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quarta-feira, 8 de julho de 2020

ALTRUÍSMO E EMPATIA – O QUE NOS FAZ EGOÍSTAS OU SOLIDÁRIOS

Em recente discurso, o presidente da Organização Mundial de Saúde, Tedros Adhanom, fez um apelo emocionado e deixou uma indagação que merece toda a reflexão: “Porque é tão difícil para os humanos se unirem?”
Pois bem, esse é o assunto que trago para discussão. Embora essa temática já tivesse sido escolhida bem antes de ler sobre o desabafo do presidente da OMS, no momento em esta organização está sob pressão dos EUA e de outros países governados por políticos de extrema-direita, inclusive o Brasil. E por isso a minha abordagem vai além da análise política.
São nesses tempos de crises que se escancaram comportamentos que podem definir as condições pelas quais as pessoas se posicionam na relação com os demais. Em tipos de sociedades como a que vivemos, fundadas em elementos que nos dividem e segregam, onde os preconceitos e a intolerância, acompanhados de discursos de ódios, se somam à busca egoísta pela riqueza individual, isso fica evidente mesmo em períodos de normalidade, ou de estabilidade política e econômica. As crises só escancaram e desnudam esses comportamentos, a ponto de descobrirmos haver um alto índice de sociopatas com os quais dividimos até mesmo os espaços familiares. Isso não é genético, é cultural.
Mas precisamos entender como isso funciona. Muitas vezes nos espantamos, e ficamos indignados, com determinadas ações de indivíduos, isoladamente ou em grupos, e nos irritamos com atitudes mesquinhas, desprovidas de um mínimo sentimento de solidariedade, ou de respeito às diferenças sociais, e de origens, em relação à outras pessoas. Só que isso sempre é visto com um viés particularista. Ou seja, imagina-se ser um traço do caráter daquele indivíduo que pratica esse tipo de ato.
Sim, é verdade. Isso reflete um perfil de caráter, que se expõe em atos perversos. No entanto, não é isolado. É resultado de atitudes acumuladas em padrões de comportamentos sociais. Porque isso está ligado às condições de classe social, por um lado, e por outro lado pela assimilação de valores culturais da classe dominante, que afetam pessoas de segmentos da sociedade das camadas baixas da pirâmide social. Ou seja, mesmo entre os pobres, em cuja faixa se mostra mais presente atitudes solidárias, esse padrão de comportamento se manifesta, de forma cada vez mais intensa e com grau de radicalidade que beira o fascismo.

O ALTRUÍSMO

Um dos livros mais importante em minha trajetória como professor, graduado em história e doutorado em geografia, foi “O povo do lago”[1], escrito pelo paleoantropólogo Richard Leakey e o biólogo Roger Lewin. Tendo como cenário o lago Turkana, localizado nas fronteiras do Quênia e da Etiópia, na África, onde um importante sítio arqueológico – Koobi Fora – possibilitou que inúmeros vestígios sobre nossas origens fossem descobertos, esses pesquisadores conseguiram transmitir, de forma simples, em um relato de fácil compreensão até para os mais leigos, como nos constituímos enquanto seres humanos, nossa relação com a natureza e os caminhos em direção ao futuro.
Um de seus capítulos, e no qual foco meu olhar para essa abordagem, faz referência à forma como os hominídeos, nossos ancestrais primitivos, conseguiram sobreviver em meio a ambientes inóspitos, selvagens, embora fossem mais frágeis que seus adversários em uma natureza livre, onde se impunha a força e a condição de sobrevivência adequada à capacidade adaptativa.
É importante destacar como esses autores se referem, ao contrário do que tradicionalmente se via na história, à coleta como elemento mais importante na consolidação da vida sedentária, em comparação com a caça. Porque esta não era garantia de sucesso por todo o tempo, já que nos primórdios a ausência de instrumentos eficazes impedia que os grupos humanos, notadamente os machos, retornassem ao grupo trazendo animais abatidos. A coleta, desenvolvida pelas mulheres, tornou-se, assim, a garantia de alimentos diariamente, fazendo com que surgissem também os primeiros utensílios, as sacolas, para transportá-los. Constituía-se, portanto, como sociedade de coletoras-caçadores.
Mas, tanto em relação à caça, em muitos casos somente com obtenção de carniças, ou seja, dos restos de carcaças deixadas para trás por grandes animais, como também na coleta, o elemento primordial a se destacar, e seguramente o que garantiu a sobrevivência humana, foi o altruísmo.
O altruísmo, ou essa capacidade de compartilhamento e cooperação, adquirida pelos hominídeos, se tornou o elemento mais importante para explicar a nossa sobrevivência em cenários complexos e adversos. Pode-se dizer que o altruísmo foi a condição necessária para que pudéssemos evoluir nos protegendo em grupos e nos ajudando mutuamente.
Isso em grande medida saiu do caminho natural, espontâneo e de sobrevivência, para se tornar disperso entre grupos sociais, sendo mais forte naqueles segmentos mais pobres, nas periferias das cidades, ou nas igrejas e instituições criadas por essas, na medida em que a caridade se constituía como uma maneira de amenizar os pecados individuais.
Evoluímos para formas de organizações sociais que se fundamentaram na propriedade privada da terra, e depois dos meios de produção e da escravização dos indivíduos através da necessária venda de sua força de trabalho, condição a partir do advento do capitalismo para a própria sobrevivência individual. Com essa nova formação econômica e social a cooperação e a visão coletiva foram substituídas pela busca do sucesso individual, numa sociedade marcada cada vez mais pela competição, e nos tempos globalizantes, pela competitividade.
O altruísmo além de nos garantir a sobrevivência por viver em grupo e compartilhar o fruto do trabalho oriundo da caça e da coleta, foi também um forte elemento na constituição da família, e dos sentimentos de pertencimentos não só pelo lugar, pelo território, mas pelo outro. É no princípio desse sentimento que o ser humano aprende a cuidar de seus mortos e a dar aos seus corpos um destino que não fosse aquele de deixá-los ao tempo para ser consumido por aves de rapinas. O altruísmo foi fundamental na nossa formação enquanto núcleo social-familiar.

EMPATIA, SIMPATIA E ALTERIDADE

O altruísmo nos legou a empatia, algo que se manteve no ser humano, homens e mulheres, imbuídos do sentimento de poder sentir as dificuldades e os sofrimentos da outra pessoa, e, mais do que isso, saber compreender suas escolhas, seu jeito de ser, de colocar-se no seu lugar sem querer que esta assimile seu modo de ser e de pensar.
“A empatia implica a capacidade de nos posicionarmos no lugar do outro para compreendermos a sua realidade interna, independentemente da pessoa em questão, de estarmos ou não de acordo com ela ou de simpatizarmos ou não com ela. A empatia genuína está ao serviço da comunhão emocional, da aceitação e do respeito pelo outro e pela sua realidade, o que implica uma atitude de não julgamento e de despojamento de preconceitos do próprio”[2]
Empatia não é sinônimo de altruísmo, embora sejam palavras próximas uma da outra, porque, afinal, elas significam a necessária compreensão do entendimento com o outro. Se o altruísta se dispõe a ajudar, sob quaisquer circunstâncias, um semelhante por ver que há uma fragilidade que precisa ser apoiada, e ele pode fazer isso, a empatia garante que isso seja feito sem que se queira modificar o jeito de ser daquele indivíduo. A empatia significa que temos a capacidade de ajudar as pessoas independente de conhecê-las, ou de ter afinidades com ela, compreendendo o seu jeito de ser e se colocando no lugar desse outrem, mesmo sendo diferente de você, ou que pense diferente.
Uma pessoa que tenha empatia consegue sentir a dor da outra pessoa, buscando se colocar no lugar dela, e não tentando transferir para ela o seu jeito de lidar com aquela dor, procurando imaginar como essa pessoa está se sentindo nas condições dela, com as percepções e compreensões que ela tenha. É o transpor-se para o lugar do outro, sem querer trazê-lo para a maneira de você pensar. Isso é comum nas perdas de entes queridos. O sentimento de uma pessoa é único, a dor é irreparável e intransferível. Mas as vezes muitas pessoas, por suas crenças e fé, tentam transferir isso e procuram confortar o outro à sua maneira de ser e de ver aquele sentimento.
Nesse ponto é preciso encontrar a verdadeira relação que se estabelece. Se alguém não se coloca no lugar do outro e busca expressar um sentimento de carinho, solidariedade e respeito, e extrai isso de dentro de si por uma relação construída com base na amizade, o que temos é uma simpatia.
“Podemos entender a simpatia como um sentimento de afinidade com determinada pessoa, que leva o indivíduo a estabelecer uma harmonia no encontro com ela. Simpatizamos com amigos e com as pessoas com quem partilhamos afinidades, interesses e valores e nas quais reconhecemos alguma compatibilidade e complementariedade com o nosso funcionamento”.[3]
São portanto duas situações diferentes, em que uma requer uma relação construída por afinidades, ou mesmo uma característica própria de determinada pessoa que transborda em gentileza e deseja compartilhar esse sentimento, o que denota simpatia; e na outra situação, de empatia, uma transposição da condição e do seu jeito de ser e sentir, para outra pessoa que não necessariamente você a conheça, mas sente a necessidade de ajudá-la, ou de compreendê-la em suas posições, colocando-se no lugar dela, entendendo as circunstâncias na qual ela vive e aceitando a maneira dela viver e pensar. Nem sempre, pois, uma pessoa simpática tem empatia. Por que sua gentileza e afabilidade é uma característica própria que essa pessoa tenta transferir para o outro, mas ela pode ser incapaz de demonstrar sensibilidade com as condições em que o outro vive e aceitar a maneira como o outro é.
Entre esses dois sentimentos seria importante incluirmos outro, a alteridade. Esse é o sentimento que garante a aceitação do outro do jeito que ele é, por suas escolhas, por mais que seja diferente de você. A alteridade é o que nos garante respeito pelas diferenças e, por extensão, esse sentimento nos possibilita sermos tolerantes.
A empatia faz com que você se coloque no lugar da outra pessoa; a alteridade é a garantia de que respeitaremos aquela pessoa por mais diferente que ela seja de nós, ou para nós; e simpatia é o que nos faz ser afável e querido pela nossa amabilidade, por uma característica pessoal.

POR QUE ESSES SENTIMENTOS IMPORTAM EM NOSSO TEMPO

Ao olharmos para trás e analisarmos cada momento da história, veremos sempre desigualdades, riquezas acumuladas em meio a muita pobreza, o controle do poder por uma minoria e a política de pão e circo para aplacar a ira da maioria e mantê-la inerte. Mas o que nos faz diferente a cada uma dessas épocas, comparando grosso modo com a nossa maneira de viver nos dias de hoje? Seguramente vamos encontrar respostas diferentes e análises sociológicas e filosóficas que destoam uma da outra, mas que na junção delas podemos encontrar coerência. Principalmente se identificarmos sob qual olhar, dimensão ideológica, essa análise está sendo feita.
O olhar que tivermos desse espectro que nos rodeia indicará o tipo de sentimento que nutrimos, o grau de empatia que carregamos e se nos portamos, ou não, de maneira altruísta. A simpatia transita livremente entre essas situações. E a alteridade, normalmente vem acompanhada da empatia e do altruísmo.
O sistema capitalista é incapaz de potencializar esses sentimentos – empatia, altruísmo, alteridade – entre as camadas mais ricas da sociedade. Porque a base do enriquecimento, com raras exceções, embora elas existam, é a usura, a ganância e o egoísmo. A caridade, ou filantropia, advém de um sentimento religioso, uma condição criada pelos dogmas cristãos para transmitir a sua máxima de “amar a deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”.
Isso perpassou ao longo de séculos, milênios, mas se mantém dentro desses princípios até os dias de hoje. E os seus atos representam muito mais um alívio para a alma de um cristão, ou quem pratica o espiritismo, do que uma reparação diante das condições de miséria que tantos se encontram. Tanto que você pode, e deve, ser caridoso, mas jamais pode se atrever a defender a distribuição da riqueza a fim de reduzir as desigualdades sociais.
Mas, há exceção, naturalmente. Aos que assim se comportam restará o uso, tornado “pejorativo”, do termo “comunista”. Cuja palavra advém, aliás, de “comum união”, ou “comum unidade”, muito dito e difundido nos primórdios do cristianismo, entre as comunidades pobres. Isso levou a uma frase de indignação e espanto, do arcebispo católico pernambucano, D. Hélder Câmara (1909-1999), diante da hipocrisia e falta de empatia da sociedade: “Quando dou comida aos pobres me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, me chamam de comunista”.
O altruísmo e a empatia são elementos que compõe a natureza da forma de viver solidariamente, em distribuir o produto do trabalho como ele foi feito e desenvolvido em cooperação, por meio de trocas e de respeito mútuo à condição de ser de cada um.
Alguém que destila o ódio, arrota intolerância, destrata os mais fragilizados socialmente e não aceita a condição de ser do outro, não possui o mínimo de empatia. Se é um governante, então, essa característica fica visível em seus atos governamentais, nas ações e políticas que se opõe à aceitação dessas diferenças e de maneira de viver que sejam distintas daquelas padronizadas culturalmente por uma sociedade abjeta (por ser hipócrita) e desigual. Esse indivíduo, escolhido pelo próprio povo para lhe representar, traduz o comportamento e os valores culturais de quem o escolheu.
E isso nos desafia a compreender as razões pelas quais as pessoas pobres, que vivem em ambientes horríveis, insalubres, despossuídas de qualquer condição humana digna, se apega aos sentimentos que são opostos às suas condições nessa sociedade. E como aqueles que se apegam ao deus do cristianismo se opõem a tudo que originalmente fez nascer uma das maiores religiões do mundo, a busca por um mundo solidário e de comum união?
Seria incompreensível se não soubéssemos que esses valores são adquiridos, por meio de instrumentos culturais, pela religião, pelas condições de existência dessas pessoas, fragilizadas e entregues a messianismos e charlatanismos. A escolha advém desses mecanismos ideológicos que os conformam e extraem de si aqueles elementos que podiam fazer a diferença e os levarem para uma luta que mirasse uma sociedade fundada no cooperativismo, no solidarismo, na empatia, na alteridade e no altruísmo. Nem sempre a lógica funciona nesses casos, não estamos tratando de ciências exatas, mas de ciências humanas, da sociabilidade e dos instrumentos que nos cerceiam e nos amarram enquanto cidadãos coletivos.
Quero finalizar com duas frases que cito sempre. Uma de Heráclito de Éfeso, filósofo da antiguidade que primeiro soube apresentar a maneira dialética de olhar o mundo: O CARÁTER DE UM INDIVIDUO É O SEU CAMINHO. Compreendendo que o caráter é moldado pelos valores que são incorporados à sociedade por mecanismos criados pela classe dominante.
Ou podemos romper com esses valores e seguir por outro caminho. Isso vai depender do caráter que construirmos em nós mesmos. Aí servirá a frase dita por Karl Marx: "Não é a consciência dos homens que determina seu ser, mas, pelo contrário, seu ser social é que determina sua consciência". Daí porque adquirir consciência de classe é tão importante. Por aí traçamos nosso caminho, e o nosso destino.
O que nos leva a constatar que nem tudo se resume a uma questão de caráter.




NOTAS:

[1] LEAKEY, Richard e LEWIN, Roger. O Povo do Lago. Brasília: Editora UnB, 1996.
[3] IDEM

OUÇA TAMBÉM O TEXTO EM VÍDEO NO MEU CANAL NO YOU TUBE:

https://www.youtube.com/watch?v=acTmtps9wvc&t=3s

segunda-feira, 21 de maio de 2018

SOBRE AS CARACTERÍSTICAS DO NAZISMO - O QUE EXPLICA HAVER "SOCIALISMO" NO NOME DO PARTIDO DE HITLER E AS CONFUSÕES DAS "FAKE NEWS"

Por: Romualdo Pessoa

- O Nazismo foi um movimento de Esquerda?
Negativo. De forma nenhuma. Quem tem alguma dúvida sobre isso desconhece por completo a história. A esquerda, principalmente os comunistas, foram os principais alvos de Hitler logo no começo de sua jornada para consolidar o poder que havia sido conquistado. Naquela época o movimento comunista estava em ascensão, assim como a social-democracia. A divergência entre esses dois segmentos terminou por abrir a possibilidade da ascensão de Hitler, na medida em que, em função de uma crise econômica terrível – consequência da grande depressão mundial da década de 1930 – a população alemã não se sentia protegida pelo governo. Numa situação dessas é normal que sempre surja alguém, ou algum grupo, com um discurso de ódio, duro, sectário e moralista. Assim fez Hitler, somando-se a uma capacidade de oratória que ele tinha. Mas o que garantiu a sua ascensão, além desse quadro político e econômico, foi também o fato de a burguesia não ter, naquele momento, outra opção. Assim o establishment do Estado alemão optou por entregar o poder a quem para eles seria mais confiável. Repito, num quadro em que a esquerda estava em ascensão motivada pela conquista e ampliação do poder na Rússia, então transformada em União Soviética. É bom que se diga que tão logo tomou um poder, e responsabilizar um indivíduo holandês, que seria do Partido Comunista, pelo incêndio do parlamento alemão, Hitler iniciou uma verdadeira caçada a todos os comunistas. Mas nunca houve prova de que isso tivesse sido uma articulação dos comunistas. No entanto, serviu de pretexto para dar início a uma ditadura e botar em prática os planos de Hitler da construção de uma nação de raça pura. Aliás, entre os que eram considerados de raça impura estavam os comunistas, negros, homossexuais, ciganos, pessoas com algum tipo de deficiência, portanto não somente os judeus.
Incêndio do Parlamento Alemão -
Reichstag (1933)
- Porque muitas pessoas na internet costumam espalhar essa informação?
Porque a principal característica das gerações atuais é o desconhecimento da história. Assim fica fácil plantar uma mentira, difundi-la repetidamente e esperar que uns tolos acreditem e compartilhem. Vivemos a época das “Fake News”. As redes sociais se tornaram canais de expressão de ignorância, intolerância e estupidez. Apegam-se ao fato da denominação do partido de Hitler.
- Por que o partido de Hitler tinha "socialismo" no nome?
Porque o socialismo estava em ascensão e o capitalismo em crise profunda, com a grande depressão. O socialismo conquistara corações e mentes nas enormes dimensões russas e na Europa, com o advento da Revolução Bolchevique, e também as próprias experiências em curso nos EUA, para tentar tirar o país da crise econômica, tinham no planejamento do estado socialista os melhores exemplos para isso. O Walfare State, que surge logo depois da guerra bebeu na fonte do socialismo. Agora a denominação do partido, como “Nacional-Socialista, dos trabalhadores alemães” era pura retórica. Da mesma maneira como vemos hoje aqui no Brasil partidos de direita e de centro-direita usarem o nome trabalhista e socialdemocrata. Suas políticas não são voltadas para os trabalhadores, embora suas retóricas enganem com denominações assim. Mas o que define as posições são as defesas de uma sociedade menos desigual econômica e socialmente, mais solidária e com distribuição de riquezas, de forma clara na sua aplicação e não somente no nome ou no discurso. Isso é o que diferencia “direita” de “esquerda”.
- Quais as características que definiam ou não o nazismo como direita ou esquerda?
O nazismo é um regime totalitário, que abomina a democracia e refuta a diversidade. Para as concepções nazistas o que faz as pessoas diferentes do padrão que eles consideram normais, constituem-se em deformidades que precisam ser extirpadas. É um regime que se propunha a atender a uma parcela minoritária da sociedade e a tratar os trabalhadores, principalmente aqueles de origem pobre, africana e asiática, como excrescência. No caso dos judeus haviam outros elementos, além daqueles que fizeram deles párias das sociedades desde a diáspora do mundo antigo por conta das questões religiosas. A Alemanha estava em crise, absolutamente falida e humilhada. A perseguição aos judeus, apesar dos argumentos utilizados que iam nessa direção da questão religiosa, se dava muito pela necessidade de pilhar aqueles que possuíam grandes riquezas. Os judeus eram pessoas bem sucedidas, em sua maioria, em uma sociedade absolutamente falida. Hitler saqueou praticamente toda a riqueza dos judeus e a incorporou ao Tesouro do Estado alemão. Mas, sempre, nazismo e comunismo se opuseram com profundas diferenças. Afirmar que o movimento comunista prega um Estado totalitário é também desconhecer a história desse movimento, que defende, sim, que num primeiro momento haja a conquista do Estado com a centralização do Poder, mas isso se dá pela necessidade de esse Estado atender ao que é essencial, distribuir a riqueza, diminuir as desigualdades sociais e caminhar para uma transição onde ele, o Estado, não seja mais necessário. Claro que ocorreram distorções e problemas nesse percurso, e erros foram cometidos levando a um fracasso nesse objetivo. Mas o nazismo é o oposto, assume a condição de um movimento avesso à democracia popular, menospreza pobres, trabalhadores e mulheres, e sempre teve o apoio da burguesia e das grandes empresas e corporações.
A maior batalha da 2ª Guerra se deu entre
alemães e soviéticos, em Salingrado.
- O que mais as pessoas precisam saber para que essa informação esteja clara?
Conhecer a História. As pessoas não estudam mais como antes. Submetem-se a leituras curtas e rápidas, sem dar importância às fontes, às origens daquelas notícias, não pesquisam para saber se o que está repetindo e compartilhando é verdade ou não e passam a assimilar mentiras como se fosse verdades. E aí, depois que assumem essa condição, de compartilhar inverdades, passa a acreditar fielmente naquilo. Assim seu cérebro vai sendo condicionado e suas posições assumem características radicais e intolerantes. Essa é uma situação que boa parte do mundo vive hoje, e que alguns chamam de “Pós-Verdade”, como sendo uma etapa posterior à “Pós-Modernidade”. A pós-verdade é aquele momento em que as pessoas, diante de condições socioeconômicas e políticas complicadas, e diante de crises inclusive identitárias, passam a ver somente diante de si uma realidade, aquela que ele construiu para si próprio a partir de leituras feitas sem embasamento e que se tornam crenças irredutíveis. Ele não consegue ouvir mais o contraditório, e passa a rejeitar qualquer outra explicação para aquele fato que ele crê como sendo a pura verdade. É um ambiente de intolerância.
Saber lidar com o conhecimento de forma a não ver uma opinião como definitiva, estar aberto para o contraditório, acreditar que as coisas podem ter mudanças positivas a partir do entendimento entre as partes, enfim, ser tolerante em suas posições, ajuda as pessoas a ter uma visão mais clara sobre a realidade. Mas, acima de tudo, olhar para o passado. As pessoas ficam procurando enxergar o futuro, quando ele sequer existe e sua possibilidade depende do presente. Só que a melhor maneira de aprendermos e evitarmos a repetição dos erros, ou pegar bons exemplos para seguir, é mirando-se no passado, conhecendo a história. Como dizia Eduardo Galeano, “A história é um profeta com o olhar voltado para trás. Pelo que foi, e contra o que foi, anuncia o que será”.


(*) Íntegra da entrevista concedida ao à Jornalista Fernanda Kalaoun, do Jornal Diário de Aparecida.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

OUTUBRO! EM 1917, HÁ 100 ANOS, TREZE DIAS ABALARAM O MUNDO

Outubro! Mais do que um mês, esse nome simboliza uma virada na história. Embora pelo calendário antigo (Juliano) – são treze dias de diferenças do atual (Gregoriano) –, neste mês ficou marcado um dos mais importantes acontecimentos do Século XX, que alterou pelas décadas seguintes a configuração geopolítica do mundo. De 26 de Outubro a 7 de novembro de 1917. São treze dias de um calendário para outro. Treze dias que abalaram o mundo (claro que estou fazendo uma leitura temporal livre).
Impressionado com esse importante fato histórico, e já envolvido com uma militância política no movimento estudantil, eu não tive dúvidas na hora de escolher o nome da chapa com a qual eu concorreria à presidência do Centro Acadêmico de História da UFG. O ano era 1982, e ainda vivíamos a ditadura militar, mas já com uma tênue abertura política em função dos desgastes que enfraqueceram o governo dos militares. Naquele ano aconteceram as primeiras eleições para governadores após o golpe militar de 1964.
Mas independente desse enfraquecimento, nós que estávamos na universidade, não temíamos assumir nossas posições ideológicas. E no curso de História respirávamos rebeldias. Quase unanimemente as lideranças do movimento estudantil se posicionavam à esquerda no espectro geopolítico da guerra fria. E aqui no Brasil a ditadura, por sua própria característica cerceadora das liberdades individuais, tornava essa escolha óbvia para boa parte da juventude universitária. Principalmente nos cursos de Ciências Humanas, embora não somente nestes.
Por isso a Revolução Russa era impactante. Ela representava um anseio de liberdade, que vinha acompanhado da crítica ao capitalismo, pelo seu caráter opressor e fomentador de perversas desigualdades sociais.
Enfim, a paixão por esse fato histórico impactante ocorrido em 1917, mas no mesmo mês em que ocorreriam as eleições para o Centro Acadêmico, naquele momento 65 anos depois, nos levou a escolha do nome da chapa: OUTUBRO! Não houve divergência, e também não teve concorrência. A eleição ocorreu com chapa única, e o slogan, igualmente ousado, mais do que nos inspirar refletia o nosso sentimento: “Outros Outubros virão!”
No entanto, tínhamos opiniões diferentes quanto aos rumos das transformações geradas por aquela revolução, que transformou a Rússia na União Soviética e colocava em prática as ideias e teorias do socialismo, apresentadas pelas formulações de Marx, Engels e outros que se destacaram na crítica ao capitalismo no século XIX.
A Revolução Russa nos unia enquanto instrumento de transformação social, era a nossa inspiração, juntamente com a Revolução Cubana, mas nos dividia quanto aos rumos e métodos adotados na consolidação do estado socialista e de como ele influenciaria nos rumos da revolução mundial. As divisões que viriam a ocorrer nos períodos que se seguiram no processo de consolidação do governo revolucionário, se mantiveram como uma chaga na esquerda, e se refletem nos dias atuais.
Era natural que acontecessem as cisões. Somente mergulhando no entendimento do que era a complexidade da Rússia naquela época para compreender por que. Não bastassem as dificuldades naturais de um país com as dimensões russa se recompor de um processo de deposição de governo por meio violento, de uma ação revolucionária; de estar em meio a uma guerra mundial (1914-1918); e de logo em seguida enfrentar uma guerra civil que durou cinco anos, a saúde de Vladimir Ilitch Lênin não permitiu que ele liderasse por mais tempo o governo bolchevique soviético. Com sua morte prematura (1924) diante da construção de um poder socialista do qual foi o principal arquiteto, fez com que acentuasse as divergências internas, antecipando uma disputa pelo controle da direção do partido e do Poder na URSS.
As diferenças que foram explicitadas a partir daí acompanharam o movimento marxista internacional de forma indelével, e representam as principais razões porque é tão difícil uma unificação dos grupos, organizações e partidos que se dizem herdeiros do espólio leninista.
Mas não desejo aqui fazer análise dessas divisões. Particularmente me situo em um desses lados ideologicamente, mas compreendo que a radicalidade desse desentendimento e a conjuntura política mundial dominada pela guerra fria, nos fez adotar um comportamento refratário às críticas que se faziam ao burocratismo e excesso de centralidade nas decisões, funcionando na lógica de que as direções não erram, acentuando vaidades e enxergando inimigos em qualquer um que ousasse emitir opiniões críticas ou contrárias àquelas encaminhadas pelos dirigentes. A bipolaridade mundial no âmbito da geopolítica refletia-se internamente nos partidos, que sofriam de outro tipo de bipolaridade e, mais grave, de uma esquizofrenia crônica, que levou à perseguições e prisões de muitos daqueles que estiveram à frente da revolução.
Embora eu considere compreensível que o poder soviético devesse exigir bastante disciplina, em função da realidade vivida, de extrema dificuldade de lidar com a transição para o socialismo e tendo que enfrentar um cerco dos países ocidentais, liderados pelos Estados Unidos, então potência em ascensão, seguramente houve excesso no tratamento de questões muito sensíveis a uma população miserável como a russa daquele momento. É bem verdade que não haveria tratamento mais ameno, caso houvesse sido consagrado o grupo que fazia oposição àquele liderado por Stálin. A começar pelo comportamento mais agressivo de Trotski na relação com o campesinato. A bem da verdade, o grupo estalinista era considerado à direita de Lênin, principalmente por tomar atitudes mais diplomáticas em determinadas situações. O exemplo claro disso é toda a polêmica em torno do tratado de Brest-litovsk, cujo comportamento de Trotski levou a um acordo em piores situações do que o inicialmente proposto e definido por Lênin. Enquanto Stálin era mais pragmático, embora duro em suas decisões, Trotski adotava uma postura mais sectária e refratária à determinadas alianças que pudessem ser vistas como ideologicamente nocivas à consolidação das transformações socialistas. Ademais, e esse era um aspecto crucial das divergências que despontavam e que se seguiram, Stálin considerava a necessidade de fortalecer a revolução e construir o socialismo na União Soviética, para só depois se buscar ampliá-la para outros países. Trotsky, e os trotskystas, desejavam que a revolução se espalhasse imediatamente, já que não acreditavam que fosse possível construir o socialismo em um país isoladamente, e pregavam a revolução mundial.
Essas divergências se acentuariam com a morte de Trotski, no México, para onde foi exilado após os chamados expurgos dos processos de Moscou, onde por determinação do Comitê Central do PCUS, foram analisados casos em que certos comportamentos e ações, inclusive de dirigentes, foram considerados traições. Seu assassinato foi atribuído a um agente disfarçado a serviço da URSS. Embora outras versões indiquem que se tratou de um crime passional, devido a Trotsky ter se tornado amante da companheira do assassino. São versões que servem ideologicamente para justificar o maniqueísmo, mas há evidências da radicalidade que tomou as divergências existentes entre os dois grupos, e de que isso incomodava os dirigentes soviéticos.
De certo é que isso se espalhou por todos os cantos do mundo, e paralelo à guerra fria que opunha os dois mundos, capitalismo x socialismo, acentuavam-se as divergências entre as duas principais correntes que existiu no processo da revolução soviética dentro do PCUS. Mas isso já vinha desde as divisões entre mencheviques e bolcheviques no antigo Partido Operário Social Democrata Russo (POSDR), afinal, Trotsky era uma liderança menchevique que aderiu aos bolcheviques ainda antes do eclodir da revolução. Essas divergências nunca foram sanadas, mas enquanto se deu o processo revolucionário estiveram juntas na destruição da Rússia czarista e ambas foram responsáveis, portanto, por um momento ímpar na história mundial, quando de forma organizada um ideal de sociedade foi implantado, seguindo-se as teorizações feitas desde a elaboração do Manifesto do Partido Comunista e da constituição da Associação Internacional dos Trabalhadores, que foi o embrião da Internacional Comunista, e que teve como protagonistas principais Karl Marx e Friederich Engels.
É absolutamente impossível tentar entender a Revolução Russa, bem como todas as divergência que se seguiram na construção do socialismo e da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, sem o entendimento da conjuntura política daquele momento, e das transformações que aconteceram após esse fato e o fim da segunda guerra mundial. Mas, inegavelmente, coube a Vladimir Ilyich Ulyanov, conhecido como Lênin, não somente apontar o momento preciso do golpe fatal que derrubou o governo dos Romanov, como também, logo depois de seu retorno à Rússia e seu desembarque na Estação Finlândia, comandar e liderar a reação dos operários, trabalhadores, soldados, camponeses na tomada dos poderes, ocupação das fábricas e das terras. E foi exatamente na relação com os camponeses, e na definição do cooperativismo e coletivismo, que a radicalidade levou a um extremo que significou um confronto sangrento que se seguiu ao final da guerra civil. Boa parte dessas dificuldades foram enfrentadas por Lênin, mas sua morte prematura certamente influenciou na forma como os confrontos seguintes aconteceram, bem como no tratamento com as divergências internas no PCUS.
A ascensão de Stálin ao poder foi certamente polêmica. Suas características divergiam da forma de agir de Leon Trotyski. Mas a ascensão do nazismo o transformou numa liderança forte, numa condição necessária para conter os avanços da Alemanha e, ao mesmo tempo, realizar todo um processo de transformação interna que colocasse a URSS em condições de impedir que Hitler conseguisse o objetivo de ocupar o território soviético. E isso aconteceu, fazendo com que os soviéticos, muito embora registrassem as maiores perdas durante a guerra, em especial no cerco à Stalingrado, fossem fundamentais na derrota do nazismo e na ocupação de Berlim, pondo fim a segunda guerra mundial.
Pode-se dizer então que o que tornou Stálin um dirigente forte, foi não tão somente seu estilo e a rígida disciplina imposta, como também o medo da URSS sucumbir aos avanços nazistas. O resultado desse embate, seguramente, fortaleceu o poder de Joseph Stálin, como também elevou a União Soviética a segunda maior potência do planeta, e iniciando um processo de rivalidade com os Estados Unidos, conhecido como Guerra Fria, que durou do final da segunda guerra mundial até 1991, momento em que a crise no países socialistas atingiu em cheio a potência comunista, fragmentando o que foi um grande império, que exportava sua revolução a outras partes do mundo, embora não tenha conseguido firmar para todo o mundo o ideal do socialismo.
Após cem anos, o legado da revolução soviética continua forte. Foi experimentado quase que em circunstâncias parecidas, mas com proporções diferentes, em Cuba e na China. E, vem a ser este país aquele que na mudança para o século XXI passou a se constituir como o principal exemplo vivo daqueles ideais. De Mao Zedong a Xi Jinping, embora mesclado com uma economia de mercado, o socialismo ao estilo chinês se consolida, pelas mãos do Partido Comunista Chinês, e fortalece-se enquanto uma referência para quem deseja identificar um modelo que possa ser alternativa ao capitalismo.
A experiência russa, inspirada na Revolução Francesa e na Comuna de Paris, seguirá espelhando outros exemplos conquanto se acentue a crise que afeta rotineiramente o sistema capitalista. Mas, como a ideologia dominante se impõe, aberta ou rasteiramente, os desvios, perversidades e egoísmos que marcam o sistema hegemônico mundialmente, não são identificados como problemas sistêmicos. E a cada momento em que uma voz destoante à esquerda aponte esses desvios, imediatamente os conservadores e reacionários buscam no medo identificar o socialismo e o comunismo como responsáveis pelas desgraças do mundo. No entanto, é visível que isso ocorre como uma óbvia contradição na forma de funcionamento do capitalismo, baseado na ganância e na usura, e tendo no individualismo e no consumismo o motor que nos encaminha em direção a um abismo.
Resta repetir as frases que embalaram os movimentos que levaram até à revolução russa e ainda se mantém atuais: “Trabalhadores de todo mundo, uni-vos”, e... “Abomináveis na grandeza,/Os reis da mina e da fornalha/Edificaram a riqueza/Sobre o suor de quem trabalha!/Todo o produto de quem sua/A corja rica o recolheu./Querendo que ela o restitua,/O povo só quer o que é seu!” (A Internacional. Por muito tempo o hino da União Soviética).
Outros Outubros virão!

sexta-feira, 28 de março de 2014

A GEOGRAFIA DO MANIFESTO

Por David Harvey(*)
Publicado em (**):

É imperativo reacender as paixões políticas presentes no Manifesto. Eis um documento extraordinário, cheio de insights, rico em sentidos e explodindo em possibilidades políticas. Embora não tenhamos o direito de o alterar, temos a obrigação de interpretá-lo à luz das condições contemporâneas. Marx e Engels escreveram, no prefácio à edição alemã de 1872, que a aplicação dos princípios do Manifesto dependeria, “em todos os lugares e em todas as épocas, das condições históricas vigentes” (p.71).
Sem expansão geográfica, reorganização espacial e desenvolvimento geográfico desigual, o capitalismo teria parado de funcionar há muito tempo. A procura contínua de um “ajustamento espacial” para as contradições internas do capitalismo, junto com a inserção desigual dos diferentes territórios e formações sociais no mercado mundial capitalista, tem criado uma geografia histórica mundial da acumulação capitalista, cuja natureza precisa ser bem compreendida. Vale a pena examinar como Marx e Engels conceituaram o problema no Manifesto Comunista.
*
A abordagem que fazem é profundamente ambivalente. Por um lado, as questões da urbanização, da transformação geográfica e da “globalização” ocupam um lugar importante na exposição. Mas, por outro, as ramificações potenciais das restruturações globais tendem a se perder em uma retórica que privilegiam o tempo e a historia em detrimento do espaço e da geografia.
O Manifesto é, sem dúvida, eurocêntrico. Mas a importância do contexto global não é ignorada. O surgimento da burguesia é intimamente ligado a suas atividades e estratégias:
“A grande indústria criou o mercado mundial, preparado pela descoberta da América. O mercado mundial acelerou enormemente o desenvolvimento do comércio, da navegação, dos meios de comunicação. Este desenvolvimento reagiu por sua vez sobre a expansão da indústria; e à medida que a indústria, o comércio, a navegação, as vias férreas se desenvolviam, crescia a burguesia, multiplicando seus capitais e colocando num segundo plano todas as classes legadas pela Idade Média.” (p.41)
A burguesia ultrapassou os poderes feudais e transformou o Estado (com os seus poderes militares, organizacionais e financeiros) no executivo das suas próprias ambições. Uma vez instalada no poder, continuou sua missão revolucionária em boa parte através de transformações geográficas. Internamente, a rápida urbanização levou à dominação da cidade sobre o campo, simultaneamente salvando-o da “estupidez” da vida rural e reduzindo o campesinato a uma classe subordinada. A urbanização concentrou espacialmente tanto as forças produtivas quanto a força de trabalho, transformando populações espalhadas e sistemas descentralizados de direitos à propriedade em concentrações maciças de poder político e econômico. E depois:
“Impelida pela necessidade de mercados sempre novos, a burguesia invade todo o globo terrestre. Necessita estabelecer-se em toda parte, explorar em toda parte, criar vínculos em toda parte.
Pela exploração do mercado mundial, a burguesia imprime um caráter cosmopolita à produção e ao consumo em todos os países. Para desespero dos reacionários, ela roubou da indústria sua base nacional. As velhas indústrias nacionais foram destruídas e continuam a ser destruídas diariamente. São suplantadas por novas indústrias, cuja introdução se torna uma questão vital para todas as nações civilizadas — indústrias que já não empregam matérias-primas nacionais, mas sim matérias-primas vindas das regiões mais distantes, e cujos produtos se consomem não somente no próprio país mas em todas as partes do mundo.  Ao invés das antigas necessidades, satisfeitas pelos produtos nacionais, surgem novas demandas, que reclamam para sua satisfação os produtos das regiões mais longínquas e de climas os mais diversos.
No lugar do antigo isolamento de regiões e nações auto-suficientes, desenvolvem-se um intercâmbio universal e uma universal interdependência das nações. E isto se refere tanto à produção material como à produção intelectual. As criações intelectuais de uma nação tornam-se patrimônio comum. A estreiteza e a unilateralidade nacionais tornam-se cada vez mais impossíveis; das numerosas literaturas nacionais e locais nasce uma literatura universal.” (p.43)
Aliás, a burguesia:
“Sob pena de ruína total [...] obriga todas as nações a adotarem o modo burguês de produção, constrange-as a abraçar a chamada civilização, isto é, a se tornarem burguesas. Em uma palavra, cria um mundo à sua imagem e semelhança.” (p.44)
A temática da globalização e da “missão civilizadora” da burguesia é explicada, embora com um toque irônico. Mas, se a missão geográfica da burguesia é a reprodução das relações de classe e de produção numa escala geográfica de progressiva expansão, então as bases para as contradições internas do capitalismo e a revolução socialista também se expandem geograficamente. A conquista de mercados abre o caminho para “crises mais extensivas e mais destrutivas,” enquanto simultaneamente “diminuem os meios de prevenir as crises”. A luta de classes começa a ser global; trabalhadores de todos os países tem que se unir numa luta revolucionária anticapitalista e pró-socialista.
Existem vários problemas nesta explicação. Eles precisam ser resolvidos se quisermos desenvolver uma compreensão politicamente útil de como a geografia da acumulação do capital ajuda a perpetuar o poder da burguesia e suprimir os direitos e aspirações dos trabalhadores.
1.
A divisão do mundo em nações “civilizadas” e “bárbaras” é anacrônica, senão positivamente ofensiva, ainda que possa ser perdoada como típica da época. O modelo centro-periferia de acumulação que a acompanha é, na melhor hipótese, uma simplificação excessiva e, na pior, enganoso. Ele faz parecer que o capital se origina em um lugar (a Inglaterra ou a Europa) e depois se difunde para fora, atingindo o restante do mundo. Embora, às vezes tenha sido o caso, tal explicação é contrária ao que aconteceu no Japão depois da restauração Meiji ou o que está acontecendo hoje em dia em países como Coréia do Sul e a China, que internalizam a acumulação primitiva e inserem as suas forças de trabalho e produtos nos mercados globais. A geografia da acumulação de capital merece um tratamento muito mais elaborado do que o esboço rápido provido pelo Manifesto. A falta de uma teoria geográfica do desenvolvimento desigual (com frequência envolvendo acumulação primitiva desigual) impede a compreensão da dinâmica da formação da classe operária e da luta de classes no espaço global.
O mundo não se apresenta como um tabuleiro sobre o qual a acumulação do capital jogou o seu destino. É uma superfície muito variada, diferenciada ecológica, política, social e culturalmente. Os fluxos do capital encontram alguns terrenos mais fáceis de ocupar do que outros, em diferentes fases de desenvolvimento. O contato com o mercado global capitalista levou algumas formações sociais a se inserirem agressivamente, enquanto outras não o conseguiram, com efeitos extremamente importantes. A acumulação primitiva ou “original” pode acontecer e tem acontecido em lugares e tempos diferenciados. Como e onde acontece depende das condições locais, ainda que os efeitos sejam globais. Hoje é crença generalizada no Japão, por exemplo, que o sucesso comercial do país após 1960 deveu-se, em grande parte, à posição isolada e não competitiva da China depois da revolução e que a inserção contemporânea do poder chinês no mundo capitalista significa o fim para o Japão como um país produtor, ao contrário de uma economia rentista. Uma contingência geográfica deste tipo tem um papel importante na história do mundo capitalista. Aliás, o caráter global da acumulação do capital cria o problema de um poder burguês disperso que pode ser muito mais difícil de controlar geopoliticamente precisamente por causa de sua multiplicidade geográfica. O próprio Marx se preocupava com esta possibilidade. Em 1858, escreveu:
“Para nós a pergunta difícil é a seguinte: a revolução no continente é iminente e o seu caráter será socialista; não será necessariamente esmagada neste pequeno canto do mundo, sendo que em um terreno muito maior o desenvolvimento da sociedade burguesa é ainda ascendente”. [Correspondência com Engels, 8 de outubro de 1858]
É instrutivo refletir sobre o número de revoluções socialistas que foram cercadas e esmagadas pelas estratégias geopolíticas de um poder burguês em ascendência.
2.
O Manifesto corretamente destaca a importância de reduzir as barreiras espaciais através de inovações e investimentos em transporte e comunicação. Neste sentido, o Manifesto é de uma extraordinária presciência. “A aniquilação do espaço através do tempo”, como Marx o chamou posteriormente [Grundrisse], enfatiza a relatividade das relações espaciais e vantagens geográficas, fazendo da vantagem comparativa no comércio um assunto muito dinâmico, em vez de estável.
3.
Uma das maiores lacunas do Manifesto é a sua falta de atenção para a organização territorial. Se, por exemplo, o Estado é “o braço executivo da burguesia”, então ele tem que ser definido, organizado e administrado territorialmente. O século dezenove foi um grande período de definições territoriais (com o estabelecimento da maioria das fronteiras do mundo entre 1870 e 1925 pelos poderes coloniais). Mas a formação e a consolidação do Estado envolve mais do que a definição territorial e tem se mostrado uma tarefa longa e muitas vezes instável (em particular, por exemplo, na África). Foi só depois de 1945 que a descolonização tornou a formação mundial do Estado um pouco mais próxima do modelo altamente simplificado do Manifesto.
4.
O Estado é só uma das muitas instituições mediadoras que influi na dinâmica da luta mundial de classes. O dinheiro e as finanças também têm que ser consideradas. Mas o Manifesto não se pronuncia a este respeito. Temos duas maneiras de aprofundar a questão. O dinheiro mundial (world money) pode ser visto como uma representação universal com a qual os territórios se relacionam (através das suas próprias moedas) e os capitalistas se conformam. Este é um ponto de vista muito funcionalista (é a concepção dominante na ideologia neoclássica contemporânea da globalização). Ou o dinheiro pode ser visto como uma representação do valor que surge de uma relação dialética entre trabalhos concretos feitos em lugares e tempos específicos e a universalidade de valores (trabalho abstrato) conseguida na medida que a troca de mercadorias se efetua como um ato social corriqueiro no mercado mundial. Bancos centrais e outras instituições financeiras mediam esta relação. Muitas vezes são instáveis (e baseadas territorialmente), sugerindo uma relação problemática entre condições locais e os valores universais. Mas estas instituições também afetam trabalhos concretos e relações de classe formam padrões de desenvolvimento geográfico desigual através de seu comando sobre a formação e os fluxos de capital.
5.
O argumento de que a revolução burguesa plantou a semente de uma maior unidade política da classe operária através da urbanização e a concentração da indústria é importante. Diz que a produção da organização espacial não é neutra com respeito à luta de classes. Este é um princípio vital, não importa quanto sejamos críticos com respeito ao modelo de três etapas desenhado no Manifesto. Estas etapas são
1    a luta individual que começa a se coletivizar ao redor de fábricas, profissões e lugares específicos;
2    a unificação de muitas destas lutas através da concentração de atividades e a formação de sindicatos que começam a se comunicar um com o outro;
3    a emergência da luta de classes ao nível nacional.
Durante a maior parte do século dezenove, este modelo descreve um caminho bastante comum do desenvolvimento da luta de classes. E trajetórias parecidas podem ser percebidas no século vinte (por exemplo, Coréia do Sul). Mas uma coisa é retratar isto como um modelo descritivo útil e outra é argumentar que estas são etapas necessárias através das quais a luta tem que evoluir rumo à construção do socialismo. Aliás, a burguesia pode desenvolver estratégias espaciais próprias de oposição de classe.
O ataque atual contra o poder sindical através da dispersão e fragmentação espacial de processos de produção (muitos deles, está claro, indo para os assim chamados países em desenvolvimento, onde a classe operária é mais fraca) tem se mostrado uma arma poderosa para a burguesia. O estímulo ativo à concorrência entre os trabalhadores através do espaço também tem ajudado aos capitalistas, sem falar do problema do regionalismo e do nacionalismo nos movimentos operários.
Em geral, os movimentos operários têm tido mais sucesso controlando poder em lugares e territórios do que controlando espacialidades. A classe capitalista tem usado os seus poderes de manobra para derrotar as revoluções proletárias/socialistas, que sempre estiveram ligadas a um lugar (conforme a preocupação de Marx em 1858, citada acima). Nada disso é incompatível com o argumento básico do Manifesto. Mas também é claro que se trata de algo muito diferente do retrato que ele constrói sobre a dinâmica da luta de classes.
6.
Embora a unidade global da classe operária ainda fique como a única resposta apropriada às estratégias globalizantes de acumulação de capital, a maneira de conceituar esta resposta merece um estudo crítico. No núcleo do argumento do Manifesto está a crença que a indústria moderna e o trabalho assalariado têm tirado dos trabalhadores “todo traço de caráter nacional”, com o resultado de que “os trabalhadores não têm pátria”.
“Os isolamentos e os antagonismos nacionais entre os povos desaparecem cada vez mais com o desenvolvimento da burguesia, com a liberdade de comércio, com o mercado mundial, com a uniformidade da produção industrial e com as condições de existência a ela correspondentes. A supremacia do proletariado fará com que desapareçam ainda mais depressa. A ação comum do proletariado, pelo menos nos países civilizados, é uma das primeiras condições para sua emancipação. À medida que for suprimida a exploração do homem pelo homem será suprimida a exploração de uma nação por outra.”
A visão condutora é bastante nobre, mas existe muito de pensamento desejo aqui. No melhor dos casos, o Manifesto concede que a estratégia socialista vai “ser diferente em países diferentes” e que problemas podem surgir na tradução de ideais políticos de um contexto a outro — os alemães adaptaram ideias socialistas francesas às suas próprias circunstâncias, criando um tipo de socialismo alemão que Marx criticou de forma contundente.
Existe uma sensibilidade limitada com respeito às condições materiais desiguais e às circunstâncias locais. Mas a tarefa dos comunistas é conferir unidade a estas lutas, definir os pontos comuns dentro das diferenças e criar um movimento onde os trabalhadores do mundo possam se unir.
O Manifesto insiste, com toda razão, que a única maneira de resistir ao capitalismo e construir o socialismo é através da formação global da classe operária, o que talvez possa ser alcançado por meio de uma progressão que passa de uma etapa local a uma nacional e global. Os comunistas têm de encontrar maneiras de incorporar os movimentos locais e particulares, direcionando-os para algum tipo de objetivo comum. Mas também existe uma leitura mais mecanicista que vê a eliminação automática de diferenças nacionais através do avanço burguês, da des-localização e des-nacionalização de populações operárias e portanto das suas aspirações e movimentos. Os comunistas, em seguida, têm que se preparar para apressar o final desta revolução burguesa. Têm que educar os trabalhadores acerca da verdadeira natureza da sua situação e organizar seu potencial revolucionário. Tal leitura mecanicista é, do meu ponto de vista, errada, embora o Manifesto tenha um argumento bastante forte a favor dela.
A dificuldade central aqui se encontra na presunção que a indústria capitalista e a mercantilização vão levar à homogeneização da população trabalhadora. Em certo sentido isto é verdade, mas não consideram como o capitalismo simultaneamente se diferencia, às vezes se alimentando de antigas diferenças culturais, relações de gênero, predileções étnicas e crenças religiosas. O capitalismo faz isto em parte através de estratégias burguesas de divisão e controle, mas também converte a escolha de mercado num mecanismo para a diferenciação de grupos. O resultado é a implantação de divisões de gênero e classe, juntamente com muitas outras divisões sociais, na paisagem geográfica do capitalismo. Divisões como as que existem entre cidades e subúrbios, entre regiões e entre nações não podem ser compreendidas como resíduos de alguma ordem cultural antiga.
Não são automaticamente descartáveis. São produzidas ativamente por meio dos poderes diferenciadores da acumulação de capital e das estruturas de mercado. Lealdades ligadas a lugares proliferam e, em alguns aspectos, se fortalecem, em vez de se desintegrarem através dos mecanismos da luta de classes e através da atuação tanto do capital quanto do trabalho, cada um atuando a favor de si mesmo. A luta de classes facilmente se dissolve em uma série de interesses comunitários geograficamente fragmentados, facilmente cooptados ou explorados pelos mecanismos da penetração neoliberal do mercado.
Existe no Manifesto uma subestimação potencialmente perigosa da capacidade do capital para fragmentar, dividir e diferenciar, absorver, transformar e até exacerbar divisões culturais antigas, produzir diferenciações espaciais e mobilizar geopoliticamente. Do mesmo modo, há uma subestimação de como o movimento operário mobiliza através de formas territoriais de organização, construindo, no caminho, lealdades ligadas a lugares. A dialética da comunidade e da diferença não está desenvolvida do modo implicado no esboço fornecido pelo Manifesto, embora sua lógica subjacente e sua tendência à articulação estejam corretas.
As condições para que os trabalhadores se unam globalmente através da luta de classes não tem diminuído. O Banco Mundial avalia que a força de trabalho global dobrou em tamanho entre 1966 e 1995. Hoje ela é estimada em 2,5 bilhões de homens e mulheres e mais de um bilhão de indivíduos vivem de um dólar ou menos por dia. Em muitos países, “os trabalhadores não têm representação e trabalham em condições insalubres, perigosas ou humilhantes. Ao mesmo tempo, 120 milhões ou mais estão desempregados e mais alguns milhões já desistiram de procurar emprego”. Isto existe em uma época de crescimento acelerado dos níveis médios de produtividade (que também parecem ter dobrado, em escala mundial, desde 1965) e do comércio mundial, alimentado por reduções nos custos de transporte e uma onda de liberalização comercial. Como consequência, afirma a OIT:
“o número de trabalhadores empregados em indústrias que operam com exportações e importações tem crescido de maneira significativa. Pode-se dizer que os mercados de trabalho no mundo inteiro estão se tornando mais interligados. Alguns observadores vêem nestes acontecimentos a emergência de um mercado global de trabalho, onde o mundo tem se tornado uma enorme feira com nações competindo pela venda de suas forças de trabalho, oferecendo-as ao menor preço possível. A preocupação central é que a intensificação da concorrência global vai gerar pressões para baixar salários e padrões de trabalho no mundo inteiro”.
Movimentos massivos rumo à constituição de uma força global de trabalho também têm ocorrido (por exemplo na China, Indonésia e Bangladesh). Cidades como Jakarta, Bangkok e Bombaim têm se tornado polos de formação duma classe operária transnacionalizada — com elevada composição feminina — sob condições de pobreza, violência, poluição e repressão feroz.
Do mesmo modo, a desigualdade está fora de controle. O Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas informa que, “entre 1960 e 1991, a parte da renda global detida pelos 20% mais ricos da população cresceu de 70% para 85%, enquanto a dos mais pobres diminuiu de 2,3% para 1,4%”.
Até 1991, “mais de 85% da população do mundo recebia apenas 15% da renda” e “o valor possuído pelas 358 pessoas mais ricas, os bilionários em dólares, é igual à renda combinada dos 45% mais pobres da população mundial — 2,3 bilhões de pessoas”. Esta polarização de riqueza e poder é tão obscena quanto surpreendente:
“A Indonésia, em nome do sistema de mercado livre, promove as violações mais flagrantes dos direitos humanos e mina o direito à subsistência de quem a vantagem competitiva do país depende”.
Muitas multinacionais estão subcontratando aqui: Levi Strauss, Nike, Reebok. Muitas subcontratadoras pertencem a coreanos. Todas tendem a exercer uma administração brutal e pagar salários baixos. Nike e Levi estipulam um código de conduta como critério de investimento, mas, na realidade, sempre procuram obter o menor custo de produção. Alguns subcontratadores saem de Jakarta para cidades menores, onde os trabalhadores tem ainda menor capacidade de se articularem para melhorar suas condições de vida”.
Em O capital, Marx conta a estória de uma trabalhadora, Mary Anne Walkely, com vinte anos de idade, que muitas vezes trabalhava 30 horas sem parar (embora ressuscitada de vez em quando por xerez, porto ou café) até que, depois de um esforço particularmente duro requerido pela preparação de “vestidos maravilhosos para as senhoras nobres convidadas ao baile em honra ao novo Príncipe de Gales,” morreu, segundo o depoimento de um médico, “de longas horas de trabalho numa oficina superlotada e um quarto pequeno demais e mal ventilado”. Compare-se isso com a descrição contemporânea das condições de trabalho nas fábricas de Nike, no Vietnã:
“[O Sr. Nguyen] constatou que o tratamento dos operários pela administração da fábrica no Vietnã [normalmente cidadãos da Coréia ou Taiwan] é uma ‘fonte constante de humilhação’, que o abuso verbal e o assédio sexual acontecem com freqüência e que a ‘punição corporal’ também é freqüente. Ele descobriu que quantidades extremas de trabalho extraordinário são impostas aos trabalhadores vietnamitas. O Sr. Nguyen escreveu em seu relatório que ‘é comum’ que vários trabalhadores desmaiem de esgotamento, calor e má nutrição durante o turno. Fomos informados de que vários trabalhadores até tossiram sangue antes de desmaiar”.
As condições materiais que motivaram o ultraje moral no Manifesto não desapareceram. Estão personificadas em tudo, nos tênis Nike, nos produtos de Disney, nas roupas do GAP, nos produtos de Liz Claiborne. O contexto básico do Manifesto, portanto, não tem mudado radicalmente. O proletariado global é maior do que nunca. A necessidade de os trabalhadores se unirem é maior do que nunca. Mas as barreiras à unidade são muito mais formidáveis do que eram no já complicado contexto Europeu de 1848. A força de trabalho é hoje muito mais espalhada geograficamente, culturalmente heterogênea, etnicamente e religiosamente diversificada, racialmente estratificada e linguisticamente fragmentada. Os modos de resistência ao capitalismo e a definição de alternativas são muito diferentes.
E, embora seja verdade que os meios de comunicação e as oportunidades de tradução tenham melhorado muito, isto tem pouco significado para o bilhão ou mais de trabalhadores que vivem com menos de um dólar por dia, possuindo histórias culturais, literaturas e compreensões muito diferenciadas (comparados aos banqueiros internacionais e às multinacionais, que sempre os usam). Diferenças (tanto geográficas como sociais) em salários e cláusulas sociais dentro da classe operária global também são maiores do que nunca. A brecha política e econômica entre os trabalhadores mais ricos na, por exemplo, Alemanha e Estados Unidos, e os trabalhadores mais pobres, na Indonésia e Mali, é muito maior do que a brecha entre a assim chamada aristocracia do trabalho européia e suas contrapartidas não qualificadas no século dezenove. Isto significa que certo segmento da classe operária (na maior parte, mas não exclusivamente, dos países capitalistas avançados e que, muitas vezes, possuem uma voz politicamente mais forte) tem muito a perder além dos seus grilhões. E, embora as mulheres sempre tenham sido um componente importante da força de trabalho nos primeiros anos do desenvolvimento capitalista, sua participação tem se generalizado, ao mesmo tempo em que se concentra em certas categorias ocupacionais (normalmente chamadas “não-qualificadas”), de modo a gerar questões agudas sobre a política operária que com grande freqüência foram varridas, no passado, para baixo do tapete. Junto a tudo isto as problemáticas da urbanização massiva, os transtornos ecológicos graves, os movimentos migratórios transnacionais e o terreno para a construção de uma alternativa socialista aparece tão diferenciado e desigual como complicado.
O movimento socialista precisa compreender estas transformações geográficas extraordinárias e desenvolver táticas para lidar com elas. Isto não dilui a importância da palavra de ordem final do Manifesto (união dos proletários). As condições que hoje enfrentamos fazem esse chamado mais imperativo do que nunca. Mas não podemos fazer nem nossa história nem nossa geografia sob condições histórico-geográficas de nossa própria escolha.
Uma leitura geográfica do Manifesto enfatiza a não-neutralidade das estruturas e poderes espaciais na complexa dinâmica espacial da luta de classes. Revela como a burguesia adquiriu seus poderes vis-à-vis de todos os modos precedentes de produção, mobilizando o comando sobre o espaço como uma força produtiva peculiar a ela mesma. Mostra como a burguesia tem aumentado e protegido continuamente seu poder através desse mesmo mecanismo. Portanto, até que a classe operária aprenda como enfrentar esse poder burguês de comandar e produzir espaço, sempre vai jogar em uma posição de fraqueza não de força. Do mesmo modo, até esse movimento compreender as condições e diversidades geográficas de sua própria existência, vai ser incapaz de definir, articular e lutar por uma alternativa socialista realística à dominação capitalista.


*David Harvey é um dos marxistas mais influentes da atualidade, reconhecido internacionalmente por seu trabalho de vanguarda na análise geográfica das dinâmicas do capital. É professor de antropologia da pós-graduação da Universidade da Cidade de Nova York (The City University of New York – Cuny) na qual leciona desde 2001. Foi também professor de geografia nas universidades Johns Hopkins e Oxford. Seu livro Condição pós-moderna (Loyola, 1992) foi apontado pelo Independent como um dos 50 trabalhos mais importantes de não ficção publicados desde a Segunda Guerra Mundial. Seus livros mais recentes são O enigma do capital e Para entender O capital, livro I.
** Publicado originalmente, em português, na revista Lutas Sociais, do Neils-PUC.