrário do protagonismo construído no começo do século, auge da globalização.
A incógnita que permanecerá é se de fato teremos algo parecido com a guerra fria, onde dois gigantes bem armados se temiam e se respeitavam, em alguns momentos vivendo tensões que os fizeram se aproximar do confronto aberto, como no caso da crise dos mísseis soviéticos que seriam enviados a Cuba, mas sempre salvos pela diplomacia. A posição de Donald Trump, de romper acordos, atacar adversários e ameaçar aliados, elevará as tensões ao limite do suportável. Mas esse limite pode ser muito frágil, ou estar não muito distante, a depender das condições econômicas que afetarem os países, e principalmente os EUA. E, diferente dos anos pós 2ª guerra, quando a economia estadunidense ajudou a reerguer a Europa, agora a situação poderá ser inversa, acuando um forte poder imperial que será mais perigoso ainda caso o povo daquele país insista no erro de mais uma vez elegê-lo.
Os caminhos da humanidade, no âmbito da política internacional, dependerão da gravidade da crise econômica pós-pandemia e do resultado das eleições dos EUA. Mas, certamente, qualquer que seja o resultado já não será mais um mundo globalizado. Claro, estamos nos referindo à globalização como um modelo, um método, e os mecanismos que lhes faziam funcionar empurrando sociedades para o abismo, o neoliberalismo e a perversa política de reduzir o estado ao mínimo, aos interesses das grandes e dos ricos. Porque a integração entre países prosseguirá, como uma necessidade, malgrado as tentativas isolacionistas e xenófobas que serão implementadas por governos de extrema-direita.
A desglobalização, nos parece, já está em curso, e se efetivará. Para o bem, ou para o mal. Pode renascer com a China com nova protagonista em seu comando, mas isso só o tempo dirá. E aos trabalhadores de todo o mundo resta ouvir o clamor da Associação Internacional dos Trabalhadores, de meados do Séculos XIX: “Uni-vos”!



NOTAS:
[1] Não vejo como sendo uma “terceira revolução industrial”. Visto que desde quando acontece o processo inicial do desenvolvimento capitalista, e a manufatura foi substituída pela maquinofatura, e tivemos início às linhas de montagens das fábricas, o que vemos é um processo crescente de transformações técnico-científicas na direção de ampliar e fortalecer a lógica sistêmica contida no modelo de produção capitalista. Não havendo, portanto, nesses três últimos séculos uma substituição dessa formação econômico-social, mas sempre uma sequência de novas invenções e adaptações tecnológicas com o mesmo objetivo moldado pelo sistema capitalista. Não há revoluções no capitalismo, as que houveram aconteceram para propiciar sua substituição, mas fracassaram no seu intento final. Pelo menos até os dias atuais, à exceção da China, o que é absolutamente relevante, e está, digamos, numa situação de transitoriedade, a poucos passos da hegemonia do controle do mercado mundial. Em um novo patamar, agora identificado como “socialismo de mercado”, apesar das controvérsias.
[3] Em 2014 ofereci um mini-curso no IESA/UFG, para analisar a crise econômica, e me inspirei em alguns filmes e documentários, utilizados durante o curso como ferramenta importante. Dentre eles TRABALHO INTERNO: “O documentário TRABALHO INTERNO, premiado no Oscar de 2010, expõe de forma crua todas as responsabilidades de políticos, CEOs, e até mesmo de professores de economia de importantes universidades estadunidenses, na implementação de medidas que fizeram ampliar a crise e o endividamento dos Estados”. (https://gramaticadomundo.blogspot.com/search?q=trabalho+interno)

REFERÊNCIAS:
BANDEIRA, Luiz Alberto Muniz. A segunda guerra fria. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 2013
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HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos – O breve século XX (1914-1991). São Paulo: Ed. Cia. das Letras
GEROMEL, Ricardo. O poder da China. São Paulo: Editora Gente, 2019.
SANTOS, Milton. Por uma outra globalização. São Paulo: Ed. Record, 2000.
SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. Enciclopédia de Guerras e Revoluções no Século XX: As grandes transformações no mundo contemporâneo. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.