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quarta-feira, 27 de maio de 2020

DESGLOBALIZAÇÃO – A DESTRUIÇÃO DOS ORGANISMOS MULTILATERAIS E A NOVA GUERRA FRIA

Algumas questões têm me chamado muito a atenção durante essa crise que afeta o mundo todo. Não é deste ano que me dedico a analisar todos esses processos históricos, e os do tempo presente, que nos envolvem diretamente nesses tempos em que vivemos. A função de historiador é exatamente essa, remexer o passado, investigar fatos e circunstâncias que levaram a transformações que marcaram épocas, seja por meio de revoluções ou sucessivas crises estruturais ou conjunturais. Com a Geografia, e por meio da Geopolítica, ampliei esse meu olhar.
Mas a sucessão de eventos, principalmente nessas duas últimas décadas, tomam nosso fôlego, e nos consomem em indagações e perplexidades, quando começamos a estudar a celeridade das mudanças que se seguiram na contraposição da Globalização, mas paradoxalmente, acontecidos exatamente por causa dela, decorrente da intensa integração e aceleração do mundo contemporâneo, mas sobretudo da corrida ambiciosa nas disputas hegemônicas pelo controle do poder militar e do mercado mundial.
Inclui-se nessa lista de eventos do monumental ataque terrorista às torres gêmeas, o World Trade Center, nos EUA, e as guerras que lhe sucederam, até essa terrível pandemia gerado pelo vírus, até agora invencível, “Sars Cov-2”, passando pela grave crise econômica que explodiu em 2008 e todos os conflitos que se espalharam pelo mundo, potencializados, ou estimulados, pela guerra híbrida e pela nova modalidade de desnorteamento e propagação do ódio, na esteira das crises: as fake news.
Tão rápido e intenso quanto se deu a globalização, cuja característica marcante em seu DNA foi justamente a rapidez e a celeridade das transformações, técnicas, científicas e informacionais, nos deparamos com o transbordamento do que se pretendeu construir nesse mundo movido por uma ambiciosa etapa da revolução industrial do capitalismo. Eu prefiro não me referir a esse processo como sendo uma “terceira revolução industrial”.[1]
Uma sucessão de crises, que já impactava o capitalismo desde os anos 1970, levou a desestruturação do socialismo real quando este se abria para o mercado mundial, e possibilitou uma reviravolta impressionante nos rumos da humanidade, desde o final da década de 1980, acelerando nos anos 1990 e atingindo seu ápice na primeira década desde século. (HOBSBAWM, 1995, pp. 465-479) Até que em 2008 a “bolha” estourou, desnudando um sistema que passara a ser caracterizado pela frivolidade das relações humanas, que se tornaram coisificadas, desprovidas de sentimentos humanitários e solidários, salvo os momentos em que isso servia a interesses marqueteiros, e pela obsessão muito mais nítida e desavergonhada pela busca e ostentação da riqueza.
A ganância tornou-se parte da condição meritocrática, um valor intrínseco à lógica perversa e individualista da ascensão social a todo e qualquer custo. Naturalmente que esse caminho levaria a sociedades dominada por valores perversos e insensíveis diante das fragilidades humanas, que se ampliavam à medida em que as estruturas globalizantes (bancos, corporações, bolsas de valores, organismos mundiais, mecanismos de controles etc.) se fortaleciam e concentravam as riquezas no topo da pirâmide. (HARVEY, 2018, pp. 203-205)
Indubitavelmente o mundo passou por uma acelerada transformação. O capitalismo chegou a ser considerado como a última etapa da humanidade e o “mercado”, o deus todo poderoso da ganância, seria o balizador das competências individuais, ou nas relações entre os estados-nações. A aceleração tecnológica atingiu patamares surpreendentes, e o tempo em que se descobrem inovações se encurtava rapidamente. (HARVEY, 2016, PP. 11-12)
Entramos na era da robotização com a inteligência artificial, algo adiantado pela ficção cinematográfica desde os anos 1980, mas bem antes pela literatura, a partir de meados do século XX, com a obra de Isac Asimov, “Eu Robô”. Uma série de contos que estimulou realmente muitos estudiosos e cientistas, e inspirou um filme produzido em 2004.[2] O mundo projetado no filme é 2035, mas a realidade tem se intensificado mais rapidamente do que a ficção. O que deve se acelerar no pós-, pandemia.
Mas o caráter absolutamente expansivo do capitalismo, e a forma como o mundo entrou numa desesperada competição, seja entre as pessoas, e principalmente entre os países, notadamente os mais ricos, levou ao limite das relações políticas, e o que se dissemina atualmente é ódio, preconceito e xenofobia. E uma forte disputa entre as duas maiores potências mundiais: EUA e China.
O mundo tornou-se pequeno para os desejos de grandiosidade, de inventividade e de necessidade de se produzir em escala crescente para abastecer mercados cada vez mais fluídos, e poucas décadas após se encerrar o ciclo bipolar que prevaleceu no pós-guerra e termos entrado nessa fase denominada globalização (ou mundialização, como gostam de se referir os franceses), esse curto espaço de tempo histórico de três décadas, politicamente dirigido pelas ideias neoliberais e em meio ao deslumbramento da globalização, chegamos ao fim de uma época que passou da unipolaridade para a multipolaridade, e, parece, retornar à bipolaridade. Encontremos um réquiem para a globalização.

OS ORGANISMOS MULTILATERAIS E A GEOPOLÍTICA GLOBAL

Antes de entrarmos nesse ponto, cabe esclarecer que os organismos multilaterais, que tiveram um papel importantíssimo na globalização, não foram criados a partir desses processos de integração mundial pós-guerra fria. A seguir apresento um quadro com o ano de fundação e o objetivo de cada um deles, para que possamos acompanhar o raciocínio sobre para o que eles vieram, o papel que cumpriram durante todos esses anos e o que está acontecendo nesse momento em que a globalização se esfumaça.

Essas instituições foram criadas, sempre, em períodos de crises, na maioria das vezes em pós-guerras, e, principalmente depois da segunda grande guerra mundial. (HOBSBAWM, 1995, p. 419) O advento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) acentuou essa necessidade. Portanto, para além das dificuldades geradas por essas guerras, uma outra se tornaria mais importante, e se faria necessário a criação de organismos multilaterais que, a princípio, servisse para reforçar os interesses dos países ocidentais, no âmbito de uma luta que se tornaria crucial para os destinos da humanidade: a guerra fria.
Evidente que alguns desses órgãos cumpriram a importante função de estabelecer alguns limites ao belicismo, e em determinados momentos foi crucial no equilíbrio necessário entre esses dois mundos que se armavam perigosamente, inclusive com enormes arsenais nucleares. E, muito embora para manter esse equilíbrio algumas regras impostas tenham sido estranhas nas relações com a maioria dos estados-nações, como por exemplo deixar a critério de cinco grandes potências a capacidade de decidir os destinos do mundo. Eram, e são ainda hoje, as únicas com poder de veto no Conselho de Segurança. O que, pelas regras da Organização das Nações Unidas, implica na necessidade de haver consenso entre esses cinco países para que quaisquer sanções possam ser executadas.
Poucas vezes isso ocorreu nas últimas décadas, e em uma dessas vezes, por manobras embutidas nas entrelinhas de uma resolução, possibilitou que os EUA e aliados da OTAN perpetrasse atos arbitrários contra a Líbia, influenciando vergonhosamente no assassinato do presidente de uma Nação soberana, por interesses escusos, embora possíveis de serem entendidos. O resultado disso é que até hoje a Líbia se encontra em um intenso conflito e tornou-se mais um dos estados párias na constelação das nações impactadas por decisões que interessavam ao poder imperial dos Estados Unidos da América. (BANDEIRA, 2013, pp. 287-303)
Pouco a pouco desnudou-se o poder exercido pelos EUA e seus aliados, por trás desses organismos multilaterais. Jamais houve verdadeira independência, ou, quando muito, algumas decisões questionáveis não pela isenção, mas pela dúvida de não atender inteiramente os interesses estadunidenses, ou se porventura fosse complacente com algum dos países por este Estado considerados inimigos, como no caso emblemático da pequenina Cuba, por mais de cinco décadas sofrendo todos os tipos de bloqueios, muito embora sendo apoiada pela absoluta maioria dos países membros da ONU em suas assembleias gerais.
Mas os EUA sempre fizeram valer o poder de veto, nesses e em outros casos de países cujos governos lhes contrariassem. Por outro lado, quatro outros países também tinham esse poder: Rússia (URSS), China, França e Reino Unido. Ou seja, os principais países que se sagraram vitoriosos na aliança construída para derrotar o nazi-fascismo. Um equilíbrio forçado para evitar que desequilíbrios levassem a uma nova grande guerra, que vigorou por todo o período do pós-guerra, denominado de Guerra Fria, e que passou a cumprir um papel importante na construção do mundo globalizado.
Apesar de todos os porém, esses organismos multilaterais assumiram um papel preponderante no processo da globalização. Claro, quase sempre pressionados pelos EUA, e na maioria das vezes atendendo aos seus interesses e de seus aliados. O GATT (Acordo Geral de Tarifas e Comércio) foi o único que passou por transformação em sua nomeclatura, mudou de denominação e veio a se constituir no organismo mais importante para a Globalização, a Organização Mundial do Comércio (OMC). (SILVA, 2004, pp. 628-630) A desregulação do comércio mundial, a partir principalmente da abertura das fronteiras comerciais e dos processos de desnacionalização de inúmeras empresas estatais, necessitava de um organismo que pudesse gerenciar esse processo e estabelecer as regras que deveriam ser seguidas a partir de então.
Os países que não obedecessem as normas da OMC tornavam-se párias e encontrariam dificuldades para lidar com o comércio mundial. Impunha-se dessa forma os mecanismo de aceitação das regras neoliberais, assim como se fazia também através do Fundo Monetário Internacional (FMI), como condição para concessão de empréstimos aos países menos desenvolvidos, quase sempre endividados e com suas riquezas sendo expropriadas pela elite corrupta, tornada parte do poder político. A partir dos anos 1990 do século passado, a própria elite passou a disputar as eleições, e não mais deixar a cargo de seus apaniguados, testas-de-ferro, como se fez historicamente no Brasil e na maioria dos países latino-americanos.
Como essas transformações se intensificaram muita rapidamente a partir dos anos 1980, era preciso estabelecer parâmetros que identificassem as mudanças na direção dos interesses definidos pelos países centrais, dentro da lógica política que se impunha, o neoliberalismo. Ou, uma nova forma de liberalismo, sempre focado como em seus princípios, tendo o mercado como elemento mais importante, a despeito do poder dos Estados, mas retirando deste aspectos importantes na condução da economia, que passou a ser celeremente controlada por grandes corporações financeiras, industriais, comerciais e das recém criadas corporações que passaram a se expandir e controlar o poder crescente das novas tecnologias.
As conhecidas empresas “.com”, que obtiveram um crescimento acelerado no final dos anos 1990, a ponto de gerar uma das primeiras crises da globalização, em função da bolha que se criou com preços supervalorizado de ações de empresas que surgiam, quando se popularizava a “world wide web”. Ficou conhecida como a “bolha da internet”, e levou a uma intensa insegurança nos mercados financeiros e a um efeito cascata de desvalorização de empresas cujo valor era infinitamente maior do que efetivamente elas valiam. Algo que se tornou, de certa forma, muito comum nos tempos da globalização financeira.
A ganância foi um fator fundamental para gerar uma cegueira obsessiva nos que se extasiavam com a facilidade gerada por investimentos fáceis, e que levavam gradativamente alguns setores a forçar o endividamento das pessoas para levá-las ao consumo fácil, algo bem possível devido ao deslumbramento pelas novas tecnologias. (SANTOS, 1999, pp. 10-20) O capitalismo se intensificava, o dinheiro virtual se disseminava pelo mundo e crescia o número de bilionários. Embora fosse muito maior a quantidade de pobres e miseráveis que se espalhavam pela maioria dos países, e em muitos casos os conflitos regionais, as guerras, o sectarismo religioso e a escassez hídrica, as populações, sem escolhas, se deslocaram em massa, aos milhões, por suas fronteiras próximas ou em direção aos países mais ricos, na Europa e na América do Norte.
A crise de 2009 despertou dos sonhos, ou transformou em pesadelo, o que se imaginava ser um eterno paraíso de ganhos fáceis gerados pela globalização. Mais uma bolha explodiu, agora a hipotecária e no coração financeiro do mundo, os EUA.[3] Daquele momento em diante a globalização desandou. Evidente que não se pode atribuir a somente esse fato a acentuação de uma crise sistêmica que se estende desde o final dos anos 1970, cambaleando por vários momentos e se reerguendo de forma impressionante. Mas as fissuras permaneciam, e por elas as estruturas do sistema foram se fragilizando.
“Ma non tropo”. Alguns países souberam se aproveitar bem das transformações e atraíam para seus territórios uma infinidade de empresas, que na busca por lucrar mais, com mão de obra mais baratas e menos problemas gerados por leis trabalhistas que se tornavam alvos dessas corporações e eram abominadas pelo ideário neoliberal, eram deslocadas de seus países de origem, onde a organização dos trabalhadores era mais forte. Esses países não somente se preocuparam em atrair essas empresas, mas se debruçaram sobre as mercadorias que ali eram montadas, e em pouco tempo tinham copias perfeitas daqueles produtos. Com os ganhos conseguidos nesse processo investiram em educação e no desenvolvimento tecnológico. Das cópias feitas nas linhas de produção, à produção de tecnologias que passaram a superar muitos dos produtos ocidentais, não se passaram três décadas.
Foi muito rápido o passar do tempo para que alguns países antes encarregados de abrigar empresas montadoras de peças fabricadas fora, passassem eles mesmos a produzirem, e com novas tecnologias. Ao passo que os países asiáticos se despontavam por esse caminho, principalmente a China, o Japão já estava envolvido nesses avanços desde antes, mas também a Coréia do Sul, a Tailândia, o Vietnam... a Rússia se recuperava do desastre causado pelo governo desastroso de  Bóris Ieltsin, e retomava gradativamente o seu protagonismo.
Enquanto desde o começo do século XX os EUA se deparava com um inimigo invisível, a quem declarara guerra depois de um atentado que assassinou mais de três mil pessoas naquele país, em 2001, e deslocava todo o seu aparato bélico e suas atenções para o Oriente Médio e o Afeganistão, alguns países emergentes numa espécie de segunda onda da globalização, se uniam para criar um novo polo hegemônico, com a intenção de pelo menos romper com qualquer possível unipolaridade que se pensava construir com a globalização. Os BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, surgiu e fez despontar um novo bloco forte política e economicamente, e a partir daí estabeleceu-se uma nova polarização, que crescia ao mesmo tempo em que mecanismos que visavam destruir essa força eram postos em ação. A guerra híbrida, que funcionara no Oriente Médio, em especial na Líbia, Egito, Iêmen, e Síria,  passou ser aplicada nas fronteiras da Rússia (principalmente na Ucrânia), China, região do Tibete, (BANDEIRA, 2013, pp. 119-132) e no Brasil a partir de 2013. (HARVEY, 2018, pp. 190-192)
Os conflitos se espalham por todo o mundo, e as tensões retornam em larga escala  ameaçando fazer explodir novas guerras. Acordos são rompidos e os EUA, com a eleição de Donald Trum, e sua política “América First” passa a romper diversos acordos e a atacar abertamente aqueles países que ameaçavam a hegemonia estadunidense, e que ele via como ameaça para o próprio desenvolvimento nacional.
Os organismos multilaterais tornam-se alvos da política de Trump e os ataques sistematicamente acontece revezando-se qual deles será o próximo a ser atacado. Primeiro a OTAN, cujos parceiros são acusados de não investirem recursos necessários para armar a organização e a fragilizar diante dos avanços do poder russo;[4] depois a OMC, vista como uma ameaça aos interesses dos EUA, passando a ser pressionada para que as decisões favorece seus interesses. Essa pressão sobre a OMC terminou por fazer o brasileiro Roberto Azevedo, diretor geral da instituição, decidir abandonar o cargo a partir do segundo semestre deste ano de 2020.[5]
No começo deste ano a Pandemia do Covid19 concentrou o protagonismo das ações nas mãos da OMS, e foi o próximo desses organismos a sofrer intensos ataques do presidente estadunidense, a ponto de ameaçar retirar todo o apoio financeiro e a acusando de beneficiar a China. O quadro que se constituía a partir dessas pressões com a nova política isolacionista adotada pelo presidente dos Estados Unidos, foi agravado pela disseminação dessa doença. O vírus (Sars Cov-2) avançou implacavelmente sobre todos países gerando centenas de milhares de mortes, sem que houvesse uma vacina para contê-lo, e transformando os Estados Unidos no epicentro da doença, e atingindo o terrível número de 100 mil mortos, só podendo ter essa marca atingida pelo Brasil, cujos número de mortes sequem crescendo.
Os EUA, com sua política de ataque aos blocos econômicos, e de identificação de inimigos a quem lhes ameaçassem em sua hegemonia, definiu seus objetivos centrados nos interesses internos, e estava se recuperando às custas de um forte isolamento e distanciamento até mesmo de seus parceiros tradicionais. A China substituiu a antiga União Soviética, no imaginário persecutório de Trump, que passou a usar um discurso nacionalista e, como sempre é comum aos EUA, de defesa da segurança e dos interesses nacionais.
Em meio a uma forte recessão e à beira de uma inevitável depressão, como consequência do agravamento da crise em decorrência da Covid19, o discurso de Donald Trump sobe o tom, e se eleva mais à medida que se aproxima das eleições presidenciais marcadas para dezembro deste ano.[6]
Inevitavelmente o cenário pós-covid19 não será de um mundo globalizado. Os organismos multilaterais sofrerão uma pressão maior do que está acontecendo neste momento e deverão passar por transformações estruturais, se não estarão fadadas a desaparecerem. A tendência é termos um mundo marcado por fortes disputas econômicas e ameaças bélicas, com forte possibilidade de termos um grande conflito que se estenda por todo o mundo. Uma ameaça de guerra nuclear não pode ser destacada, dependendo do quadro a ser definido nas eleições estadunidenses e as consequências que após essa pandemia.
A desglobalização se concretizará, na eminência do enfraquecimento dessas estruturas, o que não irá significar o desaparecimento de blocos regionais. Esses também serão refeitos, e haverá um forte crescimento da influência chinesa em países asiáticos e europeus, seguindo o curso do projeto da nova rota da seda.(GEROMEL, 2019, pp. 116-123) As tensões se intensificarão no Oceano Pacífico e envolverão os países latino americanos. O Brasil, na postura de isolamento ao lado dos EUA, será mais um pária no contexto da política mundial, ao contrário do protagonismo construído no começo do século, auge da globalização.
A incógnita que permanecerá é se de fato teremos algo parecido com a guerra fria, onde dois gigantes bem armados se temiam e se respeitavam, em alguns momentos vivendo tensões que os fizeram se aproximar do confronto aberto, como no caso da crise dos mísseis soviéticos que seriam enviados a Cuba, mas sempre salvos pela diplomacia. A posição de Donald Trump, de romper acordos, atacar adversários e ameaçar aliados, elevará as tensões ao limite do suportável. Mas esse limite pode ser muito frágil, ou estar não muito distante, a depender das condições econômicas que afetarem os países, e principalmente os EUA. E, diferente dos anos pós 2ª guerra, quando a economia estadunidense ajudou a reerguer a Europa, agora a situação poderá ser inversa, acuando um forte poder imperial que será mais perigoso ainda caso o povo daquele país insista no erro de mais uma vez elegê-lo.
Os caminhos da humanidade, no âmbito da política internacional, dependerão da gravidade da crise econômica pós-pandemia e do resultado das eleições dos EUA. Mas, certamente, qualquer que seja o resultado já não será mais um mundo globalizado. Claro, estamos nos referindo à globalização como um modelo, um método, e os mecanismos que lhes faziam funcionar empurrando sociedades para o abismo, o neoliberalismo e a perversa política de reduzir o estado ao mínimo, aos interesses das grandes e dos ricos. Porque a integração entre países prosseguirá, como uma necessidade, malgrado as tentativas isolacionistas e xenófobas que serão implementadas por governos de extrema-direita.
A desglobalização, nos parece, já está em curso, e se efetivará. Para o bem, ou para o mal. Pode renascer com a China com nova protagonista em seu comando, mas isso só o tempo dirá. E aos trabalhadores de todo o mundo resta ouvir o clamor da Associação Internacional dos Trabalhadores, de meados do Séculos XIX: “Uni-vos”!



NOTAS:
[1] Não vejo como sendo uma “terceira revolução industrial”. Visto que desde quando acontece o processo inicial do desenvolvimento capitalista, e a manufatura foi substituída pela maquinofatura, e tivemos início às linhas de montagens das fábricas, o que vemos é um processo crescente de transformações técnico-científicas na direção de ampliar e fortalecer a lógica sistêmica contida no modelo de produção capitalista. Não havendo, portanto, nesses três últimos séculos uma substituição dessa formação econômico-social, mas sempre uma sequência de novas invenções e adaptações tecnológicas com o mesmo objetivo moldado pelo sistema capitalista. Não há revoluções no capitalismo, as que houveram aconteceram para propiciar sua substituição, mas fracassaram no seu intento final. Pelo menos até os dias atuais, à exceção da China, o que é absolutamente relevante, e está, digamos, numa situação de transitoriedade, a poucos passos da hegemonia do controle do mercado mundial. Em um novo patamar, agora identificado como “socialismo de mercado”, apesar das controvérsias.
[3] Em 2014 ofereci um mini-curso no IESA/UFG, para analisar a crise econômica, e me inspirei em alguns filmes e documentários, utilizados durante o curso como ferramenta importante. Dentre eles TRABALHO INTERNO: “O documentário TRABALHO INTERNO, premiado no Oscar de 2010, expõe de forma crua todas as responsabilidades de políticos, CEOs, e até mesmo de professores de economia de importantes universidades estadunidenses, na implementação de medidas que fizeram ampliar a crise e o endividamento dos Estados”. (https://gramaticadomundo.blogspot.com/search?q=trabalho+interno)

REFERÊNCIAS:
BANDEIRA, Luiz Alberto Muniz. A segunda guerra fria. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 2013
HARVEY, David. 17 Contradições e o fim do capitalismo. São Paulo: Ed. Boitempo, 2016
____________. A loucura da razão econômica: Marx e o capital no século XXI. São Paulo: Ed. Boitempo, 2018
HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos – O breve século XX (1914-1991). São Paulo: Ed. Cia. das Letras
GEROMEL, Ricardo. O poder da China. São Paulo: Editora Gente, 2019.
SANTOS, Milton. Por uma outra globalização. São Paulo: Ed. Record, 2000.
SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. Enciclopédia de Guerras e Revoluções no Século XX: As grandes transformações no mundo contemporâneo. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.






domingo, 4 de maio de 2014

O CORAÇÃO DA TERRA PRESTES A SE INCENDIAR MAIS UMA VEZ


No ano de 1904, mais especificamente no dia 25 de janeiro, um texto, apresentado na Sociedade Geográfica Real, em Londres, transformou o britânico Halford Mackinder em uma figura de destaque na geopolítica moderna. Embora com livros publicados, sendo um deles também de grande importância, “Democratics ideals and Reality: A Study in Politics of Reconstruction” (Washington D.C.: National Defense University, 1919, 1942), foi o texto lido naquela data que o tornaria uma das proeminências na geopolítica. Entre as duas publicações uma grande guerra que alterou a ordem política mundial.
O Artigo em questão foi intitulado como “O Pivô Geográfico da História” (The Geographical Pivot of History), e por ele Mackinder identifica nas estepes asiáticas não somente a origem daqueles povos que foram responsáveis pela constituição da Europa, em toda a sua dimensão territorial e na constituição da maioria dos países que a compõe. Ele busca, pela geografia, identificar historicamente as razões para as dificuldades em se impor àquela região formas de controles que lhes fossem externas. E aponta ser aquela uma região propícia para a consolidação de um poder continental, condição pela qual garantiria a quem a controlasse a possibilidade de dominar o mundo.
            Kaplan[1] (2013, p. 64), diz que
Sua tese é que a Ásia Central, na medida em que é uma das partes constituintes do heartland eurasiano, é o pivô em torno do qual gira o destino dos grandes impérios mundiais, pois a própria disposição natural das artérias da terra, entre cordilheiras e vales, estimula a ascensão de impérios, declarados ou não, em vez de estados.
Para Mackinder, o poderio Russo era inabalável pelas condições geográficas, que lhes possibilitava não somente a proteção dificultando invasões externas, mas porque lhes garantiam com a organização de um poderoso exército, reforçar o poder terrestre, considerado mais apto a manutenção do controle daquelas vastas regiões, bem como expandi-la, em direção à Europa. Esse poder, poderia se reforçar perigosamente, caso se expandisse em direção à África, o que ele identifica como a “Ilha Mundial” (Eurásia e África). Além disso, ele ressaltava a importância do poder terrestre, condição que tornava Rússia mais impenetrável, principalmente depois que vastas extensões de ferrovias ligaram os milhares de quilômetros do seu território.
O Pivô Geográfico, para Mackinder era a Eurásia, identificada por ele como o “Heartland”, o “Coração Continental” ou o “coração do mundo”. E expressou em três pequenas frases o que ele considerava como estratégico, do ponto de vista da disputa pelo controle do poder mundial: “Quem controla o leste europeu, comanda o Heartland. Quem controla o Heartland comanda a Ilha Mundial. Quem controla a Ilha Mundial, comanda o mundo”.
“Fora da área pivô, em um amplo crescente interno, estão Alemanha, Áustria, Turquia, Índia e China, e em um crescente externo, Inglaterra, África do Sul, Austrália, Estados Unidos, Canadá e Japão. Na condição atual do equilíbrio de poder, o Estado Pivô, a Rússia, não é equivalente a quaisquer outros estados periféricos, e não há espaço para um equilíbrio com a França. (...) A definição do equilíbrio de poder, em favor do Estado Pivô, que resulta em sua expansão sobre as terras marginais da Eurásia, permitiria a utilização dos vastos recursos para a construção da frota continental, e o império do mundo, então, estaria à vista”.[2]
Contudo, um holandês que se radicou nos Estados Unidos, o geógrafo e geoestrategista Nicholas Spykman, que se tornará a principal referência geopolítica para os Estados Unidos no período da Segunda Guerra Mundial, partindo desse estudo de Mackinder expõe outra compreensão sobre o domínio do poder mundial.
Sem desconsiderar a principal tese de Mackinder, do Pivô Geográfico, e do Heartland, entendendo essa região como um forte poder estratégico, Spykman considera que a importância maior está no “crescente interior”, uma faixa de terras que se estende da Eurásia à América e inclui o Oriente Médio, que ele vai denominar de “Rimland”. Mais objetivo, e preocupado em definir uma política de contenção que impedisse a ampliação do poder do “heartland”, Spykman define como sendo a então União Soviética essa potência. Por sua teoria dominaria o “coração do mundo” não quem o controla diretamente, mas quem fosse capaz de cercá-lo.
Com base nas teorias de Spykman os Estados Unidos definirão toda a sua estratégia de atuação, tanto no período anterior à grande guerra, como, principalmente, após esse conflito, quando se estabelece a Guerra Fria. A “Estratégia de Contenção”, principal arcabouço teórico-geopolítico de Spykman, permeou todas as relações internacionais da política externa estadunidense. Desde o “Cordão Sanitário” interposto entre as duas grandes guerras, pelo qual se investiu no apoio a governos anti-soviéticos, apoiados pelos EUA, até a Guerra Fria, com a criação da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte).
Essa estratégia encontrará sua formulação adequada com uma doutrina de segurança nacional, pela qual os EUA imporá sua política intervencionista que vigora até os dias atuais. A identificação do inimigo externo passa a gerar uma reação imediata, antecipando-se a uma possível ação que lhe pudesse ser ameaçadora. Por toda a guerra fria essa política foi adotada, e foi também fundamental na atuação dos órgãos de espionagem, no sentido de desestabilizar os países que compunham a União Soviética, ou que lhes fossem aliados, durante a década de 1980. A Polônia e o Afeganistão, foram os principais alvos dessa estratégia. Com o apoio ao Sindicato Solidariedade na Polônia, reforçado em seguida com a ascensão do papa polonês Carol Wojtyla, ou João Paulo II, as ações surtiram efeito e eliminou um aliado estratégico do regime soviético na Europa. No Afeganistão, o apoio ao Talebã, na guerra para expulsar os soldados soviéticos impôs uma forte derrota e fragilizou uma parte importante da fronteira soviética em um momento já de desestabilização completa da União Soviética. As ideias de Spykman consolidavam uma estratégia que se impôs como vitoriosa, ampliou o poder da OTAN e abriu caminho para as políticas neoliberais e a globalização.
“Contenção” é o nome dado pelo poder marítimo periférico para o que o poder do Heartland chama de “cerco” (encirclement). A defesa da Europa Ocidental, de Israel, dos Estados árabes moderados, do Irã do Xá e as guerras do Afeganistão e do Vietnã giraram todas em torno da ideia de impedir que um império comunista estendesse seu controle do Heartland ao Rimland.[3]
Após o fim da guerra fria, com a decadência do poder soviético, os EUA e aliados reforçam o controle do poder nessa região, com a ampliação da área de influência da OTAN, incorporando antigos países que compunham a União Soviética à essa organização  e mantendo a Rússia numa situação humilhante de dominação, mediante o apoio a governos fracos e instáveis. O foco principal passava a ser o domínio de territórios estratégicos, com potenciais reservas de petróleo, óleo e gás.
 “Com essa perspectiva, o objetivo estratégico dos Estados Unidos consistiu em expandir a influência e o domínio sobre a Ásia Central, região com mais de 1,6 milhão de quilômetros quadrados, que compreende Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Turcomenistão e Usbequistão, países com enormes recursos naturais, e que é rodeado por China, Rússia, Ásia do Sul e Oriente Médio.[4]
O objetivo, segundo o experiente e veterano professor Moniz Bandeira, doutor em Ciência Política e professor aposentado da UnB, atualmente residindo na Alemanha, era integrar os países do Cáucaso/Ásia Central, seja mediante o envolvimento militar ou através de ações de inteligência que possibilitasse a instalação de governos aliados, “que permitissem a economia de livre mercado, liberação do comércio e investimentos ocidentais, de forma que pudessem controlar as fontes de energias e as rotas de transporte do gás e do petróleo”.[5]
A década de 1990, com seus resultados negativos para o mundo socialista, pelo revés gerado pelo declínio e esfacelamento da União Soviética, representou, por outro lado, uma forte agressividade da política externa estadunidense, com influência destacada dos chamados “falcões”, que procuravam impor pela força o domínio ocidental e a expansão dos limites de atuação da OTAN. Reforçavam o controle do Rimland e avançavam em direção às franjas do heartland, trazendo para sua influência países que antigamente compunham a União Soviética.
Esses países outrora membros da República Soviética, partes do heartland euroasiático, tornaram-se alvos da política agressiva e rapace dos EUA.
Eram as repúblicas mais pobres da extinta União Soviética, mas possuíam vastas reservas de petróleo, iguais ou maiores do que as da Arábia Saudita, e as mais ricas reservas de gás natural do mundo, comprovadamente mais de 236 trilhões de metros cúbicos, praticamente fechadas.[6]
Essas ações prosseguiram, célere e agressivamente, visando bloquear qualquer tipo de influência da China, Rússia e Irã, avançando em seus objetivos estratégicos no Sul do Cáucaso e na Ásia Central. Uma série de projetos de gasodutos foram implementados e as rotas seguiam dessas regiões passando por esses territórios, países que se encontravam em tensões como consequência da transição em curso, e que tiveram esse processo acelerado por conta das ações de espionagem e da sedução de novos governantes que se erguiam distanciando-se da Rússia, mediante altos investimentos e atividades de grandes corporações petrolíferas. Moniz Bandeira (2013, pp. 68-69) cita alguns deles: O Consórcio Shah Deniz Production Sharing Agreement (PSA); o gasoduto Shah Deniz FFD: o South Caucasus Pipeline (SCP); o projeto Gasoduto Nabucco; e o Gazprom-Eni South Stream, além da atuação da British Petroleum e da Chevron/Texaco. As rotas tinham o Mar Cáspio como ponto estratético, de onde praticamente a maioria saia em direção à Turquia e daí para a Europa. Mas também partindo de Baku e do Azerbaijão.
Por trás dessas mexidas estratégicas, cujos objetivos eram as reservas energéticas de gás e petróleo, mas também agir com cada vez mais agressividade, seguindo ainda a estratégia de contenção, ampliando o domínio do Rimland, e avançando em direção ao Heartland, de forma a sufocar cada vez mais a Rússia, o centro do coração do mundo. Por todo o mundo, no entanto, a propaganda midiática centrava-se na necessidade de garantir a essa parte do mundo, o acesso à democracia e liberdade, com a ascensão de novos governos que pudessem defender a aproximação da União Européia e da OTAN. A defesa da Segurança Nacional passou a se constituir no pretexto mais forte, internamente, pelo qual tornava-se necessário combater com veemência os governos hostis aos valores ocidentais e estadunidenses. A “guerra ao terror”, motivada pela agressão sofrida pela ousadia de jihadistas da Al Qaeda, com o ataque ao World Trade Center, tornou essas ações fáceis de serem digeridas pela opinião pública. E os EUA saíram a caça dos terroristas, identificando nesses os inimigos externos e internos, menosprezando, sempre, a ordem política internacional.
Enquanto atacava o Iraque e Afeganistão, com armamentos pesados e grande contingente militar, os EUA, por meio de dezenas de Organizações Não-Governamentais (ONGs) e da presença explícita de assessores militares, iniciou um processo de desestabilização de alguns países extremamente estratégicos para seus objetivos de controlar a produção e distribuição de gás e petróleo da região, e manter o isolamento da Rússia. As chamadas “Revoluções Coloridas”, se apresentavam pela mídia como insatisfações populares contras governos autoritários, escondiam a atuação desses atores externos plantados naqueles países com o intuito de derrubar esses governos. A Revolução Rosa na Geórgia, em 2003; a Revolução Laranja, na Ucrânia em 2004; a Revolução dos Cedros, no Líbano, em 2005; e a Revolução das Tulipas no Quirguistão, em 2005.
Os recursos gastos para promoverem essas crises políticas e a queda desses governos, foram infinitamente menores do que o montante investido no Iraque. Por essa razão, a partir de então, a estratégia a ser adotada será de reforçar esse mecanismo, ampliando o papel dessas organizações e de mais investimentos em espionagem, seja por meio da presença de um número cada vez maior de agentes, ou do controle da mídia e por meio das novas tecnologias que seduziam a juventude e que seria por esses meios facilmente manipulada.
Não é segredo, portanto, que o Pentágono, através da United States Army Civil and Faires e do Psychological Operations Command (USACA-POC), o Departamento de Estado e várias organizações não-governamentais, entre as quais a Freedom House, (...) e a National Endowment for Democracy, investiram milhões de dólares para incentivar as “revoluções coloridas” na região da extinta União Soviética e cercar a Rússia. A Ucrânia configurou uma questão estratégica, não por causa de Moscou, mas por causa dos Estados Unidos, que, conforme o jornalista Jonathan Steele, se recusavam a abandonar a política da Guerra Fria de cercar a Rússia e buscar para o seu lado todas as antigas repúblicas soviéticas. Situada entre a Rússia e os novos membros da OTAN – Polônia, Eslováquia, Hungria e Romênia –, a Ucrânia adquiria realmente enorme significação estratégica para os Estados Unidos. (MONIZ BANDEIRA, 2013, pp. 97-98).

A UCRÂNIA FORA DE CONTROLE
Por esse tempo, contudo, nesse começo de século XXI, a Rússia aos poucos foi retomando seu papel estratégico nessa região e o protagonismo político em âmbito internacional, através de uma política agressiva de uma nova liderança nascida dos escombros da antiga polícia secreta soviética, a temida KGB (Komitet gosudarstvennoi bezopasnosti, Comité de Segurança do Estado): Vladimir Putin.
Demonstrando segurança e capacidade de lidar com situações adversas, Putin passou a se constituir em um perigoso estrategista, cercando os objetivos europeus e dos EUA nos avanços sobre as antigas repúblicas soviéticas, e agindo com firmeza para conter as lutas separatistas em países estratégicos, fomentadas e financiadas pelas potências ocidentais, destacadamente os EUA.
Como um Czar moderno, Putin passou a governar com punhos de ferro, reprimindo implacavelmente esses movimentos, passando a considerá-los também “terroristas”, além de realizar uma limpeza interna, perseguindo opositores, muitos dos quais novos ricos que amealharam suas riquezas em golpes de corrupção no processo de desestatização com fortes vínculos com alguns países europeus, para onde fugiram alguns daqueles que não foram presos nesse processo.
Dessa forma, algumas mexidas no tabuleiro de xadrez que representa essa região, fez com que Putin reagisse e obtivesse algumas vitórias sobre as políticas estadunidenses. Primeiro em relação às lutas separatistas na região, tanto na Geórgia, como na Ossétia do Sul, e uma reviravolta na revolução laranja na Ucrânia, retomando a influência nas eleições de 2010, com o retorno de Viktor Yanukovych à presidência, resultando em uma verdadeira queda de braço entre a Rússia e a União Européia, instigada pelos Estados Unidos, que disputavam a assinatura de acordos que pudessem tirar a Ucrânia de enormes dificuldades financeiras. Por fora da região Putin deu uma tacada de mestre na questão da Síria, quando negociou a destruição das armas químicas e eliminou o principal pretexto para uma ação militar da OTAN naquele país, onde se situa a única base militar russa na região do mediterrâneo.
Mas a Ucrânia era a situação mais emblemática, pelos motivos já citados acima, além da sua extensão territorial e sua dimensão populacional. Assim, nos últimos anos iniciou-se uma luta intensa pelo controle ucraniano, ora nos bastidores, ora nos embates políticos internos, mas, principalmente, nas ações executadas por grupos ultranacionalistas fascistas, organizações não-governamentais e agentes secretos infiltrados por todos os lados e de todos os lados, seja dos EUA ou da Rússia.
Euromaindan - revoltas em Kiev
Fragilizado politicamente como consequência de um governo fraco e marcado pela corrupção, Yanukovych terminou por ceder à pressão russa e recusou os acordos com a União Européia. Essa atitude se constituiu no estopim que levou às ruas centenas de milhares de manifestantes, em um movimento que, como todos os demais que marcaram as “revoluções coloridas”, começou despretensiosamente, até atingir seu ápice com a invasão de prédios públicos e o controle de setores importantes do governo, forçando o presidente à fugir para a Rússia. Nitidamente ocorreu ali um golpe de Estado, principalmente porque através de alguns acordos já se iniciava um processo de transição que atendia boa parte daquilo que era reivindicado nas ruas. Mas as ações agressivas de grupos radicais de direita prevaleceram levando a destituição de Viktor Yanukovych. Desta feita, os interesses russos foram contrariados, em uma região de importância estratégica fundamental já que aproximava a União Européia e as políticas estadunidenses perigosamente das fronteiras russas.
A primeira reação russa foi instigar o plebiscito na região da Criméia, pelo histórico de vinculação com aquele país de população majoritariamente de origem russa, mas, também, por se constituir em uma importante ligação da Rússia com o Mar Negro, através do Mar de Azov pelo Estreito de Kerch. Esse é um caminho estratégico que a Rússia tem para atingir o Mar Mediterrâneo, pelos Estreitos de Bósforo e Dardanelos (que dividem a Turquia da Europa). Outro elemento importante é o fato de ali situar-se uma base militar russa, incrustada na cidade de Sebastopol.
Por essas razões, e com o agravamento da crise ucarania, a República Autônoma da Criméia, após o plebiscito que contou com o apoio de 95,5% dos votantes, passou em março deste ano a fazer parte da Federação Russa.
Contudo as populações do leste ucraniano, também em sua maioria de origem russa, e inspirando-se na iniciativa da Criméia, passaram a se mobilizar de maneira ostensiva, opondo-se ao governo provisório da Ucrânia e reivindicando também plebiscito que as incorporem à Rússia. Duas das maiores cidades ucranianas também se inserem nesses protestos: Odessa e Donetsk. Historicamente são cidades que já compuseram o Império Russo, assim como todo o território ucraniano. Após a revolução bolchevique, em 1917, toda essa região compunha a extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
Manifestantes pró-Rússia em
Donestsk
O que tem se seguido à incorporação da Criméia pela Rússia e à aproximação do governo da Ucrânia aos governos ocidentais e aos EUA é uma reação em cadeia por parte de praticamente todas as cidades do leste ucraniano, situadas no litoral do mar negro e na fronteira com a Rússia. Os levantes assumiram características de guerra civil, e as manifestações, com ocupação de prédios públicos e a destituição de autoridades que se opunham ao separatismo, assemelham-se ao que aconteceu no início deste ano que levou à deposição pela força do presidente ucraniano Viktor Yanukovych.
Mas, as informações que os chegam, transmitidas em larga escala por poucas agências de notícias ocidentais, tomam um outro enfoque, diferente da maneira como as primeiras manifestações foram noticiadas. Apresentadas agora como revoltas conduzidas pro grupos pró-Rússia, com alegações do governo interino ucraniano que tratam-se de ações de grupos terroristas alimentados pelo governo russo, e assim reproduzido para todo o mundo e presente nos discursos das autoridades estadunidenses, embora guardem semelhanças com aquelas anteriores são distinguidas propositadamente a fim de justificar possíveis ações militares e intervenções da OTAN.
Presença de grupos nazi-fascistas
em Kiev. Fortes protagonistas
nas revoltas euromaidan
Os primeiros choques, naquilo que ficou conhecido como o Euromaidan (europraça), que tem ocupado a praça central de Kiev até os dias atuais, assumiram características semelhantes das atuais revoltas do Leste. Pior, porque foram comandadas por grupos neo-nazistas, que ascenderam depois ao governo, assumindo dois ministérios. Mas nem por isso foram noticiadas por essas agências de comunicações, como pró-europeias, muito embora estivessem presentes, infiltrados, centenas de agentes estadunidenses, interessados em destituir o então presidente, a fim de atrair a Ucrânia para sua zona de influência, aproximá-la da União Europeia e incluí-la na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). O objetivo, naturalmente, era reforçar o cerco ao Heartland russo, e, a meu ver, vingar-se das derrotas impostas pela diplomacia russa tanto nas ações da Síria, como na concessão de asilo a Eduard Snowden.
A solução para o problema ucraniano não é simples. A Rússia não abrirá mão de manter sob sua influência toda a região que lhes faz fronteira, não somente por ser constituída de uma enorme população de origem russa, mas pela necessidade de proteção dessas fronteiras, de forma a afastar possíveis ameaças ocidentais ao seu território.
A crise econômica mundial, que afeta duramente as principais potências europeias e os Estados Unidos, é um ingrediente a mais a preocupar os analistas políticos, em vista da necessidade de artificializar crises como estratégias de não somente desviar as atenções a esses problemas, mas porque historicamente as guerras têm se constituídos em saídas para crises que aconteceram em diversos momentos e que afetaram a economia mundial, ameaçando o equilíbrio geopolítico, e até mesmo efetivando mudanças consideráveis na hegemonia do poder mundial.
Odessa, começo do século XX,
retratada na revolta do Couraçado
Potenkim, no clássico filme de Eiseinstein
Mas, essa região, sempre disputada, desejada e jamais conquistada por forças externas a ela, tem na sua geografia o elemento mais forte a protegê-la. Dois grandes impérios, em duas guerras violentas, viram seus exércitos padecerem nas dificuldades enfrentadas pelo ambiente e pela reação fortemente nacionalista do povo russo. Tanto na tentativa de invasão durante as guerras napoleônicas, no começo do século XIX, como do exército alemão durante a segunda guerra mundial. Em seus momentos, o poderio francês, bem como no século XX o poderio alemão, eram infinitamente superior ao russo e soviético. Mas esbarraram nas dificuldades geográficas e na determinação desses povos.
É impossível fazer um prognóstico para o final dessa crise. O certo, no entanto, é que isso só se acalmará se ao fim, e ao cabo, puder se chegar a um acordo que leve a constituição de um governo na Ucrânia que possa manter o país fora da União Europeia e também livre da influência russa. Uma federação de estados autônomos independentes seria, portanto, o caminho adequado para pacificar a região, embora não se saiba até quando.
A extensão desse artigo se deve à necessidade de se mostrar com clareza, para além das manipulações dos meios de comunicação, e dos comunicados piegas de autoridades ocidentais, principalmente estadunidenses, como se fossem eles xerifes do mundo, a importância estratégica que toda essa região possui no contexto de uma disputa geopolítica pela manutenção do poder hegemônico mundial e na tentativa de cercar e impedir que outros atores possam vir a se constituir em ameaças a esse poder.
Odessa hoje. Com manifestantes
em lutas separatistas pró-Rússia
Criticar a maneira como essa crise está sendo apresentada não significa, necessariamente, defender o comportamento político do presidente russo Vladimir Putin, claramente aliado de uma forte oligarquia local que enriqueceu às custas da decadência do antigo regime soviético. Mas não se podem admitir as distorções nos enfoques que são dados a esses movimentos, levando a um claro desequilíbrio nas notícias e omitindo situações históricas e geográficas que explicam as dificuldades de se compreender todos esses conflitos.
O “pivô geográfico da história”, ou o heartland mackinderiano, pode explodir em novas guerras, incendiando mais uma vez coração do mundo. A população mundial assiste, impassível, a esses acontecimentos, impotentes diante de um embate que sempre opôs forças poderosas da geopolítica mundial. Seguiremos acompanhando, com um olhar geopolítico, procurando ser o mais isento possível, mas seguramente opondo-se à maneira rapace e dominadora, disfarçada em defesa de democracia e liberdade, com que EUA, Europa e OTAN tem avançado por toda a região euro-asiática, com intuito de expandir suas influências, ampliar seus mercados e derrubar governos hostis na linha da estratégia da contenção, de controle do rimland e de cerco aos povos das estepes asiáticas.
* Já quando eu estava finalizando este texto me deparei com um artigo no blog do jornalista Mauro Santayana, que tem elementos já das questões geopolíticas que estão em jogo nessa disputa. A proibição, por parte da Rússia, da exportação de alimentos que contenham modificações genéticas, ou, os chamados transgênicos. Ainda segundo Santayana, isso se dá no momento em que praticamente metade da produção agrícola da Ucrânia passa a ser controlada por duas grandes corporações, a Cargill e a Monsanto.[7]




NOTAS:
[1] Robert Kaplan, autor do livro citado, “A Vingança da Geografia”, é o principal analista geopolítico da Stratfor, uma empresa de inteligência privada global. No seu livro ele procura descrever as dificuldades impostas pela geografia àquelas ações imperialistas executadas pelos Estados Unidos nas últimas décadas. Percebe-se que o conteúdo exposto visa obter uma análise cuidadosa dos erros cometidos, e, a meu ver, com o intuito de alterar as estratégias adotadas, não mais de intervenções militares baseadas em enormes contingentes militares e bélicos, mas partindo para ações de inteligências, de desestabilizações de governos hostis e operações tecnologicamente sofisticadas. O objetivo, “ser (os EUA) um poder equilibrador na Eurásia e um poder unificador na América do Norte”
[2] MACKINDER, Halford. O Pivô Geográfico da História. In: Revista de Geopolítica. Natal-RN, v.2, n.2, pp. 17-18. Jul/dez de 2011.
[3] KAPLAN, Robert D. A Vingança da Geografia. A construção do mundo geopolítico a partir da perspectiva geográfica. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013.
[4] BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. A Segunda Guerra Fria. Geopolítica e dimensão estratégica dos EUA. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013. P. 65
[5] Idem, ibidem.
[6] Idem. P. 66
[7] Leia o artigo acessando o link: http://www.maurosantayana.com/2014/05/os-ogm-cobica-e-morte.html